Programa - Comunicação Oral - CO29.2 - Corpos Insurgentes: Existências, Diferenças e Resistências nas Ruas
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
"MULHERES NA RUA TAMBÉM ESCOLHEM”: EDUCAÇÃO E ACESSO A SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA NA CIDADE DE MANAUS
Comunicação Oral
1 UEA e SEMSA
2 Fiocruz e UEA
3 FMT-HVD
4 SEMSA
5 FCECON
6 UFAM e FMT-HVD
Contextualização
A vida nas ruas, por si só, expõe as pessoas a diversas situações de vulnerabilidade, incluindo barreiras de acesso aos serviços, estigmas e preconceitos, além de insegurança alimentar e física. Se para os homens essa realidade já é difícil, para as mulheres torna-se ainda mais complexa, pois se somam situações de violência sexual e de gênero, que se manifestam de forma particularmente intensa nesse grupo social. Nesse cenário, aumentam-se os riscos de infecções sexualmente transmissíveis, gravidezes indesejadas e complicações no ciclo gravídico-puerperal. Embora se observe redução global da gravidez não intencional, essa tendência ocorre de forma desigual e evidencia profundas iniquidades no acesso à saúde sexual e reprodutiva, principalmente para pessoas que vivem nas ruas. No Brasil, mais da metade das gestações não são planejadas, evidenciando um grave problema de saúde pública. Trata-se também de um marcador de desigualdade social, atravessado por raça, classe e gênero, sendo mais frequente entre pessoas com útero em contextos de maior vulnerabilidade, como aquelas com baixa condição socioeconômica, pertencentes a populações negras e indígenas, residentes no norte e nodeste do país.
Nesse cenário, a oferta de métodos contraceptivos de longa duração reversíveis (LARCs), associada a estratégias de educação em saúde culturalmente sensíveis, constitui não apenas uma intervenção clínica, mas também uma estratégia para se alcançar a justiça reprodutiva.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido no município de Manaus (AM) pela equipe multiprofissional, composta de médicas, enfermeiras e psicólogas, do projeto “Mulheres na rua também escolhem”, financiado pelo CNPq em parceria com a Equipe de Consultório na Rua. Foram realizadas ações direcionadas à oferta de LARCs, especialmente o implante subdérmico (implanon) que ainda estava indisponível na rede a época da experiência. Além de acolhimento qualificado, as atividades incluíram escuta ativa, educação em saúde individual e rodas de conversa, exames preventivos, teste rápidos e oferta do método, respeitando as condições clínicas e a autonomia das usuárias. As atividades foram realizadas nas ruas e praças, Centro Pop, abrigos e Organizações da Sociedade Civil que apoiam a PSR.
Período de Realização
Janeiro de 2025 a março de 2026
Objetivo
Ampliar o acesso de mulheres em situação de rua a métodos contraceptivos de longa duração, promovendo autonomia reprodutiva e cuidado equitativo no SUS e garantindo a justiça reprodutiva.
Resultados
Essa abordagem contribuiu para ampliar o acesso a informações e a métodos contraceptivos eficazes, fortalecendo a autonomia e o poder de decisão de mulheres historicamente excluídas das decisões sobre o próprio corpo. A experiência possibilitou ainda a redução de barreiras historicamente presentes no acesso à saúde sexual e reprodutiva, como falta de documentos, ausência de vagas no serviço de saúde e o próprio estigma que dificulta o acesso às unidades. Observou-se também maior adesão e interesse das usuárias pelo implanon, devido fácil aplicação, bem como baixo índice de preconceito com o método. O DIU, por outro lado, teve alta índice de rejeição estando associado a mitos.
As rodas de conversas evidenciaram a violência de gênero e intrafamiliar como determinantes importante que levam mulheres para as ruas, associado a questão racial e baixas condições socioeconômicas. A presença de transtornos mentais graves e uso prejudicial de drogas são fatores prevalentes e que dificultam o acesso aos serviços de saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a ampliação do acesso a métodos contraceptivos, por si só, não é suficiente para garantir a adesão e a efetividade das ações em saúde, sendo fundamental uma análise interseccional que considere as dimensões sociais, culturais e subjetivas que atravessam a vida das mulheres em situação de rua. O cuidado em saúde sexual e reprodutiva nesse contexto exige abordagens sensíveis culturalmente, centradas na escuta ativa, no respeito à autonomia e na construção de vínculo.
Além disso, aspectos como estigma, preconceito e a própria dinâmica de vida nas ruas impactam diretamente a continuidade do cuidado e o acompanhamento dessas usuárias.
Nesse sentido, destaca-se a necessidade de ampliação da oferta de métodos contraceptivos, incluindo diferentes opções de LARCs, bem como o fortalecimento de estratégias que promovam o protagonismo das mulheres no cuidado integral e equitativo de sua saúde, a fim de garantir uma justiça reprodutiva.
MATERNIDADE E CORPOS MARGINALIZADOS NAS TRAMAS DE GÊNERO, RAÇA E POBREZA
Comunicação Oral
1 ENSP/FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
Este trabalho propõe uma reflexão sobre a maternidade como direito humano, tensionando-a a partir das dinâmicas de controle reprodutivo que incidem sobre corpos femininos historicamente marginalizados. Ancorado nas ciências sociais e na saúde coletiva, o estudo problematiza como gênero, raça e classe se articulam na produção de desigualdades em saúde, evidenciando a seletividade no reconhecimento e na garantia dos direitos reprodutivos no contexto brasileiro.
A maternidade, frequentemente naturalizada como destino biológico e expressão universal de afeto, é compreendida como uma construção social atravessada por normas, expectativas e relações de poder. Em diálogo com Elisabeth Badinter, o estudo questiona o mito do amor materno como instinto inato, destacando como essa narrativa sustenta julgamentos morais e legitima intervenções sobre mulheres consideradas inaptas ao exercício da maternidade. Essa lógica legitima práticas de julgamento, vigilância e intervenção sobre mulheres que não correspondem a esse ideal, especialmente aquelas negras, em situação de pobreza e vulnerabilidade social, como as mulheres em situação de rua.
Objetivos
Desta forma, este estudo tem o objetivo de refletir sobre os sentidos e experiências da maternidade de mulheres em situação de rua no município do Rio de Janeiro, analisando estratégias que possam apoiar e resguardar o exercício desse direito frente às desigualdades em saúde e às práticas institucionais.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, baseada em entrevistas semiestruturadas com mulheres que vivenciaram a gestação em situação de rua. A análise foi conduzida por meio da análise temática de conteúdo, possibilitando a construção de categorias relacionadas às experiências de maternidade, violência institucional e acesso a direitos. O estudo se orienta pela perspectiva da interseccionalidade, conforme formulada por Crenshaw e desenvolvida no contexto brasileiro por Carla Akotirene, evidenciando como racismo, patriarcado e capitalismo atuam de forma imbricada na regulação da vida reprodutiva dessas mulheres.
Resultados e Discussão
Os achados indicam que a escassez de dados sobre a população em situação de rua compromete a formulação de políticas públicas e reforça sua invisibilidade social. As narrativas evidenciam a violência institucional como experiência recorrente, expressa em práticas de controle e vigilância que frequentemente culminam na judicialização da pobreza e na destituição da guarda dos filhos. Nesse contexto, a maternidade se apresenta como um campo de disputa no qual a gestação pode ser vivida como um espaço de construção de sentido e fortalecimento de vínculos, enquanto o Estado, sob a justificativa da proteção, frequentemente opera de forma excludente. Esse paradoxo evidencia como políticas de cuidado podem, na prática, reproduzir desigualdades e violências.
Conclusões/Considerações Finais
A garantia do direito à maternidade para mulheres em situação de rua exige o fortalecimento de políticas intersetoriais capazes de enfrentar a violência institucional e assegurar condições reais para o exercício do maternar. Nesse sentido, torna-se fundamental a desconstrução de estereótipos associados ao ideal materno, reconhecendo a pluralidade das experiências e enfrentando as desigualdades estruturais que atravessam essas trajetórias. Por fim, enfrentar as desigualdades em saúde implica desnaturalizar os mecanismos de controle sobre os corpos femininos e afirmar a maternidade como um direito a ser garantido em sua diversidade.
MULHERES NEGRAS EM SITUAÇÃO DE RUA NO BRASIL: UMA REVISÃO DE ESCOPO
Comunicação Oral
1 UFSC
Apresentação/Introdução
A formação social brasileira foi marcada pelo colonialismo e pelo racismo sistêmico, que impôs a subalternização e produziu mecanismos de exclusão social e econômica, afetando de modo particular as mulheres negras. Historicamente atingidas pela pobreza e precarização das condições de vida, relegando muitas delas à experiência de viver nas ruas. As intersecções entre raça, gênero e classe social que marcam essas mulheres e operam como vetores de amplificação das violências, das desigualdades e das exclusões institucionais (Silva, 2025).
Há escassa produção científica sobre o tema das mulheres negras em situação de rua (MNSR), evidenciando lacuna epistemológica relevante no campo da saúde coletiva e das ciências sociais. Assim, mapear o escopo das evidências científicas disponíveis mostra-se fundamental para subsidiar o aprimoramento de políticas públicas interseccionais e antirracistas.
Objetivos
Analisar como as mulheres negras em situação de rua têm sido representadas na literatura científica publicada entre os anos de 2015 a 2025.
Metodologia
Realizou-se uma revisão de escopo da literatura científica com base em estudos indexados em bases de dados nacionais e internacionais, conduzida de acordo com as diretrizes metodológicas do Joanna Briggs Institute Manual, a partir da questão de pesquisa: Como as mulheres negras em situação de rua têm sido representadas na literatura científica nacional publicada nos últimos 10 anos?
A estratégia de busca foi orientada pelas etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos sobre as MNSR no Brasil. A chave de busca foi aplicada em 15 bases de dados nacionais e internacionais, emergindo 222 publicações, que após leitura do título e resumo resultaram na seleção de sete estudos empíricos. Os dados foram interpretados por meio da análise de conteúdo.
Resultados e Discussão
A produção científica sobre MNSR é proveniente de universidades e instituições públicas de ensino e pesquisa, e com predomínio feminino em 82% das pesquisadoras sobre o tema.
Os estudos apresentaram maior prevalência de violência física e sexual contra MNSR e sua diversidade trans e travestis. Destacou-se, ainda, a presença do racismo institucional, manifestado na destituição do direito à maternidade por meio do sequestro dos seus filhos no contexto hospitalar. Esse mesmo controle emerge na regulação dos direitos reprodutivos e na indicação seletiva de tecnologia contraceptiva de longa duração exclusivamente a essas mulheres.
Por outro lado, dois estudos evidenciam a potência inventiva das trajetórias, experiências subjetivas e relações de pertencimento das MNSR, que escapam às narrativas exclusivamente vitimizadoras e se constituem à margem das instituições responsáveis pela biopolítica de controle das vidas dessas mulheres.
Discussão: O gênero como conceito analítico de contrução histórico-social, da identidade e dos papéis das mulheres negras em nossa sociedade está indissociável da ideologia da raça e do racismo, eixos fundantes que conferem, a partir do estupro colonial das negras, a formação da ordem social brasileira (Carneiro, 2019).
A análise à luz da genealogia do poder, um complexo dispositivo de forças e controle institucional, quando interseccional às MNSR, exerce domínio pelo dispositivo da racialidade, que se manifesta em três mecanismos de poder: no dispositivo da interdição da cidadania e autonomia da fala em primeira pessoa sobre seu corpo e vida; ao destituir o direito à maternidade, sustentando o biopoder, dispositivo de autorização das instituições de saúde a consentir o abandono, as negligências e imprudências ao deixar morrer as MNSR. O terceiro dispositivo legitima o apagamento sistêmico do saberes produzido pela margem, do conhecimento sobre e, a partir destas mulheres, através do engendramento do epistemicídio na produção científica (Carneiro, 2023).
Nas lacunas do dispositivo de racialidade em suas dimensões de domínio, e a vida em resistência das mulheres negras em trajetórias de rua, há o saber disruptivo das relações de poder, as conexões e saberes não aprendidos, que fogem aos domínios. O interstício, o vazio entre a margem e o detentor do domínio, portanto, emerge a necessária compreensão da contingência intersticial das mulheres negras em trajetórias de resistências nas ruas (Foucault, 2025).
Conclusões/Considerações Finais
Embora os estudos analisados reconheçam o emergente crescimento do fenômeno das populações em situação de rua, voltado ao olhar empírico para as condições de vida e saúde das mulheres negras e diversas em trajetórias de rua, há o predomínio da construção epistemológica da vulnerabilização social e das violências de gênero negando a determinação do racismo interseccional entre gênero, raça e a situação de rua, produzidos socialmente em um país multirracializado de passado escravocrata.
Este estudo possibilitou a busca pela lacuna sobre a temática, na produção dos afetos, das teias relacionais, da necessária humanidade das mulheres negras, que resiste às dimensões do dispositivo de racialidade.
O CORPO DA MULHER EM SITUAÇÃO DE RUA COMO ARTEFATO CULTURAL
Comunicação Oral
1 UECE
2 MS
3 SMS-FOR
Apresentação/Introdução
Enquanto a mulher é socialmente construída como um ser frágil, do lar e mãe, a mulher em situação de rua não se encaixa nessa referência de feminilidade. O ambiente da rua, visto como mundano, gera preconceitos e estigmas que as marcam negativamente (ESMERALDO; XIMENES, 2022).
Ao analisar a mulher em situação de rua, seu corpo é construído e moldado como algo indesejável, atravessado por racismo, machismo, violência, estigmas e pobreza (LACERDA; PAIVA JÚNIOR; MELLO, 2021; NARDES; GIONGO, 2021). Sua condição de rua não apenas ressignifica sua subjetividade, mas também a objetifica, transformando-a em um artefato que a torna ainda mais vulnerável a diversas formas de exclusão (GÓMEZ; ROCHA, 2018; TILIO et al, 2021). Embora as vivências dessas mulheres sejam heterogêneas, elas compartilham um conjunto de significados singulares que emergem da trama social em torno de seus corpos.
Objetivos
Analisar o corpo da mulher em situação de rua como um artefato cultural de exclusão.
Metodologia
Pesquisa exploratória qualitativa, que contou com a participação de 30 mulheres em situação de rua em Fortaleza-Ceará, com idades entre 25 e 46 anos.
A pesquisa de campo ocorreu de 2024 a 2025, com entrevista individuais realizadas em locais diversos (praças, calçadas, local de abrigo temporário), conforme disponibilidade das interlocutoras.
O referencial teórico e as categorias de análise foram alicerçados nos Estudos Culturais (DU GAY et al. 1997), tomando como base os eixos analíticos do Circuito Cultural: representação, identidade, produção, consumo e regulação. A Análise de conteúdo proposta por Minayo (2025) auxiliou a organização das informações.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Ceará (CAAE: 66687817.9.0000.5534).
Resultados e Discussão
A pesquisa abordou 30 mulheres com idades entre 25 e 46 anos, que se tornaram as interlocutoras do estudo. O tempo em situação de rua variou de 4 meses a 24 anos, e algumas não souberam precisar o período exato, justamente pelo longo tempo em que estavam vivendo nessa condição. Referente à autodeclaração de raça/cor, nenhuma delas se identificou como branca. Foi notada, contudo, uma dificuldade em se autodeclarar como "preta" ou "negra", sendo a maioria das mulheres classificadas por si mesmas como "morenas".
Esse processo resultou na organização do material de pesquisa em cinco categorias principais: Representação – o retrato da inadequação e marginalização; Identidades (re)construídas; Produção – corpos produzidos pela exclusão; Consumo da ausência dos direitos; e Regulação – seus corpos regulados.
Os resultados apontam que o corpo dessas mulheres se revela como um portador de significado, construído e moldado por práticas sociais, culturais e, sobretudo, por relações de poder, dinâmicas que reforçam e legitimam sua marginalização.
Nessa perspectiva, os principais achados dessa pesquisa destacaram: existe a construção de imagem estereotipada e negativa, sendo representadas como mulheres inadequadas; a desvalorização social promove sentimentos de inferioridade e de não pertencimento, definindo uma identidade em que não se reconhece como uma cidadã; a marginalização e os estigmas agem constantemente sobre seus corpos, resultando na produção da precarização da aparência e autoexclusão; o uso de insumo alternativos devido à pobreza menstrual e a submissão a violência são estratégias de sobrevivência que ilustram uma vivência diária de consumo na ausência de recursos; por não seguirem o modelo social de mulher, as desigualdades de gênero são mais acentuadas, ao mesmo tempo, por serem vistas como inapropriadas à reprodução, as práticas de regulação sociais, culturais e legislativas atravessam seus corpos.
Conclusões/Considerações Finais
A análise evidenciou que o corpo da mulher em situação de rua é construído por um contexto de significados em torno da marginalização, violência e violação de direitos, tornando-se um artefato cultural de exclusão.
As vivências nas ruas revelam aspectos singulares sobre as subjetividades que se constituem nesses espaços, especialmente para as mulheres, já que estes são ambientes predominantemente masculinizados. Aprofundar o olhar sobre elas, a partir da forma como seus corpos - dotados de significado e valor simbólico - se relacionam com o cotidiano sob a égide do circuito da cultura, permite-nos analisar como a sua representação impacta diretamente a sua produção e as suas relações sociais, o que, por sua vez, molda a identidade, as perspectivas de consumo e a maneira como são regulados.
Assim, o corpo da mulher em situação de rua se revela como um portador de significado, construído e moldado por práticas sociais, culturais e, sobretudo, por relações de poder. Essas dinâmicas reforçam e legitimam sua marginalização. Como resultado, seus corpos são objetificados e transformados em artefatos por meio de valores, símbolos e normas culturais que perpetuam e fortalecem o ciclo de exclusão.
ONDE EU ME RECONHEÇO: IMPLICAÇÃO, RACIALIDADE E ATRAVESSAMENTOS NO ACOMPANHAMENTO DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA
Comunicação Oral
1 UFF
Contextualização
O presente relato de experiência é fruto do acompanhamento, no ano de 2025, das ações voltadas para pessoas em situação de rua na região central de um município do estado do Rio de Janeiro. O trabalho de campo foi realizado junto a profissionais do Consultório na Rua, uma redutora de danos do CAPS AD e agentes do serviço social municipal responsáveis pela oferta de vagas em abrigos para pernoite. Não se tratou de uma pesquisa-intervenção, mas sim do acompanhamento de um trabalho que já acontecia naquele território. O referencial teórico-metodológico adotado foi a Análise Institucional francesa, particularmente os conceitos de implicação (René Lourau), análise de práticas e a dialética instituinte/instituído.
Descrição
Durante o período de acompanhamento, a pesquisadora – mulher negra, nascida em comunidade, oriunda de políticas públicas destinadas à população de baixa renda – vivenciou um profundo processo de implicação subjetiva. Os limites entre quem acompanha e quem é acompanhado foram rompidos. Ela se reconheceu nos olhares, nas pintas, no ser vista, no ser mulher negra, no ser lembrada. Reconheceu-se como Estado impositor e, simultaneamente, como alguém castrada por esse mesmo Estado. Reconheceu também suas próprias instituições de pertencimento – a saúde, a enfermagem. A experiência foi marcada por dor, lágrimas, contradições e sentimentos até então desconhecidos, que permanecem vivos na memória. Os olhares, sorrisos e pedidos de ajuda das pessoas em situação de rua não se apagaram.
Período de Realização
Ano de 2025, na região central de um município do estado do Rio de Janeiro.
Objetivo
Analisar o processo de implicação em pesquisa, evidenciando como os atravessamentos de raça, território de origem e trajetória de vida – especialmente ser mulher negra, oriunda de comunidade e de políticas públicas – tornam a experiência de pesquisa ainda mais profunda e transformadora.
Resultados
Os resultados obtidos situam-se no plano da análise institucional. Observou-se que: (a) a pesquisadora teve seu olhar e seu sentir sobre a população em situação de rua profundamente alterados; (b) identificou-se que a equipe de atenção à população em situação de rua no território é numericamente insuficiente para responder à complexidade das demandas; (c) constatou-se que falta muito para a oferta de um cuidado realmente eficiente e humanizado; (d) emergiu uma mistura de dor, tristeza e esperança – dor diante das lacunas, tristeza pela precarização, esperança ancorada na força e perseverança dos profissionais do Consultório na Rua que, mesmo sem os recursos necessários, não desistiram de cuidar dentro de suas possibilidades.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência ensinou que acompanhar um trabalho no campo social, sob o referencial da Análise Institucional, não é um processo asséptico, mas profundamente encarnado. A pesquisadora não está isenta – ela é in mundo – e que a pesquisa a atravessa. A incoerência (ser agente e vítima do mesmo Estado) não é um defeito metodológico, mas uma matéria-prima para a análise. Por fim, aprendeu-se que esse tipo de pesquisa é fundamental para a criação e o aprimoramento de políticas públicas voltadas para a população em situação de rua.
À luz da Análise Institucional, a implicação da pesquisadora – especialmente por sua condição de mulher negra, oriunda de comunidade e de políticas públicas – não é um viés a ser eliminado, mas um analisador privilegiado. Sua trajetória a aproxima e, ao mesmo tempo, a distância dos sujeitos acompanhados, produzindo um estranhamento fértil. O acompanhamento tornou-se um dispositivo que desconstruiu certezas, abriu buracos e fez emergir a revolta contra um Estado que se mostra incapaz de cuidar das pessoas em situação de rua. A análise crítica aponta que o sofrimento vivenciado pela pesquisadora espelha o sofrimento institucional da própria política de atenção à população em situação de rua: equipes pequenas, recursos escassos, vontade política insuficiente. A esperança, no entanto, persiste como potência instituinte, sustentada pela coragem cotidiana dos profissionais que resistem.
Este relato reafirma a importância de incluir dispositivos de análise institucional na formação e na supervisão de profissionais e pesquisadores que atuam com populações em situação de rua. A dor, a contradição e o reconhecimento de si no outro não devem ser silenciados, mas sim tomados como analisadores das práticas de cuidado. Há como melhorar a assistência. Falta vontade política. Pesquisas como esta são fundamentais para subsidiar a criação e o fortalecimento de políticas públicas, pois trazem à tona não apenas os dados, mas os afetos, os atravessamentos e as contradições que os números não conseguem expressar.
SANGRAR NAS RUAS: DIGNIDADE MENSTRUAL, CORPO-TERRITÓRIO E CUIDADO JUNTO À POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA EM MANAUS
Comunicação Oral
1 Universidade do Estado do Amazonas
Contextualização
A pobreza menstrual expressa desigualdades estruturais de gênero e impacta diretamente a saúde, sendo intensificada em contextos de extrema vulnerabilidade, como o da população em situação de rua (PSR). No espaço urbano, a vivência da menstruação por pessoas em situação de rua evidencia, de forma concreta, as limitações no acesso a condições básicas de cuidado, relacionadas tanto à disponibilidade de insumos quanto à infraestrutura necessária para sua utilização. Nesse cenário, a rua se configura como território onde se materializam desigualdades que atravessam os corpos, especialmente daqueles que menstruam.
Descrição
O Projeto menstRUA desenvolve, desde 2021, ações de distribuição de kits de dignidade menstrual compostos por absorventes, sabonetes, papel higiênico, peças íntimas e preservativos, além de promover escuta e acolhimento em praças e vias públicas da região central de Manaus. As ações ocorrem por meio de abordagens diretas, reconhecendo a rua como espaço de vida e de produção de cuidado, ainda que marcado por instabilidade e negação de direitos. Nesse contexto, o cuidado se constrói a partir da escuta, do diálogo e da presença, mesmo em interações breves, valorizando as demandas e experiências das pessoas atendidas.
Período de Realização
As ações do Projeto menstRUA estão em curso desde 2021, com atividades realizadas de forma contínua no espaço urbano de Manaus.
Objetivo
Refletir criticamente sobre a experiência do Projeto menstRUA na promoção do cuidado em saúde menstrual junto à população em situação de rua, articulando as noções de corpo-território, dignidade menstrual e cuidado em saúde coletiva.
Resultados
Como resultados, observa-se o alcance de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, frequentemente invisibilizadas pelas políticas públicas, além da identificação de múltiplas demandas relacionadas ao cuidado em saúde. Destaca-se, nos relatos das pessoas atendidas, a dificuldade de acesso a banheiros públicos, especialmente durante o período menstrual, quando há maior necessidade de trocas frequentes de absorventes e de realização de higiene íntima. Ainda que algumas pessoas consigam acessar chuveiros em praças ou equipamentos públicos, a escassez de sanitários disponíveis compromete diretamente as condições de manejo da menstruação, evidenciando que o acesso à higiene constitui dimensão indissociável da saúde menstrual.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência reflete sobre percepções socialmente difundidas de que as necessidades da população em situação de rua se restringem à alimentação, evidenciando que o cuidado envolve múltiplas dimensões, entre elas o direito à dignidade menstrual. Nesse percurso, aprendemos que a oferta de absorventes, embora fundamental, não é suficiente de forma isolada. A incorporação de itens como peças íntimas aos kits ocorreu a partir das demandas apresentadas pelas próprias pessoas atendidas, evidenciando que o cuidado se constrói de maneira relacional e situada, a partir da escuta e do reconhecimento das necessidades concretas da PSR.
Destaca-se, ainda, a centralidade do corpo como território de inscrição das desigualdades, no qual a menstruação se apresenta como experiência concreta que explicita os limites do cuidado em contextos de rua. A vivência menstrual evidencia não apenas a falta de insumos, mas também a insuficiência de condições materiais para o exercício da higiene e do autocuidado, reforçando a necessidade de abordagens que considerem a integralidade do cuidado.
Problematiza-se a responsabilização de iniciativas da sociedade civil na garantia de direitos básicos, evidenciando lacunas na atuação do Estado no cuidado à população em situação de rua, especialmente no que se refere ao acesso à infraestrutura urbana, como banheiros públicos. A experiência aponta para a necessidade de políticas públicas que reconheçam e incorporem as especificidades dos corpos que menstruam em situação de rua, ampliando as formas de cuidado para além de respostas parciais e insuficientes.
Ao mesmo tempo, a experiência do menstRUA evidencia a potência de práticas de cuidado construídas no território, nas quais a rua se constitui como espaço de produção de vida, onde corpos, mesmo atravessados por desigualdades, constroem estratégias de resistência e existência.
Realização: