Programa - Comunicação Oral - CO10.2 - Interfaces entre Educação Popular, Promoção da Saúde e Vigilância Popular no enfrentamento às Emergências Climáticas e Racismo Ambiental em territórios tradicionais
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ANCESTRALIDADE, EDUCAÇÃO E ESCUTA: UMA EXPERIÊNCIA DE PESQUISA-AÇÃO NA COMUNIDADE QUILOMBOLA DE SERRA FEIA, NO BIOMA CAATINGA, EM CACIMBAS, PARAÍBA .
Comunicação Oral
1 PROADI-SUS
Apresentação/Introdução
O presente trabalho aborda a Educação Popular e a Cartografia Social como Processo
Organizativo e Sustentável da Comunidade Quilombola de Serra Feia – Cacimbas, Paraíba,
Brasil, através de uma iniciativa de pesquisa-ação que tem como objetivo compreender o
enfrentamento às vulnerabilidades étnico-raciais, sociais e ambientais que atingem
comunidades tradicionais no semiárido paraibano. Este trabalho está inserido no projeto de
pesquisa "Vulnerabilidades Étnico-Raciais, Ambiente, Clima e Impacto na Saúde
(VERACIS)" do Ministério da Saúde em parceria com Hospital Israelita Albert Einstein,
por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de
Saúde (PROADI-SUS). A iniciativa parte da concepção de que a educação popular, aliada à
cartografia social, pode fortalecer processos de autonomia, pertencimento e organização
comunitária. Localizada no município de Cacimbas, região do Cariri paraibano, a
Comunidade Quilombola de Serra Feia encontra-se em um território marcado pelo clima
semiárido, relevo irregular e vegetação típica da caatinga.
Objetivos
Nesse contexto, o projeto busca articular saberes ancestrais, populares e científicos em prol
da saúde, da educação, da cultura e da espiritualidade local. A relevância da experiência
reside na construção coletiva do conhecimento, no reconhecimento da ancestralidade
quilombola e no compromisso social da universidade em dialogar com realidades
historicamente marginalizadas.
Metodologia
O desenvolvimento do projeto envolveu ações participativas, pautadas na pedagogia
freireana e na pesquisa de campo como instrumentos de escuta e diálogo. As principais
etapas metodológicas utilizadas foram: aplicação de questionários socioambiental e de
saúde junto às famílias da comunidade, visando caracterizar o contexto socioeconômico,
cultural e ambiental; realização e transcrição de entrevistas semiestruturadas com lideranças
locais, com foco nas práticas culturais, na organização comunitária e nos desafios
enfrentados; observação participante, realizada durante visitas periódicas ao território,
permitindo acompanhar a rotina comunitária e registrar aspectos relevantes para a
sistematização dos dados; organização e análise dos registros de campo, incluindo
anotações, narrativas e imagens; e atividades formativas, rodas de conversa, que integraram
moradores, estudantes e docentes no debate sobre educação, identidade quilombola,
espiritualidade e sustentabilidade.
Resultados e Discussão
Essas atividades nos permitiram compreender a força dos saberes local e a necessidade do
conhecimento acadêmico dialogar com as experiências vividas pelas comunidades
tradicionais. As conversas com moradores e lideranças revelaram a potência da tradição
oral, a importância da cultura e da fé como formas de aprendizado e resistência. Essa
vivência mostrou à equipe que a pedagogia ultrapassa os limites da sala de aula, alcançando
a comunidade, o território e as relações sociais que produzem aprendizado e fortalecem o
sentimento de pertencimento. As ações foram realizadas em ambiente comunitário —
residências, espaços coletivos, no próprio território — utilizando materiais simples
(gravadores, cadernos de campo, questionários online) e priorizando o diálogo horizontal
entre universidade e comunidade. Com base nos resultados observados, percebe-se que o
projeto de pesquisa-ação tem contribuído para fortalecer a organização comunitária,
promover o reconhecimento das identidades quilombolas e estimular processos educativos
emancipatórios. A experiência responde os objetivos de integrar pesquisa e engajamento
comunitário, ampliando a presença e o compromisso social em territórios vulnerabilizados.
Além disso, a vivência na Comunidade evidenciou que a educação é um processo que se
constrói no encontro entre diferentes formas de conhecimento. Reconhecer os saberes
populares, a ancestralidade e as práticas comunitárias são essenciais para a construção de
uma pedagogia crítica, inclusiva e antirracista. Em síntese, ao articular saberes ancestrais,
populares e científicos, o projeto reafirma a centralidade do diálogo horizontal e da escuta
sensível como princípios formativos, contribuindo para a construção de processos
educativos comprometidos com a emancipação social e o enfrentamento das desigualdades
étnico-raciais, sociais e ambientais.
Conclusões/Considerações Finais
ultrapassa os limites institucionais e se concretiza no território, nas práticas culturais e nas
relações comunitárias. A ação ao promover a construção coletiva do conhecimento,
fortalece o protagonismo quilombola e consolida a universidade como parceira na luta por
reconhecimento, justiça social e sustentabilidade, reafirmando seu papel social na
valorização das experiências e dos saberes produzidos pelas comunidades tradicionais.
EDUCAÇÃO EM SAÚDE E RACISMO AMBIENTAL: A LUDICIDADE COMO FERRAMENTA PARA TRANSFORMAR
Comunicação Oral
1 Universidade Estadual de Feira de Santana
2 Secretqaria Municipal de Saúde de Feira de Santana
Contextualização
O presente relato de experiência aborda a articulação entre o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde/Equidade) e o Programa Saúde na Escola (PSE) em uma Unidade de Saúde da Família (USF) em Feira de Santana-BA. A experiência centra-se na utilização da arte teatral como ferramenta pedagógica para a conscientização sobre a Dengue, direcionada a crianças de 3 a 5 anos, inseridas em um território marcado por vulnerabilidades socioambientais.
Descrição
A intervenção foi conduzida pelo Grupo Tutorial (GT) 02 do PET-Saúde/Equidade, vinculado à Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), sob o eixo temático "Raça/Cor e Deficiências". A atividade consistiu em uma encenação teatral planejada e executada de forma interprofissional por discentes de Enfermagem, Psicologia, Odontologia, Pedagogia e Medicina. O público-alvo foram estudantes da Educação Infantil de uma escola municipal no bairro Rua Nova. A ação ocorreu em estreita parceria com os profissionais das USF Rua Nova II, III e Barroquinha, integrando o ensino-serviço-comunidade. Adotou-se uma metodologia lúdica e dialógica, utilizando recursos sensoriais (fantasias, máscaras, pinturas) e sonoros (momentos musicais interativos). Essas estratégias foram desenhadas para garantir a acessibilidade da linguagem e o engajamento infantil, transformando as crianças em sujeitos ativos e agentes multiplicadores do cuidado em seus núcleos familiares.
Período de Realização
As etapas de planejamento pedagógico ocorreram em setembro de 2025, com a execução da atividade em 22 de outubro de 2025.
Objetivo
Analisar a relevância de ações educativas lúdicas na promoção da saúde, sob a ótica da determinação social. Busca-se refletir como o racismo ambiental e as desigualdades estruturais influenciam a morbimortalidade por dengue na população negra e a vulnerabilidade de territórios historicamente marginalizados.
Resultados
A receptividade infantil foi evidenciada pela participação orgânica e interação direta com os personagens. O uso de elementos simbólicos (máscaras e figurinos) facilitou a transposição de conceitos complexos de vigilância epidemiológica para o universo infantil de forma leve e compreensível. Durante a encenação, as crianças manifestaram curiosidade e compartilharam vivências domésticas sobre o vetor, demonstrando a eficácia da estratégia em romper a passividade do espectador. A atividade consolidou o entendimento de que a prevenção é uma prática coletiva, estimulando o protagonismo infantil no monitoramento de focos do mosquito desde a base educacional.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência reafirma que a promoção de estratégias preventivas contra o Aedes aegypti deve ser priorizada desde a infância, especialmente em territórios majoritariamente negros. De acordo com a Fiocruz (2025), a vulnerabilidade social é um fator determinante na letalidade por dengue; evidências indicam que indivíduos negros enfrentam quase o dobro do risco de óbito nos primeiros 15 dias de sintomas quando comparados a brancos. Em Feira de Santana, essa disparidade é acentuada por uma segregação racial e socioespacial histórica. O bairro Rua Nova ilustra esse fenômeno, consolidado pela aglomeração de populações negras oriundas de fluxos migratórios rurais e regionais (Santos, 2024). Diante disso, a atuação do PSE no território supera a dimensão biológica do agravo. Ela se estabelece como uma ferramenta política de enfrentamento ao racismo ambiental, unindo a educação em saúde ao compromisso inadiável com a justiça social e a equidade étnico-racial. Assim, é imperativo que intervenções dessa natureza ganhem notoriedade, diversificando linguagens e metodologias interativas para democratizar o acesso aos temas de saúde coletiva. A eficácia da prevenção reside na capacidade de integrar as disparidades sociais e raciais ao planejamento estratégico, rompendo com abordagens genéricas que ignoram o território. Investir na qualificação permanente de profissionais e educadores sob a ótica do racismo ambiental e dos determinantes sociais é o que sustenta o vigor dessas ações. Em última análise, fortalecer tais práticas significa não apenas mitigar riscos epidemiológicos, mas assumir um compromisso ético com a construção de uma sociedade efetivamente equânime e consciente de seus direitos.
ENTRE MAPAS E MARGENS: JUSTIÇA CLIMÁTICA E RACISMO AMBIENTAL EM TERRITÓRIOS VULNERABILIZADOS
Comunicação Oral
1 PUC RIO
2 ENSP/Fiocruz
3 IMS/UERJ
4 FAVENI
5 USP
6 FACC/UFRJ
Apresentação/Introdução
Introdução: O processo saúde-doença deve ser compreendido como uma construção histórico-social intrinsecamente vinculada ao território. Mais do que o resultado de fatores isolados que incidem sobre as condições de vida dos indivíduos, trata-se de uma expressão coletiva, produzida por relações de poder, iniquidades estruturais e dinâmicas socioterritoriais que se entrelaçam ao longo do tempo. As crises socioambientais evidenciam a necessidade de compreender essas relações. Em contextos urbanos marcados por profundas disparidades socioespaciais, populações historicamente marginalizadas residem em áreas de degradação socioambiental, com isso, estão expostas de maneira desproporcional a risco ambientais, configurando situações que podem ser compreendidas à luz dos debates sobre justiça climática e racismo ambiental. Conforme Sueli Carneiro (2011), o racismo estrutura desigualdades profundas no acesso a direitos e na produção de subjetividades. Nesse sentido, a invisibilidade de problemas em escala local, como poluição, áreas de alagamento, área inapropriadas de descartes de resíduos e dificuldades de deslocamento, limita a capacidade de políticas públicas responderem às demandas reais locais e de promover condições igualitárias de saúde, conforme Fanon (2008), tais condições produzem impactos profundos na subjetividade, marcados pela internalização da opressão e pela desumanização.
Objetivos
Objetivo: Apoiar atores sociais para aplicar a metodologia do Mapa Falante, desenvolvendo competências para construir diagnósticos participativos com a percepção da justiça climática e do racismo ambiental.
Metodologia
Metodologia: Busca utilizar a cartografia social denominada Mapa Falante CEDAPS, que articula ferramentas de geoprocessamento com processos participativos de produção de dados, tomando a população local como sujeito ativo na construção do conhecimento sobre seu território. Foram utilizados, na produção dos dados secundários, indicadores socioeconômicos e dados físico-ambientais, aplicados ao município de Manaus. A integração dessas variáveis possibilita evidenciar como grupos socialmente mais vulnerabilizados estão, frequentemente, mais expostos a condições ambientais adversas, reforçando a relação entre justiça climática e racismo ambiental. Em complemento, sugerimos a cartografia participativa para produzir evidências territoriais “de baixo para cima” sobre ambiente e saúde, com foco em justiça ambiental e diálogo com o tema interculturalidade, ambiente e saúde, por meio de informações geoprocessadas e incorporados ao mapa do Google My Maps, seguida de qualificação dos dados selecionados e caminhos de uso para incidência em políticas públicas.
Resultados e Discussão
Resultados e discussão: No campo da Saúde Coletiva, o debate racial tem historicamente se concentrado nos efeitos do racismo sobre a população negra, mantendo a branquitude como categoria universal. Esse silenciamento contribui para a manutenção de privilégios raciais, operando por meio do que Cida Bento (2022) denomina “pacto narcísico da branquitude”, onde sujeitos brancos se protegem mutuamente para preservar posições de poder. Nesse contexto, o racismo ambiental evidencia como territórios racializados são expostos à precarização, enquanto a branquitude se mantém livre dessas violências. Dessa forma, ao integrar cartografia social e participação comunitária, a pesquisa se posiciona como estratégia de tensionamento das dinâmicas que sustentam o pacto da branquitude, ao deslocar o lugar de produção do conhecimento e visibilizar os territórios historicamente marginalizados. Ao produzir informações territorializadas a partir das experiências das próprias comunidades, busca-se não apenas identificar entraves ao desenvolvimento local, mas evidenciar como a distribuição desigual de riscos e recursos está diretamente relacionada à manutenção de privilégios. Nesse sentido, a iniciativa contribui para a formulação de políticas públicas mais sensíveis às realidades territoriais, fortalecendo estratégias de enfrentamento às crises climáticas e ao racismo ambiental, ao mesmo tempo em que promove o protagonismo comunitário e a construção de uma justiça socioambiental efetivamente democrática, capaz de enfrentar desigualdades estruturais e promover justiça socioambiental nos territórios vulnerabilizados.
Conclusões/Considerações Finais
Considerações finais: A utilização do Mapa Falante como ferramenta de cartografia social demonstra potencial para ampliar a visibilidade de problemas socioambientais em escala local e fortalecer processos participativos na produção de conhecimento sobre o território. Ao articular saberes locais e ferramentas de geoprocessamento, a metodologia contribui para a construção de diagnósticos mais sensíveis às realidades locais, fortalecendo estratégias de justiça ambiental, promoção da saúde coletiva e enfrentamento das desigualdades socioambientais. Assim, reconhecer o papel estruturante da raça na produção do território e do cuidado é fundamental para a construção de uma Saúde Coletiva equitativa.
O SISTEMA MÉDICO LOCAL BASEADO EM PLANTAS DE UMA COMUNIDADE QUILOMBOLA: MECANISMOS COGNITIVOS, FATORES SOCIOCULTURAIS E AMEAÇAS CLIMÁTICAS
Comunicação Oral
1 ISC/UFBA
2 UNIVERSITY OF WARWICK
Apresentação/Introdução
O Baixo Sul da Bahia reúne quinze municípios marcados por um mosaico socioecológico de Mata Atlântica fragmentada, sob pressão da expansão agropecuária, apesar da presença de comunidades camponesas associadas à manutenção da cobertura vegetal (Silva et al., 2025). Nesse contexto, a comunidade quilombola do Boqueirão, em Teolândia (BA), destaca-se pela riqueza sociocultural e biodiversidade, bem como pelo uso de plantas medicinais nas práticas de cuidado e promoção da saúde (Mota et al., 2025).
O estudo examina como o Sistema Médico Local (SML) se organiza em torno do manejo de plantas, articulando práticas, mecanismos cognitivos e fatores socioculturais na relação humano-biota, e analisa como mudanças climáticas podem desestabilizar esse sistema, ameaçando sua base ecológica e suas condições de funcionamento.
Objetivos
• Caracterizar a organização do SML a partir do manejo de plantas medicinais, considerando mecanismos cognitivos e fatores socioculturais;
• Analisar como mudanças climáticas no Baixo Sul afetam a biodiversidade e reconfiguram as bases ecológicas do SML.
Metodologia
Estudo multimétodo que articula etnografia e pesquisa baseada em artes, com abordagem participativa. Entre 2022 e 2025, pesquisadores(as) do Projeto ECLIPSE realizaram inserção prolongada na comunidade, acompanhando práticas de cuidado. Foram produzidos materiais empíricos verbais, visuais e plásticos, incluindo entrevistas, notas de campo, registros audiovisuais e oficinas. A análise, de orientação conversacional e interacional, focalizou a construção de sentido nas interações, incorporando materiais não verbais (Dantas, 2007).
Resultados e Discussão
Sistemas Médicos Locais (SML) são “construções bioculturais” que articulam conhecimentos e práticas voltados ao tratamento de doenças, incluindo percepção de sintomas e causas, uso de abordagens terapêuticas e avaliação de tratamentos (Abreu et al., 2023). O termo “médico” é aqui compreendido à luz do pluralismo médico e assistencial, como campo organizado de práticas de cuidado e de saúde que reconhece a coexistência de sistemas terapêuticos socialmente construídos (Menéndez, 1984; 2020; Perdiguero-Gil; Comelles, 2020). O conceito, portanto, sustenta a existência de diferentes “racionalidades médicas”, hegemônicas e contra-hegemônicas (Luz, 2019).
No Boqueirão, o SML organiza-se em torno da produção de conhecimento sobre plantas, conduzida por especialistas locais, como parteiras, rezadeiras e curandeiras, que acumulam e atualizam saberes de manejo e uso em diferentes circunstâncias.
A interação com as especialistas indica que os mecanismos cognitivos do SML podem ser compreendidos em termos ecológico-enativistas, nos quais o conhecimento sobre plantas emerge do acoplamento entre corpo, prática e ambiente, e não como informação estável armazenada (Brouillet, 2020). A memória opera como reativação e atualização de padrões sensório-motores e experiências anteriores em função das demandas do presente, sendo continuamente modulada nas práticas de cuidado. O reconhecimento e a transmissão do conhecimento sobre plantas envolvem, assim, processos integrados como ver, tocar, lembrar e agir.
Fatores socioculturais do SML envolvem crenças, ideias e comportamentos relacionados a interação humano-vegetal. Observamos que certas especialistas podem atribuir graus diferentes de senciência aos organismos vegetais, encarando certas plantas como dotadas de sensibilidade e modos de relação com o mundo que lhes são próprios (Mota et al., 2025). Ademais, existem categorias locais de adoecimento e/ou mal-estar como, por exemplo, o chamado “mal do vento”, que possui sintomas que relacionamos ao derrame cardiovascular, ou o “passar do vento”, que expressa a redução da potência física ou psíquica (Santos, 2023).
A pressão agropecuária no Baixo Sul tem ameaçado a biodiversidade do Boqueirão por meio da expansão de modelos agrícolas que comprometem a cobertura vegetal do quilombo. Estudos apontam correlações negativas significativas entre desmatamento e estabilidade climática na região (Silva et al., 2025), sendo o aquecimento local associado à redução da regeneração florestal e a alterações ecológicas profundas, enquanto chuvas intensas podem tanto favorecer a regeneração quanto estimular a expansão agrícola, acentuando o desequilíbrio ambiental.
Conclusões/Considerações Finais
A preservação e o desenvolvimento dos SML são fundamentais, pois esses sistemas constituem importantes contextos de produção de conhecimento sobre plantas medicinais e sobre o tratamento de doenças, relevantes tanto para especialistas locais quanto para cientistas e pesquisadoras(es) (Santoro et al, 2024). Além disso, atuam como aliados nas práticas de promoção da saúde e nos cuidados primários, ao mesmo tempo em que configuram contextos ricos de aprendizagem, estruturando formas de atenção, percepção e ação. A crise climática ameaça esses sistemas ao impor reconfigurações socioecológicas que podem comprometer o florescimento das inter-relações entre pessoas e biota em comunidades quilombolas.
RISCOS CLIMÁTICOS E VULNERABILIDADE SOCIOAMBIENTAL NO CUIDADO PRÉ-NATAL: UMA ANÁLISE DAS DESIGUALDADES TERRITORIAIS NO RECIFE
Comunicação Oral
1 Ministério da Saúde
2 Uninassau
3 Universidade de Brasília - UnB
4 IAM/Fiocruz Pernambuco
Apresentação/Introdução
Os riscos climáticos se traduzem em impactos amplos à população e à infraestrutura dos serviços, exigindo respostas adaptativas dos sistemas de saúde. O cuidado na gestação e no puerpério é particularmente sensível a choques ambientais, refletindo a capacidade dos sistemas de saúde em garantir atenção contínua e oportuna durante todo o ciclo gravídico-puerperal. No Brasil, persistem desigualdades regionais e socioeconômicas relacionadas à cobertura e à qualidade do cuidado, expressas de forma heterogênea nos territórios. Nesse contexto, eventos climáticos extremos agravam essas disparidades, pois afetam o deslocamento, a oferta de serviços e a estabilidade das redes locais, estando associados a piores desfechos perinatais e a interrupções na atenção da pessoa que gesta, sobretudo em regiões mais vulneráveis. O município do Recife destaca-se por reunir alta vulnerabilidade climática e acentuadas desigualdades sociais, sendo reconhecido como uma das cidades mais expostas às mudanças do clima, o que evidencia a relevância de análises que articulem condições territoriais, riscos ambientais e acesso aos serviços de saúde.
Objetivos
Analisar a relação entre vulnerabilidade socioambiental e acesso ao cuidado pré-natal no município do Recife, considerando o impacto de eventos climáticos extremos sobre os indicadores de acompanhamento gestacional entre 2019 e 2024.
Metodologia
Trata-se de estudo descritivo, de série temporal, com integração de dados secundáros do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB) e do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). Foram analisados três indicadores de pré-natal: número de consultas realizadas, início até a 12ª semana e realização de exames até a 20ª semana. Os dados foram extraídos do DATASUS, por meio do SISAB, utilizando a Ficha de Qualificação dos Indicadores de Pré-Natal. Realizou-se mapeamento georreferenciado das Unidades Básicas de Saúde e das áreas de risco climático do município do Recife, com análise espacial descritiva da relação entre os indicadores e o risco de inundação, permitindo identificar padrões territoriais de acesso e sua associação com a variável ambiental analisada.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que menos de 10% das gestantes realizaram seis ou mais consultas ao longo do período investigado. Observa-se aumento na proporção de gestantes que iniciam o pré-natal até a 12ª semana e realizam os exames recomendados, mas persiste baixa cobertura desse indicador, sobretudo em bairros com maior vulnerabilidade socioambiental. A análise da distribuição espacial revela disparidades entre as regiões de saúde do Recife, com áreas de baixa cobertura e ausência de registros, evidenciando desigualdades no acompanhamento gestacional. A análise espacial realizada evidenciou sobreposição entre áreas de risco de inundação e piores indicadores de acompanhamento gestacional, indicando associação direta entre essa variável e o desempenho do pré-natal. A distribuição do risco de inundação no Recife apresenta concentrações críticas nas áreas próximas aos rios Capibaribe, Beberibe e Tejipió, correspondendo aos territórios com maior fragilidade no acompanhamento gestacional. Esse padrão evidencia que as inundações recorrentes atuam como barreiras físicas ao acesso, comprometendo a oferta de serviços, dificultando o deslocamento da população e contribuindo para a descontinuidade do cuidado. A associação entre áreas de risco e vazios assistenciais reforça a presença de limitações estruturais na rede local, especialmente em territórios com maior vulnerabilidade socioambiental, onde se concentram os piores indicadores ao longo do período analisado.
Conclusões/Considerações Finais
Embora a ampliação de Unidades Básicas de Saúde e o aumento das consultas indiquem esforços de expansão do acesso, a concentração de piores indicadores em áreas de risco climático no Recife evidencia que o modelo atual de atenção ainda não responde plenamente às necessidades de populações vulnerabilizadas expostas a eventos climáticos extremos. A interação entre vulnerabilidade social, riscos climáticos e limitações estruturais impacta diretamente o acompanhamento gestacional, sobretudo em áreas submetidas a enchentes e inundações recorrentes. A desigualdade no acesso ao pré-natal reflete determinações socioambientais que afetam a continuidade do cuidado e a qualidade da atenção ofertada. A redução dessas desigualdades demanda o fortalecimento da rede assistencial e a adoção de estratégias integradas que contemplem o contexto socioambiental e climático local. Políticas públicas voltadas à adaptação dos serviços e à redução das vulnerabilidades territoriais são fundamentais para promover a equidade e a resiliência da atenção à saúde da pessoa gestante frente às mudanças climáticas.
INSEGURANÇA ALIMENTAR, RACISMO AMBIENTAL E CONSUMO DE ALIMENTOS ULTRAPROCESSADOS EM COMUNIDADE QUILOMBOLA DE SALVADOR, BAHIA
Comunicação Oral
1 UFBA
Apresentação/Introdução
A insegurança alimentar permanece como um importante problema de saúde pública no Brasil, especialmente entre populações historicamente vulnerabilizadas, como as comunidades quilombolas. Esses grupos enfrentam desigualdades estruturais que afetam o acesso regular a alimentos adequados, sendo impactados por condições socioeconômicas adversas, limitações no acesso a políticas públicas e transformações nos sistemas alimentares. Paralelamente, observa-se o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, associado à transição alimentar e à crescente disponibilidade desses produtos, o que pode comprometer a qualidade da dieta e a saúde dessas populações. Em territórios quilombolas, fatores ambientais, como degradação dos ecossistemas e insegurança hídrica, também desempenham papel central na configuração das práticas alimentares.
Objetivos
Este estudo teve como objetivo analisar como a insegurança alimentar e as condições ambientais influenciam as práticas alimentares em uma comunidade quilombola na Bahia, com foco no consumo de alimentos ultraprocessados e no papel dos ambientes alimentares, das políticas públicas e dos fatores psicossociais na configuração dessas práticas.
Metodologia
Trata-se de um estudo de abordagem mista, envolvendo coleta de dados quantitativos e qualitativos. A amostra foi composta por 83 participantes de um universo de 112 indivíduos, sendo considerada representativa. A insegurança alimentar foi avaliada por instrumento validado, e o consumo alimentar foi analisado com ênfase na frequência de ingestão de alimentos ultraprocessados. Complementarmente, foram realizadas entrevistas qualitativas para compreender as percepções dos participantes sobre acesso aos alimentos, mudanças ambientais e práticas alimentares.
Resultados e Discussão
Os resultados indicaram que a insegurança alimentar afetou 65,1% dos domicílios. O consumo de alimentos ultraprocessados foi frequente tanto entre indivíduos em segurança quanto em insegurança alimentar, sendo mais elevado neste último grupo, embora sem diferença estatisticamente significativa, sugerindo ampla disseminação e possível exposição precoce. Entre os alimentos mais consumidos destacaram-se bebidas adoçadas com açúcar, macarrão instantâneo, salgadinhos industrializados, carnes processadas e doces como biscoitos recheados e balas.
Os achados qualitativos evidenciaram redução no acesso a alimentos frescos, como peixes, frutas e produtos locais, associada à poluição, degradação ambiental e diminuição dos recursos naturais. A insegurança hídrica também foi relatada como um fator limitante para o preparo, armazenamento e higiene dos alimentos. Essas condições contribuem para a formação de ambientes alimentares nos quais os alimentos ultraprocessados se tornam mais disponíveis, acessíveis e confiáveis do que os alimentos in natura, refletindo tanto dinâmicas de mercado quanto fragilidades nas políticas públicas. Além disso, fatores psicossociais influenciaram as escolhas alimentares, incluindo preferências das crianças, percepção de saciedade e a sobrecarga materna no cuidado alimentar. As mães relataram adaptar suas práticas diante das restrições, embora manifestassem preocupação com os impactos dessas dietas na saúde.
Adicionalmente, os resultados sugerem que a presença de alimentos ultraprocessados nesses territórios não ocorre de forma isolada, mas está inserida em um contexto mais amplo de transformação dos sistemas alimentares, no qual produtos industrializados ganham espaço mesmo em áreas tradicionalmente marcadas por práticas alimentares locais. Esse processo pode contribuir para a erosão de hábitos alimentares tradicionais e para a perda de autonomia alimentar das comunidades. Observa-se ainda que a combinação entre restrições ambientais, insegurança alimentar e pressões do ambiente alimentar favorece escolhas alimentares condicionadas pela praticidade, custo e disponibilidade, em detrimento da qualidade nutricional.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a elevada prevalência de insegurança alimentar, associada às mudanças ambientais e às limitações estruturais, contribui para a consolidação de padrões alimentares baseados em alimentos ultraprocessados. Esses resultados evidenciam a necessidade de políticas públicas intersetoriais que promovam o acesso a alimentos saudáveis, a proteção dos territórios e o fortalecimento dos sistemas alimentares tradicionais. A ampliação do acesso à água de qualidade, o apoio à produção local e a valorização dos saberes tradicionais são fundamentais para a promoção da segurança alimentar e nutricional em comunidades quilombolas, considerando seus determinantes sociais, ambientais e culturais.
O BADAME, O MOCORÔ E OS CORRES: MEMÓRIA COLETIVA, RAÇA E TRANGRESSÕES SOCIOSANITÁRIAS DE UM GUETO LIXO
Comunicação Oral
1 UNEB
Apresentação/Introdução
Este relato parte de uma etnografia de catação empreendida no bairro de Canabrava, em Salvador, antigo lixão ativo entre 1973 e 2000. Busquei compreender como a memória coletiva do lugar age como mediadora política na construção de identidades territoriais entre gerações. De um lado dessa trama estão os badameiros, autodesignados catadores, suas práticas de sobrevivência cotidiana, aliada ao estigma e a reciclagem identitária em torno da nova indústria do lixo. De outro, os jovens do bairro que realizam seus corres, entre violências e precariedades, expressões da precariedade e dos racismos ambiental e territorial. Destaco como três categorias nativas (badame, mocorô e corre) revelam relações transgressoras entre tempo, espaço, raça, alimentação e trabalho, dissolvendo normas raciais e sanitárias de uma produção singular de cidade.
Objetivos
Este relato de pesquisa tem como objetivo compreender de que forma a memória coletiva do bairro-lixão de Canabrava em Salvador age como mediadora de práticas sociais transgressoras às normas raciais e sanitárias urbanas.
Metodologia
O trabalho de campo envolveu análise documental e da produção artística de jovens, entrevistas e participação nos corres dos moradores do bairro, configurando uma etnografia de catação. Foram mobilizados documentos (planos urbanísticos, matérias jornalísticas), entrevistas com pioneiros, badameiros, catadores cooperados e jovens. A observação participante envolveu o acompanhamento dos sujeitos da pesquisa em movimentos intra (cooperativas, ruas, casas e espaços comunitários) e extra-bairro (catação no carnaval e espaços de mediação política e artística da cidade). A análise do material foi realizada em diálogo com as noções de memória coletiva (Halbwachs e Pollak), com entrelaces entre raça e território (Mckittrick e Milton Santos) e táticas que compõem o cotidiano de subalternos urbanos do capital (Certeau e Wacquant).
Resultados e Discussão
Foi possível identificar o uso de concepções nativas de espaço (chácara, selva) tensionadoras da construção ideológica da cidade em torno do bairro-lixão, ao mesmo tempo que se evidenciaram reminiscências (mocorô), transitoriedades (badame, corre) e identidades (badameiro, catador, cria) nos cruzamentos intergeracionais conformadores no espaço. A história dos badameiros apontam para o lixo como recurso de subsistência. A prática transgressora do consumo de alimentos vencidos desafiava a noção biomédica de inocuidade, produzindo um corpo “imune” e indutor de sociabilidades do lixo. O fechamento do lixão e a criação de cooperativas, transformaram badameiros em catadores de material reciclável, o que não impediu sua precarização, desestimulando a participação de jovens nestes coletivos.
O mocorô, definido como a compra e venda de produtos próximos ou fora da validade, se constitui enquanto reminiscência direta dos tempos de lixão. Tal prática cria um microssistema alimentar transgressor, onde o tempo de prateleira é ignorado pelos reflexos da fome. Essa prática estigmatizada institui uma identidade alimentar transgressora que nega o descarte como destino.
O corre é sinônimo local de trabalho informal, veloz e incerto entre jovens (vendas de doces no “busu”, lavas-jato, venda de rifas) que materializa a atual dimensão do precariato. Ao mesmo tempo tido como disciplina da rua (jovens “posturados” que não são criminosos) se constitui como regra dos sujeitos “correria”. A velocidade do corre se opõe ao tempo das cooperativas, desmobilizando sociabilidades ao passo que institui novas formas de sobreviver no espaço urbano racialmente hostil.
Entre corpos imunes a ambientes insalubres, consumidores de alimentos transgressores da noção de tempo-espaço, que se movimentam entre corres para ganhar a vida, jovens do coletivo de hip-hop Gueto Lixo ressignificam o estigma do lixão ao evocar africanidades e recortar racialmente uma nova identidade: o cria da Canabrava, tradutor de suas memórias que usa da elaboração artística para transgredir normas raciais e sanitárias da cidade. No rap, o badame, o mocorô e o corre são ressignificados como símbolos de resistência e denúncia sociossanitária da necropolítica que opera em Salvador.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo demonstra que as identidades transgressoras são forjadas na interface entre memória, raça, alimentação e trabalho. O badame, o mocorô e o corre não são apenas sobrevivência, mas modos de habitar a cidade que buscam fissurar o capital e do mundo anti-negro. Desta etnografia de catação, emerge provocações ao campo da saúde no sentido de compor fissuras epistêmicas a partir das ontologias negras urbanas do nordeste brasileiro. O hip-hop da Gueto Lixo se coloca em vocalização de demandas socio-sanitárias componentes da luta por direito à cidade onde corpos negros, tempos e espaços historicamente relegados ganham centralidade e agência.
Realização:
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