Programa - Comunicação Oral - CO20.2 - Desinformação, comunicação em saúde e direitos
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
CPI DA COVID-19 E O DEBATE SOBRE O TRATAMENTO PRECOCE NO BRASIL: UMA ANÁLISE DO ESPAÇO SOCIAL
Comunicação Oral
1 UNEB
2 UNEB/UFBA
3 ISC/UFBA
Apresentação/Introdução
A pandemia de Covid-19 no Brasil configurou-se como um fenômeno complexo, envolvendo dimensões sanitárias, políticas e institucionais. Nesse contexto, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 investigou ações e decisões relacionadas ao enfrentamento da pandemia, evidenciando disputas em torno da legitimidade de diferentes estratégias terapêuticas, entre elas o chamado “tratamento precoce”.
Objetivos
Analisar as tomadas de posição de agentes políticos, técnicos e científicos sobre o tratamento precoce no âmbito da CPI da Covid-19, considerando suas relações com o campo da saúde coletiva e o Sistema Único de Saúde (SUS).
Metodologia
Pesquisa documental, de abordagem qualitativa, que analisou as tomadas de posição na CPI Covid-19 sobre o tratamento precoce. Utilizou-se o referencial de Pierre Bourdieu (especialmente os conceitos de campo, habitus, capital simbólico) para realização da análise acerca das disputas e legitimidade do discurso sobre o tratamento precoce. Foram analisados 22 depoimentos, aproximadamente 177 horas de gravação, o relatório final (1.288 páginas), além da construção de um acervo de arquivos digitais publicados em redes sociais (instagram e facebook). Os dados foram sistematizados em matrizes de análise contemplando trajetórias (formação, relação com a saúde coletiva, partido, idade) e tomadas de posições dos agentes sobre o tratamento precoce.
Resultados e Discussão
Os achados evidenciam a existência de posições distintas e estruturadas no interior do espaço social analisado com uma clara polarização sobre o tratamento precoce. Um primeiro conjunto de agentes, composto por gestores, médicos especialistas (como oncologistas e ortopedistas) de formação com inserção no campo político, epidemiologistas e sanitaristas apresentou de forma crítica em relação ao tratamento precoce, em defesa de intervenções baseadas em evidências científicas, como a vacinação. Esses agentes, que ocupavam cargos técnicos ou de liderança no Ministério da Saúde no início da crise, bem como pesquisadores de instituições públicas de ensino e pesquisa, posicionaram-se contra o uso de terapias sem comprovação científica, priorizando o distanciamento social no período inicial da pandemia e o rigor científico. Em contrapartida, um segundo grupo, formado majoritariamente por agentes políticos da base governista, militares de alta patente e médicos alinhados ao discurso presidencial, promoveu ativamente a defesa ao tratamento precoce. Estes agentes, frequentemente vinculados a partidos de direita e centro-direita, difundiram a tese da imunidade de rebanho por contágio natural como alternativa ao isolamento social, além de propagarem conteúdos de desinformação que questionavam a gravidade da pandemia.
A defesa do tratamento precoce contraria o corpo de evidências científicas disponível. A análise das evidências científicas disponíveis no período indica ausência de eficácia dos medicamentos associados ao tratamento precoce (Sansone et al., 2024; Beltran Gonzalez et al., 2022; Abd-Elsalam et al., 2021). Carvalho et al. (2025) classificam essa estratégia como "pesadelo para a saúde pública". A persistência de sua defesa por determinados agentes pode ser compreendida à luz das disputas por autoridade do discurso e legitimidade entre diferentes frações do campo científico, político e midiático. A CPI também revelou a atuação de redes de influência e circulação de informações que contribuíram para a ampliação da visibilidade dessas posições, especialmente em ambientes digitais. Tais dinâmicas evidenciam a interdependência entre produção de conhecimento, comunicação pública e estratégias políticas, com repercussões sobre a adesão social às medidas sanitárias.
Conclusões/Considerações Finais
As disputas observadas na CPI da Covid-19 expressam tensões estruturais entre diferentes formas de produção e validação do conhecimento em saúde. A análise evidencia como posições no espaço social, a trajetória dos agentes e suas tomadas de posição influenciam a definição de estratégias de enfrentamento em contextos de crise, ressaltando a importância de compreender a relação entre os campos sociais e a Saúde Coletiva.
DESAFIOS DA COMUNICAÇÃO EM SAÚDE NA ERA DA INFODEMIA
Comunicação Oral
1 Universidade de Brasília
Apresentação/Introdução
A infodemia é um dos principais desafios contemporâneos da saúde pública, caracterizada pela superabundância de informações, precisas ou não, que circulam rapidamente em ambientes digitais, dificultando a identificação de fontes confiáveis e a tomada de decisões em saúde. Esse cenário impacta comportamentos, percepções sociais e a confiança nas instituições. Nesse contexto, a comunicação em saúde assume papel estratégico, contribuindo para a distinção entre fatos e desinformação e para o fortalecimento da autonomia dos sujeitos. A infodemia se intensifica em crises sanitárias, quando o aumento da demanda por informação ocorre simultaneamente à circulação de conteúdos não verificados, potencializados pelas redes sociais. A sobrecarga informacional e a fragmentação da comunicação dificultam a compreensão das questões de saúde pública. Como analogia, a disseminação da dsinformação pode ser associada ao caráter “radioativo”, pela sua rápida propagação e impacto nas percepções. Assim, compreender o papel da comunicação é fundamental para o enfrentamento da infodemia.
Objetivos
Este estudo tem como objetivo analisar, por meio de revisão sistemática da literatura, as evidências científicas sobre a infodemia em saúde, com ênfase nas dimensões comunicacionais, nos desafios da desinformação e nas estratégias de comunicação em saúde. Este artigo é resultado de pesquisa desenvolvida no âmbito do Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde (ECOS) e foi orientado pela seguinte questão: como a literatura científica tem abordado a infodemia em saúde e quais estratégias comunicacionais são propostas para o enfrentamento da desinformação em contextos de saúde pública?
Metodologia
Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, conduzida conforme as diretrizes do PRISMA 2020, com o objetivo de mapear conceitos, abordagens e tendências sobre a infodemia em saúde. O estudo seguiu as etapas de elaboração de protocolo, identificação dos estudos, extração e mapeamento dos dados, síntese dos resultados e análise crítica da literatura. A busca foi realizada nas bases PubMed, SciELO e Embase, incluindo artigos publicados entre 2016 e 2023, nos idiomas inglês, português e espanhol.
As referências foram gerenciadas pelo software Rayyan, e a seleção ocorreu em duas etapas: leitura de títulos e resumos, seguida de leitura dos textos completos. A triagem foi realizada por dois revisores independentes, com resolução de discordâncias por consenso. Foram incluídos artigos com texto completo que abordassem explicitamente a infodemia ou a infodemia em saúde, sendo excluídos editoriais, cartas, revisões narrativas e estudos fora dos critérios estabelecidos.
A busca inicial resultou em 1.360 registros, dos quais 439 duplicados foram removidos. Após aplicação dos critérios de elegibilidade, 446 artigos compuseram o corpus final, analisado por meio de matriz temática para identificação de padrões e categorias emergentes. Por tratar-se de dados secundários de domínio público, não houve necessidade de aprovação por comitê de ética.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que a infodemia em saúde é um fenômeno multifacetado, intensificado pelas mídias digitais e por contextos de crises sanitárias. A superabundância de informações e sua rápida circulação dificultam a avaliação crítica, favorecendo a disseminação de desinformação e impactando percepções e comportamentos em saúde. A literatura destaca a dificuldade de identificar fontes confiáveis, afetando profissionais e a população. Nesse contexto, a comunicação em saúde assume papel central, especialmente por meio de estratégias de comunicação de risco baseadas em evidências, transparência e clareza, além do fortalecimento do letramento em saúde. No Brasil, fatores políticos e sociais, como a polarização, intensificaram a desinformação, impactando a confiança nas instituições e a adesão às medidas de saúde. Esses achados reforçam a necessidade de estratégias comunicacionais integradas e contextualizadas para o enfrentamento da infodemia.
Conclusões/Considerações Finais
A infodemia configura-se como um desafio central para a saúde pública, impactando comportamentos, o acesso à informação confiável e a confiança nas instituições. Os achados destacam a necessidade de estratégias integradas que articulem comunicação em saúde, letramento em saúde e políticas públicas baseadas em evidências, com ênfase na comunicação de risco clara e contextualizada. Reforça-se a importância de ampliar estudos sobre infodemia e desinformação, visando fortalecer intervenções eficazes, promover o pensamento crítico e mitigar seus impactos na saúde coletiva.
DESINFORMAÇÃO NA PANDEMIA DE COVID-19 NO BRASIL: TOMADAS DE POSIÇÃO E DISPUTAS
Comunicação Oral
1 UNEB
2 ISC/UFBA
Apresentação/Introdução
Fake news são informações falsas, imprecisas ou enganosas, frequentemente disseminadas como se fossem verdadeiras, sobretudo nas redes sociais. No contexto da pandemia de COVID-19 no Brasil, a ampla circulação dessas informações configurou-se como um importante desafio para a saúde pública, ao influenciar percepções, comportamentos e a adesão às medidas sanitárias.
Objetivos
Analisar as tomadas de posição de agentes políticos, técnicos e científicos na CPI da Pandemia quanto à disseminação e ao enfrentamento da desinformação.
Metodologia
Pesquisa documental e qualitativa, analisando as tomadas de posição de 23 agentes a partir de seus depoimentos da CPI, totalizando 80h de gravação, bem como suas publicações em redes sociais, registradas no Relatório Final da CPI (1.288 páginas). A análise foi orientada pelo referencial de Pierre Bourdieu, especialmente pelos conceitos de campo, habitus e capital, buscando compreender as relações entre trajetórias sociais e posições assumidas no debate público.
Resultados e Discussão
Os achados evidenciam a existência de posições diferenciadas e estruturadas no espaço social, revelando disputas em torno da desinformação durante a pandemia. A CPI revelou, com base em depoimentos, documentos oficiais e registros em redes sociais, uma ação coordenada de desinformação, envolvendo a defesa de estratégias como o “tratamento precoce”, a minimização da gravidade da pandemia e a contestação de medidas não farmacológicas e vacinas. Tais posições foram sustentadas por agentes políticos da base governamental, em contraposição a agentes do campo científico e da Saúde Coletiva.
Um conjunto de agentes, composto por políticos, militares, médicos e empresários alinhados ao discurso presidencial reforçaram narrativas que relativizavam a gravidade da doença, incentivavam o uso de terapias sem eficácia comprovada e questionavam a segurança das vacinas, além de serem contrários ao isolamento social e ao uso de máscaras. Dados da CPI indicam que publicações desses agentes somaram centenas de milhares de interações, contribuindo para a ampliação da circulação dessas narrativas.
Em contraste, um segundo conjunto, formado por gestores, epidemiologistas, sanitaristas e pesquisadores vinculados ao campo científico e à saúde coletiva, posicionou-se de forma crítica em relação à circulação de conteúdos não validados cientificamente, defendendo intervenções baseadas em evidências, como vacinação e medidas não farmacológicas. Esses agentes destacaram a importância da comunicação institucional coordenada e da produção de informações qualificadas para o enfrentamento da pandemia.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou a desinformação como uma das principais ameaças à saúde global durante a crise da COVID-19 (Ministério da Saúde, 2024). Estudos indicam que a desinformação sobre tratamentos pode levar à adoção de práticas perigosas e à recusa de intervenções baseadas em evidências. Ademais, a hesitação vacinal, impulsionada pela desinformação, é reconhecida globalmente como uma ameaça à saúde pública, dificultando o controle de doenças infecciosas e prolongando pandemias (Sallam et al., 2020). A politização da ciência gerou confusão e minou a confiança pública, que exacerbam o impacto da desinformação durante crises sanitárias (Miskolci, 2023; Motta et al., 2020).
As disputas observadas na CPI podem ser compreendidas como expressões de conflitos entre diferentes frações dos campos político, científico e midiático, nos quais distintos capitais são mobilizados para sustentar posições e reivindicar legitimidade no debate público.
Conclusões/Considerações Finais
A análise evidencia que a circulação de desinformação durante a pandemia de Covid-19 no Brasil esteve associada a disputas no espaço social, nas quais diferentes agentes buscaram afirmar a legitimidade de suas posições no debate público. Essas dinâmicas influenciaram a condução da resposta sanitária e a adesão às medidas de saúde pública.
Os achados apontam para a necessidade de fortalecer estratégias de comunicação baseadas em evidências e de aprimorar as interfaces entre ciência, política e sociedade na gestão de crises sanitárias.
LENÇOS VERDES E CRISTIANISMO: ATRAVESSAMENTOS ENTRE MULHERES EVANGÉLICAS, ABORTO E ACOLHIMENTO
Comunicação Oral
1 ENSP/Fiocruz
2 IFF/Fiocruz
Apresentação/Introdução
O aborto é uma temática complexa ainda vista sob o prisma da criminalização e moralidade no Brasil. Este tema dificilmente é discutido nas escolas, programas de governo e igrejas. Contudo, desde a década de 1960 com o nascimento da Teologia Feminista diversas mulheres e entidades cristãs progressistas tem realizado o árduo trabalho em abarcar o cuidado às mulheres incluindo a justiça reprodutiva nas temáticas abordadas no enlace entre gênero e religião. Esta teologia tem grande participação nas denúncias das violências que ocorrem em nome da religiosidade.
O aborto não costuma ser falado nos púlpitos ou quando mencionado é sob a ótica do pecado e heresia. A experiência da Frente Evangélicas pela Legalização do Aborto (FEPLA), da Rede Madalenas e de outras organizações semelhantes apontam que as mulheres religiosas evangélicas geralmente não possuem espaço ou abertura para compartilhar em suas comunidades de fé quando se veem em situação de abortamento. A Rede Madalenas foi um coletivo criado em 2020, no início da pandemia de Covid-19, devido ao aumento alarmante dos casos de violência de gênero, o que preocupou as mulheres evangélicas sobre o que as suas irmãs de fé estavam vivenciando em seus lares. O coletivo acolheu diversas mulheres evangélicas nas mais variadas formas de violência – de raça, de identidade e orientação sexual, situação de abortamento e afins.
Objetivos
O objetivo do trabalho foi através das entrevistas de cinco acolhedoras que participaram da Rede Madalenas analisar as experiências de mulheres evangélicas no acolhimento a outras mulheres de mesma pertença religiosa em situação de abortamento. Além disso, este trabalho visa discutir as experiências deste coletivo, como o histórico da criação da rede, formação para o acolhimento, organização das práticas e desenvolvimento das tecnologias de acolhimento, suas tensões e ressignificações do tema do aborto no feminismo evangélico e traçar um perfil biográfico das acolhedoras, incluindo trajetórias religiosas, educacionais, de trabalho e de ativismo, aproximação do feminismo e do tema do aborto.
Metodologia
A metodologia construída foi pensada com o auxílio de autoras feministas decoloniais como Ochy Curiel, Débora Diniz, Sara Ahmed e Gloria Anzaldúa. Elas ensinam sobre a importância de as metodologias serem alinhadas com pesquisas feministas e de acontecerem a partir do ouvir sendo uma escutadeira feminista, aquela que não fecha os ouvidos às denúncias realizadas pelas mulheres contra o sistema patriarcal.
As pistas metodológicas dessas autoras auxiliaram na confecção da metodologia desta pesquisa. O interesse foi de aproximação e compreensão das dores das mulheres evangélicas que se viam no imbricamento entre fé e aborto e daquelas que as acolhiam e se disponibilizaram para traçar outras perspectivas religiosas possíveis. As denúncias que este trabalho aponta são retratos das dores e violências experenciadas pelas mulheres submetidas ao patriarcado religioso e que apesar disso não perdem a esperança.
Resultados e Discussão
No mundo evangélico conservador os papéis de gênero já estão traçados e às mulheres só resta a submissão às figuras de autoridade, como os seus maridos. As casadas têm mais valor do que as solteiras e divorciadas e ser mãe é o papel que devem exercer. Neste cenário, desafiar as regras e escolher pelo abortamento é, em sua maioria, vivenciar esta escolha no sigilo, na cumplicidade de poucas pessoas, quando a rede de suporte possibilita isso, e com medo da condenação ao inferno.
Alguns resultados interessantes achados nas entrevistas apontam que o acolhimento prestado às mulheres evangélicas em situação de abortamento retrata a oferta de uma escuta qualificada sem julgamentos, amparo emocional e criação de um lugar seguro. Também se fala sobre a importância de se ter paciência para explicar minuciosamente alguns temas para as mulheres acolhidas, como explicitar sobre os diversos tipos de violência indicando a importância da denúncia, seja do marido, do pastor ou qualquer outro agente de opressão.
As acolhedoras também relataram sobre os seus processos de entendimento sobre o aborto como direito. Por elas estarem no contexto religioso entendem, por exemplo, que a maioria das mulheres não passam por uma educação sexual as tornando, muitas vezes, vítimas perfeitas de violências e abusos. Isto também auxilia no processo do vínculo já que as acolhidas falam com pessoas que conhecem a lógica religiosa sendo um processo de identificação.
Conclusões/Considerações Finais
Assim, este trabalho aponta a importância de visibilizar o trabalho daquelas(es) evangélicas(os) progressistas que lutam diariamente para aliar a fé à justiça social e reprodutiva. Estas pessoas possuem o papel de transformação e ensino no contexto religioso. Através das suas vivências, as acolhedoras se conectam com mulheres de mesma fé, as acolhem e ensinam que a religião não precisa ser lugar de opressão e violência.
DA REDUÇÃO DE DANOS À JUSTIÇA REPRODUTIVA: A CONSTRUÇÃO DE UMA PROPOSTA LEGISLATIVA FEMINISTA EM DIÁLOGO SUL-SUL
Comunicação Oral
1 Bloco A
Contextualização
Em contextos de recrudescimento de movimentos anti-direitos, a agenda de saúde sexual e reprodutiva tem sido atravessada por processos de criminalização seletiva do aborto, mortalidade materna racializada e violência sexual contra crianças e mulheres. Esses fenômenos, observados no Brasil, também se expressam em outros países do Sul Global, evidenciando dinâmicas transnacionais de retrocesso. Nesse cenário, estratégias feministas de incidência legislativa têm emergido como formas de resistência e transformação institucional.
O processo de construção foi dividido em duas etapas, a primeira de fundamentação e diagnóstico, a partir de uma análise político-histórica, incluindo ciclos de avanço e de backlash. E a segunda, de entrevistas com pesquisadoras, ativistas e profissionais de saúde, identificando barreiras, iniquidades, oportunidades e sugestões de desenho normativo. O objetivo foi validar e adensar os eixos analíticos identificados no desenvolvido na primeira fase. O mapeamento das entrevistadas incluiu médicas, enfermeiras, assistentes sociais, advogadas, pesquisadoras em saúde coletiva, lideranças de organizações feministas e de movimentos sociais. Essa composição heterogênea permitiu acessar desde a dimensão cotidiana da prática profissional até os embates jurídicos, legislativos e institucionais que incidem sobre os direitos sexuais e reprodutivos. Ao todo foram realizadas 15 entrevistas entre setembro e novembro de 2025.
Descrição
Este relato de experiência apresenta o processo de construção de uma proposta de lei para a criação de uma Política Nacional de Saúde Sexual e Reprodutiva Integral e Promoção da Justiça Reprodutiva no Brasil. Desenvolvido ao longo de 2024 e 2025, o processo adotou uma metodologia de pesquisa-ação feminista, decolonial e interseccional, envolvendo análise normativa em múltiplos níveis, entrevistas com atores estratégicos e articulação com movimentos sociais e especialistas.
Período de Realização
2024 e 2025
Objetivo
O objetivo foi formular uma proposta legislativa capaz de responder às barreiras estruturais de acesso ao cuidado em saúde sexual e reprodutiva, incorporando um modelo ampliado de redução de danos no contexto do aborto e de justiça reprodutiva. A construção da proposta articulou diferentes dimensões, incluindo a ampliação do acesso a métodos contraceptivos, a garantia do aborto legal ,inclusive por meio de telessaúde, a prevenção da violência obstétrica e o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde como coordenadora do cuidado.
Resultados
Como resultado, foi elaborada uma proposta legislativa que integra referenciais de justiça reprodutiva e saúde coletiva, alinhada a padrões internacionais de direitos humanos e informada por experiências de descriminalização na América Latina, como Argentina, Colômbia e México, além de diálogos com contextos africanos. O processo evidenciou a importância de construir soluções normativas situadas, capazes de responder às especificidades territoriais, raciais e institucionais.
Aprendizado e Análise Crítica
Entre os principais aprendizados, destaca-se que a incidência legislativa feminista, quando construída de forma participativa e interseccional, amplia a capacidade de produzir inovação institucional em contextos adversos. A análise crítica da experiência sugere que a circulação de estratégias, saberes e marcos políticos no Sul Global é fundamental para enfrentar a atuação transnacional e articulada de movimentos conservadores. Nesse sentido, a articulação entre redução de danos e justiça reprodutiva permite deslocar o foco da mera descriminalização para a transformação dos modelos de cuidado, da governança e das narrativas sobre o aborto.
Realização: