Programa - Comunicação Oral - CO29.5 - Concreto, asfalto, corpo e cidade: Territórios, Vidas e Resistências
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ALIMENTAÇÃO, CORPORALIDADE E ESTIGMA NAS RUAS: INTERSECCIONALIDADE E CUIDADO INTEGRAL DA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA
Comunicação Oral
1 USP
Apresentação/Introdução
A população em situação de rua evidencia, de forma aguda, as desigualdades estruturais que marcam a sociedade brasileira, sendo atravessada por processos de exclusão social, estigmatização e violação de direitos. No campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, o cuidado integral à população em situação de rua demanda o reconhecimento da multicausalidade da situação de rua e de seus atravessamentos interseccionais, especialmente de gênero, raça e classe. Além disso, implica problematizar dimensões frequentemente marginalizadas nas práticas institucionais, como a alimentação e a corporalidade, enquanto territórios de produção de sentidos, vínculos, controle e resistência. Nesse contexto, este trabalho articula resultados de uma dissertação de mestrado e de um projeto de doutorado em andamento, analisando como práticas e concepções de cuidado são produzidas e tensionadas nas ruas.
Objetivos
Analisar como a alimentação e as corporalidades participam da produção do cuidado à população em situação de rua, evidenciando suas relações com processos de dignidade, estigmatização e construção de identidades, à luz de uma perspectiva interseccional.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo que articula dois percursos investigativos. O primeiro, referente ao mestrado, foi realizado com 12 profissionais de serviços socioassistenciais e equipamentos públicos de alimentação do centro da cidade de São Paulo, por meio de entrevistas semiestruturadas e análise de conteúdo temática. O segundo, relativo ao doutorado em andamento, investiga corporalidades de mulheres cisgêneras, transgêneras e travesti em situação de rua, bem como pré-concepções estigmatizantes de profissionais que atuam nesses contextos, por meio de entrevistas semiestruturadas, diário de campo e análise temática com sensibilidade interseccional. Ambos os estudos consideram aspectos éticos específicos para pesquisas com populações em situação de vulnerabilidade social.
Resultados e Discussão
Os achados do mestrado indicam que a alimentação nos serviços é compreendida para além de sua dimensão biológica, sendo também atravessada por significados relacionados à dignidade, pertencimento e humanização. Elementos como o preparo com afeto, a referência à comida caseira, o respeito às preferências e a inserção em calendários festivos emergem como relevantes na construção de vínculos e no reconhecimento da população em situação de rua como sujeitos de direitos. Contudo, tais dimensões se produzem em meio a tensões, não se configurando de forma homogênea, e coexistem com normativas institucionais, limitações estruturais e relações de poder que, por vezes, delimitam as possibilidades de escolha e participação dos sujeitos, tensionando a efetivação de práticas de cuidado emancipatórias.
No âmbito do doutorado observa-se que as corporalidades de mulheres em situação de rua são produzidas e lidas socialmente a partir de estigmas associados à sujeira, ao abandono e à não conformidade com padrões normativos de gênero e aparência, em um contexto no qual a rua é socialmente masculinizada. Esses marcadores incidem de forma interseccional, intensificando processos de invisibilização e violência. Entretanto, os dados também apontam para a não rigidez desses estigmas, evidenciando que tais mulheres negociam, tensionam e, por vezes, mobilizam suas corporalidades de forma estratégica na produção de cuidado de si e na construção de suas identidades.
A articulação entre os estudos permite compreender que alimentação e corpo constituem dimensões interdependentes nas trilhas de cuidado nas ruas. Se, por um lado, a alimentação aparece como um dispositivo de produção de vínculos, reconhecimento e, simultaneamente, de regulação institucional, por outro, as corporalidades evidenciam como esses processos são inscritos nos corpos de forma desigual, por meio de estigmas e normas que atravessam gênero, pobreza e vida na rua. Nesse sentido, ambos operam como territórios nos quais se entrelaçam dimensões materiais e simbólicas do cuidado, evidenciando que práticas alimentares e leituras sobre os corpos não apenas refletem, mas também produzem formas de inclusão, exclusão e hierarquização. Assim, alimentação e corporalidade emergem como espaços simultâneos de reprodução de normas e produção de resistências, tensionando perspectivas higienistas e moralizantes ainda presentes nas políticas e práticas voltadas à população em situação de rua.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que o fortalecimento do cuidado integral à população em situação de rua exige o reconhecimento das dimensões simbólicas, corporais e afetivas que atravessam a vida nas ruas, bem como a incorporação de abordagens interseccionais que considerem as desigualdades estruturais e suas múltiplas expressões. Destaca-se a necessidade de políticas públicas e práticas intersetoriais que superem lógicas normativas e disciplinadoras, valorizem saberes produzidos nas ruas e se orientem pelo direito à cidade, à alimentação adequada, ao cuidado e à justiça social.
BOCAS QUE DESEJAM: PRAZER E DESEJO ALIMENTAR DE MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA NO CENTRO DA CIDADE DE SÃO PAULO.
Comunicação Oral
1 Universidade de São Paulo
2 Uniersidade de São Paulo
Apresentação/Introdução
Apresentação: A Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) de mulheres em situação de rua (MSR) em São Paulo é atravessada por barreiras estruturais e estigmas interseccionais ligados, por exemplo, ao racismo e cis-heteropatriarcado. Este cenário molda não apenas o acesso à comida, mas a integralidade do ato de comer, incluindo marginalização de seus desejos e prazeres.
Objetivos
Objetivos: Apresentaremos estratégias de acesso à comida por MSR no centro de São Paulo, analisando como prazer e desejo emergem em suas percepções e cotidianos alimentares, a partir de uma perspectiva interseccional que considerou raça, gênero, classe e território.
Metodologia
Metodologia: Estudo etnográfico com imersão em campo entre 2018 e 2022, acompanhando 27 MSR na região da Sé, São Paulo, em suas rotinas. O processo metodológico incluiu observação participante e não participante, entrevistas abertas e semiestruturadas e diários de campo. Todas as participantes se autodeclararam mulheres, a maioria negras, pernoitando em calçadas, viadutos, malocas ou casas de acolhida. A análise, orientada pela descrição densa, centrou-se nos relatos sobre espaços de acesso e experiências subjetivas do ato de comer, tendo como eixo "o que desejam comer" e o que desejos e prazeres alimentares representam em suas experiências cotidianas. O referencial teórico ancorou-se no feminismo negro e na teoria da interseccionalidade, em diálogo com o conceito de necropolítica de Achille Mbembe.
Resultados e Discussão
Resultados e Discussão: As participantes distinguem dois tipos de espaços alimentares. Primeiro, as ‘bocas de rango’: locais de acesso mais comuns, incluindo núcleos de convivência ligados à prefeitura, vinculados à lógica da sobrevivência, percebidos como normatizadores e pouco promotores de prazer ou dignidade. O segundo, as ‘bocas de fudê’: espaços construídos pelas próprias MSR, por vezes nas próprias calçadas e malocas, nos quais emergem autonomia, partilha, identificação pessoal com a comida e possibilidade de prazer e satisfação. É na tensão entre esses sentidos de acesso, que as bocas de fudê se inscrevem como expressão de agência na situação de rua, simbolizando busca pela fartura, pelo que traz saciedade e expressão de si pela memória ou gosto, em ato contrário à precariedade e redução ao fisiológico que políticas de morte direcionam sobretudo a corpos negros e não ciscentrados. Entre os relatos, destacam-se aqueles que caracterizam o trato cotidiano nos equipamentos públicos de SAN como espaço que por vezes se assemelha ao cárcere. Nesse paralelo, discutem que em um espaço de cárcere também há privação da expressão do prazer, como quando dizem que "na cadeia costuma poder entrar com alicate de unha, mas não com risoto ou ameixa" [diário de campo], denunciando o quanto a comida enquanto fonte de afeto é percebida como perigosa ao sistema higienista e capitalista. Ao buscarem estratégias para expressão de seus desejos de comer, tendo o prazer como eixo orientador, as MSR desafiam normas sociais em busca por inclusão em marcos de uma alimentação não estigmatizada, em seus pontos de vista, e de uma forma de existir que consideram indispensáveis para “um senso de normalidade e de saúde mental” [diário de campo]. Seus desejos alimentares não dizem respeito apenas ao alimento em si, mas também à construção e afirmação de uma identidade que as conecta a um espaço social para além da situação de rua, evocando interações sociais desejadas, memórias de sabores e receitas e a possibilidade de cozinhar a partir dos saberes, técnicas e temperos de suas trajetórias de vida. Nesse sentido, a luta pela moradia surgiu como marco político importante nas trajetórias das participantes.
Conclusões/Considerações Finais
Conclusão: No acesso alimentar cotidiano de MSR, mesmo em equipamentos de SAN, faltam concretude, coerência e infraestrutura para que se percebam retomando autonomia, dignidade e coerência com seus saberes e desejos alimentares. É na agência e resistência diárias que MSR constroem estratégias para subverter essa lógica, como nas bocas de fudê e mangueio. A negligência da integralidade do ato de comer, que deve considerar questões como cultura, gosto e saberes, pôde ser compreendida como forma de marginalização de suas subjetividades e de adoecimento, na contramão do que consideram saúde. Nesse sentido, um acesso alimentar digno demanda também a luta pela moradia, por equipamentos públicos que subsidiem o acesso ao cozinhar, valorização de prazeres e desejos e escuta permanente de MSR. No centro dos prazeres e desejos das MSR está a retomada do território da cidade, dos próprios saberes, habilidades e memórias culinárias. Ao voltarmos o olhar para o desejo alimentar de MSR, lançamos mais luz sobre os impactos e mecanismos de seu disciplinamento. Esse é, em última instância, um caminho decolonial para a Segurança Alimentar e Nutricional.
ELES JÁ SABIAM QUE ESTÁVAMOS ALI: ECONOMIAS DO CONSUMO DE DROGAS, VIGILÂNCIA E PRODUÇÃO DO CUIDADO NAS MARGENS URBANAS
Comunicação Oral
1 Universidade de São Paulo (USP)
2 Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ)
Apresentação/Introdução
As cenas de uso de substâncias psicoativas ilícitas nas cidades brasileiras são frequentemente abordadas como espaços de desordem e risco, orientando intervenções centradas no controle e na normalização dos corpos. Contudo, a partir de uma perspectiva etnográfica, tais territórios se revelam como espaços densamente organizados, atravessados por economias locais, regimes de vigilância e formas próprias de regulação da vida. A experiência em campo, atravessada pela imprevisibilidade própria da etnografia, evidenciou a centralidade do território como instância organizadora das práticas, deslocando o olhar para as formas de regulação, circulação e convivência que sustentam a vida nas margens urbanas.
Objetivos
Analisar como as economias do consumo de drogas e os dispositivos informais de vigilância territorial conformam e delimitam as possibilidades de produção do cuidado em saúde junto à população em situação de rua.
Metodologia
Trata-se de uma contribuição etnográfica em percurso, vinculada ao estudo de doutorado intitulado “Sofrimento e (Re)existências nas Margens Urbanas: Corpos em Situação de Rua nos Territórios da Cracolândia na cidade de São Paulo e nas cenas de uso em Jundiaí, São Paulo, Brasil”, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa é realizada no município de Jundiaí (SP), por meio de observação participante junto à equipe do Consultório na Rua e registros sistemáticos em diário de campo. A inserção prolongada no território permitiu que elementos não previstos inicialmente, como a organização do comércio de drogas, emergissem como centrais à análise. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP sob o parecer nº 8.143.126.
Resultados e Discussão
O trabalho de campo foi realizado no bairro São Camilo, no município de Jundiaí (SP), em área conhecida localmente como “Bolívia”. Logo nas primeiras inserções, emergiu a sensação de estar sendo observado: “eles já sabiam que estávamos ali”. A presença da equipe do Consultório na Rua era rapidamente capturada por redes informais de vigilância, como olheiros (conhecidos como “panos”) e rádios comunicadores, evidenciando um território marcado por controle da circulação e monitoramento constante. O encontro do pesquisador com uma cena de uso marcada por intenso e explícito comércio de drogas produziu estranhamento inicial, especialmente pela visibilidade dessas atividades e pela organização das práticas de comercialização no território. Destaca-se a existência de diferentes pontos de venda (“lojinhas”), que operam com lógicas distintas. Em um deles, observou-se a predominância de atendimento a pessoas em veículos, sugerindo dinâmicas específicas de consumo e circulação. Em outro ponto, mais ao final da rua, verificou-se a formação de filas compostas majoritariamente por pessoas que aparentavam estar em situação de rua, indicando segmentações no acesso e possíveis diferenciações internas no mercado local. A circulação de recursos no território articula-se a práticas como o “mangueio”, amplamente referida entre as pessoas em situação de rua. Embora não seja possível afirmar diretamente a origem dos recursos utilizados na aquisição de substâncias psicoativas ilícitas, a presença predominante desse público nas filas sugere a inserção dessas práticas em circuitos locais de consumo. Nesse contexto, o consumo integra uma economia moral que regula acessos, pertencimentos e formas legítimas de circulação no território. Paradoxalmente, a equipe do Consultório na Rua, embora reconhecida como “corpo estranho”, foi incorporada às dinâmicas territoriais sem confrontos explícitos. Essa aceitação pode estar ligada à abordagem do serviço, que prioriza a redução de danos e evita a imposição de julgamentos morais, diferenciando-se de outras instituições que atuam por meio da repressão. Esses fatores demonstram que o cuidado em saúde não se realiza em um campo neutro, mas sim em negociações com uma estrutura territorial já existente, que determina as condições de sua possibilidade.
Conclusões/Considerações Finais
A produção do cuidado em cenas de uso de substâncias psicoativas ilícitas está diretamente condicionada às dinâmicas que estruturam esses territórios. Para a saúde pública, isso implica deslocar abordagens centradas no controle e na abstinência para estratégias que considerem as dimensões econômicas, territoriais e morais que atravessam o cotidiano da população em situação de rua. Os achados sugerem que o cuidado se sustenta na medida em que não confronta diretamente a ordem local, sendo mediado por relações de negociação e formas de reconhecimento construídas no cotidiano. Nesse sentido, práticas orientadas pela redução de danos não se configuram apenas como estratégia técnica, mas como condição fundamental para a produção de cuidado nas margens urbanas.
ESTRATÉGIAS E CAMINHOS DO CUIDADO - UMA ANÁLISE DO TRABALHO DESENVOLVIDO PELA EQUIPE TÉCNICA DO MORADIA PRIMEIRO EM BELO HORIZONTE
Comunicação Oral
1 Fiocruz Minas
2 Universidade Federal de Minas Gerais
3 UFOP
4 Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais
Apresentação/Introdução
O relato aborda resultados da pesquisa “Dignidade, Moradia e Redução de Danos: Interfaces entre a Política de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas e a Política de Habitação para Pessoas em Situação de Rua em Belo Horizonte, Minas Gerais”, desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa em Políticas de Saúde e Proteção Social da Fiocruz Minas. Diante do agravamento do fenômeno da população em situação de rua, foi desenvolvido o modelo Housing First, traduzido como Moradia Primeiro, que oferece moradia estável e permanente. Esse modelo tem como princípio a autodeterminação, que é uma abordagem centrada na pessoa, e em sua autonomia na tomada de decisões e na forma de responder às suas necessidades. Propõe o suporte flexível e disponível, com cuidado personalizado e orientado pelas escolhas individuais, sensível às necessidades de cada pessoa, ao seu processo de recuperação e à adaptação à vida independente. Considerando evidências dos efeitos do Housing First na melhoria da saúde das pessoas com trajetória de vida nas ruas, este estudo avaliou o trabalho realizado pela equipe técnica do Moradia Primeiro em Belo Horizonte, com o objetivo de analisar as estratégias de cuidado utilizadas nesse contexto.
Objetivos
Analisar as estratégias de cuidado utilizadas pela equipe do Moradia Primeiro no contexto do cuidado de pessoas com trajetória de vida nas ruas em Belo Horizonte
Metodologia
Trata-se de um estudo exploratório de natureza qualitativa que envolveu a coleta de dados primários por meio de entrevistas semiestruturadas e grupos focais realizados com três grupos de participantes: beneficiários do Moradia Primeiro, gestoras do programa e trabalhadores da equipe técnica. O material obtido nas entrevistas foi avaliado utilizando análise de conteúdo, de acordo com Bardin (2011), buscando identificar categorias e padrões recorrentes nos discursos dos participantes.
Resultados e Discussão
Os resultados demonstram que o acompanhamento da equipe técnica é essencial para o cuidado em saúde das pessoas com trajetória de vida nas ruas, sendo este o principal diferencial do Moradia Primeiro em relação às outras políticas de habitação. Indicam a necessidade de um acompanhamento contínuo e longitudinal, considerando o agravamento das condições de saúde decorrentes da trajetória de vida nas ruas. Ainda que o objetivo do Moradia Primeiro seja que os beneficiários consigam desenvolver autonomia e independência, as fragilidades decorrentes das situações de vulnerabilidade às quais foram expostos tem como consequência, em muitos dos casos acompanhados, a necessidade de suporte contínuo. Reforçam que a adaptação à moradia por parte dos beneficiários só é possível a partir do acompanhamento de equipe técnica que os auxilie em momentos de fragilidade, entendendo que independente do grau de autonomia alcançado, pode ser que passem a necessitar de um acompanhamento próximo. Ainda que haja esforços para vinculação em outros serviços da saúde e da assistência, muitos dos beneficiários identificam a equipe do Moradia Primeiro como sua principal rede de apoio. Reforçam a importância de uma equipe multiprofissional, destacando os saberes de pessoas com experiência de vida nas ruas e, nesse sentido, a equipe do Moradia Primeiro conta com educadores pares, que são agentes sociais que atuam a partir dos saberes adquiridos com a própria experiência de vida. Os entrevistados identificam que a atuação desses profissionais é fundamental para facilitar a comunicação e vinculação dos beneficiários com o projeto. Indicam a necessidade do desenvolvimento de um trabalho intersetorial, sendo a construção de um cuidado compartilhado com a rede de saúde e de assistência uma das principais dificuldades relatadas. Relatam também dificuldades relacionadas à instabilidade do Moradia Primeiro, que não é uma política pública constituída e permanente, o que leva à alta rotatividade de trabalhadores, prejudicando o acompanhamento dos beneficiários. Apontam, como preconizado pela política de educação permanente, momentos formativos como essenciais no cuidado, abordando a Redução de Danos, identificado pelos trabalhadores como uma importante estratégia para o desenvolvimento metodológico e do trabalho cotidiano no Moradia Primeiro. Ressaltam que trata-se de um trabalho inventivo, que precisa ser constantemente repensado.
Conclusões/Considerações Finais
A adaptação à moradia é um processo complexo com múltiplas implicações nas relações sociais, no trabalho e no cuidado em saúde, o que justifica a necessidade de apoio contínuo e longitudinal de uma equipe técnica multiprofissional e qualificada. É importante garantir que essa equipe acesse e desenvolva espaços formativos para que o trabalho seja constantemente qualificado. Ressalta-se que o conhecimento das singularidades que conformam a vida nas ruas se torna cada vez mais relevante para o aprimoramento de políticas públicas e de oferta de cuidados mais bem qualificados para esse público.
PERCEPÇÃO DE PROFISSIONAIS DE UM CONSULTÓRIO NA RUA SOBRE O ACESSO AOS SERVIÇOS DE SAÚDE POR MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA
Comunicação Oral
1 UEFS
Apresentação/Introdução
O direito universal e igualitário à saúde é garantido pela Constituição Federal do Brasil. Contudo, persistem desafios, principalmente para populações vulneráveis, como as mulheres em situação de rua, as quais vivenciam condições como pobreza extrema, fragilidade de vínculos familiares, violência e estigma social, que dificultam o acesso aos serviços de saúde. Nesse sentido, dispositivos como o Consultório na Rua (CnR) podem colaborar para a ampliação do acesso e a oferta de cuidado integral.
Objetivos
Analisar como tem se configurado o acesso aos serviços de saúde por mulheres em situação de rua em um município do interior da Bahia na percepção de profissionais de um CnR.
Metodologia
Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, realizado no CnR em um município de grande porte do interior da Bahia. Participaram quatro profissionais da equipe, sendo escolhidos aqueles com formação técnica ou graduação e tempo mínimo de seis meses de atuação, sendo excluídos aqueles afastados por licença médica, maternidade ou férias no momento da coleta. O número de participantes foi definido pelo critério de saturação. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas, realizadas presencialmente, em local reservado, com duração média de 13 minutos. Os dados foram analisados por meio da Análise de Conteúdo Temática. Como este estudo foi realizado com seres humanos, foi submetido e aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), conforme parecer 8.006.600, de 27 de novembro de 2025 (CAAE 92130525.0.0000.0053).
Resultados e Discussão
A análise das falas dos participantes evidencia que o acesso aos serviços de saúde por mulheres em situação de rua na realidade pesquisada tem sido mediado pelas equipes do CnR, que assumem, na maioria das vezes, papel central na sua organização e viabilização, sendo descrito pelos participantes deste estudo como a principal porta de entrada para o sistema de saúde por mulheres em situação de rua. Conforme descrito nas falas, a assistência é garantida em diferentes momentos das necessidades em saúde, incluindo o acompanhamento pré-natal. No entanto, tal acesso não ocorre de forma autônoma, estando frequentemente condicionado à atuação de dispositivos específicos, a partir do encaminhamento do CnR. Diferentemente da lógica convencional centrada no deslocamento do usuário até a unidade de saúde, os participantes indicaram que o acesso ocorre no próprio território onde essas mulheres se encontram, com o deslocamento do “consultório” até a rua. Adicionalmente, destaca-se a mediação ativa realizada pelas equipes do CnR, frequentemente associada a um acesso considerado “privilegiado” aos serviços de saúde. Essa percepção decorre do fato de que os profissionais atuam diretamente na articulação da Rede de Atenção à Saúde (RAS), realizando agendamentos, encaminhamentos e estabelecendo conexões com outros dispositivos assistenciais, assim como viabilizam condições logísticas e articulação com outros setores para a disponibilização de transporte quando necessário. Apesar desses aspectos na configuração do acesso, barreiras estruturais, como a ausência de documentação, são apontadas como uma limitação para o atendimento dessas mulheres em determinados serviços.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados indicam que o acesso aos serviços de saúde por mulheres em situação de rua é predominantemente mediado pelas equipes do CnR, que atuam como principal porta de entrada, promovendo um acesso “privilegiado” e territorializado na percepção dos participantes do estudo. Entretanto, este ainda ocorre de forma mediada e não plenamente equitativa, sendo fundamental o desenvolvimento de estratégias que promovam o fortalecimento da articulação intersetorial, bem como a autonomia dessas mulheres em seu processo de cuidado, de modo a garantir que a saúde enquanto direito para todos seja realmente efetivada.
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