Programa - Comunicação Oral - CO13.11 - (Plur)Identidades, Interdisciplinaridade e qualificação do cuidado
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
A INTERDISCIPLINARIDADE NO CUIDADO A PESSOAS COM TRANSTORNOS ALIMENTARES: INOVAÇÕES TEÓRICO-PRÁTICAS A PARTIR DA EXPERIÊNCIA DO NAPTA
Comunicação Oral
1 UERJ
Apresentação/Introdução
A interdisciplinaridade tem sido apontada como uma das condições necessárias ao enfrentamento de inúmeros desafios no campo da saúde (LIMA, 2022), ainda que sua prática seja um enigma para profissionais de saúde. No que diz respeito ao cuidado em alimentação e nutrição, a complexidade das problemáticas se revela como um desafio maior quando reconhecemos o aprisionamento disciplinar imposto por uma lógica biomédica que fragmenta saberes, limitando o entendimento do processo de adoecimento e consequentemente das possibilidades terapêuticas. Entre esses desafios que se colocam para o campo da Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva, destacamos os transtornos alimentares, cujo tratamento interroga tanto a prática, quanto a formação em saúde, frequentemente marcadas por abordagens reducionistas que ignoram a complexidade desses fenômenos.
Objetivos
Refletir sobre a prática interdisciplinar como estratégia para o cuidado a pessoas com transtornos alimentares, a partir da experiência desenvolvida no Núcleo de Assistência e Pesquisa em Transtornos Alimentares (NAPTA), projeto de extensão e pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Metodologia
A pesquisa desenvolve-se junto a profissionais de saúde, estudantes e professores que participam das reuniões interdisciplinares de discussão dos casos atendidos pela equipe do NAPTA. Nas reuniões de equipe tomamos como referência a construção do caso clínico (VIGANÒ, 2010) como proposta metodológica que favorece a escuta de "pontos cegos" do cuidado, a abertura ao “não saber” e a circulação dos saberes entre os profissionais. Dada a complexidade dos casos assistidos, as narrativas dos diferentes atores envolvidos no cuidado pontuam a reflexão sobre como as práticas interdisciplinares se dão (ou não se dão), criando condições em que novas perspectivas e questionamentos ganham lugar na formação e qualificação profissional
Resultados e Discussão
Os transtornos alimentares tensionam simultaneamente categorias diagnósticas, arranjos institucionais e modelos assistenciais. Se, por um lado, demandam uma apropriação dos critérios psiquiátricos e das evidências clínicas, por outro, exigem uma escuta capaz de sustentar a dimensão subjetiva e sociocultural implicada no sofrimento. Essa dupla exigência desafia tanto a formação profissional quanto a organização da rede pública, revelando os limites de uma lógica assistencial fragmentada que separa corpo e psiquismo, clínica médica e saúde mental, especialização e cuidado integral.
A horizontalização do saber experimentada no NAPTA, a partir da discussão dos casos, permite um entrelaçamento de saberes que tem como efeito uma riqueza na escuta e a diversificação dos pontos de vista sobre cada caso. Tal experiência permite traçar estratégias inventivas e potentes na direção do cuidado, ampliando as possibilidades de intervenção que visam manejar resistências e evasões ao tratamento.
A interdisciplinaridade, portanto, não pode ser reduzida à justaposição de saberes, nem à soma de especialidades. Deve ser compreendida como uma prática construída na tensão entre campos, sustentada por negociação clínica, corresponsabilização institucional e reconhecimento da complexidade. Assim, mais do que ampliar dispositivos ou normativas, os desafios colocados por esses pacientes convocam uma revisão das formas de organizar o cuidado no SUS, de modo a acolher quadros que escapam às divisões tradicionais do campo da saúde,.
Ao documentar e analisar experiências interdisciplinares como a do NAPTA, contribui-se não apenas para a qualificação da assistência aos transtornos alimentares, mas para o avanço de um modelo de formação profissional e de atenção que reconheça a interdisciplinaridade não como uma técnica, mas como uma estratégia de construção coletiva do conhecimento e do cuidado, que amplia olhares, promove circulação de saberes e enfrenta a lógica fragmentária da ciência.
Conclusões/Considerações Finais
Embora a interdisciplinaridade se apresente como horizonte teórico das equipes de saúde, sua implementação permanece desafiadora tanto na prática clínica quanto na pesquisa, exigindo questionamento mútuo entre disciplinas, colaboração efetiva e elaboração conjunta de abordagens de cuidado. A experiência do NAPTA indica que a interdisciplinaridade configura uma ética do cuidado e uma política da escuta, capaz de fortalecer a formação profissional, qualificar os serviços e contribuir para políticas públicas eficazes no campo dos transtornos alimentares.
LIMA, Nísia Trindade. Pandemia e interdisciplinaridade: desafios para a saúde coletiva. Saúde em Debate, v. 46, p. 9–24, 2022.
SEIXAS, Cristiane Marques et al. Fábrica da nutrição neoliberal: elementos para uma discussão sobre as novas abordagens comportamentais. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 30, n. 4, p. e300411, 2020.
VIGANÒ, Carlo. A construção do caso clínico. Opção Lacaniana online, ano 1, n. 1, p. 1-9, 2010.
EFEITOS DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NA AUTONOMIA E NA SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA DAS BENEFICIÁRIAS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA
Comunicação Oral
1 IOC/Fiocruz
2 IESC/UFRJ
3 Psi/UFF-VR
4 ENSP/Fiocruz
Apresentação/Introdução
Introdução: Segundo a literatura, programas de transferência de renda condicionada, como o Programa Bolsa Família (PBF) no Brasil, impactam na redução da morbidade e mortalidade e tem efeitos no empoderamento dos/as beneficiários/as. Há evidências acerca da influência do PBF no enfrentamento dos fatores multidimensionais da pobreza (acesso à educação, alimentação e moradia) e na prevenção de hospitalizações e mortes no país. Quanto ao aspecto identitário, há estudos que associam uma maior autonomização da vida moral das beneficiárias haja vista que a mulher, indicada na inscrição da família no CadÚnico, é o familiar que preferencialmente recebe o benefício; ou seja, o cartão do Bolsa Família, em geral, é no nome da mulher.
Objetivos
Objetivos: Por meio de uma revisão integrativa, o trabalho teve o objetivo de sintetizar a produção acadêmica sobre os efeitos da Programa Bolsa Familia (PBF) na Saúde Sexual e Reprodutiva (SSR) das beneficiárias, visando identificar lacunas, orientar práticas e gerar novas compreensões.
Metodologia
Metodologia: A revisão se caracterizou pelo levantamento da literatura (nacional e internacional) nas bases Scopus, PubMed Central, Web of Science, Global Index Medicus, Biblioteca Virtual em Saúde e SciELO, combinando 53 descritores, sem definir período. Após retirar as duplicatas e aplicar critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 580 estudos. Desse total, foram identificados 45 artigos sobre PBF e SSR, classificadas segundo: autoria, ano, título; objetivos; população; metodologia e conteúdo. Tendo por base a análise de conteúdo temática, os conteúdos foram organizados e interpretados segundo três categorias: empoderamento e autonomia; cuidados obstétricos e no pré-natal e promoção e prevenção da saúde sexual e outros agravos.
Resultados e Discussão
Resultados/discussão: Os estudos indicam a associação do PBF com a melhora nas condições de vida, maior circulação pública das mulheres, acesso ao crédito e oportunidade das beneficiárias de planejar e decidir sobre os gastos do benefício com liberdade e maior dignidade. Os resultados atualizam pesquisas prévias sobre o papel da transferência de renda na autonomia moral e econômica das beneficiárias. Ademais, indicam que o PBF: favorece o acesso aos meios contraceptivos das beneficiárias; resulta em melhorias nos indicadores da saúde materno-infantil, cuidados no pré-natal, parto e pós-natal, cobertura vacinal e atenção à saúde das crianças; favorece a prevenção do HIV e da sífilis e reduz a incidência, hospitalização, morbidade e mortalidade por aids de seus destinários/as. Por outro lado, segundo alguns estudos, as condicionalidades colaboram para reiterar o lugar tradicional das mulheres no cuidado familiar. Tais críticas, somadas às expressivas desigualdades regionais, socioeconômicas, étnico-raciais e de gênero do país, apontam para a importância de o PBF investir na participação política, visando fomentar a conscientização social e a equidade de gênero e étnico-racial entre as/os beneficiárias/os. As evidências sobre as implicações das forças conservadoras no país na esfera política tornam ainda mais relevante o fomento de políticas públicas sobre a promoção da SSR nos serviços de saúde e nas escolas. O recorte na área da SSR revelou um quantitativo maior de estudos com as beneficiárias. Tal tendência pode ser compreendida pelo fato de a mulher ser responsável pelo recebimento do benefício, pelos homens não serem sujeitos às condicionalidades do programa como as mulheres e pela relação histórica dos estudos de gênero associados à SSR e à população feminina. Em estudos futuros, cabe explorar a promoção da saúde sexual entre as/os destinatárias/os do PBF e a perspectiva dos beneficiários homens.
Conclusões/Considerações Finais
Considerações finais: A revisão permitiu identificar avanços e desafios do PBF relativos à SSR no cenário nacional. Parte da análise complementa e atualiza os resultados sobre os efeitos positivos do programa para autonomia e integridade física e psicossocial das beneficiárias, seu acesso a atividades laborais e a melhoria nos indicadores de saúde materno-infantil e prevenção do HIV/IST. Mas, ao mesmo tempo, evoca uma identidade tradicional de mulher-mãe para o cumprimento das condicionalidades no âmbito da saúde e educação. Tais achados reiteram a importância do PBF fomentar a participação política das beneficiárias em espaços de controle social. Ainda nesta direção, cabe integrar o PBF a ações de promoção da SSR nos serviços e escolas, para redução da violência e desigualdades de gênero, bem como investir na qualificação da formação acadêmica e profissional das/os beneficiários/as, principalmente nas regiões mais pobres, visando ampliar as perspectivas de inserção profissional mais qualificada e melhor remunerada e, consequentemente, a mobilidade social. Esses investimentos podem contribuir para ampliar a autonomia moral e econômica das mulheres destinatárias e para uma avaliação da participação dos beneficiários homens nas condicionalidades do programa.
QUALIFICAÇÃO DO CUIDADO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: IMPLICAÇÕES DO PROJETO DE BRAÇOS ABERTOS NO CEARÁ
Comunicação Oral
1 UFC
Apresentação/Introdução
A cuidado em saúde exige a articulação entre clínica, gestão e política (Campos, 2003). Neste sentido, o desenvolvimento de processos de mudanças de práticas nos serviços de saúde é fundamental. No Ceará, desde 2024, implanta-se o projeto De Braços Abertos, coordenado pelo governo estadual, visando qualificar o cuidado na Atenção Primária à Saúde (APS), por meio de estratégias de planificação, educação permanente e atuação de articuladores.
Objetivos
Este trabalho visa compreender as implicações do projeto De Braços Abertos na qualificação do cuidado na Atenção Primária à Saúde, a partir das perspectivas de profissionais e gestores.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de implementação iniciada em janeiro de 2025 e ainda em andamento, realizada em duas regiões de saúde do estado do Ceará. A produção das informações ocorreu por meio de observação participante, análise documental, registros em diários de campo e entrevistas semiestruturada com profissionais e gestores envolvidos na implementação do projeto, nos níveis estadual, regional e municipal. Os diferentes procedimentos foram articulados por meio da triangulação de métodos, possibilitando a integração de múltiplas fontes e técnicas. A análise dos dados fundamentou-se na hermenêutica interpretativa, considerando a relevância atribuída à linguagem como mediadora entre experiência, discurso, indivíduo e contexto social. O processo analítico-interpretativo voltou-se às experiências dos profissionais compreendidas como representações situadas nas dinâmicas de qualificação do cuidado e da gestão na APS.
Resultados e Discussão
Há uma heterogeneidade de significados construídos entre os atores que está relacionado, sobretudo, às especificidades territoriais e institucionais de cada regiões de saúde. O porte dos municípios, o parque tecnológico, a disponibilidade de recursos humanos e os modos de organização dos processos de trabalho manifestaram-se com relevância analítica nas experiências profissionais que, por sua vez, incidem e orientam a qualificação do cuidado nos distintos níveis de atenção e gestão.
A definição de indicadores e de meta mobilizadora para o cuidado materno-infantil foi apontado como dimensão fortalecedora das práticas assistenciais e na redução das barreiras de acesso das gestantes vinculadas aos territórios. Todavia, a integração entre a APS e a atenção especializada apresentou-se como um dos principais desafios para a estruturação da Redes de Atenção à Saúde (RAS), compreendida menos como um problema organizacional e mais como um processo relacional, atravessado por dinâmicas de comunicação e o alinhamento de fluxos e protocolos. O alinhamento de protocolos e fluxos operacionais e, especialmente, o fortalecimento dos comitês de investigação de óbitos, emergem como medidas técnicas e, sobretudo, como processos que requerem engajamento político‑institucional, capacidade de articulação intersetorial e sustentação cotidiana por parte da gestão municipal e regional.
Espaços de governança foram percebidos como instrumentos de mobilização político-institucional e organizacional na busca para superar a fragmentação e assegurar a integralidade. A alta rotatividade de profissionais foi manifestado nas construções discursivas e observados no cotidiano de trabalho como elemento crítico que fragiliza a continuidade dos processos e desafia a consolidação das estratégias implementadas ao interromper a construção de vínculos entre profissionais, usuários e território.
Conclusões/Considerações Finais
Os discursos traduziram os significados e o dimensionamento das práticas dos sujeitos entrevistados e envolvidos no processo de implementação do projeto. As mudanças induzidas pelo projeto estão diretamente relacionadas à cultura organizacional dos serviços, particularmente no que se refere à incorporação de novas práticas no cotidiano de trabalho. Quando fortalecida, tal articulação favorece a constituição de práticas de compartilhamento do cuidado dos usuários contribuindo para uma gestão de caso contínua e responsiva às necessidades e vulnerabilidades identificadas no território. A aproximação entre os pontos de atenção reforça o papel ordenador da APS, ainda que sua centralidade no acompanhamento longitudinal, e na definição de fluxos assistenciais ainda seja um desafio.
A qualificação do cuidado impulsionada pelo projeto depende da capacidade de fortalecer vínculos entre serviços, gestores e territórios, reafirmando o papel estratégico da APS na coordenação do cuidado, na redução de barreiras de acesso e no enfrentamento das iniquidades em saúde. Os resultados indicam que as implicações do projeto extrapolam a dimensão técnica, exigindo sustentação político‑institucional e investimento contínuo em processos de articulação intersetorial e comunicacional.
FAZER CUIDADO NO TERRITÓRIO: UMA ETNOGRAFIA ENTRE PESSOAS NEGRAS NA CIDADE DE SÃO PAULO
Comunicação Oral
1 UFPB
2 USP
Apresentação/Introdução
No campo da Saúde Coletiva, a categoria identidade tem atravessado políticas e práticas de saúde, sendo frequentemente mobilizada de forma estabilizada e objetificada, reduzida a marcadores fixos, em contraste com sua compreensão como construção histórica, relacional e processual. Tal uso tende a alinhar-se à noção de um sujeito universal, produzindo homogeneização e essencialização das diferenças. De modo semelhante, a polissemia da categoria cuidado, amplamente mobilizada em diferentes abordagens no campo, revela tanto sua centralidade quanto sua dispersão, contribuindo, por vezes, para uma operacionalização fragmentada e pouco sensível às dimensões territoriais, afetivas e relacionais das práticas de saúde. Nesse sentido, este trabalho parte de cenas etnográficas para sustentar que o cuidado não se limita às formas institucionalizadas no Sistema Único de Saúde (SUS), mas se produz em territórios onde corpos, afetos e pertencimentos se articulam de modo situado.
Objetivos
Analisar como práticas territoriais de pessoas negras produzem cuidado e compreender as tensões estabelecidas entre esses modos de cuidado e aqueles operados pelas políticas públicas, especialmente no que se refere ao princípio da integralidade no SUS
Metodologia
Trata-se de um recorte de uma pesquisa etnográfica realizada com pessoas negras sexo-gênero diversas na cidade de São Paulo, entre 2021 e 2023. A investigação toma como foco as formas pelas quais essas pessoas constroem e vivenciam relações afetivas de modo territorializado (Santana, 2024), situando-se no campo da Antropologia das Emoções (Lutz; Abu-Lughod, 1990; Rezende; Coelho, 2010). As interlocuções ocorreram com pessoas autodeclaradas negras e sexo-gênero diversas, maiores de 18 anos e residentes na cidade. O trabalho de campo acompanhou fluxos e circulações de pessoas, ideias e afetos em diferentes espaços de sociabilidade, como bares, universidade e terreiros, caracterizando-se como uma etnografia multissituada (Marcus, 1995). Além disso, o trabalho de campo foi orientado pela noção de efeito etnográfico proposta por Marilyn Strathern (2014), com atenção às revelações produzidas no curso da experiência etnográfica. A construção da inteligibilidade das situações etnográficas deu-se por meio do retorno sistemático ao diário de campo, possibilitando a revisitação dos registros produzidos ao longo das incursões e o consequente refinamento analítico dos argumentos. Em termos éticos, a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da universidade a qual os autores estão vinculados (parecer nº 5.383.013), em conformidade com a Resolução CNS nº 510/2016. Para garantir o anonimato, foram utilizados nomes fictícios, exceto nos casos de pessoas interlocutoras publicamente reconhecidas.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que, entre modos de vestir, circular e ocupar a noite, realçam-se diferenças que não apenas distinguem sujeitos, mas fazem surgir regimes diversos de relação e cuidado ao frequentar o Aparelha Luzia. A programação da festa, atravessada por gêneros como afrobeat, house e funk, e pelo chamado ao “aquilombar-se”, não opera como mero anúncio, mas como dispositivo que aciona e produz coletividade. Nesse contexto, o aquilombamento é compreendido como prática que engendra formas de cuidado ancoradas na experiência compartilhada, na proteção mútua e na afirmação de identidades negras e dissidentes, em termos sexuais e de gênero. Ao invés de opor tais práticas ao SUS, a análise aborda as tensões entre diferentes regimes de cuidado. Se, por um lado, as políticas públicas operam sob o princípio da integralidade, por outro, práticas territoriais como as observadas tensionam seus limites ao evidenciar que o cuidado também se produz fora, e além, das instituições. Questiona-se, assim, a noção de fragmentação frequentemente associada às políticas identitárias, propondo compreender essas experiências como formas de ampliação e complexificação do cuidado
Conclusões/Considerações Finais
Os dado etnográficos apontam que a gestão do cuidado no SUS pode se beneficiar do reconhecimento de práticas situadas, não como exteriores ou marginais, mas como constitutivas de ecologias mais amplas de cuidado a partir de experiências dos sujeitos em determinados territórios. Ao evidenciar contrastes e fricções entre diferentes modos de produzir cuidado e saúde, aponta-se para a necessidade de fortalecer abordagens interseccionais que articulem raça, gênero e território, contribuindo para a construção de políticas mais alinhavadas às experiências e aos modos de vida de populações historicamente marginalizadas.
ALÉM DOS PROTOCOLOS: EDUCADORES PARES E A LÓGICA DO CUIDADO NA OFERTA DE PREP PARA ADOLESCENTES E JOVENS NO BRASIL
Comunicação Oral
1 UNEB
2 UFBA
3 USP
4 UFMG
5 Université Lumière Lyon 2
6 UNEB/FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
A literatura sobre a oferta da profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) tem privilegiado a análise do papel dos profissionais de saúde, dos protocolos clínicos e dos desfechos biomédicos. No entanto, o papel do educador par permanece relativamente pouco teorizado, apesar de sua centralidade nas respostas em saúde pública voltadas a adolescentes e jovens internacionalmente. No contexto brasileiro, marcado por desigualdades sociais e desafios no acesso aos serviços, torna-se fundamental compreender como esses atores podem contribuir para a produção do cuidado.
Objetivos
Analisar o papel dos educadores pares na oferta de PrEP para adolescentes e jovens no Brasil, considerando suas práticas no processo de cuidado e sua contribuição para a produção de vínculos, adesão e continuidade no cuidado.
Metodologia
Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, realizado em Salvador, São Paulo e Belo Horizonte, no âmbito do estudo PrEP1519 Choices, que investiga as escolhas de adolescentes e jovens entre diferentes modalidades de PrEP, em serviços comunitários implantados nestas cidades. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 22 usuários de PrEP, com idades entre 17 e 21 anos, contemplando diversidade de identidades de gênero e orientações sexuais.
A análise foi orientada pelo referencial da lógica do cuidado, proposto por Annemarie Mol, com foco nas práticas atribuídas aos educadores pares no processo de oferta e acompanhamento da PrEP.
Resultados e Discussão
Os participantes identificaram os educadores pares como atores centrais no processo de cuidado, cuja atuação ultrapassa a mediação de informações biomédicas. Esses agentes desempenham funções relacionadas à criação de demanda, navegação nos serviços de saúde, vinculação ao cuidado, além de favorecer a adesão e a retenção no acompanhamento.
As práticas relatadas incluem o estabelecimento de contato contínuo, envio de mensagens, acompanhamento das rotinas cotidianas, esclarecimento de dúvidas, lembretes para uso da medicação e incentivo à frequência aos serviços de saúde. Tais práticas não se restringem ao espaço clínico ou aos momentos de consulta, mas se desenvolvem ao longo do tempo, por meio de interações regulares e da construção de vínculos.
O cuidado, nesse contexto, extrapola o espaço físico dos serviços de saúde, sendo produzido em uma rede de relações sustentadas pela proximidade e pela continuidade. Os educadores pares são reconhecidos como referências personalizadas e interlocutores privilegiados para lidar com dúvidas e dificuldades relacionadas ao uso da PrEP, tanto oral quanto injetável.
A análise também evidenciou desafios relacionados à continuidade desses vínculos, especialmente diante da rotatividade de educadores pares, o que aponta para limites na institucionalização dessa função nos serviços. Ademais, emergiu uma dimensão identitária do cuidado, indicando que a oferta de PrEP envolve não apenas aspectos biomédicos, mas também elementos simbólicos e afetivos.
Sob a perspectiva da lógica do cuidado, observa-se que a efetividade da oferta de PrEP depende da sustentação de práticas relacionais contínuas, que articulam dimensões técnicas, sociais e afetivas. Esses achados dialogam com debates contemporâneos sobre a ampliação das concepções de cuidado em saúde e a incorporação de atores não tradicionais na produção do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicam que os educadores pares desempenham um papel estruturante na produção do cuidado em PrEP, atuando como mediadores de práticas que articulam dimensões biomédicas, relacionais e simbólicas. À luz da lógica do cuidado, evidencia-se que a oferta de PrEP não se sustenta exclusivamente em protocolos clínicos, mas depende da continuidade de interações, da construção de vínculos e da presença de atores capazes de acompanhar trajetórias singulares de uso.
A atuação dos educadores pares configura-se, assim, como componente relevante para a adesão e permanência no cuidado, ao mesmo tempo em que revela desafios relacionados à sua institucionalização e continuidade nos serviços. Esses achados contribuem para o aprimoramento de modelos de prevenção ao HIV, ao destacar a importância de integrar práticas relacionais e dispositivos de cuidado que extrapolam a dimensão estritamente biomédica no âmbito dos sistemas públicos de saúde.
Realização: