Programa - Comunicação Oral - CO30.1 - Vigilância popular, cuidado em saúde e interculturalidade frente a emergência climática
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE COMO ESTRATÉGIA POTENCIALIZADORA DAS AÇÕES DOS SISTEMAS DE SAÚDE FRENTE ÀS EMERGÊNCIAS DE SAÚDE PÚBLICA ASSOCIADAS ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Comunicação Oral
1 Fiocruz Ceará
2 Pesquisadora Popular – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST - Assentamento Santa Rita de Cássia II, Nova Santa Rita/RS
3 Liderança Indígena e Pesquisadora Popular – Movimento Potiguatapuia/ Monsenhor Tabosa/Ce
4 Ministério da Saúde e UECE
5 Presidência de Fiocruz /CVSLR
Apresentação/Introdução
Apresentação
As emergências climáticas têm exigido dos sistemas de saúde respostas efetivas frente a um contexto de situações extremas que tem seus impactos potencializados pela desigualdade social e pela falta de equidade nas políticas públicas.
Introdução
Temos denominado vigilância popular em saúde como práticas de vigilância com protagonismo popular na defesa da vida a partir de uma perspectiva emancipatória. Além da produção de dados com controle de todo processo, ou seja, desde a geração até a análise e implementação de ações, essa vigilância utiliza tecnologias sociais de levantamento de dados e de comunicação popular.
Objetivos
A principal pergunta dessa pesquisa é “como a Vigilância Popular em Saúde pode potencializar as ações dos sistemas de saúde diante das emergências de saúde pública associadas às mudanças climáticas?”
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa-ação-emancipatória integrada por representantes da academia, movimentos sociais, entidades, organizações comunitárias e sistemas de saúde. Foram selecionadas duas experiências: um território rural camponês do MST no Rio Grande do Sul atingido por enchente e uma aldeia indígena do Sertão do Ceará , atingida por seca e estiagem. Por meio de oficinas nacionais e territoriais realizadas até maio de 2025 foram discutidos os conceitos e práticas da Vigilância Popular diante das emergências climáticas sob a ótica dos atores envolvidos. Estratégias como círculos de cultura e mapeamento participativo contribuíram para a elaboração de planos de ação.
Resultados e Discussão
Reflexões teóricas e metodológicas realizadas em quatro oficinas resultaram no aprimoramento do projeto e na análise dos resultados. Foram produzidas reflexões e identificados o que ameaça e promove a vida nos territórios a partir de cenários de extremos climáticos nas oficinas locais. Isso foi traduzido por meio de Círculos de Cultura e mapas participativos que subsidiaram a elaboração de planos de ação para enfrentamento das emergências climáticas no território em diálogo com representantes do SUS (nível municipal, estadual e federal), lideranças comunitárias e representantes da academia. Esses achados estão servindo como base para a elaboração de um Guia de Vigilância Popular em Saúde e Emergências Climáticas. o Guia é um instrumento político-pedagógico que valoriza o protagonismo das comunidades, a diversidade de saberes e o diálogo entre povos, movimentos sociais, academia e sistemas públicos de saúde. O Guia evidencia como esses sujeitos constroem a Vigilância Popular em Saúde como estratégia para enfrentar as emergências climáticas, integrando saberes populares e científicos. Ele apresenta conceitos essenciais — como justiça climática, bem viver, determinação social da saúde, educação popular e ecologia de saberes — e os conecta às experiências e ao cotidiano dos territórios.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa trouxe inovações importantes, sobretudo o uso da cartografia social como ferramenta de integração entre os saberes tradicionais e as políticas públicas em articulação com os Círculos de Cultura. O modelo de alerta precoce baseado em tecnologias sociais e redes comunitárias demonstrou-se relevante no contexto local. Além disso, a articulação entre o SUS, os movimentos sociais e instituições de pesquisa configurou uma estratégia promissora e potencialmente replicável em outros territórios.
A construção dos planos de contingência territorializados tem a potencialidade de promover avanços na governança local, com a afirmação do princípio da consulta prévia, livre e informada para quaisquer intervenções no território e o fortalecimento dos conselhos locais e municipais, garantindo maior participação popular na formulação de políticas públicas de saúde e adaptação climática.
MODO DE VIDA E BEM VIVER NO SEMIÁRIDO: ENTRELAÇANDO O CUIDADO, A PROMOÇÃO E A VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE COM POVOS INDÍGENAS EM TEMPOS DE EMERGÊNCIA CLIMÁTICA
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ CEARÁ
2 MOVIMENTO INDIGENA POTIGATAPUIA
3 MOVIMENTO INDIGENA
Apresentação/Introdução
Apresentação: Os povos indígenas do Semiárido do Ceará buscam alternativas e soluções que reduzam os impactos da degradação ambiental em seus territórios, contribuindo com a melhoria do clima. A garantia da sobrevivência destes povos relaciona-se com a preservação dos lugares sagrados, da fauna e da flora, que dispõem das espécies utilizadas nas medicinas indígenas, na alimentação e na espiritualidade. O modo de promover, cuidar e realizar a vigilância nas aldeias indígenas, requer um modo de trabalho em saúde diferenciado, que pode ser aperfeiçoado e integrado tornando mais potente a interação entre os saberes e práticas ancestrais indígenas com os saberes e práticas atuais de cuidados da comunidade científica, em busca de outra visão de saúde, que conecte e repense a relação humana com a Mãe-Terra aproximando-nos da cosmovisão do Bem-Viver em tempos de emergência climática.
Objetivos
Objetivos: compreender os processos de vulnerabilização dos modos de vida de povos indígenas, relacionando-os às mudanças climáticas no semiárido cearense; desenvolver estratégias pedagógicas para a produção de respostas às mudanças climáticas nas dimensões do Cuidado, da Promoção e da Vigilância Popular em Saúde para o Bem Viver no Semiárido, em diálogo com saberes e práticas dos povos indígenas e do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena do Sistema Único de Saúde (SASI-SUS).
Metodologia
Metodologia: Trata-se de uma investigação-ação-participativa realizada na Serra das Matas e nos Sertões de Crateús e Inhamuns, semiárido do Ceará. Os povos que habitam as Serras das Matas, nos municípios de Monsenhor Tabosa – 4746 pessoas, Boa Viagem – 475 pessoas, Tamboril – 584 pessoas e Santa Quitéria – 50 pessoas, estão organizados em dois movimentos. O Movimento Indígena Potygatapuia organiza 28 Aldeias e o Movimento Indígena Tabajara da Serra das Matas organiza 9 Aldeias, onde estão as etnias Potyguara, Tabajara, Tubiba-tapuia e Gavião. Nos sertões de Crateús tem 18 Aldeias e são habitados pelos Potyguara, Tabajara, Tupinambá, Kalabaça e Kariri, nos municípios de Novo Oriente – 326 pessoas, Quiterianópolis – 474 pessoas e Crateús – 1847 pessoas. Há dois Polos Base de saúde implantados, gerenciados pelo DSEI-CE cuidando de 8502 pessoas num vasto território. Realizamos oficinas participativas territoriais com 81 pessoas representantes de todos estes povos, em março e abril de 2025. Identificamos as ameaças, os elementos promotores da vida e concebemos planos de ação. A pesquisa foi aprovada conforme parecer consubstanciado Nº 7513391 e parecer consubstanciado Nº 7544866, respectivamente, do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP).
Resultados e Discussão
Resultados e discussão: Abordamos os modos de vida, relacionados às mudanças climáticas no semiárido, e a relação com os Cuidados, à Promoção e à Vigilância Popular em Saúde. Foram elencados temas fundamentais que tensionam o modo de vida e a saúde no território, a seguir: a) Acesso a água e a contaminação da água; b) Impactos da mineração e dos agrotóxicos no ambiente e na saúde; c) Emergência climática e as ações para o seu enfrentamento; d) Articulação com os saberes das medicinas indígenas e os seus detentores; e) Saúde, cuidado, saúde mental e afeto sentido; f) Vigilância popular em saúde; g) Dança, interculturalidade, integração, compromisso e cuidado diante da emergência climática; h) Estratégias de compartilhamento de ideias, por meio de diálogos e debates com convidados de instituições acadêmicas, do poder público e dos movimentos para contribuir com as Aldeias. Reforçam que estes temas são prioritários para estudo e debate junto aos profissionais do SASI-SUS, lideranças indígenas e gestores de políticas para promover uma reorientação no processo de trabalho nos territórios. Desta forma desenhou-se um processo formativo e se implantou no território.
Conclusões/Considerações Finais
Considerações Finais: a emergência climática no semiárido, nos territórios indígenas, requer um novo olhar frente aos desafios, para delinear melhores formas de enfrentar as ameaças e fortalecer os elementos promotores da vida nos aspectos: histórico, cultural, espiritual, educacional, ambiental, social, econômico e de saúde. A memória e ancestralidade indígena, a luta pelos direitos, a valorização identitária, a defesa dos bens comuns da natureza entrelaça-se fortemente com as dimensões políticas e territoriais, na afirmação da necessidade da demarcação da terra, como fundamental para a garantia da saúde. O SASI-SUS é uma das políticas que está no território, devendo estimular a participação e o diálogo de saberes como fundamentais para o cuidado em saúde, centrado nas necessidades de saúde. A vigilância popular em saúde é uma estratégia dos povos indígenas para a garantia de seus direitos de cidadania, dentre estes a visão de saúde integral, intersetorial, integrada, territorializada, considerando a diversidade sociocultural, dentre outros, com vistas a reduzir as desigualdades e conviver com a emergência climática.
MAPEAMENTO PARTICIPATIVO COMO FERRAMENTA DE VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE FRENTE À EMERGÊNCIA CLIMÁTICA EM TERRITÓRIO INDÍGENA
Comunicação Oral
1 Fiocruz Ceará e DSEI-CE
2 Fiocruz Ceará
3 DSEI-CE
Apresentação/Introdução
As mudanças climáticas têm impactado os territórios e modos de vida dos povos indígenas, intensificando vulnerabilidades relacionadas à água, alimentação e saúde. No semiárido, esses efeitos se agravam, exigindo respostas que considerem as especificidades territoriais e culturais. A vigilância popular em saúde emerge como estratégia fundamental, ao valorizar o protagonismo comunitário e a produção de conhecimentos a partir da realidade vivida. Nesse contexto, o mapeamento participativo configura-se como ferramenta potente para a leitura crítica do território, permitindo identificar vulnerabilidades, potencialidades e práticas de cuidado já existentes. Este trabalho apresenta relato de experiência da construção do mapeamento participativo com povos indígenas dos Sertões de Crateús (CE), como instrumento de fortalecimento da vigilância popular em saúde frente à emergência climática.
Objetivos
Construção do mapeamento participativo com povos indígenas dos Sertões de Crateús (CE) como instrumento de fortalecimento da vigilância popular em saúde frente à emergência climática.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa ação liderada pela Fiocruz/CE que utilizou como uma de suas técnicas de pesquisa a elaboração de um mapeamento participativo, , realizado na aldeia Realejo, nos Sertões de Crateús (CE), com a participação de 29 indígenas das etnias Potiguara, Tabajara, Kalabaça, Kariri e Tupinambá. A oficina foi conduzida com base na Educação Popular em Saúde, a partir da problematização da realidade territorial. Os participantes foram organizados em grupos por município e, por meio da reflexão coletiva, identificaram os elementos que ameaçam e os que promovem a vida no território. Esses elementos foram materializados por meio da construção do mapa participativo, com desenhos em pano, nos quais foram representados o que ameaça a vida, o que promove a vida, as práticas de saúde e as práticas de vigilância frente às mudanças climáticas. A partir desse mapeamento e do diagnóstico construído coletivamente, foi elaborado um plano de ação com estratégias voltadas ao enfrentamento das vulnerabilidades identificadas no território.
Resultados e Discussão
O mapeamento participativo possibilitou a construção de um diagnóstico do território, evidenciando impactos das mudanças climáticas na vida e na saúde dos povos indígenas do semiárido. Entre as principais ameaças destacaram-se a escassez de água, a precariedade do saneamento e seus efeitos na saúde, incluindo agravamento de doenças e impactos na saúde mental, além das dificuldades no acesso aos serviços de saúde. O processo também fortaleceu o trabalho das equipes de saúde indígena, ampliando o diálogo com a comunidade. Como elementos promotores da vida, destacaram-se a medicina indígena, os saberes tradicionais, o vínculo com o território e a organização comunitária. O mapeamento favoreceu a leitura crítica da realidade e subsidiou a construção de um plano de ação com estratégias para enfrentamento dos problemas prioritários, consolidando-se como instrumento de vigilância popular em saúde.
Conclusões/Considerações Finais
O mapeamento participativo demonstrou ser uma estratégia potente para o fortalecimento da vigilância popular em saúde em territórios indígenas, ao possibilitar a leitura crítica da realidade, a identificação de vulnerabilidades e a valorização das potencialidades locais. Ao integrar saberes indígenas, experiências vividas e práticas coletivas, o processo contribuiu para o fortalecimento do protagonismo comunitário, do cuidado em saúde e da articulação entre as equipes de saúde e a comunidade no enfrentamento das mudanças climáticas. Além disso, evidenciou que a medicina indígena, os vínculos com o território e as formas coletivas de organização são fundamentais para a proteção da vida e para a construção de respostas mais contextualizadas e eficazes frente à emergência climática. Dessa forma, o mapeamento participativo se consolida como uma ferramenta estratégica para a produção de conhecimento, o planejamento de ações e o fortalecimento de práticas de cuidado baseadas no bem viver, reafirmando a importância de metodologias participativas e interculturais no campo da saúde.
PESQUISA CIDADÃ, VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE E COMUNIDADES ATINGIDAS POR BARRAGENS EM MUNICÍPIOS BRASILEIROS
Comunicação Oral
1 Fiocruz Pernambuco
2 Fiocruz Minas Gerais
3 VPAAPS/FIOCRUZ
4 Fiocruz
Apresentação/Introdução
Este relato trata sobre reflexões acerca do desenvolvimento da pesquisa intitulada “Saúde e Direitos Humanos: vigilância popular e participativa em saúde e ambiente, nos territórios atingidos por barragens”. O estudo fundou-se em 2025 e, tem sido desenvolvido por meio da cooperação técnica entre a Fundação Oswaldo Cruz, a partir da Vice-presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde, e o Movimento dos Atingidos por Barragens no Brasil. O projeto tem como finalidade a formação de uma rede de vigilância popular em saúde e ambiente, pela defesa da saúde e dos territórios atingidos. Para o fomento desta rede, planejou-se a realização de um diagnóstico participativo da situação sanitária e um processo formativo de lideranças, em 5 municípios, até o momento foi realizado em: Canoas (RS); Cametá (PA); Jequié (BA). O estudo encontra-se em finalização desta etapa, os resultados parciais tratados referem-se às repercussões dos modos de fazer assumidos por pesquisadores populares e institucionais; às implicações da participação popular na execução da pesquisa para aproximação à realidade social; ademais, aos elementos constituintes para a formação da rede de vigilantes.
Objetivos
Discutir os resultados oriundos da pesquisa Saúde e Direitos Humanos: vigilância popular e participativa em saúde e ambiente, nos territórios atingidos por barragens, em Canoas, Cametá e Jequié.
Metodologia
Pesquisa qualitativa executada a partir de diagnóstico participativo, por meio de entrevistas individuais, com questionário semiestruturado adaptado à realidade municipal dos territórios participantes. Cada versão do questionário respeitou pesquisa bibliográfica prévia e clipping das principais notícias sobre os municípios em canais de informação selecionados. Todas as entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas segundo a técnica de análise de conteúdo. Declara-se que a pesquisa apresenta uma governança participativa, constituída de um grupo principal de cerca de 8 pesquisadores oriundos do MAB e seis vinculados à Fiocruz; um grupo de comunicadores sociais e cinco equipes de apoio executivo nos territórios participantes. Por isso, todas as decisões referentes aos procedimentos metodológicos foram explicitadas, discutidas e ajustadas conforme as demandas socioterritoriais das pessoas atingidas.
Resultados e Discussão
A participação das pessoas atingidas nas diferentes etapas da pesquisa revelou particularidades socioterritoriais, que diferenciam as realidades encontradas em cada município. Contudo, esses contextos confluem a partir das águas, sobretudo quanto ao papel do ciclo hidrossocial nas condições de saúde das comunidades, considerando desigualdades estruturais e as interferências dos interesses do capital na gestão da água, localmente, incidindo enquanto determinação socioambiental no processo saúde-adoecimento. Em Canoas, a produção social do espaço urbano negligencia os caminhos dos rios que atravessam a região, resultando em alagamentos e enchentes constantes em períodos chuvosos, até culminar na tragédia de 2024. As águas do rio Tocantins, em Cametá, aprisionadas há décadas pela Barragem de Tucuruí enfrenta nova rodada de vulnerabilizações socioambientais a partir do projeto de construção da hidrovia Tocantins-Araguaia, para escoamento de grãos do agronegócio oriundo do MATOPIBA. Por fim, as águas represadas do rio de Contas pela Barragem da Pedra, foram liberadas sem aviso na noite de Natal, causando tragédia em Jequié, especialmente para famílias assistidas pelo Programa Minha Casa minha Vida. A adoção da pesquisa cidadã privilegia o protagonismo popular no que tange ao acúmulo das experiências do cotidiano nos territórios. Respeita e guia-se pelas percepções comunitárias sobre a incidência das modificações socioterritoriais nos corpos e na saúde, entendendo que as comunidades produzem constantemente saberes situados, que podem contribuir para a identificação e enfrentamento de processos de adoecimento particulares. No contexto da crise climática, a presença das barragens surge como ponto de atenção nos territórios para eventuais tragédias, decorrentes da operação deste maquinário no limite dos níveis comportados pelos reservatórios, especialmente o funcionamento das comportas e dos sistemas de drenagem. Os saberes acumulados e as experiências com as repercussões negativas oriundas do ciclo hidrossocial das águas demonstram o fortalecimento do vínculo comunitário e do monitoramento territorial, influenciados pela insuficiência da ação reparatória governamental, com a intenção de reduzir os riscos aos quais estão historicamente expostos.
Conclusões/Considerações Finais
Tendo em vista os danos psicossociais e sanitários que recaem nas comunidades participantes, a vigilância popular em saúde encontra potencialidade de atuação para a proteção da vida. Por não ser neutra, dá conta da identificação das determinações que atingem as populações, provocando mobilização política para denunciar e protegerem-se das injustiças socioambientais e sanitárias contidas nos territórios atingidos.
VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE E COMUNICAÇÃO SOBRE AGROTÓXICOS NA AMAZÔNIA: RELATO DE EXPERIÊNCIAS EM TERRITÓRIOS DO OESTE DO PARÁ
Comunicação Oral
1 UFOPA
Contextualização
A expansão do agronegócio de grãos na Amazônia, especialmente no oeste do Pará, tem intensificado o uso de agrotóxicos e produzido impactos na saúde e nos modos de vida de populações do campo, das águas e da floresta. Nesse contexto, tem se observado subnotificação de intoxicações nos sistemas oficiais, evidenciando limites da vigilância institucional e a necessidade de fortalecimento da vigilância popular participativa.
Descrição
Este trabalho consiste em um relato de experiência vinculado aos projetos de extensão Vigilância Popular em Saúde em Populações do Campo, das Águas e da Floresta Afetadas pelo Agronegócio de Grãos no Oeste do Pará (VigipopPA) e Comunica! Estratégias e Ferramentas para Vigilância em Saúde contra os Agrotóxicos, com atuação em escolas e comunidades de Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos.
No âmbito do VigipopPA, foram realizadas atividades educativas em uma escola de Belterra e, em parceria com projeto de pesquisa, visitas às comunidades de Jatobá e Aldeia Açaizal, com acompanhamento de entrevistas junto a moradores, especialmente agricultores e agricultoras familiares. Nos encontros, foram compartilhados relatos sobre exposição aos agrotóxicos, sintomas, condições de vida e conhecimento sobre notificação de agravos.
No âmbito do projeto Comunica!, desenvolvem-se estratégias de comunicação em saúde juntamente com uma estudante de ensino médio, com foco na tradução de conhecimentos científicos para uma linguagem acessível à população. Artigos científicos, dossiês, relatórios técnicos e outros materiais sobre impactos dos agrotóxicos na saúde são estudados e adaptados para formatos acessíveis, como posts para redes sociais, cartilhas e outros materiais educativos. As produções são orientadas pelas demandas dos territórios e visam facilitar a compreensão das informações, ampliando o alcance do conhecimento científico para públicos não acadêmicos, além de subsidiar processos de devolutiva às comunidades.
Período de Realização
O projeto VigipopPA foi desenvolvido de julho de 2023 a junho de 2024 e o projeto Comunica! encontra-se em andamento e teve início em setembro de 2025.
Objetivo
Refletir sobre a construção de práticas de vigilância popular em saúde articuladas à comunicação acessível, a partir do diálogo de saberes, da escuta territorial e da tradução do conhecimento científico para diferentes públicos.
Resultados
As visitas na escola e nos territórios revelaram a presença cotidiana da exposição aos agrotóxicos, percebidos de diferentes maneiras pelas pessoas. Em ambiente escolar, estudantes relataram cheiro de veneno durante as aulas, além de sintomas como irritação ocular, dor de cabeça e dificuldade de concentração, sendo, por vezes, liberados devido à pulverização em horário letivo.
Nas comunidades, destacam-se sinais e sintomas de intoxicações, prejuízos às roças e criação de animais, contaminação ambiental, conflitos territoriais, ameaças a lideranças e restrições ao uso de espaços coletivos.
No âmbito do projeto Comunica!, destaca-se como resultado a produção de materiais educativos em linguagem acessível baseados no estudo do dossiê Danos dos Agrotóxicos na Saúde Reprodutiva e artigo sobre efeitos negativos dos agrotóxicos na audição de escolares. Espera-se que essas estratégias contribuam para que as populações compreendam os riscos associados à exposição aos agrotóxicos, reconheçam seus direitos e fortaleçam sua capacidade de atuação nos processos de vigilância em saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
Destaca-se a centralidade da escuta e do reconhecimento dos saberes locais para compreensão ampliada do processo saúde-doença. A experiência evidenciou limites da comunicação científica tradicional e a importância de desenvolver estratégias acessíveis para fortalecer a autonomia comunitária e a vigilância em saúde.
A análise crítica aponta que a vigilância institucional, centrada em agravos biologicamente identificáveis, não abarca dimensões sociais, ambientais e subjetivas do adoecimento. Nesse sentido, a vivência extensionista também impulsionou a elaboração de dois trabalho de conclusão no curso de Bacharelado Interdisciplinar em Saúde, sendo um deles intitulado “Impactos dos agrotóxicos em escolares no Brasil (2015-2025): revisão integrativa da literatura”, evidenciando a necessidade de aprofundar a compreensão sobre como a exposição afeta crianças e adolescentes em ambiente escolar.
Assim, a vigilância popular em saúde, articulada à comunicação acessível, emerge como ferramenta potente de visibilização, denúncia e construção de respostas contextualizadas frente aos impactos do agronegócio e à emergência climática.
Realização: