Programa - Comunicação Oral - CO27.1 - Territórios em disputas e alianças nas práticas de gestão, educação e cuidado
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
A GESTÃO COMO ATO EDUCATIVO E APOIO INSTITUCIONAL NA ATENÇÃO PRIMÁRIA: UMA EXPERIÊNCIA DE FORTALECIMENTO DA REDE DE SAÚDE NO AMAZONAS
Comunicação Oral
1 Discente do Programa de Mestrado acadêmico em Saúde Coletiva (PPGSC) da Universidade do Estado do Amazonas
2 Professora do Programa de Mestrado acadêmico em Saúde Coletiva (PPGSC) da Universidade do Estado do Amazonas
Contextualização
O presente relato sistematiza uma trajetória de 24 anos no Sistema Único de Saúde (SUS), com ênfase no período de 2022 a 2026, na gestão estadual de saúde do Amazonas. O cenário é o território amazônico, compreendido aqui não apenas como uma barreira geográfica de dimensões continentais, mas como um espaço vivo, relacional e simbólico. A gestão precisa mediar a distância entre as normas federais e a agência dos 61 municípios interioranos, cujos fluxos de vida são ditados pelos ciclos das águas, exigindo uma atuação estatal que reconheça as materialidades e as subjetividades locais.
Descrição
A experiência estruturou-se em três fases complementares que permitiram a consolidação de uma voz legítima perante os atores da rede. A primeira fase ocorreu na Coordenação Estadual de Saúde Bucal, estabelecendo o elo direto com os coordenadores municipais de Saúde Bucal. A segunda fase deu-se na Gerência de Políticas Estratégicas, onde a atuação expandiu-se para a supervisão de áreas transversais, assim como Saúde Indígena, Programa Saúde na Escola, Academia da Saúde, Núcleo de Apoio a Saúde da Família, Mais Médicos, Bolsa Família e Alimentação e Nutrição, exigindo a coordenação de equipes técnicas estaduais para a entrega de suporte aos municípios. A terceira fase, atual, consolidou-se na Gerência de Atenção Primária à Saúde (GAPS), onde o foco recai sobre a gestão macroestratégica de toda a rede de atenção básica do estado. Em todas as fases, o suporte técnico-pedagógico foi operacionalizado por meio da desburocratização dos canais de comunicação. Para além dos fluxos oficiais, utilizou-se intensamente o aplicativo de mensagem de celular, WhatsApp, e chamadas telefônicas para respostas rápidas, além de acolhimentos presenciais chamados "momentos do café" para coordenadores que buscavam a secretaria. Na prática, isso se refletiu na tradução de notas técnicas complexas, no acompanhamento direto da implementação do Prontuário Eletrônico do Cidadão (e-SUS PEC) e na desburocratização do acesso à informação sobre financiamento e credenciamento de equipes de saúde. Essa postura de disponibilidade e de escuta ativa para identificar os nós críticos dos coordenadores municipais transformou a gerência em um ponto de apoio seguro e acessível, capaz de traduzir complexidades técnicas em soluções práticas para quem opera na ponta.
Período de Realização
O relato compreende o período de maio de 2022 a março de 2026.
Objetivo
Refletir sobre a implementação de um modelo de gestão baseado no apoio institucional e na educação permanente, detalhando a transição entre diferentes funções estratégicas e o uso de ferramentas relacionais para fortalecer a autonomia dos gestores municipais.
Resultados
Observou-se com essas iniciativas, uma mudança no clima organizacional e no fortalecimento do vínculo Estado-Município. O uso de comunicações ágeis e o suporte personalizado reduziram o sentimento de isolamento dos gestores do interior. Como resultado tangível, o suporte pedagógico oferecido contribuiu para que diversos coordenadores municipais desenvolvessem competências que os levaram ao cargo de Secretários Municipais de Saúde. Houve, ainda, uma melhora na alimentação dos sistemas de informação (e-SUS PEC) e na análise da produção das equipes de saúde, fruto da compreensão real dos profissionais sobre a relação entre dado, planejamento e financiamento.
Aprendizado e Análise Crítica
A análise crítica revela que a gestão pública no Amazonas exige romper com a visão instrumental do território. Ao integrar as três fases da trajetória, percebe-se que o apoio institucional atua como uma ferramenta para reimaginar alianças entre agências (Estado e Município). A estratégia de 'traduzir' normas e estar disponível via canais informais (WhatsApp/cafezinho) representa uma prática estatal territorializada, onde o acolhimento reduz a distância burocrática e reconhece o território como um campo de produção de saberes. O aprendizado central é que o suporte pedagógico não é apenas técnico, mas relacional e que a gestão do cuidado só é plena quando deixa de ser uma imposição técnica para se tornar um processo de justiça cognitiva. O "momento do café" e o pronto-atendimento via redes sociais representam o trabalho vivo em ato, onde o acolhimento reduz a burocracia e gera confiança concluindo com isso que a informação qualificada é uma ferramenta de poder e emancipação. Em um território desafiador como o Amazonas, a persistência de uma gestão que ensina, apoia e resolve é capaz de mitigar as iniquidades e fortalecer a rede de cuidados. Esta jornada consolidou a percepção de que a transformação da saúde pública passa, obrigatoriamente, pela valorização do tempo e do saber de quem executa o cuidado na ponta.
CARTOGRAFIAS DO CUIDADO E DA VIOLÊNCIA: TERRITÓRIO, ESCOLAS E INTERSETORIALIDADE NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE NO RIO DE JANEIRO - RJ
Comunicação Oral
1 Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio - Fiocruz
Apresentação/Introdução
Localizados na Zona Norte do município do Rio de Janeiro, os complexos de Manguinhos e da Maré integram a Área de Planejamento 3 (AP 3), caracterizada por elevada densidade populacional e fortes desigualdades socioespaciais. A produção do cuidado em territórios marcados por violências exige deslocamentos nas formas tradicionais de compreender o espaço no campo da saúde coletiva. O território, conforme Haesbaert (2017), é entendido como múltiplo e relacional, constituído por dimensões materiais e simbólicas atravessadas por relações de poder. Em diálogo, Lefebvre (1991) compreende o espaço como produto social, evidenciando que sua produção está imbricada em dinâmicas de dominação e resistência. Nesse contexto, a coexistência entre redes de cuidado, violência armada e vulnerabilidades socioambientais explicita a complexidade desses territórios em que se situam o Centro Integrado de Educação Pública Professor César Pernetta, o Colégio Estadual Gomes Freire de Andrade e o Colégio Estadual Compositor Luiz Carlos da Vila, campos de pesquisa no ano de 2025. Este trabalho integra o projeto “Estratégias intersetoriais de produção do cuidado em escolas de territórios marcados por violências” e mobiliza a cartografia como ferramenta analítica e política para refletir sobre as articulações entre saúde, educação e território.
Objetivos
Sistematizar e analisar, a partir de produtos cartográficos, as dinâmicas territoriais de violência e cuidado em Manguinhos e na Maré, evidenciando a distribuição de equipamentos da rede intersetorial, a incidência de conflitos armados e as condições socioambientais que atravessam a vida da comunidade escolar. Busca-se, ainda, compreender as potencialidades da cartografia como método de pesquisa-intervenção na saúde coletiva.
Metodologia
Adotou-se a cartografia como método de pesquisa-intervenção, fundamentada em Ferigato e Carvalho (2011) e Farina (2008), compreendida como processo de produção de mapas que expressam relações de força, afetos e modos de existência. A pesquisa articulou levantamento bibliográfico, sistematização de dados secundários (Fogo Cruzado, INEP, Data.Rio, Redes da Maré, Casa Fluminense) e coleta de dados primários em campo. Os dados foram georreferenciados em ambiente SIG (QGIS), possibilitando a construção de mapas da rede intersetorial, de ocorrências de violência armada (com uso de estimativa de densidade kernel), de risco socioambiental e da origem territorial dos estudantes das referidas escolas. O processo incluiu ainda consulta e validação coletiva com docentes e estudantes, além de aprimoramentos a partir do diálogo com o grupo de pesquisa .
Resultados e Discussão
Foram produzidos 15 mapas temáticos que evidenciam a sobreposição entre redes de cuidado e dinâmicas de violência. Os resultados indicam que, embora haja presença significativa de equipamentos da rede intersetorial, estes se distribuem em territórios fortemente atravessados por conflitos armados, com concentrações expressivas de ocorrências de tiroteios em determinados períodos.
A análise espacial evidencia ainda a coexistência de vulnerabilidades socioambientais, como áreas de risco para inundações e deslizamentos, reforçando a complexidade das condições de vida. Ao incorporar dados sobre a origem dos estudantes, observa-se a escola como espaço de convergência de múltiplas territorialidades, atravessadas por pertencimentos, estigmas e experiências de violência.
Nesse contexto, a cartografia opera não apenas como representação, mas como prática de produção de conhecimento situada, permitindo visibilizar desigualdades e tensionar leituras hegemônicas do território. As análises a partir desses resultados indicam que o cuidado se produz em uma trama que ultrapassa a rede formal, envolvendo práticas comunitárias, relações locais e estratégias cotidianas de resistência que também devem ser observadas e consideradas na produção de políticas públicas.
Conclusões/Considerações Finais
A cartografia se afirma como ferramenta estratégica para a saúde coletiva ao possibilitar a leitura integrada de territórios complexos. Em Manguinhos e na Maré, o cuidado se constitui em meio a disputas e violências, exigindo o fortalecimento de políticas intersetoriais no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Ao articular território, escola e produção do cuidado, o estudo contribui para a construção de estratégias mais situadas e comprometidas com a equidade, reafirmando a centralidade dos territórios na formulação de políticas públicas e na reimaginação das práticas em saúde coletiva.
POLÍTICAS DE SAÚDE E DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL: CONTRADIÇÕES E DISPUTAS NA CONFIGURAÇÃO DO SUS
Comunicação Oral
1 Instituto de Saúde/SES-SP
Apresentação/Introdução
As políticas de saúde se articulam estrategicamente ao desenvolvimento nacional, influenciando e sendo influenciadas pelas dimensões sociais e econômicas inscritas no território. Nesse sentido, a divisão territorial do trabalho e suas tendências contraditórias — homogeneização versus diferenciação, integração versus desintegração, centralização versus descentralização —, bem como a compreensão das racionalidades que orientam o SUS, instrumentalizam a análise e permitem identificar os limites das políticas públicas no contexto do capitalismo periférico. Visando contribuir com estudos que analisam o SUS e seu papel no desenvolvimento nacional, o presente trabalho se propõe a refletir sobre (i) as relações entre Estado e políticas sociais, à luz da dinâmica do capital e da questão social, (ii) as especificidades das políticas públicas de saúde e as racionalidades que as orientam; (iii) as dimensões econômicas e políticas que conformam o SUS e suas conexões com os modelos de atenção à saúde. Tais reflexões buscam articular as possibilidades de construção de um sistema público de saúde emancipatório, que incorpore as singularidades sociais dos locais em oposição aos processos homogeneizadores das diversidades imposto pelos modos de produção capitalista.
Objetivos
Refletir criticamente sobre a divisão territorial do trabalho e suas tendências contraditórias — homogeneização versus diferenciação, integração versus desintegração, centralização versus descentralização —, bem como sobre as racionalidades que orientam o SUS, que determinam os limites das políticas públicas no contexto do capitalismo periférico.
Metodologia
rata-se de um estudo de natureza teórico-analítica, ancorado na tradição crítica da economia política e na literatura da saúde coletiva. O percurso metodológico baseou-se em revisão e análise interpretativa de referenciais teóricos sobre Estado, políticas sociais e teoria da dependência, articulados à produção acadêmica sobre o Sistema Único de Saúde (SUS). A análise foi organizada em três eixos: (i) relações entre Estado, dinâmica do capital e questão social; (ii) especificidades das políticas de saúde e as racionalidades que as orientam; e (iii) dimensões territoriais, econômicas e políticas do SUS, com ênfase na divisão territorial do trabalho e suas tendências contraditórias. A abordagem privilegiou a identificação de mediações estruturais e históricas que condicionam a formulação e implementação das políticas públicas de saúde.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que o território, no âmbito do SUS, ultrapassa sua concepção instrumental e se configura como espaço em disputa, onde se entrelaçam relações de poder, saberes, práticas de cuidado e modos de vida. A divisão territorial do trabalho, orientada pela dinâmica do capital, produz processos simultâneos de homogeneização e diferenciação que incidem diretamente sobre os territórios, aprofundando desigualdades sociais, raciais, de gênero e ambientais.
Nesse contexto, o SUS emerge como um campo de coexistência de racionalidades contraditórias, no qual princípios universalistas convivem com lógicas seletivas e mercantilizantes. Tais tensões se materializam nos territórios por meio de práticas estatais que, ao mesmo tempo em que buscam organizar e integrar o cuidado, frequentemente desconsideram saberes locais, ancestralidades e ecologias próprias dos territórios.
A análise evidencia que o território atua como agente ativo na produção da saúde, articulando dimensões materiais e simbólicas, humanas e não-humanas, tendendo a homogeneização das experiências de cuidado. Ao mesmo tempo, revela-se como espaço de resistência e produção de alternativas, onde práticas comunitárias, saberes tradicionais e experiências territorializadas tensionam modelos hegemônicos e abrem possibilidades contra-hegemônicas no SUS.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a compreensão do território como dimensão relacional e produtora de saúde é fundamental para enfrentar os limites das políticas públicas no contexto do capitalismo periférico. A centralidade do território permite evidenciar que as desigualdades em saúde não se distribuem apenas no espaço, mas são produzidas por ele, em articulação com dinâmicas históricas, econômicas e políticas.
Reafirma-se a necessidade de deslocar abordagens instrumentais e incorporar perspectivas que reconheçam o território como espaço de agência e campo de produção de saberes e existências. Tal movimento implica valorizar práticas comunitárias, saberes ancestrais e experiências locais, fortalecendo uma saúde coletiva comprometida com a justiça socioambiental, a equidade e a pluralidade de modos de vida.
Assim, o SUS se configura como espaço estratégico de disputa e reimaginação de alianças entre comunidades, territórios e ecologias, apontando para a construção de um sistema de saúde emancipatório.
PRÁTICAS CORPORAIS EM SISTEMAS NACIONAIS DE SAÚDE LATINO-AMERICANOS: APROXIMAÇÕES INICIAIS
Comunicação Oral
1 Universidade Federal de Goiás
2 Universidad de La Republica
3 Universidade Federal de São Paulo
4 Universidad del Rosario
5 Institución Universitaria Escuela Nacional del Deporte-Universidad del Valle
6 Universidad Nacional de La Plata
Apresentação/Introdução
A expressão "práticas corporais" é representativa de um movimento acadêmico e político contra-hegemônico que se opõe ao modelo biomédico e ao conceito clássico de "atividade física". Sua acepção dialoga com o pensamento crítico das ciências humanas e sociais, filosofia e arte, articulando aspectos orgânicos, subjetivos, sociais, econômicos, políticos, estéticos e históricos para compreender os processos saúde-doença-cuidado e a cultura corporal. Além disso, as práticas corporais podem ser compreendidas como expressões territorializadas do cuidado, produzidas na interface entre cultura, modos de vida e organização dos sistemas de saúde. A produção acadêmica pouco documenta as relações entre práticas corporais, Saúde Coletiva e serviços públicos de saúde na América Latina.
Objetivos
Compreender a presença conceitual e institucional das práticas corporais nos sistemas nacionais de saúde de Argentina, Brasil, Colômbia e Uruguai.
Metodologia
Este trabalho foi desenvolvido pela Rede “Prácticas Corporales y Salud Colectiva: interCAMBIOS latino-americanos”; coletivo de pesquisadores(as) que têm construído ações de cooperação acadêmica voltadas a conhecer a realidade da América Latina, promovendo intercâmbio de produção de conhecimentos e práticas em saúde numa perspectiva decolonial. Em 2024, a Rede realizou o Seminário “Sistemas de salud y prácticas corporales: conociendo la realidad de los países latino-americanos”. O conversatório online comparativo-analítico focou em apresentações que uniram análise documental e experiências de ensino-serviço das universidades envolvidas. O presente resumo sintetiza dados sobre a inclusão de práticas corporais e/ou educação física nas políticas públicas e sistemas de saúde de Argentina, Brasil, Colômbia e Uruguai. Esses países da Rede realizam pesquisas que compreendem as práticas corporais como elemento central da cultura e diversidade socioterritorial na região.
Resultados e Discussão
O sistema público de saúde argentino, formado no século XX sem marco legal único, é segmentado. Apesar do reconhecimento da saúde como direito social, as práticas corporais, como a Educação Física, são subordinadas à reabilitação e ao critério médico, reforçando a lógica medicalocêntrica. Há poucas políticas de promoção da saúde que integrem práticas corporais e profissionais de Educação Física.
O Brasil tem o Sistema Único de Saúde, baseado na universalidade, equidade e integralidade, fruto da reforma sanitária e direito constitucional, após a redemocratização nos anos 1980. As práticas corporais foram institucionalizadas pela Política Nacional de Promoção da Saúde, com foco na atenção primária (Programa Academia da Saúde e NASF). Estão presentes nos três níveis de atenção, mas com cobertura e desenvolvimento insuficientes e desiguais. O profissional de educação física compõe as equipes multiprofissionais.
A reforma colombiana de 1993 reconfigurou o sistema de saúde para um modelo de asseguramento com lógicas de mercado, gerando segmentação e fragmentação da oferta de serviços, e dificultando a integralidade do cuidado. As práticas corporais são marginais e institucionalmente pouco reconhecidas, limitando-se a recomendações de atividade física alinhadas à biomedicina, sem inserção de profissionais nas equipes. Contudo, persistem experiências alternativas, muitas ligadas a processos universitários e comunitários, que conectam as práticas corporais às dimensões sociais, culturais e territoriais.
O Sistema Nacional Integrado de Saúde (SNIS) do Uruguai, reformado em 2007, busca a universalização, qualidade e equidade do acesso à assistência, sob a Estratégia de Atenção Primária. O programa prioritário "Atividade Física e Saúde" do Ministério da Saúde, foca em guias de execução e prescrição de atividade física. Embora profissionais de educação física não integrem o SNIS, há iniciativas de práticas corporais isoladas ou em parceria com a Universidad de La República.
Em geral, os dados apontam que as práticas corporais apresentam pouca institucionalização, nem sempre são territorializadas e articuladas a modos de vida, iniciativas comunitárias e processos socioculturais, sinalizando o desafio de que sejam planejadas, monitoradas e avaliadas em diálogo com os territórios.
Conclusões/Considerações Finais
Os sistemas de saúde na América Latina surgiram de reformas nos séculos XX e XXI, em contextos de crise. Com exceção do Brasil, que tem ações específicas, as práticas corporais não são formais, emergindo em experiências isoladas, ligadas a ações interdisciplinares e intersetoriais com o sistema, e não a partir dele. É comum entre os países a disputa entre abordagens de estilo de vida ativo e a determinação social da saúde.
TERRITÓRIO, DESIGUALDADE E PRODUÇÃO DO CUIDADO NA REDE DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA: UMA ANÁLISE CRÍTICA DO COMPONENTE HOSPITALAR NO RIO DE JANEIRO
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ/ICICT
Apresentação/Introdução
A organização das redes de atenção à saúde no Sistema Único de Saúde (SUS) é atravessada por desigualdades historicamente produzidas, nas quais o território se constitui não apenas como recorte administrativo, mas como expressão concreta de relações de poder, de disputas e de processos de produção e reprodução da vida. O SUS é compreendido como um campo em disputa, atravessado por projetos societários distintos, interesses econômicos e racionalidades técnicas, que se materializam de forma desigual nos territórios. No âmbito da Rede de Atenção às Urgências e Emergências (RUE), tais desigualdades se materializam na distribuição assimétrica de recursos, serviços e possibilidades de cuidado. Esta pesquisa parte do pressuposto de que a regionalização, longe de operar como mecanismo neutro de organização, pode também reproduzir e reconfigurar desigualdades, tensionando o princípio da integralidade.
Objetivos
Analisar, a partir de uma perspectiva crítica e territorial, a evolução do componente hospitalar da RUE no estado do Rio de Janeiro, no período de 2010 a 2023, buscando compreender como a organização dos serviços se articula à produção de desigualdades no acesso, na circulação dos usuários e nos resultados em saúde.
Metodologia
Trata-se de um estudo avaliativo, de abordagem quanti-qualitativa, fundamentado no modelo de Donabedian (1982). A unidade de análise são as Regiões de Saúde do estado do Rio de Janeiro, compreendidas como construções político-administrativas que expressam pactuações, disputas e assimetrias federativas, não sendo, portanto, espaços neutros. Foram utilizados dados secundários provenientes dos sistemas de informação em saúde (SIM, SIH, SINAN e CNES), além de análise documental dos Planos Estaduais de Saúde. A opção por dados secundários reconhece seus limites na captura das experiências vividas, mas aposta em sua potência para evidenciar padrões estruturais de desigualdade. Os indicadores foram organizados nas dimensões de estrutura, processo e resultado, com análise por séries temporais e comparação regional, buscando evidenciar padrões territoriais de desigualdade.
Resultados e Discussão
Os achados evidenciam que o território opera como agente ativo na produção das desigualdades em saúde, revelando a persistência de uma lógica concentradora na distribuição de recursos hospitalares, especialmente nas regiões metropolitanas. A expansão da RUE, ao longo do período analisado, não foi capaz de romper com padrões históricos de concentração, indicando limites estruturais da política de regionalização. Observa-se que a própria lógica de expansão da rede, orientada por critérios de oferta e viabilidade técnica, tende a reforçar assimetrias pré-existentes, ao invés de enfrentá-las.
Na dimensão processual, observam-se fragilidades na articulação entre os serviços e na regulação do acesso, expressando tensões entre a lógica normativa da rede e práticas fragmentadas de cuidado. Já nos resultados, as variações regionais nos indicadores de morbimortalidade sugerem que o acesso ao cuidado em situações de urgência é fortemente condicionado pela posição dos sujeitos nos territórios, evidenciando desigualdades que atravessam classe, raça e condições de vida, ainda que não capturadas diretamente pelos sistemas de informação. Assim, os dados apontam para a existência de uma geografia desigual do direito à saúde, na qual viver e morrer são experiências territorialmente condicionadas. A análise dos Planos Estaduais de Saúde aponta descontinuidades e limites na capacidade de indução de maior equidade, revelando a distância entre o planejamento formal e a materialidade das políticas, evidenciando como o planejamento é atravessado por disputas político-institucionais e pela subordinação a lógicas fiscais que tensionam a efetivação do direito à saúde e a própria capacidade do Estado de enfrentar desigualdades territoriais.
Conclusões/Considerações Finais
A análise permite afirmar que o território constitui-se como dimensão estruturante da produção do cuidado e das desigualdades no SUS. Ao reconhecer o SUS como campo de disputa, evidencia-se que a produção do cuidado está intrinsecamente ligada a correlações de forças que operam em múltiplas escalas. A RUE, ao se organizar sobre bases territoriais desiguais, tende a reproduzir assimetrias no acesso, na circulação dos usuários e nos desfechos em saúde, evidenciando os limites de uma abordagem tecnocrática da regionalização. Reafirma-se a necessidade de tensionar os modelos de avaliação centrados exclusivamente em indicadores, incorporando leituras que considerem as dimensões históricas, políticas e sociais dos territórios, bem como os processos de invisibilização e produção de ausências que marcam determinados grupos e regiões. A construção de redes mais equitativas implica reconhecer o território como espaço de disputa e intervir sobre as bases estruturais que sustentam as desigualdades em saúde, incorporando e afirmando a integralidade como horizonte ético-político do SUS.
TERRITÓRIO, INTERCULTURALIDADE E CUIDADO: A ATUAÇÃO DA ANTROPOLOGIA NO DSEI YANOMAMI E YE’KWANA
Comunicação Oral
1 Prefeitura de Barcelos
Contextualização
A centralidade do território na saúde indígena evidencia-se na medida em que o cuidado ultrapassa a dimensão biomédica e se inscreve em relações socioculturais, cosmológicas e ambientais. No subsistema de saúde indígena, a categoria território é frequentemente mobilizada de forma administrativa, dissociada de sua dimensão viva, relacional e produtora de modos de existência.
A inserção da antropologia nos DSEIs, impulsionada pelo movimento indígena ao longo das últimas décadas, tensiona essa perspectiva ao evidenciar o território como agente na produção do cuidado, atravessado por disputas, saberes e práticas diversas. Nesse contexto, a recente regulamentação da atuação do antropólogo e o fortalecimento dessa categoria profissional abrem espaço para reconfigurações nas formas de pensar e operar a atenção à saúde indígena.
Descrição
A experiência refere-se a minha atuação enquanto antropóloga no DSEI Yanomami e Ye’kwana (DSEI-YY), entre novembro de 2024 e março de 2026, em um contexto de ampliação da presença dessa categoria profissional no subsistema. O DSEI-YY configura-se atualmente como o distrito com maior número de antropólogos em atuação.
A atuação se desenvolve de forma territorializada e relacional, abrangendo comunidades indígenas, a Casa de Apoio à Saúde Indígena (CASAI) e os hospitais de referência na cidade. As ações incluem mediação intercultural, apoio às Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI), educação em saúde em contextos socioculturais diversos, articulação interinstitucional e acompanhamento de fluxos de cuidado.
O território emerge não apenas como espaço de intervenção, mas como elemento ativo que reorganiza práticas, impõe limites e produz sentidos para o cuidado, exigindo dos profissionais deslocamentos epistemológicos e operacionais constantes.
Período de Realização
Novembro de 2024 a março de 2026.
Objetivo
Analisar a atuação da antropologia na saúde indígena a partir da experiência no DSEI-YY, com foco no território como dimensão central da produção do cuidado, evidenciando seus efeitos na mediação intercultural, na organização das práticas de saúde e nos processos de reconhecimento institucional da categoria.
Resultados
A atuação antropológica contribuiu para o fortalecimento do diálogo intercultural entre equipes de saúde e povos indígenas, para a qualificação dos fluxos de cuidado e para a incorporação de dimensões socioculturais nas práticas assistenciais.
Destaca-se a realização de processos de capacitação em cuidado intercultural conduzidos pela equipe de antropólogas, respondendo a uma demanda histórica no âmbito do DSEI-YY, por muito tempo negligenciada. Essas ações evidenciaram a centralidade da mediação sociocultural para a efetividade do cuidado, ampliando a compreensão das equipes sobre os contextos territoriais, linguísticos e cosmológicos dos povos atendidos.
Observou-se maior articulação entre território, cuidado e gestão, com impactos na mediação de conflitos, na organização de itinerários terapêuticos e na produção de estratégias de educação em saúde.
No plano institucional, destacam-se avanços no reconhecimento da categoria, incluindo a delimitação da função dentro dos DSEIs a partir da Nota Tecnica Nº 04 de abril de 2025, elaborada pela DAPSI/SESAI.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia que o território, longe de ser apenas um recorte geográfico, atua como agente na produção do cuidado, configurando práticas, relações e possibilidades de intervenção. A atuação antropológica, ao se inscrever nesse campo, exige escuta qualificada, mediação constante e negociação entre diferentes regimes de saber.
Entretanto, a inserção da categoria ainda se dá em meio a tensões institucionais, marcadas por indefinição de atribuições, sobreposição de funções e desigualdade na distribuição desses profissionais entre os DSEIs.
A recente regulamentação representa um avanço, mas sua efetivação depende da ampliação da presença da antropologia e do reconhecimento do território como dimensão estruturante da saúde, capaz de produzir não apenas demandas, mas também respostas e formas próprias de cuidado.
SABERES AMAZÔNICOS E TERRITÓRIO VIVIDO: ADAPTAÇÕES COMUNITÁRIAS E DESAFIOS PARA O CUIDADO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral
1 ESAP/SEMSA Manaus
Contextualização
A Atenção Primária à Saúde (APS) fundamenta-se na territorialização como estratégia central para
reconhecer as condições de vida da população e orientar a organização do cuidado em saúde. No
contexto amazônico, marcado por espaços atravessados por corpos hídricos e por dinâmicas sazonais de
cheia, áreas periféricas urbanas vivenciam alagamentos recorrentes que, associados à precariedade
estrutural e ao histórico de desigualdades sociais, impactam diretamente os modos de vida e o acesso aos
serviços de saúde. Nesse cenário, em que frequentemente se evidenciam situações de vazio assistencial,
emergem saberes e práticas comunitárias como formas de organização social e estratégias de
enfrentamento que sustentam a produção cotidiana do cuidado.
Descrição
Trata-se de relato de experiência desenvolvido
a partir da vivência de uma residente de Medicina de Família e Comunidade em área adscrita à ESF,
caracterizada por limitações de mobilidade, ausência de saneamento adequado e exposição a riscos
ambientais. Foram identificadas estratégias comunitárias de adaptação às condições
adversas, como pontes de madeira sobre igarapés e escadarias improvisadas em áreas anteriormente
ocupadas por esgoto a céu aberto. Essas estruturas, embora essenciais para a circulação, apresentam
condições precárias, incluindo instabilidade, desníveis, ausência de proteção lateral e risco elevado de
acidentes, especialmente em períodos de cheia.
Período de Realização
O período de observação ocorreu durante atividades do Programa de Residência em Medicina de Família e
Comunidade da Escola de Saúde Pública (ESAP), vinculada à Secretaria Municipal de Saúde de Manaus
(SEMSA). Esse contexto possibilitou a territorialização e o acompanhamento das visitas domiciliares junto
aos Agentes Comunitários de Saúde de uma equipe da ESF na Zona Leste do município, no mês de
fevereiro de 2026. A inserção no campo da residência permitiu explorar e sistematizar o território adscrito e
seus contextos socio-organizativos, ampliando a compreensão das condições de vida e saúde da
população.
Objetivo
Este trabalho tem como objetivo analisar como as adaptações comunitárias presentes em áreas periféricas
de Manaus, Amazonas, influenciam o acesso aos serviços de saúde e o processo de trabalho de uma
equipe da Estratégia Saúde da Família (ESF), considerando as interações entre condições locais,
vulnerabilidades sociais e organização da atenção à saúde.
Resultados
Como resultados, evidenciou-se que essas condições impactam diretamente o processo de trabalho das
equipes de saúde, dificultando visitas domiciliares, o acompanhamento longitudinal e a continuidade do
cuidado, sobretudo para populações em maior vulnerabilidade. Observou-se que a atuação profissional
exige constante adaptação frente às barreiras físicas e sociais, demandando reorganização das práticas e
tensionando os limites entre o planejamento institucional e as condições concretas do cuidado.
Aprendizado e Análise Crítica
Destaca-se a centralidade das condições vividas na produção do cuidado, evidenciando que as dinâmicas
locais não podem ser compreendidas apenas por parâmetros normativos. A experiência revela a potência
dos saberes comunitários como formas de organização coletiva e produção de vida, ao mesmo tempo em
que explicita limitações estruturais que perpetuam desigualdades no acesso à saúde.
A análise crítica aponta para a necessidade de fortalecimento de abordagens intersetoriais que articulem
políticas de saúde, saneamento, habitação e infraestrutura urbana, enfrentando os determinantes sociais
da saúde de forma integrada. Reforça-se a importância de incorporar as especificidades locais na
formulação e implementação das ações da APS, reconhecendo o protagonismo das comunidades frente às
adversidades.
Realização: