Programa - Comunicação Oral - CO18.2 - Racionalidades médicas, praticas integrativas e complementares, interculturalidade e territórios
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
A BIODANÇA NO SUS: PRODUÇÃO REGISTRADA NO SIA-SUS E CONTRIBUIÇÕES PARA A PROMOÇÃO DA SAÚDE
Comunicação Oral
1 UFRJ
Apresentação/Introdução
A Constituição Federal de 1988 instituiu o SUS, consolidando a saúde como direito universal e ampliando seu conceito para além do modelo biomédico. Dessa forma, a saúde passou a incluir também o acesso a práticas terapêuticas, preventivas e complementares, que visam promover a qualidade de vida e o equilíbrio entre corpo e mente. Em 2006, é promulgada a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares. Essa política tem como base as PICS, que valorizam diferentes formas de cuidado voltadas à promoção do equilíbrio entre corpo e mente.
Entre as práticas oferecidas, destaca-se a Biodança, utilizada como estratégia de promoção da saúde, com foco na integração entre corpo-mente e na sociabilidade.
Objetivos
Analisar a oferta da Biodança no contexto da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no município do Rio de Janeiro.
Metodologia
Estudo descritivo, de abordagem quanti-qualitativa, com análise de dados secundários do SIA/SUS (2019-2024) e revisão integrativa da literatura.
Resultados e Discussão
Em 2019-2024, foram aprovados 6.442 procedimentos de Biodança no SUS, com concentração em 2023 (81%). A Área Programática 5.3 concentrou (2.843; 44%) e a AP 4.0, (1.989; 31%). Destaca-se que grande parte dessa prática, foi realizada em locais específicos. Em 2023, a CF João Batista Chagas (AP 5.3) realizou (2.694; 52%), e a CF Rio das Pedras (AP 4.0), (1.340; 26%), ambas sem manutenção no ano seguinte. Percebe-se a desigualdade regional e social dessa prática. A oferta da Biodança no município do Rio de Janeiro ocorre em poucas regiões e, geralmente, dentro de clínicas da família específicas. Isso evidencia que nem todas as pessoas têm acesso aos seus direitos institucionais e à possibilidade de participar dessa prática como uma forma de tratamento terapêutico e humanizado.
A partir da análise desses dados, percebe-se que o acesso aos serviços de saúde ainda é desigual. Diante disso, surge um importante questionamento: quais corpos e populações estão, de fato, sendo contemplados por esses direitos, e por que outros ainda permanecem excluídos? O SUS, que deveria funcionar como um sistema democrático e igualitário, acaba refletindo as desigualdades existentes na sociedade. Essa desigualdade de acesso compromete o princípio de universalização do SUS e demonstra como fatores sociais, econômicos e geográficos influenciam diretamente na qualidade da assistência à saúde.
Conclusões/Considerações Finais
A Biodança, inserida na PNPIC, representa um importante avanço no campo da saúde pública, ao propor uma abordagem que valoriza o ser humano de forma integral. Sua criação nasce da proposta de humanizar a medicina e de promover a evolução da vida, buscando novas formas de cuidado e alternativas terapêuticas. No entanto, observou-se que a oferta dessa prática no município do Rio de Janeiro ainda é restrita a algumas regiões e clínicas da família específicas, o que demonstra que o direito ao acesso universal ainda não é plenamente efetivado.
As práticas integrativas, como a Biodança, ainda se concentram em áreas específicas, especialmente na Zona Oeste e na Zona Sudoeste. Embora a oferta varie ao longo dos anos, essas regiões seguem sendo as mais contempladas. Em contrapartida, a Zona Norte, o Centro da cidade e a Zona Sul/Grande Tijuca têm menos oportunidades de acesso a essa prática, o que evidencia uma desigualdade de acesso. Essa distribuição desigual limita a participação de usuários dessas localidades e exclui populações. Dessa forma, fica evidente que nem todos conseguem usufruir plenamente de seus direitos constitucionais.
ETNOGRAFIA DE GRUPO TERAPÊUTICO COM YOGA NIDRĀ: SAÚDE MENTAL E BEM VIVER
Comunicação Oral
1 UFSCar
Apresentação/Introdução
As demandas da vida moderna, marcadas pelas exigências sociais cotidianas, impactam significativamente o bem-estar físico e mental, manifestando-se frequentemente através de ansiedade, tristeza, isolamento social, insegurança emocional e insônia. Abordar a saúde mental a partir do referencial do Bem Viver, em uma perspectiva decolonial, amplia o cuidado em saúde a partir de cosmologias ancestrais e inclui as dimensões da espiritualidade, da vida comunitária e da relação existencial interdependente da natureza. No Brasil, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares inseriu o Yoga no SUS, um saber ancestral indiano, reconhecendo-o como uma tecnologia para o desenvolvimento integral do ser. Entre as técnicas do yoga, destaca-se o Yoga Nidrā, um método de relaxamento profundo e meditação amplamente reconhecido para a promoção da saúde mental e o cuidado de si. Estudos demostram os benefícios do Yoga Nidrā na redução do estresse e da ansiedade, desenvolvimento de habilidades cognitivas, melhora da qualidade do sono, diminuição de dores físicas, fortalecimento da capacidade de enfrentamento de adversidades e aumento do sentimento de pertencimento.
Objetivos
Investigar os benefícios subjetivos percebidos da prática de Yoga Nidrā entre participantes de um grupo terapêutico em um serviço ambulatorial de saúde pública vinculado à uma universidade federal; explorar de que maneira essa prática pode constituir uma tecnologia eficaz para o Bem Viver, a saúde mental e o cuidado de si.
Metodologia
Pesquisa qualitativa com abordagem etnográfica, com imersão no campo e observação participante. A pesquisa ocorreu em uma unidade ambulatorial de média complexidade, vinculada ao Sistema Único de Saúde da Universidade Federal de São Carlos, envolvendo um grupo terapêutico de relaxamento profundo. Foram realizadas quatro jornadas do grupo com 15 vagas cada, sendo cada uma durante sete semanas consecutivas, entre agosto e dezembro de 2024, com uma hora e meia de duração de cada encontro. Os instrumentos de produção de dados incluíram o diário de campo, cadastro individual, questionários de qualidade de vida e do sono e avaliação final com perguntas abertas. A prática de Yoga Nidrā seguiu um roteiro estruturado em oito etapas, incluindo consciência corporal, complementada pelo uso olfativo de óleos essenciais. Todas as etapas éticas foram observadas.
Resultados e Discussão
Ao longo do percurso, 38 pessoas participaram dos encontros de forma assídua, houve 6 desistências. Para fins de análise desta pesquisa, como critérios de inclusão foram considerados os dados dos participantes que frequentaram no mínimo 4 encontros e que preencheram os questionários iniciais e finais, totalizando 28 participantes para análise de dados. Todos eram maiores de 18 anos, sendo 25 do sexo feminino e 3 do sexo masculino. As demandas iniciais dos participantes concentravam-se em ansiedade, insônia, tensão física e dores no corpo. A ambiência do grupo, caracterizada pela organização do espaço e uso de aromas, foi fundamental para a construção do vínculo terapêutico e acolhimento. Ao longo dos encontros, observou-se uma transição da inquietação inicial para um estado de maior entrega e introspecção, com participantes relatando experiências de relaxamento muito profundo. Os processos individuais revelaram trajetórias singulares: participantes que sofriam com sobrecarga familiar e afetos negativos passaram a priorizar pausas na rotina e a utilizar as técnicas aprendidas, como a respiração consciente e a consciência corporal, em seus contextos familiares. Os resultados indicaram melhoria na qualidade do sono, maior equilíbrio emocional e redução da ansiedade. Alguns participantes relataram a interrupção ou redução de medicamentos para dormir. A análise evidenciou que a prática favoreceu a autopercepção e a escuta interior, permitindo que as pessoas respeitassem seu próprio ritmo diante das adversidades. Tais achados convergem com a literatura que aponta o Yoga Nidrā como ferramenta de transformação gradual de hábitos e percepção de si. O referencial do Bem Viver foi reafirmado pelo aumento da percepção da interdependência de existência e pelo incentivo a relações éticas e de cuidado aplicadas ao contexto singular vivido no cotidiano por cada um dos participantes. Relações de ajuda nasceram no grupo, evidenciando o potencial do espaço de encontro para criação de redes de apoio.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência etnográfica demonstrou que o Yoga Nidrā é estratégia acessível e potente para o cuidado em saúde mental, promovendo o conhecimento das emoções e do cuidado de si. A prática em grupo fortaleceu o sentimento de pertencimento e a capacidade de enfrentamento das demandas cotidianas. Ressalta-se a importância de políticas públicas que garantam a perenidade e o acesso a essas práticas integrativas.
NARRATIVAS MIDIÁTICAS SOBRE POMADAS CAPILARES E DANOS OCULARES NO BRASIL: ANÁLISE LEXICOMÉTRICA DE NOTÍCIAS JORNALÍSTICAS E COMUNICADOS
Comunicação Oral
1 Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos
2 Universidade de Brasília
Apresentação/Introdução
Pomadas capilares usadas para trançar ou modelar cabelos ganharam grande visibilidade no Brasil após a associação com dor ocular, queimaduras de córnea e perda visual transitória, além de sucessivas suspensões, recolhimentos e listagens de produtos autorizados ou irregulares. Essas narrativas articulam produto, forma de uso, dano e resposta estatal, influenciando a percepção pública sobre a segurança de cosméticos cotidianos. Eventos adversos por cosméticos não são incomuns, mas a notificação é irregular; em inquérito brasileiro, 38% dos participantes relataram reações adversas nos dois anos anteriores. Isso dificulta estimar a magnitude do problema e reforça a importância da cosmetovigilância. Na saúde coletiva, o tema é relevante por envolver exposição frequente, ampla circulação comercial e potencial demanda por urgência, enquanto a mídia tanto pode estimular proteção quanto fragmentar a compreensão do risco ao privilegiar listas e episódios agudos. Ferramentas lexicométricas permitem examinar grandes volumes de texto e identificar padrões temáticos e redes de sentido em coberturas jornalísticas.
Objetivos
Analisar como notícias jornalísticas e comunicados oficiais sobre pomadas capilares associadas a danos oculares estruturam as relações entre exposição, dano e resposta regulatória. Também busca identificar os principais temas do corpus, descrever sua organização lexical e discutir implicações para a comunicação de risco e a cosmetovigilância.
Metodologia
Estudo documental, qualitativo, com apoio de estatística lexical, relatado segundo os Standards for Reporting Qualitative Research. Incluíram-se textos jornalísticos e comunicados oficiais, em português e de acesso gratuito, que abordassem pomadas capilares destinadas a trançar ou modelar cabelos e mencionassem riscos, eventos adversos oculares, orientações em saúde ou medidas regulatórias. Excluíram-se matérias tangenciais, conteúdos comerciais e duplicações sem alteração substantiva. As notícias foram identificadas no Google Notícias Brasil, com a expressão “pomada capilar”, em 30/09/2025. Após leitura integral, registraram-se identificador, título, veículo, data, link, tipo de veículo e abrangência geográfica. O corpus reuniu título, subtítulo e corpo das matérias, com retirada de elementos não textuais, padronização ortográfica, conversão para minúsculas e unificação de termos, incluindo “Anvisa” e “pomada_capilar”. O processamento foi realizado no IRaMuTeQ (Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires), com estatísticas descritivas, classificação hierárquica descendente, análise fatorial de correspondência e análise de similitude. A interpretação combinou leitura das palavras com maior associação estatística, exame de segmentos textuais representativos e discussão reflexiva entre os autores. Por utilizar documentos públicos e sem dados identificáveis, o estudo dispensou consentimento e submissão ética.
Resultados e Discussão
A coleta inicial identificou 100 notícias; 62 foram incluídas, publicadas entre 22/03/2022 e 15/05/2025, e 38 excluídas. Houve concentração em 2023 (n=42), seguida de 2025 (n=11), 2024 (n=7) e 2022 (n=2). Predominaram portais nacionais (n=42), comunicados oficiais (n=8) e veículos regionais/locais (n=12); 50 textos tinham abrangência nacional e 12, regional/local. O corpus final apresentou 57.594 ocorrências, 3.935 formas distintas e 1.100 formas únicas. A classificação hierárquica descendente evidenciou quatro classes: (1) proibição comercial e descrição de produtos; (2) regularização da comercialização e cadeia produtiva; (3) eventos adversos oculares e atendimento em saúde; e (4) ação regulatória e vigilância sanitária. Na análise fatorial correspondente, observou-se oposição entre textos mais administrativos e mais narrativos, além do contraste entre conteúdos negativos, ligados a risco, dano e proibição, e conteúdos resolutivos, voltados à regularização. Na análise de similitude, “olho” foi o principal nó da classe clínica, ligado a “córnea”, “visão”, “lesão”, “lavar”, “soro” e “emergência”, compondo a sequência exposição-sintoma-conduta-atendimento. Na classe regulatória, “Anvisa” articulou “produto”, “sanitário”, “proibir”, “cancelar”, “notificar”, “fabricante”, “lote” e “irregularidade”, configurando a cadeia risco-intervenção-comunicação-acompanhamento. Os achados indicam enquadramento midiático predominantemente reativo, no qual dano ocular e resposta estatal organizam o sentido público do evento.
Conclusões/Considerações Finais
As narrativas analisadas conectam circulação do produto, dano ocular e resposta institucional, reforçando a centralidade do Estado na gestão do risco. A cobertura privilegia episódios agudos e medidas de proibição ou autorização, mais do que orientações de uso seguro. Os achados podem fortalecer a comunicação, a cosmetovigilância e ações educativas para consumidores, trancistas e cabeleireiros.
PRÁTICAS GRUPAIS E DECISÃO COMPARTILHADA EM SAÚDE: POSSIBILIDADES E DESAFIOS PARA A INTEGRALIDADE DO CUIDADO NA APS
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ
2 UNIVERSIDADE DE LAVAL
Apresentação/Introdução
Mulheres e meninas, especialmente no Sul Global, vivenciam desigualdades sociais estruturais que atravessam gênero, classe e território, refletindo-se de forma significativa no acesso, na qualidade do cuidado e nas experiências nos serviços de saúde. No âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), essas desigualdades impõem desafios adicionais ao cuidado integral. A decisão compartilhada em saúde emerge como uma estratégia potente de translação do conhecimento, por articular evidências científicas aos valores, saberes e vivências das usuárias, contribuindo para a redução de iniquidades e para o fortalecimento da autonomia. Este trabalho é um recorte do Projeto de Pesquisa Gerânio, parceria entre a Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz) e a Université Laval, financiado pelo Fundo Novas Fronteiras em Pesquisa.
Objetivos
Identificar os recursos e as estratégias utilizados por usuárias de um serviço de Atenção Primária à Saúde no município do Rio de Janeiro para lidarem com questões de saúde no território.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter participativo, realizado a partir de entrevistas individuais semiestruturadas e presenciais com mulheres usuárias da APS, com idade igual ou superior a 18 anos. A investigação buscou compreender, a partir das narrativas das participantes, como seus saberes e práticas produzem saúde no território e de que forma se entrecruzam com o saber biomédico, especialmente nos processos decisórios relacionados ao cuidado. O estudo reconhece a baixa disponibilidade de informações sobre quais decisões em saúde são percebidas como mais difíceis por mulheres usuárias da APS no Brasil, bem como a necessidade de mapear práticas já existentes que possam sustentar a decisão compartilhada no SUS. O presente trabalho faz um recorte da Pesquisa Gerânio e tem como objetivo identificar os recursos e as estratégias utilizados por usuárias de um serviço de Atenção Primária à Saúde no município do Rio de Janeiro para lidarem com questões de saúde no território.
Resultados e Discussão
Observou-se uma relação direta entre as práticas de cuidado adotadas pelas usuárias e as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), com destaque para a valorização dos grupos de promoção da saúde ofertados na unidade, como grupo de atenção à saúde do idoso, grupo de controle da ansiedade, meditação, auriculoterapia e Terapia Comunitária Integrativa. Os relatos reforçam a importância das atividades grupais, rodas de conversa e oficinas como espaços de escuta, acolhimento e compartilhamento de experiências, além das redes que são criadas a partir delas, fortalecendo os laços dentro da comunidade, o que extrapola a ação do serviço de saúde. Percebe-se, então, que tais estratégias grupais são potencializadoras de decisão compartilhada em saúde, através do diálogo entre saberes populares, biomédicos e referências à ancestralidade, favorecendo a participação ativa das usuárias como produtoras de conhecimento e de cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
A decisão compartilhada em saúde por romper com a lógica unilateral e de soberania técnico-médica, amplia a integralidade do cuidado ao valorizar as vivências e os saberes das usuárias. Essa perspectiva tensiona relações tradicionais de saber e poder ainda presentes no SUS e aponta para a necessidade de transformações institucionais. Ressalta-se a urgência de pesquisas interdisciplinares que fortaleçam e disseminem a decisão compartilhada em saúde no Sul Global, considerando os desafios e as potencialidades dos contextos locais.
FISSURAS NA FORMAÇÃO E NAS PRÁTICAS EM SAÚDE ORIENTADAS PELO MODELO BIOMÉDICO: DESAFIOS NO APRENDIZADO DO TAI CHI CHUAN
Comunicação Oral
1 ESP-MG
2 IFMG-Sabará
Apresentação/Introdução
Ao longo dos anos, é possível identificar iniciativas, programas e políticas dos Ministérios da Saúde e da Educação para promover mudanças na formação e nas práticas dos profissionais de saúde, tradicionalmente centradas no modelo biomédico. No âmbito da Educação Física, por exemplo, a aposta em mudanças no currículo, a incorporação do profissional nas equipes multiprofissionais da Atenção Primária à Saúde, a criação do Programa Academia da Saúde e os dispositivos de fomento das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) no Sistema Único de Saúde (SUS) têm provocado deslocamentos importantes. Entretanto, estudos demonstram que o enfoque biomédico segue presente em projetos político-pedagógicos de cursos de graduação em Educação Física de universidades públicas e que as PICS, em geral, aparecem em disciplinas optativas, de caráter tecnicista e com pouco diálogo com as necessidades do SUS.
Essas questões demonstram o desafio encontrado no contexto de uma formação de instrutores de Tai Chi Chuan (TCC), realizada pela Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG), em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde e o Instituto Federal de Minas Gerais – Sabará. Entre 2023 e 2025, foram ofertadas 12 turmas da formação, contemplando 316 profissionais, majoritariamente educadores físicos de polos da Academia da Saúde, provenientes de 173 municípios de Minas Gerais.
Com a intenção de analisar como se deu o processo de aprendizado do TCC, uma prática corporal fundamentada na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), foi realizada uma pesquisa com participantes da formação.
Objetivos
Analisar a percepção de profissionais que atuam em polos da Academia da Saúde de Minas Gerais sobre a experiência de aprendizado do TCC em uma formação de instrutores ofertada no contexto do SUS.
Metodologia
Estudo exploratório, de natureza qualitativa, realizado com profissionais em fase de finalização da formação de instrutores. Neste resumo, destacam-se os resultados de grupo focal realizado em julho de 2024, na ESP-MG, com 13 alunos de uma turma. No grupo, abordaram-se questões sobre a experiência de aprendizado do TCC, buscando explorar as diferenças em relação às formações prévias, às práticas corporais já praticadas e ofertadas no SUS e à própria percepção corporal. O grupo focal foi gravado, transcrito e submetido à análise de conteúdo, segundo Bardin. Pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa – CAAE 74078723.8.0000.0293.
Resultados e Discussão
Os participantes do grupo focal foram predominantemente mulheres, entre 25 e 49 anos e graduadas em Educação Física. Os resultados evidenciaram que a maioria das profissionais não tinha experiência com práticas corporais da MTC, o que gerou estranhamentos e novas percepções durante as aulas práticas de TCC, as quais exigiam movimentos suaves, coordenados com a respiração: “esses movimentos aqui, ah, eu não vou conseguir fazer não”; “a maioria tem um perfil mais agitado, dá aula mais movimentada, só que trabalhar de forma lenta, percebendo movimento e respiração nos equilibra, nos faz mais calmos e presentes”. Os benefícios da prática corporal para os próprios profissionais também apareceram em outras falas que evidenciaram o confronto entre a proposta do TCC, orientada pelos conceitos da MTC, e o modelo biomédico que orienta a formação e prepara para uma atuação mais vinculada a padrões motores e à vigília de postura e movimentos considerados corretos do ponto de vista biomecânico: “acho que a principal diferença são os conceitos, porque a gente vem de profissão que o que importa é anatomia, músculo, contração, origem aproximando da inserção. E o Tai Chi vem de outros conceitos, de uma maneira muito diferente do que a gente vive”; “pra mim fica marcada a questão da quebra de padrão motor, que a gente já vem da musculação e uma quebra de comportamento. Hoje paro mais pra pensar, respirar, pra pelo menos tentar estar mais presente aonde estou”. Em outra fala, fica ainda mais explícito como a formação promoveu uma fissura com o paradigma biomédico: “essa prática de forma geral, práticas integrativas, é quebra de paradigma. A gente tem um sistema convencional, racionalista, biomédico, duro (...) a gente vê que é lutar contra um sistema rígido, mas que é possível. O curso deu esse embasamento”.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa demonstrou a importância da prática do TCC para a transformação dos modos de ser e de atuar de profissionais da Academia da Saúde. Denota-se, por um lado, que o aprendizado de uma prática corporal fundamentada em outra racionalidade médica, como a MTC, é capaz de promover fissuras em práticas que, orientadas pelo modelo biomédico, focam em padrões motores. Por outro lado, reitera-se a necessidade de mudanças na formação em saúde, tanto na graduação, com a inclusão mais consistente de iniciativas curriculares que rompam com padrões biomédicos e que fomentem a apropriação de outras racionalidades médicas, quanto na ampliação dos contextos formativos, como extensões universitárias e ofertas para profissionais do SUS.
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