Programa - Comunicação Oral - CO14.1 - Por mais saúde - Os diversos Territórios de Resistências e Protagonimos
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
VIOLÊNCIA DE ESTADO E SAÚDE MENTAL DE MULHERES: A NECROPOLÍTICA COMO RISCO PSICOSSOCIAL
Comunicação Oral
1 IMS/UERJ
2 IFF/Fiocruz
Apresentação/Introdução
A violência de Estado no Brasil, expressa pela letalidade policial e pela militarização das políticas de segurança pública, incide de forma desigual sobre jovens negros e pobres, revelando a centralidade do racismo estrutural na produção da morte. No entanto, seus efeitos não se encerram no evento letal. Eles se prolongam na vida de mulheres — especialmente mães e familiares — que permanecem vivas, sustentando o luto, a busca por justiça e a reorganização da vida em contextos de precarização. À luz do conceito de necropolítica, compreende-se que o Estado exerce o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer, produzindo também modos de viver marcados pelo sofrimento contínuo. Nesse sentido, a violência de Estado é analisada como um risco psicossocial estrutural que atravessa a saúde mental dessas mulheres.
Objetivos
Analisar a violência de Estado como fator de risco psicossocial para mulheres afetadas pela morte, desaparecimento ou sequelas de familiares, discutindo seus impactos na saúde mental, nas experiências de cuidado e nas estratégias coletivas de resistência.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, baseada em autores/as das Ciências Sociais e Humanas em Saúde e em dados secundários de relatórios institucionais sobre violência letal no Brasil. A análise articula referenciais da necropolítica, do racismo estrutural e dos determinantes sociais da saúde, buscando compreender o sofrimento psíquico como fenômeno socialmente produzido. Foram mobilizados estudos sobre violência de Estado, saúde mental e movimentos de familiares de vítimas, permitindo uma leitura crítica das relações entre Estado, cuidado e produção do sofrimento.
Resultados e Discussão
Os achados indicam que a violência de Estado produz cadeias prolongadas de sofrimento que se estendem às mulheres, configurando um risco psicossocial contínuo. Esse sofrimento é marcado pela deslegitimação do luto, pela ausência de respostas institucionais e pela responsabilização individualizada das mulheres pela gestão da perda e da sobrevivência. Observa-se que mulheres negras ocupam posição central nesse processo, sendo atravessadas por desigualdades interseccionais que intensificam a sobrecarga de cuidado, seja na administração da morte, seja no acompanhamento de sobreviventes com sequelas. O acesso aos serviços de saúde, especialmente à atenção psicossocial, é dificultado por barreiras institucionais, desconfiança em relação ao Estado e experiências recorrentes de revitimização. Além disso, práticas de cuidado frequentemente desconsideram a dimensão política da violência, reduzindo o sofrimento a categorias individuais. Em contraponto, coletivos de mães e familiares emergem como espaços fundamentais de acolhimento, produção de memória e ação política, transformando o luto em luta e criando redes de cuidado que tensionam a ausência estatal. Contudo, essa participação também implica desgaste emocional, evidenciando a coexistência entre resistência e adoecimento.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados indicam que a violência de Estado produz cadeias prolongadas de sofrimento que se estendem às mulheres, configurando um risco psicossocial contínuo. Esse sofrimento é marcado pela deslegitimação do luto, pela ausência de respostas institucionais e pela responsabilização individualizada das mulheres pela gestão da perda e da sobrevivência. Observa-se que mulheres negras ocupam posição central nesse processo, sendo atravessadas por desigualdades interseccionais que intensificam a sobrecarga de cuidado, seja na administração da morte, seja no acompanhamento de sobreviventes com sequelas. O acesso aos serviços de saúde, especialmente à atenção psicossocial, é dificultado por barreiras institucionais, desconfiança em relação ao Estado e experiências recorrentes de revitimização. Além disso, práticas de cuidado frequentemente desconsideram a dimensão política da violência, reduzindo o sofrimento a categorias individuais. Em contraponto, coletivos de mães e familiares emergem como espaços fundamentais de acolhimento, produção de memória e ação política, transformando o luto em luta e criando redes de cuidado que tensionam a ausência estatal. Contudo, essa participação também implica desgaste emocional, evidenciando a coexistência entre resistência e adoecimento.
LIBERDADE, TERRITÓRIO E PROTAGONISMO: O CONSELHO CONSULTIVO COMUNITÁRIO COMO ESTRATÉGIA DE ENVOLVIMENTO DE USUÁRIAS/OS NA IMPLEMENTAÇÃO DE SUPORTE DE PARES
Comunicação Oral
1 Unicamp
2 USP
3 Yale University
Apresentação/Introdução
Este relato de pesquisa é parte do estudo "Adaptação e Implementação de Suporte de Pares para Otimizar o Engajamento e os Resultados para Pessoas com Transtornos Mentais Severos em Campinas, Brasil", desenvolvido em parceria entre a Universidade de Yale e a Unicamp. O estudo propõe adaptar e implementar um programa de Suporte de Pares para a rede de atenção psicossocial (RAPS) de Campinas-SP, a partir do treinamento de pessoas com experiência vivida em saúde mental.
O Suporte de Pares constitui-se como prática territorialmente situada: ao ser implementado nos CAPS III de Campinas, ancora-se em serviços que são dispositivos de cuidado em liberdade, orientados pela lógica da desinstitucionalização e pelo direito à circulação e ao pertencimento nos territórios. Nesse horizonte, a ampliação da autonomia e da mobilidade territorial das/os usuárias/os configura-se como dimensão central da intervenção, em consonância com a perspectiva de que a liberdade é constitutiva do processo de cuidado.
O Conselho Consultivo Comunitário (CCC), estratégia participativa central do estudo, reúne 13 usuárias/os da RAPS de Campinas — majoritariamente mulheres, com diversidade racial relevante para a compreensão das desigualdades que atravessam o acesso ao cuidado. Esse perfil interseccional torna o CCC não apenas um dispositivo metodológico, mas um espaço de expressão de trajetórias marcadas por gênero, raça-etnia e classe, dimensões estruturantes das experiências de sofrimento e de restabelecimento.
Objetivos
O trabalho com o CCC visou mapear as características e especificidades da RAPS de Campinas a partir das perspectivas e vivências territoriais das/os próprias/os usuárias/os, identificando barreiras e facilitadores para a implementação do Suporte de Pares; e validar e adaptar culturalmente o material de formação em Suporte de Pares desenvolvido por Yale, garantindo que a intervenção respondesse às realidades locais — incluindo as desigualdades de gênero, raça-etnia e acesso ao território urbano que configuram o cotidiano dos/as usuários/as dos CAPS.
Metodologia
Primeiramente, foram realizadas reuniões quinzenais de pesquisa participativa com o CCC, organizadas a partir do framework CFIR (Consolidated Framework for Implementation Research), que explora fatores que influenciam a implementação em cinco domínios: características da intervenção, cenário externo, cenário interno, características dos indivíduos e processo. Nessas reuniões, os/as participantes foram convidados/as a narrar suas experiências com os serviços de saúde mental e com os territórios de Campinas — produzindo histórias que orientaram a identificação de barreiras e facilitadores para a implementação.
Após, foram realizadas reuniões semanais para validação e adaptação cultural do material de formação em Suporte de Pares, composto por 9 módulos temáticos. A adaptação partiu das perspectivas trazidas pelas/os participantes sobre a realidade da RAPS local, incorporando as dimensões de gênero, raça-etnia e território como variáveis relevantes para a formação.
Resultados e Discussão
As narrativas produzidas no CCC evidenciaram que as barreiras para o cuidado em liberdade em Campinas não são apenas clínicas ou institucionais, mas também territoriais e interseccionais: dificuldades de mobilidade urbana, insegurança, sobrecarga de cuidado sobretudo para mulheres, e o peso do estigma racializado sobre o sofrimento psíquico foram temas recorrentes nas discussões.
O material de formação validado pelo CCC contempla 9 módulos, entre os quais destacam-se: "Utilização da vivência e de Contar Histórias para Inspirar Esperança", "Escuta Empática e Comunicação Intercultural", "Ativismo, Justiça Social e Equidade" e "Trabalho com Famílias e Comunidades". Esses módulos dialogam diretamente com a perspectiva de que as histórias de si dos/as usuários/as são recursos terapêuticos e políticos, capazes de construir redes de suporte, desconstruir estigmas e afirmar o direito à presença e à circulação nos territórios.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência do CCC demonstra que o envolvimento de usuários/as de saúde mental em pesquisas de implementação vai além de uma exigência metodológica: trata-se de um ato político de reconhecimento do protagonismo de pessoas cujas trajetórias são atravessadas por múltiplas formas de desigualdade. Ao colocá-las como matéria-prima para a adaptação de uma intervenção baseada em evidências, o estudo contribui para uma ciência de implementação mais inclusiva e comprometida com a justiça em saúde.
O Suporte de Pares, nesse contexto, afirma-se como tecnologia de cuidado orientada pela liberdade: ao fortalecer vínculos, ampliar a autonomia e estimular a circulação nos territórios, contribui para que usuárias/os da RAPS de Campinas possam construir suas próprias trajetórias em conexão com os serviços, com a cidade e com as redes de pertencimento que tornam a vida em liberdade possível e sustentável.
PESCA ARTESANAL, RESISTÊNCIA E PROTAGONISMO FEMININO NO MUNICÍPIO DE PARACURU (CE): A LUTA POR RECONHECIMENTO E AUTONOMIA EM TERRITÓRIOS DE DISPUTA
Comunicação Oral
1 UFC
Apresentação/Introdução
A vulnerabilidade das comunidades tradicionais costeiras é acentuada pela falta de proteção e reconhecimento estatal, o que as torna suscetíveis à pressão da chegada de grandes empreendimentos, sejam de ordem pública ou privada. Tais empreitadas, desse modo, muitas vezes operam de forma predatória ao ocupar territórios sem oferecer contrapartidas à cultura e aos saberes das populações locais. Portanto, forjadas a partir dessa lógica, valem-se da invisibilização dessas comunidades para reproduzir ativamente práticas de racismo ambiental e neocolonialismo energético.
Assim, o projeto de extensão e pesquisa “Diagnóstico-Ação pelos Mapas Afetivos”, vinculado ao Laboratório de Pesquisa em Psicologia Ambiental da Universidade Federal do Ceará (LOCUS), estuda os impactos socioambientais da pesca artesanal resultantes da construção do Porto do Pecém, no estado do Ceará. Apesar das medidas de ampliação para a região, sua implementação gerou impactos socioambientais complexos: poluição do ar, degradação ambiental em diversos níveis, bem como problemas de saúde para as populações locais e seus modos de subsistência. Além disso, destaca-se o declínio da pesca artesanal devido ao avanço do mar na costa.
Diante desse cenário, existe um conflito de interesses que se concretiza em luta e mobilização popular pela pesca artesanal como memória, sobrevivência e saber popular. Porém, ainda se percebe um panorama predominantemente masculino, o que levanta o questionamento sobre a posição das mulheres nesse cenário de disputa. Frente a essa invisibilização, surge o coletivo “Guerreiras das Águas”, no município de Paracuru, como uma estratégia de resistência, concentrando politicamente mulheres marisqueiras para articular formas de existência e defesa territorial.
Objetivos
Nesse contexto, o Diagnóstico-Ação pelos Mapas Afetivos busca analisar os impactos socioambientais e psicossociais em territórios pesqueiros cearenses e, nesse recorte, com foco nas marisqueiras de Paracuru. As ações do projeto têm sido elaboradas em diálogo com lideranças comunitárias femininas e representantes civis, visando compreender suas reivindicações e o sofrimento ético-político vivenciado nesses espaços, seja ou não atrelado a gênero, presente nos discursos. Tais articulações buscam fortalecer os vínculos entre as marisqueiras e seus territórios, integrando a saúde mental às suas pautas de luta. São mulheres que estão na pesca e na mariscagem e viram no coletivo uma possibilidade de troca e elaboração política não encontrada anteriormente nessas condições.
Metodologia
O método de pesquisa consistiu em uma triangulação utilizando entrevistas, diários de campo e a aplicação do Instrumento Gerador de Mapas Afetivos (IGMA). Através da metodologia empregada pelo IGMA, em conjunto com as ações de saúde mental desenvolvidas nessa fase do projeto, como grupos de conversa e ciclos de biodança, buscou-se intervir sobre as demandas expressas pelas mulheres por via do discurso, mas também da corporeidade, elaborando sobre as questões pertinentes aos relatos das integrantes do coletivo.
Resultados e Discussão
A aplicação dessas metodologias revelou que o declínio da pesca artesanal gera um estado de insegurança e medo entre as mulheres. Esse cenário é provocado pela perda de subsistência e território, o que impacta severamente a saúde mental das pescadoras e ameaça elementos fundamentais de sua identidade, como a memória coletiva, a ancestralidade e o patrimônio cultural. Ainda assim, observa-se que a vida atrelada ao mar se mostra, apesar de desafiadora, como um dispositivo terapêutico e evidencia que, para além do exercício laboral, é um campo de produção de existência.
Conclusões/Considerações Finais
Com isso, conclui-se a relevância de favorecer a autonomia, mobilização social e maior participação comunitária feminina através da promoção de iniciativas que fortaleçam os vínculos entre as comunidades pesqueiras e sua extensão. Além disso, o fortalecimento desse coletivo é fundamental para a promoção do protagonismo feminino como pilar indispensável para a preservação das identidades tradicionais frente à lógica exploratória do capital. Emerge, portanto, uma perspectiva que ainda carece de maior exploração no campo da Saúde Coletiva e das políticas públicas de assistência, as quais apresentam lacunas estruturais ao se debruçarem sobre os recortes de gênero circunscritos na produção da subsistência em territórios tradicionais.
MIRADAS LATINOAMERICANAS: OS SENTIDOS DADOS À MENSTRUAÇÃO DESDE PERCEPÇÕES ANTIPATRIARCAIS, CONTRA COLONIAIS E INTERSECCIONAIS DE ABYA YALA
Comunicação Oral
1 IFF / FIOCRUZ-RJ
2 Université de Poitiers
Apresentação/Introdução
Diferente dos sentidos hegemônicos associados à menstruação, como o nojo, a vergonha, o medo, o silenciamento e a ocultação, os movimentos sociais da menstruação (Prado, 2024) associam-na a aspectos positivos como saúde, potência e emancipação, bem como a enquadram em dimensões sociopolíticas. Esses discursos e as práticas oferecidas em novas retóricas e ações, ressignificam a menstruação como parte de um movimento maior: o de romper com todas as formas de violências, dominações e opressões de gênero.
Objetivos
Apreender os (novos) sentidos dados à menstruação por coletivos, militantes e ativistas da menstruação.
Metodologia
Pesquisa de natureza qualitativa e exploratória que se aporta em metodologias feministas (Haraway, 2009; Paredes, 2020). Através da realização de entrevistas com mulheres, pessoas e grupos brasileiros e de outras nacionalidades latino-americanas, este artigo anuncia os sentidos dados à menstruação a partir dos relatos de pessoas que representam a diversidade étnica, racial, etária e de gênero, característica de nossos territórios, e que militam ou promovem a saúde, a educação, a dignidade e/ou o ativismo menstrual. Ao todo, foram nove entrevistas individuais e duas coletivas. Das entrevistas individuais, seis foram com pessoas brasileiras: uma mulher indígena, uma pessoa transmasculina não binária, duas artistas e duas mulheres pretas, sendo uma delas nordestina e uma africana, residente no Brasil. Para representar as miradas latino-americanas, foram entrevistadas uma mulher colombiana que atua como ativista, artivista e educadora menstrual em Medelín, uma educadora menstrual e pesquisadora mexicana e uma artivista e pesquisadora argentina. Os coletivos brasileiros que colaboraram com a pesquisa são o “Garotas de Vermelho” , protagonizado por crianças e adolescentes que atuam em uma escola pública de Porto Alegre – RS, e o “MenstRUA” , coletivo de Manaus, no Amazonas, que realiza trabalhos voluntários de distribuição de kits menstruais para a população em situação de rua.
Resultados e Discussão
Os resultados e as análises das entrevistas são apresentados em quatro categorias relacionais. A primeira delas, "Honrar nossos corpos, amar a nós mesmas": a menstruação como saúde, apresenta a menstruação a partir de noções de saúde que extrapolam as barreiras biomédicas, bem como evidencia práticas de autocuidado e cuidado coletivo baseadas na singularidade de cada ser e território, e no (auto) conhecimento do corpo cíclico.
A segunda categoria, “Estamos falando sobre a menstruação num contexto de direitos”: quando menstruar é político, demonstra como as pessoas entrevistadas localizam a menstruação num contexto de direitos e situa a politização da menstruação nos diferentes territórios latino-americanos, suas reivindicações e pautas.
A terceira categoria, “Eu posso ser um homem, uma pessoa não binária, e menstruar”: quando a menstruação não é mais coisa só de mulher, convoca a participação de sujeitos historicamente excluídos — como pessoas transmasculinas, não binárias — e também homens e meninos, para revelarem os horizontes do cuidado e da compreensão social da menstruação desde perspectivas transinclusivas e não cisnormativas, desmistificando a condição binária do ciclo menstrual e essencializações que relacionam a menstruação como um fenômeno exclusivamente feminino.
A quarta e última categoria, “Hoje eu entendo que essa é uma dor ancestral”: a menstruação como marcador de desigualdades, situa a menstruação como uma lente que amplia olhares sobre desigualdades de gênero, raciais, étnicas, sociais e no acesso à saúde. Aqui, o racismo é apontado como um fator crucial de atravessamento sobre corpos de meninas e mulheres não brancas que menstruam, sobretudo negras e indígenas.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados demonstram que os sentidos dados à menstruação na América Latina, apontam para vieses antipatriarcais, contracoloniais e interseccionais. A amplitude de sentidos categorizados reflete a diversidade de corpos que menstruam, suas necessidades e pautas, proporcionando ao campo da Saúde Coletiva dados que podem subsidiar estudos, políticas públicas e reflexões, ainda insipientes, sobre o tema. Por fim, as miradas latino-americanas vislumbram a menstruação como poder e buscam, na ancestralidade, na cultura e na natureza, formas de re-existências através do amor, da arte e do cuidado com o corpo e seus ciclos.
DISFORIA DO ETNOS: TRANSCESTRALIDADE KAJURUN’YÁ E A COLONIALIDADE DE GÊNERO NA SAÚDE MENTAL
Comunicação Oral
1 FioCruz-PE
2 UFRPE
Contextualização
A categoria “disforia de gênero”, tal como operada paradigma psiquiátrico hegemônico, constitui-se como tecnologia colonial de controle de corporal e identitário que patologiza e busca normatiza corpos dissidentes enquanto invisibiliza as violências étnico-raciais e ambientais que estruturam o sofrimento de povos indígenas. No Brasil, onde mais da metade das populações indígenas vivem em contextos urbanos, um histórico contínuo de assassinato de pessoas trans e as altas taxas de suícidio entre juventudes indígenas revelam não fenômenos indívduais, mas os efeitos da destituição territorial, da violência colonial e da ruptura de modos de vida. Nesse contexto, a intersecção entre etnogenocídio indígena, transfobia estrutural e apagamento identitário produz uma zona de não-ser específica: a dos corpos indígenas trans. É necessário território que me situo e de onde falo.
Descrição
Sou Aiará, indígena travesti, integrante da coletiva Kajuru’nyá Xeké — organização de indígenas que vivem a travestilidade /transgeneridade como parte constitutiva do processo de etnogênese. O termo Kajuruna, reativado da língua Brobó (Otxukayana), nomeia uma linhagem indígena dissidente de gênero e sexualidade que resistiu pela memória oral. Nossa experiência se constrói entre as periferias urbanas de Recife — território de antigas palmeiras, hoje coberto de concreto e totalmente canalizado — a Zona da Mata de Paranã-Puka (Pernambuco) e a cosmologia da Jurema Sagrada. Compreendemos nossos corpos como agentes de regeneração territorial.
Período de Realização
Esse relato de experiência se organiza como travessia que articula diferentes camadas de tempo: inicia-se na Invasão colonial (1500), atravessa memórias ancestrais e se corporifica no presente. No meu percurso, a pesquisa se inicia ainda na graduação, no âmbito do Trabalho de Conclusão de Curso, e ganha novos contornos com o ingresso no mestrado em Saúde Pública (2026), em continuidade a essas reflexões. Enraíza-se em processos de retomada iniciados em 2018 e se desenvolve em paralelo à constituição e atuação da coletiva Kajuru’nyá Xeké (2023), espaço de elaboração política, espiritual e epistemológica. Essa travessia também se entrelaça à realização de rituais em territórios urbanos degradados, ao enfrentamento de barreiras de acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) enquanto indígena(s) de contexto urbano(s) e às experiências de desabrigamento decorrentes de eventos socioambientais extremos produzidos por um projeto urbano-predatório.
Objetivo
Nesse contexto etnicida, objetiva-se problematizar a categoria “disforia de gênero” a partir da experiência Kajurun’yá, evidenciando como o sofrimento psíquico de indígenas trans de contexto urbano se relaciona ao apagamento étnico e a degradação territorial, e apontar práticas de cuidado ancestral como tecnologias de [r]existências e cura coletiva.
Resultados
Identificou-se uma forma específica de sofrimento que denomino neste relato como “disforia do etnos”, que emerge do desencontro entre corpo, território e reconhecimento. Manifesta-se, primariamente, imposição de modos de nomeação, existência e organização social mediadas pelo Estado que negam a ancestralidade indígena fora de contextos de aldeamento, na exclusão dos dispositivos de saúde estruturados por fronteiras coloniais de gênero e territorialidade e na exposição a condições socioambientais degradadas que incidem diretamente sobre a saúde de nossos corpos-territórios.
Em contraponto, práticas como grafismos corporais, Jurema Sagrada, parentesco Kajuru’nyá e autodeclaração étnico-racial operam como tecnologias de regeneração. Mais do que estratégias de enfrentamento, afirmam outros modos de existir, cuidar e produzir saúde.
Em contraponto, práticas como grafismos corporais, Jurema Sagrada, parentesco Kajuru’nyá e autodeclaração étnico-racial operam como tecnologias de regeneração. Mais do que estratégias de enfrentamento, afirmam outros modos de existir, cuidar e produzir saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
A travessia Kajuru’nyá ensina que a saúde mental não pode ser dissociada de território — entendido como corpo, favela, cidade e mata. O que se nomeia “desastres ambientais” revela, na verdade, a falha de um projeto territorial colonial que destituiu formas originárias de habitar e instituiu espacialidades que produzem risco e morte. Nesse sentido, justiça climática implica reconhecer que o etnocídio produz ecocídio: a ruptura de modos originários de habitar institui formas de vida que geram degradação e colapso ambiental.
Na história recente deste território corpos “dissidentes” — trans — foram patologizados, interditados e caçados; entendidos como desvios de uma norma [cis]. Lógica esta que, em 1614, executou Tybyra Tupinambá amarrade a boca de um canhão. Submeter este relato é afirmar que somos sobreviventes de um bioma em regeneração: a urbanidade. Corpos-territórios que recusam o apagamento, que plantam futuro onde disseram que só haveria concreto. Nossa “disforia” é lucidez colonial. Nossa cura é coletiva, ancestral , territorial, é futuro que já está.
PERSPECTIVAS DE ADOLESCENTES E JOVENS TRANS ACERCA DA PREVENÇÃO AO HIV: UMA ANÁLISE A PARTIR DO ESTRESSE DE MINORIA
Comunicação Oral
1 Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Universidade Católica de Santos (UNISANTOS)
2 Escola Municipal de Saúde Pública Prefeitura Municipal de Santos, Santos, São Paulo
Apresentação/Introdução
A adolescência e a juventude são períodos marcados por intensas transformações biopsicossociais. Para adolescentes e jovens trans, esses processos se desenvolvem em contextos marcados pela cisnormatividade, estigmas, discriminações e violências, que incidem sobre suas trajetórias, experiências e possibilidades de viver com liberdade nos territórios. Há maior vulnerabilidade ao sofrimento psíquico nessa população, evidenciando a centralidade da saúde mental nos processos de cuidado, com repercussões nas formas de autocuidado e nas práticas de prevenção em saúde, incluindo o HIV. Nesse contexto, o referencial do estresse de minoria Wirth (1945) e Meyer (2003) contribui para compreender como a inserção em posições de desvantagem nas estruturas sociais produz desigualdades no acesso a direitos e serviços, além de gerar sobrecarga emocional que influencia decisões e práticas em saúde, articulando dimensões subjetivas, sociais e territoriais.
Objetivos
Compreender como o estresse de minoria associado à identidade de gênero informa as práticas de prevenção ao HIV entre adolescentes e jovens trans, analisando suas fontes, sua influência nas práticas preventivas e o papel de fatores sociais, institucionais e territoriais, considerando suas experiências vividas, trajetórias e processos de construção de autonomia, reconhecimento e cuidado.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, de abordagem descritivo-interpretativa, orientado pela perspectiva construcionista social, desenvolvido com adolescentes e jovens trans no município de Santos (SP). O estudo está inserido na pesquisa Babado Certo!, de base comunitária e caráter participativo, que tem como objetivo a construção compartilhada de um protocolo voltado à ampliação do acesso à prevenção ao HIV entre adolescentes e jovens trans, bem como ao fortalecimento do cuidado de pessoas vivendo com HIV. Participaram 13 adolescentes e jovens, com idades entre 16 e 26 anos, recrutadas/os/es por meio de serviços de saúde e de redes sociais e comunitárias que atuam nos territórios com a população trans, buscando contemplar a diversidade de experiências. A produção de dados incluiu entrevistas semiestruturadas, observação participante em contextos institucionais e territoriais, valorização de narrativas e histórias de vida, além de registros em diário de campo. A análise foi conduzida por meio da Análise Iterativa, articulada ao referencial do estresse de minoria, considerando as dimensões das experiências de preconceito e discriminação como expressões de relações de poder e subordinação social; da expectativa de rejeição e hipervigilância; e da internalização do estigma, compreendida à luz dos processos sociais de marginalização.
Resultados e Discussão
Houve diversidade de identidades de gênero entre adolescentes e jovens trans, incluindo uma travesti, uma pessoa pangênera, três não binárias, quatro mulheres trans e três homens trans, com variações de escolaridade, raça/cor e inserção laboral. As principais fontes de estresse foram transfobia, racismo, rejeição familiar e invisibilização institucional, produzindo hipervigilância, medo e antecipação de discriminação. Observou-se também baixa percepção de risco em relação ao HIV, articulada a contextos de vulnerabilidade e às demandas cotidianas de sobrevivência. Essas condições impactam a saúde mental e deslocam a prevenção ao HIV para um plano secundário, além de dificultarem o acesso e o vínculo com os serviços. Em contrapartida, serviços acolhedores e redes comunitárias fortalecem vínculos, ampliam o acesso à prevenção e sustentam práticas de cuidado baseadas na escuta e no reconhecimento.
Conclusões/Considerações Finais
O estresse de minoria mostra-se central para compreender as práticas de prevenção ao HIV entre adolescentes e jovens trans, sobretudo quando analisado para além de perspectivas individualizantes. As narrativas evidenciam que experiências recorrentes de discriminação, rejeição familiar e invisibilização social e institucional produzem um estado contínuo de hipervigilância, com impactos significativos na saúde mental e no deslocamento da prevenção ao HIV para um plano secundário, diante de demandas mais imediatas de sobrevivência e reconhecimento social. Nesse contexto, o estresse de minoria incide diretamente sobre o acesso aos serviços e as práticas de cuidado, podendo tanto ampliar vulnerabilidades quanto, em determinados arranjos, ser tensionado por fatores protetivos. Destacam-se, nesse sentido, experiências de acolhimento em serviços e redes que reconhecem as identidades de gênero, favorecendo a construção de vínculos, a ampliação do acesso à prevenção e a sustentação de práticas de cuidado. Os achados reforçam a necessidade de estratégias que promovam cuidado integral, reconhecimento identitário e redução das iniquidades, valorizando as experiências e fortalecendo redes de suporte nos territórios.
SAÚDE MENTAL E MASCULINIDADES: GRUPO TERAPÊUTICO COM HOMENS EM UM CAPS AD III NO NORDESTE DO BRASIL
Comunicação Oral
1 UFPE e PCR
2 PCR
Apresentação/Introdução
O CAPS AD III é um serviço do Sistema Único de Saúde (SUS), de base comunitária, que compõe a Rede de Atenção Psicossocial. Ele oferece atenção contínua em saúde mental a pessoas com demandas relacionadas ao uso abusivo de álcool, crack e outras drogas, durante 24 (vinte e quatro) horas por dia e em todos os dias da semana, inclusive finais de semana e feriados. O serviço funciona a partir de tipos distintos de atendimentos, sendo eles individuais ou em grupo, e demais tecnologias de cuidado. As atividades em grupo, compostas por atendimento psicoterapêutico grupal, grupos operativos e oficinas terapêuticas são algumas das formas de cuidado que compõem a Atenção Integral aos usuários do CAPS AD III, como propõe o Ministério da Saúde. Alguns dos grupos que formam o escopo de atividades do CAPS a partir do qual se desenvolveu o presente trabalho são: grupo de mulheres, grupo de arteterapia, grupo de geração de renda, grupo com familiares de usuários, grupo de acolhimento, grupo prevenção de recaídas.
Objetivos
Este trabalho tem como objetivo apresentar a experiência de um grupo terapêutico com homens, desenvolvido em um Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas III (CAPS AD III) de uma capital nordestina.
Metodologia
Ao ingressar neste serviço de saúde no ano de 2025, um questionamento passou a permear minha atuação como psicóloga neste âmbito. Mais de 80% dos usuários que frequentam o CAPS AD III em nosso território são homens e não havia um grupo específico para trabalhar questões relativas às masculinidades e saúde do homem. A partir desta inquietação e da necessidade emergente de tratar a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) em suas transversalidades no contexto do SUS, iniciamos diálogos com a equipe a fim de construir um grupo destinado a pensar a saúde dos homens. Duas psicólogas apresentaram a proposta do grupo na Jornada de Saúde Mental que aconteceu em setembro de 2025, momento em que foi possível partilhar o projeto com a rede de saúde mental (usuários, trabalhadores e acadêmicos), tendo sido uma proposta bem acolhida por todas as pessoas presentes. Em 10 de outubro de 2025, o grupo começou suas atividades, estando em funcionamento até os dias de hoje. O grupo foi nomeado como “grupo de homens: escritas de si”, utiliza a noção de Escrevivência de Conceição Evaristo como base teórico-metodológica para suas ações, conta com a presença de uma facilitadora e um co-facilitador a cada encontro e com a participação de em média quinze usuários do CAPS. Os usuários são homens com diferentes faixas etárias, entre 18 e 65 anos. A maioria deles são pessoas em situação de rua, alguns estão em cuidado continuado em Unidades de Acolhimento da Saúde Mental, além de acompanhamento no CAPS. Os encontros ocorrem uma vez por semana, nas sextas-feiras à tarde, por meio de oficinas e rodas de conversa, com duração de uma hora. Devido a rotatividade de usuários do CAPS, trata-se de um grupo aberto em que os participantes podem participar de forma contínua, mas novos integrantes podem se agregar a cada encontro.
Resultados e Discussão
São trabalhados temas como emoções, sonhos, amor, a influência do machismo no cuidado consigo e com os outros, questões raciais, relações familiares, projetos de vida, enfrentamento às violências, saúde sexual, a possibilidade de falar sobre si, sobre sentimentos e expressar as emoções de maneira segura como forma de cuidado. É possível analisar a importância de um espaço como este para os homens, a partir da relação de vínculo e assiduidade que os participantes têm desenvolvido com o grupo. Os encontros contam com a presença contínua dos homens, que se envolvem com as atividades e as avaliam positivamente. Os participantes propõem novos temas que gostariam de trabalhar e se engajam na construção do grupo, exercendo o protagonismo. Tem sido um espaço de expressões múltiplas das emoções, por meio da escrita, desenhos, expressões corporais e sobretudo da fala. O fato do grupo ocorrer nas sextas-feiras a tarde e ainda assim ter grande adesão dos homens é um ponto de avaliação para nós, tendo em vista que a sexta-feira tende a ser um momento crítico para muitos dos usuários que fazem uso de substâncias como álcool e crack. Alguns deles, mesmo concluindo os demais cuidados no CAPS retornam nas semanas seguintes apenas para a participação no grupo na sexta-feira, o que entendemos que tem contribuído para a saúde emocional deles de forma ampla e como consequência, para outros modos de relação com a droga.
Conclusões/Considerações Finais
Entendemos diante disso, que a existência de espaços de cuidado emocional para os homens, onde eles podem falar sobre si e expressar suas emoções de forma segura pode influenciar no uso mais consciente de álcool, crack e outras drogas e na redução de danos. Além de contribuir, de maneira estrutural, com outros modos de se relacionar consigo e com as pessoas que compõem seus territórios, a partir de noções de gênero e masculinidades que vão sendo construídas e passam a compor seus repertórios de vida.
Realização: