Programa - Comunicação Oral Curta - COC26.2 - Políticas Públicas, Atenção à Saúde e Interculturalidade
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
ACESSO À PROFILAXIA PRÉ-EXPOSIÇÃO (PREP) ENTRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL: INIQUIDADES ESTRUTURAIS E DESAFIOS PARA A EQUIDADE NO SUS
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz
Apresentação/Introdução
A ampliação da profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) no Sistema Único de Saúde (SUS), desde 2018, constitui um avanço relevante na prevenção combinada. Entretanto, evidências apontam que sua implementação ocorre de forma desigual entre diferentes grupos populacionais. Povos indígenas, historicamente marcados por processos de marginalização, invisibilização e desigualdades territoriais, permanecem sub-representados nas estratégias de prevenção, o que levanta questionamentos sobre a equidade no acesso às tecnologias de saúde no contexto brasileiro.
Objetivos
Analisar desigualdades no acesso à PrEP entre povos indígenas no Brasil, considerando a distribuição territorial e as iniquidades estruturais no SUS.
Metodologia
Trata-se de estudo descritivo com base em dados secundários do Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (SICLOM), no período de 2018 a 2023. As informações foram analisadas segundo raça/cor, região e unidades federativas, sendo comparadas à distribuição populacional indígena com base no Censo Demográfico de 2022. A análise foi orientada por uma perspectiva de determinantes sociais da saúde e iniquidades estruturais.
Resultados e Discussão
No período analisado, foram registradas 728.413 dispensações de PrEP no Brasil, correspondendo a 149.023 usuários. Destes, apenas 0,4% se autodeclararam indígenas, proporção significativamente inferior à participação dessa população na composição demográfica nacional (1,7%). Ainda que estados da região Norte apresentem maiores proporções relativas de usuários indígenas, como Roraima, Amapá e Amazonas, os dados evidenciam uma sub-representação persistente. Esses achados sugerem que a expansão da PrEP no SUS não tem ocorrido de forma equitativa, refletindo barreiras estruturais relacionadas ao acesso geográfico, à organização dos serviços, à inadequação cultural das estratégias de prevenção e à histórica negligência das políticas públicas voltadas aos povos indígenas. A baixa incorporação dessa população nas políticas de prevenção aponta para a necessidade de revisão das estratégias de implementação, com maior integração entre atenção básica, saúde indígena e políticas de redução de desigualdades.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados evidenciam a persistência de iniquidades estruturais no acesso à PrEP entre povos indígenas no Brasil, indicando limitações na efetivação dos princípios de universalidade e equidade do SUS. O enfrentamento dessas desigualdades requer o fortalecimento de abordagens interculturais, territorializadas e sensíveis às especificidades socioculturais, de modo a garantir que as estratégias de prevenção combinada alcancem populações historicamente excluídas.
EDUCAÇÃO PERMANENTE NO SUBSISTEMA DE ATENÇÃO A SAÚDE INDÍGENA NO BRASIL: ANÁLISE DOCUMENTAL
Comunicação Oral Curta
1 ENSP
2 UFRR
3 UNB
Apresentação/Introdução
Desde a 1ª Conferência de Proteção à Saúde do Índio, em 1986, a pauta por qualificação da força de trabalho está presente na agenda do controle social indígena. Entretanto, apesar dos 20 anos do Subsistema de Atenção a Saúde Indígena (SASI), falta a consolidação de uma estratégia de educação permanente. Diversos estudos mostram a baixa oferta de cursos e estratégias de qualificação inicial e de educação permanente, resultando em desvalorização do trabalhador da saúde indígena, alta rotatividade dos profissionais, diversos problemas na gestão e baixa qualidade da atenção e da vigilância em saúde. Dessa forma, a 6a. Conferência Nacional de Saúde Indígena, em 2022, novamente colocou em pauta a "necessidade de desenvolvimento e implementação de estratégias de educação permanente dos profissionais de saúde na atenção primária e nos serviços de média e alta complexidade, para atuarem em contexto intercultural, garantindo cuidados integrais e diferenciados".
Objetivos
Analisar as diretrizes, metodologias e temáticas da educação permanente para o Subsistema de Atenção a Saúde Indígena a partir da documentação da Secretaria de Saúde Indígena elaborada na atual gestão.
Metodologia
Foi feita a análise dos 34 Planos Distritais de Saúde Indígena (PDSI), do período de 2024 a 2027, e dos 5 relatórios de Seminários de Saúde Indígena: Um SasiSUS para o Bem Viver”, realizados entre 2024 e 2025. A equipe de pesquisadores Indígenas e não Indígenas realizaram uma análise temática.
As etapas foram: 1. Leitura das partes iniciais do documento; 2. Leitura da partes específicas de gestão da educação/ educação permanente; 3. Pesquisa dos termos “qualificação”, “educação” e “capacitação”;
(Excluído conteúdos e atividades referentes a formação de AIS e AISAN devido ao escopo do projeto INOVA)4 . Organização das informações em planilha de Excel com seguintes conteúdos: - Princípios e diretrizes - Temas executados - Temas propostos - Aspectos metodológicos/ estratégias.
A Análise dos dados foi feita da: a) Identificação dos termos referentes a tipos de atividades; b) relação dos temas nos termos do documento; c) categorização em áreas (um tema pode ter mais de uma área); d) levantamento de frequência das áreas: e) consolidação por região e nacional;
Resultados e Discussão
Observamos heterogeneidade nos conteúdos e no aprofundamento dos temas nos vários documentos. Os Seminários de Saúde Indígena apontaram os seguintes desafios: Racismo estrutural; Fragilidade de infraestrutura; Rotatividade de profissionais; Inadequação das formações; Invisibilização dos saberes indígenas. Como diretrizes definiram o combate ao racismo institucional, valorização dos saberes Indígenas, e a necessidade de formação inicial obrigatória de todos os profissionais e gestores. Os 34 PDSI tem conteúdos sintéticos sobre a “Gestão da educação”, em geral, composto por tabelas com quantitativos absolutos de atividades organizadas por ano. Muitos PDSI somente usam os indicadores da SESAI de “qualificação para atuação em contexto intercultural” e “aprimoramento do trabalho em saúde” (indicador de que não dá clareza do que foi executado ou do que será planejado). Para o período 2024-2027, os temas propostos variam entre grandes áreas, técnicas ou procedimentos ou problemas de saúde, sendo possível identificar áreas As estratégias metodológicas são diversas, envolvendo eventos, atividades formais e informais, mostrando ausência de alinhamentos. Foram identificados desafios como a recorrente falta de adesão dos profissionais, falta de acesso a internet, falta de disponibilidade de cursos específicos. Também identificamos experiências bem-sucedidas como de parcerias institucionais, de educação à distância e a participação Indígena.
Conclusões/Considerações Finais
Observamos a falta de marcos teóricos e metodológicos sobre a educação permanente, provavelmente pela inexistência de uma política pública específica da Secretaria de Saúde Indígena que oriente as ações. Ressaltamos o indicativo de necessidade de maior participação indígena nas formações (na docência) e o combate ao racismo institucional. Conclui-se que se faz necessário estrutural uma política nacional de educação permanente para o SASI-SUS, com principio e metodologias específicas.
ENTRE SABERES E SORRISOS: PRODUTOS EDUCATIVOS SOBRE SAÚDE BUCAL DE CRIANÇAS INDÍGENAS ATENDIDAS NA CASAI DE ICOARACI, EM BELÉM- PARÁ.
Comunicação Oral Curta
1 UFPA
2 SESAI
Contextualização
A elaboração de materiais educativos em saúde coletiva dos povos indígenas, são essenciais para a promoção da saúde, um povo historicamente marcado por desigualdades sociais, geográficas e linguísticas, principalmente aqueles que necessitam viajar para os centros urbanos em busca de tratamentos de saúde. Diante disso, é necessário assegurar a saúde indígena, valorizando a territorialidade, saberes, cultura, costumes, e a partir desses fatores, desenvolver recursos didáticos sensíveis que beneficiam a população tradicional brasileira, com empatia, respeito e equidade. Sobre essa perspectiva, são construídos materiais educativos e atividades interativas, por meio do programa AfirmaSus, com intuito de promover a saúde bucal de crianças indígenas, valorizando os saberes indígenas, paralelamente, trazendo informações acadêmicas de fácil compreensão para ações em saúde odontológica, na Casa de Saúde Indígena- CASAI.
Descrição
Relato de experiência de um processo de construção de materiais de ensino-aprendizagem, por meio do programa AfirmaSus, no campus Belém, vinculado a Universidade Federal do Pará, elaborando proposta de ensino, pesquisa e extensão voltada à comunidades indígenas que são atendidas na Casa de Saúde Indígena- CASAI, no bairro de Icoaraci em Belém, Pará, com enfoque a saúde bucal de crianças pertencentes a populações indígenas. Participaram seis estudantes, duas tutoras e uma preceptora.
Período de Realização
A formulação dos materiais ocorreu entre o mês de fevereiro e março de 2026.
Objetivo
Promover materiais que facilitam a compreensão lúdica sobre a correta escovação dos dentes, com o intuito de prevenir futuras doenças orais em contextos indígenas.
Resultados
Através da parceria entre a coordenação da Casai, foi possível presenciar a rotina dos pacientes, por meio de uma visita técnica, e uma ação social realizada anteriormente. Com essas experiências, foi planejado os materiais educativos sobre saúde bucal, para melhor aprendizagem e fixação das informações, recursos como: banner explicativo, cartilha personalizada para os pais e responsáveis, manual simplificado para as crianças indígenas, todos os materiais foram feitos especificamente a condições favoráveis ao cotidiano dos pacientes. Também foi levado em consideração a representatividade cultural na construção dos materiais didáticos. Ademais, foram criados kits de saúde bucal, contendo: escova, creme dental, fio dental, caderno de pintura, giz de cera, um bocão indígena e jogo da velha com temas voltados à saúde bucal para melhor didática.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência desenvolvida oportunizou a criação de materiais educativos para ações voltadas à CASAI, principalmente a questão adaptativa dos recursos de ensino. Notou-se em outros momentos que os pacientes preferem atividades interativas, ao contrário de estratégias educativas com base teórica. Ainda, cada etnia possui suas particularidades dentro do mesmo ambiente, a valorização da representatividade nos materiais educativos também foi levada em consideração. Todas essas atividades trouxeram aprendizados a respeito dos povos indígenas nesse ambiente, pois trouxe familiaridade, representatividade, acolhimento, respeito aos saberes ancestrais, valorização da cultura e ensino sobre possíveis doenças acerca da saúde odontológica indígena. Nota-se que é no desenvolvimento de produtos e processos um olhar intercultural, sensível, respeitoso e equidade com os pacientes, em especial as crianças que são atendidas na Casa de Saúde Indígena (CASAI). Diante desse cenário, desenvolver materiais que beneficiam essa população, carece de um trabalho coletivo e interprofissional, onde os povos indígenas se fazem presentes, para que haja melhorias no acesso à informações sobre saúde, de forma personalizada. Verificou-se que a construção personalizada de materiais educacionais para melhor desenvolvimento da saúde no contexto indígena na Casa de Saúde Indígena (CASAI) de Icoaraci em Belém.
GESTÃO DE LOGÍSTICA DE MATERIAIS NO DISTRITO SANITÁRIO ESPECIAL INDÍGENA ALTO RIO SOLIMÕES - DSEI ARS/ AM
Comunicação Oral Curta
1 ILMD/FIOCRUZ AMAZÔNIA
Apresentação/Introdução
A dissertação analisa a gestão de logística de materiais do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Solimões - DSEI ARS e sua distribuição, considerando o fluxo de insumos desde a sede do DSEI Alto Rio Solimões até o polo base de Filadélfia, a pesquisa orientou-se pela premissa de que a questão organizacional envolve fluxos de serviços e produtos necessários para as instituições de serviços a saúde e usuários e que seu uso racional permite que as entidades governamentais utilizarem o planejamento estratégico de desenvolvimento de curto e longo prazo.
Objetivos
Objetivo geral: Analisar a organização de trabalho de logística e distribuição de insumos no Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Solimões. Os objetivos específicos: a) Caracterizar os perfis dos profissionais que trabalham na logística de materiais do DSEI ARS e dos profissionais do Polo Base de Filadélfia; b) Descrever a organização do trabalho na gestão e distribuição de materiais do DSEI ARS e do Polo Base de Filadélfia e o percurso de transporte até seu destino.
Metodologia
Realizou-se uma pesquisa de natureza qualitativa, observacional, com aplicação de questionário semiestruturado com questões abertas e fechadas seguindo uma lógica relacional das diversas fazes da gestão logística e caracterização da atuação dos profissionais por locais e fluxos logísticos estudados.
Resultados e Discussão
Os resultados obtidos possibilitaram compreensão aprofundada das práticas, incluindo o
perfil dos participantes, condições de trabalho, infraestrutura, controle de insumo e políticas de
transporte. Foram identificados gargalos, atrasos na entrega e dificuldade no fluxo de materiais a falta de capacitação dos profissionais. Possibilitou também analise organizacional e forma estrutural de como gerir uma instituição.
Conclusões/Considerações Finais
Contudo, constatou-se que os processos logísticos são centralizados e frequentemente reativos, o que limita a eficiência operacional, embora exista articulação entre setores. A eficiência depende do planejamento, controle de estoque e distribuição adequada, sendo
necessários aprimoramentos na gestão, valorizar a capacitação dos profissionais e fortalecimento institucional para otimizar recursos e garantir a continuidade e a qualidade da atenção à saúde.
INVISIBILIDADE QUALIFICADA: ANÁLISE DA DISCREPÂNCIA DE RAÇA/COR ENTRE MÃES E NEONATOS INDÍGENAS NO SINASC DE RORAIMA
Comunicação Oral Curta
1 ILMD/FIOCRUZ
2 UEA
3 UFRR
4 UERR
5 Afya Faculdade de Ciências Médicas Itacoatiara
Apresentação/Introdução
Este estudo discute o apagamento étnico-indígena no âmbito da saúde pública, evidenciado pela invisibilização estatística em Roraima. Entre 2016 e 2025, os dados do SINASC revelam níveis críticos de distorção na variável raça/cor na transição do registro materno para o neonatal. Sendo o SINASC a ferramenta primordial para o acompanhamento do binômio mãe-filho e base fundamental para políticas de equidade, essas lacunas comprometem a precisão dos indicadores epidemiológicos para populações vulneráveis.
Objetivos
Analisar a discrepância entre o registro de raça/cor de mães e filhos em Roraima no período de 2016 a 2025 e discutir como o preenchimento "Não informado" no campo do recém-nascido inviabiliza a descrição e o conhecimento perfil epidemiológico indígena.
Metodologia
Estudo descritivo e retrospectivo com abordagem quantitativa. Os dados foram obtidos a partir da frequência de nascidos vivos segundo a variável raça/cor da mãe e do neonato, abrangendo o recorte temporal de 2016 a 2025. O TABNET foi utilizado para extrair os dados do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC), sob gestão da Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde. O estudo centrou-se em Roraima, território que abriga uma das maiores populações indígenas do Brasil e possui uma complexa rede de assistência à saúde dividida entre dois Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). A análise procedeu-se por meio da comparação estatística entre o percentual de mães autodeclaradas indígenas e o percentual de recém-nascidos registrados sob a mesma categoria. Foram calculadas as proporções de completitude e de campos “Não informados”, buscando identificar o hiato de preenchimento que caracteriza a invisibilidade epidemiológica do neonato indígena no território roraimense. Por se tratar de dados secundários de domínio público, sem identificação de sujeitos, dispensou-se a submissão ao CEP.
Resultados e Discussão
A análise comparativa dos dados do SINASC em Roraima no anos de 2016-2025 revelou uma disparidade crítica e sistemática no preenchimento do quesito raça/cor. No decênio analisado, foram registrados 120.372 nascimentos. Desse total 20.991 mães (17,4%) foram identificadas ou se autodeclararam como indígenas. Em contraste, apenas 126 recém-nascidos (0,1%) receberam a mesma classificação no momento do registro de nascimento. Os dados não revelam apenas uma falha de preenchimento, mas um fenômeno de subnotificação seletiva que desarticula a vigilância em saúde. A discrepância abismal entre o registro da raça/cor da mãe e do neonato expõe o que a literatura denomina como vazio assistencial estatístico. Embora o sistema reconheça a identidade indígena da parturiente, ocorre uma ruptura no fluxo de informação no momento do registro no recém-nascido, onde 99,9% dos dados são lançados como “Não Informados”. Os achados sugerem que o profissional de saúde, ao preencher a Declaração de Nascido Vivo (DNV), opera sob a lógica da heteroidentificação equivocada. Enquanto a mãe é identificada por sua fala, fenótipo ou prontuário, o neonato é frequentemente tratado como um “ser sem cor definida” ou “neutro”. A ausência de dados de raça/cor, especialmente entre 2018 a 2021 (onde o registro foi zero), configura uma face do racismo institucional, impactando diretamente na geração de políticas publicas e avaliação de indicadores como a taxa de mortalidade infantil indígena e cobertura vacinal, uma vez que, o óbito pode até ser registrado corretamente, mas, sem o registro do nascimento correspondente, o coeficiente de mortalidade é artificialmente inflado ou subestimado, impedindo o planejamento estratégico da políticas de saúde.
Conclusões/Considerações Finais
A análise dos dados evidencia que a invisibilidade do neonato indígena no SINASC/Roraima transcende a operacionalização técnica, configurando uma barreira estrutural à equidade em saúde. Em um território marcado por complexa rede de assistência que abrange vastas áreas de DSEIs e fluxo migratório intenso, a qualidade da informação é a única salvaguarda para a manutenção do subsistema de Atenção à Saúde Indígena. A persistência de 99,9% de registros “Não Informado” para raça/cor da criança, em contraste com a identificação clara das genitoras, revela uma omissão institucional que desarticula a vigilância epidemiológica e impede cálculo fidedigno de indicadores vitais, como a mortalidade infantil indígena. Desta forma, a retificação desse cenário exige reconhecimento da variável raça/cor não como um dado opcional, mas como um imperativo bioético e epidemiológico. É urgente a implementação de protocolos rígidos de preenchimento e capacitação contínua dos profissionais de saúde, visando superar a visão colonial de “neutralidade “do recém-nascido. Somente por meio da garantia da identidade ética desde o nascimento será possível romper com o “extermínio estatístico” das populações originárias de Roraima, assegurando a soberania de dados necessários para o planejamento de polícias públicas que respeitem as especificidades socioculturais e epidemiológicas desses povos.
O CUIDADO ALIMENTAR E NUTRICIONAL EM CONTEXTOS INDÍGENAS: PRÁTICAS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA ÀS PESSOAS COM CONDIÇÕES CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
2 DSEI/BA
3 UNEB
Apresentação/Introdução
Os povos indígenas são as populações originárias do país, formadas por diferentes coletividades que compartilham identidades culturais próprias, formas específicas de organização social e uma relação estreita com o território e a natureza, preservando saberes e práticas ancestrais (Brasil, 2007). A Bahia possui a segunda maior população indígena do país, com 229,1 mil pessoas (IBGE, 2022). Destaca-se que a saúde das populações indígenas é garantida pela Constituição Federal do Brasil de 1988 e, em 1999, tornou-se atribuição do Sistema Único de Saúde (SUS) por intermédio da Lei Arouca (nº 9.836), instituindo o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena do SUS e a criação dos Distritos Sanitários Indígenas. A Atenção Primária à Saúde (APS) é porta de entrada no SUS que visa assegurar a assistência de forma integral, inclusive o cuidado alimentar e nutricional. Em áreas indígenas, as ações e serviços da APS devem partir de uma perspectiva colaborativa que envolve reconhecer e valorizar a diversidade cultural dos povos, principalmente, a interculturalidade e as práticas de cuidado tradicionais.
Objetivos
Compreender como é tecido o cuidado alimentar e nutricional às pessoas indígenas com condições crônicas não transmissíveis a partir da perspectiva de profissionais de saúde na Atenção Primária no Polo Base de Paulo Afonso, do Distrito Sanitário Indígena da Bahia.
Metodologia
Trata-se de um estudo exploratório qualitativo, cujos dados foram produzidos a partir de entrevistas semiestruturadas com nove profissionais de saúde indígena, entre os anos de 2022 a 2023. As entrevistas foram analisadas através de análise de conteúdo exploratória, na qual emergiram nove subcategorias, distribuídas em três categorias: atenção à saúde indígena/produção do cuidado, interculturalidade e desafios para a produção do cuidado.
Resultados e Discussão
Os entrevistados relatam que o cuidado à saúde indígena é realizado de forma interdisciplinar, incluindo ações educativas e respeito às práticas tradicionais. As narrativas mencionam o aumento das condições crônicas não transmissíveis na população atendida, associadas às mudanças nos modos de vida e hábitos alimentares. No que se refere à interculturalidade, o entendimento dos profissionais é de que se deve respeitar a cultura, ter um olhar diferenciado, e que a medicina tradicional e o modelo biomédico devem caminhar juntas, de modo que se agreguem. Os desafios para a produção do cuidado incluem conflitos de territórios, a falta de infraestrutura básica, sobrecarga de trabalho, o uso excessivo de medicamentos alopáticos, o acesso a alimentos de qualidade, a substituição dos alimentos tradicionais por ultraprocessados, e a dificuldade de adesão ao tratamento dos indígenas assistidos.
Conclusões/Considerações Finais
Destaca-se a relevância do território para a segurança alimentar e nutricional, cuja perda tem favorecido o consumo de alimentos ultraprocessados. Evidencia-se a necessidade de estratégias que integrem práticas tradicionais indígenas e o modelo biomédico, diante dos desafios na produção do cuidado, que envolvem desde a formação profissional até as condições de trabalho. O estudo contribui para ampliar o conhecimento sobre o cuidado alimentar e nutricional, as CCNT em populações indígenas e suas práticas de cuidado, subsidiando futuras pesquisas.
PARA ALÉM DA DOR: PERCEPÇÕES INDÍGENAS SOBRE O PROCESSO SAÚDE-DOENÇA BUCAL NA AMAZÔNIA
Comunicação Oral Curta
1 ILMD Fiocruz Amazônia
2 UFAM
Apresentação/Introdução
A população indígena passou por mudanças significativas em seus modos de vida após o processo histórico de colonização, resultando em transformações sociais, culturais, econômicas e ambientais. Essas mudanças refletem um processo contínuo de interação e influência mútua com a expansão das sociedades não indígenas. Nesse contexto, a compreensão do processo saúde-doença bucal também passa a ser tensionada entre saberes tradicionais e modelos assistenciais biomédicos ofertados nos territórios e pelas diversas influências e disputas com populações não-indígenas.
Objetivos
Analisar as percepções da população indígena sobre o processo saúde-doença bucal e suas implicações na vida cotidiana.
Metodologia
Este trabalho analisou os dados do componente qualitativo de um estudo de métodos mistos realizado no polo-base de Filadélfia, no DSEI do Alto Rio Solimões, município de Benjamin Constant, Amazonas, na região de tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru. As localidades abrangidas pelo estudo foram as comunidades indígenas de Filadélfia, Bom Caminho e Porto Cordeirinho, que apresentam predominância da etnia Tikuna. O estudo envolveu indígenas de ambos os sexos, com idades entre 18 e 59 anos, residentes há pelo menos um ano em uma das comunidades. Para o componente qualitativo, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 21 participantes. A seleção ocorreu a cada 10 a 15 entrevistados do componente quantitativo, buscando garantir o espalhamento territorial dos informantes. Ainda com o objetivo de assegurar a heterogeneidade, para esta seleção foram identificados atores-chave em cada subgrupo, contemplando aspectos diversos de sexo, idade, função social, ocupação, renda, entre outros aspectos. As entrevistas gravadas foram transcritas e em seguida submetidas à análise de conteúdo, segundo Bardin. O trabalho foi desenvolvido por discente indígena da etnia Tikuna, egresso da primeira turma de mestrado de sanitaristas indígenas do PPGVIDA Fiocruz Amazônia.
Resultados e Discussão
Apesar do modelo assistencial curativo, centrado na doença, a população indígena demonstrou compreensão ampliada do processo saúde-doença bucal, considerando a saúde bucal de forma indissociada da saúde geral, do bem-estar e da qualidade de vida. A concepção de boca e dentes saudáveis combinou ausência de doença e dor, funcionalidade, estética, autoestima e bem-estar: “ter dentes saudáveis é sempre trazer sorrisos para nós, favorecendo essa parte da vida da gente”; “esse desconforto é muito grande, porque quando você tem dor de dente é insuportável, a gente não quer conversa com ninguém, a gente se isola, a gente não quer amizade de ninguém”; “é cuidar da vida, do próximo, também cuidar de si mesmo, e ter cuidado que as pessoas têm que ter, não somente no corpo”. A perda dentária, para além de um problema clínico, envolvia repercussões emocionais e sociais. Em um contexto de acesso limitado aos serviços de saúde, foi comum que essa condição despertasse sentimentos de falta e incômodo, afetando a autoestima e a interação social: “é para mim, ter dente saudável é você sorrir, para não ter essa vergonha de estar faltando o dente”; “eu não sei como te explicar, mas a gente fica estranho, sente estranho, não é como a gente vê antes, com dente bonito, aí a gente fica incomodado”. As práticas de cuidado relatadas demonstraram, ainda, não apenas o comprometimento individual com a saúde bucal, mas também a relevância da integração entre saberes tradicionais e orientações dos serviços de saúde, fortalecendo o cuidado preventivo e assegurando sua continuidade por meio da transmissão familiar.
Conclusões/Considerações Finais
Em um contexto permeado por barreiras financeiras, geográficas e organizacionais no acesso aos serviços de saúde, bem como por um modelo assistencial orientado pela dor dentária, evidenciando um descompasso entre as práticas dos serviços e as concepções locais de saúde, observou-se que a população indígena apresenta uma compreensão ampliada da saúde bucal, alinhada a uma perspectiva de bucalidade, na qual a boca é entendida de forma integrada ao corpo, às relações sociais e ao bem-estar, contrastando o entendimento biomédico da saúde. A saúde bucal também esteve fortemente relacionada à manutenção saudável dos elementos dentários e com aspectos da promoção da saúde e prevenção dos agravos bucais. As práticas de cuidado, ao mesmo tempo em que refletem a valorização dos saberes tradicionais, são impactadas pelas condições sociais e pela forma como os serviços de saúde bucal são ofertados. O DSEI Alto Rio Solimões compreende uma região extensa e complexa, marcada pela diversidade social e cultural, além das transformações impostas pela colonização. Nesse contexto, faz-se necessário o planejamento e a implementação de políticas públicas voltadas à promoção da saúde e para a reorientação do modelo assistencial, garantindo o cuidado em saúde bucal que integre práticas culturalmente adequadas às necessidades e especificidades dos povos indígenas.
POLÍTICA DE CUIDADO, INTERSECCIONALIDADE E COLONIALIDADE EM TERRITÓRIOS DE FRONTEIRA
Comunicação Oral Curta
1 UNILA
Apresentação/Introdução
As políticas de cuidado emergem como um campo estratégico de disputa, especialmente quando analisadas à luz das contribuições da interseccionalidade e da perspectiva decolonial. A escolha do tema decorre da necessidade de problematizar abordagens universalizantes que historicamente invisibilizam as especificidades dos povos indígenas, em particular das mulheres guarani em contextos de fronteira.
Objetivos
O objetivo deste trabalho é analisar as políticas de cuidado a partir de uma abordagem interseccional e decolonial, evidenciando como gênero, etnia, território e condição fronteiriça configuram desigualdades específicas, bem como formas de resistência e produção de cuidado entre mulheres indígenas guarani.
Metodologia
O trabalho consiste em uma análise crítica das políticas de cuidado no Brasil, articulada a um estudo qualitativo de caráter situado, baseado em observação participante e diálogos com mulheres indígenas guarani envolvidas em práticas comunitárias de cuidado. A produção dos dados se deu em interface com atividades de pesquisa e inserção territorial, permitindo compreender tanto os limites das políticas institucionais quanto às formas locais de organização do cuidado.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que as políticas institucionais de cuidado, ainda que avancem no reconhecimento do cuidado como direito, operam predominantemente sob uma lógica universalizante, desconsiderando as especificidades dos territórios de fronteira e das populações indígenas. Observa-se a persistência de barreiras de acesso aos serviços de saúde e proteção social, associadas a fatores como língua, mobilidade territorial, documentação e discriminação étnico-racial.
Por outro lado, as mulheres indígenas guarani constroem e sustentam práticas de cuidado ancoradas em redes comunitárias, na reciprocidade e na relação com o território, articulando dimensões de saúde, ambiente e espiritualidade. Tais práticas revelam a existência de sistemas próprios de cuidado, historicamente invisibilizados pelas políticas públicas, mas fundamentais para a reprodução da vida em contextos de vulnerabilidade.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa revela que, embora a recente Política Nacional de Cuidados no Brasil represente um marco ao reconhecer o cuidado como direito e incorporar, em nível discursivo, a noção de desigualdades interseccionais é limitada frente às realidades complexas como das mulheres indígenas da fronteira. A interseccionalidade é mobilizada mais como categoria descritiva do que como princípio estruturante das ações, não se traduzindo em estratégias efetivas para grupos historicamente marginalizados, como as mulheres indígenas em territórios de fronteira. Mesmo haja menções à diversidade cultural e à valorização de saberes tradicionais, tais elementos são incorporados de forma periférica, sem desestabilizar a centralidade de um modelo de cuidado ancorado na racionalidade biomédica, estatal e ocidental. Essa configuração explicita a permanência de dinâmicas de colonialidade do saber e do poder no campo do cuidado, ao subalternizar epistemologias indígenas e deslegitimar seus sistemas próprios de produção da vida e da saúde.
Finalmente, o percurso de pesquisa possibilitou reconhecer o cuidado como uma prática profundamente situada, que não pode ser reduzida a dispositivos institucionais ou normativos. Evidenciou-se que as abordagens interseccionais e decoloniais são fundamentais para compreender a complexidade dos processos de cuidado em contextos marcados por desigualdades múltiplas.
PROJETO FLORESCER: EXPERIÊNCIAS DE INDÍGENAS NA PRÁTICA DO BEM VIVER E DO CUIDADO INTEGRATIVO
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
Contextualização
O Florescer: Espaço de Cuidado Integrativo e Bem-Viver, surge da junção de demandas destes vários espaços intra universitários, especialmente do coletivo indígena, perante o contexto da persistente invisibilidade das populações indígenas no ensino superior, fator que contribui para o adoecimento físico, mental e emocional desses estudantes.
Descrição
É um projeto de extensão popular da Universidade Federal de São Carlos, vinculado ao Programa de Extensão “Movimento e Articulação de Práticas e Educação Popular em Saúde” , Programa de Educação Tutorial-Conexões Indígena Ações em Saúde, ao Grupo de Pesquisa Educação Popular em Saúde e ao Centro de Culturas Indígenas (CCI) UFSCar.
Fundamentado na Educação Popular em Saúde (EPS) e nas Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), o projeto propõe a construção de um espaço de cuidado intercultural, pautado no diálogo entre saberes científicos e tradicionais.
Palavras-chave: "Interculturalidade","Cuidado ancestral”,"Bem-viver","educação popular" e "práticas integrativas".
Período de Realização
A oferta deste espaço de cuidado integrativo surgiu em agosto de 2024 e segue até o presente momento. As práticas acontecem uma vez por semana no CCI e é composto por terapeutas indígenas, mestres de notório saber indígenas e não indígenas e terapeutas voluntários não indígenas. O acolhimento é feito por demanda espontânea e o cuidado direcionado às práticas indígenas, a prática integrativa e complementar, prática popular de saúde e educação popular em saúde individual e/ou coletiva que mais se enquadra nas necessidades relatadas. Enquanto acontece o cuidado individual, os estudantes podem utilizar o espaço do CCI para conversar, relaxar ao som das músicas de meditação, compartilhar dores, sofrimentos e estratégias de apoio e superação etc. Os estudantes indígenas extensionistas são preparados para ofertarem um espaço de escuta qualificada e de ações de promoção de saúde sob supervisão docente.
Objetivo
Possui como objetivo geral ofertar um espaço de co-criação na perspectiva do bem-viver. Como objetivos específicos: oportunizar o fortalecimento das práticas ancestrais e populares de cuidado; constituir como um espaço de formação e vivência em PICS e EPS, promovendo autoconhecimento e autocuidado para estudantes indígenas; oferecer um espaço de convivência baseado em diálogo, amorosidade, construção compartilhada do conhecimento, emancipação e construção de um projeto democrático e popular; fortalecer a pluralidade epistêmica, os diálogos interculturais e inter e transdisciplinaridade.
Resultados
As principais demandas apresentadas foram de distúrbios osteomusculares e de saúde mental entre estudantes indígenas relacionados principalmente à rotina acadêmica, as dificuldades nos estudos e ao racismo estrutural. As práticas individuais ofertadas foram a defumação com ervas medicinais do povo Wassu-Cocal, defumação com palo santo, reiki, yuki, auriculoterapia, ventosaterapia, massagem energética, reflexologia podal, aromaterapia, florais de Bach. As práticas coletivas ofertadas foram o acolhimento em rodas de conversa/educação popular em saúde para convivência e orientações de autocuidado, automassagem, meditação, yoga, pilates solo, plantas medicinais e terapia do som. A junção de práticas corporais e espirituais puderam proporcionar a integração da biomedicina, de outras racionalidades médicas e das medicinas indígenas. Oferecer e receber cuidado entre indígenas - de parente para parente - também foi destacado como um elemento inovador dentro do contexto universitário, aproximando a memória coletiva dos cuidados territoriais.
Aprendizado e Análise Crítica
O impacto positivo na saúde mental dos estudantes indígenas foram autodeclarados pelos mesmos conjuntamente com a ampliação da rede de apoio, acolhimento, vínculo, escuta, pertencimento e construção do bem viver dentro da universidade. O valor do projeto avança para a formação e promoção do cuidado integral e na criação de um espaço de saúde indígena na universidade, diante dos desafios e adoecimentos relacionados ao ambiente acadêmico. Apesar de tantos avanços, encontrou-se muitos desafios durante o projeto tais como: a dificuldade de espaço físico para a oferta dos cuidados e das atividades, dos materiais de consumo e de macas para as práticas. Os espaços utilizados, além do CCI, foram salas de aula improvisadas, exigindo adequações no espaço para começar e finalizar as atividades, exigindo mais tempos de dedicação do grupo. Além disso, algumas salas tinham que ser desocupadas para a entrada de uma outra atividade, impactando no cuidado de pessoas que ainda esperavam pelo atendimento. O sonho deste coletivo é aldear um espaço mais convidativo para essas práticas ou, quem sabe, a construção de uma maloca de cuidados. Enquanto o sonho não se realiza seguimos resistindo e existindo com práticas contra-hegemônicas e interculturais na universidade.
Realização: