Programa - Comunicação Oral Curta - COC10.3 - Enfoques contemporâneos sobre Emergências Climáticas e Racismo Ambiental em territórios Tradicionais
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
MOVIMENTOS DE MULHERES NEGRAS NO ENFRENTAMENTO ÀS ENCHENTES NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL E INSEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL
Comunicação Oral Curta
1 UFRGS / RedeSSAN/ PROFSAUDE
2 UFRGS / RedeSSAN
3 RedeSSAN
Contextualização
As enchentes ocorridas no estado do Rio Grande do Sul em 2024 evidenciaram a intensificação das emergências climáticas e seus impactos desiguais sobre populações negras, quilombolas e periféricas. Esses eventos se articulam aos determinantes sociais e ambientais da saúde, revelando a centralidade do racismo ambiental e racismo institucional na produção e agravamento das iniquidades em saúde. Este relato de experiência apresenta a atuação de uma organização de mulheres negras frente aos impactos das enchentes, com ênfase nas dimensões da alimentação, território e saúde.
Descrição
A Rede de Mulheres Negras para Soberania e Segurança Alimentar (RedeSSAN) é uma organização da sociedade civil que atua na promoção do direito humano à alimentação adequada, na valorização dos saberes tradicionais e no fortalecimento de estratégias de soberania alimentar da população negra.. Frente às enchentes no estado, a RedeSSAN liderou uma ação intersetorial que envolveu universidade, serviços públicos e extensão rural, articulando-se com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por meio do curso de graduação em Saúde Coletiva, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família (PROFSAÚDE), Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER) e Secretaria Estadual de Saúde (SES).
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida no período de maio a setembro de 2024, em municípios atingidos pelas enchentes e em situação de calamidade pública no Estado do Rio Grande do Sul.
Objetivo
Esta ação teve como objetivo identificar, mapear e apoiar as necessidades de comunidades negras e quilombolas atingidas, considerando a intersecção entre racismo ambiental, insegurança alimentar e agravamento de condições de saúde. A metodologia baseou-se em levantamento participativo junto a lideranças comunitárias, priorizando territórios quilombolas.
Resultados
Foram contatadas doze comunidades, com retorno de nove lideranças, das quais cinco relataram impactos severos. A partir desse processo, quatro comunidades foram priorizadas, totalizando cerca de 150 famílias nos municípios de Arroio do Meio, São Lourenço do Sul e Pelotas. As ações envolveram apoio emergencial e estratégias de reestruturação produtiva, com aquisição de insumos para hortas, criação de animais, sementes e mudas, fortalecendo a produção de alimentos, a geração de renda e a autonomia alimentar nos territórios.
Aprendizado e Análise Crítica
Os aprendizados evidenciam o protagonismo das organizações de mulheres negras como atores centrais na resposta às crises, atuando na organização de doações, acolhimento, cuidado em saúde e articulação com políticas públicas. Destaca-se que tais iniciativas foram fundamentais para dar visibilidade aos impactos desproporcionais das enchentes sobre populações negras e quilombolas, frequentemente invisibilizadas nas respostas institucionais. Os desastres climáticos não são eventos neutros, mas expressam desigualdades estruturais historicamente produzidas. O racismo ambiental opera na distribuição desigual de riscos e na limitada capacidade de resposta do Estado em territórios racializados, intensificando vulnerabilidades e agravos à saúde. Por fim, o enfrentamento das emergências climáticas no campo da saúde coletiva exige a incorporação da justiça climática e racial como eixo estruturante das políticas públicas, reconhecendo o papel dos movimentos sociais e fortalecendo estratégias territoriais de soberania alimentar, proteção social e equidade em saúde.
MULHERES QUILOMBOLAS DE BRUMADINHO E A TESSITURA DA LUTA: (R)EXISTÊNCIA, ANTES E APÓS O CRIME DA VALE
Comunicação Oral Curta
1 UFMG
Apresentação/Introdução
O rompimento da barragem de rejeitos da Vale (2019), em Brumadinho, ilustra um padrão de negligência em Minas Gerais, já evidenciado no crime da Samarco, em Mariana (2015). Crimes socioambientais como estes têm impactos expressivos, de curto, médio e longo prazo. Ressalta-se a importância de estudar esses impactos sobre os povos e comunidades tradicionais afetados, entre eles os quilombolas, que têm formas próprias de viver e interagir com o território. É essencial também fazer os recortes de raça, gênero e classe social, visto que o sistema capitalista hegemônico é racista, patriarcal, machista e excludente. Este estudo foi desenvolvido junto ao Programa de Pós-Graduação de Promoção de Saúde e Prevenção da Violência (Mestrado Profissional em Saúde Coletiva), da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), entre os anos 2022 a 2025.
Objetivos
Objetivo geral: Compreender como questões sociais, atividades e acontecimentos relevantes, tais quais o racismo, o patriarcado, a mineração, o rompimento da barragem de rejeitos do Córrego do Feijão e a pandemia de covid-19, foram experienciados e afetaram o modo de vida nos quilombos, na perspectiva das mulheres moradoras. Objetivos específicos: registrar o modo de vida das comunidades, através dos relatos e representações sobre problemas, conflitos, necessidades, tradições, saúde, território e bens naturais, seres e lugares sagrados; identificar o impacto do crime da Vale na vida e no território; identificar a perspectiva sobre a
efetividade da reparação do crime.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa. Foi realizada uma revisão de escopo sobre o tema, que abrangeu majoritariamente a produção teórica de autores(as) latino-americanos(as), referências em estudos decoloniais/contracoloniais, como Nêgo Bispo, Lorena Cabnal e Sueli Carneiro. A História Oral (HO) e a Teoria Fundamentada nos Dados (TFD) foram utilizadas para a investigação proposta, que ocorreu por meio de entrevistas semi estruturadas com 06 lideranças comunitárias quilombolas femininas de Marinhos, Ribeirão, Rodrigues e Sapé, de Brumadinho, MG. As entrevistas foram realizadas em 2024, por uma única entrevistadora, nas comunidades pesquisadas, tendo sido gravadas e, posteriormente, transcritas. A HO foi escolhida como técnica de pesquisa para a coleta dos relatos das experiências e a TF permitiu a compreesão dos eventos/processos vivenciados e suas repercussões (simbólicas, pessoais, coletivas e materiais). O consentimento pós-informado e a confidencialidade foram garantidos pelo Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa/UFMG.
Resultados e Discussão
Todas as entrevistadas se autodeclararam como pretas e trabalham/trabalharam com serviços gerais/“faxinas”, o que demonstra a persistência de desigualdades estruturais que atravessam raça, gênero e classe, historicamente associando mulheres negras a ocupações precarizadas e socialmente desvalorizadas. O sentimento de orgulho em ser mulher preta quilombola foi unânime nas entrevistas, embora também tenham sido recorrentes os relatos sobre as dificuldades inerentes à vivência desses marcadores identitários. As comunidades são atingidas há anos por inúmeros grandes empreendimentos, além da atuação da Vale, sendo vítimas de processos contínuos de injustiça ambiental. Em relação ao crime de 2019, apesar das inúmeras repercussões para os atingidos, evidencia-se, a partir dos relatos, a ausência de uma reparação efetiva, tanto no que se refere às dimensões materiais quanto simbólicas, o que aprofunda vulnerabilidades e perpetua violações de direitos. As vozes das mulheres quilombolas trouxeram à tona as marcas deixadas em seus corpos e territórios, mas também evidenciaram as formas de resistência, cuidado e organização coletiva. Estes laços tecidos - herdados e/ou inventados - criam conexões vivas, inventivas, criativas, mobilizadoras de narrativas, sendo ferramentas altamente potentes contra as violências sofridas em seus corpos e territórios, desde as discriminações associadas às suas características físicas àquelas vivenciadas no contexto das atividades extrativas e dos grandes empreendimentos em seus territórios.
Conclusões/Considerações Finais
Os impactos sofridos pelas comunidades quilombolas de Brumadinho vão muito além do crime da Vale, sendo o seu território um cenário contínuo de injustiça ambiental e violação de direitos, o que é negligenciado pelo Poder Público. Apesar de tantas violências sofridas, os saberes quilombolas, cultivados e ensinados especialmente pelas mulheres, rompem com a lógica dominante e apontam caminhos para políticas públicas mais justas, construídas a partir do diálogo com quem vive e defende esses territórios.
NEM EMERGÊNCIA, NEM EXCEÇÃO: RACISMO AMBIENTAL NAS QUEBRADAS E AS CRIANÇAS COMO SUJEITOS DE ENUNCIAÇÃO DO TERRITÓRIO
Comunicação Oral Curta
1 USP
Apresentação/Introdução
O Jardim Pantanal, território periférico da zona leste de São Paulo/SP, passa a existir publicamente de forma mais intensa nos momentos em que os alagamentos se impõem como acontecimento. É quando a água transborda que esse território se torna visível nas reportagens e nos relatórios técnicos. Fora desses momentos, sua presença não desaparece, mas se mantém sob outras formas de registro e de interesse das políticas públicas. Esse movimento não indica ausência, mas um modo específico de aparecimento: são as vidas infames, como nos propõe Foucault (1977), que entram no discurso sobretudo quando capturadas como emergência, risco ou problema urbano. Essa forma de registro não é neutra; ela define o que pode ser dito, quem pode dizer e em quais termos o território é reconhecido. Trata-se de um processo que opera na delimitação de quais vidas e experiências ganham estatuto de problema, de dado ou de conhecimento. As experiências cotidianas, os modos de viver, os afetos, os medos e os saberes construídos no cotidiano da quebrada raramente se estabilizam como conhecimento legítimo nesses circuitos e o que se produz é um arquivo descontínuo, atravessado por acontecimentos, no qual o território aparece de forma fragmentada e sob categorias que não são produzidas por aqueles que o habitam.
Objetivos
Investigar como o racismo ambiental atravessa o cotidiano de crianças que vivem no Jardim Pantanal, com foco em seus efeitos sobre a saúde mental, a partir de suas próprias experiências, olhares e narrativas. Busca-se, ainda, compreender como essas crianças percebem, nomeiam e enfrentam as condições socioambientais em que vivem, bem como produzir, junto a elas, conhecimentos que possam contribuir para o debate sobre Justiça Climática, saúde mental e políticas públicas.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa participativa com crianças de 6 a 10 anos do Jardim Pantanal. O estudo será conduzido em etapas articuladas: aproximação com o território e formação do grupo participante; construção coletiva das questões de pesquisa; produção dos materiais; e sistematização e análise dos dados. A produção dos materiais ocorrerá por meio de dispositivos participativos, como rodas de conversa, cartografias e construção de narrativas orais e visuais, definidos e ajustados ao longo do processo, de acordo com a participação das crianças. A análise será realizada a partir dos materiais produzidos, incluindo as formas pelas quais as crianças elaboram e constroem respostas às condições ambientais vivenciadas.
Resultados e Discussão
Por se tratar de uma pesquisa em andamento, aqui busca-se discutir os deslocamentos que orientam a proposta. Parte-se da compreensão de que o Racismo Ambiental não se expressa apenas na distribuição desigual de riscos, mas também nos modos pelos quais determinados territórios passam a existir nos registros institucionais e científicos. Como apontado na apresentação, trata-se de um regime de aparecimento marcado pela centralidade do acontecimento, no qual a vida na quebrada é reconhecida sobretudo quando capturada como emergência. Ao deslocar a atenção para o cotidiano, a pesquisa se insere em uma perspectiva de Justiça Climática que não se limita à análise de eventos extremos, mas considera as condições contínuas que estruturam a experiência de viver em regiões historicamente negligenciadas. Esse deslocamento permite compreender como a repetição de alagamentos, incertezas e ausências de infraestrutura se inscreve nas formas de sentir e habitar o território, produzindo efeitos que nem sempre são reconhecidos nos dispositivos tradicionais de produção de conhecimento em saúde. Nesse ponto, o diálogo com perspectivas decoloniais contribui para tensionar os critérios que definem quais saberes são autorizados a circular como conhecimento legítimo. Ao tomar as crianças como participantes ativas, a pesquisa parte da hipótese de que suas narrativas podem deslocar as formas dominantes de registro, fazendo emergir enunciações que não se organizam a partir da lógica do evento, mas da experiência situada no território. Espera-se, assim, que as produções das crianças evidenciem não apenas os efeitos do Racismo Ambiental sobre a saúde mental, mas também modos próprios de nomear, interpretar e lidar com as condições ambientais vividas.
Conclusões/Considerações Finais
O que está em questão não é apenas a distribuição desigual dos danos ambientais, mas os próprios modos de registrar, narrar e produzir conhecimento sobre as pessoas e os territórios. Desloca-se, assim, o olhar de uma leitura que toma as periferias e seus moradores como problema para uma crítica aos regimes que os constituem como tal, definindo quem pode falar, o que pode ser dito e o que pode circular como verdade. Se, historicamente, essas vidas foram registradas sobretudo quando atravessadas por dispositivos de controle, punição ou excepcionalidade, trata-se de afirmar outras formas de inscrição e disputas em torno do ambiente, da saúde mental e de formas de vida.
O DIREITO A JUSTIÇA AMBIENTAL NA FRONTEIRA DA ADAPTAÇÃO CLIMÁTICA: SÃO BARTOLOMEU/PIRAJÁ UM TERRITÓRIO HISTÓRICO, CULTURAL E AMBIENTAL NO SUBÚRBIO FERROVIÁRIO DE SALVADOR
Comunicação Oral Curta
1 NISAM / ISC / UFBA
2 Harvard Medical School
3 AITSP
Apresentação/Introdução
O Subúrbio Ferroviário é uma região periférica de Salvador de grande extensão, situado a oeste do município e à beira da Baía de Todos os Santos. "Og Boni” incentivou revoltas na Cidade do Salvador, nesta região o “Quilombo do Urubu”, liderado pela “Guerreira Zeferina” no parque “Sagrado de São Bartolomeu” contra o processo de escravidão. Hoje os bairros que estão em seu entorno continuam a luta mas, marcados pelas ocupações irregulares “invasões”, que acabaram absorvendo a maior parte da população excluída dos circuitos formais da cidade e se configurando em “Racismo Ambiental”, sofrem com a falta de saneamento e condições habitacionais tendo no parque a busca de matérias primas, à ocupação de área propícia à agricultura, lazer e pesca. O Parque Metropolitano de Pirajá, hoje denominado Área de Proteção Ambiental (APA) São Bartolomeu / Bacia do Cobre, é considerado importante reserva de mata atlântica em área urbana do Brasil.
Como desafios socioambientais que a região enfrenta atualmente, impactos das nascentes, perda dos habitats da fauna e flora, presença de empresas extrativistas e exploração de minerais, com geração no ar de partículas poluentes, descarte de resíduos em locais inapropriados, desmatamento histórico para construção de vias de um novo sistema de veículo leve sobre trilhos e tentativa de despoluição de suas cachoeiras com o projeto Mané Dendê respectivamente executadas através do Estado e município. Cabendo através da iniciativa da Clínica de Justiça Ambiental/Faculdade Direito-UFBA em parceria, diálogo, acompanhamento dos conflitos, acionamento na justiça, pela falta no cumprimento das leis e cobrança de medidas mitigatórias a serem direcionadas ao parque, daquelas empresas e governos que ganham com a devastação deste ambiente.
Objetivos
Objetivos: O presente resumo é um recorte da pesquisa em desenvolvimento intitulada “Fronteiras de Adaptação em Sistemas Socioecológicos Vulneráveis” com o objetivo de compreender as respostas às alterações climáticas em comunidades vulnerabilizadas, especificamente na APA São Bartolomeu e Barragem do Cobre.
Metodologia
Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, aprofundadas e a aplicação de questionários com perguntas fechadas. Estas foram realizadas por 2 pesquisadores, sendo um deles residente na região e atuante nas questões ambientais. Foram entrevistados 20 participantes nos bairros de maior relevância estratégica, devido à existência de conflitos ambientais, a relação direta considerando a diversidade de atividades desenvolvidas e posições relacionadas ao tema em questão.
Resultados e Discussão
Os participantes percebem o quanto a região do Subúrbio é afetada pelas alterações climáticas por ser uma região periférica, que historicamente foi ocupada de maneira desordenada, não planejada e por se localizar na parte periférica da cidade próxima ao mar, relegada a parcas políticas sociais. Os nossos informantes percebem os impactos das mudanças climáticas na sua saúde e de sua comunidade, como doenças respiratórias, mal súbito devido ao calor extremo, câncer de pele, gasto excessivo de água para amenizar o calor e doenças pela ingestão de água e alimentos contaminados, além dos impactos socioeconômicos como as perdas materiais devido as enchentes cada vez mais constantes e deslizamentos de terra, impactos na sobrevivência de pescadores/as e marisqueiras devido a contaminação do mar e sumiço de espécies na região. Também são percebidos impactos na saúde mental como o estresse e a ansiedade por viverem uma situação de tensão permanente devido aos problemas e riscos ambientais já mencionados. Por outro lado, como principais respostas da comunidade para mitigar os efeitos das mudanças climáticas apareceram iniciativas como plantios e hortas comunitárias, trilhas ecológicas no Parque São Bartolomeu, Ecoponto para reciclagem e reaproveitamento de objetos que são disponibilizados à comunidade a preços populares.
Conclusões/Considerações Finais
As condições que foram submetidas as populações do entorno da APA São Bartolomeu e Barragem do Cobre desde a década de 60 ainda se reflete em áreas específicas dos bairros para onde são carreadas durante as chuvas dejetos e vetores, além dos riscos de desabamentos das casas. Apesar disso, a área pesquisada pode ser um ambiente de convívio e lazer remediando através das atividades como enfrentamento às doenças deste século, podendo gerar renda caso seja aplicado o plano de manejo, o turismo sustentável, a transformação em um ambiente educativo referencial nos aspectos histórico, cultural e ambiental no intuito de compreender a evolução da adaptação climática no Brasil e no mundo, em vista a demanda emergencial da perda e ou prevenção de riscos, da aproximação com o conhecimento técnico-científico que previna as vulnerabilidade climática em seus sistemas, como a mata atlântica, intercâmbio e a resiliência diária na busca de soluções jurídicas e investimento em ações para essa adaptação climática, a reparação social e controle social nas ações públicas e privadas.
OS DESAFIOS DE ACESSO À ÁGUA EM UMA COMUNIDADE QUILOMBOLA DO SEMIÁRIDO MINEIRO EM INTERFACE COM O RACISMO AMBIENTAL E INSTITUCIONAL
Comunicação Oral Curta
1 Instituto René Rachou - Fiocruz Minas
Apresentação/Introdução
O presente trabalho é fruto de uma pesquisa multidisciplinar, realizada em uma comunidade quilombola localizada na Região do Médio Jequitinhonha, Minas Gerais, que teve por finalidade compreender os acessos – e exclusões – dos quilombolas aos serviços de saúde, assistência social e saneamento.
Nesse processo de interlocução e observação, junto a comunitários e gestores públicos, foi possível identificar diferenciações no que diz respeito á dinâmica de abastecimento de água à comunidade, que convive com a dinâmica da seca, intensificada pela falta de gestão municipal, além de uma responsabilização aos quilombolas.
Nesse sentido, apresentamos aspectos da dinâmica local, bem como as estratégias de resiliência adotadas pelos quilombolas, frente a um intenso processo de escassez hídrica e de violação do direito humano à água.
Objetivos
• Apresentar os aspectos relacionados às condições de acesso aos serviços de saneamento de uma comunidade quilombola localizada no semiárido mineiro, tendo o marco legal e o direito humano à água como preceitos norteadores;
• Verificar as formas de racismo vivenciadas pelos quilombolas, a partir de suas percepções em relação ao acesso à água;
• Compreender as formas que o racismo ambiental se manifesta no cotidiano das famílias quilombolas.
Metodologia
A abordagem adotada na pesquisa foi de cunho qualitativo, com uso dos métodos de grupo focal e entrevistas semiestruturadas realizada com membros da comunidade quilombola pesquisada, para coleta de dados. Além disso, realizou-se caminhadas guiadas pelo território, a fim de melhor identificar a dinâmica da escassez hídrica vivenciada pelos comunitários, verificando demandas e possíveis exclusões no acesso à água.
Resultados e Discussão
A partir das análises da metodologia adotada ao longo da pesquisa é possível afirmar que a escassez hídrica não é resultante unicamente das mudanças climáticas, mas também uma escolha política, sobretudo em relação a quem se destina a ausência. Tal constatação tem seu advento ainda com a implementação da monocultura de eucalipto em larga escala, o que afetou o bioma e as áreas de recarga de toda a região, resultando no secamento de córregos e rios em todas as comunidades rurais.
O tratamento imputado aos quilombolas, quando comparados aos residentes de áreas urbanas, também denota uma diferenciação. Diferença esta manifesta nas falas de gestores e na falta de planejamento e de ações de mitigação que visem solucionar um problema recorrente. Além disso, não existe nenhum tipo de priorização das comunidades no que diz respeito ao acesso, mesmo sendo priorizados em diversas políticas públicas.
Outro aspecto identificado diz respeito a um não entendimento de que o acesso à água é um direito, sendo muitas vezes tratado como favores e acordos políticos, além de um processo de responsabilização dos próprios quilombolas na gestão da água. Nesse sentido, as comunidades criam suas estratégias de gestão da água, o que geram impactos de diversas ordens, como defecação a céu aberto, uso de água sem tratamento, intermitência, reuso de água doméstica, dentre outros.
Conclusões/Considerações Finais
O racismo se manifesta de forma subjetiva, sob aspectos distintos, que vão desde a ausência de serviços tidos como direitos garantidos até no tratamento desigual entre comunidades rurais quilombolas e não quilombolas. A ausência de políticas públicas efetivas e da compreensão de que a água é um direito, dificultam o acesso humanizado e de qualidade, sendo objeto de conflitos internos, disputas políticas e de afetações em saúde dentre a população quilombola, sobretudo a saúde mental.
POLUIÇÃO POR MATERIAL PARTICULADO FINO (MP2,5) E INTERNAÇÕES POR DOENÇAS RESPIRATÓRIAS EM CRIANÇAS NO AMAZONAS
Comunicação Oral Curta
1 ILMD – Fiocruz Amazônia, Manaus, Brasil.
2 UEA – Universidade do Estado do Amazonas, Manaus, Brasil.
Apresentação/Introdução
A poluição do ar é um importante determinante da saúde, especialmente em regiões como a Amazônia, onde queimadas e mudanças climáticas intensificam a emissão de poluentes atmosféricos. Entre eles, destaca-se o material particulado fino (MP2,5), capaz de penetrar profundamente no sistema respiratório e atingir a corrente sanguínea. Evidências científicas associam sua exposição ao aumento de doenças respiratórias, sobretudo em grupos vulneráveis como crianças. No Amazonas, fatores como sazonalidade climática, aumento de queimadas e desigualdades socioambientais ampliam os riscos à saúde. Nesse contexto, compreender a relação entre poluição atmosférica e internações hospitalares é fundamental para subsidiar políticas públicas de saúde e ambiente.
Objetivos
Analisar a relação entre a concentração de MP2,5, variáveis ambientais (precipitação e queimadas) e as internações por doenças respiratórias em crianças menores de cinco anos nos municípios do Amazonas.
Metodologia
O estudo abrange o período de 2010 a 2024 e utiliza dados secundários de domínio público. As internações hospitalares foram obtidas do DATASUS (SIH-SUS), considerando diagnósticos do capítulo de doenças respiratórias (CID-10). Os dados de MP2,5 são provenientes da reanálise atmosférica do Copernicus (CAMS/EAC4), enquanto os dados de precipitação foram extraídos do ERA5-Land. Informações sobre queimadas e focos de calor foram obtidas junto ao INPE. As variáveis foram organizadas em séries temporais e agregadas em escalas diária, mensal e anual. As análises estatísticas foram realizadas por meio de modelos de regressão, incluindo a abordagem de Modelos Aditivos Generalizados para Localização, Escala e Forma (GAMLSS), para avaliar associações entre variáveis ambientais e taxas de internação.
Resultados e Discussão
As análises ainda estão em andamento, buscando identificar padrões sazonais nas concentrações de MP2,5, com valores mais elevados no período seco que coincide com aumento de queimadas. Esses períodos tendem a apresentar maior número de internações por doenças respiratórias em crianças. Entretanto, há estudos que mostram o inverso. Nossa análise deve revelar associações significativas (positivas, negativas fortes ou fracas) entre variáveis ambientais e saúde, evidenciando diferenças espaciais entre municípios e destacando áreas de maior vulnerabilidade que poderá ocorrer no período seco ou chuvoso observado a influência da precipitação na dinâmica dessas internações. Resultados preliminares mostram que existem correlações e associações entre internações e concentração de material particulado fino nos municípios analisados especialmente no período seco (agosto e setembro).
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados reforçam a urgência da integração entre vigilância em saúde e gestão ambiental. A poluição por MP2,5 representa um desafio crítico para a saúde coletiva na Amazônia, agravado por desigualdades sociais. A identificação de padrões espaciais e temporais pode subsidiar o planejamento de serviços e estratégias de mitigação de queimadas. Além disso, o estudo contribui para o debate sobre justiça ambiental e os impactos das mudanças climáticas na saúde, alinhando-se às discussões centrais do congresso sobre saúde, ambiente e vulnerabilidade social. É necessário, contudo, observar as limitações deste estudo: a subnotificação de casos hospitalares decorrente das barreiras geográficas e do difícil acesso aos serviços de saúde no Amazonas pode subestimar o desfecho real. Adicionalmente, a dependência de dados de reanálise pela escassez de estações terrestres, o viés introduzido pela pandemia de COVID-19 e a contribuição de fontes de MP2,5 distintas das queimadas (emissões urbanas e transporte transfronteiriço) impõem desafios ao isolamento do efeito exclusivo da biomassa, exigindo cautela na interpretação da causalidade direta.
“TRANSFORMAÇÕES DO TEMPO” E AS DOENÇAS INFECTO-PARASITÁRIAS: UM ESTUDO NA TERRA INDÍGENA MUNDURUKU (2015 A 2024)
Comunicação Oral Curta
1 UnB
Apresentação/Introdução
A emergência climática global tem produzido impactos desiguais, atingindo de maneira particularmente intensa os territórios tradicionalmente ocupados por povos indígenas. Na Amazônia brasileira, tais impactos são agravados por processos históricos e contemporâneos de colonialidade, invasões territoriais, expansão do garimpo ilegal e desmatamento, configurando um cenário de injustiça ambiental e sanitária. Nesse contexto, o povo Munduruku, localizado na bacia do rio Tapajós, no estado do Pará, vivencia profundas transformações socioambientais que repercutem diretamente em seus modos de vida, organização territorial e condições de saúde. Este estudo analisou as relações entre as chamadas “Transformações do Tempo” — conceito indígena que expressa a ruptura dos ciclos climáticos, ecológicos e cosmológicos — e o cenário epidemiológico das doenças infecto-parasitárias (DIPs) na Terra Indígena Munduruku, no período de 2015 a 2024. Diferentemente da noção ocidental de “mudanças climáticas”, centrada na mensuração biofísica de variáveis ambientais, o conceito de Transformações do Tempo articula dimensões ontológicas, espirituais e territoriais a partir de olhares indígenas, compreendendo a desordem ambiental como expressão de um desequilíbrio mais amplo entre humanidade, natureza e cosmos. O trabalho é recorte do projeto "Mudanças Climáticas, Saúde Indígena e Migrações Ambientais", financiado pelo CNPq (CONEP nº 4.279.173), coordenado pela Profª Drª Denise Osório Severo (UnB).
Objetivos
Objetivou-se analisar as relações entre mudanças climáticas, alterações ambientais e o cenário de adoecimento por DIPs na TI Munduruku, no período de 2015 a 2024. Especificamente: conhecer a percepção Munduruku sobre as transformações territoriais; caracterizar as alterações climáticas e ambientais identificadas no território; mapear e analisar as DIPs de maior frequência; discutir sua relação com as TT; e identificar as estratégias de enfrentamento da comunidade frente a esse cenário de crise.
Metodologia
A pesquisa adota abordagem mista. Os dados qualitativos provêm do projeto matriz — cartografias sociais, entrevistas audiovisuais com lideranças indígenas e registros de campo —, analisados pela Análise Temática (Ayres, 2008) como procedimento central, permitindo identificar núcleos de sentido nos discursos e validar a categoria êmica “Transformações do Tempo” como eixo analítico. . Os dados quantitativos foram obtidos via Lei de Acesso à Informação junto à SESAI/MS (Processo NUP nº 25072.053105/2025-13) e analisados por estudo ecológico descritivo (Merchán-Hamann e Tauil, 2021), com cálculo de coeficientes de incidência e prevalência das DIPs e coeficiente de mortalidade infantil (CMI), todos organizados em séries históricas de dez anos.
Resultados e Discussão
Os achados qualitativos indicam que a população Munduruku interpreta as transformações em curso como uma crise de natureza ontológica, e não apenas climática. O diagnóstico territorial evidencia a intensificação do calor extremo, descrito como “água fervente” e “queimando a pele”, associada à escassez hídrica sem precedentes: o Rio Tapajós atingiu níveis historicamente baixos, com desaparecimento de igarapés e exposição de áreas antes submersas, comprometendo a navegabilidade. Observa-se, ainda, a perda de plantas medicinais em decorrência das queimadas, mortandade de peixes e alterações no comportamento da fauna. Elementos cosmológicos também são afetados, como o relato de maior visibilidade de entidades associadas ao rio, indicando desordem nos planos material e imaterial. As repercussões na saúde mostram correlação com dados epidemiológicos. A incidência de malária elevou-se de 65,7/100.000 hab. (2018) para 368,6/100.000 hab. (2020), mantendo-se elevada em 2024, associada ao garimpo ilegal e à proliferação do vetor. As doenças diarreicas agudas, após redução até 2021, voltaram a crescer, alcançando 223,7/1.000 hab. em 2024, relacionadas à contaminação da água. As parasitoses apresentaram flutuações inconsistentes, sugerindo subnotificação. Nas síndromes respiratórias, houve mudança de perfil, com aumento de casos de síndrome gripal associado à inalação de fumaça. A mortalidade infantil atingiu 41,50/1.000 nascidos vivos em 2024, evidenciando elevada vulnerabilidade. A análise integrada demonstra que o adoecimento está vinculado à degradação ambiental e à ruptura do equilíbrio socioecológico, impactando diretamente o bem-viver e a continuidade cultural.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo demonstrou que o território é o determinante socioecológico primário da saúde Munduruku e que as "Transformações do Tempo" constituem categoria analítica mais potente que a noção ocidental de mudanças climáticas para compreender a crise vivida. O garimpo, o desmatamento e a omissão estatal configuram uma necropolítica que se materializa em adoecimento e morte. Conclui-se que enfrentar as DIPs exige políticas interculturalmente sensíveis que articulem proteção territorial, justiça climática, valorização das medicinas tradicionais e autodeterminação dos povos.
Realização: