Programa - Comunicação Oral - CO26.1 - Alimentação, Nutrição e Práticas de Cuidado em Contextos Indígenas
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
DA MENSTRUAÇÃO A SOBERANIA ALIMENTAR: UM BREVE PANORAMA
Comunicação Oral
1 UFMG
Apresentação/Introdução
As menstruações em suas diversas formas, são inteiramente permeadas pela cultura, cosmologia, dinâmicas e ritos sociais e grupais. Segundo Ana Manoela Soares (2023), para o seu povo Karipuna, a chegada da menstruação para mulheres indígenas ultrapassa a noção ocidental, pois em suas cosmologias, o sangue atravessa mundos e seres visíveis e não visíveis, entendendo que, o corpo no período da menstruação está em processo de vulnerabilidade, por isso, tanto a pessoa quanto a comunidade precisam seguir uma série de cuidados e rituais de resguardos e dietas alimentares. Tais alimentos, têm o poder de garantir o fortalecimento e saúde das mulheres, assim como, outros podem ser nesses períodos, perigosos ao corpo das mulheres. Nesse contexto, verifica-se também o aumento da insegurança alimentar que povos indígenas têm enfrentado (Rede PESSAN, 2022), resultante das explorações de mineração e garimpo ilegal, desmatamento e contaminações por conta das exportações ao mercado estrangeiro. Tais práticas fazem parte de um projeto necropolítico, que tem interditado as dinâmicas e práticas indígenas (Bárbara Macedo, 2021; Paulo Basta, 2023).
Objetivos
Neste estudo, objetivamos analisar a partir de uma revisão de literatura, como a soberania alimentar atravessa as práticas e ritos da menstruação das mulheres indígenas, onde o alimento é parte significativa na promoção de saúde.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, que visa aprofundar nas especificidades existentes nas relações sociais que permeiam as narrativas e as identidades, contribuindo de maneira significativa para compreensão dos fenômenos sociais (Minayo, 2012). Referindo-se a uma pesquisa de doutorado em processo de desenvolvimento, este trabalho utilizou a revisão de literatura como uma ferramenta metodológica sistemática e criteriosa sobre os estudos e ampliações acerca do tema aqui discutido (Camilo e Garrido, 2019). Com isso, verificamos que o uso desse instrumento metodológico, apresentou-se como facilitador na identificação, compreensão e avaliação acerca das relações entre ritos menstruais e práticas alimentares, e como as diversas formas de vivenciar o ciclo menstrual é tensionado nas escritas das intelectuais indígenas e aliadas dos povos indígenas.
Resultados e Discussão
Nesse levantamento bibliográfico, utilizamos 10 bases de dados, são elas: Lilacs, Scielo, PubMed, Portal Capes, Ebsco, Pespsic, BDTD, NDLTD, Scopus e Google Acadêmico. Com os seguintes descritores: "pessoas indígenas" OR "mulheres indígenas" OR "cultura indígena" AND "menstruação" OR "menarca" e também em inglês “indigenous people’ and “menstruation”. Diante as buscas realizadas, foram encontrados 82 trabalhos nos idiomas português, espanhol e inglês, em formato de artigos, dissertações e teses. Deste modo, os principais eixos encontros foram: formação corporal; noção de gênero; dignidade menstrual; menstruação e justiça reprodutiva; ritos menstruais; segurança e insegurança alimentar. Por conseguinte, optamos neste resumo apresentar um breve panorama acerca das discussões sobre os ritos menstruais e soberania alimentar, visando complexificar como a insegurança alimentar tem impactado cotidianamente os povos indígenas, ao compreender que a menstruação é um momento extremamente relevante para a formação corporal, e qualquer interferência poderá acarretar situações complexas para toda a comunidade. Segundo as literaturas encontradas, a menarca é um momento muito importante nas comunidades originárias, sendo repleto de mudanças para as meninas e suas famílias, pois o ciclo menstrual é acompanhado por uma cosmovisão, cuidado e alimentação a serem seguidas, é neste período também que o corpo-território aprenderá novos hábitos de fortalecimento de saúde e bem viver (Evelyn Nery Waíhana, 2020). Outrossim, a forma como a menina irá sinalizar ou não aos seus pais sobre a primeira menstruação, como a comunidade está preparada para esta etapa e quais dinâmicas mudam com a primeira menstruação, são centrais para como o corpo é compreendido por cada mulher (Silvio Bará e Rosiane Tukano, 2023). E é nesse movimento de preparação, que a alimentação mostra-se como parte fundamental, tanto ao resguardo do ciclo menstrual, quanto às celebrações organizadas pela própria comunidade.
Conclusões/Considerações Finais
O caminho da roça onde mulheres indígenas produzem conhecimento, colhem e semeiam saberes, são espaços que guardam tecnologias e manejos que irão auxiliá-las em todos os momentos de suas vidas, inclusive durante os seus ciclos menstruais. Soberania alimentar não diz somente sobre a presença dos alimentos, pois, eles precisam estar bons para alimentar o corpo, a espiritualidade e dar força nos rituais e práticas cotidianas (Inara Satere-Mawé, 2019). Tal segurança através dos alimentos corrobora para a existência e transmissão entre as gerações, a comida para os povos indígenas extrapola a noção biomédica, ela faz parte da formação corporal e do fortalecimento sobre saúde e bem viver para todos da comunidade, especialmente as mulheres indígenas e seus territórios.
EVOLUÇÃO TEMPORAL DO ESTADO NUTRICIONAL DE CRIANÇAS INDÍGENAS DO ALTO RIO SOLIMÕES: REFLEXÕES A PARTIR DO SISVAN INDÍGENA
Comunicação Oral
1 Instituto Leônidas e Maria Deane (Fundação Oswaldo Cruz)
2 Universidade Federal do Espírito Santo
Apresentação/Introdução
A região do Alto Rio Solimões, no Amazonas, constitui um dos cenários mais complexos da saúde indígena no Brasil, exigindo uma vigilância alimentar e nutricional sensível às suas particularidades territoriais. Localizada em uma zona de tríplice fronteira internacional, o território sob jurisdição do Distrito Especial Sanitário Indígena do Alto Rio Solimões (DSEI-ARS) abriga uma vasta diversidade étnica. Esta região de fronteira enfrenta desafios logísticos e socioambientais singulares, onde as distâncias geográficas e os ciclos hidrológicos impõem barreiras históricas ao acesso a serviços e à garantia da segurança alimentar e nutricional. Nas últimas décadas, os povos indígenas amazônicos têm vivenciado uma acelerada transição nutricional, fenômeno marcado pela coexistência entre a persistência da desnutrição crônica e a emergência do excesso de peso. Tal cenário reflete transformações nos sistemas alimentares tradicionais, visto que a pressão sobre os territórios e a porosidade das fronteiras induzem a substituição de dietas baseadas na sociobiodiversidade local pelos ultraprocessados. Neste contexto, o monitoramento do estado nutricional de crianças é um indicador sensível da vulnerabilidade social. Analisar a evolução temporal de indicadores antropométricos no DSEI-ARS é essencial para avaliar políticas públicas e fortalecer a soberania alimentar e as práticas de cuidado em contextos indígenas.
Objetivos
Analisar a tendência temporal do estado nutricional em crianças menores de cinco anos atendidas no DSEI-ARS, Amazonas, entre 2015 e 2024, propondo uma reflexão sobre a transição alimentar e nutricional.
Metodologia
Trata-se de um estudo ecológico, de abordagem descritiva e análise de tendência temporal (2015-2024). A unidade de análise foi o DSEI-ARS, região que assiste cerca de 70.000 indígenas de sete etnias. Foram utilizados dados secundários desidentificados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional Indígena (SISVAN-I), disponibilizados pelo Ministério da Saúde via plataforma Fala.Br/CGU. A população compreendeu o universo de crianças menores de cinco anos registradas e acompanhadas pelas equipes multidisciplinares de saúde indígena. Foram analisados os indicadores antropométricos estatura-para-idade e Índice de Massa Corporal-para-idade utilizando-se os padrões de referência da OMS. Excluíram-se os registros com medidas antropométricas biologicamente implausíveis (escore-z <-5 ou >+5), conforme recomendações da OMS. A análise estatística consistiu na estimativa de prevalências anuais, estratificadas por sexo e polo base (Belém do Solimões, Betânia, Campo Alegre, Feijoal, Filadélfia, Nova Itália, São Paulo de Olivença, Tonantins, Umariaçú I, Umariaçú II, Vendaval, Vila Bitencourt). A tendência temporal dos indicadores antropométricos foi analisada por regressão de Prais-Winsten no Stata 17.0. A pesquisa foi aprovada pelo CEP/FMB (CAAE: 90443425.8.0000.9167) e desenvolvida por mestranda da 1ª turma de mestrado de sanitaristas indígenas no país (PPGVIDA/Fiocruz Amazônia).
Resultados e Discussão
No DSEI-ARS, entre 2015 e 2024, observou-se redução da prevalência de muito baixa estatura (de 12,2% para 9,1%) com tendência decrescente estatisticamente significativa, enquanto a estatura adequada aumentou (de 59,8% para 65,6%). Em relação ao IMC/idade, a eutrofia apresentou aumento (de 67,7% para 72,3%), acompanhada pela redução do risco de sobrepeso (20,5% para 17,9%) e da magreza acentuada (1,4% para 1,0%). As prevalências de magreza, sobrepeso e obesidade permaneceram estáveis. A melhora dos indicadores foi observada em ambos os sexos, com redução dos déficits nutricionais e aumento da eutrofia, sendo mais evidente entre meninas. Apesar do avanço geral, a análise por polos-base revelou desigualdades territoriais. Enquanto Campo Alegre e Feijoal acompanharam o declínio dos déficits, o polo Umariaçu I apresentou um incremento na muito baixa estatura. No polo Tonantins, observou-se um avanço da obesidade. A tendência de redução da desnutrição crônica e o fortalecimento da eutrofia no DSEI-ARS sugerem avanços na vigilância, mas a estabilidade do excesso de peso e o avanço da obesidade em polos específicos, sinalizam uma transição nutricional complexa e não linear. Os resultados sugerem que as dinâmicas de fronteira impõem desafios à segurança alimentar e que o impacto das políticas de saúde é desigual, condicionado pelas particularidades do território e seus determinantes sociais. Mesmo com limitações de acesso e desafios quanto à qualidade dos dados, o SISVAN-I é a principal fonte de dados para o enfrentamento de iniquidades nutricionais no território.
Conclusões/Considerações Finais
Observou-se uma tendência de melhora global no estado nutricional infantil no DSEI-ARS, com recuo da desnutrição crônica. Contudo, a persistência de déficits estaturais e o avanço da obesidade em polos específicos reforçam a urgência de intervenções focalizadas e intersetoriais que considerem as territorialidades amazônicas.
ENTRE FLECHAS E MALHADEIRAS: CÍRCULOS DE CULTURA ALIMENTAR NO SUBSISTEMA DE ATENÇÃO À SAÚDE INDÍGENA
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ Amazônia
Apresentação/Introdução
O povo pescado, povo Maguta (Tikuna)
Este relato de pesquisa vem da relação de uma profissional de saúde com os encontros vividos no cotidiano do trabalho em saúde no território indígena Vendaval, povo Tikuna, no Alto Rios Solimões (ARS). Pesquisa in mundo, que embaça os modos coloniais de leitura das realidades indígenas. O presente resumo aborda as metodologias utilizadas na pesquisa de mestrado intitulada “Entre flechas e malhadeiras: produção de práticas de cuidado e conhecimentos em alimentação e nutrição na saúde indígena”, a partir do Programa de Mestrado Profissional em Saúde da Família (PROFSAÚDE).
O povo Tikuna tem em sua história narrativa a descendência do povo Magüta, povo este pescado por Yo’i nas cabeceiras do igarapé Eware, o qual desemboca na margem esquerda do Rio Solimões. (Faulhaber, 2019). Na origem do mundo Tikuna, as frutas regionais exercem papel de potencial de vida. Embora o roçado seja fortemente presente na comunidade de Vendaval, a presença intensiva de produtos alimentícios ultraprocessados e a insegurança hídrica, expõe a comunidade a riscos à saúde. É nesta complexidade de mundos que emerge a necessidade de abordagens de educação em saúde para se pensar e agir coletivamente em como transformar a realidade.
As oficinas de fortalecimento da alimentação tradicional já fazem parte do escopo de trabalho das Equipe Multiprofissionais de Saúde Indígena (EMSI) no Distrito Sanitário Especial Indígena no Alto Rio Solimões (DSEI ARS), optei por chamar de círculos de cultura devido à metodologia temática do círculo de cultura de Paulo Freire que apliquei nesses espaços.
Objetivos
O objetivo deste manuscrito é narrar os caminhos percorridos para a construção de um espaço coletivo de compartilhamento de alimentos indígena, feira livre, na comunidade Tikuna Vendaval.
Metodologia
Círculos de Cultura Alimentar
O Círculo de Cultura é desenvolvido em três momentos: a) a investigação do universo vocabular; b) a tematização; c) a problematização, que, por meio da reflexão com o conjunto dos atores, possibilita a visão crítica, partindo para a transformação do contexto vivido. (Monteiro, 2010). A metodologia foi adaptada para o contexto da população Tikuna através da utilização de desenhos e tradução do Agente Indígena de Saúde (AIS). E por se tratar da pauta de alimentação indígena, denominou-se os encontros do Círculo de Cultura Alimentar. Em todos os círculos, a roda de conversa foi conduzida através de perguntas disparadoras sobre como se dá a cultura alimentar Tikuna, quais os principais desafios que a população encontra para manter viva sua cultura alimentar e como fortalecer a alimentação Tikuna no território de Vendaval. Foram realizados três Círculos de Cultura Alimentar em três microáreas na comunidade indígena Vendaval
O presente estudo está inserido no Projeto “Práticas tradicionais Indígenas de Saúde. Vigilância comunitária e produção do bem viver no território do DSEI ARS, Amazonas”, que foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa – CEP por se tratar de pesquisa envolvendo seres humanos, com parecer aprovado pela Fundação de Medicina Tropical CAAE: 68575923.0.0000.0005. E ao Conselho Nacional de Ética em Pesquisa– CONEP com parecer aprovado com CAAE nº 68575923.0.0000.0005. Portanto, sem restrições e em conformidade com a resolução nas Resoluções Nº. 466, de 12 de dezembro de 2012, Nº. 510 de 7 de abril de 2016; e Nº 304 de 09 de agosto de 2000.
Resultados e Discussão
A proposta da feira livre foi apresentada na assembleia geral da comunidade, como principal proposta de ação derivada dos círculos de cultura alimentar realizados. As principais pautas na assembléia foram: a) possíveis parcerias com a prefeitura para a aquisição de estrutura física para que a feira funcione; b) Morosidade nos processos municipais; c) Início a feira, independente do apoio da prefeitura. As lideranças, Galdino junto com sua esposa e cacica da comunidade, Dona Rosalina, solicitaram um abaixo assinado que foi entregue para o prefeito de São Paulo de Olivença/AM.
A feira foi inaugurada dia 28 de novembro de 2025, programada coletivamente para acontecer de segunda à sábado no período das 15h às 18h. A continuação e implantação da estrutura física dependerá da organização popular da comunidade.
A feira, como dispositivo de processos de subjetivação, é a principal aposta de Produto Técnico Tecnológico (PTT) resultado da pesquisa de mestrado, em construção contínua e autônoma, com campos de possibilidades em aberto.
Conclusões/Considerações Finais
Flechas e malhadeiras lançadas
Os Círculos de Cultura Alimentar promoveu a melhor interação entre comunidade e EMSI, o compartilhamento dos modos de cuidado através da alimentação que enriquecem a caixa de ferramentas dos trabalhadores em saúde, favorecendo um agir culturalmente sensível. A reflexão sobre os principais problemas que impactam na cultura alimentar no território e construção coletivas para intervir nesta realidade.
MEDICINA TRADICIONAL MARUBO
Comunicação Oral
1 1. Mestrando no curso de Condições de Vida e Situações na Amazônia – PPGVIDA, Turma Sanitarista Indígena. Instituto de Pesquisa Leônidas e Maria Deane – ILMD, Fundação Oswaldo Cruz.
2 Professora da Universidade Federal do Amazonas –UFAM
3 Professora do Mestrado PPGVIDA e pesquisadora da Fiocruz Amazonia
Apresentação/Introdução
Sou membro do povo Marubo, falante da língua materna e, na condição de pesquisador indígena investiguei itinerários terapêuticos de famílias Marubo vivendo em contexto urbano. Pesquisei conhecimentos tradicionais Marubo sobre doença e curas realizadas pelos terapeutas indígenas chamados de kẽchĩtxo em nossa língua. Itinerário terapêutico é um conceito amplo que envolve várias estratégias de cuidados à saúde, no qual as pessoas lançam mão de recursos da biomedicina, cuidados domésticos, saberes indígenas e outros recursos, para recuperar a saúde e o bem-estar.
Objetivos
Para esta comunicação selecionamos um dos casos pesquisados, buscando demonstrar alguns dos conhecimentos e práticas tradicionais utilizadas pelas famílias indígenas Marubo e suas interações com cuidados médicos oficiais.
Metodologia
pesquisa qualitativa de base etnográfica, apoiada em observação participante e coleta de entrevistas não estruturadas com docentes e famílias e de narrativas míticas Marubo. Os sujeitos da pesquisa foram doentes indígenas e seus parentes, além de terapeutas Marubo, conhecidos como kẽchĩtxo, que exercem suas práticas através de cânticos terapêuticos. Os dados foram coletados em língua Marubo, e posteriormente traduzidos para o português.
Resultados e Discussão
mulher de 40 anos pertencente do clã shawavo (arara), foi diagnosticada com dengue pelos profissionais da saúde. Mesmo depois de ter feito o tratamento completo para dengue, continuou a se queixar de dor de cabeça, com a intensidade que progredia a cada dia. Não suportando mais o sofrimento o esposo a levou para comunidade, para fazer pajelança com kẽchĩtxo. Ali foi realizada a recitação de cânticos tradicionais de cura, que integram a pajelança. É imprescindível que o ritual se realize à noite e que ocorra numa maloca tradicional. Este rito também conta com uso de substâncias como oni (ayahuasca) e rome (rapé) utilizadas exclusivamente pelo kẽchĩtxo. Segundo os conhecimentos dos kẽchĩtxo, quando ela ficou doente os familiares não tiveram resguardo nem fizeram restrições alimentares, imprescindíveis à recuperação da saúde. Durante a doença, os familiares da paciente comeram macaco, e, na tradição Marubo os macacos, barrigudo, aranha ou guariba não são animais apropriados para se se alimentar quando alguém da família tiver doente, por serem espíritos agressivos que atacam a saúde das pessoas, podendo até causar morte. Ou seja, só devem comer carne de macaco as pessoas que tenham o gozo da saúde plena. No caso relatado verificou-se o entrelaçamento entre diferentes sistemas de cura, que geram itinerários terapêuticos que interligam cuidados biomédicos e o sistema de cura e cuidados da cultura Marubo, sem que este perca a proeminência. Na tradição Marubo, a restauração da saúde requer restrições alimentares, proteção da saúde do corpo por meio dos cânticos de cura, uso da resina cheirosa e outros recursos extraídos da natureza. As restrições alimentares costumam envolver os familiares do doente, devido as relações de consanguinidade que geram comunidades de substância nas linhagens de parentes. Verificou-se no caso estudado que a realização dos ritos apropriados, a identificação da origem da dor de cabeça como elemento integrante das relações de predação, ao lado do seguimento da dieta recomendada, foram procedimentos eficazes para suprimir o sintoma que levou a família a buscar o kẽchĩtxo. Cabe mencionar que o sistema de tratamento de saúde do povo Marubo é desconhecido pela população não indígena. Por isso é muito importante que seja discutido no campo da saúde coletiva, pois pode contribuir para melhorar o cuidado intercultural no subsistema de saúde indígena.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo realizado proporcionou uma compreensão de como os Marubo utilizam conhecimentos indígenas para resolver suas questões de saúde. E que, independentemente de onde vivam (na aldeia ou na cidade) os Marubo preservam suas tradições. A cultura, especialmente no que diz respeito aos cuidados de saúde, permanece muito forte entre nós mantendo-se vivo o conhecimento dos processos e práticas curas indígenas, mesmo diante da oferta de atendimento ofertado pelo DSEI.
PROMOÇÃO DO BEM VIVER: ESTRATÉGIAS DE PROTEÇÃO NA MEDICINA INDÍGENA NO POLO BASE FILADÉLFIA, ALTO SOLIMÕES, AMAZONAS
Comunicação Oral
1 ILMD/Fiocruz Amazônia
Apresentação/Introdução
Este trabalho apresenta um estudo que buscou compreender como se manifesta a promoção do Bem Viver e as estratégias de proteção do povo Tikuna no Polo Base de Filadélfia, localizado na região do Alto Solimões, Amazonas, entendidas como práticas da medicina indígena. Nesse sentido, a pesquisa aborda o processo de reconhecimento das práticas e dos conhecimentos da medicina indígena. Além disso, nesse contexto, a proteção se apresenta como parte de uma lógica ampla de promoção da saúde indígena, ampliando as noções convencionais de prevenção e cuidado. Ademais, os povos indígenas possuem uma concepção integral da vida, que pode ser compreendida pelo conceito de Bem Viver, no qual as dimensões naturais e não naturais se entrelaçam, sem compartimentalização, e em perspectiva de complementariedade.
Objetivos
Dessa forma, o objetivo geral consiste em compreender a promoção do Bem Viver e as estratégias de proteção do povo Tikuna no Polo Base de Filadélfia como uma prática da medicina indígena.
Para isso os objetivos específicos foram: mapear as práticas de proteção do povo Tikuna nas comunidades de Bom Caminho e Porto Cordeirinho; analisar essas práticas como estratégias de promoção da saúde e do Bem Viver; e sistematizar os conhecimentos e saberes em torno do sistema de proteção como expressão da medicina indígena.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, na qual a produção dos dados utilizou, como estratégia metodológica, roteiros de entrevistas semiestruturadas, permitindo a narrativa em língua Tikuna. Ademais, o processo metodológico incluiu a "técnica rede de cooperação" para identificar os especialistas da medicina indígena como pajés, rezadores e parteiras. Além disso, foram realizadas rodas de conversas e entrevistas individuais, conduzidas integralmente na língua tikuna, respeitando-se o contexto cultural e linguístico das comunidades.
Resultados e Discussão
Como resultado, com base nos achados e nas reflexões teóricas desenvolvidas ao longo da pesquisa, foram produzidos um artigo científico e um capítulo de livro como produtos desta dissertação. Cada item traz dimensões complementares da temática investigada, tendo um corpo de análise sobre o Bem Viver e as práticas de proteção na saúde indígena. O artigo 1, intitulado “O Bem Viver entre os Tikuna: sentidos de saúde e proteção na medicina indígena no Alto Solimões” apresenta uma análise conceitual e experiencial do Bem Viver a partir das vozes dos participantes da pesquisa.
O capítulo de livro, intitulado “Guardiões do Bem Viver: saberes e estratégias de proteção do povo Tikuna no Alto Solimões”, sistematiza as práticas de proteção mapeadas durante a pesquisa, com ênfase nos trabalhos dos pajés (yuucügü), rezadores (yumaẽgüruũ) e parteiras (iraacüẽẽgüruũ) das comunidades de Bom Caminho e Porto Cordeirinho.
Conclusões/Considerações Finais
Por fim, concluímos que o Bem Viver se efetiva por meio de estratégias coletivas e espirituais sustentadas por saberes ancestrais, que reafirmam a autonomia e a resistência cultural do povo Tikuna diante dos desafios contemporâneos em saúde indígena. As reflexões produzidas ao longo desta investigação apontam para a necessidade de valorização e reconhecimento institucional das práticas dos guardiões do Bem Viver. Pajés, parteiras e rezadores são agentes fundamentais na sustentação da saúde comunitária, e suas atuações deveriam ser consideradas de forma integrada pelas políticas públicas, especialmente pela Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI). Observamos que, embora existam diretrizes que preveem a articulação entre saberes, na prática essa integração ainda é frágil, muitas vezes marcada por hierarquizações, burocracias e limitações estruturais que dificultam o fortalecimento do cuidado tradicional.
SOBERANIA ALIMENTAR E SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL A PARTIR DAS MULHERES INDÍGENAS: CORPO, TERRITÓRIO E ESPÍRITO
Comunicação Oral
1 UFRR
Apresentação/Introdução
Esse trabalho oriundo da tese de doutorado WANHIKYNYI, YA’RE’: TEM COMIDA! A PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO SOBRE SOBERANIA ALIMENTAR E SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL (SSAN) DESDE A PERSPECTIVA DOS POVOS INDÍGENAS analisa a produção de conhecimento sobre soberania alimentar e segurança alimentar e nutricional (SSAN) a partir da perspectiva dos povos indígenas, com centralidade no papel das mulheres indígenas como sujeitas políticas e epistemológicas, responsáveis pelos sistemas alimentares e pela transmissão de saberes ancestrais. Ao afirmar o lócus de enunciação indígena feminino, a pesquisa problematiza os limites das abordagens hegemônicas da SSAN, propondo uma leitura que compreende a alimentação como dimensão indissociável do corpo, do território e do espírito.
Objetivos
Analisar a produção de conhecimento sobre soberania alimentar e segurança alimentar e nutricional (SSAN) a partir da perspectiva dos povos indígenas, com ênfase no protagonismo das mulheres indígenas e na articulação entre corpo, território e espírito.
Metodologia
A pesquisa adota abordagem qualitativa, articulando revisão bibliográfica crítica, com ênfase em produções de autoria indígena e estudos sobre SSAN e povos indígenas no período de 2000 a 2020, e trabalho empírico. Utiliza o conceito de território-corpo-espírito como lente epistemológica para análise. O campo empírico incluiu a análise do contexto da pandemia de Covid-19 e investigação junto a famílias indígenas vinculadas à Associação Cultural Indígena do Estado de Roraima (KAPÓI), com foco em experiências de povos indígenas em contexto urbano.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que as mulheres indígenas ocupam posição central na garantia da soberania alimentar, especialmente em contextos de crise, como a pandemia, por meio de estratégias autônomas de cuidado, produção, circulação e partilha de alimentos. Observa-se que essas práticas articulam dimensões materiais e simbólicas, reafirmando vínculos comunitários e modos próprios de viver. A análise demonstra que a insegurança alimentar vivenciada por povos indígenas em contexto urbano não pode ser reduzida à dimensão nutricional, constituindo-se como expressão de processos históricos de expropriação territorial, colonialidade do saber e fragilização de políticas públicas.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a perspectiva indígena amplia e ressignifica o conceito de SSAN ao integrar dimensões territoriais, espirituais e culturais da alimentação. A tese afirma a soberania alimentar como direito integral e coletivo, destacando o protagonismo das mulheres indígenas na sustentação da vida e na produção de conhecimentos. Apresenta, assim, contribuições teórico-políticas para os campos da segurança alimentar, da saúde coletiva e da formulação de políticas públicas voltadas aos povos indígenas, inclusive em contextos urbanos.
Realização: