Programa - Comunicação Oral Curta - COC3.2 - Formação, cidadania e democracia: intersecções e contradições
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
ACOLHIMENTO E HUMANIZAÇÃO EM UM CAPS III DE MANAUS/AM: VIVÊNCIAS DA RESIDÊNCIA MULTIPROFISSIONAL EM SAÚDE MENTAL E ATENÇÃO PSICOSSOCIAL
Comunicação Oral Curta
1 UEA
Contextualização
No âmbito das políticas de saúde mental, o acolhimento constitui um elemento estruturante da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), instituída pela Portaria nº 3.088/2011. Como diretriz central da Reforma Psiquiátrica e da Lei nº 10.216/2001, essa prática fundamenta a substituição do modelo hospitalocêntrico e asilar por uma atenção territorializada que privilegie a liberdade e a autonomia do sujeito. Diferente da triagem administrativa, o acolhimento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) atua como porta de entrada estratégica para organizar a demanda e garantir a responsabilização clínica, buscando compreender as necessidades singulares que transcendem a avaliação psicopatológica. No cenário amazônico, marcado por vulnerabilidades socioeconômicas profundas que impactam a saúde mental local, o acolhimento assume a função de uma "tecnologia leve" essencial para o estabelecimento de vínculos terapêuticos e para a construção de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) que promovam a autonomia e o protagonismo do sujeito.
Descrição
A experiência foi desenvolvida no CAPS III Benjamin Matias Fernandes, localizado no bairro Parque 10, zona centro-sul de Manaus, serviço de funcionamento 24 horas com acolhimento noturno. As residentes de Psicologia, Enfermagem e Farmácia participaram de acolhimentos sob supervisão dos preceptores, priorizando a escuta ativa e a construção de vínculo. Os acolhimentos foram realizados diariamente, nos turnos matutino e vespertino, a partir de demandas espontâneas e encaminhamentos de outros serviços.
Período de Realização
A experiência descrita no presente estudo foi realizada no período compreendido entre março e setembro de 2026.
Objetivo
Este estudo tem como objetivo descrever e analisar a experiência de residentes multiprofissionais em saúde mental e atenção psicossocial no processo do acolhimento em um CAPS III localizado em Manaus, Amazonas, no período compreendido entre março e setembro de 2026.
Resultados
A prática demonstrou que o acolhimento qualificado é capaz de reduzir a ansiedade gerada pela busca por atendimento em momentos de crise. Observou-se um fortalecimento do vínculo entre os profissionais de saúde mental e os usuários, facilitando a coleta de informações subjetivas que muitas vezes não emergem em consultas estritamente biomédicas. Além disso, a visão do sujeito de forma integral permitiu uma leitura ampliada do sofrimento psíquico, integrando queixas clínicas a questões socioeconômicas prevalentes na região, como as dificuldades de acesso e a vulnerabilidade social.
Identificaram-se certas dificuldades decorrentes de encaminhamentos errôneos da rede de saúde e, sobretudo, de uma parcela significativa de pacientes que demonstram desinformação sobre o papel do dispositivo, acreditando que todas as demandas de saúde mental devem ser tratadas obrigatoriamente no CAPS. Essa percepção equivocada acaba gerando revolta e resistência em usuários que não se enquadram no perfil de transtornos graves e persistentes ao serem redirecionados para a Atenção Básica. Nesse contexto, o profissional responsável pelo acolhimento assume um papel pedagógico essencial ao explicar o funcionamento do CAPS e o fluxo de atendimento na rede.
Ademais, notou-se que a condução do acolhimento é perpassada pelas especificidades de cada categoria profissional, revelando uma prática heterogênea influenciada pela subjetividade e formação de cada profissional. Por fim, a realidade territorial impõe um desafio logístico severo, uma vez que, por atender quase todas as zonas de Manaus (exceto a zona norte), o serviço enfrenta uma demanda excessiva que sobrecarrega a equipe e pode comprometer a profundidade da escuta qualificada, o que é essencial para o acolhimento.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência consolidou o aprendizado de que humanizar a saúde mental exige a construção de relações de confiança e a valorização do protagonismo do usuário. Compreendeu-se que o acolhimento é uma responsabilidade de toda a equipe multidisciplinar e não apenas um setor isolado do serviço. Além disso, reforçou-se a necessidade de educação permanente para que os profissionais possam ressignificar processos de trabalho, obtendo ferramentas teóricas e práticas a fim de fortalecer o acolhimento como prática cotidiana.
Apesar da potência do acolhimento como eixo estruturante, persistem desafios operacionais significativos, como a alta demanda espontânea que, por vezes, sobrecarrega a equipe e gera tensões no tempo de escuta. Notou-se, ainda, que a fragmentação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) em Manaus dificulta o encaminhamento de casos que poderiam ser assistidos na Atenção Básica, demonstrando uma herança da lógica manicomial e excludente onde o CAPS é visto como o único local de cuidado para demandas relacionadas à saúde mental. Conclui-se que a efetivação do acolhimento demanda, além de competência técnica da equipe, investimento institucional em educação permanente e o fortalecimento das políticas públicas de saúde mental no território amazônico.
FORMAÇÃO MÉDICA EM SAÚDE MENTAL NO TERRITÓRIO: ENTRE MODELOS DE CUIDADO E INJUSTIÇAS SOCIAIS
Comunicação Oral Curta
1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
2 UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA/ UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
Apresentação/Introdução
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) constituem dispositivos estratégicos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), orientados ao cuidado no território, em liberdade e articulado aos direitos humanos. Nessa perspectiva, o CAPS tipo II configura-se como um serviço comunitário que atende pessoas com sofrimento psíquico moderado a grave, oferecendo cuidado intensivo e contínuo durante o dia, sem necessidade de internação. Ao mesmo tempo, no contexto da formação médica, esses serviços se apresentam como cenários privilegiados, porém tensionados pela permanência do modelo biomédico, entendido como uma abordagem centrada na doença.
Objetivos
Este estudo teve como objetivo geral analisar a percepção da equipe multiprofissional de um CAPS tipo II sobre a atuação de estagiários de medicina no cuidado em saúde mental, identificando potencialidades, fragilidades e competências formativas necessárias.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, cujo cenário foi um CAPS tipo II localizado em uma cidade de pequeno porte situada na Zona da Mata, no interior do estado de Minas Gerais. As entrevistas semiestruturadas foram realizadas em outubro de 2025, com 16 dos 23 profissionais da equipe, sendo definidas por saturação teórica, após aprovação pelo Comitê de Ética, através do parecer de número 7.851.474, e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O material foi analisado com apoio do software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRaMuTeQ), a partir de Classificação Hierárquica Descendente — CHD, análise de similitude e análise fatorial de correspondência — AFC, e da Análise de Conteúdo temática (AC), conforme Bardin (2016). Inicialmente, o IRaMuTeQ foi utilizado para organização e exploração lexical do corpus, identificando classes de discurso, relações entre termos e eixos de oposição discursiva. Em seguida, procedeu-se à Análise de Conteúdo, que possibilitou a interpretação analítica dos dados, por meio da codificação e categorização das unidades de sentido, articulando os achados aos referenciais teóricos do estudo.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciaram uma tensão central entre práticas orientadas pelo modelo biomédico e a abordagem psicossocial. Enquanto o primeiro se expressa pela ênfase em diagnóstico, prescrição e pela insegurança diante da complexidade do cuidado em saúde mental, a perspectiva psicossocial fundamenta-se na escuta qualificada, na construção de vínculo, no trabalho interprofissional e na elaboração de projetos terapêuticos singulares, orientados pelas necessidades do sujeito em seu contexto de vida. A inferência resulta da articulação entre análises lexical (IRaMuTeQ) e temática. A CHD identificou termos ligados ao modelo biomédico (“diagnóstico”, “prescrição”) associados às fragilidades, enquanto palavras como “escuta”, “vínculo” e “equipe” indicaram a abordagem psicossocial como potencialidade do CAPS. A similitude e a AFC evidenciaram a coexistência e oposição entre esses dois modos de cuidado, e a AC confirmou, nas falas, a insegurança dos estagiários frente à complexidade e a valorização, pelos profissionais, de práticas relacionais e interprofissionais. Identificaram-se, ainda, fragilidades relacionadas à baixa integração ensino-serviço, à ausência de pactuação institucional e à reprodução de hierarquias entre saberes. Por outro lado, o CAPS foi reconhecido como um potente espaço formativo, capaz de promover aprendizagens críticas, éticas e territorializadas. Destaca-se também que desigualdades territoriais e organizacionais, como limitações no transporte de usuários e precariedades estruturais, produzem barreiras de acesso e configuram expressões de injustiça social e racismo ambiental, impactando tanto o cuidado quanto a formação. Nesse contexto, a reflexão crítica sobre o papel profissional, a atuação em rede e a compreensão dos determinantes sociais emergem como competências centrais.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a qualificação da formação médica em saúde mental requer a superação de modelos tecnicistas, com o fortalecimento da integração ensino-serviço, da interprofissionalidade e de uma formação orientada por competências. Como desdobramento desta pesquisa, desenvolvida no âmbito do Mestrado Profissional em Saúde da Família (PROFSAÚDE), no pólo Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), foi elaborado um Produto Técnico-Tecnológico (PTT) na forma de disciplina de pós-graduação, voltado ao desenvolvimento dessas competências no Sistema Único de Saúde (SUS). Entre as limitações do estudo, destaca-se sua realização em um único serviço, o que restringe a generalização dos achados, embora não comprometa sua validade analítica para contextos semelhantes. Como perspectivas futuras, recomenda-se a ampliação da investigação para outros cenários e a avaliação do impacto de intervenções formativas, como o PTT, na qualificação das práticas em saúde mental.
MASCULINIDADE E SAÚDE MENTAL: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM UM CONTEXTO DE REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL EM DEPENDÊNCIA QUÍMICA
Comunicação Oral Curta
1 UEA
Contextualização
A promoção da saúde mental em cenários de vulnerabilidade social exige a compreensão dos determinantes sociais, culturais e de gênero que estruturam as experiências de viver, adoecer e cuidar de si. No caso dos homens, construções hegemônicas de masculinidade, marcadas pela negação da vulnerabilidade e pela valorização da autossuficiência, influenciam diretamente a relação com o cuidado, dificultando a expressão emocional, a busca por ajuda e a adesão aos serviços de saúde.
No Brasil, embora haja aumento no cadastramento masculino na Atenção Primária à Saúde, menos de 30% dos homens realizam atendimentos individuais, revelando barreiras persistentes na adesão ao cuidado (TAKARABE, 2021). Em regiões como o Norte e Nordeste, essas desigualdades se intensificam diante de limitações estruturais e dificuldades de acesso (IBGE, 2022; BNDES, 2024).
Em contextos de dependência química, tais vulnerabilidades se aprofundam, associadas a trajetórias marcadas por estigmas e fragilização de vínculos, contribuindo para o agravamento do sofrimento psíquico e para o afastamento de práticas de autocuidado.
Descrição
Nesse cenário, o Centro de Reabilitação em Dependência Química (CRDQ) Ismael Abel Azis, em Manaus (AM), configura-se como um serviço público que atende pessoas em múltiplas situações de vulnerabilidade, nas quais questões relacionadas à saúde mental, estigma, gênero e acesso ao cuidado se entrelaçam.
A Liga Acadêmica de Humanização da Assistência em Saúde do Amazonas (LAHAS), em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade do Estado do Amazonas (PPGSC/UEA), realizou uma oficina reflexiva com aproximadamente 60 usuários, majoritariamente homens.
A atividade ocorreu em formato de roda de conversa, com metodologias participativas que favoreceram o diálogo horizontal. Foram utilizadas frases como “homem não chora” e “homem tem que ser forte” para problematizar normas de gênero. Em seguida, os participantes expressaram percepções sobre autocuidado por meio de desenhos e relatos. Também foram abordadas estratégias de prevenção ao HIV, integradas à discussão sobre cuidado e acesso à informação em saúde.
Período de Realização
A atividade foi realizada em 17 de junho de 2025.
Objetivo
Este estudo teve como objetivo relatar e problematizar a experiência de uma oficina educativa voltada à discussão da construção social das masculinidades e suas implicações na saúde mental e na adesão ao cuidado em saúde, em um contexto de reabilitação psicossocial.
Resultados
Os participantes reconhecem, ainda que de forma incipiente, os impactos das normas de masculinidade em suas trajetórias de vida e saúde, especialmente no que se refere à dificuldade de expressar emoções, buscar ajuda e estabelecer práticas de autocuidado. Os relatos indicaram que tais construções contribuem para o agravamento do sofrimento psíquico e para o distanciamento dos serviços de saúde, além de favorecer comportamentos de risco.
As produções artísticas revelaram uma ampliação do conceito de autocuidado, incorporando aspectos emocionais, relacionais e de projeto de vida, evidenciando a potência de abordagens sensíveis e participativas no campo da saúde.
As discussões sobre prevenção ao HIV evidenciaram lacunas e saberes prévios entre os participantes, reforçando a importância do acesso à informação qualificada.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a articulação entre saúde mental, gênero e práticas educativas é fundamental para a construção de sentidos ampliados sobre o cuidado, especialmente em cenários de vulnerabilidade. As reflexões indicam que normas sociais de masculinidade atuam como barreiras concretas ao acesso e à adesão aos serviços de saúde, exigindo abordagens que considerem tais determinantes na produção do cuidado.
Além disso, a vivência contribuiu significativamente para a formação acadêmica, ao possibilitar a construção de um olhar mais crítico, sensível e humanizado sobre o cuidado em saúde. A inserção em um espaço de escuta e diálogo favoreceu o reconhecimento da importância de práticas que valorizem a singularidade dos sujeitos, suas trajetórias e contextos de vida, ampliando a compreensão do cuidado para além de uma perspectiva estritamente biomédica.
Em um contexto marcado por desigualdades sociais persistentes e estigmas relacionados à saúde mental, torna-se fundamental a construção de espaços que promovam escuta, acolhimento e problematização crítica das experiências vividas. A experiência reforça a relevância de práticas educativas pautadas na educação popular em saúde, na perspectiva freireana, que valorizam o diálogo, a escuta e o protagonismo dos sujeitos.
Ao mesmo tempo, evidencia os limites de intervenções pontuais frente à complexidade das demandas apresentadas, indicando a necessidade de ações contínuas, interdisciplinares e articuladas às políticas públicas de saúde mental e atenção psicossocial.
NAVEGANDO CONTRA A CORRENTE: A PRIMEIRA LIGA UNIVERSITÁRIA SOBRE NEURODIVERGÊNCIAS DO AMAZONAS
Comunicação Oral Curta
1 UFAM
2 UNIFESO
Contextualização
Historicamente, indivíduos hoje reconhecidos como neurodivergentes foram colocados à margem da sociedade, sendo excluídos sob a lógica da não conformidade aos padrões de “normalidade” (Gomes; Barbosa, 2020). Durante décadas, foram submetidos a processos de institucionalização que limitaram significativamente o desenvolvimento de habilidades sociocognitivas e comunicativas (Mas, 2018). A partir do final do século XX, com a emergência do conceito de neurodiversidade, proposto por Judy Singer, essas diferenças passaram a ser compreendidas como variações da condição humana, e não como déficits (Griffin, 2009), evidenciando também processos de marginalização epistêmica e cognitiva (Legault et al., 2021). No contexto amazônico, ainda persistem lacunas na formação acadêmica e no acolhimento de estudantes com estas condições no ensino superior, reforçando a necessidade de iniciativas voltadas à inclusão e à produção de conhecimento qualificado.
Descrição
Nesse cenário, foi criada a Liga Universitária sobre Neurodivergências do Amazonas (LUNE-AM), vinculada à Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Amazonas, com o objetivo de articular ensino, pesquisa e extensão na temática das neurodivergências. A liga promoveu encontros teóricos, científicos e práticos, incluindo rodas de conversa, oficinas e discussões de artigos, abordando temas como Transtorno do Espectro Autista, Transtorno do Défict de Atenção e Hiperatividade, Altas Habilidades/Superdotação e a interseccionalidade entre esses temas e com a educação em saúde. Destaca-se a abordagem interdisciplinar e a valorização da troca de saberes, integrando conhecimento científico, experiências vividas e contextos socioculturais observados nos encontros.
Período de Realização
As atividades referem-se ao ciclo de 2025, realizado entre março de 2025 e fevereiro de 2026, em Manaus/AM.
Objetivo
Relatar a experiência de um ano de atividades de uma liga universitária que articulou ensino, pesquisa e extensão na temática das neurodivergências.
Resultados
Foram realizadas nove reuniões ao longo do período, com ampliação do conhecimento dos participantes, estímulo à leitura científica e incentivo à produção acadêmica. A LUNE-AM também se consolidou como espaço de acolhimento e escuta, favorecendo o reconhecimento das diferenças cognitivas como legítimas. Além disso, houve reconhecimento institucional das atividades, com premiação no Circuito Amazônico de Extensão da UFAM, e avanço na articulação com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas para futuras ações extensionistas.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência da LUNE-AM evidencia que as neurodivergências não podem ser compreendidas apenas no âmbito clínico, mas também como fenômenos atravessados por determinantes sociais, educacionais e institucionais que influenciam o acesso, o acolhimento e a permanência nos espaços de formação e cuidado. Nesse sentido, a constituição da LUNE-AM — enquanto primeira liga universitária do Amazonas dedicada à temática — representa uma inovação na formação em saúde, ao integrar ciência, território e experiência vivida, especialmente no contexto amazônico. A liga evidenciou a importância da construção coletiva do conhecimento e da troca de saberes como estratégia formativa. Apesar das limitações, especialmente quanto à atuação direta com a comunidade externa e à periodicidade das atividades, o ciclo foi fundamental para o fortalecimento institucional da liga. Assim, a LUNE-AM demonstra potencial como espaço formativo e transformador, contribuindo para uma formação acadêmica mais inclusiva e socialmente comprometida.
ORGANIZAÇÃO INTERINSTITUCIONAL DA CONFERÊNCIA ESTADUAL DOS ODS NO AMAZONAS: RELATO DE EXPERIÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 ILMD - FIOCRUZ AMAZÔNIA
Contextualização
A Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) orientam ações voltadas à redução das desigualdades, promoção da equidade e fortalecimento da saúde coletiva, demandando estratégias intersetoriais, participativas e territorializadas. No Brasil, a 1ª Conferência Nacional dos ODS tem como propósito sensibilizar, mobilizar e formar amplamente a sociedade em torno do debate público sobre a Agenda 2030, assegurando legitimidade, representatividade e participação social. As etapas preparatórias, como as conferências estaduais, ampliam o envolvimento de diferentes segmentos sociais na construção de propostas e estratégias para implementação dos ODS, especialmente em territórios marcados por profundas desigualdades socioespaciais, como o Amazonas.
Descrição
A organização da Conferência Estadual dos ODS no Amazonas foi conduzida por meio de articulação interinstitucional entre instituições de ensino, pesquisa e gestão, com destaque para Fiocruz Amazônia, Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), além de parceiros locais e do Estado. O processo envolveu reuniões sistemáticas de planejamento, nas quais foram definidos público-alvo, eixos temáticos, metodologia de condução dos debates e divisão de responsabilidades. Estruturou-se uma coordenação geral e executiva, com equipes responsáveis por comunicação, mobilização, logística e sistematização das propostas. A metodologia adotada incluiu acolhimento dos participantes, formação de grupos temáticos para discussão de prioridades e uso de ferramentas digitais de votação e registro, favorecendo a participação ampliada, a transparência e a construção coletiva de propostas alinhadas às demandas territoriais.
Período de Realização
O processo organizativo ocorreu entre fevereiro e março de 2026, por meio de reuniões interinstitucionais presenciais e remotas. A Conferência Estadual dos ODS foi realizada em abril de 2026, em instituições sediadas em Manaus (AM).
Objetivo
Relatar a experiência de organização interinstitucional da Conferência Estadual dos ODS no Amazonas, destacando os processos de planejamento colaborativo, articulação entre instituições e estratégias de gestão compartilhada no contexto amazônico.
Resultados
O processo organizativo possibilitou a construção de uma agenda interinstitucional baseada na cooperação e na gestão compartilhada, com definição clara de responsabilidades e fortalecimento do trabalho em rede. Observou-se ampliação do diálogo entre instituições federais, atores locais e sociedade civil, favorecendo a incorporação de diferentes perspectivas no debate sobre desenvolvimento sustentável e saúde coletiva. A utilização de ferramentas digitais contribuiu para a sistematização das propostas, a priorização de demandas e o acompanhamento das atividades, além de potencializar a participação social e a transparência dos processos decisórios.
Aprendizado e Análise Crítica
A Conferência Estadual dos ODS no Amazonas revelou-se uma estratégia potente de mobilização institucional e social, ao promover a integração entre diferentes setores do Estado e da camada organizada civil, fortalecendo a governança colaborativa no território. Entretanto, o processo organizativo também evidenciou desafios, como a assimetria de participação entre instituições, a sobrecarga de determinados atores e as limitações de recursos operacionais e financeiros. Tais aspectos apontam para a necessidade de institucionalização de espaços permanentes de articulação intersetorial, capazes de garantir continuidade às ações iniciadas. Assim, embora iniciativas como essa ampliem o debate e a participação social, sua efetividade depende da articulação com políticas públicas estruturantes e do compromisso contínuo dos atores envolvidos com a implementação das propostas construídas coletivamente.
SINTOMAS SOMÁTICOS EM ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS: ANÁLISE DAS MANIFESTAÇÕES FÍSICAS ASSOCIADAS AO CONTEXTO ACADÊMICO
Comunicação Oral Curta
1 Universidade de Fortaleza – UNIFOR. Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva.
2 Secretaria da Saúde do Estado do Ceará - SESA. Centro Universitário Ari de Sá Cavalcante – UNIARI
3 Universidade de Stavanger, Stavanger, Noruega
Apresentação/Introdução
O ingresso no ensino superior representa um período de intensas mudanças na vida cotidiana, envolvendo adaptações acadêmicas, sociais e emocionais. Tais fatores corroboram a vulnerabilidade dessa população ao desenvolvimento de problemas de saúde, sobretudo, relacionados à saúde mental e suas manifestações físicas (KREFER; VAYEGO, 2019). Observa-se que os sintomas somáticos caracterizados por queixas físicas sem explicação orgânica clara, dores corporais, alterações gastrointestinais, fadiga e distúrbios do sono, têm sido frequentemente relatados por estudantes universitários. Esses sintomas podem estar associados a condições como ansiedade, depressão e estresse, refletindo a interrelação entre aspectos psicológicos e manifestações corporais (SOUSA, 2023). Estudos recentes evidenciam ainda que o contexto acadêmico contemporâneo, especialmente após eventos como a pandemia, intensificou fatores de risco para adoecimento entre universitários, incluindo aumento de sintomas ansiosos, alterações no sono e redução do bem-estar geral (CARDOSO et al. 2025). Essas condições podem impactar diretamente o desempenho acadêmico, a qualidade de vida e a permanência dos estudantes na universidade. Assim, torna-se fundamental investigar a presença de sintomas somáticos nessa população, considerando sua frequência e possíveis associações com fatores do contexto acadêmico.
Objetivos
Analisar a ocorrência e os padrões de sintomas somáticos em estudantes universitários, considerando sua relação com fatores associados ao contexto acadêmico e às condições de saúde e bem-estar.
Metodologia
: Trata-se de um estudo quantitativo, descritivo e transversal, realizado com 378 estudantes universitários regularmente matriculados em cursos de graduação de uma instituição de ensino superior. A coleta de dados ocorreu por meio da aplicação de um questionário estruturado, composto por questões sociodemográficas e itens relacionados à presença de sintomas somáticos, como dores corporais, alterações do sono, fadiga e desconfortos gastrointestinais. O instrumento foi disponibilizado em formato online, sendo respondido de forma voluntária pelos participantes. Os dados coletados foram organizados e analisados por meio de estatística descritiva, incluindo cálculo de frequências absolutas e relativas. Foram respeitados os princípios éticos que regem pesquisas com seres humanos, garantindo o anonimato dos participantes e a confidencialidade das informações, mediante aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa sob parecer 4.244.669.
Resultados e Discussão
A coleta de dados ocorreu com alunos do primeiro e último ano do curso, uma vez que são períodos em que se encontram com mais probabilidade de expectativas, angústias e até sofrimentos relacionados as questões acadêmicas. Optou-se pela escolha de uma amostra aleatória, onde foram sorteados 02 cursos de cada centro de ciências, como exceção de 01 centro que só possui um curso, totalizando assim 07: Direito (35%), Psicologia (29%), Engenharia da Computação (11%), Fisioterapia (7,%), Engenharia Civil (6,3%), Administração (6,3%) e Ciências Contábeis (4,5%), totalizando 378 estudantes. Predominou estudantes do sexo feminino (70,9%), de cor autodeclarada branca (50,8%), solteiro (77,2%), com média de idade de 26,9 anos. 43% dos estudantes exercem alguma atividade remunerada e 57%, dedicam menos de 10h diárias para o estudo, esse fato pode estar relacionado aos estudantes que possuem atividades remuneratórias e essa é uma condição que se deve levar em consideração, pois a sobrecarga e acúmulo de atividades podem impedir que o estudante se dedique mais aos estudos e isso lhe causar algum tipo de sofrimento. No que se refere a alteração somática, são apontadas em ocorrer com muita frequência e repetidamente em três itens por mais da metade dos entrevistados: “Tenho sentido dores nas costas” (55%), “Tenho me sentido cansado com pouca energia, dificultando minha ida à universidade” (54,5%) e “Tenho tomado medicamento para combater as minhas dores e continuo a me sentir mal” (51%).
Conclusões/Considerações Finais
Os achados evidenciam elevada frequência de sintomas somáticos entre estudantes universitários, com destaque para dores nas costas, fadiga e uso recorrente de medicamentos sem resolução dos sintomas. Tais manifestações sugerem possível relação com as demandas e sobrecargas do contexto acadêmico, especialmente entre aqueles que conciliam estudo e trabalho. Assim, reforça-se a necessidade de estratégias institucionais voltadas à promoção da saúde e ao acompanhamento integral dos estudantes, visando à melhoria do bem-estar e do desempenho acadêmico.
SOLIDÃO NO AMBIENTE UNIVERSITÁRIO: PERCEPÇÕES, DETERMINANTES E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO
Comunicação Oral Curta
1 FSP/USP
Apresentação/Introdução
A solidão tem se afirmado como um fenômeno social contemporâneo de crescente relevância, presente sobre diferentes grupos e contextos de vida, inclusive no ambiente universitário. Muitas vezes está relacionada à ideia de estar só, mas, em muitas situações, constitui uma experiência subjetiva, relacional e socialmente produzida, podendo manifestar-se mesmo na presença de outras pessoas. No ambiente acadêmico, essa experiência tende a ser atravessada por fatores como dificuldade de pertencimento, competitividade, exigências de produtividade, comparações permanentes e barreiras institucionais que dificultam a construção de redes de apoio. A solidão na universidade implica reconhecê-la não como problema estritamente individual, mas como expressão de dinâmicas sociais, institucionais e simbólicas que conformam o cotidiano estudantil.
Objetivos
Analisar como estudantes universitários percebem e vivenciam a solidão no cotidiano acadêmico, bem como identificar fatores associados à sua produção e permanência e estratégias apontadas para o seu enfrentamento e redução no contexto institucional.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, desenvolvida com 24 estudantes de diferentes níveis de formação de uma universidade pública, incluindo graduação, pós-graduação e pós-doutorado. A coleta de dos dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas que foram submetidas à análise temática de conteúdo.
Resultados e Discussão
Os resultados mostram que a solidão foi predominantemente compreendida como ausência ou fragilidade de rede de apoio, sensação de não pertencimento, desconexão afetiva, invisibilização e dificuldade de compartilhar experiências, sofrimentos e demandas cotidianas. Os participantes relataram que é possível sentir-se sozinho mesmo em contextos coletivos, como salas de aula, corredores e demais espaços da universidade, quando não há reconhecimento, acolhimento ou vínculo significativo. Assim, a solidão apareceu menos associada à ausência física de outras pessoas e mais vinculada à percepção de não ser visto, ouvido ou legitimado em sua presença, trajetória e necessidades. As narrativas também mostraram que essa experiência é intensificada por características da vida universitária contemporânea, especialmente pela lógica produtivista que atravessa a formação e a permanência estudantil. Foram recorrentes nos relatos menções à pressão por desempenho, às exigências de alta performance, ao excesso de cobranças, às comparações constantes entre trajetórias acadêmicas e ao sentimento de insuficiência diante de metas frequentemente difíceis de alcançar. Os depoimentos trazem que marcadores como classe social, raça, gênero e corporalidade interferem nas possibilidades de integração, reconhecimento e pertencimento dentro da universidade. A solidão revelou-se associada, em diversos casos, a experiências de exclusão simbólica, discriminação, inadequação e invisibilidade, mostrando que esse fenômeno não se distribui de maneira homogênea entre os estudantes. Para aqueles cujas trajetórias são marcadas por desigualdades e por menor reconhecimento institucional, a experiência universitária pode ser acompanhada por maior sensação de estranhamento, distanciamento e fragilidade dos laços sociais. Além dos aspectos interpessoais e estruturais, elementos institucionais também contribuem para a manutenção da solidão, como burocracias excessivas, fragilidade das ações de acolhimento, pouca integração entre estudantes, limitação de espaços de convivência e insuficiência de iniciativas voltadas à construção de comunidade universitária. Em muitos relatos, a universidade apareceu como espaço fortemente orientado para desempenho e resultados, mas menos preparado para promover escuta, convivência e suporte relacional, especialmente nos momentos de vulnerabilidade. Como possibilidades de enfrentamento, os participantes destacaram a necessidade de fortalecer redes comunitárias e ampliar espaços institucionais de troca, escuta e acolhimento. Entre as estratégias mais mencionadas estiveram a criação de rodas de conversa, grupos de apoio, atividades integrativas, ações de recepção e acompanhamento desde o ingresso, além do incentivo a práticas institucionais comprometidas com pertencimento, convivência e cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
A solidão no contexto universitário constitui um fenômeno relacional, complexo e socialmente determinado, cuja compreensão exige considerar simultaneamente dimensões subjetivas, institucionais e estruturais. Seu enfrentamento demanda respostas institucionais e comunitárias orientadas ao fortalecimento do pertencimento, da integração, da escuta e do cuidado, reconhecendo a convivência e a construção do comum como dimensões centrais da experiência universitária.
TRANSTORNOS ALIMENTARES NO SUS: DESAFIOS PARA UMA ATENÇÃO HUMANIZADA CENTRADA NA ESCUTA
Comunicação Oral Curta
1 UERJ
Apresentação/Introdução
Transtornos alimentares (TAs) são doenças psiquiátricas graves, associadas a intenso sofrimento psíquico e alta morbimortalidade. Na "sindemia global" impulsionada por sistemas alimentares dominados por ultraprocessados, expressão de um modelo de desenvolvimento insustentável que adoece corpos e territórios, e pela cultura da magreza e do consumo, os TAs permanecem uma "epidemia silenciosa", subnotificada na Saúde Coletiva. O tratamento enfrenta barreiras como escassez da rede assistencial especializada, concentrada em poucas regiões e marcada por dificuldades diagnósticas, atrasos no início do tratamento e altas taxas de abandono.
Objetivos
Este trabalho busca analisar criticamente desafios atuais para diagnóstico e tratamento humanizados em TAs no sistema público de saúde, destacando o papel da escuta e dos princípios do SUS como caminho para qualificar o cuidado em saúde mental.
Metodologia
Esta é uma revisão narrativa de artigos, dissertações, teses e documentos de política pública (2000-2025), identificados em diferentes bases de dados e repositórios institucionais, relacionados a TAs, SUS, diagnóstico, humanização, políticas de saúde mental e segurança alimentar e nutricional. Os resultados foram divididos em eixos temáticos.
Resultados e Discussão
Foram identificados 21 documentos, dos quais emergiram quatro eixos. (1) Reducionismo biomédico e invisibilidade do sofrimento: observou-se hegemonia de uma literatura centrada em peso, sintomas e protocolos diagnósticos em saúde mental, frequentemente descolada da experiência subjetiva de quem sofre, o que pode levar à subvalorização de histórias de trauma, violência e insegurança alimentar que atravessam os quadros. (2) Fragilidade da escuta e da humanização do cuidado: pela concepção hegemônica, nutricionistas e médicos são muitas vezes convocados apenas a "corrigir" peso e exames, com pouca abertura à escuta dos significados da comida e do corpo na vida dos pacientes. (3) SUS, humanização do cuidado e sofrimento psíquico: a literatura em Saúde Coletiva aponta a integralidade e a humanização como valores centrais do SUS, defendendo que o critério de qualidade dos serviços seja a capacidade de responder ao sofrimento sem produzir mais sofrimento, o que exige práticas dialógicas, menos prescritivas e sensíveis às desigualdades sociais. (4) Riscos e oportunidades em tempos de avanços de tecnologias digitais: em um cenário de protocolos padronizados e abordagens comportamentais alinhadas à lógica neoliberal de gestão da vida, há risco de reforçar a culpabilização individual e a desconsideração de contextos de pobreza, fome e colapso ambiental; ao mesmo tempo, tecnologias podem apoiar a detecção precoce se forem ancoradas em princípios ético-políticos do SUS e em dispositivos de escuta qualificada.
Conclusões/Considerações Finais
Ao mesmo tempo em que se faz necessária a construção de instrumentos que quantifiquem a magnitude dos TAs no Brasil, o seu diagnóstico no SUS não pode ser reduzido a instrumentos padronizados ou a algoritmos de triagem que excluam a escuta da singularidade dos sujeitos. Reafirmar os princípios do SUS implica recolocar a escuta do sofrimento, a compreensão da complexidade dos sintomas alimentares e a consideração da insegurança alimentar, das desigualdades de raça, gênero e território, como centrais no processo diagnóstico. Nutricionistas têm papel estratégico no manejo interdisciplinar de casos clínicos, na mediação entre sistemas alimentares insustentáveis e saúde mental, e na defesa de modelos de cuidado que, em vez de automatizar respostas, reconheçam a singularidade de cada sujeito no contexto em que vivemos.
UMA VISÃO SANITARISTA NA GESTÃO DO CUIDADO EM UM CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (CAPS II)
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Centro Acadêmico de Vitória (CAV)
Contextualização
O presente relato de experiência tem como objeto central o estágio obrigatório curricular em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS II), um dos principais dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), localizado no município de Vitória de Santo Antão, em Pernambuco. A importância fundamental desta experiência é marcada pela transição do modelo manicomial para o psicossocial, conforme os preceitos estabelecidos pela Lei nº 10.216/2001, e pela necessidade premente de garantir a integralidade e a universalidade do cuidado em saúde mental no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
Descrição
O CAPS II em questão atende, em regime diurno (das 8h às 17h, de segunda a sexta-feira), a população com transtornos mentais graves e persistentes e, de forma cumulativa, a demanda de usuários de Álcool e Outras Drogas (AD), devido ao déficit de um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) específico na cidade. Esta atuação ampliada ocorre em um cenário de notável dedicação profissional contrastado com importantes limitações estruturais e logísticas, trazendo reflexões fundamentais para a construção da saúde mental no campo da saúde coletiva.
Período de Realização
A experiência foi realizada durante o período de dois meses, compreendendo os meses de outubro e novembro de 2025, no próprio CAPS II e em seu território de abrangência. Os sujeitos envolvidos incluíram a equipe multidisciplinar (psiquiatras, enfermeiros, psicólogo, assistente social, farmacêutico, técnico de enfermagem e setor administrativo), além dos usuários do serviço e seus respectivos familiares. A imersão foi realizada na rotina assistencial e nos processos gerenciais da unidade.
Objetivo
O objetivo primário deste relato é refletir criticamente as barreiras e as potencialidades encontradas na assistência e na gestão do CAPS II de Vitória de Santo Antão, PE, com o intuito de subsidiar propostas de intervenção para a qualificação do cuidado psicossocial e a melhoria contínua dos processos de trabalho, sob a perspectiva da saúde coletiva. Busca-se abrir discussões sobre a necessidade da expansão da RAPS, a equidade geográfica no acesso, destacar iniciativas de reabilitação psicossocial e a importância estratégica da implementação da Saúde Digital para a avaliação dos processos de trabalho e da sobrecarga do sistema de saúde mental. Além disso, essa vivência ressalta as investidas profissionais e notabiliza a importância da saúde do trabalhador no contexto público.
Resultados
Identificou-se que o principal entrave reside na fragilidade da veiculação de informações. A totalidade dos registros é manual, o que gera morosidade, riscos de erro e dificulta a articulação com as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e o Núcleo de Atenção à Saúde Mental (NASM). A ausência de um Prontuário Eletrônico (PEP) integrado impede o monitoramento eficaz do cuidado compartilhado. Estruturalmente, a falta de transporte institucional inviabiliza atividades externas e prejudica o acesso de usuários da zona rural, que não possuem outro meio de transporte. Além disso, a sobrecarga é evidente: a média de 25 a 30 pacientes por profissional, somada à demanda AD não prevista no dimensionamento original do CAPS II, compromete a adesão ao tratamento e a saúde mental da própria equipe. Por outro lado, as potencialidades revelam uma equipe com forte cultura de escuta ativa e construção de vínculos. Os grupos apresentam uma boa taxa de adesão mesmo com poucos recursos para inovações terapêuticas. Além disso, o matriciamento e as estratégias de reabilitação psicossocial, como o grupo de artesanato para geração de renda, demonstram um compromisso ético-político com a cidadania e autonomia dos usuários.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que o cuidado integral transcende protocolos, ele é construído no vínculo e no território. Esse estágio permitiu converter a teoria da gestão em prática sensível, mostrando que gargalos logísticos e tecnológicos não são apenas problemas administrativos, mas barreiras que ferem o princípio constitucional da equidade. Conclui-se que é necessário pensar além de normativas para desburocratizar o trabalho. Debater a expansão da RAPS e a atualização tecnológica, é essencial para redistribuir a carga assistencial e melhorar o a atenção em saúde. Ademais, pensar em estratégias para a saúde e valorização do trabalhador, que por vezes fica sobrecarregado por insuficiência de recursos. Dessa forma, a experiência no CAPS torna-se imprescindível para o sanitarista em formação, pois consolida sua identidade como um articulador estratégico apto a integrar a gestão de sistemas complexos à defesa da cidadania e à prática do cuidado humanizado.
O IMPACTO DA LIDERANÇA NA SAÚDE MENTAL DAS MULHERES INDÍGENAS
Comunicação Oral
1 UEA
Apresentação/Introdução
A população indígena no Brasil recebeu, no ano de 2022, um novo panorama com o censo demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023), na Região Norte, observa-se a maior concentração, com 44,48% da população indígena nacional. A cidade de Manaus destaca-se nesse cenário, com 71.713 pessoas indígenas, sendo as mulheres maioria, representando 53,16% desse total (IBGE, 2023). Apesar da relevância desses dados, eles não expressam plenamente a diversidade cultural, social e simbólica desses povos.
Nesse contexto, destaca-se a atuação da mulher indígena, cujo papel tem sido fundamental na resistência ancestral e na defesa dos direitos coletivos. Nas últimas décadas, seu protagonismo tem se ampliado, com maior inserção em espaços políticos e organizacionais, incluindo a criação de organizações femininas e núcleos de gênero em instituições indígenas. Essas mulheres atuam em pautas como demarcação territorial, saúde, soberania alimentar, combate ao racismo e à violência, além da participação política (Araújo; Souza; Portal, 2022; Dutra; Mayorga, 2019; Fontes, 2020).
A liderança indígena, seja tradicional ou política, exerce papel central na organização comunitária e na defesa de direitos (Martins, 2015). Mulheres indígenas têm assumido posições de liderança como cacicas, pajés, anciãs e lideranças políticas, ainda que historicamente invisibilizadas. Sua atuação contemporânea evidencia transformações nas relações de gênero e reafirma sua importância na manutenção da vida, da cultura e dos territórios (Castilho et al., 2008; Tavares, 2017).
Entre os povos indígenas em contexto urbano, destaca-se o povo Kokama, cuja presença em Manaus intensificou-se a partir da década de 1990, com processos de afirmação política mais evidentes a partir de 2005 (Jimenes, 2019). Nesse cenário, a saúde emerge como uma das principais demandas das mulheres indígenas (Dutra; Mayorga, 2019; Miranda, 2017; Souza; Santos; Oliveira, 2020; Tavares, 2017).
Objetivos
Analisar o impacto do papel de liderança na saúde mental de mulheres indígenas, com foco em lideranças do povo Kokama em contexto urbano na cidade de Manaus.
Metodologia
Estudo qualitativo, descritivo e exploratório, de abordagem narrativa, realizado na área urbana de Manaus com mulheres indígenas Kokama em posição de liderança. Com aprovação ética no CAAE: 90895825.6.0000.5016. As participantes foram selecionadas por amostragem em bola de neve. Foram realizadas entrevistas com seis lideranças, cujos dados foram analisados por meio da Análise Temática de Braun e Clarke (2006).
Resultados e Discussão
Através dos relatos das participantes, foi possível perceber o impacto significante que a liderança exerce em suas vidas, alcançando diversas camadas, incluindo a saúde. Ainda que elas declarem sentimentos positivos como felicidade e satisfação ao alcançarem conquistas para as suas comunidades, é evidente que também surgem sentimentos negativos resultantes da sobrecarga e frustração dessa função.
A atuação no papel de liderança é apontada como uma dedicação muitas vezes em tempo integral, sem determinação clara entre o trabalho e a vida pessoal, além de não receberem remuneração. As falas revelam dificuldade de usufruir de momentos de descanso, limitando as relações familiares e redução do autocuidado, influenciando assim, diretamente para o desgaste físico, mental e emocional dessas mulheres.
Adicionalmente, é indicado a ausência de resolutividade e eficácia por parte das Políticas Públicas, referente a questões ligadas à população indígena em contexto urbano, algo que agrava sentimentos de frustração e responsabilidade individual dessas líderes diante de suas comunidades.
Esses achados corroboram com estudos que constata a saúde como uma demanda essencial das mulheres indígenas, especialmente nas áreas urbanas, realçando que paradoxalmente, as figuras femininas que estão engajadas na luta pela saúde coletiva acabam constantemente negligenciando a sua própria saúde. Ressaltam-se, ainda, que impactos relacionados à saúde mental estão associados ao estresse decorrente das responsabilidades da liderança, onde cada uma busca a sua maneira amenizar esses impactos.
Conclusões/Considerações Finais
Evidenciou-se que o exercício da liderança por mulheres indígenas em contexto urbano, está associado a impactos em sua saúde, notadamente na esfera mental e emocional. Dessa maneira, torna-se fundamental desenvolver um olhar atento sobre a saúde dessas lideranças, reforçando a necessidade de especificação e promoção de estratégias de cuidado a abranjam suas realidades. Valorizar o protagonismo dessas mulheres, demanda da garantia de condições para que também possam cuidar primeiramente de si, assegurando sua continuidade na luta pelo bem-viver coletivo.
Realização: