Programa - Comunicação Oral - CO9.1 - Educação popular nos territórios de resistencia e lutas populares
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ACOLHIMENTO INTERCULTURAL NA UNIDADE DE RETAGUARDA HOSPITALAR INDÍGENA: RELATO DE EXPERIÊNCIA NA MEDIAÇÃO DO CUIDADO EM SAÚDE
Comunicação Oral
1 UFRR
Contextualização
A Unidade de Retaguarda Hospitalar dos Povos Indígenas (URHPI), vinculada ao Hospital Universitário da Universidade Federal de Roraima (HU-UFRR), constitui uma ferramenta importante para a garantia do cuidado em saúde com equidade e respeito às especificidades socioculturais. Contudo, a persistência de barreiras linguísticas, culturais e epistemológicas entre profissionais de saúde e pacientes indígenas compromete o acolhimento, o vínculo terapêutico e a adesão ao tratamento. Tal cenário evidencia limites do modelo biomédico quando desarticulado dos contextos culturais. Nesse sentido, a atuação de estudantes indígenas como mediadores interculturais configura-se como estratégia fundamental, alinhada à Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas e à Educação Popular em Saúde, ao promover o diálogo de saberes.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência qualitativo, fundamentado na análise fenomenológica das vivências de cinco estudantes indígenas participantes de uma ação de extensão universitária. A atuação ocorreu na URHPI, em turnos, envolvendo acolhimento, escuta ativa, mediação linguística e apoio à equipe de saúde. Os dados foram produzidos por meio de relatos narrativos e analisados a partir da identificação de núcleos de sentido, buscando apreender os significados atribuídos às experiências vividas.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida no segundo semestre de 2025, no contexto das ações extensionistas realizadas na Unidade de Retaguarda Hospitalar dos Povos Indígenas (URHPI), no Hospital Universitário da Universidade Federal de Roraima.
Objetivo
Analisar, à luz da fenomenologia, a experiência de atuação extensionista de estudantes indígenas no acolhimento intercultural na URHPI.
Resultados
A análise fenomenológica das narrativas dos cinco estudantes revelou núcleos de sentido que expressam a experiência vivida no contexto do cuidado intercultural. O primeiro núcleo refere-se à ressignificação do cuidado em saúde como prática coletiva e formativa, evidenciada na fala: “observei a rotina do hospital [...] importância do trabalho em equipe”, indicando a ampliação da compreensão do cuidado para além da dimensão técnica, incorporando sua natureza relacional e organizacional.
O segundo núcleo diz respeito à mediação intercultural como produção de pertencimento e vínculo. A fala “houve reconhecimento de igualdade [...] somos indígenas” explicita que a identidade compartilhada opera como elemento mediador da confiança, permitindo a comunicação em situações de resistência. Nesse contexto, a recusa ao tratamento não se configura como negação do cuidado, mas como expressão de deslocamento cultural, sendo ressignificada a partir do diálogo e da tradução de sentidos.
O terceiro núcleo evidencia a experiência do medo, do silêncio e da incompreensão no ambiente hospitalar, expressa na fala: “eles sentem medo [...] de tomar algum medicamento que não explicam”. Tal achado revela assimetrias nas relações de cuidado e fragilidades na comunicação, além de tensões entre práticas biomédicas e modos de vida indígenas, como observado nas questões relacionadas à alimentação e aos hábitos culturais.
O quarto núcleo destaca a escuta como prática ética, afetiva e terapêutica, evidenciada quando os estudantes relatam que os pacientes “começaram contando a sua história” e, a partir do diálogo, passaram a aceitar o tratamento. Esse processo é aprofundado no relato do quinto estudante, ao descrever que, ao se aproximar de uma paciente com “semblante triste”, estabeleceu um diálogo sobre sua trajetória e sofrimento, marcado por saudade da família e fragilidade emocional. Após a interação, a paciente “já mudou o semblante, estava mais sorridente” e expressou gratidão, afirmando que “não tinha conversado com ninguém” e que a conversa a fez sentir-se melhor. Esse trecho evidencia que a escuta qualificada produz efeitos terapêuticos concretos, atuando na dimensão subjetiva do cuidado, muitas vezes negligenciada no contexto hospitalar.
Por fim, emerge o núcleo da comunicação como expressão de confiança mediada pela identidade, reforçado na fala: “quando a gente se apresenta como indígena [...] eles se sentem mais à vontade”. Esse achado reafirma que o pertencimento cultural não apenas facilita a comunicação, mas possibilita a emergência de narrativas silenciadas pelo medo ou pela distância cultural.
Aprendizado e Análise Crítica
De modo geral, os resultados evidenciam que o cuidado em saúde, nesse contexto, se constitui como experiência subjetiva, na qual a mediação intercultural possibilita a construção de sentidos compartilhados, reduzindo barreiras e promovendo maior adesão ao tratamento. Tais achados dialogam com os referenciais da interculturalidade, ao reafirmar que o cuidado se efetiva no encontro entre sujeitos, saberes e experiências, exigindo sensibilidade cultural, escuta ativa e reconhecimento da alteridade.
ENGAJAMENTO COMUNITÁRIO EM TERRITÓRIO PERIFÉRICO E A EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE NA PROMOÇÃO DA VACINAÇÃO
Comunicação Oral
1 Escola de enfermagem USP
2 Associação Saúde da Família
3 Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva - EE USP
Contextualização
A redução das coberturas vacinais no Brasil configura-se como um importante desafio para a saúde pública, demandando o fortalecimento de estratégias territoriais que ampliem o acesso e promovam o engajamento comunitário. Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) destaca-se como espaço privilegiado para o desenvolvimento de práticas baseadas na Educação Popular em Saúde, valorizando o diálogo, o vínculo e o protagonismo dos sujeitos no cuidado, especialmente em contextos de vulnerabilidade social.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido numa Unidade Básica de Saúde (UBS) localizada em território periférico de São Paulo/SP, com foco em gestantes e puérperas.
Período de Realização
A ação foi estruturada em duas etapas: (1) busca ativa de gestantes e puérperas no território, realizada por agentes comunitários de saúde (ACS); e (2) implementação de atividades educativas articuladas à promoção da vacinação e ao cuidado integral no ciclo gravídico-puerperal.
Objetivo
Relatar experiência na abordagem da educação popular em saúde na promoção da vacinação em território periférico, no âmbito da APS de São Paulo/SP.
Resultados
Os ACS tiveram papel central na articulação com as lideranças comunitárias e na aproximação das mulheres à UBS. Foram realizadas rodas de conversa abordando temas relacionados à vacinação e ao ciclo gravídico-puerperal, como parto, baby blues, entre outros. Como estratégia de mobilização comunitária, foi implementado um “varal solidário”, incentivando a doação, troca e aquisição de objetos entre as gestantes, fortalecendo vínculos sociais, solidariedade e cuidado compartilhado.
Aprendizado e Análise Crítica
A unidade intensificou o aumento da cobertura vacinal por meio da ampliação do horário de funcionamento da sala de vacina em dia não habitual (sábado) e realização de vacinação em serviços da assistência social adscritos no território. Foram aplicadas 297 doses de vacinas, inúmeras consultas de enfermagem, testes rápidos, atendimentos multiprofissionais e coletas de exames preventivos.
A experiência evidenciou que a articulação entre práticas educativas participativas, estratégias de mobilização comunitária e ampliação do acesso - inclusive fora do horário convencional de funcionamento da UBS - contribui para maior aproximação da população aos serviços de saúde. Como desafios, destaca-se a necessidade de aprofundar a compreensão sobre as barreiras à participação das gestantes em atividades coletivas e de ampliar estratégias territoriais que fortaleçam o vínculo contínuo com os moradores de território periférico urbano. Ressalta-se, ainda, a importância de ações extramuros e da atuação de ACS e lideranças locais como mediadores do cuidado. Conclui-se que estratégias fundamentadas na Educação Popular em Saúde potencializam o engajamento comunitário e ampliam o acesso às ações de imunização, devendo ser fortalecidas no território por meio da promoção do diálogo, do vínculo e do reconhecimento dos sujeitos como protagonistas do cuidado.
ENTRE SABERES, POLÍTICAS E TERRITÓRIO: A SISTEMATIZAÇÃO DOS ENCONTROS DO MOVIMENTO DE EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE EM ARAGUAÍNA (TO)
Comunicação Oral
1 ESPA
2 UFT
3 ETSUS
Contextualização
A Educação Popular em Saúde (EPS) é um campo político-pedagógico que valoriza saberes ancestrais e a participação social como ferramentas de transformação. Baseada na autonomia freiriana, a EPS compreende o território como um espaço de resistência e produção de vida, essencial para o fortalecimento do SUS (Freire, 1996; Bonetti et al., 2011). Recentemente, o Brasil enfrentou um período de desmonte de políticas participativas e ataques à democracia, o que resultou no isolamento de movimentos populares e na invisibilização de práticas tradicionais, como as das raizeiras de Araguaína (TO) (Nery, 2021; Bogdan, 2024). Contrapondo-se a esse cenário, a retomada de espaços democráticos e as estratégias formativas da Fiocruz (2025) têm impulsionado o reencontro desses sujeitos, entendendo que a luta social só ganha potência na coletividade (Carnut et al., 2020). Neste contexto, o presente trabalho sistematiza a experiência do encontro do movimento de EPS em Araguaína (TO). Utilizando a metodologia de Holliday (2006), busca-se realizar uma interpretação crítica da prática para identificar aprendizados e fortalecer a Política Nacional de EPS. O estudo justifica-se pela necessidade de dar visibilidade aos protagonistas do cuidado popular, frequentemente silenciados pelo modelo biomédico hegemônico. Pergunta norteadora: Como esse encontro contribuiu para o fortalecimento da EPS no território, a partir dos sentidos e aprendizados construídos coletivamente?
Descrição
Este trabalho descreve a sistematização da experiência dos encontros das pessoas do movimento de Educação Popular em Saúde no município de Araguaína, Tocantins. A experiência foi desenvolvida no contexto formativo da Especialização em Educação Popular em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz, no período do Tempo Comunidade, entre junho e novembro de 2025. Participaram do processo 26 pessoas vinculadas ao movimento da Educação Popular em Saúde no município, entre agentes comunitários de saúde, conselheiros de saúde, profissionais da Atenção Primária e lideranças comunitárias. A coleta de dados ocorreu por meio de registros fotográficos, gravações em áudio e vídeo, anotações em diário de campo, documentos institucionais e interações em aplicativos de mensagens. A análise foi realizada a partir das etapas metodológicas da sistematização: ponto de partida, perguntas iniciais, recuperação do processo vivido, interpretação crítica e pontos de chegada.
Período de Realização
Entre junho e novembro de 2025.
Objetivo
Este estudo teve como objetivo sistematizar a experiência dos encontros das pessoas do movimento da Educação Popular em Saúde (EPS) no município de Araguaína, Tocantins, buscando compreender os processos, sentidos e aprendizados produzidos coletivamente no território.
Resultados
Os resultados evidenciaram que os encontros possibilitaram o resgate de vínculos entre educadoras e educadores populares, a valorização dos saberes tradicionais de cuidado e o fortalecimento das práticas de Educação Popular em Saúde em Araguaína, Tocantins. A experiência revelou ainda a potência do diálogo entre saberes populares e institucionais, contribuindo para a construção coletiva de conhecimentos, para o fortalecimento da participação social e para a defesa do Sistema Único de Saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência em Araguaína revela que o reencontro do movimento de Educação Popular em Saúde (EPS) foi um ato de resistência contra o isolamento e o silenciamento histórico de saberes populares. O principal aprendizado reside na força da coletividade: ao romper com a fragmentação imposta por modelos biomédicos e retrocessos políticos. Sujeitos como as raizeiras e benzedeiras reafirmaram suas práticas como tecnologias legítimas de cuidado no SUS.
Criticamente, a sistematização demonstra que o território não é apenas um espaço geográfico, mas um lugar de produção de vida e saber. O encontro validou a premissa de que a Educação Popular só se efetiva na práxis, transformando a invisibilidade em protagonismo político. Assim, fortalecer a EPS em Araguaína significa reconhecer que a saúde pública brasileira depende da articulação permanente entre formação, diálogo e valorização das vozes da comunidade.
MOSTRA DE EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE NO CONTEXTO DA DOENÇA DE CHAGAS NO MUNICÍPIO DE SÃO LUIS DE MONTES BELOS-GOÍAS
Comunicação Oral
1 Secretaria Municipal de Saúde, São Luís de Montes Belos, GO,
2 Secretaria Municipal de Saúde, São Luís de Montes Belos, GO
3 Secretaria Municipal de Saúde, São Luís de Montes Belos
Contextualização
O município de São Luís de Montes Belos foi selecionado para integrar Projeto Integra Chagas Brasil, iniciativa do Ministério da Saúde voltada à ampliação do acesso à detecção e ao tratamento da doença de Chagas, com ênfase na Atenção Primária à Saúde (APS) e na articulação com a vigilância em saúde. Nesse contexto, a Educação Popular em Saúde foi incorporada como estratégia estruturante para qualificar o trabalho nos territórios, ampliar o diálogo com a comunidade e favorecer práticas de cuidado mais integrais, participativas e sensíveis às realidades locais.
Descrição
Como parte desse processo, foi ofertado um curso semipresencial dirigido a profissionais da saúde, educação e assistência social, organizado com base em metodologias ativas, reflexão crítica e valorização das experiências concretas das pessoas participantes. A proposta buscou superar ações educativas verticalizadas, estimulando a construção compartilhada do conhecimento, a aproximação entre saberes técnicos e saberes produzidos no cotidiano e a leitura crítica dos determinantes sociais que atravessam o processo saúde-doença-cuidado. Ao reunir diferentes setores implicados na resposta à doença de Chagas, o curso favoreceu maior integração entre formação, serviço e território. Como culminância, realizou-se a Mostra de Educação Popular em Saúde no contexto da doença de Chagas, espaço presencial de sistematização, socialização e reconhecimento das práticas desenvolvidas ao longo do curso. A experiência revelou-se relevante por articular formação, intersetorialidade e compromisso com o SUS, fortalecendo capacidades locais para prevenção, vigilância, cuidado e comunicação em saúde relacionadas à doença de Chagas e ampliando a circulação social do tema no município.
Período de Realização
Dezembro/2025
Objetivo
Sistematizar e apresentar a experiência da Mostra de Educação Popular em Saúde realizada no contexto da doença de Chagas, no âmbito do Projeto IntegraChagas Brasil, em São Luís de Montes Belos-GO. Buscou-se: (1) qualificar profissionais da saúde, educação e assistência social para o desenvolvimento de práticas educativas críticas, dialógicas e territorializadas; (2) favorecer a integração entre formação, vigilância em saúde, APS e ações intersetoriais voltadas à prevenção, ao cuidado e à comunicação em saúde; (3) estimular a produção, a sistematização e a troca de experiências construídas no cotidiano dos serviços e dos territórios; (4) dar visibilidade a estratégias locais de enfrentamento da doença de Chagas com potencial de fortalecimento do SUS; (5) consolidar um espaço coletivo de reflexão capaz de apoiar mudanças nas práticas profissionais e ampliar o compromisso institucional com a continuidade das ações formativas no município; e (6) valorizar produções e linguagens diversas como recurso pedagógico para a circulação social do tema e para a replicação da experiência em outros contextos municipais, em especial, no contexto da região de saúde a que pertence o município.
Resultados
Foram apresentados 13 trabalhos na Mostra de Educação Popular em Saúde, todos vinculados aos processos saúde-doença-cuidado e às especificidades do território no contexto da doença de Chagas. O evento reuniu 110 profissionais das áreas da saúde, assistência social e educação, evidenciando expressiva adesão institucional e ampla circulação do tema entre setores estratégicos do município. A Mostra permitiu observar a articulação entre a dimensão teórica trabalhada no curso remoto e a dimensão prática materializada nas experiências compartilhadas presencialmente. Também se evidenciou que a metodologia adotada favoreceu maior protagonismo dos participantes, com envolvimento na elaboração dos trabalhos, na análise dos desafios do território e na construção de respostas mais aderentes à realidade local. Outro resultado importante foi o estímulo à continuidade das ações após a Mostra. As pessoas participantes seguem desenvolvendo atividades em seus espaços de atuação, o que indica potencial de sustentabilidade das estratégias implementadas e de incorporação de abordagens participativas no cotidiano dos serviços. A experiência também fortaleceu a perspectiva intersetorial, ao reunir trabalhadores e trabalhadoras que usualmente atuam em campos distintos, mas que compartilham responsabilidades na promoção da saúde e na resposta municipal à doença de Chagas.
Aprendizado e Análise Crítica
Processos formativos articulados ao cotidiano dos serviços podem produzir mudanças relevantes na forma como trabalhadores compreendem e enfrentam a doença de Chagas no território. Ao mesmo tempo, a experiência evidenciou desafios, como o tempo reduzido para elaboração dos trabalhos e a necessidade de ampliar o número de pessoas participantes e de produções sistematizadas em futuras edições. Conclui-se que a continuidade de ações formativas desse tipo é fundamental para enfrentar iniquidades, fortalecer redes locais de cuidado e consolidar a educação popular em saúde como estratégia de qualificação do trabalho e de fortalecimento do SUS nos territórios.
PERSPECTIVAS DA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO POPULAR: RELATO DE EXPERIÊNCIA NA APS.
Comunicação Oral
1 ENSP/Fiocruz.
Contextualização
A APS é um nível de atenção à saúde propício para o desenvolvimento de ações de educação em saúde, em particular de ações de Educação Alimentar e Nutricional (EAN), em função da sua capilaridade nos territórios de grande vulnerabilidade social.
A EAN possui nove princípios fundamentais que orientam as ações: sustentabilidade social, econômica e ambiental; abordagem do sistema alimentar na sua integralidade; valorização da cultura alimentar local; a comida e o alimento como referências; promoção do autocuidado e da autonomia; educação enquanto processo permanente e dialógico; a diversidade nos cenários de prática; intersetorialidade e planejamento, avaliação e monitoramento das ações. Tais ações estão previstas na Política Nacional de Alimentação e Nutrição.
Descrição
A metodologia proposta se baseia no referencial teórico da Sistematização de Experiências (Jara, 2001), que será apresentada em cinco etapas: vivência das experiências; identificação do objetivo da sistematização; recuperação da memória e dos registros das experiências; análise e reflexão crítica sobre o processo vivido; e formulação de conclusões e proposições futuras.
Período de Realização
As experiências compartilhadas se referem ao período de março de 2024 a março de 2026.
Objetivo
O presente estudo objetiva compartilhar experiências de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) desenvolvidas na Atenção Primária à Saúde (APS), em um território de favela carioca, sob a perspectiva da Educação Popular em Saúde e contribuir com a reflexão teórica do tema a partir das vivências do cotidiano do trabalho em saúde.
Resultados
As ações educativas sobre EAN relatadas foram desenvolvidas em três grupos: Grupo de Vigilância em Saúde Infantil (GVSI); Programa de Atenção Integral à Saúde do Idoso (PASI) e Grupo ConviVendo.
O GVSI acompanha crianças menores de 5 anos, e seus familiares, com baixo peso e/ou em insegurança alimentar. É formado por 13 famílias e desenvolvido por meio de três ações articuladas: cuidado nutricional individual; ações educativas coletivas mensais para toda a família e assistência alimentar através do fornecimento de uma cesta básica mensal.
O PASI é um grupo de convivência com idosos, formado com cerca de 30 pessoas que ser reúnem semanalmente. As ações de EAN forma compartilhadas mensalmente.
O grupo ConviVendo acompanha usuários portadores de HIV/AIDS, formado por 15 pessoas, por meio de encontros mensais e fornecimento de uma cesta básica mensal.
As ações coletivas foram planejadas dentro do referencial teórico e dos princípios da Educação Popular em Saúde, a saber: diálogo, problematização emancipação; amorosidade; construção compartilhada do conhecimento e construção do projeto democrático popular.
Os temas foram escolhidos e os encontros planejados a partir de diálogo com as pessoas participantes. Por meio de rodas de conversa realizadas por equipe multiprofissional, os temas foram abordados e discutidos coletivamente. Alguns temas compartilhados foram: conexão entre alimentos e emoção; soberania alimentar; alimentação saudável e sustentável; e alimentação como ato social, cultural e político. Outros temas relacionavam as discussões sobre EAN com outros temas como: saúde bucal; planejamento sexual e reprodutivo, educação infantil, envelhecimento, estresse, sexualidade, memória e direitos sociais.
Aprendizado e Análise Crítica
Cada grupo possuía características próprias e singulares que tornaram os encontros dinâmicos e com diversos tipos de abordagens.
A experiência acompanhou famílias em situação de extrema vulnerabilidade social e insegurança alimentar. A multiplicidade de fatores que determinam e condicionam a saúde da população é um desafio constante para os profissionais de saúde, tendo em vista que são diversas as dificuldades que estas famílias vivenciam, tais como desemprego, violências, problemas sociais e familiares. O contexto social apresentado provoca reflexões sobre a potência da educação em saúde quando se propõe a inserir os preceitos da educação popular, crítica, dialógica e problematizadora. Desenvolver ações educativas com ênfase na mudança de comportamentos de risco de desenvolvimento de doenças, sem problematizar e nem compreender os diversos aspectos que envolvem a vida cotidiana nas favelas e famílias em grande vulnerabilidade social, não parece contribuir efetivamente com reais transformações da realidade.
Mesmo com os grandes desafios vivenciados diariamente, foram identificados resultados positivos, mantendo os grupos ativos até o momento e possibilitando a continuidade das ações educativas, propiciando um espaço de diálogo e o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo.
Como aprendizados e proposições, identifica-se a importância de ampliar a intersetorialidade como estratégia de efetividade das ações educativas propostas.
RODAS DE CONVERSA COM GESTANTES: EDUCAÇÃO POPULAR, DIREITOS E PRODUÇÃO DE AUTONOMIA NO CUIDADO EM SAÚDE
Comunicação Oral
1 Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Manaus, AM, Brasil
2 Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Manaus, AM, Brasil
3 Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Manaus, AM, Brasil
Contextualização
O ciclo gravídico-puerperal envolve transformações físicas, emocionais e sociais que podem ocasionar sofrimento psíquico, exigindo um cuidado sensível e integral (IORIO et al., 2022). No contexto amazônico, esses desafios são intensificados por barreiras geográficas e socioculturais que dificultam o acesso aos serviços de saúde e, consequentemente, às ações educativas da Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente no que se refere a temas como violência e direitos (ROCHA et al., 2025). Nesse cenário, a Educação Popular em Saúde apresenta-se como estratégia relevante, ao promover práticas dialógicas, interculturais e emancipatórias, fortalecendo a participação social no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) (CRUZ et al., 2024).
Descrição
Trata-se de um relato de experiência, desenvolvido por residentes de enfermagem obstétrica, durante suas atividades em uma maternidade pública na cidade de Manaus, Amazonas, no período de 2024 a 2026. As ações ocorreram por meio de encontros mensais com gestantes, organizados após visitas de vinculação à maternidade, no formato de um curso destinado às gestantes. Os encontros foram estruturados como espaços coletivos de diálogo, escuta e troca de saberes entre gestantes, acompanhantes e equipe multiprofissional, orientados pelos princípios da Educação Popular em Saúde.
Nessas atividades, foram abordados temas relacionados ao pré-natal, parto, nascimento, puerpério e aleitamento materno, além de discussões sobre gênero, violências, direitos, redes de apoio e desigualdades no acesso aos serviços de saúde. Como estratégia de mobilização, utilizou-se a arte gestacional como tecnologia de cuidado, favorecendo o vínculo, a participação e a expressão das gestantes e seus acompanhantes. A pintura do ventre materno mobiliza dimensões simbólicas e afetivas da gestação, contribuindo para a humanização do cuidado (OLIVEIRA et al., 2021).
Período de Realização
2024 a 2026
Objetivo
Descrever e refletir sobre a realização de rodas de conversa com gestantes, orientadas pela Educação Popular em Saúde, e seus efeitos na autonomia e no cuidado em saúde.
Resultados
Ao longo da experiência, observamos que muitas gestantes apresentavam conhecimento limitado sobre seus direitos, sobre o processo de parto e acerca da violência obstétrica, o que evidencia lacunas nas práticas educativas. Inicialmente estruturadas como palestras, percebemos uma mudança progressiva na dinâmica dos encontros, que passaram a assumir caráter mais dialógico. A escuta ganhou centralidade, e buscamos acolher as dúvidas conforme emergiam, não apenas aquelas previstas no planejamento, mas também questões relacionadas ao corpo, ao bebê e ao processo de gestar. A partir dessa vivência, compreendemos que essa mudança fortaleceu o vínculo com as gestantes e ampliou sua participação nas atividades.
Os encontros demonstraram-se como espaços importantes de compartilhamento de informações e experiências, especialmente porque muitas dúvidas surgem ao longo da gestação e nem sempre são abordadas nas consultas de rotina, sobretudo entre primigestas. Além disso, as rodas de conversa favoreceram a expressão de expectativas, medos e vivências, o que dificilmente ocorre em atendimentos individuais na APS.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência permitiu refletir sobre as relações de poder presentes nas práticas em saúde, nas quais o saber biomédico tende a se impor, podendo limitar a autonomia das usuárias (FITTIPALDI; O’DWYER; HENRIQUES, 2024), ao favorecer o diálogo, observamos um deslocamento dessa lógica, com maior valorização dos saberes das gestantes.
Ao articular a Educação Popular em Saúde com essas práticas, evidenciamos o fortalecimento da autonomia e da capacidade crítica das participantes, ao integrar dimensões educativas, culturais e sociais no território (GOMES; BERETTA, 2024). Nesse sentido, as rodas de conversa configuraram-se como espaços de produção compartilhada de saberes, nos quais as gestantes foram reconhecidas como sujeitas ativas no cuidado, em diálogo com seus contextos de vida, favorecendo o desenvolvimento do protagonismo (SOBRINHO et al., 2026) e quando associadas a tecnologias leves como a arte gestacional, constituem espaços potentes de produção de autonomia, fortalecimento de vínculos e ampliação do acesso à informação.
Destaca-se, ainda, a importância da inclusão de temas como violência obstétrica e direitos reprodutivos, ainda pouco abordados na Atenção Primária, bem como a necessidade de fortalecimento de estratégias intersetoriais e sensíveis às especificidades territoriais, com ampliação da cobertura das ações educativas e a diversificação dos conteúdos no pré-natal, contribuindo para a redução das desigualdades no cuidado em saúde (ROCHA et al., 2025). Evidencia-se, assim, a importância de práticas educativas que valorizem o diálogo, os conhecimentos femininos e seus contextos de vida, auxiliando na formação de um cuidado integral, crítico e voltado à equidade no contexto da saúde coletiva.
Realização: