Programa - Comunicação Oral Curta - COC30.1 - Vigilância Popular em Saúde: práticas e formação para a defesa da vida.
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
AGPOPSUS: INTEGRANDO EDUCAÇÃO E VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE AOS TERRITÓRIOS DO SUS PARA O FORTALECIMENTO DA PARTICIPAÇÃO SOCIAL E ARTICULAÇÃO DE SABERES
Comunicação Oral Curta
1 EPSJV/FIOCRUZ
2 SAPS/MS
Contextualização
A Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fiocruz em parceria com a Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde executa o Programa de Formação de Agentes Educadoras (es) Populares de Saúde na Amazônia Legal e Pantanal Sul-Mato-Grossense (AgPopSUS), principalmente junto as populações do campo, da floresta e das águas.
Descrição
Foram formados 206 educadoras(es) populares de saúde nos dez estados de atuação do projeto, que estão atuando como multiplicadores para a formação de 3740 agentes populares de saúde. Desenvolvida através da pedagogia da alternância, intercalando tempo aula e tempo comunidade, a fomação totaliza 160 horas.
Período de Realização
A formação iniciou em dezembro de 2024, com previsão de encerramento em dezembro de 2026.
Objetivo
O objetivo é formar agentes populares de saúde em parceria com os movimentos sociais na perspectiva de fortalecer o protagonismo dessas populações, a articulação de saberes para o desenvolvimento de ações de educação e vigilância popular em saúde na defesa do SUS e do direito à saúde, integrando o território através das práticas de Educação Popular junto à Atenção Primária em Saúde.
Resultados
Até o momento foram formadas (os) 70 turmas, sendo 1400 agentes populares de saúde e 70 Diagnósticos elaborados. Espera que esta formação possa potencializar a luta pela garantia do direito à saúde junto às populações do campo, da floresta e das águas na Amazônia Legal e Pantanal Sul-Mato-Grossense, de modo a contribuir para o enfrentamento das iniquidades nesses territórios e para o pleno exercício do controle social por suas populações. É a partir do território e de seus sujeitos ativos, neste caso as (os) agentes populares de saúde, que é possibilitada a produção de territórios saudáveis, sustentáveis e livres, ao afirmar a autonomia como categoria fundamental para conhecer, subverter e denunciar as práticas alienantes do cotidiano e buscar soluções para os problemas concretos vividos por essas populações.
Aprendizado e Análise Crítica
Ao longo do processo formativo, através da territorialização de informações em saúde, são realizadas entrevistas com a população local, profissionais de saúde e entidades civis, produção de mapas artesanais e de imagens da comunidade a fim de elaborar um diagnóstico das condições de vida e situação de saúde do território onde a turma está sendo desenvolvida – aldeia indígena, quilombo, comunidade ribeirinha, assentamento e periferias urbanas, com a apresentação final de um plano de ação em educação e vigilância popular em saúde. Para tanto, são identificadas situações de risco e adoecimento, e as múltiplas facetas que o território traz como reflexo no ambiente, no trabalho, na sociabilidade e na qualidade de vida das pessoas, contemplando as dimensões sociais, econômicas, culturais, da alimentação, do saneamento, da segurança e da saúde mental. Com essa ação integrada, implicada com a intersetorialidade e com a multiculturalidade, espera-se produzir políticas de desenvolvimento local e regional na Amazônia Legal e Pantanal. Os povos do campo, da floresta e das águas, por se autodeterminarem como guardiões da natureza e dela dependerem para manutenção do seu modo de vida, são as principais populações afetadas pelo desenvolvimento econômico e seus grandes empreendimentos. Assim, a integração da Vigilância Popular em Saúde, realizada de modo participativo com as comunidades, aos dispositivos da Atenção Primária se apresenta como estratégia fundamental no cuidado a essas populações, e pode se revelar eficaz no enfrentamento aos processos destrutivos que ocorrem na região amazônica, contribuindo assim para um processo de reparação comunitária às consequências negativas do desenvolvimento e possibilitando ao SUS oferecer garantia da proteção social a quem dela precisa.
AMPLIAÇÃO DAS AÇÕES EM SAÚDE, MINERAÇÃO E TERRITÓRIOS: EXPERIÊNCIA DE ARTICULAÇÃO ENTRE FIOCRUZ E MAM NA CONSTRUÇÃO DA VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE.
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ (VPAAPS)
2 FIOCRUZ (VPAAPS) - PPGEBS/IOC/FIOCRUZ
3 MAM
Contextualização
Diante do aumento dos desastres socioambientais no Brasil e da vulnerabilização de amplos segmentos da população, a intensificação das atividades minerárias evidencia riscos estruturais à saúde coletiva, especialmente em territórios marcados por desigualdades históricas. Esses processos reforçam a necessidade de abordagens interdisciplinares, territorializadas e interculturais no campo da saúde, capazes de articular produção de conhecimento, ação política e protagonismo social.
Nesse contexto, apresenta-se a experiência do projeto “Ampliação das Ações Voltadas para Área de Mineração, Saúde e Territórios”, desenvolvido em parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), ao longo de 2026, em diferentes territórios afetados pela mineração.
Descrição
O projeto emerge de um acúmulo institucional e político construído a partir da atuação da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz) junto a movimentos sociais e populações afetadas por desastres e conflitos socioambientais, como no caso do rompimento da barragem de Brumadinho. Essas experiências anteriores envolveram apoio à organização de respostas em saúde, articulação interinstitucional, visitas técnicas, formação em gestão de riscos e fortalecimento da vigilância em saúde, incluindo atenção psicossocial e saúde do trabalhador.
A partir desse percurso, o projeto atual se configura como uma estratégia de aprofundamento das ações em territórios minerários, voltada à promoção da saúde de trabalhadores e populações do entorno, com ênfase em processos participativos e na construção compartilhada de respostas aos impactos da mineração.
Período de Realização
A experiência refere-se ao período de 2026, com destaque para as atividades desenvolvidas no primeiro trimestre, incluindo a realização de reunião nacional de avaliação e planejamento em março do mesmo ano.
Objetivo
Fortalecer processos de vigilância popular em saúde em territórios afetados pela mineração, por meio da articulação entre saberes científicos e conhecimentos territoriais e da construção participativa de estratégias de enfrentamento aos impactos socioambientais da atividade minerária.
Resultados
As ações foram organizadas a partir de demandas locais, com participação direta de populações atingidas e consideração de marcadores sociais como gênero, raça e geração. Foram realizadas oficinas de planejamento, rodas de conversa, processos formativos, seminários regionais e estaduais, além da criação e acompanhamento de Comissões Populares de Participação (CPP), fortalecendo instâncias coletivas de decisão e monitoramento.
Destacam-se como resultados o fortalecimento de redes territoriais de mobilização, a ampliação da capacidade formativa em vigilância popular em saúde, a consolidação de espaços de diálogo entre instituições públicas e movimentos sociais e a sistematização de instrumentos de planejamento, monitoramento e avaliação das ações. Observa-se, ainda, o avanço na construção de estratégias de comunicação popular, ampliando a visibilidade dos conflitos socioambientais e seus impactos na saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia a potência da interculturalidade como eixo estruturante das práticas em saúde, ao promover o reconhecimento e a valorização dos saberes locais na produção do cuidado e na análise dos territórios. Destaca-se que processos formativos e organizativos baseados na participação social ampliam a capacidade coletiva de identificação de riscos, produção de conhecimento situado e incidência política. Ao mesmo tempo, os aprendizados apontam para desafios relevantes, como a necessidade de maior sustentabilidade institucional das ações, a complexidade da articulação entre diferentes atores e escalas e as disputas de poder que atravessam os territórios impactados pela mineração. A análise crítica indica que iniciativas de vigilância popular em saúde não se restringem a metodologias participativas, mas implicam posicionamento ético-político frente às determinações estruturais que produzem adoecimento e vulnerabilidade. No contexto da mineração, essas ações se inserem em cenários de conflito, nos quais interesses econômicos, políticas públicas e modos de vida entram em disputa.
Nesse sentido, a articulação entre pesquisa, formação e comunicação popular emerge como estratégia central para a produção de justiça e fortalecimento da autonomia dos sujeitos coletivos. A sistematização das experiências, produção de materiais educativos e uso de linguagens territoriais contribuem para ampliar a compreensão dos determinantes socioambientais da saúde e fortalecer práticas contra-hegemônicas de cuidado.
Assim, a vigilância popular em saúde se afirma como prática de resistência, produção de conhecimento e defesa da vida, dialogando com os desafios contemporâneos relacionados à crise ambiental, às desigualdades sociais e à necessidade de construção de modelos de desenvolvimento mais justos e sustentáveis.
COMUNIDADES AMPLIADAS DE SABERES E AÇÃO: FORMAÇÃO DE LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS PARA ENFRENTAMENTOS DE EMERGÊNCIAS CLIMÁTICAS, PROMOÇÃO DA SAÚDE E CONSERVAÇÃO AMBIENTAL
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz
2 ICMBio
3 UFRJ
Contextualização
No Brasil, eventos como as enchentes e deslizamentos, cada vez mais frequentes e extensivos, evidenciam padrões recorrentes: territórios periféricos, populações racializadas e comunidades tradicionais são desproporcionalmente afetadas, enquanto as respostas institucionais permanecem fragmentadas e insuficientes. O conceito de racismo ambiental emerge como ferramenta analítica para compreender por que a maior parte dos desastres de grande impacto ocorre em áreas de vulnerabilidade social, atingindo populações predominantemente negras, indígenas, quilombolas e outros grupos historicamente marginalizados. Com base nessa compreensão, buscamos a partir de experiência formativa territorializada fortalecer mecanismos que rompam com a produção assimétrica de conhecimento e que permitam o encontro entre diferentes formas de saber. É nesse horizonte que se insere dispositivos que integrem redes acadêmicas, sociotécnicas e comunitárias em diálogo, favorecendo a construção coletiva de diagnósticos, planos e ações. Constituindo Comunidades Ampliadas de Saberes e Ação (CASA), para a gestão de riscos, promoção da saúde e conservação ambiental com base na interculturalidade.
Descrição
O programa de formação se insere no projeto Redes Colaborativas para Enfrentamento Mudanças Climáticas e Desastres nas cidades serranas do Rio de Janeiro em parceria com o ICMBio, por meio do Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PARNASO). Essa pesquisa-ação articula referenciais da saúde coletiva, da sociologia dos desastres, do pensamento decolonial e da educação ambiental critica. O programa de formação iniciou-se em fevereiro de 2025 com a realização de encontros para a construção de Cartas Climáticas nas três principais cidades serranas, Petropólis, Teresópolis e Nova Friburgo. Essa mobilização foi a base para a elaboração da formação que finaliza em agosto de 2026, com a previsão de ações até fevereiro de 2027.
Período de Realização
Fevereiro de 2025 a Fevereiro de 2027
Objetivo
Relatar o programa de formação para lideranças comunitárias, de territórios afetados por desastres na região serrana, para enfrentamento das emergências climáticas, promoção da saúde e conservação ambiental como um processo de experimentação metodológica orientado pela aderência territorial e pelo diálogo simétrico entre saberes para fortalecimento e construção de territórios sustentáveis e saudáveis.
Resultados
Nesta edição da formação iniciada em março de 2026 integram 30 multiplicadores por município (Teresópolis e Nova Friburgo), totalizando 60 participantes, englobando 30 territórios. Pretende-se em maio iniciar na cidade Petrópolis. A presente edição está estruturada com seis encontros presenciais, um por mês, ocorrendo aos sábados, das 8:30 às 17h, totalizando seis meses de curso. A formação baseia-se na pedagogia da alternância estruturada em dois tempos pedagógicos complementares: Tempo Oficina (TO) — 50 horas: Espaço de construção teórico-metodológica, análise crítica e desenvolvimento de competências formativas, Tempo Comunidade (TC) — 30 horas: Espaço de aplicação territorial dos conhecimentos, mobilização social e produção de intervenções locais. Essa alternância contribui para o compartilhamento de discussões e metodologias relevantes e criativas para se entender esse nosso tempo de crise climática e as possibilidades de enfrentamento. Os temas dos TO: 1- Modelo de desenvolvimento e Mudanças Climáticas, Justiça Socioambiental 2- Território, Ambiente e Biodiversidade, 3- Cuidado, Saúde Mental e Apoio Psicossocial, 4- Segurança, e Soberania Alimentar e Agroecologia, 5- Gestão, Controle Social e Vigilância Popular em Saúde, 6- Criação de Redes Colaborativas e Elaboração de Planos de Ação Comunitário. Pretende-se que ao final da formação o plano de ação seja apresentado em seminário local em agosto deste ano, com participação de amplo público e posteriormente realizem oficina no II Seminário Internacional de Desnaturalização dos Desastres e Mobilização Comunitária que ocorrerá na primeira semana de setembro no Rio de Janeiro.
Aprendizado e Análise Crítica
Os encontros presenciais têm sido profícuos para a constituição de Comunidades Ampliadas de Saber e Ação (CASA), especialmente nas Rodas de ConversaAção, em que são convidados agentes da gestão pública, acadêmicos locais e movimentos sociais para debaterem o tema em questão. Os dispositivos metodológicos como: cartografia social (mapeamento participativo de riscos, vulnerabilidades e recursos territoriais), projeto memória, indicadores de vulnerabilidade socioambiental, mobilização cultural e comunicação (produção de estratégias de informação e mobilização social voltadas à prevenção, resposta e promoção da saúde) se apresentam como importante articulação entre os saberes comunitários e sociotécnicos para produção territorializada de conhecimento.
DENGUE, MUDANÇA CLIMÁTICA E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO: UMA REFLEXÃO PARA A VIGILÂNCIA POPULAR A PARTIR DE SÃO BERNARDO DO CAMPO
Comunicação Oral Curta
1 Secretaria Municipal de Saúde de São Bernardo do Campo/SP
2 Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR)
3 Universidade de São Paulo (USP)
4 Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP)
5 Universidade Paulista (UNIP)
6 Instituto de Saúde do Estado de São Paulo (IS-SP)
7 Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR)
Apresentação/Introdução
Esse estudo integra a etapa diagnóstica do projeto “Comunicação de riscos para promoção da vigilância popular em saúde em territórios de vulnerabilidade socioambiental” (PPSUS, 2024). Neste trabalho, enfoca-se a dengue, enfermidade cujo ciclo é fortemente influenciado por fatores socioambientais engendrados pela mudança climática (Ordonez-Sierra et al., 2021), à luz dos determinantes sociais da saúde e das desigualdades territoriais que modulam a exposição e a vulnerabilidade ao adoecimento. Sob esse cenário, o presente trabalho buscou analisar os casos da enfermidade no último triênio, abrangendo o período anterior e posterior a 2024, ano que registrou as maiores temperaturas globais (WMO, 2026), a fim de traçar paralelos e reflexões sobre como essa mudança pode ter potencialmente afetado o comportamento da dengue e as estratégias de vigilância no município, apontando subsídios para o desenvolvimento de práticas inovadoras.
Objetivos
Objetiva-se mapear as condições sanitárias, ambientais e sociais do município de São Bernardo do Campo, com o intuito de identificar territórios prioritários para o fortalecimento de ações de vigilância popular em saúde voltadas às arboviroses (dengue, zika e chikungunya).
Metodologia
Trata-se de um estudo ecológico com abordagem quantitativa e qualitativa. Foram analisados dados secundários de casos notificados de dengue provenientes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) no período de 2023 a 2025. Realizou-se a padronização das variáveis, cálculos de frequências absolutas e relativas, taxas de incidência por 100 mil habitantes e variações interanuais. Em seguida, procedeu-se à análise espacial exploratória por bairros para identificar padrões de concentração, persistência e discrepância entre volume absoluto e risco relativo. Complementarmente, foi realizada a análise documental de políticas e práticas de vigilância no município, com abordagem qualitativa temática, a partir de documentos oficiais e materiais institucionais com foco na identificação de inovações no enfrentamento à dengue durante o período. Os achados foram interpretados à luz dos determinantes territoriais, com apoio do Atlas Socioambiental de São Bernardo do Campo.
Resultados e Discussão
Observa-se uma mudança expressiva no padrão epidemiológico da dengue em São Bernardo do Campo, com passagem de baixa circulação autóctone em 2023 (32 casos) para uma explosão epidêmica em 2024 (12.846 casos), seguida de redução em 2025 (2.133 casos). Essa inflexão sugere possível associação com alterações climáticas recentes, especialmente o aumento de temperatura observado no período, potencializando condições favoráveis à transmissão. A distribuição territorial revelou forte heterogeneidade intraurbana: bairros como Montanhão e Alvarenga concentraram os maiores volumes absolutos, enquanto Taboão, Paulicéia e Rudge Ramos apresentaram as maiores taxas de incidência, evidenciando desigualdades na exposição ao risco e na capacidade de resposta territorial. Em 2025, persistem bolsões relevantes de transmissão em áreas específicas, indicando reconfiguração espacial da doença. Destaca-se que bairros com maior carga de doença coincidem com áreas de maior vulnerabilidade social como Montanhão (53,1% de altíssima vulnerabilidade) e Alvarenga, que também representa menor cobertura de rede de esgoto (73,3%). No que se refere às estratégias de enfrentamento, o município implementou ações tecnológicas e operacionais como uso de drones, nebulização e estações disseminadoras de larvicidas, bem como capacitações para agentes comunitários de saúde. Entretanto, os processos que permitiriam a participação popular nas estratégias de vigilância ainda são escassos, o que abre uma porta importante para o desenvolvimento do projeto de vigilância popular no município.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicam que a intensificação da dengue no período analisado está associada não apenas às mudanças climáticas, mas também à persistência de desigualdades territoriais estruturais. Nesse contexto, evidencia-se a necessidade de reorientação das estratégias de vigilância em saúde, como incorporar abordagens territorizadas participativas e intersetoriais. Reforça-se, portanto, que o enfrentamento das arboviroses exige não apenas inovação tecnológica, mas também inovação social e política na organização das práticas de saúde.
DETERMINAÇÃO SOCIOAMBIENTAL E VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE: RELATO DE EXPERIÊNCIAS EM COMUNIDADES RURAIS DE MOJUÍ DOS CAMPOS, OESTE DO PARÁ
Comunicação Oral Curta
1 UFOPA
Contextualização
Os municípios de Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos, estão entre os que mais produzem soja e milho no Pará (IBGE, 2026) e consequentemente uns dos que mais consomem agrotóxicos agrícolas. Esse contexto tem causado processos de vulnerabilização e injustiças ambientais e sociais que precisam ser discutidas e evidenciadas sob a perspectiva da determinação social da saúde. Nesse sentido, no âmbito da Saúde Coletiva, o Laboratório de Vigilância em Saúde na Amazônia (VIGIAMA) da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) tem desempenhado um papel fundamental para inserção dos acadêmicos na realidade dos territórios e apreensão de conceitos como os dos determinantes sociais e ambientais. O laboratório atua como espaço de articulação entre o conhecimento acadêmico e o saber popular, visando o diálogo e participação social, que contribuem para uma análise dos processos de vulnerabilização e iniquidades locais, permitindo articulações que potencializam a vigilância popular em saúde nos territórios.
Descrição
O presente relato consiste numa apresentação e discussão de nossos aprendizados dentro do curso de Bacharelado Interdisciplinar em Saúde da Universidade Federal Oeste do Pará (UFOPA) a partir da participação em projetos de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidos junto ao Laboratório de Vigilância em Saúde na Amazônia (VIGIAMA).
Período de Realização
As atividades relatadas integram nossas participações em projetos desenvolvidos junto ao VIGIAMA no período de fevereiro de 2024 até junho de 2025 no município de Mojuí dos Campos, situado no oeste do Pará, Brasil.
Objetivo
Objetivamos relatar algumas das experiências vivenciadas junto ao VIGIAMA, a partir de rodas de conversas realizadas em comunidades rurais do município de Mojuí do Campus, sobre as percepções dos impactos socioambientais e à saúde causados pela expansão do agronegócio na região.
Resultados
Tanto as atividades de pesquisa quanto as de ensino e extensão foram desenvolvidas a partir de rodas de conversas ocorridas com moradores de territórios afetados pela expansão do agronegócio de soja e milho. As comunidades visitadas foram: Corpus Christi, Jatobá e Terra Preta. Nestes encontros, organizados principalmente com mulheres agricultoras familiares, as pessoas relataram desafios e ameaças vivenciadas no dia a dia de suas comunidades acerca desta expansão. Ouvimos relatos sobre impactos ambientais, tais como desmatamento, queimadas, diminuição ou perda de produção (agricultura familiar) e contaminações de água e alimentos. Também ouvimos relatos sobre agravos à saúde como sinais e sintomas compatíveis com intoxicações agudas por agrotóxicos e soubemos de casos comprovados de contaminação por glifosato a partir de testes realizados por pesquisadores de outra instituição. Além disso ouvimos sobre ameaças diretas e indiretas de empresários por terras e percebemos como o modo de vida e saúde das pessoas das comunidades visitadas são afetados pela expansão das lavouras de soja e milho nos territórios. Também observamos como cada comunidade tem se organizado em associações para enfrentar e resistir contra os processos de vulnerabilização impostos.
Aprendizado e Análise Crítica
Como aprendizagem, destacamos, principalmente, a escuta ativa e participação social como molde de construção de conhecimento acerca do saber comunitário e tradicional. Concretizamos a discussão dos determinantes sociais da saúde reconhecendo que a saúde não é apenas ausência de doença, mas fruto das condições de vida no que tange a moradia, cultura, lazer, educação, alimentação, renda e relações sociais como pudemos observar e escutar nos territórios afetados.
De forma crítica, observamos a injustiça ambiental presente nesses territórios, onde o lucro é colocado acima da vida. Contudo, também percebemos que discutir e compartilhar as realidades vividas em rodas de conversas pode se configurar como ferramenta de resistência e cuidado num movimento de vigilância popular em saúde.
As experiências vividas culminaram no desenvolvimento de dois trabalhos de conclusão de curso de BI em Saúde, sendo um deles intitulado “Exposição e intoxicação aguda por agrotóxicos agrícolas no Planalto Santareno, Oeste do Pará, ao longo de 10 anos” que buscou levantar mais dados sobre o avanço do agronegócio de soja e milho e consequentemente o uso de agrotóxicos agrícolas na nossa região, como forma de produzir informações a serem compartilhadas com as comunidades. Dessa forma, esperamos contribuir com o debate, promover melhores condições de vida e saúde sustentadas em informações verdadeiras, assim como potencializar o desenvolvimento de ferramentas que contribuam para a vigilância em saúde, acerca das iniquidades e vulnerabilidades presentes nesses territórios.
JUVENTUDES, MUDANÇAS CLIMÁTICAS E SAÚDE: DESIGUALDADES, TERRITÓRIO E DESAFIOS AO CUIDADO NA EMERGÊNCIA CLIMÁTICA
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz
Apresentação/Introdução
A despeito dos avanços nos marcos legais que asseguram direitos à juventude brasileira (15 a 29 anos), persistem desigualdades estruturais que atravessam suas condições de vida, evidenciando um hiato entre direitos formalmente instituídos e sua efetivação concreta. Nesse contexto, a saúde se configura como um analisador privilegiado das dinâmicas sociais, territoriais e culturais que conformam a experiência juvenil, permitindo compreender como diferentes formas de inserção social impactam o processo saúde-doença-cuidado.
Este trabalho integra o dossiê Panorama da situação de saúde de jovens brasileiros produzido pela Agenda Jovem Fiocruz e Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio e destaca os impactos das mudanças climáticas sobre o adoecimento e a mortalidade na juventude, considerando desigualdades sociais, territoriais e dimensões interculturais. Parte-se do pressuposto de que a emergência climática intensifica vulnerabilidades historicamente produzidas, afetando de forma desigual diferentes juventudes, especialmente aquelas situadas em territórios periféricos, amazônicos ou em contextos de maior precarização social.
Objetivos
Analisar os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde da população jovem brasileira, considerando:
1. os efeitos diretos, indiretos e sociais de eventos climáticos extremos;
2. as desigualdades territoriais e sociais que mediam esses impactos;
3. a emergência da ansiedade climática como fenômeno de sofrimento coletivo e psicossocial.
Metodologia
Trata-se de um estudo de abordagem mista, articulando: análise de dados secundários provenientes de sistemas de informação em saúde; revisão de literatura sobre mudanças climáticas, saúde juvenil e desigualdades; debates com especialistas em saúde coletiva, vigilância e políticas públicas, além de movimentos sociais e organizações da sociedade civil.
Foram selecionados três estudos de caso representativos de eventos climáticos extremos:
1. Enchentes no Rio Grande do Sul: doenças de veiculação hídrica, agravos infecciosos e impactos psicossociais;
2. Ondas de calor na cidade do Rio de Janeiro: estresse térmico, desidratação e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias;
3. Queimadas na Amazônia: elevação de doenças respiratórias e exposição a poluentes atmosféricos.
Além disso, foi realizada uma análise específica sobre ansiedade climática, compreendida como expressão do sofrimento psíquico coletivo frente à crise ambiental.
Resultados e Discussão
Os eventos climáticos extremos produzem impactos significativos e desiguais na saúde da juventude, com maior intensidade entre grupos vulnerabilizados. Observa-se aumento de agravos respiratórios, doenças infecciosas relacionadas à água, complicações cardiovasculares e sofrimento mental. A ansiedade climática emerge como fenômeno relevante, devendo ser compreendida em sua dimensão social e territorial, e não apenas individual ou clínica.
As mudanças climáticas não apenas agravam desigualdades preexistentes, mas também produzem novas formas de iniquidade em saúde, articuladas a marcadores como idade, território, condições socioeconômicas e pertencimento cultural. A incorporação de uma perspectiva intercultural permite compreender como diferentes juventudes interpretam e respondem aos impactos da crise climática, incluindo saberes, práticas de cuidado e estratégias de enfrentamento muitas vezes ausentes das políticas públicas tradicionais.
Do ponto de vista metodológico, destaca-se que os sistemas de informação em saúde não captam diretamente os efeitos das mudanças climáticas, exigindo abordagens analíticas integradas, intersetoriais e territorializadas.
Conclusões/Considerações Finais
A juventude deve ser reconhecida como grupo estratégico nas agendas de enfrentamento da emergência climática, tanto como população afetada quanto como sujeito político.
Reforça-se a necessidade de políticas públicas que articulem saúde, ambiente e justiça social, com ênfase em práticas de cuidado territorializadas, vigilância em saúde e atuação da Atenção Primária à Saúde.
Estas ações contribuem para respostas mais equitativas, participativas e sensíveis às diversidades socioculturais que compõem as juventudes brasileiras.
O PAPEL DO AGPOPSUS NO FORTALECIMENTO DA VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE NA AMAZÔNIA LEGAL E PANTANAL A PARTIR DA FORMAÇÃO DE AGENTES DE EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 EPSJV/Fiocruz
2 SAPS/MS
Contextualização
A formação de educadoras e educadores populares de saúde do Programa AgPopSUS, desenvolvida na Amazônia Legal e no Pantanal Sul-Mato-Grossense, insere-se no fortalecimento da Educação Popular em Saúde como estratégia de defesa do SUS, do direito à saúde e dos modos de vida das populações do campo, da floresta e das águas, em consonância com a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas. Ao reconhecer o território como espaço vivido, produtor de saberes e de práticas sociais, a proposta articula participação social, práticas tradicionais de cuidado, SUS e organização popular, contribuindo para a ampliação do protagonismo popular na proteção da vida por meio da Vigilância Popular em Saúde.
Descrição
O relato sistematiza a experiência do processo formativo de educadoras e educadores populares de saúde realizado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz, em parceria com a Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde e 53 movimentos sociais populares. A formação, com carga horária de 40 horas, realizada em 7 Estados (Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Tocantins, Pará e Rondônia), envolveu 206 educadoras e educadores populares de saúde, posteriormente responsáveis pela formação de 3.740 agentes de educação popular em saúde em seus territórios. Como principal dispositivo pedagógico em diálogo com a formação teórica, utilizou-se a territorialização de informações em saúde, envolvendo observação de campo, entrevistas, cartografias artesanais, imagens fotográficas e elaboração de diagnóstico rápido das condições de vida e da situação de saúde.
Período de Realização
A experiência foi realizada entre dezembro de 2024 e maio de 2025
Objetivo
Refletir criticamente sobre o papel das educadoras e educadores populares de saúde como sujeitos de indução para a realização da Vigilância Popular em Saúde, considerando sua atuação na leitura territorial, na mobilização comunitária e no fortalecimento do SUS junto aos povos do campo, da floresta e das águas.
Resultados
A experiência fortaleceu a atuação das educadoras e educadores como mediadores entre saberes populares, ancestrais e técnico-sanitários, ampliando a capacidade comunitária de reconhecer riscos, mapear vulnerabilidades e mobilizar respostas coletivas em defesa da vida. Como resultado das ações de territorialização e do diálogo com os modos de vida locais, emergiram questões relacionadas aos impactos de secas, enchentes, queimadas, contaminação hídrica, insegurança alimentar e degradação ambiental, evidenciando como a Vigilância Popular em Saúde contribui para respostas territorializadas frente à emergência climática. A valorização de diferentes racionalidades de cuidado também fortaleceu práticas interculturais de saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
O principal aprendizado foi o reconhecimento do território como espaço pedagógico, político e epistêmico da formação, no qual a escuta dos sujeitos, a ancestralidade e a valorização dos saberes tradicionais ampliam a potência da Vigilância Popular em Saúde. A experiência demonstrou que os agentes de educação popular em saúde se constituem como sujeitos estratégicos da transformação social, ao fortalecer capacidades locais de leitura crítica da realidade, organização popular e articulação com a Atenção Primária à Saúde. Nesse processo, a formação evidenciou práticas de r-existência, entendidas como formas coletivas de defesa da vida, dos territórios e dos modos de existência, mobilizadas a partir da memória, dos vínculos comunitários e da historicidade das lutas sociais. A análise crítica evidencia que esses agentes, ao identificarem as situações-limites que atravessam as condições de vida e saúde das populações — como injustiças ambientais, vulnerabilizações históricas e negação de direitos —, tornam-se capazes de construir, em diálogo entre saberes técnico e populares por meio da organização popular, inéditos viáveis orientados para a proteção da vida, o fortalecimento do SUS e a emancipação dos povos do campo, das florestas e das águas. A emergência climática e a interculturalidade aparecem como dimensões reveladas e aprofundadas no próprio processo formativo, reafirmando a potência emancipatória da Vigilância Popular em Saúde.
PHOTOVOICE COMO ESTRATÉGIA DE VIGILÂNCIA POPULAR: IMPACTOS DA EMERGÊNCIA CLIMÁTICA NO CUIDADO EM SAÚDE EM TERRITÓRIOS LÍQUIDOS DA AMAZÔNIA
Comunicação Oral Curta
1 Einstein Hospital Israelita
2 Fundação Oswaldo Cruz Amazônia (FIOCRUZ/ILMD)
Apresentação/Introdução
As variações climáticas extremas na Amazônia, como as secas severas e cheias prolongadas, alteram drasticamente a navegabilidade dos rios, ampliando tempos de deslocamento, dificultando o acesso aos serviços de saúde e aumentando vulnerabilidades sanitárias de populações.
Objetivos
Compreender a utilização do photovoice como técnica participativa e analítica para revelar como a dinâmica das águas na região amazônica reflete no cuidado em saúde no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS).
Metodologia
Trata‑se de uma investigação qualitativa participativa que utilizou Photovoice com profissionais de Unidades Básicas de Saúde (UBS) urbanas, rurais, ribeirinhas e fluviais de nove municípios de quatro estados da Amazônia Legal (Amazonas, Roraima, Tocantins e Rondônia), todos adeptos da Planificação da Atenção à Saúde (PAS) como estratégia de organização das Redes de Atenção à Saúde. Os profissionais receberam treinamento presencial (40 a 60 minutos), contemplando fundamentos do Photovoice, ética e consentimento, uso da câmera fotográfica profissional disponibilizada e orientações para produção das imagens. Foram utilizados prompts voltados ao cotidiano da APS durante os períodos de seca e cheia. A coleta ocorre em duas fases: julho–novembro de 2025 (seca), fevereiro–maio de 2026 (cheia). Em cada UBS, um líder foi identificado para organizar materiais, apoiar o compartilhamento das fotos e manter contato com o pesquisador. Os profissionais participantes, mediante aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, foram orientados a registrar de 5 a 10 imagens, acompanhadas de descrição narrativa. Os grupos focais foram realizados após cada rodada, envolvendo profissionais de diferentes categorias. Os dados foram analisados por meio da análise de conteúdo temática‑categorial de Bardin.
Resultados e Discussão
Até o momento foram obtidas 213 fotos com registros completos de seus significados relacionados ao processo de trabalho na APS durante o período de seca e cheia realizadas por 30 profissionais. Foi executado um grupo focal em cada uma das UBS para priorização das fotos de cada equipe e compreensão das fotos e os seus reflexos nos processos de trabalho. A análise dos grupos focais permitiu evidenciar aspectos que contribuem para a compreensão do impacto da seca no processo de trabalho das equipes sugerindo-se: i. secas extremas ampliam de 4 a 12 horas o deslocamento até serviços de saúde, comprometendo vacinação, atendimento de urgência, transporte de gestantes e continuidade do cuidado. ii. Estruturas improvisadas, como passarelas e trapiches adaptados, revelaram a intensificação de riscos de acidentes e agravos. iii. adaptações na rotina de trabalho para atender a população ribeirinha, como entregar remédios de canoa. Como desafios deste processo, destaca-se o engajamento de todos da equipe e em alguns casos problemas na conectividade de internet que fragiliza o contato dos pesquisadores com os líderes do photovoice para o apoio no compartilhamento das fotos e documentos. A partir desta experiência, está sendo conduzida uma nova etapa de photovoice a partir de prompts voltados ao cotidiano de trabalho da APS no período de cheias. Os resultados corroboram evidências de que as mudanças climáticas afetam diretamente o acesso e a organização da rede de atenção à saúde. Observa‑se a necessidade de sistemas de saúde resilientes, capazes de incorporar o clima e a sazonalidade climática como variáveis estruturantes do planejamento, gestão e cuidado. A experiência revela uma lacuna na literatura ao evidenciar especificidades amazônicas pouco consideradas na formulação de políticas públicas nacionais. Nesse sentido, o Photovoice operou como uma estratégia de vigilância popular em saúde, permitindo que profissionais da APS registrassem, interpretassem e comunicassem os efeitos da emergência climática sobre o cuidado nos territórios das águas, fortalecendo a leitura territorial dos riscos e vulnerabilidades.
Conclusões/Considerações Finais
O uso do Photovoice mostrou‑se potente para captar dimensões subjetivas, operacionais e territoriais dos impactos das mudanças climáticas no cuidado em saúde, integrando saberes locais e análise técnica. Os achados reforçam a urgência de políticas sensíveis ao território que incorporem justiça climática e fortaleçam a capacidade adaptativa dos serviços de saúde diante das dinâmicas ambientais da região. A experiência reforça o papel da Atenção Primária à Saúde como espaço estratégico de articulação entre vigilância popular, cuidado territorializado e produção de conhecimento intercultural, frente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas na Amazônia.
SABERES INDÍGENAS, VIGILÂNCIA POPULAR E EMERGÊNCIA CLIMÁTICA: EXPERIÊNCIA FORMATIVA EM TERRITÓRIO INDÍGENA
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz Ceará e DSEI-CE
2 Fiocruz Ceará
3 DSEI-CE
4 CLSI
Apresentação/Introdução
As mudanças climáticas têm impactado os territórios indígenas, afetando a Mãe Terra e os modos de vida. No semiárido cearense, esses efeitos intensificam vulnerabilidades relacionadas à água, ambiente e saúde, exigindo respostas contextualizadas. Este trabalho apresenta a experiência de uma formação em desenvolvimento, produto de uma pesquisa-ação participativa da Fiocruz Ceará, realizada com povos indígenas dos Sertões de Crateús e Inhamuns/Ce, a partir de diagnóstico participativo realizado em março e abril de 2025. Diante disso, identificou-se a necessidade de formação voltada a Agentes Indígenas de Saúde (AIS), Agentes Indígenas de Saneamento (AISAN), Agentes de Combate às Endemias (ACE) e lideranças indígenas, articulando saberes tradicionais e práticas de saúde.
Objetivos
Desenvolver processo formativo voltado à articulação entre saberes indígenas, vigilância popular em saúde e enfrentamento das emergências climáticas em território indígena
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa-ação participativa da Fiocruz Ceará, referente à formação com profissionais de saúde indígena e lideranças dos Sertões de Crateús e Inhamuns (CE), com carga horária de 48 horas. Fundamenta-se na Educação Popular, com metodologias participativas baseadas no diálogo de saberes e na interculturalidade. A formação foi organizada em três tempos: Tempo Semear (problematização), Tempo Aldeia/Comunidade (práticas territoriais) e Tempo Colheita (socialização e sistematização). O processo integra saberes indígenas e conhecimentos técnico-científicos no enfrentamento das emergências climáticas.
Resultados e Discussão
A formação fortalece práticas de cuidado, promoção e vigilância em saúde, contribuindo para o enfrentamento das vulnerabilidades frente às emergências climáticas. Qualifica profissionais de saúde e lideranças, ampliando a análise crítica e fortalecendo respostas coletivas nos territórios. Promove o diálogo entre saberes indígenas e conhecimentos técnico-científicos, potencializando ações locais e práticas interculturais de saúde.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência evidencia que, diante do agravamento das emergências climáticas, torna-se urgente a construção de respostas. A formação se mostra um caminho potente, ao fortalecer o cuidado, a vigilância Popular em saúde e o protagonismo dos sujeitos, articulando diferentes saberes na construção de respostas mais justas e enraizadas nos territórios. Reafirma-se, portanto, a importância de processos formativos interculturais que contribuam para o bem viver e para a defesa da vida frente às emergências climáticas.
VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE: CAMINHOS A SEREM TRAÇADOS E FORTALECIDOS EM TERRITÓRIOS ATINGIDOS POR BARRAGENS
Comunicação Oral Curta
1 Instituto René Rachou/Fiocruz Minas - doutoranda em saúde coletiva
2 Instituto René Rachou/Fiocruz Minas– pesquisadora em saúde pública
Apresentação/Introdução
O termo vigilância popular em saúde tem sido utilizado para definir práticas de vigilância que privilegiam o protagonismo de comunidades e movimentos sociais, podendo envolver outros atores por meio de um processo dialógico. Dessa forma, com diálogos mais horizontais nos territórios, numa perspectiva de troca de saberes, percepções e valores, contribui para potencializar as ações do Sistema Único de Saúde (SUS) frente aos vários desafios contemporâneos. O objetivo da vigilância popular em saúde não é substituir o papel do Estado, mas ampliar o entendimento dos territórios a partir da maior participação das comunidades na discussão dos problemas e na construção de estratégias de prevenção, monitoramento e avaliação. Nos territórios com atividades minerárias, a vigilância popular torna-se fundamental já a partir da entrada da mineradora, pois a atividade minerária altera muito as condições de vida no local e entorno. Apesar de termos a impressão de que o desastre é restrito ao momento em que o evento extremo ocorre, ele é composto por uma série de interações complexas, com elementos anteriores ao acontecimento e repercussões que podem se estender por vários anos. O desastre é um processo e gera efeitos muito além do tempo e do lugar de impacto imediato, afetando de forma diferente os grupos populacionais, especialmente os mais vulnerabilizados, atingindo a saúde no seu sentido amplo a partir dos impactos nos modos e condições de vida e trabalho, no meio ambiente, na economia, na cultura e nos direitos humanos.
Objetivos
Diante do referencial da educação popular em saúde e da realidade dos desastres ocorridos em Minas Gerais, este resumo tem como objetivo discutir o papel da vigilância popular em saúde como prática dialógica e horizontal nos territórios com atividades minerárias, especialmente nos contextos pós-desastres de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), visando contribuir para o fortalecimento do SUS, a participação social e a proteção de direitos humanos.
Metodologia
Trata-se de uma reflexão qualitativa, fundamentada no referencial teórico da vigilância popular em saúde, dos conflitos socioambientais e da atuação do SUS em territórios atingidos por desastres da mineração.
Resultados e Discussão
Minas Gerais possui o maior número de barragens de mineração do Brasil e teve os dois maiores desastres da nossa história: o da Samarco (Vale e BHP Billiton) em 2015, em Mariana, e o da Vale S.A. em 2019, em Brumadinho. Esses eventos demonstram a importância da participação da população por meio dos movimentos de atingidos. Fortalecer a atuação da vigilância popular no território é fundamental para criar ações de saúde que atendam às necessidades dos territórios vulnerabilizados, respeitando sua organização e modos de vida. A vigilância popular em saúde permite que as pessoas identifiquem e denunciem problemas específicos, promovendo soluções que atendam às realidades locais. Promover ações de prevenção e recuperação dos danos, reconhecendo que os riscos afetam de forma desigual determinados grupos, é uma forma de garantir a esses grupos a participação efetiva na gestão dos riscos associados às crises que o desastre da mineração proporciona.
Diante dos efeitos persistentes dos desastres da mineração, impõe-se ao setor saúde a adoção de estratégias integradas que articulem identificação e rastreamento das populações expostas, monitoramento contínuo dos padrões de saúde e das exposições ambientais, organização de frentes de atuação específicas para os atingidos e fortalecimento da capacidade de preparação e resposta a emergências. Os desastres de Mariana e Brumadinho mostraram que os riscos não se distribuem de forma homogênea, afetando desproporcionalmente territórios periféricos, populações negras, indígenas, ribeirinhas, mulheres e pessoas em vulnerabilidade socioeconômica. Diante dos riscos que se instalam e se agravam nos territórios com barragens, faz-se necessária uma gestão de riscos que vá além da resposta emergencial, demandando estratégias permanentes de monitoramento, prevenção e participação social. Essas ações devem ser sustentadas por sistemas de informação qualificados, articulação interfederativa, participação comunitária e integração entre os setores públicos, para reduzir riscos persistentes, mitigar danos acumulados e assegurar proteção efetiva à saúde no curto, médio e longo prazo.
Conclusões/Considerações Finais
A vigilância popular em saúde contribui com o SUS na prevenção, na gestão de risco e, de forma fundamental, no fortalecimento da cidadania e da democracia. Alinhada aos princípios da educação popular em saúde, a vigilância popular nos territórios atingidos por barragens se apresenta como uma importante ferramenta de controle social, enfrentamento de desigualdades e garantia de direitos humanos.
VIGILÂNCIA POPULAR NA RESIDÊNCIA MULTIPROFISSIONAL EM SAÚDE: DO MAPEAMENTO PARTICIPATIVO DO TERRITÓRIO À PRODUÇÃO DO CUIDADO EM CONTEXTOS DE EMERGÊNCIA CLIMÁTICA
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA
2 Universidade Federal do Ceará - UFC
3 Faculdade 5 de Julho - F5
4 Escola de Saúde Pública Visconde de Saboia - ESP-VS
Contextualização
A intensificação das emergências climáticas tem evidenciado os limites dos modelos tradicionais de Vigilância em Saúde, centrados em indicadores e respostas padronizadas, para compreender e intervir em territórios marcados por vulnerabilidades socioambientais. Em contextos urbanos periféricos, essas vulnerabilidades expressam a relação entre condições ambientais precárias, desigualdades sociais e processos de adoecimento. Nesse cenário, a Vigilância Popular em Saúde se apresenta como uma abordagem que valoriza o território vivido, a participação social e o diálogo de saberes na produção de informação, análise e cuidado. Ao incorporar experiências e conhecimentos locais, amplia a compreensão dos riscos e contribui para a construção de respostas mais adequadas às realidades dos territórios. É nesse contexto que se insere a experiência desenvolvida na Residência Multiprofissional em Vigilância em Saúde, no município de Sobral-CE, articulando territorialização, vigilância popular e práticas de cuidado frente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência que sistematiza a formação em serviço na Residência Multiprofissional em Vigilância em Saúde da Escola de Saúde Pública Visconde de Saboia de Sobral-CE. A territorialização constituiu o eixo estruturante do processo formativo, compreendida como prática permanente de Vigilância Popular em Saúde. Residentes, equipes da Atenção Primária com o apoio da comunidade, construíram diagnósticos situacionais e mapas participativos por meio de caminhadas no território, escuta de moradores e trabalhadores e identificação coletiva de problemas e potencialidades, ampliando a compreensão do espaço vivo para além dos sistemas oficiais.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida entre os anos de 2024 e 2025, em quatro territórios adscritos a Centros de Saúde da Família de Sobral-CE.
Objetivo
Construir leituras territoriais compartilhadas, por meio do mapeamento participativo, capazes de orientar a reorganização das práticas de vigilância e do cuidado frente às condições socioambientais e aos efeitos das mudanças climáticas nos modos de viver e adoecer.
Resultados
Os territórios analisados apresentaram elevada vulnerabilidade social, marcada pela precariedade da infraestrutura urbana e pela ocorrência de agravos associados às condições ambientais. Nos cenários da experiência, foram identificados 32 pontos críticos de acúmulo de resíduos sólidos, 18 áreas com esgoto a céu aberto em proximidade a moradias precárias, 11 locais com recorrência de alagamentos e 27 pontos com potencial para proliferação de vetores. Também emergiram situações de insegurança hídrica associadas à irregularidade do abastecimento, à ausência de rede de esgotamento sanitário e a barreiras de acesso aos serviços em períodos chuvosos. Parte significativa desses achados não estava registrada nos sistemas institucionais, evidenciando limites da vigilância baseada exclusivamente em dados secundários. As leituras territoriais compartilhadas passaram a orientar a reorganização das práticas das equipes, aproximando Vigilância em Saúde e Atenção Primária. O processo desdobrou-se em planos de intervenção territorializados, ações educativas sobre manejo seguro da água e prevenção de arboviroses, na problematização dos achados em espaços de Educação Permanente em Saúde, na qualificação das práticas de vigilância a partir dos riscos identificados e no estímulo à articulação intersetorial para o enfrentamento das condições ambientais críticas. Essas ações foram construídas de forma compartilhada com as equipes e, em alguns territórios, com participação comunitária no espaço do Conselho Local de saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
O processo de mapeamento produziu deslocamentos formativos no olhar dos residentes e das equipes, afirmando o território como espaço de produção da vida e dos riscos e qualificando a compreensão das dinâmicas socioambientais locais. A experiência fortaleceu a integração entre Vigilância em Saúde e Atenção Primária, aproximando formação, trabalho e cuidado. A escuta de moradores evidenciou contradições entre estratégias de sobrevivência cotidiana e a produção de riscos sanitários, apontando a necessidade de abordagens mais sensíveis às realidades territoriais. Os aprendizados indicaram que a vigilância popular amplia a análise crítica dos sujeitos, tensiona a fragmentação institucional, fortalece a integração intersetorial e favorece respostas mais coerentes com as necessidades locais, ao mesmo tempo em que explicita limites estruturais persistentes, sobretudo na infraestrutura urbana e na baixa capacidade de articulação entre políticas públicas. Nesse percurso, afirma-se o protagonismo dos sujeitos do território e a produção compartilhada do conhecimento, sustentando respostas territorializadas e socialmente implicadas frente às emergências climáticas e apontando caminhos comprometidos com a justiça socioambiental e a defesa da vida nos territórios.
Realização: