Programa - Comunicação Oral - CO10.2 - Interfaces entre Educação Popular, Promoção da Saúde e Vigilância Popular no enfrentamento às Emergências Climáticas e Racismo Ambiental em territórios tradicionais
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ANCESTRALIDADE, EDUCAÇÃO E ESCUTA: UMA EXPERIÊNCIA DE PESQUISA-AÇÃO NA COMUNIDADE QUILOMBOLA DE SERRA FEIA, NO BIOMA CAATINGA, EM CACIMBAS, PARAÍBA .
Comunicação Oral
1 PROADI-SUS
Apresentação/Introdução
O presente trabalho aborda a Educação Popular e a Cartografia Social como Processo
Organizativo e Sustentável da Comunidade Quilombola de Serra Feia – Cacimbas, Paraíba,
Brasil, através de uma iniciativa de pesquisa-ação que tem como objetivo compreender o
enfrentamento às vulnerabilidades étnico-raciais, sociais e ambientais que atingem
comunidades tradicionais no semiárido paraibano. Este trabalho está inserido no projeto de
pesquisa "Vulnerabilidades Étnico-Raciais, Ambiente, Clima e Impacto na Saúde
(VERACIS)" do Ministério da Saúde em parceria com Hospital Israelita Albert Einstein,
por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de
Saúde (PROADI-SUS). A iniciativa parte da concepção de que a educação popular, aliada à
cartografia social, pode fortalecer processos de autonomia, pertencimento e organização
comunitária. Localizada no município de Cacimbas, região do Cariri paraibano, a
Comunidade Quilombola de Serra Feia encontra-se em um território marcado pelo clima
semiárido, relevo irregular e vegetação típica da caatinga.
Objetivos
Nesse contexto, o projeto busca articular saberes ancestrais, populares e científicos em prol
da saúde, da educação, da cultura e da espiritualidade local. A relevância da experiência
reside na construção coletiva do conhecimento, no reconhecimento da ancestralidade
quilombola e no compromisso social da universidade em dialogar com realidades
historicamente marginalizadas.
Metodologia
O desenvolvimento do projeto envolveu ações participativas, pautadas na pedagogia
freireana e na pesquisa de campo como instrumentos de escuta e diálogo. As principais
etapas metodológicas utilizadas foram: aplicação de questionários socioambiental e de
saúde junto às famílias da comunidade, visando caracterizar o contexto socioeconômico,
cultural e ambiental; realização e transcrição de entrevistas semiestruturadas com lideranças
locais, com foco nas práticas culturais, na organização comunitária e nos desafios
enfrentados; observação participante, realizada durante visitas periódicas ao território,
permitindo acompanhar a rotina comunitária e registrar aspectos relevantes para a
sistematização dos dados; organização e análise dos registros de campo, incluindo
anotações, narrativas e imagens; e atividades formativas, rodas de conversa, que integraram
moradores, estudantes e docentes no debate sobre educação, identidade quilombola,
espiritualidade e sustentabilidade.
Resultados e Discussão
Essas atividades nos permitiram compreender a força dos saberes local e a necessidade do
conhecimento acadêmico dialogar com as experiências vividas pelas comunidades
tradicionais. As conversas com moradores e lideranças revelaram a potência da tradição
oral, a importância da cultura e da fé como formas de aprendizado e resistência. Essa
vivência mostrou à equipe que a pedagogia ultrapassa os limites da sala de aula, alcançando
a comunidade, o território e as relações sociais que produzem aprendizado e fortalecem o
sentimento de pertencimento. As ações foram realizadas em ambiente comunitário —
residências, espaços coletivos, no próprio território — utilizando materiais simples
(gravadores, cadernos de campo, questionários online) e priorizando o diálogo horizontal
entre universidade e comunidade. Com base nos resultados observados, percebe-se que o
projeto de pesquisa-ação tem contribuído para fortalecer a organização comunitária,
promover o reconhecimento das identidades quilombolas e estimular processos educativos
emancipatórios. A experiência responde os objetivos de integrar pesquisa e engajamento
comunitário, ampliando a presença e o compromisso social em territórios vulnerabilizados.
Além disso, a vivência na Comunidade evidenciou que a educação é um processo que se
constrói no encontro entre diferentes formas de conhecimento. Reconhecer os saberes
populares, a ancestralidade e as práticas comunitárias são essenciais para a construção de
uma pedagogia crítica, inclusiva e antirracista. Em síntese, ao articular saberes ancestrais,
populares e científicos, o projeto reafirma a centralidade do diálogo horizontal e da escuta
sensível como princípios formativos, contribuindo para a construção de processos
educativos comprometidos com a emancipação social e o enfrentamento das desigualdades
étnico-raciais, sociais e ambientais.
Conclusões/Considerações Finais
ultrapassa os limites institucionais e se concretiza no território, nas práticas culturais e nas
relações comunitárias. A ação ao promover a construção coletiva do conhecimento,
fortalece o protagonismo quilombola e consolida a universidade como parceira na luta por
reconhecimento, justiça social e sustentabilidade, reafirmando seu papel social na
valorização das experiências e dos saberes produzidos pelas comunidades tradicionais.
EDUCAÇÃO EM SAÚDE E RACISMO AMBIENTAL: A LUDICIDADE COMO FERRAMENTA PARA TRANSFORMAR
Comunicação Oral
1 Universidade Estadual de Feira de Santana
2 Secretqaria Municipal de Saúde de Feira de Santana
Contextualização
O presente relato de experiência aborda a articulação entre o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde/Equidade) e o Programa Saúde na Escola (PSE) em uma Unidade de Saúde da Família (USF) em Feira de Santana-BA. A experiência centra-se na utilização da arte teatral como ferramenta pedagógica para a conscientização sobre a Dengue, direcionada a crianças de 3 a 5 anos, inseridas em um território marcado por vulnerabilidades socioambientais.
Descrição
A intervenção foi conduzida pelo Grupo Tutorial (GT) 02 do PET-Saúde/Equidade, vinculado à Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), sob o eixo temático "Raça/Cor e Deficiências". A atividade consistiu em uma encenação teatral planejada e executada de forma interprofissional por discentes de Enfermagem, Psicologia, Odontologia, Pedagogia e Medicina. O público-alvo foram estudantes da Educação Infantil de uma escola municipal no bairro Rua Nova. A ação ocorreu em estreita parceria com os profissionais das USF Rua Nova II, III e Barroquinha, integrando o ensino-serviço-comunidade. Adotou-se uma metodologia lúdica e dialógica, utilizando recursos sensoriais (fantasias, máscaras, pinturas) e sonoros (momentos musicais interativos). Essas estratégias foram desenhadas para garantir a acessibilidade da linguagem e o engajamento infantil, transformando as crianças em sujeitos ativos e agentes multiplicadores do cuidado em seus núcleos familiares.
Período de Realização
As etapas de planejamento pedagógico ocorreram em setembro de 2025, com a execução da atividade em 22 de outubro de 2025.
Objetivo
Analisar a relevância de ações educativas lúdicas na promoção da saúde, sob a ótica da determinação social. Busca-se refletir como o racismo ambiental e as desigualdades estruturais influenciam a morbimortalidade por dengue na população negra e a vulnerabilidade de territórios historicamente marginalizados.
Resultados
A receptividade infantil foi evidenciada pela participação orgânica e interação direta com os personagens. O uso de elementos simbólicos (máscaras e figurinos) facilitou a transposição de conceitos complexos de vigilância epidemiológica para o universo infantil de forma leve e compreensível. Durante a encenação, as crianças manifestaram curiosidade e compartilharam vivências domésticas sobre o vetor, demonstrando a eficácia da estratégia em romper a passividade do espectador. A atividade consolidou o entendimento de que a prevenção é uma prática coletiva, estimulando o protagonismo infantil no monitoramento de focos do mosquito desde a base educacional.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência reafirma que a promoção de estratégias preventivas contra o Aedes aegypti deve ser priorizada desde a infância, especialmente em territórios majoritariamente negros. De acordo com a Fiocruz (2025), a vulnerabilidade social é um fator determinante na letalidade por dengue; evidências indicam que indivíduos negros enfrentam quase o dobro do risco de óbito nos primeiros 15 dias de sintomas quando comparados a brancos. Em Feira de Santana, essa disparidade é acentuada por uma segregação racial e socioespacial histórica. O bairro Rua Nova ilustra esse fenômeno, consolidado pela aglomeração de populações negras oriundas de fluxos migratórios rurais e regionais (Santos, 2024). Diante disso, a atuação do PSE no território supera a dimensão biológica do agravo. Ela se estabelece como uma ferramenta política de enfrentamento ao racismo ambiental, unindo a educação em saúde ao compromisso inadiável com a justiça social e a equidade étnico-racial. Assim, é imperativo que intervenções dessa natureza ganhem notoriedade, diversificando linguagens e metodologias interativas para democratizar o acesso aos temas de saúde coletiva. A eficácia da prevenção reside na capacidade de integrar as disparidades sociais e raciais ao planejamento estratégico, rompendo com abordagens genéricas que ignoram o território. Investir na qualificação permanente de profissionais e educadores sob a ótica do racismo ambiental e dos determinantes sociais é o que sustenta o vigor dessas ações. Em última análise, fortalecer tais práticas significa não apenas mitigar riscos epidemiológicos, mas assumir um compromisso ético com a construção de uma sociedade efetivamente equânime e consciente de seus direitos.
ENTRE MAPAS E MARGENS: JUSTIÇA CLIMÁTICA E RACISMO AMBIENTAL EM TERRITÓRIOS VULNERABILIZADOS
Comunicação Oral
1 PUC RIO
2 ENSP/Fiocruz
3 IMS/UERJ
4 FAVENI
5 USP
6 FACC/UFRJ
Apresentação/Introdução
Introdução: O processo saúde-doença deve ser compreendido como uma construção histórico-social intrinsecamente vinculada ao território. Mais do que o resultado de fatores isolados que incidem sobre as condições de vida dos indivíduos, trata-se de uma expressão coletiva, produzida por relações de poder, iniquidades estruturais e dinâmicas socioterritoriais que se entrelaçam ao longo do tempo. As crises socioambientais evidenciam a necessidade de compreender essas relações. Em contextos urbanos marcados por profundas disparidades socioespaciais, populações historicamente marginalizadas residem em áreas de degradação socioambiental, com isso, estão expostas de maneira desproporcional a risco ambientais, configurando situações que podem ser compreendidas à luz dos debates sobre justiça climática e racismo ambiental. Conforme Sueli Carneiro (2011), o racismo estrutura desigualdades profundas no acesso a direitos e na produção de subjetividades. Nesse sentido, a invisibilidade de problemas em escala local, como poluição, áreas de alagamento, área inapropriadas de descartes de resíduos e dificuldades de deslocamento, limita a capacidade de políticas públicas responderem às demandas reais locais e de promover condições igualitárias de saúde, conforme Fanon (2008), tais condições produzem impactos profundos na subjetividade, marcados pela internalização da opressão e pela desumanização.
Objetivos
Objetivo: Apoiar atores sociais para aplicar a metodologia do Mapa Falante, desenvolvendo competências para construir diagnósticos participativos com a percepção da justiça climática e do racismo ambiental.
Metodologia
Metodologia: Busca utilizar a cartografia social denominada Mapa Falante CEDAPS, que articula ferramentas de geoprocessamento com processos participativos de produção de dados, tomando a população local como sujeito ativo na construção do conhecimento sobre seu território. Foram utilizados, na produção dos dados secundários, indicadores socioeconômicos e dados físico-ambientais, aplicados ao município de Manaus. A integração dessas variáveis possibilita evidenciar como grupos socialmente mais vulnerabilizados estão, frequentemente, mais expostos a condições ambientais adversas, reforçando a relação entre justiça climática e racismo ambiental. Em complemento, sugerimos a cartografia participativa para produzir evidências territoriais “de baixo para cima” sobre ambiente e saúde, com foco em justiça ambiental e diálogo com o tema interculturalidade, ambiente e saúde, por meio de informações geoprocessadas e incorporados ao mapa do Google My Maps, seguida de qualificação dos dados selecionados e caminhos de uso para incidência em políticas públicas.
Resultados e Discussão
Resultados e discussão: No campo da Saúde Coletiva, o debate racial tem historicamente se concentrado nos efeitos do racismo sobre a população negra, mantendo a branquitude como categoria universal. Esse silenciamento contribui para a manutenção de privilégios raciais, operando por meio do que Cida Bento (2022) denomina “pacto narcísico da branquitude”, onde sujeitos brancos se protegem mutuamente para preservar posições de poder. Nesse contexto, o racismo ambiental evidencia como territórios racializados são expostos à precarização, enquanto a branquitude se mantém livre dessas violências. Dessa forma, ao integrar cartografia social e participação comunitária, a pesquisa se posiciona como estratégia de tensionamento das dinâmicas que sustentam o pacto da branquitude, ao deslocar o lugar de produção do conhecimento e visibilizar os territórios historicamente marginalizados. Ao produzir informações territorializadas a partir das experiências das próprias comunidades, busca-se não apenas identificar entraves ao desenvolvimento local, mas evidenciar como a distribuição desigual de riscos e recursos está diretamente relacionada à manutenção de privilégios. Nesse sentido, a iniciativa contribui para a formulação de políticas públicas mais sensíveis às realidades territoriais, fortalecendo estratégias de enfrentamento às crises climáticas e ao racismo ambiental, ao mesmo tempo em que promove o protagonismo comunitário e a construção de uma justiça socioambiental efetivamente democrática, capaz de enfrentar desigualdades estruturais e promover justiça socioambiental nos territórios vulnerabilizados.
Conclusões/Considerações Finais
Considerações finais: A utilização do Mapa Falante como ferramenta de cartografia social demonstra potencial para ampliar a visibilidade de problemas socioambientais em escala local e fortalecer processos participativos na produção de conhecimento sobre o território. Ao articular saberes locais e ferramentas de geoprocessamento, a metodologia contribui para a construção de diagnósticos mais sensíveis às realidades locais, fortalecendo estratégias de justiça ambiental, promoção da saúde coletiva e enfrentamento das desigualdades socioambientais. Assim, reconhecer o papel estruturante da raça na produção do território e do cuidado é fundamental para a construção de uma Saúde Coletiva equitativa.
O SISTEMA MÉDICO LOCAL BASEADO EM PLANTAS DE UMA COMUNIDADE QUILOMBOLA: MECANISMOS COGNITIVOS, FATORES SOCIOCULTURAIS E AMEAÇAS CLIMÁTICAS
Comunicação Oral
1 ISC/UFBA
2 UNIVERSITY OF WARWICK
Apresentação/Introdução
O Baixo Sul da Bahia reúne quinze municípios marcados por um mosaico socioecológico de Mata Atlântica fragmentada, sob pressão da expansão agropecuária, apesar da presença de comunidades camponesas associadas à manutenção da cobertura vegetal (Silva et al., 2025). Nesse contexto, a comunidade quilombola do Boqueirão, em Teolândia (BA), destaca-se pela riqueza sociocultural e biodiversidade, bem como pelo uso de plantas medicinais nas práticas de cuidado e promoção da saúde (Mota et al., 2025).
O estudo examina como o Sistema Médico Local (SML) se organiza em torno do manejo de plantas, articulando práticas, mecanismos cognitivos e fatores socioculturais na relação humano-biota, e analisa como mudanças climáticas podem desestabilizar esse sistema, ameaçando sua base ecológica e suas condições de funcionamento.
Objetivos
• Caracterizar a organização do SML a partir do manejo de plantas medicinais, considerando mecanismos cognitivos e fatores socioculturais;
• Analisar como mudanças climáticas no Baixo Sul afetam a biodiversidade e reconfiguram as bases ecológicas do SML.
Metodologia
Estudo multimétodo que articula etnografia e pesquisa baseada em artes, com abordagem participativa. Entre 2022 e 2025, pesquisadores(as) do Projeto ECLIPSE realizaram inserção prolongada na comunidade, acompanhando práticas de cuidado. Foram produzidos materiais empíricos verbais, visuais e plásticos, incluindo entrevistas, notas de campo, registros audiovisuais e oficinas. A análise, de orientação conversacional e interacional, focalizou a construção de sentido nas interações, incorporando materiais não verbais (Dantas, 2007).
Resultados e Discussão
Sistemas Médicos Locais (SML) são “construções bioculturais” que articulam conhecimentos e práticas voltados ao tratamento de doenças, incluindo percepção de sintomas e causas, uso de abordagens terapêuticas e avaliação de tratamentos (Abreu et al., 2023). O termo “médico” é aqui compreendido à luz do pluralismo médico e assistencial, como campo organizado de práticas de cuidado e de saúde que reconhece a coexistência de sistemas terapêuticos socialmente construídos (Menéndez, 1984; 2020; Perdiguero-Gil; Comelles, 2020). O conceito, portanto, sustenta a existência de diferentes “racionalidades médicas”, hegemônicas e contra-hegemônicas (Luz, 2019).
No Boqueirão, o SML organiza-se em torno da produção de conhecimento sobre plantas, conduzida por especialistas locais, como parteiras, rezadeiras e curandeiras, que acumulam e atualizam saberes de manejo e uso em diferentes circunstâncias.
A interação com as especialistas indica que os mecanismos cognitivos do SML podem ser compreendidos em termos ecológico-enativistas, nos quais o conhecimento sobre plantas emerge do acoplamento entre corpo, prática e ambiente, e não como informação estável armazenada (Brouillet, 2020). A memória opera como reativação e atualização de padrões sensório-motores e experiências anteriores em função das demandas do presente, sendo continuamente modulada nas práticas de cuidado. O reconhecimento e a transmissão do conhecimento sobre plantas envolvem, assim, processos integrados como ver, tocar, lembrar e agir.
Fatores socioculturais do SML envolvem crenças, ideias e comportamentos relacionados a interação humano-vegetal. Observamos que certas especialistas podem atribuir graus diferentes de senciência aos organismos vegetais, encarando certas plantas como dotadas de sensibilidade e modos de relação com o mundo que lhes são próprios (Mota et al., 2025). Ademais, existem categorias locais de adoecimento e/ou mal-estar como, por exemplo, o chamado “mal do vento”, que possui sintomas que relacionamos ao derrame cardiovascular, ou o “passar do vento”, que expressa a redução da potência física ou psíquica (Santos, 2023).
A pressão agropecuária no Baixo Sul tem ameaçado a biodiversidade do Boqueirão por meio da expansão de modelos agrícolas que comprometem a cobertura vegetal do quilombo. Estudos apontam correlações negativas significativas entre desmatamento e estabilidade climática na região (Silva et al., 2025), sendo o aquecimento local associado à redução da regeneração florestal e a alterações ecológicas profundas, enquanto chuvas intensas podem tanto favorecer a regeneração quanto estimular a expansão agrícola, acentuando o desequilíbrio ambiental.
Conclusões/Considerações Finais
A preservação e o desenvolvimento dos SML são fundamentais, pois esses sistemas constituem importantes contextos de produção de conhecimento sobre plantas medicinais e sobre o tratamento de doenças, relevantes tanto para especialistas locais quanto para cientistas e pesquisadoras(es) (Santoro et al, 2024). Além disso, atuam como aliados nas práticas de promoção da saúde e nos cuidados primários, ao mesmo tempo em que configuram contextos ricos de aprendizagem, estruturando formas de atenção, percepção e ação. A crise climática ameaça esses sistemas ao impor reconfigurações socioecológicas que podem comprometer o florescimento das inter-relações entre pessoas e biota em comunidades quilombolas.
RISCOS CLIMÁTICOS E VULNERABILIDADE SOCIOAMBIENTAL NO CUIDADO PRÉ-NATAL: UMA ANÁLISE DAS DESIGUALDADES TERRITORIAIS NO RECIFE
Comunicação Oral
1 Ministério da Saúde
2 Uninassau
3 Universidade de Brasília - UnB
4 IAM/Fiocruz Pernambuco
Apresentação/Introdução
Os riscos climáticos se traduzem em impactos amplos à população e à infraestrutura dos serviços, exigindo respostas adaptativas dos sistemas de saúde. O cuidado na gestação e no puerpério é particularmente sensível a choques ambientais, refletindo a capacidade dos sistemas de saúde em garantir atenção contínua e oportuna durante todo o ciclo gravídico-puerperal. No Brasil, persistem desigualdades regionais e socioeconômicas relacionadas à cobertura e à qualidade do cuidado, expressas de forma heterogênea nos territórios. Nesse contexto, eventos climáticos extremos agravam essas disparidades, pois afetam o deslocamento, a oferta de serviços e a estabilidade das redes locais, estando associados a piores desfechos perinatais e a interrupções na atenção da pessoa que gesta, sobretudo em regiões mais vulneráveis. O município do Recife destaca-se por reunir alta vulnerabilidade climática e acentuadas desigualdades sociais, sendo reconhecido como uma das cidades mais expostas às mudanças do clima, o que evidencia a relevância de análises que articulem condições territoriais, riscos ambientais e acesso aos serviços de saúde.
Objetivos
Analisar a relação entre vulnerabilidade socioambiental e acesso ao cuidado pré-natal no município do Recife, considerando o impacto de eventos climáticos extremos sobre os indicadores de acompanhamento gestacional entre 2019 e 2024.
Metodologia
Trata-se de estudo descritivo, de série temporal, com integração de dados secundáros do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB) e do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). Foram analisados três indicadores de pré-natal: número de consultas realizadas, início até a 12ª semana e realização de exames até a 20ª semana. Os dados foram extraídos do DATASUS, por meio do SISAB, utilizando a Ficha de Qualificação dos Indicadores de Pré-Natal. Realizou-se mapeamento georreferenciado das Unidades Básicas de Saúde e das áreas de risco climático do município do Recife, com análise espacial descritiva da relação entre os indicadores e o risco de inundação, permitindo identificar padrões territoriais de acesso e sua associação com a variável ambiental analisada.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que menos de 10% das gestantes realizaram seis ou mais consultas ao longo do período investigado. Observa-se aumento na proporção de gestantes que iniciam o pré-natal até a 12ª semana e realizam os exames recomendados, mas persiste baixa cobertura desse indicador, sobretudo em bairros com maior vulnerabilidade socioambiental. A análise da distribuição espacial revela disparidades entre as regiões de saúde do Recife, com áreas de baixa cobertura e ausência de registros, evidenciando desigualdades no acompanhamento gestacional. A análise espacial realizada evidenciou sobreposição entre áreas de risco de inundação e piores indicadores de acompanhamento gestacional, indicando associação direta entre essa variável e o desempenho do pré-natal. A distribuição do risco de inundação no Recife apresenta concentrações críticas nas áreas próximas aos rios Capibaribe, Beberibe e Tejipió, correspondendo aos territórios com maior fragilidade no acompanhamento gestacional. Esse padrão evidencia que as inundações recorrentes atuam como barreiras físicas ao acesso, comprometendo a oferta de serviços, dificultando o deslocamento da população e contribuindo para a descontinuidade do cuidado. A associação entre áreas de risco e vazios assistenciais reforça a presença de limitações estruturais na rede local, especialmente em territórios com maior vulnerabilidade socioambiental, onde se concentram os piores indicadores ao longo do período analisado.
Conclusões/Considerações Finais
Embora a ampliação de Unidades Básicas de Saúde e o aumento das consultas indiquem esforços de expansão do acesso, a concentração de piores indicadores em áreas de risco climático no Recife evidencia que o modelo atual de atenção ainda não responde plenamente às necessidades de populações vulnerabilizadas expostas a eventos climáticos extremos. A interação entre vulnerabilidade social, riscos climáticos e limitações estruturais impacta diretamente o acompanhamento gestacional, sobretudo em áreas submetidas a enchentes e inundações recorrentes. A desigualdade no acesso ao pré-natal reflete determinações socioambientais que afetam a continuidade do cuidado e a qualidade da atenção ofertada. A redução dessas desigualdades demanda o fortalecimento da rede assistencial e a adoção de estratégias integradas que contemplem o contexto socioambiental e climático local. Políticas públicas voltadas à adaptação dos serviços e à redução das vulnerabilidades territoriais são fundamentais para promover a equidade e a resiliência da atenção à saúde da pessoa gestante frente às mudanças climáticas.
Realização: