Programa - Comunicação Oral - CO27.2 - Territórios e agenciamentos coletivos em pesquisas, políticas e comunidades
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ENTRE CONCEITO E POLÍTICAS PÚBLICAS: EXPERIÊNCIA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DAS PRÁTICAS CORPORAIS
Comunicação Oral
1 MS
Contextualização
A mais recente reestruturação do Ministério da Saúde instituiu a Coordenação de Práticas Corporais e Atividade Física na Atenção Primária à Saúde (Copaf), vinculada ao Departamento de Promoção da Saúde da Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Essa reestruturação não apenas cria uma nova Coordenação, mas também coloca em evidência o conceito de práticas corporais ao incorporá-lo em sua denominação.
No campo da Saúde Coletiva, especialmente a partir de referenciais das ciências humanas e sociais, as práticas corporais são compreendidas como manifestações culturais construídas histórica e socialmente que expressam significados e sentidos produzidos coletivamente e em diálogo com os territórios. Nesse sentido, configuram-se como potentes dispositivos de cuidado, ao possibilitar o encontro com o outro, a escuta, o sentir-se bem.
O conceito de práticas corporais está presente nos documentos oficiais do Ministério da Saúde desde 2006, desde a institucionalização da Política Nacional de Promoção da Saúde, integrando as ações estratégicas de promoção da saúde. Entretanto, é a primeira vez que o termo está destacado na denominação de uma coordenação, indicando um movimento institucional de reconhecimento e fortalecimento dessa agenda nas políticas públicas.
Descrição
Este trabalho apresenta uma sistematização de experiência reflexiva, participativa e problematizadora desenvolvida pela equipe da Copaf. A partir da experiência institucional da área técnica, busca-se analisar o processo de reconhecimento e fortalecimento das práticas corporais na atual gestão, bem como as transformações dos processos de trabalho na produção de políticas públicas que reconheçam e valorizem os plurais territórios e modos de viver.
Período de Realização
A experiência analisada teve início em novembro de 2025 e encontra-se em curso no momento da elaboração deste trabalho.
Objetivo
Refletir sobre os processos institucionais envolvidos na constituição e consolidação da agenda de práticas corporais no Ministério da Saúde, problematizando os sentidos e disputas em torno desse conceito. Busca-se, a partir dessa reflexão, discutir a produção de políticas públicas que dialoguem com as realidades dos territórios, façam sentido para a população e contribuam para a transformação das condições de vida das pessoas.
Resultados
O reconhecimento institucional das práticas corporais como dispositivo de cuidado evidencia a necessidade de revisão de documentos recentes do Ministério da Saúde, de modo a assegurar o alinhamento com a Política Nacional de Promoção da Saúde. Esse movimento também contribui para o fortalecimento do debate conceitual na gestão, tensionando perspectivas reducionistas e ampliando a compreensão das práticas corporais como expressão dos territórios e modos de viver.
Além disso, observa-se a reorientação dos processos de trabalho da área técnica, com a ampliação e qualificação do diálogo com os entes federados e maior reconhecimento dos territórios como espaços fundamentais na produção de políticas públicas. Por fim, destaca-se a intensificação de possibilidades de articulação intersetorial, reconhecendo que o acesso, a valorização e a sustentabilidade das práticas corporais dependem da atuação integrada de diferentes setores e políticas públicas.
Aprendizado e Análise Crítica
A constituição da Copaf traz consigo a necessidade da reestruturação dos processos de trabalho e revisão de documentos recentes do Ministério da Saúde, de modo a incorporar de forma consistente o conceito de práticas corporais. Nicoes et al. (2023) analisam o apagamento desse termo em ações do Ministério da Saúde de 2019 a 2021, evidenciando o rompimento com os avanços históricos da promoção da saúde. Nesse sentido, os processos de revisão mostram-se profundos e desafiadores, uma vez que implicam desconstruir a lógica predominantemente comportamental, com enfoque na prevenção de doenças, para afirmar uma perspectiva de promoção da saúde orientada às práticas comunitárias, que reconhecem os saberes tradicionais e as experiências territorializadas.
Como aprendizagem institucional, destaca-se que a incorporação do conceito de práticas corporais na políticas públicas exige mais do que mudanças normativas e documentais, demandando também transformações nas relações, processos e práticas da gestão nacional. Esse processo revela disputas e tensões conceituais que atravessam o campo da Saúde Coletiva e requerem permanente análise e reflexão crítica, na medida que influenciam diretamente as formas de produzir cuidado no SUS.
A retomada da agenda também valoriza o espaço de diálogo entre os plurais modos de viver, ao reconhecer os territórios como potentes produtores de saúde e conhecimento. Por fim, a experiência demonstra que a institucionalização das práticas corporais na gestão federal representa uma oportunidade para qualificar o debate conceitual e fortalecer as ações de promoção da saúde, construindo alianças com os territórios, ancestralidades e as múltiplas ecologias que constituem o SUS.
GESTÃO DE RESÍDUOS EM ÁREAS RURAIS: TERRITÓRIO, DESIGUALDADES E SAÚDE
Comunicação Oral
1 UNICENTRO
Apresentação/Introdução
O aumento na geração de resíduos e o manejo inadequado representam desafios relevantes para a proteção ambiental e saúde pública, especialmente em áreas rurais com acesso restrito a serviços de saneamento básico. Conforme Borelli (2020), o conceito de “áreas atendíveis” contribui para a exclusão de áreas rurais da prestação de serviços de saneamento. Nesses territórios, a gestão de resíduos sólidos torna-se mais complexa, por questões logísticas e pelas condições sociais, ambientais e culturais que estruturam as práticas locais (Roland et al., 2019). Assim, o território configura-se como espaço ativo na produção de práticas e desigualdades, com implicações diretas para a saúde, evidenciando os limites de políticas públicas que não consideram suas especificidades.
Objetivos
Analisar a experiência de aplicação de um instrumento sobre a gestão de resíduos sólidos em áreas rurais do município de Irati-PR, considerando suas implicações socioambientais.
Metodologia
O estudo foi desenvolvido entre outubro e novembro de 2024, em 110 domicílios rurais, por meio de entrevistas semiestruturadas. Durante a coleta, como devolutiva imediata, foi distribuído material informativo com orientações sobre gestão de resíduos e cronograma de coleta. O contato com os moradores possibilitou identificar práticas e percepções relacionadas à destinação dos resíduos. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Centro-Oeste, sob parecer nº 6.570.212.
Resultados e Discussão
Observou-se que, embora houvesse preocupação com a separação entre resíduos orgânicos e inorgânicos, a segregação mais específica mostrou-se limitada. Em relação aos resíduos de serviços de saúde, a maioria (95,5%) relatou não gerar esse tipo de resíduo, com indícios de subnotificação e ausência de padronização no acondicionamento entre os que os geravam. No que se refere às formas de destinação, destacaram-se práticas como a queima e o enterramento, utilizadas como estratégias de manejo no próprio território. Embora apenas 6,4% dos participantes tenham relatado impactos ambientais, como atração de vetores e mau cheiro, e nenhum mencionar problemas de saúde, evidenciou-se dissociação entre percepção de risco e exposição, indicando que a ausência de agravos percebidos não implica ausência de risco. As motivações evidenciam a articulação entre dimensões estruturais e culturais: 41,8% associaram a destinação à ausência de serviços regulares de coleta e 46,4% a hábitos cotidianos. Ainda assim, 94,5% reconhecem benefícios da coleta adequada para a saúde e o meio ambiente, revelando descompasso entre conhecimento e possibilidade de ação. Observou-se também predominância de mulheres (66,4%), embora, em 57,3% dos domicílios, os homens sejam apontados como principais responsáveis pela renda. Esse dado indica uma assimetria de gênero na organização do trabalho no território, na qual as mulheres tendem a assumir práticas cotidianas relacionadas ao manejo dos resíduos, enquanto o controle econômico permanece concentrado nos homens, sugerindo distribuição desigual das responsabilidades e da exposição aos riscos.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência evidenciou que tais práticas não podem ser compreendidas apenas como inadequações, mas como formas de manejo construídas no território, que expressam dissonâncias entre saberes locais e orientações técnicas diante da ausência de serviços públicos. A baixa cobertura e irregularidade da coleta apontam um quadro de exclusão territorial, em que o acesso ocorre de forma desigual, deslocando para as famílias a responsabilidade pelo manejo dos resíduos e reforçando desigualdades sociais, incluindo as de gênero. À luz dos determinantes socioambientais da saúde, a exposição a resíduos, inclusive potencialmente perigosos, constitui fator relevante de risco, ainda que nem sempre percebido. Essa dissociação reforça a necessidade de estratégias que integrem saúde e meio ambiente, ampliem o acesso aos serviços e considerem o território como elemento na melhoria das condições de vida e saúde.
PESQUISA BASEADA EM ARTES EM PROJETOS INTERNACIONAIS DE SAÚDE GLOBAL: ENGAJAMENTO E EMPODERAMENTO COMUNITÁRIO NA COMUNIDADE QUILOMBOLA DO BOQUEIRÃO (BA)
Comunicação Oral
1 UFBA
2 Warwick University
Apresentação/Introdução
Fundamentada na premissa de que as artes constituem formas legítimas de conhecimento e não meros recursos ilustrativos, a Pesquisa Baseada em Artes (PBA) opera como método de investigação e intervenção, produzindo informações de pesquisa que emergem das práticas, das narrativas e materialidades. Este relato apresenta a trajetória da PBA desenvolvida no âmbito de dois projetos internacionais de saúde global, o projeto ECLIPSE e o projeto ORÍ, com foco nas experiências de campo na Comunidade Quilombola do Boqueirão, localizada em Teolândia, Bahia. O território é compreendido como dimensão central da produção do cuidado como espaço vivo, relacional e simbólico, atravessado por memórias, saberes e modos de vida que a PBA busca ativar e fortalecer. A partir disso, refletimos sobre as potencialidades da PBA como dispositivo de engajamento comunitário, produção de conhecimento em saúde e empoderamento de populações historicamente marginalizadas.
Objetivos
Socializar a experiência da PBA na Comunidade Quilombola do Boqueirão no âmbito dos Projetos ECLIPSE e ORÍ; analisar contribuições ao engajamento e empoderamento comunitário.
Metodologia
Trata-se de um relato de pesquisa de natureza qualitativa e participativa. As ações foram desenvolvidas entre 2023 e 2025, a partir de imersões sucessivas no território, que incluíram rodas de conversa, visitas a quintais, oficinas, registros audiovisuais e fotográficos, avivamento de práticas culturais e organização coletiva de um festival. A equipe multidisciplinar foi composta por pesquisadoras(es) e artistas, em colaboração direta com artistas locais. A abordagem orienta-se pelo princípio da indissociabilidade entre pesquisa, intervenção e produção artística. A análise ancora-se na noção de arquivos vivos: produtos artísticos coletivos que ativam memórias e devolvem à comunidade o conhecimento produzido como patrimônio próprio.
Resultados e Discussão
O processo de imersão no Boqueirão revelou uma comunidade marcada por rica tradição, tendo em conta os saberes extensos sobre ervas medicinais, práticas religiosas, como rezas e procissões e um samba adormecido por cerca de quinze anos. As ações baseadas na PBA operaram, nesse contexto, como dispositivos de escuta ativa e ativação cultural, uma vez que ao perguntar o que existia e o que havia se perdido, a equipe e a comunidade construíram juntas caminhos de resgate e celebração dessas práticas. Além do extenso trabalho acerca das ervas medicinais, que englobou poéticas visuais e audiovisuais, a ação conjunta com a comunidade propiciou o retorno das rodas de samba. Uma prática cultural que voltou a acontecer na comunidade após quinze anos de ausência, reunindo moradores do Boqueirão e de povoados vizinhos em encontros que se tornaram autônomos em relação à presença da equipe, fato que evidencia uma forma concreta de empoderamento comunitário entendido por um processo protagonizado e sustentado pela própria comunidade. O Festival Guiné, realizado em abril de 2024, uma coprodução envolvendo equipe de pesquisa e moradores, reuniu oficinas de ervas medicinais, rodas de conversa sobre saúde e território, mostras de cinema, lançamento de livro, sarau e samba. O festival possibilitou a formação de produtores culturais locais, a criação de turismo de base comunitária e reforçou o reconhecimento coletivo que afirma a potência da comunidade diante de décadas de marginalização e desassistência. No âmbito do Projeto ORÍ, duas ações aprofundaram o alcance da PBA no território. A oficina Entreolhares propôs a fotografia como prática de autorrepresentação com adolescentes da comunidade, orientada pelas perguntas "quem eu sou?" e "quem somos nós?". As imagens produzidas revelaram sensibilidade estética e consciência política significativas, indicando que a PBA opera, nesse contexto, como dispositivo de entendimento acerca da construção de identidade e de pertencimento territorial, constituindo uma fonte especialmente sensível de produção de dados da pesquisa em curso. Em outra atividade, o Mesa Posta, que reuniu os mais velhos do Boqueirão em torno de um café da manhã, foi possível reunir narrativas sobre a história da comunidade, os troncos familiares, as práticas de cuidado e as tradições culturais que revelaram uma construção de si ancorada nas formas de resistência às opressões e no caminhar conjunto comunitário.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência da PBA no Boqueirão evidencia que arte e pesquisa, quando praticadas de forma participativa, ampliam as práticas de cooperação comunitária e a valorização e revelação de talentos locais, fortalecendo vínculos, recuperando memórias e afirmando identidades na construção coletiva de futuros possíveis. Essas ações ampliaram o acesso a bens e serviços culturais na comunidade, contribuindo para o empoderamento do Boqueirão frente ao território mais amplo em que está inserido, além de servirem de grande contribuição para a produção de conhecimento científico no campo da saúde global.
SABERES QUE CURAM, TERRITÓRIOS QUE ADOECEM: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE O CUIDADO ANCESTRAL E A LUTA POR SAÚDE NO QUILOMBO ILHA DE MERCÊS
Comunicação Oral
1 UFPE
Contextualização
A comunidade quilombola da Ilha de Mercês (Ipojuca/PE) enfrenta, há décadas, as consequências da implantação do Complexo Industrial Portuário de Suape. Este relato de experiência surge das práticas e vivências de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a partir de um projeto de extensão e pesquisa que oferta atendimento fisioterapêutico na comunidade. As ações em saúde, pautadas na escuta ativa e no diálogo intercultural, visavam compreender as demandas locais e oferecer cuidado, mas revelaram-se uma janela para um universo complexo de sofrimento, resistência e saberes ancestrais sobre saúde.
Descrição
A experiência aqui relatada se firmou na aproximação com a comunidade por meio de rodas de conversa, atendimentos individuais de fisioterapia e visitas domiciliares. Durante essas atividades, foi possível registrar narrativas que explicitavam a relação entre o território, a memória coletiva e a saúde. O trabalho de campo, conduzido de março a dezembro de 2025, incluiu a realização de entrevistas abertas com moradores. A equipe era composta por docentes e discentes do Departamento de Fisioterapia da UFPE, que registravam suas percepções em diários de campo, posteriormente trianguladas para análise.
Período de Realização
As atividades que embasam este relato foram realizadas de março a dezembro de 2025.
Objetivo
Sistematizar e refletir criticamente sobre os aprendizados obtidos com as vivências no quilombo Ilha de Mercês, evidenciando como os saberes ancestrais sobre saúde coexistem e, por vezes, colidem com os impactos do racismo ambiental e das barreiras de acesso aos serviços formais do Sistema Único de Saúde (SUS).
Resultados
A escuta qualificada permitiu identificar duas dimensões centrais: 1) O cuidado ancestral como resistência: Os discursos revelaram um repertório vasto de práticas de cura baseadas em plantas medicinais e conhecimentos transmitidos por gerações. A fala de uma quilombola, sobre sua avó que “nunca foi ao médico” e utilizava chás para todo tipo de enfermidade, evidencia um sistema de cuidado próprio que ainda hoje é acionado, garantindo alguma autonomia diante da ausência do Estado. 2) O território como determinante de saúde e doença: As narrativas apontam Suape como o principal fator de adoecimento, relacionando problemas de saúde (hipertensão, dores, sofrimento psíquico) à poluição, à degradação do mangue e à perda do território. A frase “o pior estresse de tudo é SUAPE. O pior estresse, que tira meu sono mesmo” sintetiza como o racismo ambiental se materializa no corpo e na mente.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência demonstrou que a prática em saúde coletiva em territórios quilombolas exige mais do que a aplicação de protocolos biomédicos. É imperativo o desenvolvimento de uma competência intercultural, que reconheça e valorize os saberes tradicionais como práticas legítimas de cuidado. Ademais, a vivência escancarou a insuficiência de uma atuação meramente assistencialista diante de um cenário de injustiça estrutural. A luta pela saúde, naquele território, é indissociável da luta pela titulação da terra e pelo fim das agressões ambientais. Portanto, ações de extensão e pesquisa precisam se aliar aos movimentos sociais, transformando o cuidado em ferramenta de escuta, denúncia e fortalecimento da autonomia comunitária.
SAÚDE, TERRITÓRIO E RESISTÊNCIA: APRENDIZADOS DE UMA PESQUISA CIDADÃ EM UMA OCUPAÇÃO URBANA FRENTE À CRISE CLIMÁTICA.
Comunicação Oral
1 Faculdade de Saúde Pública da USP
2 Escola de Enfermagem da USP
3 Centro Universitário São Camilo
4 Universidade Federal da Bahia/UFBA
Contextualização
Esse relato surge no contexto da pesquisa “Desigualdades sociais nos efeitos das mudanças climáticas: ótica das mulheres do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST)”, com financiamento da Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo (FUSP), e foi desenvolvido com pessoas vinculadas ao movimento. A proposta é refletir sobre a importância do movimento social como forma de fortalecimento diante de disputas e estratégias de sobrevivência nas crises contemporâneas, como a crise climática. Parte-se do princípio de que a ocupação de um dado território para moradia constitui um elemento fundamental na organização dos processos e práticas de vida. A partir da perspectiva da prática em saúde, busca-se compreender os impactos associados às mudanças climáticas no processo saúde-doença, considerando a intervenção em um espaço geográfico onde se encontram grupos sociais, cujas ações refletem seus modos de vida e de trabalho.
Descrição
Caminhamos, neste relato, para colocar em palavras as experiências vividas e sentidas pelos pesquisadores na produção de um trabalho científico construído em alteridade com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), na Ocupação Lélia Gonzalez, em Santo André, na região metropolitana de São Paulo. O projeto principal foi desenvolvido a partir de oficinas emancipatórias realizadas com mulheres, aos finais de semana, ao longo de cinco meses, com o objetivo de investigar os impactos das mudanças climáticas a partir de suas percepções, com foco nas desigualdades produzidas pelos efeitos ambientais sobre suas condições de vida e saúde. Além disso, destaca-se a dimensão etnográfica da pesquisa, protagonizada por um estudante do ensino médio e morador da ocupação. Essa configuração possibilitou um intercâmbio de saberes em tempo real: enquanto as pesquisadoras conduziam as oficinas com as mulheres, o olhar etnográfico do bolsista desvelava as dinâmicas do território, estreitando o diálogo entre a experiência vivida e a análise científica.
Período de Realização
O projeto de pesquisa foi desenvolvido entre novembro de 2024 e novembro de 2025, com oficinas entre abril e agosto de 2025 e atividades semanais de reflexão etnográfica.
Objetivo
Relatar a experiência de aprendizagem conjunta sobre os impactos das mudanças climáticas em uma ocupação do MTST, valorizando a pesquisa cidadã e os saberes territoriais como estratégias de resistência.
Resultados
A experiência mútua de aprendizagem possibilitou identificar potencialidades e fragilidades associadas ao viver em uma ocupação, especialmente no que se refere à percepção de risco e os impactos socioambientais relacionados à emergência climática. Além disso, a construção de vínculos por meio da etnografia mostrou-se importante para compreender que as bases do conhecimento não se restringem aos muros tecnocientíficos da academia, sendo atravessadas por epistemologias da educação popular, da ancestralidade e dos saberes produzidos no território. Essa trajetória possibilitou o reconhecimento de práticas de fraternidade e solidariedade (Breilh, 2024), que se contrapõem ao individualismo e são marcadas pela interseccionalidade de raça/cor, gênero e classe social, evidenciando a conexão com o território como condição fundamental para a vitalidade. Nesse sentido, a organização coletiva voltada à sustentabilidade da vida surge como alternativa a um sistema marcado por exclusão, coisificação e exploração de corpos, espaços e recursos naturais.
Aprendizado e Análise Crítica
A construção conjunta permitiu documentar desgastes e potencialidades do existir em comunidade, denunciando a precariedade e a violação de direitos. Nesse sentido, o projeto dialoga com uma concepção de experiência fundamentada no modo como o mundo se apresenta (Bondía, 2002), legitimando os elementos considerados relevantes para a construção de um posicionamento ético-político diante da ausência de ações do Estado. Dessa forma, consolidou-se uma aprendizagem conjunta que integrou o referencial bibliográfico às reflexões práticas dos moradores — sujeitos da experiência que habitam o território onde os fatos ocorrem. Assim, percebe-se que tal articulação fortalece a pesquisa cidadã ao transformar o diálogo entre saberes em uma estratégia de resistência e enfrentamento das desigualdades climáticas. Durante a realização do projeto, os pesquisadores foram atravessados por uma realidade marcada por desigualdades socioestruturais intensificadas pelos efeitos das mudanças climáticas. A reflexão com as mulheres e o movimento social revelou como o cotidiano é atravessado por desafios que exigem adaptações constantes, principalmente em relação ao ambiente e à organização comunitária. Assim, observa-se que a pesquisa cidadã representa avanços para democracia e para a produção de um conhecimento científico crítico e comprometido para além dos muros da universidade, evidenciando que a construção coletiva do conhecimento, a solidariedade e a garantia de direitos configuram estratégias fundamentais para o enfrentamento dos impactos ambientais em territórios socialmente vulnerabilizados.
TERRITÓRIO, MEMÓRIA E LUTA: RESISTÊNCIA À PRIVATIZAÇÃO DA ÁGUA EM OURO PRETO (MG)
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
O ser humano confere à água múltiplos significados, que variam conforme os contextos culturais e históricos, sendo frequentemente associada a processos e transformações da vida. Ao longo do tempo, os fluxos das águas foram manejados para diversos fins, nem sempre de forma equitativa, gerando conflitos em torno do acesso, da gestão e da sua propriedade, atravessados por relações de poder e tensões entre valores simbólicos e interesses econômicos. Nesse cenário, a água situa-se entre o reconhecimento como bem comum e direito de todos e sua apropriação como mercadoria. No contexto contemporâneo, a intensificação de políticas neoliberais no setor de saneamento tem impulsionado processos de privatização que tensionam o reconhecimento do acesso à água como direito humano. Em Ouro Preto (MG), cidade historicamente marcada pela gestão pública dos serviços de água e saneamento, a privatização, ocorrida em 2019, desencadeou forte mobilização popular, evidenciando que a disputa pela água expressa conflitos mais amplos relacionados ao território, compreendido como espaço vivo, histórico e relacional, atravessado por memórias, identidades e relações de poder. No Brasil, esse cenário se intensifica com a reformulação do marco legal do saneamento (Lei nº 14.026/2020), ampliando a participação do capital privado e acirrando disputas em torno dos modelos de gestão.
Objetivos
Identificar e compreender as representações sociais da água elaboradas e partilhadas pela população local, bem como analisar suas influências nas formas de resistência à privatização dos serviços de água e saneamento e na defesa de sua remunicipalização.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, baseada em entrevistas semiestruturadas com 15 moradores naturais de Ouro Preto, selecionados por amostragem em bola de neve. Os dados foram submetidos à Análise de Conteúdo temática e interpretados à luz da abordagem processual da Teoria das Representações Sociais.
Resultados e Discussão
Foram identificadas três categorias principais de representações sociais da água: (i) “água é vida, privatização é morte”; (ii) “água sagrada”; e (iii) “água como memória e história”. A água é representada como elemento indispensável à existência, associada à saúde, à pureza e à continuidade da vida, evidenciando sua centralidade nos modos de viver, enquanto a sua privatização aparece ancorada às ideias de risco à saúde pública, morte e destruição. A dimensão sagrada expressa a presença de crenças, valores e práticas culturais que atribuem à água significados espirituais e de proteção, reforçando sua incompatibilidade com a lógica mercantil. Já a dimensão da memória revela a profunda articulação entre água, território e experiências de vida, especialmente nas trajetórias de mulheres, nas quais se entrelaçam práticas de trabalho (como o ofício de lavadeira), cuidado e sociabilidade. Essas representações evidenciam que a água, em Ouro Preto, não é percebida como mercadoria, mas como um bem comum, territorialmente ancorado, e um direito humano inalienável. Nesse sentido, a privatização emerge como elemento de tensão, associado às noções de injustiça, risco à saúde pública e à vida, e violação de direitos, enquanto a água como elemento central na mobilização social e na defesa da remunicipalização.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicam que a privatização dos serviços de água e saneamento, ao atribuir à água o status de mercadoria, tensiona a realização dos direitos humanos à água e ao saneamento e promove processos de desterritorialização, ao desconsiderar a história, a cultura e os modos de vida locais. Em Ouro Preto, as representações sociais da água, ancoradas em dimensões simbólicas, culturais e territoriais, explicam a intensidade e a singularidade da reação popular à privatização, configurando um caso emblemático no contexto brasileiro. O estudo contribui, ainda, para o debate, no campo da Saúde Coletiva, sobre os impactos da mercantilização da água e reforça a necessidade de modelos de gestão que considerem os territórios, os saberes locais e a participação social, orientados por princípios de justiça socioambiental.
Realização: