Programa - Comunicação Oral Curta - COC2.1 - Segurança e soberania alimentar em perspectiva territorial e intercultural
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
SEGURANÇA E SOBERANIA ALIMENTAR NA AMAZÔNIA: UMA ANÁLISE CRÍTICA DOS SISTEMAS ALIMENTARES E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A SAÚDE COLETIVA
Comunicação Oral Curta
1 Instituto Leônidas e Maria Deane - ILMD/ Fiocruz Amazônia
2 Escola de Saúde Pública de Manuas - ESAP
3 Universidade do Estado do Amazonas - UEA
Apresentação/Introdução
A alimentação constitui um fenômeno social complexo, atravessado por dimensões culturais, territoriais, políticas e econômicas, que ultrapassam sua dimensão biológica. No contexto amazônico, povos e comunidades tradicionais estabelecem relações singulares com o alimento, ancoradas em modos de vida, saberes e práticas culturais (Schweickardt; Barreto 2023). No entanto, essas relações são tensionadas por dinâmicas estruturais associadas à expansão de sistemas alimentares hegemônicos, marcados pela mercadorização dos alimentos, pela exploração dos recursos naturais e pela reprodução de desigualdades históricas (Norde, 2023).
Objetivos
Analisar criticamente os sistemas alimentares na Amazônia, com foco nos efeitos do modelo dominante de produção e circulação de alimentos sobre a segurança e a soberania alimentar de povos e comunidades tradicionais, bem como em suas implicações para a Saúde Coletiva.
Metodologia
Trata-se de um ensaio teórico-crítico, de abordagem qualitativa, fundamentado em revisão narrativa da literatura e na análise de marcos normativos da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) no Brasil, com foco no Amazonas. A seleção das fontes foi orientada por sua relevância teórica e analítica para o objeto de estudo, não seguindo protocolo sistemático.
Resultados e Discussão
Embora exista arcabouço normativo que assegura o direito humano à alimentação adequada, sua efetivação é limitada, sobretudo entre populações tradicionais (Brasil, 2006; Brasil, 2007). No Amazonas, fatores como isolamento geográfico, sazonalidade dos rios e dificuldades logísticas se articulam a processos estruturais do modelo capitalista, fragilizando sistemas alimentares locais. A expansão do agronegócio, associada ao desmatamento e à concentração fundiária, reforça a lógica de acumulação e a conversão do alimento em mercadoria, subordinando práticas tradicionais a interesses econômicos. Esse processo restringe a autonomia dos povos sobre produção, acesso e consumo de alimentos culturalmente referenciados, comprometendo a soberania alimentar. Observa-se ainda a desarticulação de circuitos locais, agravada pela ausência de apoio ao pequeno produtor e limitações no escoamento da produção (Norde, 2023). Paralelamente, a inserção de alimentos industrializados, inclusive mediada por políticas públicas, evidencia contradições com diretrizes da SAN. Tais dinâmicas impactam a Saúde Coletiva, ampliando a insegurança alimentar, a perda de referências culturais e a ocorrência de doenças crônicas.
Conclusões/Considerações Finais
O acesso à alimentação adequada na Amazônia não depende apenas de marcos legais, mas das condições concretas de produção, circulação e consumo nos territórios. A priorização de modelos voltados ao mercado, aliada à fragilidade de políticas públicas, contribui para a perda de autonomia alimentar e o enfraquecimento de práticas culturais. A soberania alimentar emerge como eixo central ao afirmar o direito dos povos à autodeterminação. Fortalecer sistemas locais, apoiar pequenos produtores e reconhecer saberes tradicionais são caminhos essenciais para reduzir desigualdades e promover justiça social, ambiental e alimentar.
SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL E O PROTAGONISMO DA AGROECOLOGIA LIDERADA POR MULHERES: RESULTADO DE DIALOGO INTERSABERES
Comunicação Oral Curta
1 UNB
2 Fiocruz Brasília
Apresentação/Introdução
No Brasil, dados de 2022 mostram que 58% da população é atingida por insegurança alimentar e nutricional, adquirindo maior relevância em domicílios rurais. Em que pese a promoção de segurança alimentar articulada à equidade de gênero em sistemas familiares sustentáveis de base agroecológica, poucas são as abordagens adotadas na implementação. Em contraposição, comunidades rurais produzem alimentos com a agroecologia familiar liderada por mulheres.
Objetivos
Promover trocas intersaberes e intercomunidades sobre problemas e estratégias para produção agroecológica feminina com a promoção de segurança alimentar e nutricional em comunidades rurais, visando contextualizar limitações, obstáculos e prioridades de ação governamental e comunitária.
Metodologia
O diálogo deliberativo teve envio prévio de infográfico e de resumo contendo estratégias governamentais (n = 15), comunitárias (n = 6) e individual (n = 1), contatos telefônicos e cumprimento de requisitos éticos O encontro durou três horas, na instituição da pesquisa, com a presenca de seis participantes (três produtoras familiares,, uma gestora de saúde e duas pesquisadoras). Utilizou-se a técnica de Chatham House, moderação experiente e relatoria. O encontro presencial iniciou com a apresentação entre as participantes, seguida da apresentação do conteúdo dos achados da literatura, elaborado com recursos gráficos em PowerPoint, para facilitar a compreensão e manter a atenção das participantes. A cada tópico, abria-se espaço de fala para que as convidadas compartilhassem suas contribuições sobre limitações, obstáculos, prioridades, e relatassem suas vivências.
Resultados e Discussão
O problema central relatado pelas participantes envolveu a falta de estrutura e de políticas públicas integradas que permitam as agricultoras familiares viverem e produzirem com dignidade no campo. Os principais pontos relatados foram: i) Há uma carência crítica de itens básicos como irrigação, energia elétrica, saneamento básico e mão de obra, máquinas agrícolas e internet. O apoio recebido é inadequado, como a entrega de mudas sem a contrapartida de acesso à água (poços) ou a tentativa de plantar espécies incompatíveis com o bioma local. ii) As políticas existentes costumam focar apenas no plantio, negligenciando etapas essenciais como o processamento e a comercialização. iii) O custo de produção agroecológica (sem veneno) é elevado e gera muitas perdas, mas o mercado não valoriza esse esforço. Exploração por revendedores que pagam diárias baixas às produtoras iv) A regularização fundiária é lenta. v)Mesmo quando há produção de alimentos, as famílias enfrentam dificuldades para cozinhá-los por falta de lenha ou gás. Muitas vezes, a agricultora precisa deixar de consumir o que produz para vender e conseguir pagar contas básicas, como luz e gás. Limitações quanto à educação em manejo de tecnologias e equipamentos incluem a insuficiência da carga horária prática e ausência de conteúdos sobre a boa manutenção das máquinas agrícolas. Limitações referentes à ações educativas sobre práticas agrícolas agroecológicas incluem a falta de estratégias territorializadas, com a apresentação, às agricultoras, de práticas agroecológicas que não se conectam com a realidade territorial na qual elas estão inseridas, e/ou não atendem a demanda para comercialização do que foi produzido.
Quanto ao conhecimento tradicional feminino, houve concordância sobre o papel central da mulher nos saberes nutricionais, medicinais, e de plantio. Importância de estratégias de comunicação para fortalecer a proteção do conhecimento tradicional, de saber agroecológico, que fosse ocupado por aqueles pertencentes aos grupos que historicamente constroem a agroecologia. Acesso à internet, equipamentos eletrônicos, redes sociais, e letramento digital - como ferramenta para garantia da autonomia dos povos do campo na construção da narrativa agroecológica. Estrategias positivas foram a presença e atuação de movimentos sociais na comunidade, a realização de mutirões, o apoio digital em redes sociais e a aquisição de novos consumidores para as cestas mensais de hortaliças.
Conclusões/Considerações Finais
O problema relatado reforça que a falta de uma reforma agrária eficaz e de incentivos reais à agroecologia impede que as famílias consigam, de fato, viver do que a terra produz. As participantes ressaltaram a importância do desenvolvimento de tecnologias avançadas, incluindo maquinário e treinamento de uso, adaptado ao cotidiano de cultivo agroecológico das agricultoras, e que aliviem a carga horária dedicada ao plantio. Como cada território apresenta um conjunto único de características, que vão para além das biológicas e envolvem múltiplos fatores socioambientais, as participantes citaram o diagnóstico situacional participativo como alternativa para reunir dados e evidências territorializadas a partir da escuta ativa. Em que pese a reforma agrária incipiente, foi apontado que o Brasil apresenta políticas para agroecologia muito mais avançadas que muitos países
O QUE HÁ EM COMUM ENTRE AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL NO BRASIL E EM MOÇAMBIQUE?
Comunicação Oral Curta
1 UEFS/ISC-UFBA - Brasil
2 University of Gävle - Suécia
3 UEM - Moçambique
4 ISCISA - Moçambique
5 UEFS - Brasil
6 ISC-UFBA - Brasil
Apresentação/Introdução
Este estudo insere-se no campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde ao analisar, em perspectiva comparativa e crítica, as políticas públicas de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) no Brasil e em Moçambique, com foco em seus fundamentos institucionais, políticos e normativos. A SAN constitui tema estratégico da Saúde Coletiva por articular condições de vida, proteção social, produção de alimentos, cuidado em saúde e direitos humanos. Ao tomar a alimentação como direito e como expressão das desigualdades sociais, o estudo contribui para o debate sobre justiça social, intersetorialidade, participação social e fortalecimento institucional na efetivação do direito à alimentação adequada
Objetivos
Analisar os elementos comuns presentes nas políticas públicas de SAN do Brasil e de Moçambique, com ênfase em seus fundamentos institucionais, políticos e conceituais, bem como identificar especificidades nas formas de organização, coordenação e governança adotadas em cada contexto.
Metodologia
Trata-se de estudo comparativo, qualitativo, documental e de base lexical, realizado a partir de três documentos oficiais e de acesso público: a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional e a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, no Brasil, e a Política e Estratégia de Segurança Alimentar e Nutricional 2024–2030, em Moçambique. Os textos foram organizados em corpus e analisados no IRaMuTeQ®, com apoio da análise de similitude e de coocorrências, visando identificar núcleos lexicais, conexões temáticas e estruturas de sentido presentes nos marcos normativos. As estruturas lexicais geradas foram exportadas e examinadas no software R®, mediante comparação de redes e avaliação de similaridade estrutural entre grafos, com apoio de métricas de distância e visualização gráfica. A interpretação dos achados foi orientada por referenciais das Ciências Humanas e Sociais em Saúde, com destaque para direito, institucionalidade, coordenação estatal, participação social, governança e desigualdades.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que as políticas de SAN dos dois países convergem, em primeiro lugar, na compreensão de que a segurança alimentar exige ação pública intersetorial. Em ambos os contextos, alimentação, saúde, agricultura, proteção social, educação e gestão pública aparecem articuladas como dimensões inseparáveis, o que evidencia uma concepção ampliada da SAN. Em segundo lugar, observa-se a centralidade da coordenação entre escalas de governo e entre diferentes instituições, revelando que a efetividade da política depende menos de uma ação isolada e mais da capacidade de articulação entre setores, territórios e níveis administrativos. Outro ponto comum é a presença de instrumentos de planejamento, monitoramento e avaliação, indicando que a SAN é concebida como agenda permanente de governo, e não apenas como resposta emergencial à fome. Também se verifica, nos dois países, a associação entre segurança alimentar, produção, acesso e governança, reforçando a alimentação como fenômeno social, político e econômico, atravessado por disputas institucionais, prioridades estatais e diferentes capacidades de implementação. As diferenças, contudo, qualificam essa aproximação. No Brasil, o direito humano à alimentação adequada aparece de forma mais explícita e juridicamente consolidada, sustentado por marcos legais, sistemas, instrumentos normativos e instâncias participativas. Em Moçambique, destacam-se a coordenação multinível, a mobilização de recursos e o fortalecimento institucional como condições centrais para a consolidação da agenda. Nesse sentido, os achados sugerem que, embora ambos os países compartilhem uma base comum de organização da SAN, os processos de institucionalização e operacionalização assumem configurações distintas, moldadas por suas trajetórias políticas, administrativas e sociais.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que, apesar das diferenças de institucionalização, as políticas de SAN do Brasil e de Moçambique se organizam em torno de três núcleos comuns: garantir acesso a alimentos, articular respostas públicas intersetoriais e construir capacidades institucionais para enfrentar desigualdades e vulnerabilidades. O estudo reforça a centralidade da alimentação como direito, expressão das iniquidades sociais e dimensão estratégica da justiça social em saúde, além de evidenciar a importância da governança, da participação social e da coordenação estatal na sustentação de políticas públicas voltadas à promoção da vida digna.
ALIMENTAÇÃO NO CÁRCERE: JUMBOS E REDES DE CUIDADO NO SISTEMA PRISIONAL PAULISTA
Comunicação Oral Curta
1 USP
Apresentação/Introdução
No contexto prisional brasileiro, a garantia da segurança alimentar das pessoas privadas de liberdade se dá por meio de múltiplas redes de cuidado, especialmente diante de condições marcadas por superlotação, escassez de insumos de saúde e precariedade alimentar, tanto em qualidade quanto em quantidade. Ainda que o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) seja um direito fundamental, garantido constitucionalmente, são diversos os entraves para sua efetivação no sistema prisional, onde o punitivismo opera como uma barreira concreta à sua realização.
Em São Paulo, os “jumbos” , alimentos e itens enviados por familiares e amigos, assumem papel central na complementação da alimentação ofertada pelo Estado. Mais do que suporte material, configuram-se como redes de cuidado e resistência frente às condições de encarceramento. Por meio dos jumbos, elaboram-se possibilidades de sustentação da vida, especialmente pela alimentação, que atua não apenas como subsistência, mas como produtora de saúde, vínculo e dignidade.
Nesse sentido, o sistema prisional pode ser compreendido como expressão de uma da gestão da vida e da morte, ampliando a compreensão das formas através das quais o Estado produz, administra e hierarquiza grupos específicos desde regimes de controle de seus corpos, territórios e alimentos . Em contraposição, os jumbos podem ser lidos como práticas alimentares situadas, que mobilizam saberes, afetos e estratégias construídas nos territórios, configurando formas de cuidado e resistência ancoradas em experiências coletivas.
Objetivos
Analisar como o Estado, a partir de uma racionalidade punitiva inscrita em dinâmicas históricas de colonialidade, atravessa as práticas alimentares no cárcere, considerando as elaborações dos jumbos como expressões de cuidado, resistência e produção de futuros.
Metodologia
rata-se de uma pesquisa qualitativa, baseada na análise de relatos online sobre a elaboração e preparação dos “jumbos” na realidade prisional paulista. A investigação se inspira em uma abordagem etnográfica digital, a partir do acompanhamento e registro de conteúdos vinculados às trends “Cunhadas”, “Mulher de preso” e “jumbo”, publicados em plataformas como TikTok e Instagram (Reels). O material analisado inclui vídeos que abordam práticas, rotinas e saberes relacionados ao preparo e envio de alimentos às pessoas privadas de liberdade.Compreende-se o ambiente digital como um território ampliado de produção de saberes, no qual mulheres, em sua maioria atravessadas por marcadores de classe e raça, encontram espaço para ter voz e compartilhar práticas e experiências relacionadas ao cuidado no contexto prisional.
Resultados e Discussão
Os vídeos analisados, especialmente aqueles associados à trend “mulher de preso”, evidenciam narrativas centradas nas rotinas de dias de visita. Neles, as mulheres compartilham listas de alimentos permitidos nas unidades prisionais, oferecem orientações sobre marcas, tamanhos, condições e preços dos produtos, além de indicarem itens de higiene autorizados.
Observa-se também a circulação de saberes práticos por meio de vídeos em que ensinam receitas e demonstram a montagem de marmitas, considerando preferências individuais das pessoas encarceradas, como sabor, quantidade e modo de preparo. Esses conteúdos revelam um cuidado minucioso que articula afeto, conhecimento e estratégias para contornar as restrições institucionais ou sobreviver a elas.
Destaca-se que, devido às limitações impostas pelas unidades prisionais, grande parte dos alimentos permitidos é composta por produtos ultraprocessados, o que tensiona a garantia de uma alimentação adequada e saudável.
Dialogando com Ana Flauzina, compreende-se que são as mulheres que sustentam, material e simbolicamente, o funcionamento do cárcere. Os relatos analisados evidenciam as dificuldades enfrentadas pelas chamadas “cunhadas”, incluindo desafios financeiros, logísticos e emocionais, apontando para a centralidade dessas mulheres na sustentação material e afetiva das pessoas privadas de liberdade, em um contexto marcado pela insuficiência e pelo abandono das políticas estatais.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados evidenciam que a alimentação no contexto prisional paulista é atravessada por uma lógica de “razão punitiva”, na qual a insegurança alimentar se destaca como expressão das formas de gestão da vida no cárcere. Nesse cenário, os “jumbos” emergem como dispositivos fundamentais de cuidado, sustentados por redes familiares e afetivas, sobretudo por mulheres, que assumem centralidade na provisão material e na manutenção de vínculos. As práticas observadas nas redes sociais revelam não apenas estratégias de subsistência, mas também a produção de saberes e formas de resistência que tensionam as restrições institucionais.
ALIMENTAÇÃO TRADICIONAL E ESCOLA INDÍGENA KOKAMA NO ALTO RIO SOLIMÕES: PRÁTICAS, RESISTÊNCIA, SOBERANIA ALIMENTAR E PROMOÇÃO DA SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 Fundação Oswaldo Cruz/ILMD;
2 Fundação Oswaldo Cruz/ILMD
Apresentação/Introdução
A alimentação, para nós povos indígenas, não se limita ao ato biológico de nutrir o corpo, mas constitui dimensão estruturante do modo de vida, articulando território, cultura, espiritualidade, memória e relações coletivas. No campo da Saúde Coletiva, compreender os sistemas alimentares indígenas implica reconhecer sua centralidade na produção da vida e na manutenção de formas próprias de existência. Entretanto, processos históricos e contemporâneos de colonialidade, associados à expansão de mercados alimentares, às mudanças climáticas e à fragilização das políticas públicas, têm promovido rupturas nos sistemas alimentares tradicionais. No Alto Rio Solimões, nós povo Kokama vivenciamos intensamente essas transformações, que se expressam no cotidiano comunitário e, de forma particular, no espaço da escola indígena. A escola, nesse contexto, configura-se simultaneamente como espaço de reprodução de lógicas hegemônicas e como território de resistência, onde se disputam projetos de futuro e possibilidades de afirmação identitária.
Nesse cenário, a alimentação escolar assume papel estratégico ao ultrapassar a função de suprir necessidades nutricionais e incidir diretamente sobre a reprodução social, cultural e política dos povos indígenas. Quando desarticulada dos sistemas alimentares locais, contribui para o enfraquecimento de práticas tradicionais e ampliação da dependência de alimentos industrializados; por outro lado, quando construída de forma contextualizada e participativa, fortalece circuitos alimentares locais, valoriza saberes ancestrais e atua na promoção da saúde e da soberania alimentar. No caso povo Kokama, a escola se configura como espaço privilegiado de práticas interculturais, articulando conhecimentos tradicionais e institucionais, onde os processos educativos e alimentares se entrelaçam, produzindo tanto vulnerabilizações quanto possibilidades de resistência, reexistência e afirmação do bem viver.
Objetivos
Analisar a relação entre a alimentação tradicional e a escola indígena Kokama de Tauaru como estratégia de fortalecimento cultural, resistência e promoção da saúde. Especificamente, busco compreender como as políticas públicas de alimentação escolar se materializam no território, identificar e valorizar práticas alimentares tradicionais presentes no cotidiano da comunidade e construir, de forma compartilhada, reflexões críticas sobre alimentação enquanto dimensão política, cultural e de soberania alimentar.
Metodologia
Pesquisa qualitativa de abordagem participativa, realizada na comunidade indígena Kokama de Tauaru, em Tabatinga-AM, com participação de estudantes, professores, lideranças e agentes indígenas de saúde. Foram utilizadas observação participante, diário de campo, rodas de conversa, grupos focais e análise de cardápios escolares. Também foram construídos mapas territoriais e calendário agrícola alimentar, valorizando saberes locais. A análise dos dados seguiu a técnica de análise de conteúdo temática, orientada pelas Ciências Sociais e Humanas em Saúde. Todos os procedimentos éticos foram respeitados, com consentimento dos participantes.
Resultados e Discussão
A alimentação tradicional Kokama permanece viva, baseada na mandioca, peixes e alimentos do território, expressando identidade e modos de vida. Contudo, observa-se crescente consumo de ultraprocessados no domicílio e na escola, associado à presença de mercados e às limitações das políticas públicas, que desconsideram especificidades socioculturais. Na alimentação escolar, há distanciamento entre cardápios e práticas tradicionais, gerando tensões e contribuindo para sua desvalorização. Por outro lado, o calendário agrícola alimentar mostrou-se estratégia potente de resistência, fortalecendo saberes, autonomia e pertencimento. A escola revela, assim, seu potencial como espaço de reexistência, articulando educação intercultural, promoção da saúde e soberania alimentar.
Conclusões/Considerações Finais
Concluo que a valorização da alimentação tradicional no contexto da escola indígena é fundamental para a promoção da saúde, para a garantia da segurança e soberania alimentar e nutricional e para o fortalecimento cultural do povo Kokama. Torna-se urgente a reorientação das políticas públicas, especialmente do Programa Nacional de Alimentação Escolar, de modo a incorporar as especificidades dos povos indígenas, garantindo a participação efetiva das comunidades na definição dos cardápios e estratégias de abastecimento. A articulação entre escola e comunidade, por meio de práticas pedagógicas contextualizadas e interculturais, configura-se como estratégia central de enfrentamento à colonialidade alimentar e de construção do bem viver. Este estudo reafirma a importância de reconhecer os povos indígenas como protagonistas na produção de conhecimentos e na construção de alternativas para a Saudáveis.
ANÁLISE TÉCNICA COM BASE NO RELATÓRIO DA SITUAÇÃO SÓCIO ECONÔMICA E ALIMENTAR DA COMUNIDADE NOSSA SENHORA APARECIDA.
Comunicação Oral Curta
1 UNIFESSPA
Apresentação/Introdução
INTRODUÇÃO: O bairro Nossa Senhora Aparecida, conhecido como “Coca-Cola”, localiza-se na Nova Marabá, em Marabá-PA, e teve sua ocupação iniciada em 2005 em área de antiga fazenda. Apesar de avanços na infraestrutura, persistem limitações urbanas e sociais (CARVALHO; SOUZA, 2018). A população é predominantemente de baixa renda, com elevada informalidade e dependência de programas sociais. A Associação de Moradores foi reformulada em 2023, originando o Instituto Plantando Esperança e Colhendo Dignidade (IPESC), que atua na promoção da qualidade de vida por meio de ações sociais, capacitação e geração de renda.
Objetivos
OBJETIVO: Diante desse contexto, o estudo objetivou descrever e analisar as condições de vida e segurança alimentar das famílias cadastradas no IPESC, contribuindo para a formulação de estratégias de enfrentamento da vulnerabilidade social.
Metodologia
METODOLOGIA: Estudo quantitativo, descritivo e exploratório, realizado em junho de 2025, com 140 famílias (427 indivíduos). Aplicou-se questionário socioeconômico e a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), respondida por 133 famílias. Utilizou-se estatística descritiva (Excel) e análise bivariada com teste qui-quadrado (R).
Resultados e Discussão
RESULTADOS E DISCUSSÃO: Observou-se elevada vulnerabilidade social, com 46,47% das famílias na linha da pobreza e 37,14% em baixa renda; 16,5% não possuíam renda. Esse cenário reflete o agravamento das desigualdades no período pós-COVID-19 (REDE PENSSAN, 2022; FAO et al., 2023). Quanto ao saneamento, 96,4% utilizavam água de poços, evidenciando precariedade estrutural associada a riscos à saúde e à insegurança alimentar (WHO, 2021; IBGE, 2024). A insegurança alimentar grave atingiu 48,87% das famílias, indicando vivência de fome. Houve associação significativa com renda, escolaridade, ocupação e faixa etária do chefe familiar. Esses achados corroboram evidências sobre o retorno do Brasil ao Mapa da Fome e a influência dos determinantes sociais na insegurança alimentar (REDE PENSSAN, 2022; MALUF; REIS, 2021). Sob a ótica da bioética, os resultados evidenciam violações do direito humano à alimentação adequada. A persistência da pobreza e da fome aponta falhas estruturais e a necessidade de políticas intersetoriais voltadas à equidade (WHO, 2021). Assim, a insegurança alimentar configura-se como expressão das desigualdades sociais, exigindo ações articuladas de proteção social, acesso a serviços básicos e garantia de direitos (MALUF; REIS, 2021; FAO et al., 2023).
Conclusões/Considerações Finais
CONCLUSÃO: O bairro apresenta elevada vulnerabilidade social e alimentar, demandando intervenções estruturais e políticas públicas de curto, médio e longo prazo, com foco no combate à fome, educação, geração de renda e saneamento. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A vulnerabilidade está associada a condições socioeconômicas e de infraestrutura. A insegurança alimentar reflete desigualdades estruturais, tornando essencial a implementação de políticas públicas voltadas à equidade e garantia de direitos.
CIRCUITOS ALIMENTARES DE POVOS TRADICIONAIS DE MATRIZ AFRICANA: UM ESTUDO QUALITATIVO A PARTIR DA FEIRA DE SÃO JOAQUIM, SALVADOR, BAHIA
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
Apresentação/Introdução
O presente estudo integra uma investigação de doutorado em andamento vinculada ao PPGANS/UFBA intitulada “Circuitos alimentares acessados por povos tradicionais de matriz africana em uma capital do Nordeste brasileiro”. Os Povos Tradicionais de Matriz Africana (POTMA) compartilham de uma cosmovisão de origem africana, recriada no contexto da diáspora por meio de estratégias históricas de resistência. Nesse contexto, o alimento ultrapassa sua função biológica e material, assumindo vínculos com ancestralidade, espiritualidade e natureza. A história de formação das religiões de matriz africana no Brasil ocorre em grande parte nos centros urbanos, fixando-se em espaços que abrigam seus integrantes e tradições denominados genericamente de terreiros de candomblé, de umbanda, de caboclo entre outros.
Os POTMA estabeleceram contatos com uma teia de fluxos de produtos oriundos de portos, de mercados e de áreas rurais, a fim de obter insumos e alimentos para as práticas rituais. Tais circuitos, organizados de forma cooperativa e frequentemente à margem do sistema alimentar dominante, expressaram estratégias de sobrevivência frente às imposições coloniais e, posteriormente, ao modelo agroindustrial hegemônico. Na contemporaneidade, esses fluxos persistem e se reconfiguram, mobilizando pequenos produtores, comerciantes e coletivos tradicionais, constituindo formas de resistência ativa e de afirmação identitária em um processo de retroalimentação que sustenta tanto a reprodução material cultural e religiosa dos povos tradicionais de terreiro quanto a manutenção da cadeia produtiva contra-hegemônica. Esse relato de pesquisa faz parte de um estudo de doutorado cujo objetivo maior centra-se em investigar circuitos alimentares vinculados a POTMA da cidade de Salvador por meio de abordagem qualitativa de cunho etnográfico.
Objetivos
Na análise do material buscou-se identificar sobrevivências histórico-culturais afrodiaspóricas e contra-coloniais/contra-hegemônicas na Feira de São Joaquim, considerada aqui encruzilhada dos circuitos alimentares dos povos tradicionais de matriz africana.
Metodologia
O lócus deste fragmento de pesquisa é a Feira de São Joaquim, reconhecida como importante espaço de abastecimento dos terreiros da cidade de Salvador, Bahia e regiões próximas. Foi realizada observação participante em 3 de outubro de 2025 a qual mobilizou na pesquisadora (membro de uma comunidade de candomblé) memórias de vivências no espaço da feira com entes de sua comunidade. Estas memórias consubstanciam a observação empírica na construção do diário de campo.
Resultados e Discussão
A análise evidenciou a centralidade da oralidade como tecnologia social estruturante. A oralidade está na base de obtenção de informações, conservação dos saberes, transmissão de experiências e memórias. No âmbito das comunidades tradicionais, a tradição oral é ressignificada como uma das principais estratégias de resistência e sobrevivência de povos, histórias, culturas e cosmovisões afro-indígenas, permitindo também fortalecer laços comunitários e redes de solidariedade. Outro aspecto relevante refere-se à ampla diversidade de alimentos, diversidade de espécies vegetais e animais e preparações culinárias tradicionais que não integram os circuitos agroindustriais ou de grandes atacadistas. A feira configura-se, assim, como espaço de salvaguarda de práticas alimentares ancestrais e de circulação de produtos vinculados a territórios específicos e a modos de fazer tradicionais.
Destaca-se, ainda, a construção de relações de confiança entre mercadores e consumidores, que extrapolam a lógica mercantil estrita e se inserem em dinâmicas de reciprocidade e pertencimento. Muitos pontos de venda operam também como espaços de encontro e articulação entre integrantes de diferentes terreiros de candomblé da região, possibilitando a troca de informações, o fortalecimento de vínculos e identidade afro-religiosa, bem como a organização comunitária. Nesse sentido, a feira se constitui como território relacional onde se entrecruzam trajetórias, saberes e práticas diversas. Observou-se também que mercadores mantêm relações mais próximas com alguns fornecedores, frequentemente pequenos agricultores, criadores, artesãos, coletores situados em áreas periurbanas ou rurais do estado da Bahia, o que possibilita a circulação de informações sobre modos de produção, procedência e sazonalidade, além de favorecer a constituição de circuitos curtos de comercialização, ao mesmo tempo em que fortalece economias locais/regionais, modos de vida tradicionais e redução do impacto ambiental.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicam que esses circuitos alimentares configuram-se como práticas contra-hegemônicas e contra-coloniais, sustentadas por tecnologias sociais que articulam saberes ancestrais e adaptações contemporâneas. Esse elementos podem demosntrar sobrevivências culturais afrodiaspóricas no contexto brasileiro, o que mobiliza a outras investidas e análises a serem feitas no decurso da tese.
RAÍZES E O SAGRADO QUE GUIAM: A CARTOGRAFIA SOCIAL EM TERRITÓRIOS DE MATRIZES AFRICANAS E TERREIROS DO PROJETO ECOILÊ, RIDE-DF.
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ
2 FIOCRUIZ
3
Apresentação/Introdução
Promover a soberania alimentar e cultural dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana e de terreiros, por meio da integração de políticas públicas de inclusão produtiva, cultural e regularização fundiária faz-se necessária para salvaguarda dos patrimônios materiais e imateriais desses territórios, bem como suas vocações produtivas de produção hortifrutigranjeira e artesanal, e seu papel como equipamento público de soberania, segurança alimentar e nutricional (ROCHA, 2022; SILVA, 2023). Em 2019, cria -se o Projeto Ecoilê. desenvolvido para subsidiar a formulação de políticas públicas para promoção da saúde e da soberania, segurança alimentar e nutricional em comunidades e povos tradicionais de matriz africana e de terreiros na Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (RIDE - DF). O projeto atua em três eixos, como Agroecologia; Promoção à Saúde e da Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional e; Patrimônio Cultural. Este trabalho tem objetivo de mapear e identificar as necessidades territoriais de ancoragem do projeto a partir da visão das comunidades dos terreiros.
Objetivos
Realizar a cartografia social com as comunidades de matriz africana e de terreiros integrantes do Projeto Ecoilê, visando a identificação de necessidades territoriais para ancoragem do projeto
Metodologia
Realizada, entre outubro/2024 e junho/2025, a Cartografa Social com as comunidades de terreiros integrantes do projeto Ecoilê, abordando situações que jamais foram contempladas, tais como conflitos, desafios entre outras questões, visando identificar necessidades territoriais de ancoragem do projeto para seu desenvolvimento. A cartografia social foi realizada entre a parceria do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura (PALIN) e o Colaboratório, ambos programas da Fundação Oswaldo Cruz/Brasília. Com os 8 (oito) terreiros do projeto, que integram diferentes regiões do Distrito Federal , foi aplicada a metodologia de inteligência de Futuro (Ifuturo) adaptada que se baseia nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) e incluímos mais 3 ODS, que estavam em discussão junto à sociedade e ao governo. São eles: Igualdade Etnico- Racial (ODS 18); Arte, Cultura e Comunicação (ODS 19) e; Povos e Comunidades Tradicionais (ODS 20). Para cada meta dos ODS, foram definidos fatores críticos/temas para serem debatidos com a comunidade do terreiro. Para classificação de risco dos fatores/temas investigados, foram atribuídas notas de importância do tema e definidos quatro categorias de classificação do fator/tema, sendo: “Ameaça”, “Vulnerabilidade”, “Resiliência” e “Sagrado”, que foi adicionado uma nova categoria na metodologia para esses povos de terreiros entendendo a conexão sagrada existente entre o indivíduo, o divino e a natureza, A aplicação da cartografia social pela técnica Ifuturo adaptada foi realizada com a participação da equipe técnica da FIOCRUZ, do Instituto Federal de Brasília – campus Planaltina e os antenas do projeto. Para a análise das entrevistas foi utilizado o software para análise lexical Iramuteq por meio de indicadores estatísticos possibilita identificar características textuais, o posicionamento e a estruturação de palavras no texto. A análise qualitativa de conteúdo possibilita identificar as ações políticas relacionadas ao discurso.
Resultados e Discussão
Foram capacitados164 pessoas para vigilância territorial. A partir dos discursos dos grupos focais em cada comunidade, 96% do conteúdo inicial foram aproveitados para as análises. A união através da cultura ancestral destaca a importância da valorização da ancestralidade, da cultura e do conhecimento tradicional das comunidades. Outro destaque no resultado evidencia como os terreiros integram práticas de sustentabilidade, cuidado ambiental e saberes tradicionais ao cotidiano e à vivência religiosa. O racismo e suas faces e consequências sobre as comunidades de terreiro são destacadas e apontam a ausência de acesso a direitos fundamentais, políticas públicas frágeis ou inexistentes e discriminação constante. Observou-se que, o cotidiano do terreiro é fundamentado em uma ética de sustentabilidade, em que recursos naturais são utilizados com consciência e promove o retorno desses elementos ao meio ambiente. O sagrado é o pilar de resistência política contra o racismo e a intolerância religiosa, entendendo quer o terreiro é um espaço de cura e emancipação, transformando a fé em uma ferramenta prática de luta por direitos e inclusão social.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência proporcionada pelo projeto gera desdobramentos no sentido de subsidiar a construção de um plano de ação territorial para essas unidades tradicionais territoriais, instrumentalizando esses territórios e reconhecendo sua cultura e práticas que deve se somar as ações de saúde nos territórios. O olhar do projeto para esses povos possibilita entender que a saúde para os povos de terreiros vem do completo bem-estar físico, mental, social e sagrado.
SEGREGAÇÃO RACIAL E FOME: REFLEXÕES EM PONCIÁ VICÊNCIO, OBRA DE CONCEIÇÃO EVARISTO
Comunicação Oral Curta
1 Instituto Federal Goiano Campus Urutaí
2 Instituto Federal Goiano Campus Urutaí.
Contextualização
A escrevivência segundo Conceição Evaristo, pode ser compreendida como a construção e reafirmação de narrativas contadas a partir de vivências negras, sobretudo narrativas marcadas pela resistência e permanência do povo negro. Nesse sentido a escrevivência promove a discussão sobre estratégias e epistemologias que evidenciam a história de luta da população negra, além dos mecanismos de apagamento epistemológico, cultural, social e identitário. A segregação racial e a fome, foi um dos temas da obra Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo. A autora narra a história de Ponciá, uma mulher negra, que junto de sua família vivenciou a herança escravocrata no período pós abolição. Este trabalho relata a experiência de um grupo de ensino prol formação antirracista, a partir de discussões sobre o livro Ponciá Vicêncio.
Descrição
A experiência em questão é um recorte de discussões promovidas em um grupo de estudos antirracistas, o Mulungu. Trata-se de um projeto de ensino e pesquisa vinculado ao Instituto Federal Goiano – Campus Urutaí, do qual participam docentes e discentes da instituição. Semestralmente o grupo realiza a leitura de uma obra de autoria negra, e a partir de encontros presenciais quinzenais são realizadas discussões e reflexões sobre as leituras.
Período de Realização
A experiência de discussão aqui relatada ocorreu entre os meses de setembro e dezembro de 2025, período no qual foi realizada a leitura da obra Ponciá Vicêncio de Conceição Evaristo.
Objetivo
Objetivo do trabalho é relatar a experiência do Mulungu, grupo que busca promover o ensino antirracista por meio de leituras e reflexões de escrevivências. Para o presente resumo buscou-se promover reflexões sobre a segregação racial e a fome e quais os diálogos desses contextos com a obra Ponciá Vicêncio.
Resultados
Dentre as reflexões do livro, para o presente trabalho selecionou-se os seguintes trechos discutidos durante reuniões do Mulungu, e que retratam aspectos pertinentes ao objetivo do trabalho. Os trechos foram: “Crescera na pobreza. Os pais, os avós, as bisavós, sempre trabalhando nas terras dos senhores. A cana, o café, toda a lavoura, o gado, as terras, tudo tinha dono, os brancos. Os negros eram donos da miséria, da fome, do sofrimento, da revolta suicida. Alguns saíam da roça, fugiam para a cidade, a vida a se fartar de miséria, e com o coração a sobrar esperança”. “Ela mesma (Ponciá) havia chegado à cidade com o coração crente em sucessos e eis no que deu. Um barraco no morro. Um ir e vir para a casa das patroas. Umas sobras de roupa e de alimento para compensar um salário que não bastava”. “(Luandi) Sentiu uma pontada na boca do estômago, era fome. Enfiou a mão no bolso remexendo lá no fundo. Não havia mais nada, nem uma moedinha sequer”. “A vida escrava continuava até os dias de hoje. Sim, ela (Ponciá) era escrava também. Escrava de uma condição de vida que se repetia. Escrava do desespero, da falta de esperança, da impossibilidade de travar nossas batalhas, de organizar novos quilombos, de inventar outra e nova vida”.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência possibilitou o aprofundamento em importantes temáticas, como a segregação espacial e racial e os impactos desse processo na reprodução de iniquidades sociais, como a fome. A escreviência de Conceição Evaristo permitiu a compreensão de contextos da herança escravocrata vivenciada pela população negra, e com isso a integração das narrativas à formação crítica do grupo Mulungu. Com isso a formação antirracista, eixo problematizador da experiência foi possível a partir da literatura brasileira. Diferentes contextos de desigualdades de acesso, incluindo o acesso a cidades e demais espaços (urbanos ou não), atingiu e atinge desproporcionalmente gerações das famílias escravizadas. A produção de iniquidades nesse contexto também explica a permanência da fome, sobretudo entre a população negra. O acesso a alimentação adequada é interditado diante das barreiras e negação de direitos à população negra, uma vez que coexiste a pobreza extrema herdada de anos vivenciados em terras de senhores feudais. Ponciá sai do meio rural (a "Vila Vicêncio") em direção à cidade grande, buscando melhores condições de vida. A negação de acessos ocorre para a população negra em diferentes dimensões, mesmo após abolição, interdições como o impedimento de se deslocar livremente pelo território, as precárias condições de trabalho e a exploração do trabalho de mulheres negras, evidenciam iniquidades que se constituem como barreiras de acesso a alimentação saudável. Uma liberdade nunca alcançada e a luta pela sobrevivência são características observadas na história dos personagens, sobretudo Ponciá e sua família, como o irmão Luandi. Dentre as conclusões das discussões ocorridas no Mulungu, evidenciou-se que o pós abolição é retratado em Ponciá por meio de escrevivências que denunciam a continuidade da estrutura racista consolidada desde o período colonial.
Realização: