Programa - Comunicação Oral Curta - COC8.3 - Território, ambiente e vigilância em saúde
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
A IMPORTÂNCIA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS COMO RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA NO ENFRENTAMENTO ÀS ARBOVIROSES
Comunicação Oral Curta
1 Instituto René Rachou / Fiocruz Minas Gerais
Apresentação/Introdução
Este trabalho apresenta resultados parciais de uma pesquisa de doutorado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Fundação Oswaldo Cruz Minas Gerais (Fiocruz Minas).
No Brasil, arboviroses como dengue, zika e chikungunya constituem importantes problemas de saúde pública, cuja expansão está associada ao crescimento urbano desordenado, à precariedade do saneamento básico, às mudanças climáticas e às desigualdades socioambientais. Apesar disso, as estratégias de enfrentamento ainda se concentram, em grande medida, no controle do vetor e na responsabilização individual, desconsiderando determinantes estruturais que favorecem a proliferação do Aedes aegypti.
Nesse contexto, em 2016, o Grupo de Pesquisa Saúde, Educação e Cidadania (SEC) da Fiocruz Minas desenvolveu a proposta de vigilância em saúde de base territorial, “Vamo Junto? Enfrentando a dengue, zika e chikungunya”, voltada à vigilância em saúde de base territorial e ao fortalecimento da mobilização social.
A iniciativa visa ampliar a participação comunitária por meio da criação de Comitês Populares, responsáveis por identificar problemas e construir estratégias de intervenção nos territórios. Como suporte, utiliza-se uma plataforma online que facilita a comunicação entre participantes e pesquisadores. A metodologia inclui a elaboração de um Diagnóstico Territorial para identificar potencialidades e desafios locais, subsidiando um Plano de Ação voltado à promoção da saúde e ao enfrentamento das arboviroses.
O Comitê Popular do bairro Duque de Caxias (CPBDC) foi criado em 2019, a partir do interesse de moradores em discutir melhorias para o território. O grupo reúne nove participantes com forte inserção comunitária. Entre os fatores que motivaram a organização do comitê destacam-se o deslizamento de terra ocorrido no bairro em 2019 e os elevados índices de dengue no bairro.
Com a realização do diagnóstico foi evidenciado que a gestão inadequada dos resíduos é um dos principais desafios do território. A presença de resíduos em vias públicas, lotes vagos e cursos d’água favorece a proliferação de vetores e intensifica riscos ambientais e sanitários, refletindo processos estruturais ligados ao crescimento urbano desordenado e à desigualdade na oferta de serviços públicos.
Após décadas de debate, foi instituída em 2010 a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), por meio da Lei nº 12.305/2010, que estabelece princípios para a gestão adequada dos resíduos, com destaque para a responsabilidade compartilhada. No âmbito municipal, a PNRS prevê os Planos Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS), que articulam saúde pública, proteção ambiental e participação social. Em Betim, o plano apresenta diretrizes que dialogam com as demandas do Comitê Popular.
Objetivos
Analisar a atuação do CPBDC, com foco nas ações relacionadas à gestão de resíduos, visando mitigar riscos à saúde pública, especialmente quanto às arboviroses.
Metodologia
A pesquisa utiliza o método da pesquisa-ação. Os dados primários foram produzidos por meio de observação participante nas atividades do comitê. Os dados secundários foram obtidos por análise documental e bibliográfica.
Resultados e Discussão
A elaboração do diagnóstico territorial possibilitou reflexão crítica sobre os fatores que ameaçam a saúde no território e estimulou um processo de mobilização por meio do Plano de Ação. A análise mostrou que a gestão inadequada dos resíduos não se restringe a falhas pontuais ou a comportamentos individuais, mas expressa problemas estruturais ligados à desigualdade na infraestrutura urbana e à descontinuidade de políticas públicas de saneamento. Nesse contexto, o “lixo” passa a ser compreendido como expressão de injustiças socioambientais e da produção desigual de riscos à saúde, especialmente em relação às arboviroses. A experiência evidencia a importância de instrumentos institucionais como o PMGIRS, entendido como ferramenta jurídica e política que pode ser acionada pela comunidade.
Conclusões/Considerações Finais
A atuação do CPBDC, ao analisar o território e promover planejamento, diálogo e articulação com instituições municipais, pode fortalecer sua incidência política e a construção de ações junto ao poder público. Esse processo evidencia que a efetivação das leis depende da participação social, da mobilização comunitária e do controle social, destacando também a importância da gestão compartilhada dos resíduos.
A VISITA DOMICILIAR NA ATENÇÃO PRIMÁRIA COMO CENÁRIO FORMATIVO EM SAÚDE E AMBIENTE: RELATO DE EXPERIÊNCIA COM ESTUDANTES DE MEDICINA
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Nilton Lins
Contextualização
A Atenção Primária à Saúde (APS) é considerada como um espaço propício para aprendizagem e formação de novos médicos, pois permite que os discentes participem ativamente de experiências reais e saibam lidar com as diferentes variantes socioeconômicas e culturais nos territórios. O Agente Comunitário de Saúde (ACS) é um pilar imprescindível na APS, já que ele estabelece um elo fundamental entre a comunidade e os serviços de saúde.
Descrição
A formação médica no Brasil tem passado por constantes transformações nas últimas décadas, com o objetivo de construir uma nova concepção acerca da Medicina e do percurso formativo que deve orientá-la. As novas propostas inserem o estudante de medicina em contextos sociais, a fim de fortalecer a participação ativa e uma formação mais humanizada.
Período de Realização
Dentro do período de fevereiro a maio de 2025, os alunos acompanharam visitas realizadas por ACS no bairro Lírio do Vale, zona oeste da cidade de Manaus/Amazonas.
Objetivo
Descrever a experiência de acadêmicos de medicina durante o acompanhamento de visitas domiciliares realizadas pelos ACS no cenário da APS, com destaque para a contribuição desse cenário na compreensão dos determinantes e condicionantes socioambientais e do cuidado em saúde no território.
Resultados
Através das visitas, acompanhados pelos ACS, os discentes puderam conhecer a realidade do território adscrito da unidade de saúde da família, as condições de vida e saúde e os desafios socioeconômicos e ambientais enfrentados pela população. Nos domicílios visitados, observou-se a vulnerabilidade intrínseca a essas famílias, visto que todas as residências possuíam condições de vida precárias e no âmbito da saúde, há problemas comuns como doenças infecciosas, hipertensão, diabetes e doenças respiratórias, além de questões ligadas à nutrição. Observando a predominância de famílias de baixa renda e doenças ligadas ao saneamneto básico. Além disso, o território visitado possui elementos característicos de crescimento desordenado e sem planejamento, como ruas muito acidentadas, com inúmeros declives e expressivas invasões. Nesse sentido, destaca-se que a população tem como uma característica relevante as moradias multigeracionais, indivíduos vivendo em aglomerados, o que facilita a transmissão direta de pessoa para pessoa de doenças infecciosas e transmissíveis. É relevante trazer o serviço do Agente Comunitário de Saúde como peça fundamental nessa localidade, visto que ele possui vínvculo com os usuários, auliando no esclarecimento de dúvidas e marcação de consultas, atuando de forma mais integrada, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida destes e na efetivação dos princípios do Sistema Único de Saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
A vivência durante as visitas domiciliares possibilitou ao estudante de medicina a compreensão e o conhecimento das questões sociais e culturais de um determinado contexto. Além disso, foi possível reconhecer como a influência dos riscos ambientais, a exemplo a falta de saneamento básico e infraestrutura urbana, podem interferir nas condições de vida e saúde da população. Assim, a experiência permitiu uma nova visão, no que diz respeito aos determinantes e condicionantes da saúde relacionados ao saneamento básico, moradia e o impacto dos mesmos no processo saúde-doença, especialmente, relacionado ao desenvolvimento de comorbidades. Ademais, contribuiu diretamente na abordagem centrada na pessoa e uma assistência com escuta qualificada, permitindo um cuidado integral, humanizado e alinhado às realidades do território. Dessa forma, a inserção precoce dos estudantes na realidade da APS favorece a ampliação do olhar sobre as necessidades em saúde da comunidade, contribuindo para a formação de futuros médicos mais preparados, a fim de ofertar uma assistência integral, humanizada, resolutiva e contextualizada com o território.
CORRELAÇÃO ENTRE DENGUE E VARIÁVEIS METEOROLÓGICAS
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Estadual de Feira de Santana
Apresentação/Introdução
A dengue configura-se como uma das principais doenças negligenciadas no Brasil, com forte incidência no Estado da Bahia, onde sua dinâmica de transmissão está profundamente associada aos determinantes ambientais e sociais da saúde. A Bahia está numa região tropical marcada por elevadas temperaturas, sazonalidade das chuvas e condições ambientais favoráveis à proliferação do vetor. Para além das questões ambientais torna-se central para compreender como as condições meteorológicas interferem nas condições de vida. Assim, os desafios do século XXI envolvem não apenas o controle epidemiológico, mas também a construção de estratégias socioambientais integradas e territorializadas.
Objetivos
Estudar os níveis de correlação cruzada da ocorrência de dengue no Estado da Bahia com variáveis meteorológicas (Temperatura, Umidade relativa do ar e Precipitação).
Metodologia
A análise de correlação cruzada foi realizada por meio do método DCCA, utilizando o coeficiente ρ_DCCA . Foram empregadas séries temporais com dados diários provenientes do DataSUS (Ministério da Saúde) e do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), distribuídas ao longo do território baiano, considerando uma análise a partir dos lag de 30, 90, 180 e 365 dias.
Resultados e Discussão
A análise da correlação a ocorrência de dengue e os pares de variáveis climáticas revela uma dinâmica de dependência temporal distinta para cada defasagem analisada. Em τ = 0, as correlações são iniciais e aumentam gradualmente com a escala, indicando que as condições climáticas simultâneas ao registro de casos ainda não completaram o ciclo biológico necessário para apresentar associação com a transmissão. Na defasagem, τ = 30, observa-se um salto expressivo na magnitude dos coeficientes, especialmente na interação entre temperatura e umidade relativa do ar, o que sinaliza associação do tempo de maturação do vetor e o período de incubação viral. Para τ = 90 dias, os valores de ρ_DCCA atingem seu patamar máximo, caracterizando um intervalo de resposta cujo acúmulo das interações entre os fatores ambientais favoreceram ao longo de um trimestre máxima da ocorrência da doença. Para τ = 180 as correlações permanecem altas com picos mais suavizados, indicando um efeito de memória de médio prazo, por outro lado, a inclinação da curva após esses picos sugere a presença de outros fatores, como intervenções de controle vetorial. Por fim, para τ = 365, a correlação reflete a sazonalidade anual, apresentando maior dispersão e menor consistência, o que sugere que, em horizontes de longo prazo, a estabilidade preditiva do clima é influenciada por variáveis não ambientais. Em termos geria as correlações mostram que a combinação Temperatura e Umidade relativa do ar parece ser o gatilho mais forte para escalas de curto e médio prazo. Nas escalas de 30 e 90 dias as correlações sugerem um intervalo suficiente para que as condições climáticas influenciem o desenvolvimento do mosquito-vetor, aumentando a probabilidade de transmissão da doença. Esse resultado indica que os efeitos climáticos se acumulam ao longo do tempo, que potencialmente fortalecem a prevalência da doença e da sua associação na dinâmica de transmissão. Trata-se de um indicativo importante, que estuda a persistência da intensidade dos casos dengue ao longo do tempo em associação as condições ambientais.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados confirmam que a dengue é um fenômeno sensível ao clima, com uma janela de resposta crítica situada entre 30 e 90 dias, onde a sinergia entre temperatura e umidade relativa do ar atua como importantes motores epidemiológico. Embora o caráter multifatorial da doença, que envolve determinantes sociais e urbanos, a identificação desses intervalos de resposta oferece subsídios fundamentais para a gestão pública. Logo, o monitoramento de anomalias climáticas pode servir como um sistema de alerta precoce robusto, antecipadas a surtos, além de estabelecer o direcionamento estratégico de ações e medidas preventivas com meses de antecedência em localidades potencialmente vulneráveis.
O CAMPO DE PESQUISA EM SAÚDE BUCAL COMO TERRITÓRIO VIVO: UMA ANÁLISE CONTEXTUAL A PARTIR DOS DETERMINANTES SOCIAIS DA SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 ILMD - Fiocruz Amazônia
2 UFAM
Contextualização
O trabalho de campo em saúde coletiva ultrapassa a função de produzir dados, constituindo-se também como espaço de problematização ética, epistemológica e política. Em territórios marcados por desigualdades sociais, a experiência empírica tensiona a prévia formulação de hipóteses e evidencia a insuficiência de leituras estritamente normativas sobre os processos saúde-doença. À luz do modelo dos Determinantes Sociais da Saúde, a inserção em campo permite reconhecer como condições de vida, escolarização, trabalho, mobilidade urbana, acesso a serviços e literacia em saúde atravessam tanto os desfechos investigados quanto a própria operacionalização da pesquisa. Nesse sentido, a vivência em campo pode produzir deslocamentos analíticos importantes, ampliando a sensibilidade dos pesquisadores para dimensões subjetivas e estruturais dos territórios.
Descrição
Trata-se de um relato analítico, de natureza reflexiva, construído a partir da experiência de coleta de dados do estudo longitudinal “Saúde bucal, comportamentos relacionados à saúde, fatores psicossociais e desempenho escolar em adolescentes de 12 anos em Manaus – Amazonas”, vinculado à Universidade Federal do Amazonas, em parceria com a Fiocruz Amazônia. A pesquisa envolve exames clínicos bucais e aplicação de questionários em escolares de 12 anos matriculados em escolas públicas de diferentes zonas de Manaus. A análise foi orientada pelo referencial dos Determinantes Sociais da Saúde, buscando interpretar criticamente situações observadas in loco durante a execução do estudo, especialmente aquelas relacionadas às iniquidades sociais, às fragilidades institucionais e aos efeitos dessas condições sobre o cuidado, a participação em pesquisa e a produção do conhecimento.
Período de Realização
A experiência analisada refere-se ao período de desenvolvimento da pesquisa de campo iniciado em abril de 2024, com observações acumuladas ao longo do primeiro e do segundo ano de coleta de dados em escolas públicas de Manaus, Amazonas.
Objetivo
Analisar criticamente as situações observadas durante o trabalho de campo de uma pesquisa em saúde bucal coletiva, discutindo de que modo os Determinantes Sociais da Saúde, as condições territoriais e as relações interpessoais estabelecidas no processo investigativo reconfiguram a compreensão dos pesquisadores sobre o objeto estudado, sobre os limites metodológicos da pesquisa e sobre as iniquidades vividas pela população escolar.
Resultados
A vivência de campo revelou que a participação dos escolares e de suas famílias não pode ser compreendida apenas sob a lógica individual da adesão ou recusa, pois é atravessada por fatores como sobrecarga laboral dos responsáveis, limitações de leitura, baixa compreensão sobre a relevância da investigação científica e dificuldades institucionais das próprias escolas. Também foram observadas heterogeneidades marcantes na organização do ensino público, incluindo ociosidade em sala de aula, ausência de professores, evasão escolar, episódios de bullying e presença de crianças com importantes limitações de leitura. Nos territórios visitados, especialmente em áreas periféricas, evidenciaram-se precariedades urbanas e sanitárias, além de barreiras econômicas que impediram parte das crianças com necessidade de tratamento de acessar a assistência odontológica gratuita oferecida pelo estudo, inclusive por falta de recursos para transporte. Outro achado relevante foi a baixa literacia em saúde bucal, particularmente sobre o papel do flúor na prevenção da cárie. No plano da equipe, o campo também expôs tensões, afetos, assimetrias de engajamento e processos progressivos de amadurecimento coletivo, culminando em maior coesão no segundo ano da pesquisa.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência demonstrou que o campo de pesquisa é um território vivo e o contato com desigualdades concretas favoreceu a revisão de pressupostos, a ampliação da escuta, o refinamento do olhar metodológico e a valorização do trabalho colaborativo. Evidenciou-se, ainda, que a formação científica em saúde coletiva se fortalece quando incorpora a capacidade de interpretar criticamente os contextos, reconhecer fragilidades do desenho de pesquisa e acolher a complexidade das interações humanas envolvidas na produção dos dados. Os achados reforçam que pesquisas realizadas em contextos de vulnerabilidade não devem tratar as dificuldades do campo como meros obstáculos operacionais, mas como expressões das próprias iniquidades que estruturam o objeto investigado. A recusa de escolas e famílias, a baixa literacia em saúde, as barreiras de acesso ao cuidado e a precariedade urbana não são eventos periféricos à pesquisa, mas sinais concretos de desigualdade social e fragilidade das políticas públicas. Assim, o campo não apenas coleta evidências: ele denuncia a distância entre o direito formal à saúde e sua realização concreta nos territórios. Reconhecer essa dimensão implica assumir que a produção do conhecimento em saúde bucal coletiva deve ser epistemologicamente sensível e politicamente comprometida com a realidade social.
IMPACTOS DA VIOLÊNCIA ARMADA EM INSTITUIÇÕES PÚBLICAS: REFLEXÕES A PARTIR DO CASO DA FIOCRUZ RIO DE JANEIRO
Comunicação Oral Curta
1 Ensp/Fiocruz
2 IOC/Fiocruz
3 PIVS/Fiocruz
Apresentação/Introdução
Os impactos da violência armada em instituições públicas têm se tornado um tema cada vez mais presente nos debates sobre violência e saúde. A partir dos resultados preliminares de um estudo de caso realizado na Fiocruz Rio de Janeiro propomos uma reflexão interseccional sobre este fenômeno, compreendendo a Fiocruz como um microcosmo de uma situação ampla e complexa cujo debate é urgente.
Objetivos
Visibilizar como a violência armada afeta a Fiocruz, mostrando os impactos na saúde de seus frequentadores e nos serviços que oferece à população: atendimentos em saúde, ensino e visitação. Busca-se também ampliar o debate sobre o tema na sociedade.
Metodologia
Estudo de caso no campus Manguinhos da Fundação Oswaldo Cruz, a partir de seu Programa Institucional de Violência e Saúde. Conta com as seguintes estratégias: Entrevistas com trabalhadores do ensino, saúde, segurança e visitação; Questionário online sobre os impactos da violência armada na saúde e no cotidiano do trabalho/estudo/visita à instituição e sobre estratégias de enfrentamento e prevenção adotadas.
Resultados e Discussão
Resultados preliminares mostram a preocupação com a permanência e naturalização da violência armada e as violações de direitos relacionadas. Destacam-se sobretudo os impactos na saúde mental. Também foram relatadas suspensão e adiamento de atividades e dificuldades de deslocamento pela cidade devido a episódios de violência armada. A Fiocruz tem criado estratégias para lidar com a situação: articulação com movimentos sociais dos territórios vizinhos aos campi; incidência política; práticas de acolhimento aos trabalhadores, estudantes e usuários em sofrimento e o desenvolvimento de estratégias de segurança, para minimizar os riscos relacionados.
Conclusões/Considerações Finais
O Campus sede da Fiocruz, no Rio de Janeiro, vive um cotidiano de violência armada junto às vizinhas favelas de Manguinhos e Maré. No entanto, sendo uma instituição pública, consegue desenvolver estratégias de proteção e minimizar os riscos desse fenômeno, buscando também construir formas de enfrentamento a essa questão de forma mais ampla, ampliando o debate e apoiando movimentos sociais na luta contra a violência armada.
O PROTAGONISMO DAS MULHERES MARISQUEIRAS DIANTE DA EMERGÊNCIA CLIMÁTICA NA ZONA COSTEIRA DO ESTADO DO PARÁ: UM ESTUDO ECOLÓGICO E DESCRITIVO EM SAÚDE, TRABALHO E AMBIENTE
Comunicação Oral Curta
1 UEPA/UFPA/UFRA
2 UFPA
3 UEPA
4 UFRA
5 UEPA/UFPA
Apresentação/Introdução
Atualmente a emergência climática global tem ocupado um grande espaço de importância no debate contemporâneo, sobretudo na área da saúde pública, devido à produção de iniquidades sociais. Neste contexto, as populações de mulheres marisqueiras, residentes na área costeira do estado do Pará, têm vivenciado os efeitos adversos da degradação dos manguezais. A importância desse ecossistema está relacionada ao fato de apresentar a maior área contínua do mundo e condições de reprodução de peixes, crustáceos e mariscos. Este ambiente fornece alimentos para essas populações tradicionais, com o estabelecimento de uma cadeia produtiva, cujo excedente é comercializado para garantir as suas condições de subsistência no sistema capitalista. Contudo, a emergência climática associada ao aumento do nível do mar e da pluviosidade tem produzido fatores de riscos laborais à saúde dessas populações.
Objetivos
Analisar a situação de saúde e seus fatores de riscos socioeconômicos, nas populações tradicionais de mulheres marisqueiras, nos municípios de Viseu, São João de Pirabas e Marapanim, no estado do Pará, de 2021 a 2025.
Metodologia
Neste estudo descritivo e ecológico, os dados epidemiológicos foram obtidos nas secretarias de saúde dos municípios estudados, os socioeconômicos e demográficos no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e através de entrevistas estruturadas, realizadas nas comunidades de Gurupi-Piriá, Croa Nova e Vista Alegre, localizadas nos municípios de estudo. Após a depuração dos dados, os mesmos foram georreferenciados em trabalhos de campo para a construção de um banco de dados geográfico. Na sequência, os mesmos foram processados com estatística espacial e descritiva. Os resultados foram expressos através de perfis epidemiológicos e mapas coropléticos.
Resultados e Discussão
Foram investigadas as populações de marisqueiras residentes nas três comunidades anteriormente mencionadas. Cada uma possuindo aproximadamente 220 famílias e 880 pessoas. As principais doenças e agravos identificados nas mulheres marisqueiras foram os acidentes com animais peçonhentos, doenças crônicas como artrose reumatoide, síndromes respiratórias, hipertensão, diabetes, uso excessivo de tabaco e álcool. Este cenário apresenta associação com a falta de utilização de Equipamentos de Proteção Individual contra insetos, execução de trabalho baseado em esforço físico repetitivo e não-ergonômico em ambiente úmido e alimentos pré-processados de baixo custo. Esta situação pode estar relacionada à falta de educação ambiental e em saúde, pois como essa população não é atingida por políticas públicas em saúde e ambiente, as mesmas desconhecem os fatores de risco para as doenças e agravos à sua condição de saúde. O fato da população estudada realizar múltiplas atividades aponta para o elevado nível de estresse laboral e emocional, com associação do consumo de álcool e drogas, comprometendo o seu equilíbrio psicológico.
Conclusões/Considerações Finais
Neste trabalho foi possível observar a conjunção de fatores de riscos laborais e ocorrência das doenças na população de mulheres marisqueiras investigada. Dado o exposto, ressaltamos a necessidade de ampliação de políticas públicas de saúde, nos municípios estudados.
REPARAÇÃO EM SAÚDE NO SUS MINEIRO: A CONSTRUÇÃO DO PLANO DE AÇÃO DO RIO DOCE
Comunicação Oral Curta
1 SES/MG
Contextualização
A ruptura da barragem de rejeitos de mineração em Mariana (MG), em 2015, produziu impactos socioambientais de grande magnitude na Bacia do Rio Doce, afetando diretamente as condições de vida, trabalho e saúde das populações atingidas. Para além dos danos ambientais, o desastre evidenciou e aprofundou desigualdades territoriais, impondo ao Sistema Único de Saúde (SUS) o desafio de responder a efeitos complexos, persistentes e de longa duração. Nesse cenário, a saúde coletiva assume papel central nos processos de reparação, demandando ações estruturadas, territorializadas e articuladas entre diferentes entes federativos.
Descrição
A experiência refere-se à construção do Plano de Ação em Saúde da Bacia do Rio Doce, coordenada pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES/MG), com ampla participação de municípios atingidos, áreas técnicas estaduais, instâncias interfederativas e atores envolvidos na agenda de reparação. O processo foi desenvolvido de forma coletiva e participativa, envolvendo reuniões técnicas, escuta qualificada dos territórios e análise de dados epidemiológicos e assistenciais. A SES/MG atuou como articuladora, promovendo a integração entre os níveis de gestão e buscando alinhar as demandas locais às diretrizes do SUS. Destaca-se o caráter dialógico do processo, com valorização das experiências locais e construção compartilhada das propostas.
Período de Realização
A elaboração do plano ocorreu no contexto recente de intensificação das ações de reparação em saúde na Bacia do Rio Doce, especialmente ao longo do ano de 2025 e início de 2026, acompanhando o amadurecimento das instâncias de governança interfederativa e a necessidade de consolidação de estratégias estruturadas para o enfrentamento dos impactos do desastre.
Objetivo
Organizar e orientar as ações de saúde nos territórios atingidos pelo desastre, estruturando diretrizes, eixos estratégicos e propostas de intervenção voltadas à reparação em saúde, ao fortalecimento da rede assistencial, à qualificação da vigilância em saúde e à promoção de maior coerência entre as necessidades da população e as respostas institucionais do SUS.
Resultados
Como principais resultados, destacam-se a construção de um diagnóstico regional ampliado, a definição de eixos prioritários de atuação e a sistematização de ações voltadas à atenção, vigilância e gestão em saúde. O processo fortaleceu a governança interfederativa, promovendo maior alinhamento entre Estado e municípios, além de consolidar uma agenda específica de saúde para os territórios atingidos. Observou-se avanço na integração entre vigilância e atenção à saúde, bem como na incorporação das demandas territoriais no planejamento regional. O plano também contribuiu para dar visibilidade institucional às necessidades das populações afetadas e orientar a alocação de esforços e recursos no âmbito do SUS.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a importância da construção coletiva e da participação dos territórios como elementos centrais para a formulação de respostas efetivas em contextos de desastre. Destaca-se o papel estratégico da coordenação estadual na articulação interfederativa e na indução de processos de planejamento regional. Como aprendizados, ressalta-se a necessidade de integração entre diferentes áreas da saúde, a valorização do conhecimento local e a centralidade do SUS como sistema público capaz de responder a situações complexas. Por outro lado, persistem desafios relacionados à continuidade das ações, ao monitoramento das intervenções e à limitação de instrumentos institucionais para lidar com desastres de longa duração. O caráter reparador das ações em saúde exige abordagens que considerem não apenas aspectos técnicos, mas também dimensões sociais, territoriais e culturais do cuidado. Nesse sentido, o plano representa um esforço institucional voltado à promoção da equidade e à garantia do direito à saúde das populações atingidas.
VIGILÂNCIA EM SAÚDE DE AGRAVOS E DOENÇAS NEGLIGENCIADAS NO CONTEXTO DA SAÚDE INDÍGENA
Comunicação Oral Curta
1 Distrito Sanitário Especial Indígena Bahia
Contextualização
Populações em contexto de direitos sociais não efetivados em plenitude, como é caso da população indígena, possuem vulnerabilidades sociais que potencializam negligencias no processo de saúde-doença-cuidado. Esse cenário de desvantagens sociais, repercute em indicadores epidemiológicos com altas taxas de morbimortalidade, hospitalização, e em doenças determinadas socialmente, as quais continuam sendo grande desafio para a gestão e o planejamento em saúde. Nesse sentido, a criação do programa Brasil Saudável, em 2023, traz à discussão a necessidade de que o enfrentamento desses agravos, ocorra a partir de ações intersetoriais. Tuberculose, hanseníase, zoonoses, doenças transmitidas por vetores, aquelas relacionadas ao saneamento básico e abastecimento de água inadequados são exemplos de doenças determinadas socialmente.
Descrição
A vigilância epidemiológica é necessária para definição de sua magnitude nas populações e direcionar a assistência de saúde. É neste contexto que se desenvolve o relato de experiência de uma Enfermeira que atua como referência técnica para vigilância de doenças e agravos negligenciados no contexto da população indígena.
Período de Realização
O período compreendeu os meses de outubro de 2024 a fevereiro de 2026, na cidade de Salvador, sede do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Bahia.
Objetivo
O objetivo desse relato é descrever as ações de vigilância epidemiológica de doenças e agravos negligenciados no âmbito da saúde indígena no estado da Bahia e elencar os desafios encontrados.
Resultados
As ações da vigilância epidemiológica de doenças e agravos negligenciados tem por objetivo monitorar a existência dos agravos na população indígena atendida pelas Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígenas (EMSI) da Bahia. Ocorreram de forma centralizada, a partir de Salvador, através de relatórios extraídos do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (SIASI), da Plataforma de Emergências em Saúde Indígena, Sistema Nacional de Agravos de Notificação (SINAN) e, eventualmente, de planilhas paralelas e contato telefônico com profissionais assistentes e gestores. Em conjunto ao núcleo de vigilância epidemiológica do distrito, instituiu-se fluxo de informação, a fim de que os dados fossem acessados de forma mais oportuna e por todas as instâncias envolvidas no processo de vigilância. Semanalmente, tais notificações foram avaliadas quanto à regularidade de envio e as fichas quanto à sua completitude, tendo sido cada Polo Base de Saúde Indígena notificado sobre a necessidade de complementação de informações. Aspectos assistenciais foram verificados junto às EMSI que realizaram diagnósticos e notificações, bem como verificação de dificuldade de acesso a serviços diagnósticos e tratamento. Alguns desafios foram evidenciados tais como: a fragilidade dos registros de casos identificados e de fluxo consistente de informações, as especificidades das ações de vigilância epidemiológica de agravos negligenciados e a cultura sócio-organizacional da atenção à saúde indígena. Entretanto, a construção de vínculos e processos de trabalhos consistentes e documentados, a compreensão da importância e fortalecimento das relações interpessoais e interinstitucionais, bem como o aprimoramento de conhecimentos técnicos, através de processos de educação continuada promovidos para os profissionais das EMSI, além de apropriação de abordagem decolonial, foram estratégias utilizadas durante a execução do trabalho de gestão e fortalecimento da vigilância em saúde pela enfermeira responsável técnica.
Aprendizado e Análise Crítica
Observou-se que a partir dessas estratégias implementadas, a vinculação e segurança tornou oportuno o fluxo de informações entre a referência técnica e profissionais que atuam no território, trabalhando colaborativamente. Tal fato impactou positivamente na detecção e notificação precoce de casos, aumento da suspeição diagnóstica, melhoria dos registros de doenças negligenciadas, realização de ações educativas junto às comunidades e o fortalecimento de vínculos e parcerias. A manutenção da vigilância sobre agravos negligenciados requer capacidade de reinvenção da abordagem destes agravos nos territórios. Uma direção de grande potencial é a abordagem “Uma Só Saúde”, que compreende a interface saúde humana, animal, vegetal e ambiental. A vigilância de base comunitária, componente estratégico e essencial de tal abordagem, constitui-se primordial para o fortalecimento das ações direcionadas às doenças e agravos negligenciados, empoderando as comunidades indígenas atendidas. O que corrobora com a perspectiva de José Ricardo Ayres que supera as noções de grupos de riscos, compreendendo necessárias ações programáticas para superar vulnerabilidades sociais, políticas públicas que reduzam as iniquidades em saúde à ações equânimes que potencializem as capacidades individuais e coletivas de populações historicamente marcada por estigmas e injustiça social. O que repercute em equilíbrio do cenário epidemiológico da saúde e fortalecimento do movimento social deste grupo.
TERRITÓRIOS ENTRELAÇADOS NO MUNICÍPIO DE BARRA DO CHOÇA: UMA ANÁLISE DO PROCESSO SAÚDE/DOENÇA A PARTIR DA DUPLA ECOLÓGICA HOSPEIRO X MEIO AMBIENTE.
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
2 UESB
Apresentação/Introdução
O território constitui importante ferramenta na construção das práticas de saúde, não podendo ser compreendido apenas enquanto espaço geográfico, mas, enquanto lócus de produção da saúde e da doença, de tal modo que a forma como a população se organiza e se estabelece, diante das condições de moradia, saneamento básico e sua relação social, influenciam o seu bem-estar.
Através da dupla ecológica hospedeiro versus meio ambiente é possível compreender a ocorrência e dinâmica de diversas doenças. Fatores ambientais e climáticos, como a qualidade do ar, o desmatamento desordenado e a urbanização, têm afetado constantemente a saúde humana, aumentando o risco de doenças infecciosas, respiratórias e de zoonoses. A territorialização nesse processo constitui o fortalecimento de vínculos entre os serviços de saúde e a população, permitindo promover ações fundamentadas nas evidências locais.
Objetivos
Analisar o processo saúde-doença na perspectiva ecológica, tendo o modelo da dupla ecológica: hospedeiro versus meio ambiente, como referencial para a apreensão das relações ecológicas e epidemiológicas entre saúde e meio ambiente.
Metodologia
Trata-se de um estudo que buscou interpretar o fenômeno em questão, assumindo que há fatos e valores que se relacionam com o processo saúde-doença. Quanto à natureza, constituiu-se em uma pesquisa qualitativa, quantitativa, exploratória e descritiva.
O estudo foi desenvolvido no município de Barra do Choça – Ba, abrangendo o território da zona urbana e da zona rural, onde a produção dos dados deu-se a partir de entrevistas semiestruturadas com moradores e observação do território.
Resultados e Discussão
O resultado da pesquisa revelou que o ambiente externo influencia diretamente a saúde da população, onde os sujeitos envolvidos neste estudo expuseram a vivência em um território com determinantes socioambientais que impactam diretamente a condição de saúde dessa população.
A partir dos fatores relatados pelos entrevistados, observou-se diversos determinantes nas condições de saúde/doença da população do município. Ficou evidenciado ao ser analisado o percentual de pessoas que possuem água encanada, que uma importante parcela da população da Zona Rural não usufrui desse mecanismo que configura importante meio para o consumo de uma água de qualidade e com padrão de potabilidade que não ofereça riscos à saúde.
Outro fator importante analisado, foi o percentual de rede de esgoto, sendo observado que mais da metade da população da zona rural não tem acesso a fossa séptica, realidade que se configura em um município endêmico para a Esquistossomose. Nesse contexto, segundo Rouquayrol (2003, pag.24) o hábito de defecar na superfície do solo, em proximidades de mananciais, é um traço cultural ainda presente em populações rurais, e configuram características pré-patogênicas, sendo um dos fatores contribuintes da Esquistossomose.
Quando perguntados sobre a prevalência de doenças respiratórias, foi identificado que há o aumento dessas patologias em especial na área urbana, destacando entre essas, a Asma.
É evidenciado pela pesquisa que essa realidade é um reflexo de condições sociais desiguais, e se reverberam pela ausência de políticas de infraestrutura e de saúde eficazes. É necessário que o território seja visto pelo viés da territorialização e conduzido por ações estratégicas práticas de transformações dessas vulnerabilidades da população.
Conclusões/Considerações Finais
Infere-se a compreensão do quanto o ambiente influenciado pela ação humana tem afetado o processo saúde/doença ao introduzir os riscos inerentes aos determinantes socioambientais, bem como, essas modificações tem aumentado a incidência de doenças respiratórias, doenças de caráter infecciosas como a dengue, eventos climáticos extremos como ondas de calor e inundações, áreas com saneamento básico inadequado e o acumulo de lixo favorecendo o criadouro de doenças e permitindo que as desigualdades se intensifiquem.
Este estudo reforça que a saúde é o resultado de um equilíbrio entre o hospedeiro e o seu entorno, onde há a necessidade de romper com as intervenções isoladas no individuo pois se traduzem como paliativas se os fatores como saneamento, habitação e clima permanecerem negligenciados.
As necessidades em saúde se constituem complexas, por isso, exigem ações programáticas voltadas para a prática reflexiva individual e coletiva sobre as experiências e dificuldades encontradas no meio ambiente, assim como políticas públicas de saúde que garantam a resiliência da população frente aos desafios epidemiológicos atuais.
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