Programa - Comunicação Oral Curta - COC6.1 - Deficiências, acessibilidade e redes de cuidado em saúde no SUS
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
ACESSO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NA ATENÇÃO BÁSICA: DESIGUALDADES, BARREIRAS E CAPACITISMO NO SUS
Comunicação Oral Curta
1 IAM - FIOCRUZ PERNAMBUCO
2 UFPE
3 UFPB
Apresentação/Introdução
Este estudo analisou o acesso das pessoas com deficiência (PcD) aos serviços de atenção básica na cidade do Recife (PE), a partir do debate contemporâneo sobre os modelos da deficiência e do direito à saúde como expressão de justiça social, sendo norteado pela perspectiva da atenção básica abrangente, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
Objetivos
Analisar o acesso das pessoas com deficiência (PcD) aos serviços de Atenção Básica, na perspectiva de uma rede de cuidado, considerando as dimensões de acessibilidade, aceitabilidade, disponibilidade e acomodação, e acessibilidade financeira e adequação nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, do tipo estudo de caso, realizada no Distrito Sanitário VIII do Recife (PE). Foram utilizados análise documental, dados de sistemas de informação em saúde e entrevistas semiestruturadas com pessoas com deficiência (física, auditiva, visual, múltipla e intelectual) e profissionais da atenção básica. Para a análise dos dados qualitativos nas entrevistas, foi utilizada a técnica Análise de Conteúdo (AC), através da técnica Condensação de Significados. A análise foi orientada pelo modelo teórico de acesso de Levesque, Harris e Russell (2013), considerando dimensões como acessibilidade, aceitabilidade, disponibilidade e acomodação e acessibilidade financeira. A pesquisa está atrelada a um projeto maior, intitulado de “Fortalecendo a Inclusão de PcD no Sistema de Saúde no Brasil: Explorando o Acesso das PcD aos Serviços de Saúde em Pernambuco”, CAAE: 25888219.3.0000.5190, com parceria originada fora do Brasil, que tem por objetivo principal avaliar o acesso das PcD ao sistema de saúde no Estado de Pernambuco.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam múltiplas barreiras de acesso, incluindo limitações arquitetônicas, urbanísticas, comunicacionais e atitudinais, além de fragilidades na articulação da Rede de Cuidado à Pessoa com Deficiência. Observou-se baixa acessibilidade dos serviços de atenção básica, expressa na insuficiente divulgação de informações, fragilidades nas ações de educação em saúde e na limitada orientação às famílias e comunidades, o que compromete o reconhecimento da atenção básica como porta de entrada preferencial.
As narrativas evidenciam essas barreiras como expressão de exclusão sistemática:
“A unidade existe, mas não é pra gente… a gente já chega sabendo que não vai conseguir acessar” (Usuário PcD).
“Parece que a gente tem que aprender sozinho como se virar, porque o serviço não se responsabiliza” (Familiar de PcD).
Destaca-se a persistência do modelo biomédico na prática profissional, que influencia a forma como a deficiência é compreendida e manejada nos serviços, contribuindo para baixa aceitabilidade do cuidado ofertado, reduzida adesão das PcD e baixa expectativa em relação aos serviços de saúde. Esse cenário repercute diretamente no protagonismo dessas pessoas no cuidado:
“A gente não é ouvido… decidem tudo pela gente, como se a gente não tivesse voz” (Usuário PcD).
No que se refere à disponibilidade e acomodação dos serviços, identificam-se desafios relacionados à baixa cobertura da atenção básica, insuficiente oferta de ações e dificuldades no acesso físico às unidades, agravadas por barreiras territoriais e urbanas. Observou-se também que a articulação entre os diferentes pontos da rede de atenção é incipiente, especialmente entre atenção básica e especializada, comprometendo a continuidade do cuidado.
Na dimensão da adequação, evidenciam-se fragilidades no processo de trabalho das equipes de saúde da família, incluindo limitações na qualidade técnica e interpessoal, barreiras comunicacionais e dificuldades na coordenação do cuidado:
“Cada serviço empurra pra outro, ninguém assume o cuidado… a gente fica perdido no meio do caminho” (Usuário PcD).
Observou-se ainda a intersecção entre deficiência e vulnerabilidade social, intensificando desigualdades no acesso e exigindo maior investimento financeiro, tempo e suporte logístico por parte dos usuários e suas famílias:
“Se a gente não tiver dinheiro e alguém pra ajudar, simplesmente não consegue se cuidar” (Familiar).
Tais achados indicam que o acesso não se limita à disponibilidade de serviços, mas envolve dimensões relacionais, simbólicas, organizacionais e estruturais que impactam diretamente a experiência das PcD no Sistema Único de Saúde, evidenciando tensões entre o arcabouço normativo e a materialização do cuidado na prática
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa aponta que as barreiras identificadas configuram expressões de capacitismo estrutural na rede de saúde, comprometendo a universalidade, a integralidade e a equidade preconizadas pelo SUS. Conclui-se que o enfrentamento dessas desigualdades exige o fortalecimento da atenção básica como coordenadora do cuidado, a incorporação do modelo social da deficiência nas práticas em saúde e a implementação de políticas públicas anticapacitistas, centradas nos direitos humanos e na participação social das PcD.
ENTRE O CHÁ E A REABILITAÇÃO FÍSICA: O COMUM PRODUZIDO NO CONVIVER
Comunicação Oral Curta
1 profissional do Campo da Saúde Coletiva, São Paulo,Brasil
Apresentação/Introdução
Este trabalho nasce de uma experiência vivida: a de ser paciente em um serviço de reabilitação física, a partir de uma posição implicada como paciente e profissional do campo da saúde. A partir desse entre-lugar, propõe-se uma análise implicada, tomando a experiência como analisador das formas de produção do cuidado no cotidiano dos serviços de saúde. Em diálogo com o conceito de comum em Ricardo Ayres e com a noção de convivência como produção de cuidado em Sabrina Ferigato, busca-se refletir sobre o que se produz nos encontros entre pacientes nesse contexto.
Objetivos
Analisar como o cuidado se produz nos espaços informais de convivência entre pacientes em um serviço de reabilitação física, destacando a emergência de um comum construído a partir da experiência compartilhada no cotidiano do cuidado.
Metodologia
Trata-se de um relato analítico, de caráter implicado, no qual a experiência de uma paciente-profissional é tomada como dispositivo de análise. A escrita se constrói a partir de cenas do cotidiano, esperas, encontros e grupos, entendidas como analisadores das dinâmicas de produção do cuidado, da convivência e das relações em saúde
Resultados e Discussão
Foi nos intervalos, nas esperas, corredores e momentos de pausa, especialmente na hora do chá, que o cuidado mais me atravessou. Sentamos lado a lado e conversamos: sobre futebol, novela, o tempo, o final de semana. Ali, não somos “a pessoa com síndrome de Down”, “o amputado” ou “a paciente neurológica”. Somos pessoas em convivência. E é nesse conviver que algo se produz. Estar ali já diz muito, mesmo quando ninguém precisa dizer nada.
Sem que nenhum profissional organize, emerge uma sociabilidade feita de cuidado, respeito e afeto. Formamos um coletivo de forma orgânica, acompanhando avanços, nos preocupando quando alguém falta, celebrando conquistas e sustentando frustrações. A gente se reconhece antes mesmo de se conhecer. Compartilhamos algo em comum: uma ruptura na vida que nos tirou do lugar de antes e nos lançou no desafio de habitar um novo corpo, com outras possibilidades e limites.
Nos encontros, esse comum não se dá pela homogeneidade, mas pela experiência compartilhada de construir a vida. Aprendemos que não se trata de ser melhor que o outro, mas de ser o melhor de si mesmo naquele momento. Descobrimos novas potências: dançar de outras formas, pintar, nadar e inventar outras formas de viver.
Ao tomar a convivência como produção de cuidado, esses espaços passam a ocupar lugar central na análise do cuidado e das práticas em saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Aponta-se a necessidade de reconhecer que o cuidado também se produz, e de forma potente, nos encontros, nas trocas e na vida que acontece entre as pessoas, independentemente de protocolos. Ao evidenciar a força dos espaços informais, desloca-se o olhar sobre a reabilitação física, valorizando dimensões frequentemente invisibilizadas nas práticas de saúde. A experiência, como analisador, permite afirmar que o comum não é dado, mas construído no conviver, sustentando modos de cuidado que ampliam as possibilidades de viver.
ARTICULAÇÃO ENTRE SUS E SUAS NO CUIDADO A PESSOAS COM DEFICIÊNCIA EM SERVIÇOS DE ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL: PERSPECTIVAS DE GESTORES
Comunicação Oral Curta
1 Universidade de Brasília (UNB)
Apresentação/Introdução
A institucionalização de pessoas com deficiência (PCD) em serviços de acolhimento integra o campo da proteção social especial do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), especialmente por meio das Residências Inclusivas e Casas Lares. Entretanto, as necessidades de cuidado dessa população ultrapassam o âmbito assistencial, demandando ações contínuas do Sistema Único de Saúde (SUS). A complexidade das condições de saúde, frequentemente associadas a comorbidades clínicas, sofrimento psíquico e processos de medicalização, evidencia a necessidade de articulação intersetorial entre saúde e assistência social. Apesar dos avanços normativos na construção da proteção social brasileira, persistem desafios na integração entre políticas públicas, repercutindo diretamente na qualidade do cuidado ofertado às PCD institucionalizadas.
Objetivos
Analisar a articulação entre SUS e SUAS no cuidado às pessoas com deficiência residentes em serviços de acolhimento institucional, a partir da perspectiva de gestores desses serviços, identificando desafios, estratégias adotadas e repercussões para o cuidado integral.
Metodologia
Trata-se de estudo transversal, descritivo, de abordagem qualitativa, voltado à análise da articulação entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) no cuidado a adultos com deficiência institucionalizados. Para assegurar rigor analítico, adotou-se a triangulação de dados, utilizando múltiplas fontes de evidência conforme proposto por Maria Cecília de Souza Minayo (2014).
A produção dos dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas presenciais realizadas entre novembro de 2023 e janeiro de 2025 com 10 gestores responsáveis por residências inclusivas e casas-lares. A seleção dos serviços considerou critérios previamente definidos: concentração em regiões metropolitanas, maior tempo de implantação, proximidade com instituições especializadas, maior número de acolhidos (considerando adultos com deficiência), modalidade do serviço e participação em etapa prévia da pesquisa. As entrevistas foram realizadas no Paraná (Cascavel e Foz do Iguaçu), sob gestão municipal; no Ceará (Fortaleza), sob gestão estadual; e em Minas Gerais (Belo Horizonte e Pará de Minas), em serviços geridos por Organização da Sociedade Civil em convênio com a gestão estadual. Este artigo faz parte de uma pesquisa nacional que foi aprovada no Comitê de Ética da Faculdade de Ciências da Saúde, da Universidade de Brasília.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que a articulação entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) constitui o principal desafio para a organização do cuidado às pessoas com deficiência em serviços de acolhimento institucional. Gestores relatam ausência de fluxos intersetoriais pactuados, comunicação irregular entre políticas públicas e indefinição persistente sobre responsabilidades assistenciais. A insuficiente integração entre os sistemas resulta na descontinuidade do acompanhamento em saúde, dificuldades de acesso à reabilitação, e principalmente em relação à atenção psicossocial, além da transferência recorrente de demandas sanitárias para equipes da assistência social.
Observou-se que a resposta da rede de saúde territorial é limitada, e os serviços de acolhimento passam a assumir funções que ultrapassam sua natureza socioassistencial, configurando arranjos híbridos de cuidado. Esse cenário contribui para processos de medicalização, dependência institucional e permanência prolongada dos residentes, evidenciando que a institucionalização não se sustenta apenas por necessidades individuais, mas também por fragilidades estruturais da proteção social. Os gestores destacam que iniciativas de articulação existentes dependem predominantemente de relações pessoais entre profissionais. Assim, a ausência de integração efetiva entre SUS e SUAS emerge como fator central que limita a integralidade do cuidado e a promoção da autonomia das pessoas com deficiência institucionalizadas.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a insuficiente integração entre SUS e SUAS compromete a efetivação do cuidado integral às pessoas com deficiência institucionalizadas, mantendo práticas fragmentadas e dependentes de arranjos locais. O fortalecimento da intersetorialidade, com definição de responsabilidades compartilhadas, construção de fluxos assistenciais e reconhecimento das residências inclusivas como pontos estratégicos da rede de cuidado, mostra-se fundamental para superar a lógica assistencial isolada. Os achados reforçam a necessidade de políticas públicas que ampliem a cooperação entre saúde e assistência social, garantindo atenção contínua, promoção da autonomia e efetivação de direitos das PCD em situação de acolhimento institucional.
POLÍTICA PÚBLICA PRA QUEM? BREVE REFLEXÃO SOBRE O DIREITO À SAÚDE DE INDÍGENAS COM DEFICIÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 Instituto Federal de Brasília
2 Universidade de Brasília
Apresentação/Introdução
Este trabalho constitui uma construção coletiva de duas pesquisadoras, uma indígena e outra não indígena, sobre políticas de saúde para pessoas indígenas com deficiência (PIcD) no Brasil. Articulamos o relato de vida da primeira autora enquanto PIcD e a pesquisa de doutorado em andamento da segunda autora sobre o tema, trazendo a experiência enquanto evidência em saúde.
Segundo o Censo de 2022, mais de 150 mil indígenas possuem deficiência. Embora o Brasil conte com marcos legais importantes, como o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (Sasi), há uma lacuna de políticas de saúde no que tange à intersecção etnia-deficiência, revelando a insuficiência de ações de cuidado para essa população.
Objetivos
Nosso objetivo é trazer à tona a temática, pouco abordada nas agendas políticas e científicas brasileira, elucidando as dificuldades desses corpos e o cenário atual das políticas de saúde.
Metodologia
A metodologia adotada é a pesquisa qualitativa com triangulação entre o relato de experiência e os dados analisados sobre as políticas de saúde.
Resultados e Discussão
Eu Siana, nasci prematura em decorrência de complicações no parto que resultaram em hipóxia cerebral. Apesar disso, o diagnóstico de Paralisia Cerebral só me foi dado aos 3 anos de idade, quando minha família sai da aldeia Coquinho, no Maranhão, para a cidade de Grajaú em busca do diagnóstico. À época, instituições de saúde indígena viabilizaram o transporte e a mediação para marcar consultas, mas o deslocamento marcou o início de uma busca ativa por cuidados.
Mudei para Brasília movida pela expectativa de melhoria na saúde, pois o atendimento Especializado não chegava em meu território. Contudo, precisei retomar de forma autônoma a busca por atendimentos. Minha irmã, já residente em Brasília, havia ouvido que na cidade o tratamento não seria o mesmo da aldeia, aqui “seríamos tratados como branco”. Quando cheguei não soube onde obter informações e não tive suporte de saúde indígena. Às vezes, não sabem nos atender porque “deveríamos estar na aldeia”, contudo, em nosso território não temos o atendimento necessário.
Se abandonamos nosso território em busca de qualidade de vida, na cidade continuamos desassistidos. Nossa maior dificuldade é nos fazermos visíveis para o Estado. Em minha aldeia, parentes com deficiência ainda enfrentam dificuldades, seja pela falta de acesso, seja pela dificuldade em continuar seus tratamentos, pois falta transporte, recursos e políticas. Na cidade, continuamos invisíveis, pois ao sermos tratados como brancos, perdemos nossos direitos à saúde indígena e à atenção diferenciada segundo nossa cultura e especificidade.
O Brasil obteve avanços expressivos na saúde dos povos indígenas e das pessoas com deficiência. A criação do Sasi, da Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena (SESAI) e da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), bem como a Lei Brasileira de Inclusão, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa com Deficiência (PNAISPD) e o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Viver Sem Limite) são imprescindíveis para garantir o acesso à saúde.
Contudo, ao abordarmos a intersecção etnia-deficiência, compreendemos o sofrimento de Siana. Para elucidar de forma breve, o Viver Sem Limite, por exemplo, não traz o indígena em suas ações, ainda que tenha tido a contribuição do Ministério dos Povos Indígenas. Já a PNASPI não aborda a deficiência, concentrando as ações em populações aldeadas ou próximas às aldeias, fazendo com que indígenas em contextos urbanos precisem, como Siana, recorrer ao SUS, que não conta com atenção diferenciada e capacitação intercultural dos profissionais.
Tais questões reforçam a exclusão e dificultam o acesso à saúde, contrariando recomendações internacionais. Segundo a Organização das Nações Unidas (2014), indígenas têm maior probabilidade de adquirir deficiências, reconhecendo a necessidade de criar medidas especiais e destacando recomendações específicas para essa população. A Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas também ressalta a importância de promover os direitos dessa população.
Somente nos últimos anos surgiram avanços no contexto brasileiro. Em 2023 a PNAISPD incluiu “etnia” nas intersecções da deficiência. Em 2025, a SESAI lançou um módulo de sistematização de dados sobre PIcD para fortalecer a elaboração de políticas públicas, ainda que para contextos aldeados. Nossa esperança é de que esse seja o início da reformulação na atenção à saúde das PIcD como um todo.
Conclusões/Considerações Finais
Concluímos que, apesar dos avanços, as PIcD ainda seguem esquecidas. As ações que consideram a intersecção etnia-deficiência são incipientes e as políticas vigentes achatam as experiências desses indígenas ao não considerarem suas especificidades. Tal questão viola o princípio de equidade do Sistema Único de Saúde e da atenção diferenciada do Sasi e reforça a vulnerabilidade desses corpos, invisibilizando sofrimentos e demandas. Superar esse cenário exige diálogo constante com os sujeitos afetados.
ACESSIBILIDADE LINGUÍSTICA NO SUS: DIFICULDADE NO ATENDIMENTO EM SAÚDE DA POPULAÇÃO SURDA DE MANAUS
Comunicação Oral Curta
1 UEA
Apresentação/Introdução
Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) tenha como base os princípios da universalidade, equidade e integralidade, a população surda ainda enfrenta barreiras no acesso aos serviços de saúde. De acordo com o Ministério da Saúde, estima-se que, no Brasil, mais de 5,8 milhões de pessoas possuem algum grau de deficiência auditiva, sendo aproximadamente 154 mil residentes no estado do Amazonas, segundo dados do IBGE. A principal barreira de acessibilidade a pessoa surda são os relacionados à comunicação ofertada nos serviços de saúde. A comunicação efetiva impacta diretamente a qualidade do cuidado, influenciando a continuidade dos tratamentos e a busca por assistência. No entanto, observa-se que a maior parte das pesquisas relacionadas à população surda concentra-se nas áreas da educação e linguística, mostrando a necessidade de ampliar o olhar para a saúde sob uma perspectiva social.
Objetivos
Este estudo tem como objetivo analisar as narrativas de pessoas surdas sobre o atendimento à saúde no Sistema Único de Saúde em Manaus, à luz da Análise de Discurso Crítica.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, de abordagem narrativa, com base na Análise de Discurso Crítica. Participaram da pesquisa cinco surdos, maiores de 18 anos, vinculadas à Associação de Surdos de Manaus (ASMAN) e a coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas individuais, com a presença de tradutor-intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que a utilização de terminologias inadequadas, como o termo “mudo”, por profissionais de saúde revela não apenas desconhecimento dos termos, mas também a desconsideração da identidade surda enquanto construção cultural e linguística, reforçando a invisibilização desse grupo nos serviços de saúde. Além disso, observa-se o despreparo dos profissionais e das unidades para o atendimento à pessoa surda, principalmente no que diz respeito a utilização da Libras e de tecnologias de apoio que auxiliam na comunicação dessa população, comprometendo a efetividade e a resolubilidade do cuidado. As barreiras de acessibilidade linguística tornam a pessoa surda dependente de terceiros (familiares e amigos) para a mediação da comunicação, limitando sua autonomia e gerando situações de violação de direitos e desigualdade em saúde. Além disso, a ausência de recursos visuais, como sinalização adequada, e limitações no acesso à internet para uso de tecnologias que auxiliam na comunicação, evidenciam a inadequação estrutural dos serviços para o atendimento a essa população. Esse cenário revela uma prática baseada na língua oral, contribuindo para a manutenção de um ambiente pouco acessível e excludente no âmbito do Sistema Único de Saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Com isso, conclui-se que a inacessibilidade linguística da população surda nos serviços de saúde ocasiona perda de autonomia, constrangimentos e prejuízos ao cuidado efetivo, evidenciando a necessidade de mudanças estruturais e organizacionais nas unidades de saúde. Tornando-se fundamental proporcionar aos profissionais de saúde meios adequados para o atendimento equânime e inclusivo da pessoa surda.
TECNOLOGIAS ASSISTIVAS MÓVEIS EM COMUNICAÇÃO AUMENTATIVA E ALTERNATIVA NO BRASIL: ENTRE O MODELO BIOMÉDICO E O DIREITO À COMUNICAÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 USP
Apresentação/Introdução
A tecnologia assistiva tem sido historicamente associada a recursos voltados à reabilitação física, como órteses e próteses, evidenciando uma forte influência do modelo biomédico. Nesse cenário, tecnologias voltadas à comunicação ainda ocupam um lugar secundário. No caso da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), especialmente para pessoas com necessidades complexas de comunicação (NCC), o acesso a recursos adequados não é apenas uma questão funcional, mas condição para participação social, desenvolvimento da linguagem e exercício de direitos. A Política Nacional de Tecnologia Assistiva (PNTA), em vigor no Brasil, não coloca a CAA de forma explícita como eixo estruturante, o que acaba reforçando uma visão limitada da deficiência, com foco nas limitações corporais e pouco sensível às barreiras comunicacionais. A CAA não depende exclusivamente da existência de recursos tecnológicos, mas de um conjunto de fatores que incluem formação de profissionais, orientação às famílias, condições socioeconômicas e organização dos serviços. Nesse sentido, o mapeamento das tecnologias disponíveis constitui uma etapa inicial importante para compreender as condições materiais de acesso à comunicação no contexto brasileiro.
Objetivos
Mapear e discutir as Tecnologias Assistivas Móveis em Comunicação Aumentativa e Alternativa (TAMCAA) voltadas a pessoas com NCC no Brasil, buscando compreender sua disponibilidade, formas de uso, acessibilidade e continuidade
Metodologia
Estudo exploratório, de abordagem mista, quantitativa e qualitativa, caracterizado como um estado da arte ampliado. A coleta de dados foi realizada em três etapas: (1) levantamento das TAMCAA por meio de buscas na internet; (2) identificação de autores, desenvolvedores e instituições responsáveis; e (3) contato com esses responsáveis para obtenção de informações complementares sobre uso, manutenção e acesso às tecnologias. A pesquisa foi realizada em sites acadêmicos e em fontes de literatura cinzenta, com as palavras-chave “comunicação aumentativa e alternativa”, “tecnologia assistiva”, “aplicativos móveis”, “autismo”, “AAC”, “assistive technology” e “mobile applications”. Os critérios de inclusão utilizados foram: TAMCAA desenvolvidas no Brasil, destinadas a pessoas com NCC, com foco em comunicação, referências publicadas ou disponibilizadas no período de 2010 a 2025, disponíveis em formato móvel ou descritas em referências públicas. Os critérios de exclusão foram: aplicativos exclusivamente educacionais sem função comunicativa, tecnologias não móveis, ferramentas estrangeiras sem adaptação brasileira e duplicatas. Na terceira etapa, os autores identificados foram convidados a participar da pesquisa por meio do preenchimento de um formulário eletrônico elaborado na plataforma REDCap.
Resultados e Discussão
Foram identificadas 15 TAMCAA nacionais, porém 5 foram excluídas pelos critérios de inclusão e exclusão, então 10 foram incluídas no estudo, entre essas, 2 foram desenvolvidas por pais de crianças com NCC e as demais são de equipes de informática. 7 das TAMCAA não apresentavam informações sobre atualização, manutenção ou continuidade de desenvolvimento. Nesses casos, as referências encontradas estavam vinculadas a projetos acadêmicos pontuais, sem evidências de versões posteriores ou suporte ativo aos usuários. Também se evidencia a falta de estudos de validação e de informações claras sobre evidências de uso, o que dificulta a tomada de decisão por profissionais e famílias. Apenas 3 tecnologias mencionam explicitamente a participação de fonoaudiólogos, o que sugere possível distanciamento entre o conhecimento clínico-linguístico e os processos de desenvolvimento tecnológico. Outro aspecto relevante é a baixa visibilidade e disseminação dessas ferramentas, muitas vezes restritas a contextos específicos. Além disso, a dependência de tecnologias importadas, geralmente pagas e com custos elevados, configura uma barreira importante de acesso, especialmente para famílias em contextos de maior vulnerabilidade social, reforçando desigualdades no acesso à comunicação. Na terceira etapa do estudo somente três pessoas responderam ao instrumento, tal que a não participação pode refletir descontinuidade no desenvolvimento das respectivas TAMCAA ou desinteresse dos responsáveis.
Conclusões/Considerações Finais
Embora as TAMCAA tenham potencial para ampliar significativamente as possibilidades de comunicação e participação social, seu acesso ainda está longe de se configurar como um direito garantido. Os achados apontam para a necessidade de revisão de políticas públicas, como a PNTA, com a inclusão da comunicação como dimensão central do cuidado e da inclusão, além do incentivo à produção e sustentabilidade de tecnologias nacionais com a participação de diferentes atores, como profissionais da saúde, desenvolvedores, pesquisadores e famílias, em uma perspectiva que enfrente o capacitismo e promova maior equidade e inserção social.
DIVERSIDADE, EQUIDADE E INCLUSÃO EM UM SISTEMA DE 4 TIERS APLICADO À APRENDIZAGEM DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 Universidade Federal do Pará - UFPA
Apresentação/Introdução
A educação inclusiva se tornou uma estratégia essencial para eliminar obstáculos e incentivar a justiça nas instituições de ensino (BARROS et al, 2025). Contudo ainda pode ser visto a exclusão dessas pessoas, pois destacam-se: instituições de ensino não oferecem acessibilidade física para estudantes com deficiências motoras; carência de recursos específicos para atender às necessidades de alunos com deficiências visuais; falta de habilidade em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e a presença de intérpretes para estudantes surdos; falta ou distância de serviços de apoio ao aluno e ao educador; resistência de docentes que afirmam não estarem preparados para lidar com alunos com deficiências em turmas regulares; entre outros fatores (Dos Santos Silva, 2023). As razões apresentadas escondem questões ainda mais complexas, entre as quais ressaltamos a dificuldade das organizações sociais em se adaptarem a mudanças e inovações, devido à rotina e à burocracia que fortalecem suas estruturas, profundamente enraizadas nas tradições e na administração de seus serviços (Dutra, 2011). Ao que se refere aos Tiers na investigação, se aplica a respeito de categorizações que estruturam e guardam informações em várias camadas, alocando os dados de acordo com sua relevância e a frequência com que são acessados, que também podem ser aplicados ao processo de Inclusão.
Objetivos
Descrever a implementação de um modelo de inclusão em 4 TIERS, com o intuito de minimizar as barreiras enfrentadas por Pessoas com Deficiências durante a trajetória educacional na Graduação de Enfermagem.
Metodologia
Trata-se de uma investigação que utiliza uma abordagem qualitativa, com caráter exploratório e descritivo, realizada no cenário de uma Universidade da região norte do Brasil, onde participaram cinco Discentes PcDs do curso de Enfermagem de Universidade do Estado do Pará no período de 2023 a 2025, no qual foi aplicado um questionário de forma presencial para realizar as entrevistas com os participantes embasada na análise de um Modelo de inclusão em 4 TIERS, que são utilizados para avaliar a confiabilidade e a disponibilidade de um sistema, aplicado a estudantes com deficiência que estão matriculados regularmente em no curso. A opção pela abordagem qualitativa é justificada pela necessidade de entender a fundo as experiências pessoais, visões e significados que os participantes dão às suas vivências acadêmicas no ambiente do ensino superior.
Resultados e Discussão
Os quatro níveis de TIERS foram aplicados às questões levantadas durante a pesquisa realizada por estudantes de enfermagem, resultando nas seguintes categorias e seus efeitos sobre o público afetado: Sem a base do TIER 1 (infraestrutura), nenhum nível de suporte é funcional, pois as limitações estruturais são desafiadoras de serem resolvidas, envolvendo tanto a configuração do espaço quanto a falta de iniciativa dos responsáveis que poderiam buscar melhorias. Na ausência do TIER 2 (diálogo), a infraestrutura perde relevância, já que para resolver um problema é fundamental ouvir aqueles que estão mais impactados, o que não ocorre. Assim, as autoridades da instituição não conseguem encontrar soluções. Sem o TIER 3 (adaptação), a verdadeira aprendizagem não ocorre, pois não são consideradas as limitações dos afetados, que muitas vezes são a "minoria", resultando em sua exclusão sem preocupação com a efetivação do aprendizado. Sem o TIER 4 (transformação), a inclusão permanece insatisfatória, uma vez que afirmar que se é inclusivo não é suficiente se não houver mudanças nas metodologias de ensino. A implementação dessa estrutura é uma responsabilidade institucional que não pode ser delegada: trata-se de um compromisso legal e ético de garantir acesso equitativo e uma permanência digna. Os exemplos coletados nesta pesquisa indicam que, quando os níveis de TIERS estão adequadamente estruturados, os alunos se destacam, aprendem efetivamente e se tornam profissionais críticos e capazes de provocar transformações.
Conclusões/Considerações Finais
Embora não seja uma característica comum das instituições de ensino no Brasil, existe uma forte inclinação para a meritocracia e o elitismo educacional em todos os níveis. Essa situação pode levantar obstáculos atitudinais, que incluem preconceitos e discriminações por parte daqueles que interagem ou que irão interagir com esse grupo, afetando sua convivência social e podendo resultar em segregação (Amâncio & Mendes, 2023). Dessa forma, são valorizados os estudantes que se adequam a um padrão idealizado de forma artificial, deixando de lado e excluindo aqueles que não conseguem atender a essa expectativa. Por outro lado, é importante reconhecer que as instituições possuem objetivos específicos e nem sempre um novo enfoque, como a inclusão, se alinha com seus interesses imediatos.
CORAL FESF-SUS COMO ESTRATÉGIA DE INCLUSÃO SOCIAL NO PROJETO PRIMEIRO EMPREGO
Comunicação Oral Curta
1 Uni Jorge
2 CEEP Musica
3 FESF SUS
4 UnB
Contextualização
Este relato de experiência apresenta o Coral FESF-SUS: “O canto que cura” como uma estratégia de inclusão social no âmbito do Projeto Primeiro Emprego (PPE), articulado ao Núcleo de Apoio Psicossocial (NAPS) e à metodologia de emprego apoiado. A iniciativa emerge no contexto dos desafios contemporâneos relacionados à inserção e permanência de pessoas em situação de vulnerabilidade no mundo do trabalho, especialmente aquelas em acompanhamento por questões de saúde mental, pessoas com deficiência (PcD) ou em situação de fragilização de vínculos sociais.
Nesse cenário, torna-se fundamental a construção de estratégias que ultrapassem as abordagens tradicionais de inclusão, incorporando práticas que valorizem a subjetividade, a expressão e o fortalecimento de vínculos. A arte, em especial o canto coral, apresenta-se como um potente dispositivo de cuidado, por favorecer a escuta, a convivência coletiva, o sentimento de pertencimento e o protagonismo dos sujeitos.
Assim, a proposta do coral institucional se insere como uma prática inovadora no campo da saúde do trabalhador e da inclusão social, ao promover não apenas a participação em atividades culturais, mas também a ampliação de espaços de visibilidade e reconhecimento para trabalhadores historicamente atravessados por estigmas, incluindo pessoas com deficiência e aqueles em sofrimento psíquico.
Descrição
O PPE, executado pela Fundação Estatal Saúde da Família (FESF-SUS), é uma política pública voltada à inserção e permanência no mundo do trabalho, contemplando pessoas de diferentes faixas etárias em situação de vulnerabilidade. Em articulação com o Núcleo de Apoio Psicossocial (NAPS) e a metodologia de emprego apoiado, o programa acompanha trabalhadores considerando suas singularidades, promovendo suporte contínuo para o desenvolvimento de suas potencialidades e fortalecimento de sua autonomia.
Nesse contexto, a experiência consistiu na inserção de trabalhadores em acompanhamento nas atividades do coral institucional, o Coral FESF-SUS: “O canto que cura”, que dispõe de uma equipe estruturada composta por regência, preparação vocal e arranjos musicais. A proposta envolveu a participação ativa desses trabalhadores em todas as etapas do processo, desde os ensaios até as apresentações, favorecendo o desenvolvimento de habilidades como expressão corporal e vocal, trabalho em grupo, disciplina e compromisso coletivo.
Foram realizadas duas apresentações institucionais: uma no Seminário de Projetos de Melhoria, em outubro de 2025, e outra no V Seminário de Saúde Mental, em janeiro de 2026. Para a composição do grupo, foram realizados convites aos trabalhadores acompanhados pelo PPE, sendo que seis aceitaram participar da proposta. Como estratégia de preparação, foram realizados três ensaios prévios para cada apresentação, nos quais foram trabalhados aspectos musicais, integração grupal e segurança para a apresentação em público.
A condução da atividade ocorreu de forma acolhedora e gradual, respeitando os limites e potencialidades de cada participante, o que possibilitou maior engajamento e fortalecimento dos vínculos entre os trabalhadores e a equipe do coral. A experiência também favoreceu a interação entre trabalhadores de diferentes setores e trajetórias, ampliando o sentimento de pertencimento institucional.
Período de Realização
O período de realização compreende o ano de 2025 até janeiro de 2026.
Objetivo
Fortalecer a inclusão no ambiente de trabalho por meio de prática coletiva que estimule a participação de trabalhadores em acompanhamento, ampliando sua presença em espaços institucionais. Busca-se desenvolver autonomia, engajamento e reconhecimento social, além de reduzir barreiras relacionais e promover práticas inovadoras de cuidado e inclusão articuladas às políticas de trabalho e saúde mental.
Resultados
Destacam-se a integração entre os participantes, o fortalecimento da autoestima e a ampliação da visibilidade dos trabalhadores do PPE dentro da instituição. As apresentações possibilitaram a ocupação de espaços de destaque, contribuindo para a redução de estigmas relacionados à saúde mental, PcD e à vulnerabilidade social. Após as apresentações, observou-se aumento significativo no interesse de outros trabalhadores em participar do coral.
Aprendizado e Análise Crítica
Evidencia-se o potencial da arte como dispositivo de cuidado e inclusão, bem como a importância do apoio institucional e do trabalho intersetorial. A experiência demonstra que, com suporte adequado, trabalhadores em acompanhamento psicossocial podem se engajar de forma ativa em atividades coletivas.
Destaca-se, ainda, a necessidade de consolidar a iniciativa como ação permanente, evitando sua limitação a eventos pontuais. Como perspectiva futura, propõe-se a ampliação da participação para 20 trabalhadores em acompanhamento, com apresentação prevista para junho de 2026, fortalecendo o coral como uma estratégia contínua de inclusão, cuidado e promoção da saúde mental no contexto do Projeto Primeiro Emprego.
Realização: