Programa - Comunicação Oral Curta - COC27.1 - Territórios, ancestralidade e interculturalidade na produção de cuidados
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
CARTOGRAFIA-ESCREVIVENTE DE UM HOMEM INDÍGENA A PARTIR DO CORPO-TERRITÓRIO: COMPREENDENDO A RACIALIZAÇÃO COMO PROCESSO ETNOCIDA
Comunicação Oral Curta
1 UFC
Apresentação/Introdução
O trabalho apresenta resultados preliminares de uma pesquisa de doutorado conduzida por um pesquisador indígena em processo de retomada étnica. A proposta metodológica rompe com a tradição científica convencional ao priorizar uma abordagem que parte do conceito de corpo-território, compreendendo que a discussão sobre território deve iniciar-se pela experiência vivida, pelas memórias e pelo contexto social marcado por processos históricos de racialização e etnocídio.
Objetivos
A pesquisa utiliza a cartografia como método de pesquisa-intervenção, rejeitando prescrições rígidas e objetivos previamente definidos. Associada às escrevivências, essa abordagem — denominada cartografia escrevivente — enfatiza a necessidade de uma posição engajada do pesquisador, produzindo conhecimento de forma coletiva e reflexiva, a partir de narrativas e da escrita de si.
Metodologia
Para isso, utilizou-se a cartografia, como método de pesquisa-intervenção, pressupõe uma orientação do trabalho do pesquisador que não se faz de modo prescritivo, por regras já prontas, nem com objetivos previamente estabelecidos. A escolha da associação da cartografia com as escrevivências – uma Cartografia Escrevivente – pauta-se na necessidade de uma posicionalidade engajada das pesquisadoras, no sentido de produzir com os cartógrafos, colegas de profissão neste trabalho, uma narrativa e uma escrita de si.
Resultados e Discussão
O conceito de corpo-território, desenvolvido por feministas latino-americanas sob influência de perspectivas decoloniais, busca desnaturalizar opressões e questionar a subalternização de grupos historicamente marginalizados. Para povos indígenas, esse conceito ultrapassa a ideia de posse, propondo uma relação de interdependência: não se trata de “ter” um corpo ou um território, mas de ser parte de uma rede coletiva de vida, em que o indivíduo se constitui em relação com outros seres e formas de existência. O texto discute ainda os impactos da colonização, marcada pela imposição violenta de valores europeus, resultando em processos de etnocídio, deslocamento e apagamento cultural. A colonialidade é apresentada como uma estrutura complexa que articula controle sobre economia, autoridade, natureza, gênero, sexualidade e conhecimento. Nesse contexto, a figura do homem branco europeu é instituída como norma, promovendo a morte simbólica dos povos originários por meio da construção de estereótipos e de uma narrativa única que os desumaniza. Essa lógica produz uma visão limitada do que é ser indígena, associando-o a características fixas e desconsiderando a diversidade de mais de 300 povos no Brasil e os efeitos históricos da colonização. Assim, populações indígenas contemporâneas são frequentemente invisibilizadas ou deslocadas para um passado estereotipado. O trabalho dialoga com as reflexões de Frantz Fanon sobre identidade racial, especialmente a partir de sua experiência descrita em “Pele Negra, Máscaras Brancas”. Fanon analisa como a percepção de si é atravessada pelo olhar do outro em uma sociedade racialmente hierarquizada, revelando os impactos psicológicos da racialização. Essa perspectiva é mobilizada para compreender experiências semelhantes vividas pelo autor da pesquisa. Ao ingressar na universidade, espaço estruturado por valores dominantes brancos, o pesquisador relata um episódio de discriminação que o levou a uma tomada de consciência sobre sua identidade indígena. A partir dessa vivência, inicia um processo de reconexão com sua história familiar, resgatando trajetórias que atravessam territórios no Ceará e no Piauí, regiões historicamente marcadas por aldeamentos e processos de assimilação forçada. O texto evidencia como o afastamento territorial e cultural, vivido ao longo de gerações, contribui para o enfraquecimento das tradições indígenas, especialmente em contextos urbanos periféricos. Ainda assim, traços culturais resistem, embora frequentemente sejam alvo de racismo e violência simbólica em diferentes espaços sociais, como escola, universidade e trabalho, como frases pejorativas, racistas e ofensivas, como:“Canta a música da Xuxa pra eu ver”, “Amiga, depois diz como é se relacionar com um índio”, “Ei Tapeba, quer levar dois tiros na cara?”, “Esse veio do Piauí carregando um cacho e banana na mão e passando fome”.
Os relatos de discriminação apresentados ilustram como estereótipos e práticas racistas continuam a operar, muitas vezes de forma naturalizada. Esses processos estão vinculados à racialização dos povos indígenas, que os enquadra como categoria racial e os submete a dinâmicas de exclusão que impactam diretamente sua saúde e bem-estar.
Conclusões/Considerações Finais
Dessa forma, o estudo propõe uma reflexão crítica sobre identidade, território e colonialidade, destacando a importância de metodologias que valorizem experiências vividas e saberes situados, contribuindo para a construção de narrativas que resistam ao apagamento histórico e afirmam a diversidade e a complexidade dos povos indígenas contemporâneos.
CORPO, SAÚDE MENTAL E INTERSETORIALIDADE: EXPERIÊNCIAS COLETIVAS DE CUIDADO EM ESCOLA SITUADA EM TERRITÓRIO MARCADO POR VIOLÊNCIAS NO RIO DE JANEIRO
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
A última Pesquisa Nacional sobre a Saúde dos Escolares (PeNSE), referente a 2024 e publicada em 2026, estima que mais de doze milhões de jovens entre 13 e 17 anos frequentem escolas públicas e privadas no país. Nesse contexto, a escola configura-se como espaço privilegiado para compreender dinâmicas de sofrimento e estratégias de saúde desse grupo, ainda pouco presente nos serviços de saúde. O estudo aborda diversos aspectos da vida escolar e evidencia como marcadores sociais, como gênero, raça, classe e desigualdades regionais, agravam os desafios enfrentados pelos estudantes a fatores de risco, tais como exposição a violências e ao bullying. Aponta ainda uma escalada dessas violências em escolas de todo o país, com as meninas como principais vítimas, relatando como motivos frequentes a “aparência do rosto ou do cabelo”, remetendo à articulação entre gênero e raça, além da “aparência do corpo”. Este relato de pesquisa apresenta estratégias de cuidado em saúde e saúde mental voltadas a comunidades escolares em territórios marcados por múltiplas violências no Rio de Janeiro, desenvolvidas no âmbito do projeto de pesquisa-intervenção “Estratégias intersetoriais de produção do cuidado em escolas de territórios marcados por violências”, coordenado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). Iniciada em 2024, a pesquisa ocorre em quatro escolas estaduais de ensino médio próximas ao campus da Fiocruz e tem como foco o fortalecimento do Programa Saúde na Escola (PSE), por meio de encontros entre a comunidade escolar e a rede de saúde e assistência dos territórios. Destaca-se também o Apoiador Institucional Intersetorial (AII), profissional com formação em saúde coletiva, atento às demandas e às práticas de cuidado locais, atuando na sua dinamização e na promoção da saúde, da saúde mental e de espaços escolares mais democráticos.
Objetivos
O relato busca compartilhar estratégias coletivas de cuidado construídas ao longo do percurso da pesquisa-intervenção, a partir da experiência do AII em uma das escolas, na qual se tem apostado no desenvolvimento de oficinas e de práticas que tomam o corpo e suas possibilidades de expressão como eixo central. Essas atividades são voltadas a estudantes e docentes, a exemplo da oficina de canto para professores, da oficina de teatro destinada ao corpo discente e da escuta ativa destinada à comunidade escolar.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa-intervenção, que tem como dispositivo central o papel do Apoiador Institucional Intersetorial (AII), que tem papel pedagógico e político, atuando diretamente na criação de condições para que a escola se configure como um território de produção de cuidado. Este profissional, com formação em saúde coletiva e orientado pela atenção psicossocial, busca criar espaços coletivos de reflexão entre saúde, assistência social, cultura e comunidade escolar, o que estimula a leitura crítica dos territórios, das demandas dos estudantes e das condições de vida que atravessam o cotidiano escolar. Este resumo prioriza uma das formas de intervenção do AII: a realização de oficinas que tomam o corpo e suas possibilidades expressivas como centralidade do cuidado.
Resultados e Discussão
Observam-se impactos no bem-estar escolar a partir da realização das oficinas. A oficina de canto, intitulada “O show tem que continuar”, em homenagem a Luiz Carlos da Vila, patrono da escola, é destinada aos docentes e ocorre duas vezes por semana, em horários acordados com a gestão, sendo conduzida pelo professor de música. Nesse processo de musicalização entre pares, além de cuidarem das cordas vocais, os docentes acessam repertórios do compositor e de outros autores, evocando memórias do território, da escola e de suas trajetórias. A oficina de teatro, ofertada semanalmente no contraturno, envolve exercícios de consciência e sensibilização corporal, com práticas de respiração, mobilidade e construção de cenas do cotidiano. Ao elaborá-las, os estudantes refletem sobre suas experiências. O trabalho, ao promover o reconhecimento e o prazer no “corpo próprio”, tem potencial protetivo frente a agressões à diversidade de corpos e fenótipos e à produção de desejos padronizados.
Conclusões/Considerações Finais
A pandemia de Covid-19 impactou a vida de todos, e de modo particular a juventude, que vivenciou longos períodos de afastamento do ambiente escolar, espaço que, além do aprendizado, promove convivência e proteção. Esse distanciamento contribuiu para o aumento do uso e da dependência de redes sociais, bem como para o crescimento do bullying e do cyberbullying. Diante disso, investir em práticas de cuidado e educação que incluam o corpo, a convivência e a expressividade, e que possam ser construídos junto às comunidades escolares, em consideração a interculturalidade, mostra-se uma estratégia importante.
O TERRITÓRIO COMO DIRECIONAR DE PRÁTICAS DE ACOLHIMENTO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: A EXPERIÊNCIA DE UMA UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE NO RIO DE JANEIRO
Comunicação Oral Curta
1 ENSP - FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
O trabalho apresentado deriva de uma pesquisa realizada na Unidade Básica de Saúde Cachoeira (UBSC, nome ficítico), no município do Rio de Janeiro (MRJ), no âmbito Mestrado Profissional em Saúde Pública. O trabalho se dedicou a analisar o acolhimento na Atenção Primária à Saúde (APS), tomando-o como prática social (BOURDIEU, 1983). O resgate histórico e conceitual do termo revela que o mesmo é tomado de forma elástica e onipresente, sendo mobilizado em diversos âmbitos e para responder a diferentes dimensões do cuidado (BENEVIDES; PASSOS, 2005; GIORDANI et al., 2020; TESSER; POLI NETO; SANTOS, 2010). Sob a ótica das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, o acolhimento revela-se como uma prática social complexa, produzida nas interações entre profissionais, usuários e gestão. A partir da narrativa de profissionais de saúde, o território aparece ligado ao debate de acolhimento, uma vez que desafia normas institucionais e exige constantes renegociações ético-políticas no cotidiano dos serviços. Assim, ao problematizar o território como agente ativo, torna-se possível desvelar as disputas de narrativas que se materializam na porta de entrada da unidade.
Objetivos
Geral: Analisar o acolhimento na APS como prática social, a partir da perspectiva dos profissionais, com ênfase na influência das concepções de território na produção do cuidado na UBSC. Específicos: Caracterizar o território da UBSC a partir do trabalho de campo; Analisar como as dinâmicas do território influenciam as práticas de acolhimento no cotidiano.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa com orientação etnográfica, compreendida como uma prática situada de interpretação da realidade social (MINAYO, 2007). Sob a lente da teoria da prática de Pierre Bourdieu, a etnografia é adotada como uma "teoria em ação", buscando apreender o acolhimento como um "fazer em ato", onde gestos e falas revelam as disposições do habitus profissional (BOURDIEU, 1989). O estudo de caso foi realizado na UBSC, unidade com mais de dez anos de funcionamento, tratada metodologicamente como um "caso particular do possível", de modo que a sua interrogação sistemática revele propriedades gerais que atravessam o campo da APS do MRJ. A produção de dados envolveu observação in loco e 16 entrevistas semiestruturadas com diversas categorias profissionais (ACS, médicos, enfermeiros, gestão e trabalhadores de suporte). O material empírico foi submetido à análise de conteúdo, orientada pela praxiologia bourdieusiana. Essa análise mobilizou os conceitos de habitus, campo e capital para compreender como as trajetórias e posições dos agentes informam as práticas sociais de acolhimento no cotidiano do serviço.
Resultados e Discussão
Os achados revelam que o território da unidade é caracterizado pelos profissionais como um espaço em transição histórica, migrando de um antigo polo industrial para um “bairro dormitório”, com pouco comércio. É marcado por heterogeneidade socioespacial, operando na dicotomia simbólica entre “asfalto” e “comunidade”. Profissionais relatam a coexistência de três perfis de usuários: dependentes exclusivos do SUS; aqueles que recorreram à unidade após perder planos de saúde; e os que mantêm vínculos privados, utilizando o serviço de forma pontual. Essas posições geram conflitos de expectativas: usuários oriundos da lógica privada tendem a desconhecer o funcionamento do serviço, enquanto moradores de áreas mais vulneráveis se apropriam da lógica, mas são estigmatizados como imediatistas. A organização do trabalho em equipes territorializadas aparece como estratégia para lidar com a complexidade local, favorecendo o conhecimento sobre a população, o vínculo e a longitudinalidade do cuidado, ao mesmo tempo em que incide nas relações entre as equipes no cotidiano da unidade. Diante das desigualdades, os profissionais mobilizam a equidade (BRASIL, 1988) para ofertar mais àqueles que sequer sabem o que podem solicitar. O acolhimento deixa de ser triagem técnica e torna-se mediação para garantir direitos a quem ocupa posições desfavoráveis. Os reflexos da violência armada também incidem sobre o habitus profissional, exigindo estratégias constantes. O território, assim, desafia normas institucionais e exige que o acolhimento seja uma prática relacional e adaptável.
Conclusões/Considerações Finais
Esses achados permitem compreender o acolhimento como resultado da articulação entre habitus profissionais e as estruturas do campo da saúde, continuamente tensionadas pelas condições concretas do território. As práticas observadas evidenciam o exercício de uma discricionariedade situada, na qual os profissionais operam como mediadores entre normas institucionais e demandas sociais complexas (LIPSKY, 2019). Em síntese, o território não apenas contextualiza, mas produz e orienta o cuidado. O acolhimento, nesse cenário, configura-se como um espaço privilegiado de expressão dessas dinâmicas, revelando-se como uma prática relacional, situada e profundamente marcada pelas desigualdades e disputas que atravessam o cotidiano do SUS.
POLÍTICA NACIONAL DE CUIDADOS E SUAS INOVAÇÕES ANCESTRAIS: REPERCUSSÕES PARA A SAÚDE COLETIVA
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Federal do Ceará (UFC)
Apresentação/Introdução
Este é um trabalho crítico-reflexivo inserido em um ensaio em que discutimos ancestralidade, tradição e o conceito de cuidado. Nesse recorte trazemos como o pensamento decolonial, especialmente da América Latina, influenciou a construção de políticas públicas no Brasil. No caso brasileiro, temos a Política Nacional de Cuidados (PNC), instituída pela Lei nº 15.069/2024, que inspirada em conceitos amplos e diversos, colocam o cuidado como prioridade intersetorial das políticas públicas brasileiras, sendo transversal a todas as ações de Estado, em que o cuidado agora é visto como um direito do cidadão brasileiro nas diversas esferas de sua vida. Nesse contexto, essa nova forma de ver o cuidar também repercute no campo da Saúde Coletiva (SC) e no Sistema Único de Saúde (SUS), em que a noção de cuidado perpassa toda a prática assistencial regida pelas políticas públicas de saúde.
Objetivos
Discutir a influência de perspectivas decoloniais e tradicionais para a PNC e suas repercussões para o campo da SC.
Metodologia
Pela análise de textos de autores decoloniais e do pensamento tradicional sul-americano, políticas públicas da américa latina e a PNC, refletimos sobre o diálogo entre esses saberes e construções políticas, discutindo quais as repercussões para o campo da SC em construção do conhecimento e práticas assistenciais.
Resultados e Discussão
Há algumas décadas a forma de cuidar construída em cima do pensamento positivista moderno e biomédico vem sendo questionada, especialmente na América Latina. Inúmeros autores brasileiros e sul-americanos vêm trazendo outras perspectivas que ampliam a visão de mundo linear e sintética da modernidade. Autores como Krenak, Nego Bispo, Acosta, Maldonado-Torres, Quijano, Mignolo, Gonzalez, Fanon, Carneiro, entre outros, são expoentes na crítica da colonialidade do poder/saber da modernidade, trazendo outras noções de vivências de cuidado, cura e saúde, baseadas em cosmovisões que já existem há milhares de anos. Nessa perspectiva, o Bem Viver andino, como cosmovisão ancestral baseado no princípio de respeito e cuidado com os seres humanos, a terra e a natureza, foi incorporada juridicamente nas Constituições do Equador (2008) e da Bolívia (2009). Acreditamos que essas críticas e inovações jurídicas renderam influências importantes para a PNC brasileira, uma vez que passa a ver o cuidado como parte de diversos setores das políticas públicas, como: saúde, assistência social, direitos humanos, educação, trabalho e renda, esporte, lazer, cultura, mobilidade, previdência social. O texto enfatiza o acesso ao cuidado por toda a vida e implica as relações de trabalho como também responsáveis pelas desigualdades de cuidado entre as pessoas. Ademais, a política inova trazendo uma perspectiva anti-capacitista, anti-idadista e antirracista, bem como visa o respeito à dignidade não só de quem é cuidado, mas de quem cuida. As mulheres passam a ser valorizadas por serem as principais cuidadoras da sociedade brasileira, tendo seus direitos diferenciados. Com isso, também intenta promover redistribuição social e dentro da família dos papeis do cuidado. Ainda objetiva promover melhor remuneração para os profissionais do cuidado e promove o autocuidado, sendo a autonomia das pessoas uma ideia fundamental. Também valoriza o território vivo nas comunidades e as formas de cuidado que elas próprias possam constituir. Tais princípios e diretrizes dialogam intimamente com as políticas de saúde relacionadas ao cuidado. Tal política, por ser uma lei, fortalece sobremaneira os princípios estruturantes do SUS, tornando o seu arcabouço institucional ainda mais robusto. Com isso, dá às equipes de saúde a possibilidade de ampliação dos horizontes éticos e filosóficos do cuidar. A SC, nesse sentido, parece ganhar bastante com essas inovações, que chamamos de “ancestrais”, por serem princípios já praticados há muito tempo pelos povos subalternizados e solapados pelo pensamento colonial europeu. Ademais, a adesão de dimensões interseccionais, como gênero, classe e raça, obriga aos operadores das políticas públicas a refletirem sobre a relevância dessas questões para o impacto real no bem-estar e na saúde das pessoas.
Conclusões/Considerações Finais
Apesar de o pensamento decolonial e/ou tradicional não ter sido diretamente incorporado às políticas públicas brasileiras, a PNC traz inovações, que consideramos ancestrais, visto que conseguimos enxergar em suas influências o pensamento andino do Bem Viver, noções decoloniais e interseccionais, além da autonomia dos sujeitos sobre o próprio cuidado, algo já presente nas filosofias dos povos colonizados há muitos séculos. A SC ganha com essas inovações pela possibilidade de refletir e agir ativamente para construir um cuidado que seja voltado para as pessoas de forma mais íntima e que reconheça as individualidades e as singularidades das diversas comunidades que cuidam e são cuidadas.
RUKEMIK RAXNAQIL RI QAK‘ASLEMAL: TEJIENDO LA GOBERNANZA INTERCULTURAL EN SALUD EN GUATEMALA.
Comunicação Oral Curta
1 Dirección de Promoción y Educación en Salud / MSPAS
2 ISC-UFBA; MSPAS
Contextualização
El Ministerio de Salud Pública y Asistencia Social retoma la estrategia de atención primaria en salud en un esfuerzo institucional para combatir los rezagos de las reformas neoliberales y la persistencia de acciones focalizadas y verticalizadas. Para colocar en el centro el derecho a la salud de los pueblos que cohabitan en Guatemala.
En consonancia, el Ministerio aprueba e impulsa el Modelo de Atención Integral e Incluyente basado en redes de atención en salud. Los ejes transversales del modelo son la pertinencia cultural, la equidad de género, la protección y dignificación de la vida, la armonía con la Madre Naturaleza y el enfoque comunitario, familiar e individual. Además, se estructura en los macroprocesos de gobernanza democrática y rectoría estratégica, atención y regulación en salud, gestión y soporte y gestión de la calidad y mejora continua.
Descrição
En este marco, la Dirección de Promoción y Educación en Salud impulsa acciones para la articulación de los sistemas de salud ancestral y biomédico, reconociendo la multiconcepción de la salud y recuperando el significado del “kaslemal” (plenitud de la vida). Además, reconociendo que existen estructuras de organización institucional y ancestrales en territorios de los pueblos Maya, Garífuna, Xinka y mestizo, que conforman las cuatro naciones de Guatemala.
Este proceso se sustenta en una ruta intersectorial que integra mecanismos formales e históricos de participación, fortaleciendo la gobernanza territorial y comunal.
Esta gobernanza se construye mediante la articulación de actores institucionales y autoridades ancestrales en las comisiones comunitarias, municipales y departamentales, comisiones de salud, diálogos interculturales, Asambleas de Salud de los Pueblos Indígenas y las agendas territoriales. Todos estos mecanismos contribuyen a la construcción del Gobierno de la Red.
Este proceso permite la coexistencia de dos sistemas de gobierno en salud (institucional y ancestral), promoviendo diálogo intercultural y toma de decisiones compartida.
Período de Realização
Enero 2025 a marzo de 2026.
Objetivo
Realizar una reflexión crítica sobre la construcción del gobierno de la red en un contexto intercultural y de valorización de las formas de organización ancestrales en el sistema de salud guatemalteco.
Resultados
Se han generado espacios de diálogo y coordinación entre autoridades de salud y autoridades ancestrales en distintos territorios del país, fortaleciendo la articulación intercultural en la toma de decisiones. Asimismo, se han consolidado mecanismos de participación comunitaria a través de estructuras locales y del sistema de Consejos de Desarrollo, favoreciendo una mayor incidencia territorial en salud.
De igual forma, se han registrado avances en la construcción de acuerdos institucionales con pertinencia intercultural, lo que ha contribuido al reconocimiento progresivo de los sistemas de salud ancestral como parte integral del derecho a la salud.
Aprendizado e Análise Crítica
La gobernanza intercultural en salud en Guatemala es un proceso en construcción que posiciona a los pueblos indígenas como actores clave en la política pública.
La articulación entre agendas territoriales, participación comunitaria y modelos incluyentes abre una oportunidad estratégica para garantizar el derecho a la salud con pertinencia cultural y avanzar hacia una sociedad más equitativa.
El proceso de construcción del gobierno de la red en articulación con los pueblos ancestrales involucra un proceso de (des)construcción de lo que históricamente ha sido considerado como “salud” desde la perspectiva institucional del Ministerio de Salud. Esta articulación parte de un concepto positivo de la salud, al reconocer la intrínseca relación entre la totalidad del cosmos para la vida en equilibrio: kaslemal.
Este proceso no está exento de las inequidades estructurales en las cuales viven los pueblos indígenas en Guatemala, por razones históricas de dominación colonial. Los pueblos indígenas han sostenido históricamente sus propios sistemas de gobierno comunal, basados en conocimientos ancestrales aún vigentes. El desafío es lograr su articulación efectiva con el sistema biomédico y las lógicas de gobierno del estado, superando barreras institucionales, culturales y en un contexto de un tejido social fragilizado por el Estado.
En este contexto, el gobierno de la red representa una oportunidad para transformar los mecanismos de gobernanza hacia uno más democrático, equitativo y culturalmente pertinente. Se evidencia la necesidad de fortalecer la formación del personal de salud en interculturalidad crítica, sistemas ancestrales de gobierno y salud, así como sobre el concepto de salud, no apenas como ausencia de enfermedad.
TERRITÓRIO, INTERCULTURALIDADE E PRODUÇÃO DO CUIDADO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS PARA A SAÚDE COLETIVA NO BRASIL
Comunicação Oral Curta
1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO (UFMT)
Apresentação/Introdução
A Saúde Coletiva brasileira constitui-se como campo interdisciplinar comprometido com a compreensão dos processos de saúde e doença em sua complexidade social, histórica e política. Nesse contexto, território e interculturalidade emergem como categorias centrais para a análise das práticas de cuidado, ao possibilitarem a superação de perspectivas biomédicas universalizantes. O território é compreendido como construção social, histórica e política, atravessada por relações de poder, dinâmicas culturais e conflitos, configurando-se como espaço de produção de vida e cuidado (Milton Santos, 2006). A interculturalidade, por sua vez, constitui-se como perspectiva crítica que tensiona hierarquias de saber e promove o reconhecimento da pluralidade de conhecimentos e práticas em saúde (Catherine Walsh, 2009), em diálogo com as epistemologias do Sul (Boaventura de Sousa Santos, 2006).
Objetivos
Objetivo Geral -
Analisar as relações entre território, interculturalidade e produção do cuidado no campo da Saúde Coletiva, considerando os desafios impostos pelas desigualdades sociais.
Objetivos Específicos -
Compreender o território como categoria analítica na Saúde Coletiva.
Discutir a interculturalidade como perspectiva crítica no campo da saúde.
Analisar a produção do cuidado como prática relacional e situada.
Metodologia
Trata-se de pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter teórico-analítico, desenvolvida por meio de revisão de literatura. O estudo ancora-se no campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, reconhecendo a centralidade da interpretação na produção do conhecimento (Cecília Minayo, 2014). Foram analisadas produções teóricas relevantes sobre território, interculturalidade e cuidado, priorizando autores que dialogam com perspectivas críticas e latino-americanas.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que o território se configura como elemento estruturante na produção do cuidado, ao articular dimensões materiais e simbólicas que condicionam os modos de viver, adoecer e cuidar. A interculturalidade evidencia-se como estratégia para o reconhecimento da diversidade de saberes e práticas, favorecendo diálogos entre conhecimentos científicos e saberes populares. A produção do cuidado é compreendida como prática relacional, situada e atravessada por condições sociais, culturais e econômicas (Emerson Merhy, 2002), em consonância com os princípios do Sistema Único de Saúde. A análise incorpora ainda a perspectiva da determinação social da saúde, evidenciando o impacto das desigualdades estruturais nos processos de adoecimento e cuidado (Jaime Breilh, 2006).
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a articulação entre território e interculturalidade potencializa práticas de cuidado mais equitativas, contextualizadas e sensíveis à diversidade sociocultural. Evidencia-se a necessidade de fortalecimento de abordagens que integrem saberes, valorizem os territórios e reconheçam sujeitos e coletividades como protagonistas na produção da saúde.
UMA AVALIAÇÃO QUALITATIVA SOBRE UM PROCESSO DE CAPACITAÇÃO PARA O CONTROLE DA HANSENÍASE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SÁUDE: CONTRIBUIÇÕES PARA A GESTÃO
Comunicação Oral Curta
1 LASER/ENSP/FIOCRUZ
2 MINISTÉRIO DA SAÚDE
Apresentação/Introdução
O processo avaliativo é um diálogo reflexivo que apoia a tomada de decisão e a aprendizagem, assegurando que a intervenção "Projeto Abordagens inovadoras para intensificar esforços para um Brasil livre de
Hanseníase", seja relevante e socialmente responsável. A intervenção, proposta pelo Ministério da Saúde, teve como finalidade contribuir para a redução de carga da doença em municípios hiperepidêmicos, por meio da realização de capacitações integradas in loco, ou seja, nos serviços da Atenção Primária à Saúde (APS), promovendo a melhoria da detecção de casos nas formas iniciais da doença e evitando o comprometimento físico dos usuários acometidos pela hanseníase. A iniciativa durou de 2017 a 2019. As capacitações envolveram profissionais de saúde de diferentes categorias (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, Agentes Comunitários de Saúde – ACS, dentistas e assistentes sociais), sendo realizadas em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e na Estratégia Saúde da Família (ESF), no período de uma semana, por consultores indicados pelo Ministério da Saúde (MS).
A avaliação de iniciativas de qualificação profissional em saúde são importantes para o aprimoramento das estratégias e subsidiar encaminhamentos futuros.
Objetivos
Este estudo tem o objetivo de apresentar a avaliação de um projeto de capacitação em serviço para profissionais de saúde nas ações de prevenção e controle da hanseníase, problematizando o modelo
de avaliação adotado, com foco na utilização para a gestão em saúde.
Metodologia
Foi realizada uma avaliação ex-post – a partir de uma intervenção já realizada –, que foi conduzida por seis avaliadores, no período de seis meses, em 18 dos 20 municípios que articiparam do processo de capacitação.
Os municípios localizavam-se em regiões de importante dispersão geográfica, o que configurou um desafio metodológico e empírico. A avaliação empregou a estratégia REM (Rapid Evaluation Method)6, na qual são priorizados a rapidez e o uso de múltiplas técnicas e fontes de evidências, de baixo custo, podendo ser adaptada às necessidades e condições de cada local, tornando-se importante nos processos de gestão e planejamento. O percurso metodológico, acordado entre avaliadores e demandantes, empregou: a) uma abordagem colaborativa entre a equipe de avaliação e os demandantes da avaliação; b) a utilização de técnicas qualitativas; c) um enfoque conceitual translacional. Com relação às técnicas qualitativas, foram privilegiadas a análise documental, com destaque ao projeto e seus relatórios, e as técnicas de entrevistas grupais, especialmente os Grupos Focais (GF) A avaliação adotou o referencial analítico da translação do conhecimento, ancorando-se na Teoria do Ator-Rede (TAR) e nas práticas translacionais em pesquisas participativas.
Resultados e Discussão
A avaliação envovleu a realização de 24 entrevistas grupais (grupos focais, rodas de conversa e entrevistas coletivas), com a participação de 278 pessoas (59 gestores e 211 profissionais), além de reuniões de validação com o Ministério da Saúde para discussão e validação dos achados. Em termos de efeitos positivosiIdentificados pelo processo de capacitação in loco foram destacados:
a. Conhecimento e Gestão: As capacitações promoveram a atualização técnica, a reformulação de fluxos de atendimento e a melhoria no referenciamento de pacientes.
b. Visibilidade Estratégica: O tema da hanseníase ganhou relevância nas agendas municipais e auxiliou no cumprimento de metas das Programações Anuais de Saúde (PAS).
c. Mudança de Atitude: A interação direta com especialistas permitiu uma mudança de visão, consolidando a hanseníase como um objeto de manejo multidisciplinar e não apenas técnico.
d. Prática In Loco: O aprendizado no local de trabalho facilitou a troca de experiências e a adoção de boas práticas profissionais.
Do ponto de vista dos desafios e controvérsias foram problematizados pelos participantes:
a. Periodicidade: Críticas quanto à frequência das capacitações, indicando uma demanda reprimida.
b. Integração: Divergências sobre a eficácia de realizar treinamentos misturando diferentes categorias profissionais simultaneamente.
Em termos de Recomendações, os participantes sugeriram que as próximas iniciativas foquem em: formação de grupos menores para as capacitações e maior padronização de conteúdos e técnicas aplicadas.
A utilização, segundo Patton, é a força motriz de uma avaliação. O envolvimento e a participação dos demandantes e participantes foi chave para sua execução e sucesso.
Conclusões/Considerações Finais
O envolvimento e a participação dos demandantes e participantes foi chave para sua execução e sucesso da avaliação. A abordagem de ensino em serviço foi importante para revalorização das ações de prevenção e controle da hanseníase, possibilitando um lugar privilegiado de discussão técnica e de reflexão. Conclui-se que o modelo de avaliação possibilitou que as controvérsias e convergências surgissem, assim como as recomendações para ajustes da intervenção junto à gestão em tempo oportuno.
Realização: