Programa - Comunicação Oral Curta - COC26.1 - Territorialidades, Alimentação e Modos de Vida Indígenas
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
ANTROPOLOGIA ALIMENTAR E TRANSIÇÃO ALIMENTAR EM POVOS INDÍGENAS: RELATO DE EXPERIÊNCIA NA FORMAÇÃO EM SAÚDE NA AMAZÔNIA
Comunicação Oral Curta
1 UEA
Contextualização
A alimentação constitui um elemento estruturante das dimensões biológica, social e simbólica da vida, especialmente entre povos originários, nos quais os sistemas alimentares tradicionais estão diretamente vinculados ao território, aos modos de produção e à transmissão de saberes intergeracionais. Entretanto, nas últimas décadas, observa-se um processo de transição alimentar caracterizado pela substituição progressiva de alimentos in natura e minimamente processados por produtos industrializados e ultraprocessados, com repercussões relevantes para o perfil epidemiológico dessas populações.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência, de caráter descritivo, realizado no âmbito do ensino superior, por meio de aula expositiva-dialogada articulada a metodologias ativas de aprendizagem. A atividade contemplou discussões sobre os sistemas alimentares tradicionais, abordando onde e como os alimentos são produzidos, a perda do interesse em cultivar, criar e caçar produtos nativos, as transformações socioculturais e os impactos do consumo de alimentos ultraprocessados.
Como estratégia pedagógica, os discentes foram organizados em grupos para análise da alimentação ao longo das fases do ciclo de vida, considerando dimensões culturais, nutricionais e étnicas. Foram constituídos cinco grupos, sendo que cada um apresentou o consumo alimentar em uma fase da vida, assim distribuídas: seis meses a um ano (etnia Katukina), dois a dez anos (Tikuna), onze a dezoito anos (Baré), adultos e idosos (Sateré-Mawé). Os estudantes realizaram buscas em artigos científicos para conhecer as etnias, suas culturas alimentares, rituais, dificuldades e o manejo agroecológico dos alimentos oriundos de seus territórios.
Foi possível observar as influências negativas decorrentes da alimentação escolar, dos produtos comercializados em embarcações regionais e do pequeno comércio das comunidades vizinhas na mudança dos hábitos alimentares dos povos originários.
Período de Realização
A aula ocorreu no dia 23 de março de 2026 na Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Objetivo
O presente estudo tem como objetivo relatar a experiência de uma atividade educativa desenvolvida com acadêmicos do quinto período da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), no primeiro semestre de 2026, acerca da antropologia alimentar e da transição alimentar em povos indígenas, evidenciando sua importância, efeitos e impactos na formação e atuação em Saúde Coletiva, especialmente no contexto amazônico.
Resultados
Como resultados, evidenciou-se a ampliação da compreensão dos estudantes acerca da alimentação enquanto fenômeno cultural e determinante social da saúde, além do desenvolvimento do pensamento crítico frente aos impactos da transição alimentar, incluindo o aumento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). Observou-se, ainda, maior engajamento dos discentes, participação ativa e capacidade de articulação entre teoria e prática no campo da saúde indígena.
Aprendizado e Análise Crítica
Destacam-se, como aprendizados, a relevância da abordagem intercultural na formação em saúde, o reconhecimento dos sistemas alimentares tradicionais como estratégia de promoção da saúde e a necessidade de uma atuação profissional pautada no respeito às especificidades socioculturais. A experiência também evidencia a importância da educação em saúde como ferramenta para o fortalecimento da segurança alimentar e nutricional em contextos indígenas.
Conclui-se que a inserção da antropologia alimentar no processo formativo contribui para a construção de práticas mais críticas, sensíveis e culturalmente competentes, sendo fundamental para a qualificação da atenção à saúde indígena no contexto amazônico.
CAMPANHAS DE COMUNICAÇÃO EM SAÚDE: ESTUDO DE RECEPÇÃO COM MÃES INDÍGENAS NO MUNICÍPIO DE BENJAMIN CONSTANT, ALTO SOLIMÕES - AMAZONAS
Comunicação Oral Curta
1 Instituto Leônidas & Maria Deane - FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
Introdução: As comunidades indígenas no Brasil enfrentam desafios específicos no acesso à saúde. As campanhas de comunicação em saúde, promovidas por instituições governamentais e não governamentais, têm se mostrado uma importante ferramenta para a disseminação de informações que possam melhorar o cuidado e a qualidade de vida dessas populações. Atualmente o maior desafio para a eficácia do PNI é a hesitação vacinal, um fenômeno complexo impulsionado por fatores socioculturais e agravado pela rápida disseminação de desinformação nas redes sociais. Essa pesquisa se originou do interesse da pesquisadora, mestranda indígena da etnia Kaixana, em compreender como as mensagens das campanhas de vacinação são compreendidas pelas mães indígenas com filhos menores de 05 anos residentes em zona urbana, não demarcada, do município de Benjamin Constant, localizado no Alto Solimões, Amazonas, utilizando a metodologia de estudo de recepção, com abordagem qualitativa.
Objetivos
Objetivos: Analisar a recepção das campanhas de comunicação em saúde na comunidade de Bom Jardim, na sede municipal de Benjamin Constant, Amazonas. Especificamente, busco compreender como as mães indígenas com filhos menores de 5 anos residentes em comunidade urbana da sede municipal de Benjamin Constant percebem as campanhas de vacinação e interpretam o conteúdo delas; verificar se há uma relação entre participação em campanhas de vacinação e a adoção de medidas preventivas de doenças imunopreveníveis e identificar os canais de comunicação que propiciam maior circulação e compreensão das campanhas de saúde na população pesquisada.
Metodologia
Metodologia: Pesquisa qualitativa, transversal, tipo de estudo de recepção de material educativo, voltado à compreensão das percepções, significados e experiências relacionados às estratégias de comunicação nas campanhas nacionais de vacinação. A população de estudo foram mães indígenas que possuem filhos na faixa etária de 0 a 5 anos de idade, que recebem duplo atendimento de saúde ofertado pela Secretaria Municipal de Saúde e pelo Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Solimões. Foram entrevistadas 15 mães, selecionadas mediante sorteio, dentre as atendidas na unidade básica local.
Resultados e Discussão
Resultados e discussão: As mães entrevistadas são bastante jovens, com idade mínima de 17 e idade máxima de 30. Ressalte-se que a maternidade entre mulheres jovens é considerada normal para a população indígena local. Trata-se de geração que transita entre os saberes tradicionais, as condições de vida urbana e o uso cotidiano das tecnologias digitais. Em que pese o uso intensivo dos modernos meios de comunicação, elas consideravam como mais confiável a informação veiculada pelos profissionais de saúde, em particular os Agentes Indígenas de Saúde (AIS), que também fazem a mediação entre usuários, médicos e enfermeiros . Adicionalmente, o Whatsapp consolidou-se como uma importante ferramenta de comunicação usada pelos AIS para dar informações nos grupos da comunidade sobre as campanhas de vacinação. As visitas domiciliares dos AIS e as mensagens que eles veiculam são os principais mobilizadores das mães para participar nas campanhas de vacinação e para circular informações sobre as finalidades da vacinação na população pesquisada. Portanto, a eficácia da comunicação em saúde em Bom Jardim não está centralizada no material educativo impresso e audiovisual, mas na mediação interpessoal realizada pelos Agentes Indígenas de Saúde e profissionais de enfermagem. As falas das mães evidenciam que embora as instituições de saúde invistam em campanhas midiáticas e materiais impressos para promover a imunização infantil, mas a efetividade da comunicação não reside primariamente nesses suportes físicos, mas sim na mediação humana e nas relações de confiança construídas no território, em particular entre elas e os AIS.
Conclusões/Considerações Finais
Considerações Finais: Conclui-se que as mães indígenas não são apenas receptoras passivas das campanhas de saúde, mas sujeitos ativos que filtram as informações a partir de suas realidades e relações de confiança. Para combater a hesitação vacinal e fortalecer o Programa Nacional de Imunizações (PNI) entre as populações indígenas em contextos urbanos, as políticas públicas de saúde devem transcender a mera entrega de panfletos ou vídeos. É imprescindível valorizar a capacitação e apoio aos Agentes Indígenas de Saúde e as equipes multidisciplinares locais, pois, são eles os verdadeiros tradutores e legitimadores das mensagens de saúde, sendo capazes de promover um diálogo intercultural empático, claro e seguro, garantindo assim a proteção e a qualidade de vida das crianças indígenas na Amazônia.
CORPOS, TERRITÓRIOS E AFETOS: A SAÚDE INDÍGENA NA TESSITURA DA CIDADE
Comunicação Oral Curta
1 FURB
Apresentação/Introdução
Este relato de pesquisa tem como temática o acesso à saúde indígena em contextos urbanos, tomando como território a cidade de Blumenau, no estado de Santa Catarina. Para tanto, está sendo realizada uma pesquisa ação-participante longitudinal com sujeitos indígenas que vivem na cidade. Uma das pesquisadoras caminha junto de mulheres indígenas Xokleng/Laklãnõ que vivem na cidade de Blumenau há mais de 10 anos e escuta relatos sobre a dificuldade de acesso e reconhecimento de suas identidades como povos indígenas no contexto urbano, especialmente no âmbito da saúde. Entre as vivências acompanhadas durante o doutorado e agora no pós-doutorado, destaca-se o apagamento da ancestralidade e identidade indígenas na cidade quando as sujeitas participantes foram impedidas de acessar políticas públicas de saúde indígena nos equipamentos municipais.
Objetivos
Neste sentido, a partir dos relatos da pesquisa, o objetivo geral deste trabalho é analisar a vivência e o acesso de indígenas, que migraram para o contexto urbano de Blumenau, às políticas públicas de saúde na cidade.
Metodologia
O método se caracteriza pela pesquisa ação-participante longitudinal, sendo que as sujeitas de pesquisa são reconhecidas como pesquisadoras-participantes. O período da pesquisacaminhante é de 2016 a 2026. Os encontros com essas mulheres são feitos na cidade e já utilizaram da arte, fotografia, conversas informais, para compartilhar as narrativas e afetos vividos nesse espaço.
Resultados e Discussão
Blumenau é uma cidade localizada no Vale do Itajaí, apelidado Vale Europeu, em Santa Catarina. Este território é permeado por um discurso germânico e eurocentrado que esfacela as manifestações da identidade indígena. Diante disso, é reconhecido um paradoxo acerca do acesso à saúde indígena neste contexto urbano que vincula o território ao acesso a políticas e equipamentos de saúde como povos indígenas, ao mesmo tempo que a cidade inclui perversamente os sujeitos através do sofrimento ético-político e da vergonha como emoção colonizadora, pois provoca, como relatado pelas pesquisadoras-participantes, uma "camuflagem de branco" para os sujeitos indígenas se incluirem na cidade de Blumenau. Este paradoxo promove e mantém barreiras e fronteiras no acesso à saúde indígena e deflagra um movimento perverso nas políticas públicas de saúde da cidade: a camuflagem de branca não destaca a existência de indígenas na cidade, ao mesmo tempo que as políticas públicas de saúde partem de uma concepção de território para promover a saúde dos povos indígenas. A cidade, segundo os dados do último Censo, possui cerca de 300 pessoas indígenas, de diversas etnias e três territórios de retomada indígena no contexto urbano, que conforme relatado, não tem acesso à saúde indígena, encontrando preconceito e julgamentos no acesso, ou sofrem com o apagamento fruto do discurso dominante da cidade.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a forma como a cidade promove a vivência da inclusão perversa também sustenta uma política de não acesso à saúde dos povos indígenas e mantém a camuflagem de branca e os estigmas e preconceitos sobre esses povos através da construção de uma zona de (in)visibilidade que parte da noção da identidade estática atrelada a um único lugar. Com isso, a práxis ético-política da saúde coletiva junto e com povos indígenas que vivem no contexto urbano é uma das mediadoras e defensoras da diversidade também no contexto urbano, possibilitando a promoção de espaços potência de ação nas cidades.
DETERMINANTES DA MORBIMORTALIDADE INFANTIL EM POPULAÇÕES INDÍGENAS NO BRASIL: UMA REVISÃO NARRATIVA DA LITERATURA
Comunicação Oral Curta
1 FAMETRO
2 UEA
Apresentação/Introdução
A morbimortalidade infantil é um indicador central da eficácia do sistema de saúde. No Brasil, menores de um ano representam 16,2% dos óbitos indígenas, contra apenas 2,7% nos não indígenas (Alves et al., 2021). Sob a Teoria do Autocuidado de Dorothea Orem, constata-se que barreiras geográficas, estruturais e socioeconômicas geram demandas de saúde não atendidas, configurando severo déficit de autocuidado nas comunidades indígenas (Barreto et al., 2020). Sem a manutenção autônoma da saúde frente a essas vulnerabilidades, a intervenção do Estado é essencial através de assistência intercultural.
Objetivos
Analisar causas e determinantes sociais da morbimortalidade infantil indígena no Brasil.
Metodologia
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura conduzida nas bases de dados PubMed, SciELO e LILACS, abrangendo o recorte temporal de 2020 a 2025. A estratégia de busca utilizou rigorosamente a combinação dos booleanos: "Indígenas" AND "Morbidade" AND "Mortalidade" AND "Indicadores de morbimortalidade". Os critérios de inclusão abrangeram artigos originais (estudos transversais, de coorte, ecológicos e de caso-controle) focados na morbimortalidade de populações indígenas no Brasil, publicados nos idiomas português, inglês ou espanhol. Foram excluídas pesquisas de natureza secundária (revisões), dissertações e estudos sem aderência ao escopo. A triagem e análise de elegibilidade confirmaram a seleção final de 14 artigos originais. Os dados clínicos, nutricionais, ambientais e demográficos foram extraídos e categorizados tematicamente para fundamentar a síntese e a análise discursiva da literatura.
Resultados e Discussão
A análise integra os 14 autores selecionados, cruzando seus achados em três eixos temáticos:
Mortalidade e Iniquidades: As taxas de mortes precoces refletem um déficit assistencial severo. O Coeficiente de Mortalidade Infantil (CMI) Maxakali atinge alarmantes 66,7/1.000 nascidos vivos, com 25% dos óbitos concentrados em menores de um ano (Oda et al., 2025). Nacionalmente, as afecções perinatais lideram essas mortes (Alves et al., 2021). A vulnerabilidade inicia-se na gestação: o baixo peso ao nascer afeta 7,6% das crianças, mas sobe para 9,5% nos partos realizados nas próprias aldeias, escancarando a precarização da assistência de saúde no pré-natal (Ferreira et al., 2020). Essa grave iniquidade materno-infantil, evidenciada no Paraná (Campo et al., 2020), é agravada pela prematuridade e pela restrição de crescimento intrauterino, fatores fortemente associados à anemia crônica materna (Barreto et al., 2020).
Desafios Nutricionais: O território dita o estado nutricional, evidenciando uma dura polarização. A desnutrição crônica afeta 31,45% das crianças indígenas do país, atingindo picos críticos de 38,66% na Região Norte (Dutra et al., 2021). A etnia Baniwa exemplifica essa insegurança alimentar com 52,5% de desnutrição crônica e 68,3% de anemia na infância (Junior et al., 2024). Em franco contraste, a urbanização impõe uma agressiva transição nutricional: crianças Terena nas cidades já registram excesso de peso em 20% das meninas aos 12 meses de vida (Bresan et al., 2024). Essa dupla carga atinge as populações de forma sistêmica, com o sobrepeso chegando a expressivos 42% nos adultos Sateré-Mawé urbanos, reflexo do sedentarismo e novos padrões alimentares ocidentais (Radicchi, 2023).
Agravos Ambientais e Clínicos: A degradação ambiental ataca diretamente a saúde desses povos. A mineração expõe 45,1% das crianças Munduruku à contaminação crônica por mercúrio, causando déficits no neurodesenvolvimento (Hofer, 2025), e eleva drasticamente a incidência de malária nos garimpos do Rio Tapajós (Caldas et al., 2023). Doenças negligenciadas permanecem severas: constatam-se 89% de poliparasitismo e 26,7% de esquistossomose nos jovens Xakriabá (Marinho et al., 2021). O trato respiratório demonstra profunda fragilidade, com o predomínio de nasofaringite aguda no Amazonas (Silva et al., 2025) e internações por bronquiolite no Sul (Silva et al., 2020). Essa suscetibilidade imunológica culminou na maior letalidade hospitalar pediátrica do país por COVID-19/SRAG, atingindo 23% nos indígenas (Hillesheim et al., 2020). Por fim, a saúde bucal sofre um colapso precoce, marcado por 87,5% de cáries na dentição decídua de crianças Parakanã aos cinco anos (Ribeiro et al., 2024; Oliveira et al., 2024).
Conclusões/Considerações Finais
A morbimortalidade infantil indígena continua inaceitavelmente elevada. Para mitigar esse cenário, o Estado deve estruturar políticas intersetoriais contínuas focadas na segurança alimentar, no saneamento e no combate à exploração predatória dos territórios. É necessário investir no fortalecimento do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SASI-SUS) e na melhoria do acesso à assistência pré-natal. Além disso, as políticas habitacionais e de melhorias ambientais devem ser rigorosamente ajustadas às necessidades e aos saberes tradicionais dos povos indígenas. Garantir uma atenção primária pautada na interculturalidade é o pilar para reverter as iniquidades em saúde.
INDÍGENAS MARUBO DO VALE DO JAVARI QUE RESIDEM NO MUNICÍPIO DE ATALAIA DO NORTE/AMAZONAS: REFLEXÕES SOBRE MUDANÇAS NA ALIMENTAÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 Instituto Leônidas e Maria Deane/Fiocruz Amazônia
Apresentação/Introdução
A migração de indígenas para o contexto urbano tem sido frequente nos últimos anos e impõe novos desafios, especialmente no que tange à segurança alimentar e às mudanças nos modos de vida, sobre os quais a produção científica ainda é escassa. Diante da necessidade de compreender esse processo de transição alimentar sob uma perspectiva que respeite as especificidades étnicas, o presente estudo objetiva descrever as práticas alimentares de indígenas do povo Marubo, residentes em Atalaia do Norte/Amazonas, provenientes da aldeia São Sebastião, na Terra Indígena Vale do Javari. No Amazonas, a Terra Indígena (T.I.) Vale do Javari destaca-se por sua complexidade: homologada em 2001 e sob proteção da FUNAI, a região abriga a maior concentração de povos isolados do mundo, mas sofre com a pressão de atividades ilegais e do narcotráfico, agravando a precariedade sanitária local.
Objetivos
Caracterizar as práticas alimentares de indígenas da etnia Marubo, provenientes da Aldeia São Sebastião da T.I. do Vale do Javari, que residem atualmente no município Atalaia do Norte, Amazonas.
Metodologia
Pesquisa qualiquantitativa com enfoque etnográfico. A amostra constituiu-se de domicílios urbanos de indígenas Marubo procedentes da Aldeia São Sebastião (T.I. Vale do Javari), residentes em Atalaia do Norte/Amazonas. A técnica principal consistiu na observação participante nos domicílios durante o período integral (início e término das atividades domiciliares), registrada em diário de campo, complementada por entrevistas sobre a dinâmica alimentar. O estudo incorpora a trajetória e os saberes do pesquisador indígena como parte do universo pesquisado. A análise das mudanças recentes e da transição alimentar é balizada pelo conceito de Espaço Social Alimentar, que permite o diálogo entre condicionantes ecológicos, sistemas culinários e as subjetividades das relações sociais envolvidas. A pesquisa foi aprovada pelo CEP/FAMERP (CAAE: 90443525.0.0000.9167) e desenvolvida por mestrando da 1ª turma de mestrado de sanitaristas indígenas no país (PPGVIDA/Fiocruz Amazônia).
Resultados e Discussão
Foram identificados 10 domicílios (59 pessoas), a maioria com residência temporária em Atalaia do Norte para garantir o acesso de crianças e jovens ao ensino básico e técnico. A dinâmica alimentar urbana revelou uma divisão de gênero tradicional, com as mulheres responsáveis pela aquisição e preparo das refeições. Observou-se a coexistência de alimentos tradicionais - como banana (peruana e chifre-de-boi), macaxeira, pupunha sazonal e peixes (mapará, jaraqui, bodó e traíra) - com uma forte inserção de itens industrializados. Estes incluem arroz, açúcar, macarrão, suco artificial em pó, leite integral, pão (massa-grossa e fina), óleo vegetal, manteiga, margarina, farinha de trigo, frango, salsicha (pacote e lata), bolacha salgada, sal, café e sopa em pó. A migração impôs barreiras produtivas e logísticas: embora muitos domicílios possuam quintais, o cultivo é insuficiente para o consumo constante, e não há criação de animais. A produção agrícola própria, quando existente, localiza-se em roças distantes (estrada BR-307 e Boia). Além disso, o consumo de carne de caça tornou-se raro devido à proibição do comércio e à irregularidade das remessas vindas da aldeia. Essa transição forçou a mudança da lógica de abundância coletiva para a necessidade de "economizar" alimentos para evitar a escassez mensal, condicionada pelo custo nos mercados municipais. No campo das subjetividades, o povo Marubo preserva normas mitológicas fundamentais: o costume de homens realizarem as refeições separados de mulheres e crianças permanece rigoroso para evitar o estado de "panema" (insucesso na caça). Paralelamente, novos hábitos foram incorporados, como o uso constante de celulares para comunicação com parentes e durante o preparo das refeições, evidenciando as adaptações socioculturais no espaço urbano.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo evidencia que a migração dos Marubo para Atalaia do Norte desencadeia um complexo processo de transição alimentar, marcado pela vulnerabilidade econômica e pela mudança nos modos de vida. Embora elementos da cultura alimentar tradicional resistam - sustentados por redes de parentesco e normas mitológicas, como a distinção de gênero nas refeições para evitar a "panema" - a segurança alimentar do grupo torna-se fragilizada no contexto urbano. A ausência de espaços para roças e a impossibilidade de criação de animais convertem o ato de comer, antes pautado pela autonomia e abundância coletiva, em uma prática dependente do mercado e do poder aquisitivo. Conclui-se que a transição alimentar não se limita à substituição de alimentos naturais por industrializados, mas reflete uma reconfiguração social onde o custo de vida e as barreiras logísticas da cidade passam a ditar o que chega à mesa, desafiando a soberania alimentar e as tradições do povo Marubo.
INTERCULTURALIDADE E SAÚDE: UMA PROPOSTA PARA A INTEGRAÇÃO ENTRE O SISTEMA BIOMÉDICO E OS SABERES INDÍGENAS NO BAIXO TAPAJÓS
Comunicação Oral Curta
1 Ufopa/ProfSaude
2 Unama/Santarém
3 Ufopa/ProfSaude/Ufsc
Contextualização
No contexto amazônico, persistem desafios na efetivação de práticas de saúde culturalmente sensíveis, relacionados à ausência de estratégias de comunicação adequadas aos contextos socioculturais. Nesse cenário, a articulação entre o sistema biomédico (SB) e os saberes indígenas (SI) mostra-se fundamental para a promoção de um cuidado integral, com valorização dos saberes, empoderamento e participação dos Povos Indígenas nos processos decisórios.
Contudo, essa articulação ainda enfrenta entraves, como a resistência a determinadas intervenções sanitárias. Estudos demonstram que o contato dos povos indígenas com a biomedicina, mediado por missionários, revelou divergências entre racionalidades, sobretudo nas concepções de corpo, doença e cuidado, além de conflitos institucionais no território. Nesse contexto, a relação entre os sistemas de saúde se constituiu de forma tensa, marcada por disputas de sentido e processos de medicalização.
Em meio a isso, estratégias baseadas na interculturalidade têm se mostrado promissoras para reduzir barreiras socioculturais e fortalecer o diálogo entre serviços de saúde e comunidades indígenas, sendo reconhecidas como fundamentais para a promoção da equidade em saúde e impulsionada pelas políticas da Secretaria de Saúde Indígena por meio do fomento das Medicinas Indígenas e das Políticas de Bem-Viver.
Descrição
Este trabalho apresenta o percurso metodológico e reflexivo da construção de um Produto Técnico Tecnológico (PTT) em formato de CE e FCC voltados à integração entre SB e SI, a partir da trajetória de uma mulher indígena enfermeira, neta de pajé, benzedeira e parteira, cuja formação articula conhecimentos biomédicos e ancestrais. A CE e o FCC foram concebidos como uma tecnologia de promoção de espaços de diálogos, com base em um diagnóstico situacional que identificou demandas, desafios e potencialidades.
Destaca-se que os saberes ancestrais vêm sendo progressivamente fragilizados, sobretudo devido à sua transmissão oral, o que os torna suscetíveis à perda ao longo das gerações. Soma-se a isso a dificuldade intercultural de integração entre equipes de saúde e conhecedores e médicos tradicionais, marcadas por distanciamentos culturais e institucionais, comprometendo o vínculo e a efetividade do cuidado.
A CE e FCC foram construídas a partir de experiências na Terra Indígena Maró. O processo envolveu vivências no território e rodas de conversa, articulando conhecimentos acadêmicos e tradicionais em uma perspectiva intercultural, com linguagem acessível para favorecer sua aplicabilidade.
O material aborda o diálogo intercultural entre SI e a Atenção Primária à Saúde, destacando os modos de cuidado baseados na ancestralidade, os fluxos de atendimento de benzedeiras, puxadores, parteiras e pajés, além do papel das lideranças comunitárias e da articulação dessas práticas com o Sistema Único de Saúde.
Período de Realização
A experiência foi realizada no período de 2025 a 2026 sendo sistematizada na forma de CE e FCC.
Objetivo
Relatar a experiência de construção de um PTT, no formato de um CE e FCC voltada à integração entre o sistema biomédico e a medicina tradicional no contexto amazônico da TI Maró.
Resultados
Relatar a experiência de construção de um PTT, no formato de um CE e FCC voltada à integração entre o sistema biomédico e a medicina tradicional no contexto amazônico da TI Maró.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência demonstrou que a construção de materiais interculturais exige domínio técnico aliado à sensibilidade cultural, escuta ativa e valorização dos saberes locais. Além disso, reforça-se a interculturalidade como estratégia para promoção da equidade em saúde.
Ao considerar a saúde como um direito fundamental, ressalta-se a importância de que profissionais de saúde desenvolvam ações educativas junto às comunidades, de modo a promover a integração entre conhecimentos, atitudes e práticas tradicionais. Destaca-se, ainda, que a elaboração do PTT apresentou desafios, sobretudo pela escassez de experiências sistematizadas que articulem, de forma estruturada, os saberes tradicionais e biomédicos.
A integração entre o sistema biomédico e os saberes dos povos originários é essencial para práticas de saúde mais inclusivas e eficazes. O PTT configura-se como ferramenta estratégica para fortalecer essa integração e promover uma atenção à saúde alinhada às realidades amazônicas.
PROMOÇÃO DA SAÚDE E EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL EM CONTEXTO INDÍGENA: EXPERIÊNCIA DE CUIDADO NA CASA DE APOIO A SAÚDE INDÍGENA DE ICOARACI
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Federal do Pará
Contextualização
No campo da Saúde Coletiva, a promoção da saúde parte de uma compreensão ampliada do processo saúde-doença, reconhecendo que as condições de vida, os modos de habitar o território, os sistemas alimentares e as práticas de cuidado participam da produção social da saúde. Em contexto indígenas, as dimensões são centrais, uma vez que a alimentação se configura como expressão de identidade, territorialidade e a produção sociocultural. Nesse sentido, a Educação Alimentar e Nutricional ( EAN) em concordâncias com o Guia Alimentar para População Brasileira, que constitui estratégias relevantes para o desenvolvimento de práticas de cuidado cultural. Essas relações tornam-se ainda mais sensíveis em situações de deslocamento para centros urbanos e serviços de saúde, como ocorre nas Casas de Apoio de Saúde Indígena (CASAI), onde usuários vivenciam afastamento temporário de seus territórios, de seus circuitos alimentares habituais e, muitas vezes, de referências fundamentais de cuidado.
Descrição
Trata-se de uma experiência desenvolvida na Casa de Apoio a Saúde Indígena de Icoaraci, em Belém, Pará , espaço de acolhimento a indígenas em tratamento fora de seus territórios. A ação integrou o projeto AfirmaSUS, vinculado a Universidade Federal do Pará, com a participação de dez estudantes de diferentes áreas, configurando abordagem multiprofissional e interdisciplinar. Período de realização: Atividade foi realizada em fevereiro de 2026, durante a campanha fevereiro roxo. Objetivo: Foi promover a Educação Alimentar e Nutricional junto aos usuários indígenas, visando a prevenção de doenças, ao reconhecimento de suas relações com o território, os modos de vida e as práticas de cuidado.
Período de Realização
Atividade foi realizada em fevereiro de 2026, durante a campanha fevereiro roxo. Objetivo: Foi promover a Educação Alimentar e Nutricional junto aos usuários indígenas, visando a prevenção de doenças, ao reconhecimento de suas relações com o território, os modos de vida e as práticas de cuidado.
Objetivo
Promover a Educação Alimentar e Nutricional junto aos usuários indígenas, visando a prevenção de doenças, ao reconhecimento de suas relações com o território, os modos de vida e as práticas de cuidado.
Resultados
A metodologia foi participativa e dialógica, e mediação oral, favorecendo a compreensão e o intercâmbio de saberes. Foram apresentados materiais educativos impressos como folhetos que foram destruídos aos participantes, favorecendo tanto a compreensão como o diálogo intercultural. foram apresentados e discutidos alimentos tradicionais como açaí cupuaçu, buriti, pupunha, abacaxi, banana, cacau, tem como pescados e carne de caça , tucunaré, pacu, jaraqui, jutuarana, curimatã, veado e cutia, caititu. Observou-se o engajamento dos participantes, o fortalecimento da valorização cultural e a ampliação da compreensão sobre alimentação saudável a partir de referenciais próprios.
Aprendizado e Análise Crítica
Aprendizados: a experiência evidenciou que ações educativas em saúde, quando construídas de forma contextualizada, podem funcionar como espaço de reconhecimento dos saberes indígenas e de fortalecimento simbólico diante das rupturas produzidas pelo deslocamento para tratamento fora do território. Mais do que transmitir informações, a atividade permitiu aprender que alimentação, entre povos indígenas, articula cuidado, pertencimento, autonomia e continuidade de modos de vida. Também revelou a potência pedagógica de experiências interdisciplinares na formação em saúde, ao desafiar estudantes e profissionais a deslocarem perspectivas normativas e a reconhecerem a legitimidade de outras racionalidades de cuidado. Análise crítica: a experiência reforça que práticas de EAN em contextos indígenas não podem ser conduzidas a partir de um modelo biomédico homogêneo, centrado apenas em recomendações técnicas descoladas da realidade territorial e sociocultural dos povos. Em espaços como a CASAI, marcados pelo trânsito entre território de origem, serviço de saúde e cidade, a alimentação torna-se também expressão das tensões entre cuidado diferenciado e padronização institucional. Assim, a atividade aponta a necessidade de práticas interculturais capazes de reconhecer assimetrias históricas, valorizar sistemas alimentares e medicinas indígenas e produzir cuidado em diálogo com os modos de vida dos usuários. Destaca-se, por fim, a importância da articulação entre universidade, serviços de saúde e povos indígenas para o desenvolvimento de ações equitativas, humanizadas e comprometidas com a territorialidade como dimensão central da saúde.
SAÚDE INFANTIL INDÍGENA NO EXTREMO NORTE: DESAFIOS E PRÁTICAS TRANSCULTURAIS.
Comunicação Oral Curta
1 UFRR
2 UERR/UFPB
3 UFPB
4 UERR
5 UECE
Apresentação/Introdução
Roraima, transformado em estado pela Constituição de 1988, apresenta uma configuração territorial singular no cenário brasileiro, marcada pela expressiva presença indígena. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2022 o estado possuía 97.668 indígenas, equivalentes a 15,3% da população, distribuídos em 32 terras indígenas que ocupam 46,2% do território estadual, abrangendo povos como Macuxi, Wapichana, Taurepang e Yanomami. Essa diversidade sociocultural impõe desafios à formulação de políticas públicas, especialmente no campo da saúde, onde práticas assistenciais precisam dialogar com diferentes concepções de cuidado e adoecimento. Nesse contexto, o Hospital da Criança Santo Antônio, em Boa Vista, destaca-se como a única unidade pediátrica estadual de média e alta complexidade, atendendo pacientes dos 15 municípios, de áreas indígenas e regiões de fronteira, o que exige práticas de cuidado culturalmente sensíveis segundo a perspectiva de Madeleine Leininger.
Objetivos
Diante desse contexto, este estudo busca compreender os desafios da comunicação transcultural no cuidado pediátrico destinado a populações indígenas, destacando barreiras linguísticas na construção do vínculo terapêutico e na assistência desenvolvida no Hospital da Criança de Boa Vista.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, exploratória, fundamentada na Teoria do Cuidado Cultural, Diversidade e Universalidade de Madeleine Leininger, que compreende o cuidado como prática influenciada por valores, crenças e modos culturais de vida (Leininger, 1990; 1998). O estudo foi realizado no Hospital da Criança Santo Antônio, em Boa Vista, com profissionais de saúde com vínculo formal e experiência mínima de um ano no atendimento pediátrico indígena, excluindo estagiários, estrangeiros e indígenas. A amostra foi definida por saturação e selecionada por bola de neve, conforme Vinuto (2014). A coleta ocorreu em março de 2025 por entrevistas semiestruturadas e observação participante, conduzida por dois pesquisadores na ala indígena. Os dados foram transcritos, organizados em diário de campo e analisados por análise de conteúdo temática de Laurence Bardin (2011), com apoio do MAXQDA e checklist COREQ. O estudo foi aprovado pela Universidade Estadual de Roraima (CAAE 83299124.0.0000.5621; parecer nº 7.264.564).
Resultados e Discussão
Participaram 15 profissionais, predominando mulheres (80%), distribuídas entre medicina, enfermagem, assistência social, fisioterapia, fonoaudiologia, farmácia, psicologia, nutrição e técnicos de enfermagem. A análise lexical revelou maior frequência de termos como criança, hospital, mãe, equipe e paciente, evidenciando centralidade relacional no cuidado.
Esse trabalho originou a seguinte categoria: Desafios na Comunicação Transcultural. A barreira linguística mostrou-se o principal obstáculo assistencial, especialmente diante da pluralidade de línguas indígenas presentes no hospital, como Yanomami, Ye’kuana e Macuxi. A escassez de intérpretes institucionais leva profissionais a recorrerem a glossários improvisados, palavras-chave memorizadas e mediação informal de acompanhantes bilíngues.
Relatos indicam que a incompreensão compromete procedimentos, gera recusas terapêuticas e amplia tensões no cuidado. A observação participante confirmou que, mesmo quando há consentimento aparente, expressões faciais de dúvida e insegurança revelam fragilidade comunicativa, exigindo constante reformulação das explicações clínicas. Além da linguagem, a diversidade de nacionalidades e pertencimentos culturais amplia a complexidade do cuidado, exigindo adaptações contínuas da equipe para garantir atendimento humanizado.
Conclusões/Considerações Finais
A ausência de suporte linguístico permanente e de estratégias institucionais voltadas à mediação intercultural limita a efetividade do cuidado e fragiliza a relação entre equipe e famílias indígenas. Fortalecer políticas de formação transcultural, ampliar a presença de intérpretes e incorporar mediações culturalmente sensíveis são medidas essenciais para qualificar a assistência pediátrica em contextos multiétnicos, favorecendo práticas mais resolutivas, humanizadas e compatíveis com a diversidade sociocultural amazônica
TERRITORIALIDADE E PROTAGONISMO INDÍGENA NA RESPOSTA À COVID-19: UMA AUTOETNOGRAFIA NO ALTO RIO NEGRO.
Comunicação Oral Curta
1 ENSP/FIOCRUZ
2 FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
Este estudo analisa a resposta à pandemia de Covid-19 no Alto Rio Negro a partir de uma autoetnografia, articulando a experiência situada de uma profissional de saúde Indígena. A pesquisa evidencia que a crise sanitária aprofundou desigualdades históricas, mas também revelou capacidades organizativas e políticas dos povos indígenas, deslocando a análise de uma perspectiva centrada na vulnerabilidade para uma abordagem baseada em potencialidades e autodeterminação coletiva.
Objetivos
O objetivo é compreender como se estruturaram respostas locais diante das limitações estatais, destacando dinâmicas territoriais, institucionais e socioculturais que marcaram o enfrentamento da pandemia.
Metodologia
Metodologicamente, a autoetnografia permitiu analisar processos decisórios, práticas de cuidado e articulações institucionais a partir da inserção da autora como profissional indígena no DSEI Alto Rio Negro e no Comitê de Enfrentamento à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira. Foram mobilizados registros de memória, documentos institucionais e literatura, compondo uma análise situada e crítica. A interpretação foi organizada em duas categorias analíticas a partir dos dados discutidos na Tese de Doutorado, que permitem compreender dimensões estruturais e políticas da resposta à pandemia.
Resultados e Discussão
A primeira categoria, “Territorialidade e limites das políticas públicas”, evidencia que a geografia amazônica, estruturada pela mobilidade fluvial, pela dispersão populacional e pela diversidade sociocultural, impôs desafios significativos à implementação de medidas padronizadas, como isolamento social e vigilância epidemiológica. A ausência de protocolos adaptados às realidades locais, associada à fragilidade logística e à limitada capacidade de resposta do Estado, resultou em ações iniciais desarticuladas e insuficientes. Essa categoria demonstra a inadequação de modelos universalizantes de saúde pública quando aplicados a territórios indígenas complexos, evidenciando a necessidade de abordagens territorializadas.
A segunda categoria, “Protagonismo indígena e governança intercultural”, demonstra que organizações indígenas, especialmente a FOIRN, e lideranças locais assumiram papel central na coordenação das ações de enfrentamento. Destaca-se a construção de arranjos interinstitucionais que envolveram gestores públicos, organizações não governamentais, instituições acadêmicas e cooperação internacional. Foram implementadas estratégias como barreiras sanitárias fluviais, unidades emergenciais de atenção primária, comunicação em línguas indígenas, formação de redes comunitárias de vigilância e a valorização das medicinas indígenas. Os resultados indicam que a resposta à pandemia no Alto Rio Negro não foi conduzida prioritariamente pelo Estado, mas pela capacidade de mobilização, liderança e organização dos povos indígenas. Essa experiência revela formas de governança baseadas na autodeterminação, na participação social e na interculturalidade, que se mostraram fundamentais para mitigar os impactos da crise sanitária.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que políticas públicas em saúde indígena devem reconhecer e fortalecer essas capacidades locais, incorporando os sistemas próprios de cuidado e promovendo modelos de atenção mais equitativos e territorialmente adequados, especialmente no contexto de preparação e resposta a futuras emergências em saúde pública.
Além disso, a análise evidencia que a experiência do Alto Rio Negro dialoga com debates internacionais sobre saúde indígena e emergências sanitárias, reforçando o princípio de que respostas eficazes devem ser construídas com a participação ativa dos sujeitos envolvidos. Esse processo também revelou tensões e desafios, especialmente relacionados à dependência de parcerias externas e à ausência de respostas estruturadas por parte do Estado.
Outro aspecto relevante refere-se à centralidade das redes comunitárias de cuidado, que se estruturaram a partir de valores de solidariedade, reciprocidade e pertencimento territorial. Essas redes foram fundamentais para a disseminação de informações, o monitoramento da circulação de pessoas e a proteção de seus territórios. A comunicação comunitária, especialmente por meio de rádios e iniciativas indígenas, desempenhou papel estratégico na tradução das orientações sanitárias e na produção de conteúdos culturalmente adequados, fortalecendo a autonomia informacional das comunidades.Por fim, a experiência contribui para as ciências sociais em saúde ao demonstrar que respostas a pandemias em contextos indígenas exigem articulação entre dimensões históricas, territoriais, políticas e culturais. A autoetnografia mostrou-se potente para revelar aspectos invisibilizados e fortalecer a produção de conhecimentos comprometidos com equidade em saúde.
TERRITORIALIDADE, MOBILIDADE E SISTEMAS ALIMENTARES EM CONTEXTOS DE DESTERRITORIALIZAÇÃO: O CASO DO POVO YUKPA NA COLÔMBIA
Comunicação Oral Curta
1 Universidad Externado de Colombia
Apresentação/Introdução
Este trabalho apresenta uma pesquisa colaborativa desenvolvida com o povo indígena yukpa do resguardo Iroka (Serra de Perijá, Colômbia), situada no campo das ciências sociais e humanas em saúde, que examina as relações entre territorialidade, mobilidade e sistemas alimentares em contextos de transformações históricas marcadas pelo despojo territorial. Parte-se do entendimento de que, para os povos indígenas, o território não se limita a um espaço físico, mas constitui uma base ecológica, social e cosmológica que sustenta os modos de vida, a alimentação e as práticas de cuidado.
Objetivos
O objetivo da pesquisa é analisar como as restrições à mobilidade territorial impactam os sistemas alimentares yukpa e, ao mesmo tempo, identificar as estratégias desenvolvidas pela comunidade para sustentar a reprodução da vida em condições de insegurança alimentar e pressão territorial.
Metodologia
A investigação fundamenta-se em uma abordagem metodológica colaborativa e intercultural, articulando o trabalho acadêmico com os conhecimentos e processos organizativos do povo yukpa, e contou com financiamento e apoio da Universidade Externado de Colombia e do resguardo indígena Iroka. Nesse sentido, reconhece-se este como um povo que se move, cuja territorialidade se configura a partir de relações entre humanos e não humanos, mediadas por práticas produtivas, rituais e formas próprias de conhecimento . A mobilidade, nesse contexto, é condição fundamental para o desenvolvimento de atividades como caça, pesca, coleta e agricultura itinerante, organizadas segundo calendários agroecológicos que articulam ciclos climáticos e disponibilidade de recursos.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que os processos históricos de colonização, expansão agroindustrial e apropriação privada do território restringiram essas dinâmicas, afetando a complementaridade entre diferentes pisos ecológicos e limitando o acesso a recursos fundamentais para a alimentação. Essas transformações têm contribuído para o agravamento da insegurança alimentar e da desnutrição, evidenciando a estreita relação entre território, alimentação e saúde . Ao mesmo tempo, observa-se que o povo yukpa mobiliza estratégias diversas para enfrentar essas condições, como a reorganização das práticas produtivas, o trabalho assalariado eventual (jornaleo) em momentos críticos do ciclo anual, a consolidação de iniciativas coletivas como cooperativas, e a implementação de programas de alimentação escolar. Experiências como a “escola que caminha” revelam, ainda, formas próprias de educação articuladas à mobilidade territorial e à transmissão de conhecimentos.
Conclusões/Considerações Finais
A discussão aponta para uma reconfiguração dinâmica dos sistemas alimentares yukpa, na qual se combinam práticas tradicionais e estratégias contemporâneas em meio a relações interculturais desiguais. Nesse sentido, o caso analisado permite compreender como a desterritorialização impacta os calendários agroecológicos, as práticas alimentares e os sistemas de cuidado, ao mesmo tempo em que evidencia a capacidade de agência do povo yukpa.Conclui-se que a análise dos sistemas alimentares em contextos indígenas requer reconhecer a centralidade do território e da mobilidade na produção do bem-estar, bem como valorizar as estratégias locais que garantem a continuidade da vida em cenários de desigualdade e pressão territorial.
EL KIMKIRRICU COMO PRÁCTICA ANCESTRAL DE RESISTENCIA Y CUIDADO DE LA SALUD: PUEBLO CURRIPACO, AMAZONÍA NORORIENTAL COLOMBIANA
Comunicação Oral Curta
1 Universidad de Antioquia
Apresentação/Introdução
Más allá de su función agrícola, el kimkirricu en lengua curripaca, conocida como conuco o chagra en otros contextos, representa una forma de relación respetuosa y recíproca con la tierra, el tiempo y el curso de la vida. Por medio de este, se transmiten saberes intergeneracionales, se fortalecen los vínculos comunitarios y se encarna una cosmovisión donde el cuidado del territorio es también cuidado del cuerpo, del alimento y del espíritu. Esta investigación destaca cómo esta práctica se sostiene como una forma de resistencia cultural frente a los modelos extractivistas y monoculturales, y propone comprender el kimkirricu como un espacio vivo de saberes, afectos y espiritualidad que le ha permitido mantenerse en la historia al pueblo Curripaco.
Objetivos
Develar el proceso del kimkirricu (conuco o chagra) como práctica de resistencia para el cuidado de la salud del pueblo Curripaco en la amazonia nororiental colombiana.
Metodologia
Se adoptó la espiral como metáfora de la investigación y como metodología viva, que se desenrolla y enrolla dentro de los pueblos originarios para transitar colectivamente su conocimiento desde la praxis para la conservación de sus saberes y el fortalecimiento de su identidad. Involucró tres momentos: desenrollar la espiral; observar colectivo-documentar y compartir-enrrollar la espiral. Estos momentos fueron transitados en el marco de la inmersión sensorial como posibilidad de experimentar desde todos los sentidos las prácticas cotidianas que desarrolla la comunidad en el marco del kimkirricu (Siembra, recolección y transformación del alimento)
Resultados e Discussão
Los resultados de esta investigación corresponden al análisis interpretativo de las prácticas cotidianas del pueblo Curripaco y del diálogo de saberes que se tejió en el marco del trabajo de campo del doctorado, de donde emerge la categoría del kimkirricu y tres subcategorías a saber: las relaciones espirituales, las relaciones sociales y la soberanía alimentaria. Estas categorías permiten acercarse a la comprensión del cuidado de la salud desde el Kimkirricu como un proceso relacional situado en el territorio.
En ese sentido, el Kimkirricu se manifiesta como una forma de cuidado de la salud por medio del alimento, el cual les ha permitido sostenerse en el tiempo, dándoles identidad, reconocimiento y energía para desarrollar sus labores diarias dentro de los territorios que habitan. Esta forma de cuidado se ha promovido milenariamente mediante saberes acerca de las semillas, las plantas, los comportamientos del clima los cuales han sido transmitidos generacionalmente de manera oral, lo que les ha permitido establecer un calendario ecológico que les orienta sobre los momentos convenientes en los que se deben llevar a cabo los diferentes procesos del kimkirricu, ya sea el tumbe y quema o el sembrado y recolección.
Los cuidados de la salud del Pueblo Curripaco, implican una comprensión que sobrepasa el modelo biomédico, porque entre otros asuntos, han logrado integrar diferentes elementos que no se reducen a lo meramente curativo, sino que han trascendido a la significación y resignificación de prácticas que involucran relacionamientos con diferentes seres vivos y que redundan en su bienestar físico y espiritual. Prácticas milenarias como el kimkirricu (conuco o chagra) se establecen como una forma de cuidado de la salud, resignificando una parcela de tierra dispuesta para la siembra y recolección de alimentos, a un entramado de relacionamiento socio-espiritual que da lugar a una forma de cuidado, de resistencia y re-existencia a la colonización del ser y el saber en su salud (Maldonado, 2007).
Conclusões/Considerações Finais
Conclusión: El Kinkirricu es un espacio de resistencia anticolonial y al mismo tiempo de cuidado de la salud en el pueblo Curripaco. Está relacionado con las prácticas no biomédicas, las prácticas no especializadas, las que no están definidas por expertos occidentales amparados en la cientificidad definida por la modernidad, sino que ha sido tejido milenariamente de manera propia para mantener, mejorar, y recuperar condiciones de vida materiales y existenciales, trascendiendo de una lectura biologicista, univoca y dogmática, hacia una construcción sociocultural cercana y en estrecho vínculo con la realidad local y las tradiciones ancestrales.
Consideración final: Comprender que social y culturalmente los pueblos originarios tienen formas diferentes a las convencionales de cuidar la salud, permiten resignificar el cuidado de la salud gracias a los saberes “otros” que se sitúan como una construcción social válida, permitiendo visibilizar esas formas otras desde un lugar de enunciación epistémico legítimo e intercultural.
Realização: