Programa - Comunicação Oral - CO9.2 - Estamos aqui, estamos aí: A educação popular se estabelece como prática e ação.
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
EDPOPCONSELHOS: EXPERIÊNCIA DE FORMAÇÃO DOS CONSELHEIROS MUNICIPAIS DE SAÚDE DE SÃO CRISTÓVÃO
Comunicação Oral
1 Fiocruz Brasília
2 Conselho Municipal de Saúde de São Cristóvão
3 Universidade Federal de Sergipe
4 Instituto Ageu Magalhães / Fiocrz / PE
5 Instituto de Saúde Coletiva / UFBA
Contextualização
O fortalecimento do controle social constitui um dos fundamentos estruturantes do Sistema Único de Saúde (SUS), ao reconhecer a participação popular como princípio organizativo e condição para a democratização da gestão pública. Entretanto, a efetivação dessa participação para além da formalidade institucional ainda representa um desafio nos contextos municipais, onde os Conselhos de Saúde frequentemente oscilam entre o cumprimento normativo de suas atribuições e a construção de práticas deliberativas críticas, autônomas e territorializadas. Nesse cenário, a Educação Popular em Saúde apresenta-se como horizonte político-pedagógico capaz de tensionar modelos verticalizados de gestão e fomentar processos participativos mais dialógicos, inspirados na pedagogia freireana.
Descrição
Foram realizados seis encontros formativos, totalizando 24 horas de carga horária. Entre os temas trabalhados destacam-se: Educação Popular como política de saúde; território, ancestralidade, cultura e saúde; vigilância popular em saúde; cartografia social; comunicação popular em saúde; e um encontro final destinado à sistematização da experiência, à avaliação do processo formativo e à identificação de necessidades de educação permanente para o fortalecimento do controle social. Ao longo das oficinas foram identificados diversos desafios relacionados ao funcionamento do conselho, entre os quais se destacam dificuldades na análise dos instrumentos de planejamento e gestão em saúde; baixa indução à participação social e à renovação de seus integrantes; canais de diálogo com a comunidade restritos à ouvidoria; inexistência de Conselhos Locais de Saúde; tensões entre autonomia política e dependência técnica; assimetrias micropolíticas, nas quais o saber técnico tende a ocupar posição hierárquica em relação ao saber popular; atuação predominantemente orientada por uma lógica documental e burocrática; compreensão limitada da Educação Popular em Saúde; e baixo entendimento acerca das políticas de saúde em execução.
Período de Realização
A experiência foi realizada entre julho de 2025 e janeiro de 2026, junto a conselheiros municipais de saúde do município de São Cristóvão, Sergipe, configurando-se como um percurso formativo orientado pelos pressupostos da abordagem qualitativa e ancorado na prática reflexiva do controle social.
Objetivo
Relatar a experiência de educação permanente realizada com os conselheiros municipais de saúde de São Cristóvão orientados pelos princípios da Educação Popular em Saúde;
Refletir criticamente sobre as tensões, saberes e estratégias coletivas construídas durante o processo de intervenção junto com os conselheiros/as de saúde, com vistas a apontar caminhos para o fortalecimento da gestão participativa e a democratização das políticas de saúde locais.
Resultados
Os resultados indicam que processos formativos inspirados na Educação Popular podem contribuir para ampliar a reflexão crítica dos conselheiros acerca de seu papel político e fortalecer práticas de participação social mais territorializadas. Além disso, os desafios identificados ao longo do processo educativo foram incorporados como temas de Educação Permanente em Saúde (EPS) e incluídos no Plano Municipal de Educação na Saúde. Destaca-se que, pela primeira vez, os conselheiros passaram a propor temas para sua própria formação, anteriormente, sua participação limitava-se ao recebimento de diárias para atividades, sem envolvimento direto na construção de um plano de EPS voltado a eles.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência reforça a importância da construção de propostas educativas estruturadas, desenvolvidas de forma dialógica e compartilhada com os sujeitos envolvidos, configurando-se como exercício de coautoria entre pesquisadora e conselheiros, de modo a assegurar que as estratégias formativas respondam às demandas reais do controle social e contribuam para o fortalecimento da gestão participativa no âmbito do SUS.
EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE E PRODUÇÃO DO CUIDADO NO TERRITÓRIO ESCOLAR: EXPERIÊNCIA COM ADOLESCENTES EM ESCOLA PÚBLICA DE RECIFE/PE
Comunicação Oral
1 UFPE
Contextualização
Relato de atividade de extensão popular em turma de nono ano de escola pública da comunidade de Roda de Fogo, Recife/PE. Território marcado por precariedade de infraestrutura, violência, desigualdades de gênero e resistência ao estudo, mas também por potencialidades culturais e comunitárias.
Descrição
A experiência articula universidade e escola pelos princípios da Vigilância e da Educação Popular em Saúde, a partir da compreensão dos problemas que afetam as populações mais vulnerabilizadas e das iniciativas para enfrentá-los. A estratégia de intervenção foi definida coletivamente com atores comunitários, que indicaram o ambiente escolar como o espaço mais eficaz de alcance territorial. As atividades, mediadas por extensionistas ao longo de 2025, ocorreram por meio de oficinas presenciais, rodas de conversa, dinâmicas interativas e visitas pedagógicas, pautadas na construção participativa e dialógica com os estudantes, a partir de temas emergentes de suas vivências.
Período de Realização
O projeto em curso com as oficinas aqui relatadas desenvolvidas ao longo de 2025.
Objetivo
Compreender como o vínculo, o afeto e o cuidado podem contribuir para a redução das vulnerabilidades sociais.
Resultados
As ações seguiram uma progressão intencional, da reflexão sobre si para a consciência relacional e, desta, para o debate sobre direitos e cuidado com o corpo.
A primeira oficina utilizou a metodologia Roda da Vida, aliada a desenhos, colagens e dinâmicas de interação, mobilizando dimensões afetivas, cognitivas e sociais para que os estudantes mapeasse sua própria realidade e refletissem sobre seus desejos e metas, sem imposição de modelos de projeto de vida, reconhecendo que jovens constroem perspectivas de futuro a partir de condições materiais e simbólicas muito específicas.
A segunda atividade conduziu os estudantes ao cinema da UFPE para assistir um filme e debater coletivamente sobre sexualidade, afetividade, homossexualidade, capacitismo e bullying. A escolha foi simultaneamente pedagógica e política, uma vez que, muitos estudantes nunca haviam acessado o campus universitário, apesar de viverem em seu entorno. O audiovisual operou como dispositivo disparador de reflexões ao deslocar o foco da experiência individual para uma narrativa compartilhada, ampliando as condições para o diálogo e para a construção coletiva de sentidos sobre temas atravessados por silenciamentos, estigmas e dificuldades de verbalização no cotidiano.
A terceira oficina aprofundou a dimensão relacional por meio da Espiral da Convivência, na qual cada estudante mapeou suas relações consigo mesmo, com a família, com a escola e com a comunidade, identificando práticas a iniciar e a modificar. A metodologia operou na interface entre autoconhecimento e consciência relacional, sustentada pela compreensão de que o cuidado com o outro começa pelo cuidado consigo mesmo, direcionando-se à agência dos sujeitos em coerência com a intencionalidade dialógica e problematizadora da experiência.
A quarta oficina articulou a escuta das vivências dos estudantes com informações sobre direitos sexuais e reprodutivos e prevenção de ISTs, utilizando o jogo Previnix como dispositivo lúdico. O uso do jogo também buscou romper a assimetria entre quem sabe e quem aprende, criando condições para que o conhecimento circulasse de forma horizontal.
Aprendizado e Análise Crítica
O planejamento progressivo das oficinas revelou que cada etapa prepara o terreno afetivo e reflexivo para a seguinte, sendo o vínculo uma condição de possibilidade e não apenas um efeito das intervenções. A crescente participação dos estudantes, a ampliação do repertório crítico e a maior segurança na expressão pessoal evidenciam que o vínculo não é apenas meio para a redução de vulnerabilidades, mas também uma forma de cuidado e expressão concreta da Educação Popular em Saúde nos territórios.
A articulação entre universidade e escola mostra-se potente quando orientada pela Extensão Popular, não como transferência de conhecimento, mas como construção conjunta, na qual o território é reconhecido como espaço vivo de resistência e produção de cuidado. Vulnerabilidades simbólicas, como o não pertencimento ao espaço universitário, demandam atenção tão urgente quanto às vulnerabilidades materiais. Desse modo, o deslocamento territorial produziu um efeito de pertencimento que é, em si, uma forma de redução de vulnerabilidade frequentemente invisibilizada nas intervenções em saúde. Da mesma maneira, tratar a sexualidade como dimensão constitutiva da vida afetiva e social constitui um ato de reconhecimento da dignidade e autonomia dos sujeitos. Assim, a participação crescente e o fortalecimento dos vínculos observados ao longo das oficinas não são apenas resultados, mas condições progressivamente construídas pela própria metodologia, pois sem afeto, escuta e confiança, nenhuma das reflexões propostas teria encontrado terreno fértil.
ENTRE PLANTAS E ENCONTROS: EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE E TROCA DE SABERES NA CONSTRUÇÃO DE HORTO MEDICINAL NA APS
Comunicação Oral
1 UFOP
2 UFBA
Contextualização
A Atenção Primária à Saúde (APS), como coordenadora do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS), constitui-se como espaço estratégico para práticas que articulem saberes técnicos e tradicionais. Contudo, a hegemonia do modelo biomédico e do sistema econômico neoliberal intensificam ininterruptamente a medicalização da vida e o epistemicídio de saberes tradicionais, silenciando práticas como o uso de plantas medicinais. Nesse contexto, a Educação Popular em Saúde configura-se como abordagem teórico-metodológica potente, ao promover o diálogo de saberes, a valorização do território e a participação comunitária na produção do cuidado. O município de Ouro Preto (MG), marcado por diversidade sociocultural e permanência de práticas tradicionais, constitui o território deste relato.
Descrição
A experiência consistiu na realização de rodas de troca de saberes sobre plantas medicinais em uma Unidade Básica de Saúde, envolvendo usuários, profissionais e residentes de Medicina de Família e Comunidade. Os encontros, orientados pelos princípios da Educação Popular em Saúde e inspirados no Círculo de Cultura freiriano, priorizaram a horizontalidade, a escuta ativa e a definição coletiva de temas.
Período de Realização
A experiência teve início em agosto de 2025 até fevereiro de 2026.
Objetivo
Analisar como as rodas de troca de saberes sobre plantas medicinais contribuíram para a produção do cuidado em saúde, evidenciando processos de construção coletiva do conhecimento, circulação de saberes tradicionais e fortalecimento da autonomia terapêutica no território.
Resultados
Foram realizados seis encontros, com participação predominante de mulheres idosas, evidenciando sua centralidade na transmissão de saberes tradicionais. As rodas configuraram-se como espaço de legitimação de conhecimentos historicamente invisibilizados, favorecendo a circulação de experiências e a construção coletiva de estratégias de cuidado. Observou-se fortalecimento da autonomia terapêutica, maior segurança no uso das plantas e ampliação do repertório de práticas de autocuidado. As rodas também promoveram vínculo, pertencimento e produção do comum em saúde, entendida como compartilhamento de saberes, mudas e práticas no território. Como desdobramento, iniciou-se a construção de um horto medicinal na unidade, articulado por meio da mobilização comunitária e de parcerias intersetoriais. Sua implantação, expansão e manutenção vêm sendo conduzidas de forma compartilhada entre a equipe de saúde e a população da UBS, materializando no território os conhecimentos produzidos coletivamente.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia que as rodas de troca de saberes constituem um potente dispositivo de Educação Popular em Saúde, ao promover a construção coletiva do conhecimento, valorização de saberes tradicionais e fortalecimento da autonomia terapêutica. O horto medicinal emerge como expressão concreta desse processo, articulando cuidado, território e cultura. Contudo, desafios relacionados à infraestrutura e ao financiamento apontam limites na institucionalização da fitoterapia no SUS. Tais experiências sinalizam a potência de práticas contra-hegemônicas, culturalmente situadas e ancoradas em saberes ancestrais, contribuindo para a promoção da integralidade e para o fortalecimento de um SUS mais participativo e com controle social.
ESCOLA CIDADÃ: EDUCAÇÃO MIDIÁTICA E COMUNICAÇÃO EM SAÚDE COMO ESTRATÉGIA DE PROMOÇÃO DA SAÚDE E EXERCÍCIO DA CIDADANIA EM TERRITÓRIOS DO DISTRITO FEDERAL
Comunicação Oral
1 UnB
Contextualização
A complexidade dos desafios contemporâneos em saúde, intensificada no período pós-pandemia de Covid-19, evidencia a necessidade de estratégias integradas que articulem educação, comunicação e participação social. Nesse contexto, a educação midiática e informacional em saúde destaca-se como ferramenta para o enfrentamento das desigualdades, da desinformação e para o fortalecimento da cidadania em territórios socialmente vulneráveis.
Descrição
O Projeto Escola Cidadã, desenvolvido pela Universidade de Brasília, consistiu em uma iniciativa extensionista voltada à promoção da saúde e ao exercício da cidadania por meio de ações de informação, educação e comunicação em saúde. As atividades foram estruturadas a partir da metodologia de pesquisa-ação, com caráter participativo e territorial, incluindo oficinas de educação midiática, produção de conteúdos, cursos formativos e articulação com escolas, unidades de saúde e organizações comunitárias. O projeto foi organizado em subprojetos vinculados a programas de extensão, orientados pela escuta ativa, valorização dos saberes locais e uso de tecnologias de comunicação.
Período de Realização
De 2023 a 2024.
Objetivo
Analisar a experiência do Projeto Escola Cidadã na promoção da saúde e da cidadania, por meio de estratégias de educação midiática, informação e comunicação em saúde em territórios do Distrito Federal.
Resultados
As ações envolveram 123 participantes diretos entre estudantes, docentes e pesquisadores, e mobilizaram mais de 1.400 participantes da comunidade, incluindo estudantes, professores, agentes comunitários de saúde e moradores dos territórios. Observou-se o fortalecimento do engajamento comunitário, ampliação da circulação de informações em saúde e desenvolvimento de produtos educativos, como jogos, materiais comunicacionais e atividades formativas. Destaca-se a formação de redes locais de colaboração e o fortalecimento da articulação entre universidade, serviços de saúde e comunidade.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou o potencial das metodologias participativas e da educação midiática como estratégias para o fortalecimento do letramento em saúde e enfrentamento da desinformação. Reforçou-se a importância da atuação territorializada, intersetorial e da formação de sujeitos críticos e protagonistas na produção e circulação de informações em saúde. O projeto dialoga com referenciais da educação popular em saúde, educomunicação e tradução do conhecimento, ao promover práticas participativas e contextualizadas. Entretanto, foram identificados desafios relacionados à complexidade da articulação intersetorial, à sustentabilidade das ações nos territórios e às desigualdades estruturais que impactam o acesso à informação e à participação social.
ESCOLA NACIONAL POP RUA: O APOIO INSTITUCIONAL E A EDUCAÇÃO POPULAR ENQUANTO FERRAMENTAS DO TRABALHO INTERSETORIAL COM A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA
Comunicação Oral
1 Fiocruz Brasília / NUPOP
Contextualização
O Colaboratório Nacional Pop Rua é um projeto de construção coletiva que surge a partir das discussões da Frente Parlamentar Pop Rua, da Câmara Federal, com participação de diversos movimentos sociais, com destaque para o Movimento Nacional de População em Situação de Rua e a Clínica Luiz Gama (Departamento de Direito - USP).
A partir das discussões do GT Pop Rua foi proposto, para ser financiado via emenda parlamentar, um Colaboratório que possa acompanhar as políticas públicas para a população em situação de rua (PSR), qualificar os trabalhadores que atuam com esta população e formar os movimentos sociais, para incidir no campo político, referente à garantia de direitos.
Tendo em vista o acúmulo do Núcleo de Estudos de População em Situação de Rua – NuPop Fiocruz Brasília – com pesquisas no campo, com atividades de ensino, pesquisa e extensão, atuando com outros projetos, em âmbito nacional, que envolvem e atuam com a PSR. Neste contexto, o NuPop foi indicado para a construção e condução do Colaboratório.
O Colaboratório Nacional de População em Situação de Rua tem como objetivos: (1) construir e operar estratégias de acompanhamento das Políticas Públicas específicas para a população em situação de rua - PSR (em âmbito nacional e regional); (2) qualificar pessoas com trajetória de rua no âmbito político (participação social), fomentando e fortalecendo o controle social e; (3) fomentar e apoiar estratégias de qualificação dos serviços e equipes que atuam com a PSR.
Descrição
A Escola Nacional Pop Rua é parte do Colaboratório Nacional Pop Rua e atua diretamente no fortalecimento e qualificação dos movimentos sociais que representam e atuam com a população em situação de rua. É formada por 7 profissionais (coordenação, professores e pessoas com trajetória de rua). Sua atuação é itinerante e opera a partir de oficinas volantes (em todo o território nacional) em espaços onde a PSR está, tendo como fundamento a educação entre pares.
Período de Realização
Agosto de 2024 a maio de 2025.
Objetivo
Apresentar a experiência de trabalho da Escola Nacional Pop Rua, suas ações e metodologias, no trabalho com a população em situação de rua.
Resultados
No período entre março de 2023 e março de 2026, a Escola realizou formações no DF (Plano Piloto e Taguatinga), Curitiba, São Paulo, Salvador, Goiânia, Campo Grande, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Natal, Manaus, Belém mobilizando e qualificando aproximadamente 2.000 pessoas.
Aprendizado e Análise Crítica
Entre as metodologias utilizadas pela Escola Nacional Pop Rua estão o Teatro do Oprimido, Rodas de Conversa, Oficinas com diferentes temáticas, todas as metodologias estão baseadas na Educação Popular e na Educação Entre Pares. Neste contexto, as atividades da Escola com os movimentos sociais são construídas integralmente com a participação das pessoas com trajetória de rua, dos territórios nos quais as atividades acontecem.
As ações da Escola Nacional Pop Rua valem-se também da lógica do Apoio Institucional, considerando o desenho e as responsabilidades federativas, o papel da sociedade civil e das políticas públicas. Assim, o trabalho de formação realizado favorece que as políticas públicas e os atores e instituições participantes, possam transversalizar conhecimentos, práticas e leituras políticas, fortalecendo a autonomia da PSR.
PEDAGOGIA DO CUIDADO, EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE E SITUAÇÕES-LIMITE NAS NARRATIVAS DE PESSOAS QUE VIVEM COM DIABETES
Comunicação Oral
1 EPSJV/FIOCRUZ
2 IESC/UFRJ
3 UFRJ
Apresentação/Introdução
A pesquisa "Pedagogia do Cuidado por meio de Narrativas: a educação em diabetes em pauta" insere-se no campo da Saúde Coletiva e dialoga com a Educação Popular em Saúde ao problematizar os limites das abordagens técnico-informativas que ainda predominam na educação em diabetes. Em lugar de uma pedagogia bancária, centrada na prescrição de condutas e na culpabilização individual pelo manejo da doença, a investigação aposta numa perspectiva freiriana fundada na práxis, na dialogicidade, na leitura crítica da realidade e na valorização dos saberes e experiências de vida Nessa chave, as narrativas permitem apreender o diabetes não apenas como condição biomédica, mas como experiência vivida e situada em territórios concretos, relações familiares, redes comunitárias e desigualdades sociais que condicionam tanto o adoecimento quanto as possibilidades de cuidado. O estudo se aproxima do CT 09 ao compreender a Educação Popular como teoria-prática comprometida com o protagonismo dos sujeitos na tessitura do cuidado e na construção compartilhada do conhecimento.
Objetivos
Compreender como situações-limite, presentes nas narrativas de pessoas com diabetes, podem fundamentar uma Pedagogia do Cuidado orientada pela Educação Popular em Saúde.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa de cunho interpretativo, ancorada nos referenciais do Cuidado, da pedagogia crítica freiriana, das narrativas em saúde como abordagem teórico-metodológica e da hermenêutica narrativa. O projeto foi registrado na Plataforma Brasil com o número de CAAE: 73630923.3.0000.5286 e o campo vem sendo desenvolvido em duas unidades básicas de saúde do município do Rio de Janeiro, articulando entrevistas narrativas, grupos de conversa, estratégias de mobilização de participantes nos serviços e reuniões sistemáticas do grupo de pesquisa para leitura e análise coletiva do material. Desde 2025, o grupo acumulou cerca de vinte entrevistas e avançou na reescrita de histórias, na discussão de devolutivas e na elaboração de produtos educativos. Paralelamente, encontra-se em andamento uma frente de pesquisa bibliográfica sobre situações-limite, combinando leitura da obra de Paulo Freire e busca estruturada em bases como a Biblioteca Virtual em Saúde, a SciELO e o repositório Arca Fiocruz.
Resultados e Discussão
As análises em curso indicam que as situações-limite associadas ao viver com diabetes extrapolam o adoecimento em si e remetem a experiências de luto, violência, sobrecarga de cuidado, insegurança material, medo do uso da insulina, memórias familiares de amputação e morte, e às tensões entre prescrições biomédicas e os arranjos cotidianos de autocuidado que os sujeitos constroem em suas condições concretas de vida. Nas discussões do grupo de pesquisa, esses achados vêm sendo articulados a noções freirianas como situações-limites, inédito viável e ser mais, evidenciando a potência dessas categorias para a leitura crítica da experiência do adoecimento crônico. A análise das entrevistas tem revelado, ainda, que o viver com diabetes se produz em diálogo com a religiosidade, os vínculos comunitários, o trabalho, o gênero e a raça, dimensões que não são periféricas ao cuidado, mas constitutivas das formas como os sujeitos se relacionam com a doença, com os serviços e consigo mesmos. Isso reafirma a exigência de uma educação em saúde que parta de onde os sujeitos estão e do modo como leem o próprio mundo, recusando abordagens que tomam o não cumprimento das prescrições médicas como falha individual. Nesse movimento, a busca bibliográfica em andamento contribui para adensar o conceito de situações-limite e ancorá-lo ao campo da saúde, ao passo que a revisão sobre educação em diabetes, alimentação, problematização e Paulo Freire reafirma a pertinência e a atualidade de uma abordagem não prescritiva, comprometida com a construção compartilhada do conhecimento e do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
O percurso da pesquisa reforça a potência da Educação Popular em Saúde como fundamento ético, político e metodológico para repensar a educação em diabetes, principalmente, no SUS. Ao deslocar o foco da transmissão de informações para a escuta das histórias, para a leitura crítica da realidade e para a identificação compartilhada das situações-limite, a Pedagogia do Cuidado afirma a centralidade dos sujeitos, dos territórios e dos saberes populares na produção do cuidado. O material já produzido a partir do campo delineia uma contribuição relevante para o fortalecimento de práticas educativas mais dialógicas, interculturais e socialmente implicadas que tomam os sujeitos como protagonistas da construção do seu próprio cuidado.
Realização: