Programa - Comunicação Oral - CO11.2 - Justiça Cognitiva a partir dos diálogos interculturais
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
METODOLOGIAS SENSÍVEIS CO-LABOR-ATIVAS: CAMINHOS PARA A JUSTIÇA COGNITIVA NA SAÚDE COLETIVA
Comunicação Oral
1 Núcleo Ecologias e Encontros de Saberes para a Promoção Emancipatória da Saúde/ENSP/Fiocruz
2 Neepes/ENSP/Fiocruz
3 PPGP/Instituto de Psicologia/UFAL e Neepes/ENSP/Fiocruz
4 Instituto Agronômico de Pernambuco/IPA e Coletivo da agricultura Xukuru do Ororubá/Jupago Kreká
5 Associação da Comunidade Indígena Xukuru ( ACIX)
6 IAM/Fiocruz-PE
7 Instituto de Psicologia/UFAL
8 Universidade de Pernambuco, Campus Garanhuns
Apresentação/Introdução
Este ensaio propõe questões teórico-metodológicas, cuja base empírica e experiencial provém de pesquisas junto a territórios indígenas do Nordeste nos últimos seis anos. Frente ao colapso ecológico, os autores defendem que a luta da Saúde Coletiva exige uma transição paradigmática que crie encontros de saberes envolvendo sistemas de conhecimentos científicos e tradicionais. Tal diálogo intercultural é fundamental para a soberania e a justiça, apontando caminhos para a transformação social.
Objetivos
Discutir a construção de metodologias sensíveis co-labor-ativas, junto aos intelectuais orgânicos dos territórios indígenas, visando fortalecer novas epistemologias e o diálogo intercultural entre sistemas de conhecimento. Esta abordagem promove a justiça cognitiva e atua como ferramenta de enfrentamento na saúde coletiva."
Metodologia
Este ensaio, cuja base empírica resulta da realização de pesquisas junto aos territórios indígenas Tingui Botó (AL) e Xukuru do Ororubá (PE), ente abril de 2021 e abril de 2023, tem aprovação no CONEP. Sua proposta reside na construção de metodologias sensíveis co-labor-ativas (Fasanello, Porto, 2022) que buscam estabelecer confluência (Bispo dos Santos, 2015) entre metodologias e formulações desenvolvidas no âmbito acadêmico e nos territórios. Inspiradas em epistemologias de conexão (Jairo Munduruku, Marcelo Firpo Porto e Marina Fasanello, 2024), essas práticas também envolvem guyanças (Iran Xukuru) pelos territórios, fortalecendo o "ser indígena" e seu papel na preservação ambiental. Como sementes dormentes (Marcelo de Campo/Tingui, 2022), esses saberes florescem por meio das lutas e resistências na atualidade, oferecendo respostas concretas à crise paradigmática por meio da produção de conhecimento intercultural e da gestão tradicional do território
Resultados e Discussão
Os resultados expressam as experiências de pesquisas nesses territórios, como aperfeiçoamento com audiovisual, criação de plataforma de narrativas indígenas, mostra de cinema, mapeamento de conhecimentos e práticas indígenas de cuidado, cultivo do alimento e preservação ambiental e formação de conselheiros indígenas. Evidencia-se assim, a importância desses processos na consolidação de diálogos interculturais em torno da saúde, contribuindo para o fortalecimento e aprimoramento do SasiSUS. Ao articular produção de conhecimento intercultural e justiça cognitiva, tais resultados têm sido divulgados por meio de audiovisuais, cadernos interculturais, relatórios, artigos científicos e disciplinas na pós-graduação da ENSP. Construídas em parceria com cineastas e intelectuais orgânicos indígenas, essas produções reafirmam o conhecimento indígena como chave para a transformação da academia em um espaço pluriepistêmica, especialmente diante do colapso ecológico.
Conclusões/Considerações Finais
A justiça cognitiva busca validar diferentes concepções e visões de mundo do Sul Global com um esforço epistemológico que descolonize e "coracione" a academia, posicionando a Saúde Coletiva na linha de frente da luta ambiental. Neste contexto, a reflexão metodológica é importante pois implica em um realinhamento que possa superar a indolência da razão moderna expressa em sua ciência. Incorporar conhecimentos indígenas junto com a arte sensível na produção de conhecimentos é um dos caminhos possíveis para garantir a soberania dos povos e a preservação da vida no planeta.
IMERSÃO NOS MARETÓRIOS E CONFLUÊNCIA DE SABERES NA QUALIFICAÇÃO DO CUIDADO EM SAÚDE DOS POVOS DAS ÁGUAS
Comunicação Oral
1 Fiocruz-PE
Contextualização
As comunidades pesqueiras artesanais enfrentam processos históricos de invisibilidade institucional e racismo ambiental que impactam diretamente suas condições de saúde. Na Atenção Primária à Saúde (APS), observa-se frequentemente um distanciamento entre o saber clínico e as especificidades socioterritoriais dos povos das águas. Dados iniciais desta experiência revelaram que, embora 56,8% dos profissionais atendam pescadores frequentemente, mais de 50% desconheciam a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCFA). Diante dessa lacuna, processos formativos baseados na educação popular buscam promover a justiça cognitiva e a territorialização do cuidado em saúde nos maretórios.
Descrição
Trata-se da sistematização do Curso de Aperfeiçoamento para Profissionais da APS nos Territórios da Pesca Artesanal, realizado com 86 trabalhadores da saúde de Pernambuco (42) e Paraíba (44), incluindo equipes da Estratégia Saúde da Família, Vigilância em Saúde e Cerest. A formação utilizou a Pedagogia da Alternância, articulando o Tempo Escola (encontros híbridos) e o Tempo Comunidade. O dispositivo central foi a imersão "Um dia na pesca artesanal", onde profissionais acompanharam o ciclo completo do trabalho, da coleta ao beneficiamento do pescado, orientados por Agentes Populares de Saúde dos povos das águas e lideranças tradicionais.
Período de Realização
A experiência ocorreu entre março de 2024 e julho de 2025.
Objetivo
O objetivo central foi qualificar profissionais do SUS para o cuidado integral e intercultural às populações da pesca, fortalecendo a implementação da PNSIPCFA através da análise crítica da determinação social da saúde nos territórios.
Resultados
A formação contou com a participação de profissionais com perfil majoritariamente feminino (88%) e autodeclarado pardo (56%), com destaque para as faixas etárias entre 30 e 49 anos (56%). A imersão nos maretórios possibilitou a identificação de riscos ocupacionais e agravos específicos, como acidentes descompressivos (embolia por mergulho) e contaminação ambiental, frequentemente invisibilizados no fluxo ambulatorial convencional. Uma educanda sintetizou a experiência ao afirmar: “Nunca imaginei que tivesse um curso pra gente trabalhar com pessoas da pesca e olhar com mais atenção as pessoas que trabalham no mar”. Outra participante destacou que a vivência incentivou o “zelo pelo meio ambiente, pela saúde dos pescadores e o aumento do conhecimento para fazer sempre o melhor”. Como produtos da sistematização, foram elaboradas cartografias sociais, estratégias de ação para o setor saúde e um minidocumentário produzido pela equipe da Paraíba com os profissionais participantes, materiais que buscam subsidiar o planejamento do cuidado territorializado.
Aprendizado e Análise Crítica
A imersão nos maretórios revelou-se um dispositivo potente de justiça cognitiva, operando uma ruptura com a lógica ambulatorial e promovendo a confluência entre saber técnico e ancestral. Essa aproximação permitiu reconhecer o território como um campo de forças políticas e culturais indissociável da saúde. A análise reafirmou a necessidade de uma "epistemologia de conexão" que considere o racismo ambiental e a "temporalidade das águas" (marés e safras) na logística dos serviços. Destacou-se a urgência de institucionalizar a Carteira de Saúde do Trabalhador da Pesca (CSTPA) como ferramenta de visibilidade epidemiológica e garantia de direitos, combatendo a subnotificação de agravos como a doença da descompressão (embolia por mergulho). Conclui-se que a formação-ação descoloniza a prática profissional, superando modelos desterritorializados e consolidando um SUS intercultural, equânime e comprometido com a justiça socioambiental.
PROMOÇÃO EMANCIPATÓRIA DA SAÚDE EM PERIFERIAS URBANAS: LUTAS PELO BEM VIVER EM OCUPAÇÕES SEM TETO NO SUBÚRBIO FERROVIÁRIO DE SALVADOR
Comunicação Oral
1 Neepes-Fiocruz
2 -Neepes- Fiocruz
3 Ensp, Fiocruz
4 . MSTB
5 ISC-UFBA
6 CEM-RJ
Contextualização
A experiência a seguir descreve o processo do grupo de pesquisa Núcleo Ecologias e Encontros de Saberes para a Promoção Emancipatória da Saúde (Neepes/Fiocruz-RJ) de construir junto com (Fasanello; Porto, 2019) o Movimento Sem Teto da Bahia (MSTB), no bairro de Periperi, subúrbio ferroviário de Salvador. O MSTB vem mobilizando a permanência de uma ocupação denominada Manuel Faustino (MF) e do conjunto habitacional Residencial Paraguari II ( também vem sendo denominado Conjunto Habitacional Quilombo Paraíso). Trata-se de evidenciar e valorizar formas de cuidado comunitário e a sabedoria ancestral na relação com o SUS local em meio aos enfrentamentos, disputas e violações históricas que marcam periferias urbanas das metrópoles brasileiras no projeto: “SUS e promoção emancipatória da saúde nas periferias urbanas: resistências e experiências territoriais para a construção do bem viver em ocupações Sem Teto de Salvador e numa favela do Rio de Janeiro”.
Descrição
Na construção de uma pesquisa junto com, as reuniões, oficinas e encontros entre o Neepes, os pesquisadores dos territórios e os parceiros da UFBA são movidas por momentos de atualização sobre acontecimentos e eventos significativos, provocando a emergência de questões importantes para discutir a Promoção Emancipatória da Saúde (PES) nos territórios. A pesquisa recebe apoio do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, que contribui para construção dos diálogos e atividades e esteve diretamente envolvido na elaboração do questionário, aplicado no primeiro semestre de 2026.
Período de Realização
A pesquisa, realizada desde dezembro de 2023, é um desdobramento do estudo do Neepes (2021-2023), que aprofundou os vínculos com o Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM- RJ), e com o MSTB, em Salvador buscando estabelecer conexões entre agroecologia, moradia digna e cuidado na construção de territórios urbanos sustentáveis e saudáveis TSS.
Objetivo
Aprofundar reflexões acerca de dificuldades e possibilidades de acesso às políticas públicas de promoção da saúde e ao SUS por meio de diálogos interculturais com organizações comunitárias e movimentos sociais que atuam nos territórios.
Resultados
Na ocupação Manuel Faustino e no Conjunto Habitacional Quilombo Paraíso ocorrem barreiras à universalização do atendimento aos serviços de saúde, pois o SUS passa a conhecer o território apenas após os projetos envolvendo a universidade/academia, por meio do ISC/UFBA e da Fiocruz/Neepes. O Hospital do Subúrbio exige comprovante de residência para o atendimento das pessoas do território, vulnerabilizando principalmente as mulheres por problemas de saúde mental.
No rol dos conflitos e das injustiças socioambientais, as comunidades sofrem com a passagem do VLT pela Estrada do Derba. Na ocupação MF, há denúncias de demolição de casas em decorrência das obras, resultando na destruição de plantações, como bananeiras, pés de frutas e outros alimentos cultivados para o sustento da ocupação.
Observa-se que o Conjunto Habitacional Quilombo Paraíso vem sendo pressionado pela dinâmica da gentrificação e pelo esvaziamento das camadas populares do território. A luta para impedir ou minimizar os impactos da construção do VLT vem sendo acompanhada pela descredibilização do MSTB por parte do Estado e pela gentrificação como expressão do colonialismo urbano (De Marco; Santos 2020).
Por outro lado, o cuidado comunitário no cotidiano da ocupação MF e do Conjunto Habitacional garante formas de conexão e coesão entre os moradores, significando que a resistência aos conflitos antes mencionados passa pela produção de um território de pertencimento e afeto, através do resgate de práticas ancestrais de produção de saúde: horta comunitária agroecológica, cuidado com sementes, capoeira com crianças, teatro do oprimido, poesia com a juventude, produção de chás, reuniões de formação política com materiais envolvendo cartilhas e cadernos interculturais .
Aprendizado e Análise Crítica
A dignidade é um desafio nas periferias do Sul Global (Santos, 2022), marcadas por heranças coloniais, desigualdades, racismo e violências. No contexto latino-americano, a determinação social da saúde deve incorporar saberes periféricos e suas práticas que reacendem anúncios e esperanças para fortalecer o SUS e a Saúde Coletiva.
Os questionários evidenciam que o acesso à saúde se amplia com o reconhecimento das resistências cotidianas. Como dispositivo formativo, revelam barreiras como violência, racismo, saúde mental e precariedade do cuidado. Apesar das injustiças vividas pelo MSTB (social, ambiental, sanitária e cognitiva), e que dificultam o acesso equânime ao SUS, reafirma-se a centralidade das práticas territoriais na luta pelo Bem Viver.
SUS E PROMOÇÃO EMANCIPATÓRIA DA SAÚDE EM PERIFERIAS URBANAS: DIÁLOGOS DE SABERES E INTERCULTURAIS COM O CEM (RJ) E O MSTB (SSA).
Comunicação Oral
1 ENSP/ Fiocruz RJ
2 Neepes/Fiocruz RJ
3 MSTB (SSA)
4 CEM (RJ)
5 ISC/UFBA
Apresentação/Introdução
O projeto “SUS e promoção emancipatória da saúde nas periferias urbanas: resistências e experiências territoriais para a construção do bem viver em ocupações Sem Teto de Salvador e numa favela do Rio de Janeiro”, financiado pelo Edital CNPq Chamada Nº 21/2023, é uma continuidade e aprofundamento das pesquisas do Núcleo Ecologias e Encontros de Saberes para a Promoção Emancipatória da Saúde (Neepes/Fiocruz RJ), envolvendo experiências territoriais em periferias urbanas no Rio de Janeiro (CEM/Complexo da Penha) e Salvador (Movimento Sem Teto da Bahia), desde 2019. Em Salvador, o projeto tem sido desenvolvido em parceria com o Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA).
Objetivos
Identificar potencialidades de ações comunitárias de cuidado provenientes de experiências territoriais que possam aprimorar ações do SUS local, a partir de espaços de diálogos de saberes e interculturais com os sujeitos dos territórios e as equipes dos serviços de saúde. Busca-se contribuir para a visibilização do protagonismo das organizações comunitárias CEM, na Serra da Misericórdia (RJ), e do MSTB, na ocupação Manuel Faustino e no Conjunto Habitacional Quilombo Paraíso (SSA).
Metodologia
O percurso metodológico do projeto foi composto por reuniões e oficinas onde eram compartilhados as denúncias e os anúncios dos territórios e possibilitava-se a produção de relatos significativos das experiências trazidas pelos sujeitos (FASANELLO; PORTO, 2019). Nos últimos meses, esses espaços tiveram como objetivo principal a elaboração do questionário semiestruturado em parceria com as comunidades. A elaboração compartilhada do questionário com os sujeitos dos territórios teve como foco os cuidados individuais, familiares e comunitários, incorporando elementos ligados à saúde e à sabedoria ancestral.
Entre janeiro e março de 2026, foram aplicados 16 questionários pilotos nos territórios de atuação do CEM e do MSTB. Essas aplicações foram acompanhadas pela realização de reuniões periódicas de compartilhamento das experiências, ao longo das quais foram discutidas e incorporadas melhorias nas questões do questionário. As/os pesquisadoras/es dos territórios compartilharam, nas reuniões, suas experiências, análises e inquietações acerca dessa experiência, considerando o nível de complexidade de algumas perguntas propostas inicialmente.
Muitas dessas inquietações abriram espaço para a necessidade de recriar formas de aproximação com os entrevistados, com foco em melhorar não apenas o entendimento das perguntas e a influência que algumas delas poderiam gerar na esfera emocional deles, mas também o cuidado na produção de um ambiente de entrevista acolhedor e seguro para todas/os, bem como a construção de confiança mútua ao longo do processo.
Resultados e Discussão
Constata-se um trabalho territorial impulsionado tanto pelo MSTB como pelo CEM, que busca conectar as múltiplas dimensões do cuidado, desde uma perspectiva individual/familiar, ampliando-a para um cuidado coletivo/comunitário.
A atuação do MSTB vincula-se a atividades comunitárias como teatro, capoeira, boxe e música, com foco na educação ambiental. Esse cuidado também se materializa pelo acolhimento das diferentes experiências trazidas pelos moradores que chegam ao conjunto habitacional a partir de outras localidades. No CEM, esses cuidados comunitários são percebidos nas experiências de acolhimento às mulheres de outros estados que chegam para morar no território. Elas retomam práticas de suas ancestrais, como cultivo de ervas, chás, escalda-pés e banho de assento. Em ambos os territórios, constata-se dificuldade de acesso dessas populações ao SUS local.
Como o projeto de pesquisa encontra-se na etapa de aplicação do questionário, não é possível antecipar os resultados. Estima-se que a pesquisa seja finalizada até o mês de dezembro/2026.
Conclusões/Considerações Finais
Na experiência latino-americana, a medicina social e a saúde coletiva basearam-se na medicina científica e biomédica (NUNES; PORTO, 2023), realizando profundas críticas às dinâmicas do capitalismo sobre os impactos à saúde das populações.
Porém, tal perspectiva é considerada fruto da modernidade eurocêntrica (PORTO, 2019). Ela gerou distanciamentos entre as diversas formas de saberes, tendendo a negar a sabedoria advinda das populações localizadas no campo, floresta e cidades e relegando-as a um conhecimento subalterno e de menor valor. Por outro lado, a noção de Promoção Emancipatória da Saúde (PES) emerge como paradigma de apoio às lutas sociais por saúde, dignidade e direitos nos territórios, orientada através da articulação entre quatro dimensões de justiça: social, sanitária, ambiental e cognitiva (PORTO, 2019). As experiências do MSTB e do CEM revelam fortes componentes dessas quatro justiças, sobretudo a ambiental e cognitiva.
TEMPO HISTÓRICO, DETERMINAÇÃO SOCIAL DA SAÚDE E EPIDEMIAS: INTERSECÇÕES DIALÉTICAS EM PERSPECTIVA DECOLONIAL
Comunicação Oral
1 FSP-USP
Apresentação/Introdução
A pandemia de Covid-19 continua a exigir da Saúde respostas comprometidas com processos históricos, sociais, políticos, econômicos, ecológicos e culturais. Assim, a presente pesquisa de Pós Doutorado propõe interlocução dialética e pluriepistêmica entre o campo da História e da Saúde Coletiva, a partir do referencial latino-americano de Determinação Social da Saúde em perspectiva decolonial, para investigação de iniquidades em epidemias.
A interlocução se sustenta pelo tensionamento de aspectos sócio-históricos presentes em hierarquias raciais, territoriais e epistêmicas, cunhadas no processo colonial e expressas nas dimensões do poder-ser-saber, que incidem sobre processos de saúde-doença-cuidado e morte e na produção e circulação do conhecimento em saúde.
No Brasil, a incidência do recorte racial e das iniquidades preexistentes à pandemia de Covid-19 e recrudescidos por ela, segue assinalando historicamente as condições da população em adoecer, recuperar a saúde ou morrer. Foram os territórios marcados pela precarização dos modos de viver a vida e convertidos em zonas de sacrifício ambiental e social, que somaram as maiores perdas para o vírus. Faz-se assim fundamental à Saúde Pública historicizar modos de governar populações e territórios em seus processos de disputas, dominação, exploração e marginalização, e suas implicações em discursos, práticas, políticas de saúde que se refletem na categorização dos males, na estratificação dos acessos e recursos, em negociações e respostas (ou falta delas) às catástrofes.
Objetivos
-Desenvolver arcabouço teórico-metodológico assentado na intersecção entre História-Saúde Coletiva;
-Pesquisar a orfandade provocada pela Gripe Espanhola de 1918 e pela Covid-19 em São Paulo-Capital;
-Aplicar arcabouço desenvolvido para análise de rupturas, permanências e aprofundamento de iniquidades em epidemias
Metodologia
Levantamento dos marcos teórico-conceituais da Determinação Social da Saúde nas dimensões Geral- Particular-Singular, do Tempo Histórico em Longo Duração e da Decolonialidade do poder-ser-saber.
Pesquisa historiográfica e análise documental, tendo como recorte a orfandade epidêmica provocada pela Gripe Espanhola, entre os anos de 1918-1919, e pela pandemia de Covid-19, entre os anos de 2020-2021, em São Paulo-Capital. Para que a dialética seja privilegiada, o estudo adota a Corporeidade como dimensão singular, onde o corpo, mediado pela experiência temporal de indivíduos e coletividades e compreendido historicamente, autoriza recuperar marcas do adoecimento na experiência humana e na memória coletiva.
Resultados e Discussão
A pesquisa tem realizado cotejamento entre os conceitos de Tempo Histórico e Determinação Social da Saúde para aproximações e intersecções entre os campos da História e da Saúde Coletiva, em crítica epistemológica decolonial empreendida sobre relações de poder e sociabilidade articuladas às especificidades da formação social brasileira. Ou seja, às dimensões estruturais e materiais que se encadeiam às dinâmicas culturais, discursivas e subjetivas e que forjam modos específicos de dominação e resistência entre populações e territórios.
Espelhar dinâmicas históricas, contradições estruturais e marcações sociais que produzem-reproduzem iniquidades, dialeticamente tem permitido destacar o sofrimento, as resistências e os modelos de cuidado na compreensão do adoecimento como acontecimento biográfico e social.
Nessa direção, artes de curar, saberes ancestrais, memória como testemunho do vivido em territórios, tornam-se compreendidos como experiências comunitárias na produção do cuidado, da vida, do conhecimento e de outros mundos possíveis em interculturalidade. Interculturalidade esta radicalmente crítica e solidária, capaz de evocar questionamentos e chaves interpretativas para reformulações epistêmicas, institucionais, formativas e políticas na Saúde Pública, em uma “negociação dos conhecimentos” entre pessoas, classes, etnias, gêneros, como nos ilumina Jaime Breilh.
Paralelamente, tem se perseguido rastros das instituições que receberam crianças órfãs entre os anos de 1918-1919, levantado acervos históricos e estabelecido fundamental parceria com o Centro de Memória da Faculdade de Saúde da USP. Para o estudo da orfandade da Covid-19, têm se organizado bases de dados e demais documentos para futura consulta sobre a distribuição de óbitos e de orfandade por Covid-19, no município de São Paulo.
Conclusões/Considerações Finais
Ao se defender que pandemias como a Gripe Espanhola e a Covid-19 não encontrarão fim, pois seguirão em longa duração nas esferas sociais, culturais, políticas e econômicas, atenta-se que abarcar as forças históricas na complexificação do pensamento social em Saúde, torna-se ferramenta ética, política e analítica na formulação/ fortalecimento de repostas comprometidas com o senso de urgência pela defesa radical da vida, pela preservação de direitos de ser-existir, por um Sistema Único de Saúde público, gratuito, antirracista e equânime.
BARREIRAS INSTITUCIONAIS PARA A IMPLEMENTAÇÃO DA ESTRATÉGIA INTEREPISTÊMICA DO AMBULATÓRIO INTERCULTURAL DE SAÚDE INDÍGENA DA UNICAMP
Comunicação Oral
1 Unicamp
Apresentação/Introdução
Segundo o IBGE (2022), 53,97% da população indígena (PI) reside em áreas urbanas. Apesar do número expressivo, o pressuposto de que indígenas residentes em contextos urbanos devem ser absorvidos pelas redes locais do SUS tem servido de pretexto para a não articulação de uma política de atenção diferenciada a essa população.
O projeto do Ambulatório Intercultural de Saúde Indígena (AISI) foi desenhado como estratégia para facear essa lacuna em Campinas e região. Ele emergiu na confluência de demandas: da PI de Campinas, terceira cidade com maior PI no estado; do corpo discente indígena da Unicamp, com cerca de 500 estudantes de aprox. 50 povos, major. da região Norte.
O projeto tem duas referências principais:
• a perspectiva interepistêmica de cuidado elaborada por João Paulo Lima Barreto (2022);
• o modelo de apoio matricial dos antigos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF).
Considerando a configuração multiétnica e territorialmente dispersa da PI da região, o AISI pretende atuar não somente na atenção direta, mas, sobretudo, como retaguarda técnico-pedagógica para a rede-SUS. Seu desenho é interepistêmico, prevendo não só a composição de uma equipe multiprofissional com experiência em saúde indígena, preferencialmente indígena e com psicólogos indígenas, mas também uma Linha de Cuidado em Medicinas Indígenas, tanto para mapear e articular-se com especialistas de medicinas indígenas (EMIs) na região, como para constituir um núcleo próprio de EMIs.
Em vista da diversidade étnica, essa linha compreenderia:
• um esquema rotativo na composição da equipe, alternando EMIs de diferentes povos, sobretudo, daqueles representados no corpo discente da Unicamp, sem acesso a seus EMIs, devido à distância;
• uma estratégia de matriciamento interétnico, favorecendo o diálogo remoto entre EMIs em atuação no AISI e EMIs de referência de usuários.
A equipe de EMIs atuaria tanto na atenção direta, quanto no matriciamento da rede-SUS, possibilitando uma formação intercultural a partir de equipe de retaguarda pluriepistêmica.
Apesar do interesse expresso por diversos atores institucionais da Unicamp e do Ministério da Saúde na apresentação da proposta em maio de 2025, o AISI ainda não foi viabilizado.
Objetivos
Analisar as barreiras institucionais à implementação do AISI.
Metodologia
Abordagem de pesquisa-intervenção, que toma a própria tentativa de implantação do AISI como campo empírico-analítico, problematizando dinâmicas institucionais que emergem da interação entre diferentes atores e instâncias decisórias.
Resultados e Discussão
Barreiras identificadas:
• o arranjo das políticas de atenção à saúde da PI, que não prevê apoio financeiro a ações na Atenção Primária para indígenas não aldeados ou em contexto urbano, o que constrangeu a localizar a proposta no contexto do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp;
• a estrutura do Incentivo à Atenção Especializada aos Povos Indígenas, único recurso acessível a iniciativas em contexto urbano, o qual não financia projetos, apenas iniciativas em desenvolvimento, e se baseia em uma concepção fragmentada da rede de atenção (não reconhece, p.e., apoio matricial e ações pedagógicas na rede como ações), em um modelo individualista de atenção (não reconhece estratégias coletivas como ações) e em uma concepção médico-curativa-ocidentalizada (valorizando atendimentos clínicos, em detrimento da integralidade do cuidado, da interdisciplinaridade e da interepistemicidade);
• a insuficiente implicação do DSEI Litoral Sul, ocupado prioritariamente com ações de cobertura assistencial a indígenas aldeados, seguindo a perspectiva geral assumida pelo SasiSUS;
• a insuficiente implicação do HC e da reitoria da Unicamp, o que reflete o fato de que, diferentemente do que ocorre em outros domínios da política universitária, como nas políticas de ingresso e de apoio material à permanência, a garantia de atenção à saúde não é compreendida como parte das políticas de ação afirmativa;
• barreiras da gestão de recursos humanos da Unicamp: ausência de normativas que autorizem concursos com recorte étnico-racial exclusivo para vagas estratégicas; exclusão de indígenas da política de cotas para concursos, a qual contempla apenas candidatos pretos e pardos e pessoas com deficiência; restrições procedimentais que não permitem a exigência de experiência prévia (em saúde indígena, p.e.) como requisito em editais de concurso para carreiras não docentes; inexistência de normativas para remuneração de pessoas físicas (EMIs, p.e.) fora de concursos e processos seletivos e de uma política de rotatividade estratégica para vagas;
• recuo da disposição de atores institucionais da Unicamp diante do prognóstico de redução orçamentária em 2026 e da priorização de outras pautas.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência do AISI demonstra a necessidade de rever marcos normativos, arranjos de financiamento e práticas institucionais para viabilizar uma política de atenção diferenciada à saúde da PI em contextos urbanos e o avanço das ações afirmativas na educação superior.
DEMARCAR O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE: POTÊNCIAS E CONTROVÉRSIAS DAS EXPERIÊNCIAS DE ALTERAÇÃO DA CONSCIÊNCIA COM PSICODÉLICOS COMO PRODUTORAS DE CUIDADO
Comunicação Oral
1 UFSM
Apresentação/Introdução
Os povos indígenas da mesoamérica empregam cogumelos do gênero psylocibe como parte de rituais e festividades. O teonanácatl - carne dos deuses -, como é chamado em algumas culturas, é considerado uma divindade. A partir da ingestão, é possível obter a verdade, cura física, adivinhação, comunhão com entes da natureza. Cactos como o Peyote e San Pedro também são utilizados tradicionalmente.
A ayahuasca - bebida obtida pela decocção da chacrona, rica em N,N-Dimetiltriptamina (DMT) e do jagube, que contém alcalóides β-carbolina inibidores da monoamina oxidase, enzima que degrada a substância neuroativa - e a jurema-preta são outros importantes elementos da cosmogonia indígena. O uso ocorre em cerimônias que envolvem desde a forma de preparo, até a administração do chá. Estas plantas para as comunidades são seres sencientes, que tem conhecimento e intencionalidade, e cumprem importantes papéis em momentos de paz ou conflitos, para garantir a justiça, ter contato com ancestrais ou encantados, promover a morte do eu, cura e transcendência.
A ciência hegemônica, por muito tempo, invalidou estas experiências, acusando-as de enganação, charlatanismo e feitiçaria. Houveram inclusive tentativas de proibição, como parte do esforço colonizador em negar e destruir a existência cultural dos povos originários e também criar estratégias de controle e moralização dos corpos. Porém, nos últimos anos, o interesse por essas práticas foi reacendido, especialmente pela indústria farmacêutica, que tenta patentear tecnologias ancestrais em favor do lucro. O termo amplamente empregado nestes contextos: “renascimento psicodélico”, trata-se de abordagem etnocêntrica, uma vez que as experiências de alteração da consciência, inclusive enquanto produtoras de saúde, jamais morreram, apesar das sucessivas tentativas de enfraquecimento. Como propõe Assis e colaboradores (2026), podemos falar na confluência psicodélica, promovendo a interculturalidade e buscando respostas para os complexos problemas de nossa sociedade, também através da relação com plantas de poder.
Objetivos
Discutir as potências e controvérsias do uso de psicodélicos utilizados tradicionalmente para o tratamento de condições de saúde.
Metodologia
Trata-se de um estudo de caráter qualitativo, desenvolvido por meio de revisão narrativa da literatura. Foram consultadas produções acadêmicas relevantes publicadas na área, selecionadas conforme sua pertinência ao problema de pesquisa.
Resultados e Discussão
A teoria do cérebro entrópico (CARHART-HARRIS et al., 2014) enuncia que sob o efeito de psicodélicos, o cérebro retorna a uma consciência primária, de maior entropia. A consciência desperta normal, ou secundária, operaria num nível subcrítico, suprimindo a desordem. Estados de menor entropia estariam ligados a condições como a depressão, transtorno obsessivo compulsivo e adicção, com redes de modo padrão mais hiperativas. O uso de espécies psicoativas, sendo observadas as contraindicações, abre espaço para a sinaptogênese e “lubrificação” da cognição, e vêm sendo aplicada em processos de terapia assistida, especialmente para pacientes refratários aos tratamentos medicamentosos convencionais. O processo envolve sessões de preparação, sem o uso da substância, seguido da administração e da integração.
A expansão destes estudos levanta preocupações quanto aos impactos socioambientais, com risco de extinção e superexploração de espécies, diminuição da biodiversidade, restrições às comunidades locais, biopirataria e destruição de territórios. Para além disso, questiona-se quem poderá ter acesso à estas terapêuticas. Serão elas disponibilizadas no Sistema Único de Saúde, mesmo diante das dificuldades de financiamento e formação de recursos humanos, especialmente no campo da saúde mental? Se adotará esta estratégia como alternativa à medicamentalização, às internações compulsórias em comunidades terapêuticas e hospitais psiquiátricos? O Brasil terá condições de desenvolvimento tecnológico e de superação dos estigmas da proibição? Questões de difícil resposta, mas que se deve ousar fazer.
Conclusões/Considerações Finais
Não somente o uso clínico, com dosagens controladas, setting terapêutico e acompanhamento profissional, mas também o uso social, situado ou não, dentro de um contexto cerimonial, pode produzir vida, considerando um conceito positivo e ampliado de saúde. Porém, reinterpretar as medicinas segundo outros referenciais, exige uma postura crítica e envolvida, que reconheça a importância e a unicidade de outras formas de uso e garanta a preservação dos ecossistemas, culturas e territórios indígenas. Se não, ao invés da interculturalidade, se promoverá o apagamento epistêmico dos saberes que forjaram estas terapêuticas, muito antes de serem consideradas remédios.
Realização: