Programa - Comunicação Oral Curta - COC16.2 - Mudanças climáticas e saúde mental: emergências, vulnerabilidades e enfrentamentos coletivos
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
COP30 NA AMAZÔNIA: UMA EXPERIÊNCIA ETNOGRÁFICA SOBRE JUSTIÇA CLIMÁTICA, TERRITÓRIOS E SAÚDE COLETIVA
Comunicação Oral Curta
1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS E FIOCRUZ-AM
Contextualização
Este relato de experiência aborda a minha participação na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), como discente do Doutorado Acadêmico em Saúde Pública na Amazônia (DASPAM – Fiocruz/AM, UEA e UFAM), realizada em novembro de 2025, em Belém do Pará, analisando suas implicações para os modos de vida, a saúde coletiva e a justiça climática na Amazônia. Esse estudo insere-se no campo da saúde coletiva, articulando as mutações climáticas aos processos de desigualdade socioambiental e os seus impactos sobre as populações vulnerabilizadas. Fundamenta-se na Teoria Ator-Rede de Bruno Latour, na crítica à racionalidade ambiental de Enrique Leff e na perspectiva decolonial de Walter Mignolo, permitindo compreender as relações entre governança global, territórios e produção de iniquidades em saúde.
Descrição
Os achados evidenciam tensões entre os discursos globais de sustentabilidade e práticas políticas e econômicas que mantêm a lógica de exploração na Amazônia. Embora o evento tenha ampliado a visibilidade da saúde na agenda climática e promovido participação social, persistem desigualdades no acesso aos espaços decisórios e aos financiamentos, que raramente alcançam populações da base. As narrativas coletadas apontam impactos concretos das mudanças climáticas nos territórios, como insegurança alimentar, escassez hídrica, perda territorial e alterações nos ciclos ecológicos, gerando sofrimento social, psíquico e econômico entre povos indígenas e ribeirinhos. Evidencia-se um quadro de injustiça climática, no qual os grupos menos responsáveis pela crise são os mais afetados. “A Amazônia está sendo vista como campo de negócios, não como território de vida e sustentabilidade.” (P1); “Num lugar onde se deveria preservar, eles aprovam mais uma jazida. Estão destruindo a Amazônia.” (P2) - fala dos entrevistados.
Período de Realização
Trata-se de um relato de experiência de natureza qualitativa, com abordagem etnográfica, realizado durante 12 dias de imersão na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), ocorrida em novembro de 2025, em Belém. A pesquisa incluiu observação participante em diferentes espaços do evento (blue zone, green zone, pavilhões temáticos e atividades paralelas), além de diálogos e entrevistas com 10 participantes, entre lideranças indígenas, representantes de movimentos sociais, estudantes, pesquisadores e ativistas. A análise foi orientada pela Teoria Ator-Rede.
Objetivo
O objetivo foi compreender como as agendas climáticas globais, os acordos multilaterais e os mecanismos de financiamento influenciam as ações locais e as condições de vida nos territórios amazônicos, analisando suas repercussões sobre a saúde coletiva, os modos de vida e a justiça climática, especialmente entre populações tradicionais em Unidades de Conservação.
Resultados
A experiência revela os limites da governança climática global, que, embora amplie espaços de diálogo, ainda reproduz práticas de colonialidade que excluem povos tradicionais das decisões sobre seus territórios. O enfrentamento das mudanças climáticas na Amazônia requer transformações estruturais que garantam justiça climática, equidade em saúde e autonomia territorial. Destaca-se a importância do fortalecimento da participação social e da construção de políticas intersetoriais que integrem saúde, educação, ambiente e justiça social, reconhecendo os territórios como espaços de vida, resistência e promoção do bem viver. Como pesquisadora e discente do Doutorado Acadêmico em Saúde Pública na Amazônia, aprendi que é importante a participação social/popular efetiva nesses debates sociopolíticos ambientais, e nessa experiência também observei os limites da governança climática global, pois, apesar de promover espaços de diálogo, ainda reproduz práticas da colonialidade do poder/saber/ser (Mignolo, 2008), em que as formas de participação excluem os povos tradicionais das decisões sobre eles próprios e sobre seus territórios, saúde, qualidade de vida e bem estar.
Aprendizado e Análise Crítica
Os resultados evidenciam uma tensão entre os discursos globais de sustentabilidade e as práticas políticas e econômicas que mantêm a lógica de exploração na Amazônia. Observou-se que, embora a COP30 tenha ampliado a visibilidade da saúde como eixo estratégico da agenda climática e promovido significativa participação popular, persistem desigualdades no acesso aos espaços de decisão e aos financiamentos climáticos, que ainda não alcançam as populações da base. As vivências e narrativas coletadas revelam impactos concretos das mudanças climáticas sobre os modos de vida, incluindo insegurança alimentar, escassez hídrica, perda dos territórios e alterações nos ciclos ecológicos, produzindo sofrimento social, psíquico, financeiro - efeitos sobre a saúde -, entre os povos indígenas e ribeirinhos das comunidades tradicionais amazônicas. O fortalecimento das estratégias coletivas, populares, da educação, da saúde, territorializadas é fundamental para a promoção do bem viver e da saúde integral frente à crise climática.
IMPACTOS DE CURTO PRAZO DA TEMPERATURA NAS HOSPITALIZAÇÕES POR PERTURBAÇÕES MENTAIS: EVIDÊNCIAS DA ÁREA METROPOLITANA DE LISBOA (2008–2014)
Comunicação Oral Curta
1 UNIVERSIDADE DE COIMBRA
2 FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ
3 UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO
Apresentação/Introdução
A relação entre alterações climáticas e saúde tem sido amplamente documentada, com evidências consistentes sobre os efeitos das temperaturas extremas na morbimortalidade. No entanto, os impactos sobre a saúde mental permanecem relativamente subexplorados, especialmente em contextos urbanos. Indivíduos com perturbações mentais constituem um grupo potencialmente mais vulnerável às variações térmicas, seja por fatores fisiológicos, uso de medicação psicotrópica ou condições sociais associadas. Episódios de calor extremo têm sido associados ao agravamento de sintomas psiquiátricos e à redução da capacidade adaptativa desses indivíduos. Nesse contexto, compreender os efeitos de curto prazo da temperatura sobre desfechos em saúde mental torna-se essencial para o planejamento de políticas públicas. Ainda que este estudo se baseie em dados da Área Metropolitana de Lisboa, sua relevância se estende ao Brasil e à América Latina, onde a intensificação de eventos extremos ocorre em cenários de desigualdade social e elevada vulnerabilidade urbana. Este estudo tem como objetivo avaliar a associação entre a temperatura média diária e as hospitalizações por perturbações mentais no período de 2008 a 2014.
Objetivos
Estimar os impactos de curto prazo da temperatura média diária sobre as hospitalizações por perturbações mentais, quantificando a magnitude da associação, identificando padrões temporais de defasagem e analisando diferenças de risco segundo sexo e grupos etários.
Metodologia
Trata-se de um estudo ecológico de séries temporais, com dados diários de hospitalizações por perturbações mentais na Área Metropolitana de Lisboa entre 2008 e 2014. Para modelar a associação entre temperatura e hospitalizações, foi utilizado um modelo generalizado aditivo (GAM) com distribuição quasi-Poisson, adequado para dados de contagem com sobredispersão, combinado a um modelo de defasagem distribuída não linear (DLNM), permitindo capturar relações não lineares e efeitos retardados da exposição. O modelo foi ajustado para potenciais fatores de confusão, incluindo dia da semana, poluentes atmosféricos, humidade relativa, tendência temporal de longo prazo e sazonalidade.
Resultados e Discussão
Durante o período de estudo, foram registados 30.139 internamentos hospitalares por perturbações mentais. Observou-se aumento estatisticamente significativo das hospitalizações associado a temperaturas elevadas, particularmente no dia da exposição (lag 0) e nos períodos acumulados de lag 0–1 e lag 0–2, sugerindo efeito agudo da temperatura sobre esses desfechos. A análise estratificada indicou maior risco relativo entre mulheres, em comparação aos homens, não tendo sido observadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos etários analisados. Esses achados são consistentes com a hipótese de que o calor atua como um importante fator de estresse ambiental, associado a descompensações psiquiátricas em curto prazo, especialmente em contextos urbanos densamente povoados.
Conclusões/Considerações Finais
A exposição a temperaturas elevadas configura-se como um fator de risco relevante para o agravamento das perturbações mentais, com efeitos observáveis a curto prazo nas hospitalizações. Os resultados reforçam a necessidade de integrar a saúde mental nas estratégias de adaptação às alterações climáticas, particularmente em contextos urbanos. Recomenda-se o fortalecimento da capacidade de resposta dos serviços de saúde durante períodos de calor extremo, bem como a implementação de medidas preventivas direcionadas a grupos mais vulneráveis, incluindo mulheres. Embora derivados de um contexto europeu, os achados dialogam com desafios contemporâneos do Brasil e da América Latina, contribuindo para o avanço de políticas públicas mais sensíveis às interações entre clima, território e saúde mental.
MUDANÇAS CLIMÁTICAS E EMERGÊNCIAS EM SAÚDE PÚBLICA: EXPERIÊNCIAS NO VIGIDESASTRES DO SUS
Comunicação Oral Curta
1 Ministério da Saúde
Contextualização
As mudanças climáticas, com as crises todas que as acompanham - ambiental, social, ecológica, política - promovem novas camadas de complexidade no campo da saúde e da subjetividade. Os eventos climáticos extremos são cada vez mais intensos e frequentes, com grandes impactos e desafios nas políticas públicas, agravados pela desigualdade social brasileira, que desencadeia efeitos desproporcionais em populações vulnerabilizadas.
A atuação em Emergências em Saúde Pública por desastres vem se desenvolvendo de maneira ampliada nas últimas décadas, com importantes marcos e regulamentações nacionais e internacionais. Os desastres decorrem de fenômenos hidrológicos, climatológicos, meteorológicos, geológicos, com impactos sociais, econômicos, ambientais e na saúde.
Descrição
O Programa Nacional de Vigilância em Saúde dos Riscos Associados aos Desastres - Vigidesastres, do Sistema Único de Saúde - SUS, está alocado atualmente no Departamento de Emergências em Saúde Pública da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde. O trabalho é realizado com a articulação com pontos focais de todos os estados e capitais do país, que são pessoas de referência para a organização das ações em cada território.
Período de Realização
Experiências nos anos de 2025 e 2026.
Objetivo
Este trabalho tem o objetivo de apresentar algumas experiências de trabalhadores do Vigidesastres Nacional. Um programa que pretende virar rede, na busca por se capilarizar pelo país, e ampliar a construção de preparação, vigilância e resposta em saúde, de forma territorializada e integrada com as diferentes populações e realidades.
Resultados
Diariamente, a equipe do Vigidesastres realiza um monitoramento de riscos e de ocorrências de eventos extremos, e o envio de alertas de perigo, com informações do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) e do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (CENAD).
O Vigidesastres também compõe a Sala de Situação Nacional de Emergências Climáticas em Saúde, do SUS, que visa promover o monitoramento contínuo e resposta em situações de emergência climática, definidas a partir da Classificação e Codificação Brasileira de Desastres (COBRADE).
Neste último ano, a equipe do Vigidesastres realizou a formação de trabalhadores de saúde para a atuação em desastres, com oficinas em diferentes estados, para a elaboração de planos de contingência locais, com estágios operacionais e a devida articulação em rede intersetorial. As principais temáticas foram chuvas intensas, inundações, seca e estiagem.
Foi organizado ainda um grupo de trabalho sobre calor extremo e saúde, com a participação de diversos setores, para a discussão de problemáticas e propostas, e a construção de diretrizes nacionais em saúde, para ampliar a visibilidade e o conhecimento sobre o tema, e a estruturação de ações direcionadas a eventos extremos de calor.
A equipe do Vigidesastres também tem atuado em respostas a Emergências em Saúde Pública por desastres, com deslocamento para territórios que demandem esse apoio presencial na gestão da emergência. O trabalho é realizado em conjunto com a gestão de saúde estadual e municipal, e com as redes de atenção à saúde do SUS existentes no local. É articulado ainda com a rede intersetorial do território, como a Defesa Civil, a Assistência Social, o Meio Ambiente, e também com a Força Nacional do SUS e do SUAS.
Aprendizado e Análise Crítica
A atuação do Vigidesastres se alinha com as propostas e direcionamentos do AdaptaSUS, que consiste no Plano Setorial de Saúde que compõe o Plano Clima: ações de enfrentamento à mudança do clima no Brasil até 2035, tendo como pilares a mitigação e a adaptação. As ações de adaptação buscam ampliar a resiliência e preparar o SUS para eventos climáticos extremos, como a capacidade de resposta para desastres. As ações de mitigação, atribuídas a diferentes setores, com foco em intervenções nas causas dos problemas que vêm gerando a emergência climática, são imprescindíveis nesse processo, já que quanto mais se posterga a mitigação, menores são as opções eficazes de adaptação.
É fundamental ainda a problematização sobre a insustentabilidade de uma lógica de funcionamento socioeconômico de explorações ilimitadas, que produz destruição ambiental, desigualdade social, crise climática e outras crises tantas. O conceito de racismo ambiental visibiliza o processo de desvalorização de certas vidas, empobrecidas, racializadas, e mais expostas a resíduos tóxicos e poluentes, aos riscos cotidianos, aos eventos climáticos extremos e aos impactos dos desastres. As dimensões interseccionais de gênero, raça, classe, vêm evidenciar também a sobreposição de marcadores sociais da diferença, atravessados por relações de poder e violências.
A justiça climática e a equidade são colocadas como o foco do AdaptaSUS. Isso aponta para um horizonte de diversas camadas de complexidade, a ser trabalhado continuamente também no âmbito das emergências em saúde pública por desastres.
MUTAÇÕES CLIMÁTICAS E SAÚDE MENTAL EM COMUNIDADE FLUTUANTE NA AMAZÔNIA: VULNERABILIDADES, RESISTÊNCIAS E A PSICOLOGIA EM CONTEXTO RURAL
Comunicação Oral Curta
1 UFAM
2 UEA
Apresentação/Introdução
As mutações climáticas marcam uma urgência na contemporaneidade. O fenômeno está presente nas áreas urbanas e rurais, manifestando uma crise ambiental climática com efeitos sobre a saúde mental e os modos de vida. Na Amazônia, essa realidade é indissociável das dinâmicas territoriais. A Comunidade Flutuante Catalão, situada em área de várzea, é um exemplo da relação intrínseca entre o ambiente e a subjetividade, em que o ciclo das águas norteia e identidade, o trabalho e a saúde. No entanto, eventos climáticos extremos, somados a desigualdades estruturais, compõem um cenário de racismo ambiental, onde as populações ribeirinhas enfrentam iniquidades históricas no acesso a direitos básicos, como saneamento e água.
Objetivos
Socializar os resultados parciais de uma pesquisa sobre os impactos das mutações climáticas na saúde mental da Comunidade Flutuante Catalão (AM), discutindo as estratégias de resiliência e resistência dessa população frente a sazonalidade dos rios.
Metodologia
Trata-se de um relato de pesquisa de natureza qualitativa e exploratória. A fundamentação teórica está ancorada na Psicologia em contexto rural e Ambiental. O estudo utiliza a revisão bibliográfica e a análise de campo para investigar as dimensões psicossociais da relação ambiente-saúde em contextos ribeirinhos, priorizando a escuta das percepções locais sobre as transformações do lugar no cotidiano.
Resultados e Discussão
Os resultados parciais revelam que a vulnerabilidade no Catalão se manifesta na intersecção entre a instabilidade do território e a escassez de serviços essenciais, como água para consumo na comunidade e dificuldades transporte escolar em períodos de seca extrema. Observa-se que a saúde mental é diretamente influenciada pela capacidade de adaptação aos novos relevos e ciclo das águas. Contudo, o sofrimento ético-político emerge quando a resiliência comunitária é testada por eventos que extrapolam a variabilidade natural, expondo o abandono do Estado. A discussão aponta que a Psicologia deve expandir seu olhar para além do contexto urbano, reconhecendo as particularidades rurais-amazônicas como resistência. O saber-fazer ribeirinho é uma tecnologia de sobrevivência, mas a reparação psíquica e social depende de políticas públicas que reconheçam o ambiente como um determinante social de saúde.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa reforça que mitigar os impactos da mudança climática exige uma práxis ética, equitativa, justa e situada no território. No Catalão, a promoção de vida e de saúde mental ocorre através da resistência cotidiana ao apagamento institucional. Conclui-se que a Psicologia em contexto rural deve atuar na mediação entre o conhecimento científico e popular, fomentando estratégias de cuidado em seguimentos científicos e políticos, que visem a reparação dos danos psicossociais causadas pela crise climática e pela lógica predatória que vulnerabiliza os povos das águas.
SAÚDE E BEM-ESTAR EM TERRITÓRIOS PROTEGIDOS DA AMAZÔNIA: UM ESTUDO NA RDS DO RIO NEGRO
Comunicação Oral Curta
1 UEA
Apresentação/Introdução
A centralidade da renda como medida de qualidade de vida e desenvolvimento econômico revela-se insuficiente para compreender o bem-estar na Amazônia, ao invisibilizar dimensões estruturantes como soberania territorial, autonomia cultural e sistemas de conhecimentos tradicionais (LACERDA; ACOSTA, 2016). Tal redução é tensionada pelo contexto contemporâneo de intensificação dos eventos climáticos extremos, cujos efeitos, secas severas e cheias prolongadas, reconfiguram material e simbolicamente os territórios, produzindo vulnerabilidades que desafiam o direito coletivo à saúde.
Objetivos
Nesse cenário, propõe-se analisar as condições de vida e saúde das famílias da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro (RDS Rio Negro), enfatizando suas próprias concepções de bem-estar, articuladas às dimensões territoriais, ecológicas, sociais e culturais, em diálogo crítico com os impactos das mudanças climáticas.
Metodologia
O lócus de pesquisa será na RDS Rio Negro, localizada na região metropolitana de Manaus, à margem direita do Rio Negro. O acesso ao local ocorre por via fluvial (mínimo de 3 horas, voadeira) e terrestre por nove ramais (46 km de Manaus). Possui 19 comunidades rurais e aproximadamente 900 famílias residindo na unidade. A pesquisa, de natureza qualitativa e em desenvolvimento, combina formulários socioeconômicos, entrevistas semiestruturadas, observação direta e mapeamento participativo. Essa abordagem procura compreender como os moradores da RDS do Rio Negro constroem e expressam a noção de bem-estar em territórios marcados por desigualdades socioambientais e pelos efeitos das mudanças climáticas.
Resultados e Discussão
Resultados preliminares indicam que o bem-estar, para essas populações, não se reduz a indicadores monetários, mas se ancora na capacidade de reprodução social e ecológica do território. Entretanto, essa capacidade encontra-se progressivamente comprometida, sobretudo pela instabilidade dos ciclos hidrológicos, que afeta diretamente a autonomia alimentar, os sistemas produtivos e as redes de cuidado. Além disso, evidencia-se a precariedade do acesso aos serviços de saúde, com a existência de apenas uma Unidade Básica de Saúde - UBS para atender múltiplas comunidades dispersas, o que explicita a inadequação de modelos universalizantes frente às especificidades territoriais amazônicas. Tal cenário coloca em questão a efetividade das Unidades de Conservação enquanto instrumentos de justiça socioambiental, uma vez que a proteção ambiental não tem sido acompanhada por políticas sociais robustas, reproduzindo desigualdades históricas. A análise crítica dialoga com os marcos internacionais do desenvolvimento, como os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) (United Nations, 2000) e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (United Nations, 2015), evidenciando seus limites quando confrontados com realidades como a amazônica.
Conclusões/Considerações Finais
A noção de “bem-estar” emerge, nesse contexto, como uma chave interpretativa potente, mais do que a ausência de bem-estar, trata-se da condição de populações que não são plenamente contempladas pelos parâmetros globais de desenvolvimento, permanecendo em zonas de invisibilidade política e epistêmica. Assim, enquanto os ODS postulam metas universais de saúde, segurança alimentar e sustentabilidade, sua operacionalização desconsidera, frequentemente, as dinâmicas territoriais e os modos de vida que sustentam o bem viver na Amazônia. Desse modo, argumenta-se que a saúde e o bem-estar na região devem ser compreendidos a partir de uma perspectiva relacional, intrinsecamente vinculada ao controle coletivo do território, à autonomia dos povos e à resiliência frente às incertezas climáticas. Ao tensionar os limites das políticas ambientais e sociais vigentes, este estudo busca contribuir para a formulação de abordagens mais situadas, que reconheçam as Unidades de Conservação não apenas como dispositivos de conservação ecológica, mas como territórios estratégicos para a promoção da justiça climática, sanitária e ambiental.
“PINTOU UM CLIMA”: O IMPACTO SOBRE A SAÚDE MENTAL DE JOVENS FRENTE À CRISE CLIMÁTICA NO BRASIL E NO MUNDO
Comunicação Oral Curta
1 Fio cruz
Apresentação/Introdução
Os frequentes desastres decorrentes dos extremos climáticos ocorridos no mundo e no Brasil têm tensionado a todos. Dessa forma pode-se inferir que as condições emergenciais do clima podem impactar a vida de adolescentes e jovens, em especial aqueles que estão em condições e em territórios de grande vulnerabilidade. Do ponto de vista da saúde emocional e mental se faz necessário dialogar e compartilhar estratégias que ajudem a reduzir os riscos de sofrimento e que sejam promotoras de saúde integral e ampliada. Pois, segundo a Organização Panamericana de Saúde OMS (OPAS) (2024), a saúde deve estar no centro dos planos nacionais de combate às crises climáticas. Além disso, com base em dados dessa organização, as medidas de mitigação da mudança climática poderiam evitar até 300 mil mortes. Juntamente, eventos climáticos extremos ocasionam sofrimento psicossocial situado elevado para as pessoas, relacionado à perda de entes queridos, deslocamento forçado ou perda de bens pessoais. Assim, essas situações são particularmente estressantes para os idosos, mas também para adultos e jovens, especialmente aqueles que já possuem algum problema relacionado à saúde mental. Em suma, para a OPAS/OMS (2024) a ansiedade e depressão são os quadros mais eminentes dos adoecimentos relacionados à saúde mental e às mudanças climáticas.
Objetivos
Compreender o impacto das crises climáticas na saúde emocional/ mental dos jovens e os planos para a promoção da saúde mental.
Metodologia
Trata-se de uma revisão literária realizada nos meses de fevereiro e abril de 2026. Buscou artigos dos últimos 5 anos no Google acadêmico e no Portal da Comunidade Acadêmica Federada (CAFE) tendo como descritor inicial Ecoansiedade e foram selecionados aqueles que apresentaram jovens como sujeitos. Os conteúdos foram analisados baseados nos conceitos de Bardin.
Resultados e Discussão
Foram encontrados doze artigos que atendiam o tema, destes, nove foram estudos qualitativos e três quantitativos. Os maiores achados trouxeram os EUA e a Austrália como grandes produtores de material acadêmico internacional e os estudos brasileiros apareceram no google acadêmico. Após esse levantamento preliminar, os artigos foram distribuídos em 2 categorias: 1) A saúde mental dos jovens em territórios vulnerabilizados pelas crises climáticas; 2) Educação ambiental como promotor de saúde mental. Na primeira categoria traz majoritariamente a ecoansiedade como expressão psicossocial associada às crises climáticas e aponta as vulnerabilidades socioambientais como um determinante para o sofrimento mental dos jovens. Já a segunda categoria propõe a Educação Ambiental como estratégia para construir o protagonismo juvenil, por meio de ações de enfrentamento, que visam ações coletivas e participativas, com o intuito de promover o bem-estar mental desse público.
Conclusões/Considerações Finais
A ecoansiedade e emoções negativas estão amplamente presente em jovens afetados pelos desastres climáticos. Pode inferir que os jovens precisam ser inseridos nas pautas atinentes às crises e emergências climáticas, pois a educação ambiental se mostrou como um recurso mitigador de ecoansiedade e de outras expressões de sofrimento psíquico. Trata-se de construir estratégias de inclusão e de garantia do protagonismo juvenil. Por fim, identificou-se a necessidade de novos estudos que tragam a interseccionalidade de modo a discutir sobre raça, gênero, classe, entre outros. Que sejam capazes de oferecer uma leitura que abranja as vulnerabilidades e a diversidade da juventude.
Realização: