Programa - Comunicação Oral - CO31.4 - Violência, Interseccionalidade de gênero, raça e sexualidade
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
FLUXOS E DESAFIOS NA PRODUÇÃO DE DADOS SOBRE VIOLÊNCIAS CONTRA A POPULAÇÃO LGBTQIA+ NO SINAN: ANÁLISE DA VIGILÂNCIA NO CEARÁ
Comunicação Oral
1 UECE
2 UFC
Apresentação/Introdução
As violências de gênero contra a população LGBTQIA+ se configuram como um problema central para a Saúde Coletiva, especialmente quando analisadas a partir das desigualdades que atravessam os territórios. Essas violências são produzidas historicamente e se manifestam de forma interseccional, articulando gênero, sexualidade, raça, classe e outras dimensões que intensificam vulnerabilidades. Além disso, ao considerar uma perspectiva intercultural e decolonial, é possível perceber que muitos sistemas institucionais ainda operam de forma limitada, desconsiderando saberes, vivências e formas de cuidado presentes nos territórios, o que contribui para a invisibilização dessas experiências. Nesse contexto, os sistemas de informação sobre violência são fundamentais, mas também revelam contradições: ao mesmo tempo em que podem dar visibilidade às violências, também podem reproduzir apagamentos quando não conseguem captar a complexidade dessas vivências. Assim, analisar como esses dados são produzidos permite compreender os fluxos e etapas de sua produção no âmbito da vigilância.
Objetivos
Analisar os fluxos de produção de dados sobre violências contra a população LGBTQIA+ no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ceará sob a perspectiva da vigilância no nível estadual e em cinco municípios.
Metodologia
Trata-se de estudo exploratório descritivo de abordagem qualitativa baseado em entrevistas, rodas de conversa, diário de campo e observação livre com 11 participantes - técnicas e coordenadoras de vigilância todas mulheres do nível estadual e de cinco municípios, sendo um de cada macrorregião de saúde do estado indicados pela vigilância estadual como mais relevantes. A amostragem foi do tipo bola de neve com coleta de dados por meio de entrevistas semiestruturadas, rodas de conversa e observação não participante, com registros em diário de campo.Os dados foram analisados segundo a técnica de análise de conteúdo temática, conforme Bardin, contemplando as etapas de pré-análise, exploração do material e interpretação, com apoio do software ATLAS.ti. As categorias analíticas foram construídas no processo de análise, orientando a interpretação dos fluxos descritos pelas participantes. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética (parecer nº 4.864.116), conforme a Resolução 466/12.
Resultados e Discussão
O fluxo de produção de dados no Sinan, no setor saúde, envolve identificação, notificação e consolidação dos casos, ainda dependente da iniciativa dos profissionais e com presença de registros manuais, além de baixa participação da atenção primária. Assim, os resultados demonstram desafios no reconhecimento e registro das violências, especialmente simbólicas e institucionais, e no preenchimento das variáveis de identidade de gênero e orientação sexual, bem como dificuldades na abordagem dessas questões e na articulação entre vigilância e assistência. Sob uma perspectiva interseccional e decolonial, o fortalecimento da atenção primária, à qualificação profissional e a integração entre níveis de atenção são centrais para organizar o fluxo e ampliar a produção de dados. Nesse sentido, o Sinan tem papel fundamental na visibilização das violências e na orientação de ações mais alinhadas às realidades territoriais.
Conclusões/Considerações Finais
Dessa forma, os achados evidenciam que fragilidades no fluxo de dados no Sinan contribuem para a invisibilidade das violências contra a população LGBTQIA+. Qualificar esse processo, com capacitação profissional, fortalecimento da atenção primária e adequado registro de identidade de gênero e orientação sexual, é essencial para dar visibilidade ao fenômeno. Isso permite orientar ações como protocolos de acolhimento, formação em diversidade e planejamento territorial baseado nas vulnerabilidades e dinâmicas locais. Destaca-se, ainda, a importância de incluir as experiências de pessoas LGBTQIA+, historicamente silenciadas, na produção de dados, como base para respostas mais equitativas.
INVISIBILIDADES DA VIOLÊNCIA CONTRA A POPULAÇÃO LGBTQIA+ NOS SISTEMAS DE INFORMAÇÃO EM SAÚDE NO CEARÁ
Comunicação Oral
1 Universidade Estadual do Ceará
2 Universidade Federal do Ceará
Apresentação/Introdução
A Política Nacional de Saúde Integral LGBTQIA+ contribuiu com a visibilização da violência perpretado contra a população LGBTQIA+ ao incorporar variáveis relacionadas à orientação sexual e identidade de gênero. Apesar desse avanço normativo, a produção de dados sobre essas violências permanece limitada, especialmente no que se refere à qualidade e completude das informações registradas em fichas de notificações. (BRASIL, 2001; BRASIL, 2013).
Tais limitações apresentam desigualdades estruturais que se manifestam de forma interseccional, incidindo de maneira mais intensa sobre sujeitos atravessados por múltiplas vulnerabilidades, como pessoas periféricas e trans, conforme proposto por Kimberlé Crenshaw. Ademais, à luz da colonialidade do poder, discutida por Aníbal Quijano, compreende-se que os sistemas de informação em saúde não são neutros, sendo atravessados por relações de poder que influenciam quais experiências são registradas, reconhecidas ou invisibilizadas.
Objetivos
Analisar os limites na produção de dados sobre violência contra a população LGBTQIA+ nos sistemas de informação em saúde, a partir de uma perspectiva interseccional e decolonial.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, de natureza exploratório-descritiva, baseado em entrevistas semiestruturadas com informantes-chave envolvidos na produção e gestão de dados sobre violência contra a população LGBTQIA+ no estado do Ceará. Os participantes foram selecionados por amostragem não probabilística do tipo “bola de neve”.
A coleta de dados ocorreu entre setembro de 2021 e junho de 2022, por meio de entrevistas semiestruturadas e rodas de conversa (presenciais e online), com duração média de 50 minutos, envolvendo 11 profissionais da saúde atuantes em setores de vigilância em saúde nas cinco macrorregiões de saúde do Ceará: Norte, Fortaleza, Litoral Leste/Vale do Jaguaribe, Sertão Central e Cariri.
Os dados foram transcritos e analisados por meio da análise de conteúdo temática, conforme Bardin, com apoio do software ATLAS.ti®. A análise seguiu as etapas de pré-análise, exploração do material e interpretação dos resultados, organizando-se em três categorias: fluxo, limites e possibilidades dos sistemas de informação.
A pesquisa respeitou os princípios éticos da Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, com aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa.
A análise foi orientada pela perspectiva interseccional, conforme Kimberlé Crenshaw, em diálogo com a teoria decolonial.
Resultados e Discussão
A implementação de variáveis específicas de orientação sexual e identidade de gênero enfrenta limitações relacionadas à sua incompletude e baixa qualidade de dados, os quais são frequentemente registrados como “ignorados” ou não preenchidos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Essa limitação de observância dessas variáveis específicas prejudica a produção de dados, o que dificulta o monitoramento da violência contra a população LGBTQIA+. Já no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) sequer há variável sobre orientação sexual e identidade de gênero de vítimas de homicídios e suicídios, apagando a possibilidade de identificação do fenômeno por esse sistema.
A fragilidade do preenchimento desses campos está relacionado a múltiplos fatores, destacando-se o desinteresse em realizar monitoramento específico acerca da população LGBTQIA+, pelo fato de operar uma hegemonia cisgeneroheteronormativa que naturaliza e subjuga a relevância dessas pautas. Além disso, associa-se a essa fragilidade de preenchimento a crença limitante por parte de alguns profissionais de que orientação sexual e identidade de gênero fazem parte unicamente do campo privado do indivíduo e não está relacionado com sua saúde além de ideias de viés moral-religioso que naturalizam a violência contra esse público e perpetuam sua invisibilidade.
Nessa perspectiva, o conceito “colonialidade do poder” pode explicar essa limitação de produção de dados ao compreender que os sistemas de informação em saúde não são neutros, sendo atravessados por hierarquias históricas que definem quais sujeitos são reconhecidos como dignos de registro. Nesse sentido, a invisibilização de agravos de violência contra pessoas LGBTQIA+ expressa a persistência de lógicas coloniais que produzem a marginalização de corpos dissidentes, limitando sua legibilidade institucional e a formulação de respostas equitativas no campo da saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Ademais, de forma transversal, a subnotificação emerge como um dos principais limites, sendo atravessada por desigualdades estruturais que afetam de maneira mais intensa sujeitos subjugados, implicando na identificação da interseccionalidade de outras vulnerabilidades. Essas limitações podem refletir não apenas falhas operacionais, mas processos de invisibilização que articulam gênero, sexualidade, raça e território na produção desigual de dados sobre violência.
OBESIDADE, ESTIGMA DE PESO E INTERSECCIONALIDADE: MANIFESTAÇÕES NA VIDA DE MULHERES E PESSOAS LGBTQIAPN+ DAS CINCO REGIÕES DO BRASIL
Comunicação Oral
1 Universidade Federal de Ouro Preto
2 Ministério da Saúde
3 Universidade do Estado do Rio de Janeiro
4 Secretaria de Estado de Saúde do Mato Grosso do Sul
5 Universidade Federal da Paraíba
6 Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome
Apresentação/Introdução
As discriminações pelo gênero e pela orientação afetivo-sexual podem intensificar as marcas sociais estereotipadas e depreciativas sobre pessoas com obesidade. Em apoio à qualificação da Estratégia Intersetorial de Prevenção da Obesidade, do Governo Federal, foram realizadas oficinas regionais a fim de investigar as manifestações do estigma de peso e suas repercussões na vida das pessoas com obesidade, sob o prisma da interseccionalidade.
Objetivos
Identificar interações entre as manifestações do estigma de peso, a misoginia e a LGBTfobia direcionada a pessoas que vivem com obesidade, em diversos contextos e espaços sociais.
Metodologia
No período entre 14/07/2025 e 12/01/2026 foram conduzidas 5 oficinas com pessoas adultas vivendo com obesidade, no Rio de Janeiro, Manaus, Recife, Campo Grande e Porto Alegre. As capitais foram selecionadas a partir de indicador-síntese que considerou a frequência da obesidade, a densidade de estabelecimentos varejistas de alimentos saudáveis e não saudáveis, e população relativa em situação de pobreza. Participaram 63 pessoas, com destaque a mulheres, pessoas negras e indígenas, LGBTQIAPN+, com deficiência e em vulnerabilidade social. Procedeu-se com análise de conteúdo inspirada em Bardin. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Ouro Preto em 06/06/2025 (CAAE 86812025.3.0000.5150).
Resultados e Discussão
Opressões estruturais como o patriarcado podem trazer manifestações específicas do estigma de peso em mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ com obesidade. Cerca de 84% de participantes das oficinas eram mulheres cisgênero e 14% eram pessoas LGBTQIAPN+. O estigma de peso é mais severo entre as mulheres, pela carga estética e moral, com abordagem pública sobre seus corpos. Como consequência, as mulheres com obesidade são prejudicadas com menores oportunidades de emprego, de ascensão profissional e de salários justos, além de vivenciarem uma cultura misógina no cotidiano laboral. A regulação moral é mais frequente em serviços de proteção social, sendo julgada como incapaz do autocuidado e do cuidado com os filhos. Em variados contextos, o assédio e a importunação sexual são invisibilizados quando a vítima é uma mulher com obesidade. O estigma associado ao controle de corpos femininos se estende para quem tem a identidade de gênero feminino ou para o homem gay afeminado, porque a gordofobia opera junto com a heteronormatividade e o machismo. Entre homens gays, a associação entre heteronormatividade e um determinado padrão corporal ‘trincado’ e ‘sarado’ é valorizada, promovendo o isolamento social daqueles que são gordos ou fetichização no rótulo de ‘ursos’. Mulheres lésbicas são discriminadas na coleta do citopatológico em unidades de saúde. Pessoas bissexuais podem ter uma carga dupla de de estigma relacionada à imagem corporal, sendo pressionados a se adequar a padrões atrativos para pessoas de ambos os gêneros. Há uma insistência em modificar o comportamento e os corpos de pessoas assexuais com obesidade, em tentativa de submetê-las a uma expressão mais sensual.
Conclusões/Considerações Finais
Grupos sociais minorizados pelo gênero e pela orientação afetivo-sexual podem ter sua experiência discriminatória intensificada com o estigma de peso. Violências simbólicas e concretas contínuas que se dão em uma interação matricial de opressões favorecem a internalização do estigma de peso por mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, levando ao comer compulsivo e a outros transtornos alimentares que perpetuam a alta prevalência da obesidade. Recomenda-se fortemente a elaboração e implementação de políticas públicas intersetoriais e interseccionais que considerem o lugar de fala de pessoas estruturalmente oprimidas para prevenção da obesidade e de múltiplas formas de discriminação em nossa sociedade ainda iníqua.
EMPODERAR PARA TRANSFORMAR: PROMOVENDO A IGUALDADE DE GÊNERO EM ESCOLAS NA CIDADE DE ITACOATIARA – AMAZONAS
Comunicação Oral
1 FAMETRO
2 UEA
Contextualização
A discussão sobre igualdade de gênero no ambiente escolar assume protagonismo fundamental na formação social, ética e cidadã dos discentes, sobretudo em contextos onde ainda persistem desigualdades, preconceitos e padrões culturais historicamente enraizados. A escola configura-se como um espaço privilegiado de construção do conhecimento, socialização e formação crítica, sendo responsável não apenas pela transmissão de conteúdos, mas também pela promoção de valores como respeito, equidade, justiça social e inclusão. No município de Itacoatiara -AM, essa realidade se faz presente, refletindo desafios comuns a diversas regiões do Brasil, especialmente em áreas interioranas, onde fatores socioculturais influenciam diretamente as relações de gênero e a reprodução de estereótipos. Nesse cenário, torna-se imprescindível o desenvolvimento de ações educativas que abordem a temática de forma crítica, reflexiva e contextualizada, contribuindo para a formação de sujeitos mais conscientes, capazes de reconhecer, problematizar e combater práticas discriminatórias. Assim, o presente relato descreve uma experiência desenvolvida em uma escola pública, com foco na promoção da igualdade de gênero por meio de estratégias educativas participativas.
Descrição
A experiência foi realizada na Escola Estadual José Carlos Martins Mestrinho, envolvendo estudantes do ensino médio de diferentes turmas, com perfis diversos. Inicialmente, foi realizada uma visita técnica com o objetivo de conhecer o ambiente escolar, estabelecer vínculo com a equipe pedagógica e compreender a dinâmica institucional, incluindo aspectos estruturais e relacionais. Em seguida, foram planejadas e executadas palestras educativas abordando temas como igualdade de gênero, empoderamento feminino, construção social dos papéis de gênero, estereótipos sociais, machismo estrutural e diferentes formas de violência, incluindo as dimensões simbólica, psicológica e física. As atividades foram conduzidas por acadêmicos do curso de Enfermagem da Faculdade Metropolitana de Itacoatiara (FAMETRO), que atuaram como mediadores do processo de ensino-aprendizagem, utilizando recursos audiovisuais, dinâmicas interativas e rodas de conversa. Os estudantes participaram ativamente, demonstrando interesse, levantando questionamentos e compartilhando vivências pessoais, o que favoreceu a construção de um espaço de diálogo, escuta e acolhimento.
Período de Realização
As ações ocorreram em dois momentos distintos ao longo do ano de 2025: o primeiro voltado ao reconhecimento do campo, planejamento e articulação com a escola; e o segundo destinado à realização das atividades educativas, respeitando o calendário escolar e a disponibilidade dos participantes.
Objetivo
Promover a igualdade de gênero no ambiente escolar por meio de ações educativas, estimulando o respeito às diferenças, a equidade nas relações sociais e o empoderamento dos estudantes. Buscou-se ainda incentivar o pensamento crítico, a desconstrução de preconceitos e a valorização do diálogo como instrumento de transformação social.
Resultados
Os resultados evidenciaram uma relevante participação dos estudantes, principalmente nos momentos de discussão, nos quais relataram experiências relacionadas à desigualdade, preconceito e violência de gênero. Observou-se que a maioria compreendeu os conceitos abordados, demonstrando maior consciência sobre a temática. Algumas alunas relataram sentir-se mais confiantes para se posicionar diante de situações de desigualdade, enquanto alguns alunos passaram a refletir criticamente sobre atitudes anteriormente naturalizadas. Além disso, a equipe escolar manifestou interesse na continuidade das atividades, reconhecendo a relevância da temática no contexto educacional.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência contribuiu para o desenvolvimento de competências como escuta qualificada, comunicação, empatia e sensibilidade social. Também reforçou o papel da escola como espaço de reflexão e transformação. Para os acadêmicos de enfermagem, a vivência ampliou a compreensão sobre a importância da educação em saúde e dos determinantes sociais na formação cidadã, evidenciando o potencial das ações educativas na mudança de percepções e comportamentos. Apesar dos resultados positivos, destaca-se que ações pontuais não são suficientes para promover mudanças estruturais. A promoção da igualdade de gênero exige um trabalho contínuo, integrado e institucionalizado, envolvendo toda a comunidade escolar. A experiência demonstrou o potencial das atividades educativas, mas também evidenciou a necessidade de inserção permanente da temática no currículo escolar. Conclui-se que a continuidade das ações, aliada ao compromisso institucional e à formação continuada dos profissionais, é essencial para consolidar avanços e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
TRAJETÓRIAS REGULADAS PELA VIOLÊNCIA DE GÊNERO: SOFRIMENTO PSÍQUICO E PRÁTICAS INSTITUCIONAIS
Comunicação Oral
1 Instituto Aggeu Magalhães da Fundação Oswaldo Cruz (IAM-Fiocruz/PE)
2 Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Apresentação/Introdução
A violência de gênero é um problema estrutural relacionado às relações desiguais de poder. Se caracteriza por danos físicos, psicológicos, sexuais, morais e patrimoniais, elevando o risco de feminicídio, além de incluir repercussões para vítimas indiretas. Dessa forma, constitui como grave problema de saúde pública e de violação máxima aos direitos humanos, nele incluído o direito à vida.
Por se tratar de um evento complexo e multifatorial o seu enfrentamento exige articulações intersetoriais. Adotar a interseccionalidade como ferramenta analítica possibilita compreender as dinâmicas territoriais, ambientais e culturais, às desigualdades regionais e às múltiplas formas de interculturalidades que atravessam as experiências de vida, de cuidados, de violências e de acessos às políticas públicas.
A manutenção de violências revela insuficiência de respostas efetivas do Estado e, ou, na oferta de respostas ambíguas, que articulam cuidado, controle e revitimização, desconsiderando marcadores de raça, classe, maternidade e determinações que produzem diversas expressões de sofrimento psíquico.
Objetivos
Analisar os impactos da violência de gênero na trajetória de vida de uma mulher negra com foco nas repercussões para a saúde mental e nos processos de institucionalização.
Metodologia
Pesquisa qualitativa de base etnográfica realizada em 2025 no Centro de Acolhimento Intensivo. Trata-se de um dispositivo da rede socioassistencial, localizado numa capital do Nordeste brasileiro, que objetiva assegurar acolhimento e proteção social a pessoas em uso de álcool e outras drogas em situação de risco e vulnerabilidade. Foram utilizadas entrevistas semiestruturadas em profundidade e observação participante. As informações foram analisadas com base na perspectiva hermenêutica, a partir do roteiro sugerido por Creswell. Selecionou-se um recorte da trajetória de vida de uma das mulheres acolhidas, aqui identificada como Camélia. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Aggeu Magalhães da Fundação Oswaldo Cruz (Parecer nº 7.006.395).
Resultados e Discussão
Camélia é uma mulher negra, 45 anos e possui ensino fundamental incompleto. Possui 5 filhos, é beneficiária do Bolsa Família e, dentre os relatos que revelam intensa vulnerabilização, destaca-se a violência de gênero praticada pelo ex-companheiro. As agressões envolviam todos os tipos legalmente reconhecidos, como a física, sexual, psicológica, patrimonial e moral; e eram expressas, sobretudo, por meio do uso desproporcional da força, do controle e da posse, incluindo formas coercitivas e de tortura.
Sob medida protetiva e diante de recidiva dos episódios de agressões, Camélia denuncia novamente o agressor o qual acaba sendo preso. Paralelo a isso, ela acumula trajetórias por diferentes equipamentos da rede de proteção à mulher. Assim, diante de um contexto de violência recorrente, o uso de álcool emerge como estratégia de enfrentamento do sofrimento psíquico, permitindo-lhe aliviar a dor, esquecer temporariamente os problemas e suportar as violações vividas. Camélia refere que o consumo foi incentivado no contexto da relação abusiva, sendo posteriormente mobilizado como elemento de desqualificação moral e questionamento da capacidade materna.
Dentre camadas adicionais de outros processos desorganizadores, a guarda dos filhos menores foi perdida, evidenciando a atuação de dispositivos institucionais que incidem de forma mais intensa sobre mulheres negras em situação de vulnerabilidade. O encaminhamento posterior para serviços com enfoque em saúde mental, como o Centro de Acolhimento Intensivo e Centros de Atenção Psicossocial, aparecem associados à necessidade de “comprovar” adesão ao segmento assistencial como condição para reaver a guarda, revelando uma dimensão normativa e disciplinar do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
A perspectiva da interseccionalidade como ferramenta analítica e postura éticopolítica é extremamente pertinente para identificar como os marcadores sociais se articulam, conformando matrizes de opressão que se reforçam mutuamente. A violência estrutural, o racismo, a regulação do corpo, da maternidade e as iniquidades sociais vivenciadas por Camélia, produziram uma trajetória marcada por sofrimento psíquico e intervenções institucionais paradoxais.
Diante da complexidade, o fortalecimento do debate na Saúde Coletiva e, mais especificamente no campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, mostra-se bastante promissor. Dada a capilaridade que possui enquanto área interdisciplinar, poderá subsidiar a reorientação de políticas estratégicas com vistas a avançar em discussões intersetoriais para a oferta de práticas antirracistas e na gestão de cuidados integrais abrangentes. Isto inclui o reconhecimento de determinações sociais de sofrimento, erradicação de abordagens moralizantes e punitivas e alinhamento de práticas correspondentes às realidades territoriais e às múltiplas dimensões que atravessam a vida das mulheres, alargando possibilidades de autonomia e bem-viver.
MASCULINIDADES E ENFRENTAMENTO DAS VIOLÊNCIAS DE GÊNERO NO TRABALHO: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM INSTITUIÇÃO PÚBLICA DE ENSINO E PESQUISA EM SAÚDE
Comunicação Oral
1 Fiocruz Pernambuco
2 Universidade Federal de Pernambuco
3 Fiocruz Pernmabuco
Contextualização
Este relato de experiência apresenta uma intervenção institucional concebida como resposta ética e política a um episódio de transfobia ocorrido no ambiente de trabalho de uma instituição pública de ensino e pesquisa em saúde. Instituições públicas, especialmente no campo da saúde, são atravessadas por relações de trabalho, poder e gênero que refletem tensões presentes na sociedade. Situações de discriminação e violência simbólica no ambiente laboral impactam a saúde, o bem-estar e o direito à permanência de trabalhadores e trabalhadoras, configurando-se como tema relevante para a Saúde Coletiva. No âmbito das políticas institucionais, episódios de LGBTfobia, em especial a transfobia, desafiam não apenas os mecanismos formais de denúncia e responsabilização, mas também a capacidade institucional de promover respostas educativas e transformadoras. Nesse sentido, respostas exclusivamente punitivas mostram-se insuficientes para enfrentar desigualdades estruturais relacionadas às normas de gênero e às masculinidades hegemônicas presentes em determinados espaços de trabalho. Foi nesse contexto que emergiu a situação que deu origem à experiência aqui relatada.
Descrição
Em julho de 2024, uma mulher trans procurou a instituição para denunciar um episódio de transfobia ocorrido no entorno da unidade, envolvendo trabalhadores de um setor operacional, a oficina de manutenção. A vítima relatou não ter conseguido identificar os responsáveis, mas afirmou que situações semelhantes já haviam ocorrido anteriormente. O caso foi acolhido por uma servidora do Núcleo de Diversidade e Inclusão (NDI), que orientou a formalização da denúncia junto à Ouvidoria e informou que a denunciante seria mantida a par das providências adotadas. Após os trâmites administrativos, a Ouvidoria solicitou à gestão a adoção de medidas institucionais diante do ocorrido, sem indicar quais. Esse contexto abriu espaço para a construção de uma resposta que extrapolasse o caráter exclusivamente normativo ou punitivo. Optou-se pela adoção de uma ação formativa voltada à discussão de masculinidades e violências de gênero entre trabalhadores da instituição, obrigatória para aqueles diretamente implicados no episódio. A formação foi estruturada em quatro módulos, conduzidos por docente externo e concebidos como espaço pedagógico exclusivo para homens, com foco na reflexão sobre gênero, poder, trabalho e violência simbólica.
Período de Realização
A atividade ocorreu em quatro encontros realizados entre novembro de 2024 e março de 2026.
Objetivo
O objetivo deste relato é refletir sobre a adoção de um processo formativo sobre masculinidades e violências de gênero como estratégia institucional de enfrentamento à transfobia em uma instituição pública de pesquisa e formação em saúde, discutindo seus limites e potencialidades na redução das desigualdades de gênero no ambiente institucional.
Resultados
A experiência evidenciou a importância da criação de espaços institucionais de reflexão crítica sobre masculinidades e relações de gênero no trabalho. Inicialmente marcada por desconfiança, a formação passou gradualmente a ser percebida como espaço privilegiado de escuta e diálogo, favorecendo participação ativa e troca de experiências. Observou-se elevado índice de aprovação e crescente engajamento nas discussões. Trabalhadores passaram a demonstrar maior sensibilidade em relação a práticas e “brincadeiras” discriminatórias no cotidiano laboral, além de maior participação espontânea em outras atividades institucionais relacionadas às temáticas de gênero e sexualidade. Em alguns casos, participantes passaram a atuar informalmente como multiplicadores das reflexões, intervindo em situações de desrespeito e promovendo debates sobre direitos humanos entre colegas.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência indica que processos formativos voltados à problematização das masculinidades podem constituir estratégias relevantes para o enfrentamento das violências de gênero no ambiente institucional, especialmente em setores historicamente pouco envolvidos em debates sobre diversidade e direitos humanos.
Realização: