Programa - Comunicação Oral - CO2.3 - Soberania alimentar e estratégias de resistência: educação popular e diálogos decoloniais.
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ANÁLISE DE CARDÁPIOS DA ALIMENTAÇÃO ESCOLAR QUILOMBOLA EM TRÊS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO: ÊNFASE NA REGIONALIDADE E SOCIOBIODIVERSIDADE
Comunicação Oral
1 UNIRIO
Apresentação/Introdução
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) constitui uma política pública central para a promoção da segurança alimentar e nutricional no Brasil. No contexto das comunidades quilombolas, suas diretrizes incentivam a valorização da cultura alimentar local, da regionalidade e da sociobiodiversidade, contribuindo para o fortalecimento da agricultura familiar e para a promoção da equidade no acesso à alimentação adequada.
Objetivos
Analisar a qualidade nutricional de cardápios escolares destinados a comunidades quilombolas em três municípios do estado do Rio de Janeiro, considerando a presença de alimentos regionais, da sociobiodiversidade e a aderência às diretrizes do PNAE.
Metodologia
Foram analisados dados secundários provenientes de documentos públicos virtuais disponibilizados pelas Secretarias Municipais de Educação. Foram avaliados cardápios escolares de três municípios do estado do Rio de Janeiro com territórios quilombolas reconhecidos. A análise contemplou a identificação dos grupos alimentares ofertados (cereais, leguminosas, frutas, hortaliças, proteínas e laticínios), a classificação dos alimentos segundo o grau de processamento, conforme o Guia Alimentar para a População Brasileira, e a aplicação do Índice de Qualidade da Coordenação de Segurança Alimentar e Nutricional (IQ COSAN).
Resultados e Discussão
O município 1 apresentou melhor desempenho no IQ COSAN, evidenciando maior variedade de alimentos e menor presença de produtos ultraprocessados, além de oferta contínua de alimentos regionais ao longo das semanas analisadas, com destaque para goiaba, abobrinha, couve e milho. A inserção de alimentos da sociobiodiversidade foi limitada (≈50%), concentrando-se principalmente em goiaba e maracujá. No município 2, também foi observada presença regular de alimentos regionais, como abobrinha, quiabo, milho e laranja, porém com inclusão menos frequente de itens da sociobiodiversidade (≈33%), menor variedade de hortaliças e maior participação de ultraprocessados. O município 3 apresentou maior diversidade de frutas e hortaliças e melhor distribuição dos grupos alimentares ao longo das refeições, entretanto, a presença de alimentos da sociobiodiversidade foi reduzida, restrita a poucos itens como goiaba e maracujá, além da ausência de espécies relevantes como amendoim, taioba e ora-pro-nóbis. Os achados evidenciam baixa incorporação da biodiversidade alimentar local.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados demonstram que, apesar da presença mais frequente de alimentos regionais nos cardápios analisados, a inserção de alimentos da sociobiodiversidade ainda ocorre de forma limitada. Observa-se que a alimentação escolar quilombola não tem incorporado de maneira efetiva espécies nativas, evidenciando fragilidades na valorização da cultura alimentar local. Fatores como dificuldades na aquisição de alimentos da agricultura familiar, entraves operacionais e limitações na execução do programa podem estar associados a esse cenário, impactando a promoção da alimentação adequada, culturalmente referenciada e sustentável.
DE QUE BOCA ESTAMOS FALANDO? REFLEXÕES CRÍTICAS PLURIEPISTÊMICAS SOBRE BUCALIDADE E CONFLUÊNCIAS AFROPINDORÂMICAS A PARTIR DE UMA ECOLOGIA DE SABERES
Comunicação Oral
1 UFPE
Apresentação/Introdução
Introdução: O modelo biomédico, ainda hegemônico em diversos setores da saúde, entrou em crise por não contemplar as necessidades reais da população, o que proporcionou movimentos de ruptura importantes. Nesse contexto, na área da saúde bucal coletiva, Botazzo (2006) propôs a teoria da bucalidade como alternativa epistemológica à odontologia brasileira tradicional, de forma a compreender a boca, integrada a um corpo inscrito por expressões sociais, como território vivo de existência, desejo e relação social, como também consumidora de mundo e produtora de significados, significâncias e subjetividade. Ainda assim, visualizou-se que essa teoria, apesar de apresentar-se como uma ruptura a teorias hegemônicas ocidentais para a saúde, ainda baseia-se, exclusivamente, em teorias eurocêntricas, sendo, portanto, uma teoria fronteiriça (Mignolo, 2017).
Objetivos
Objetivo: Refletir sobre outras possibilidades teórico-conceituais pluriepistêmicas e colaborativas em saúde bucal, a partir das relações entre a bucalidade e as ciências afropindorâmicas.
Metodologia
Metodologia: Estudo de natureza teórico-conceitual a partir de análise bibliográfica. Buscou-se fazer uma reflexão crítica acerca da teoria da Bucalidade (Botazzo, 2006), a partir das ciências afropindorâmicas e das epistemologias do sul, em diálogo com perspectivas das ciências sociais sobre corpo (Le Breton, 2010).
Resultados e Discussão
Resultados e discussão: Botazzo (2006) definiu a bucalidade como a expressão dos trabalhos sociais que a boca humana realiza, com ênfase na manducação (apreensão do mundo pela boca), na linguagem e na erótica, em uma tentativa de romper com o complexo exclusivamente biológico-tecidual, objeto próprio da odontologia tradicional, que é naturalmente tecnificado, disciplinarizado, regulado e fragmentado, baseado no modelo biomédico. Nesse cenário, torna-se imperativo integrar a boca e a bucalidade nos debates sobre corpo e corporeidade (Le Breton, 2010), de forma complexa, admitindo estudos ampliados sobre o uso do corpo como reflexo do social-coletivo e vetor semântico pelo qual a evidência da relação com o mundo é construída, tornando-se possível pensar além da manducação, da linguagem e da erótica, compreendendo outros usos sociais, culturais e simbólicos do complexo boca-bucalidade-corpo-corporeidade, como falar, cantar, comer, beijar, morder, sorrir, beber e outros fenômenos da experiência corporal. Ante o exposto, em relação à necessidade de pensar modelos teórico-conceituais originalmente brasileiros e latino-americanos, evoca-se a ecologia de saberes, que propõe a co-presença radical e interativa entre os saberes, para estruturar a relação entre a bucalidade e as ciências afropindorâmicas, de forma confluente e pluriespistêmica. Diante disso, é importante evidenciar que a confluência das ciências afropindorâmicas (quilombolas, indígenas e africanas) apresenta-se como instrumento contra colonial de enfrentamento aos ataques às bases socioculturais coletivas através da valorização dos símbolos, das significações e dos modos de vida dos povos quilombolas, indígenas e africanos latino-americanos. Nesse sentido, é importante lembrar que as ciências ancestrais relacionadas ao cuidado admitem corpos livres e críticos que se constituem em si, de forma não dada e não disciplinarizada, o que representa, por si só, uma inversão da lógica de cuidado moderna, em oposição ao poder colonial. Especialmente no que diz respeito às epistemologias em saúde bucal, essa movimentação contra hegemônica alicerçada nas confluências afropindorâmicas se potencializa. Uma vez que o uso da boca torna-se fundamento central da cultura e da religiosidade, por meio da oralidade; da alimentação que nutre o corpo físico e o espiritual; da dimensão do corpo como sistema simbólico que representa o existir humano no universo e o uso ritualístico, místico-religioso e cultural do tabaco, através do qual a boca torna-se território das representações sociais, dos catimbós e das pajelanças, assim como meio físico para a instrumentalização da fumaça utilizada na manipulação de energias. É válido destacar que essas outras dimensões cosmovisivas de corpo-território e saúde-doença-cuidado ainda são pouco reconhecidas e debatidas, mesmo quando representam grande significância para a saúde coletiva.
Conclusões/Considerações Finais
Conclusão/Considerações finais: Portanto, visualiza-se que o diálogo entre a bucalidade e as ciências afropindorâmicas realiza-se a partir de uma ecologia de saberes e evidencia a necessidade da construção de novos modelos teórico-conceituais que sejam originalmente brasileiros, latino-americanos, decoloniais, interculturais, colaborativos e pluriepistêmicos, a fim de promover justiça cognitiva, equidade e debates interprofissionais e interseccionais aprofundados no âmbito da saúde coletiva, de modo geral, mas, em especial na área da saúde bucal.
DINÂMICAS DAS COZINHAS SOLIDÁRIAS: RESISTÊNCIA, CUIDADO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL EM TERRITÓRIOS MARCADOS PELA DESIGUALDADE
Comunicação Oral
1 Universidade de São Paulo - Faculdade de Saúde Pública
2 Pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP)
3 Universidade Federal de São Paulo
Apresentação/Introdução
Esta pesquisa analisou as dinâmicas de uma cozinha solidária em São Luís, Maranhão, a partir de uma abordagem etnográfica e interseccional. Parte-se da compreensão de que a fome, no Brasil, não é um evento isolado nem um problema restrito à ausência de alimentos, mas expressão de desigualdades estruturais organizadas por raça, gênero, classe e território. Nesse contexto, as cozinhas solidárias emergem como resposta coletiva à fome, mas também como espaços nos quais se produzem cuidado, vínculos, pertencimento e formas cotidianas de resistência. Mais do que estruturas de distribuição de refeições, essas cozinhas revelam como a sustentação da vida é organizada comunitariamente em territórios marcados pela distribuição desigual da proteção social.
Objetivos
Compreender como, no cotidiano, uma cozinha solidária reconstitui um espaço de resistência e sustentação da vida, analisando de que modo suas práticas articulam alimentação, território, cuidado e desigualdades raciais, de gênero e de classe.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa etnográfica desenvolvida com inserção prolongada em campo, durante quatro meses, em uma cozinha solidária de São Luís. O material empírico foi produzido por meio de observação participante, conversas etnográficas e diário de campo, acompanhando o funcionamento cotidiano da cozinha, suas rotinas de preparo e distribuição de refeições, bem como as relações, conflitos, demandas e formas de organização que a atravessam. A análise foi conduzida a partir de uma perspectiva interseccional, buscando interpretar como os marcadores sociais da diferença estruturam as experiências observadas.
Resultados e Discussão
A etnografia mostrou que a cozinha solidária não pode ser compreendida apenas como espaço de combate imediato à fome. Ela se constitui como referência territorial, lugar de acolhimento e núcleo organizador de relações sociais. Em seu cotidiano, circulam não apenas alimentos, mas pedidos, urgências, afetos, escuta e reconhecimento. O trabalho que sustenta essa dinâmica é realizado principalmente por mulheres, em especial mulheres negras, sobre as quais recai a responsabilidade de cozinhar, limpar, organizar, acolher e sustentar o coletivo. O cuidado, portanto, aparece menos como abstração moral e mais como trabalho concreto, relacional e exaustivo de manutenção da vida. Ao mesmo tempo, a cozinha produz formas de pertencimento, agência e elaboração coletiva da adversidade, tornando-se espaço de resistência diante da fome e da ausência estatal. O território, longe de ser mero pano de fundo, é parte constitutiva da experiência: é nele que se inscrevem carências, reciprocidades, memórias, disputas e a própria construção social do direito à alimentação
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que as cozinhas solidárias articulam alimentação, cuidado, trabalho e território de forma indissociável. Elas não apenas respondem à fome, mas tornam visíveis as formas pelas quais comunidades organizam a sustentação da vida em contextos de desigualdade. Ao evidenciar a centralidade do trabalho feminino e negro e ao mostrar a cozinha como espaço de referência territorial, a pesquisa contribui para uma leitura crítica da alimentação no campo da Nutrição em Saúde Pública. Trata-se de reconhecer essas iniciativas não como respostas marginais, mas como experiências potentes de resistência, produção de vínculos e afirmação cotidiana da vida.
SINGULARIDADES, APROXIMAÇÕES E DESAFIOS DO DIÁLOGO TEÓRICO-PRÁTICO ENTRE A ABORDAGEM DA EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL E A CONCEPÇÃO FREIRIANA DE EDUCAÇÃO POPULAR
Comunicação Oral
1 UFPB
Apresentação/Introdução
A Educação Alimentar e Nutricional (EAN) constitui um campo de saberes e práticas transdisciplinares e intersetoriais inscrito no contexto dos debates sobre a Soberania e a Segurança Alimentar e Nutricional e da luta em defesa do Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável, o qual passou por progressos teórico-conceituais consideráveis nas últimas duas décadas. Inclusive, muitos documentos institucionais voltados ao SUS têm evidenciado a necessidade da incorporação de elementos dialógicos e problematizadores nas práticas educativas, fazendo alusão ao legado de Paulo Freire e ao referencial da Educação Popular (EP), que é um campo de práticas e conhecimentos que resulta do acúmulo de experiências das populações subalternizadas nas dinâmicas de resistência e de lutas sociais no enfrentamento às desigualdades e às várias formas de exploração, opressão e dominação decorrentes do modelo de produção e de organização social capitalista. Nesse sentido, mesmo verificando-se progressos nesse processo, ainda se constata a necessidade de alguns avanços para a ampliação dos fundamentos epistemológicos e metodológicos da EAN na direção de uma práxis político-pedagógica crítica, humanista e dialógica. À vista disso, a pesquisa aqui enfocada busca se somar e fortalecer o processo de desenvolvimento de estudos no campo da EAN, ampliando espaços de diálogo com diferentes autores, sujeitos e grupos que se vinculam cotidianamente a experiências territorializadas e processos interculturais orientados pela concepção da EP.
Objetivos
Sistematizar, a partir do relato de alguns protagonistas de experiências de EP/EAN, as contribuições do diálogo entre a EAN e a EP para o debate sobre a necessária ressignificação dos respectivos campos na direção de realizações político-pedagógicas críticas, humanistas e dialógicas.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa que vem sendo desenvolvida no contexto de elaboração de uma tese de doutoramento em um Programa de Pós-Graduação em Educação de uma universidade pública brasileira, a qual está sendo empreendida, em seu processo de produção de dados, a partir de duas estratégias metodológicas. A primeira foi a realização de entrevistas semiestruturadas com protagonistas de práticas de EAN e de EP territorializadas, escolhidos com base na técnica de amostragem snowball sampling, sendo o objetivo dessas entrevistas reconstituir e compreender como se deram as suas trajetórias e experiências com práticas de EP e EAN. A segunda foi a realização de um conjunto de sessões temáticas de diálogo remoto com protagonistas de diferentes cenários que tinham suas ações de alguma forma articuladas com os debates da alimentação e nutrição, tendo como intuito identificar os caminhos e as experiências que colaboraram na tessitura de suas trajetórias e na sua aproximação à prática e à teoria da EP e da EAN, bem como para a compreensão dos tensionamentos e desafios da aproximação entre a EP e a EAN. No que tange ao tratamento dos dados, assinala-se que está sendo efetuada análise de conteúdo temático-categorial como procedimento preliminar de organização do material empírico, e os resultados serão interpretados à luz da perspectiva dialética e com base no referencial da EP.
Resultados e Discussão
A pesquisa tem revelado iniciativas com potência na relação entre EAN e EP. Contudo, apesar do incremento do debate da EAN que propiciou sua aproximação ao referencial da EP, verifica-se que ainda há certa timidez em sua expressão metodológica, pois aspectos de ordem prática e epistemológica precisam ser aprimorados. No âmbito metodológico, o desafio está em unir teoria e prática em EAN e EP, indo além da mera “menção” de categorias da EP por protagonistas da EAN. Na esfera epistemológica, o desafio está em aprender com as estratégias de resistência, enfrentamento e luta pela vida empreendidas nos territórios pelos grupos comunitários e movimentos sociais populares, e como as realizações em EAN podem incorporar essa dimensão, produzindo uma síntese entre ação e luta, que é tão característica da EP. No plano ético-político, o desafio é incorporar a perspectiva da interculturalidade e dos direitos humanos de forma radical e crítica, concebendo a educação como exercício emancipatório e processo humanizador.
Conclusões/Considerações Finais
De modo ainda preliminar, podemos apontar que, mesmo com o advento de políticas, programas e publicações voltadas ao aprimoramento da discussão sobre a EAN, o que fortaleceu a sua aproximação ao referencial freiriano da EP, no campo da EAN há ainda certa timidez na expressão e assunção da EP como metodologia, havendo aspectos de ordem prática que precisam ser aprimorados e dimensões epistemológica e política que precisam ser melhor expressas e ressignificadas. Em virtude disso, destaca-se que com base nesta proposta de pesquisa, aspira-se a evidenciação e a sistematização de contribuições da EP para o refinamento teórico-metodológico e epistemológico da EAN, impulsionando a ampliação e o aprimoramento crítico do seu pensar e do seu fazer.
TERRITÓRIO, ALIMENTAÇÃO E COLONIALIDADE: A TRANSIÇÃO NUTRICIONAL EM COMUNIDADES RIBEIRINHAS
Comunicação Oral
1 UFAM
Apresentação/Introdução
Os territórios ribeirinhos amazônicos configuram espaços de produção da vida ancorados em racionalidades plurais, nas quais alimentação, natureza e cuidado se entrelaçam em práticas sustentadas por saberes tradicionais, ancestralidade e relações de reciprocidade com o ambiente. Esses sistemas alimentares historicamente se estruturam a partir da diversidade biocultural, com centralidade no pescado, na mandioca e em frutos regionais, constituindo modos de vida que tensionam a lógica produtivista hegemônica. Entretanto, a intensificação dos processos de colonialidade e a expansão de regimes alimentares globalizados têm reconfigurado esses sistemas, por meio da crescente inserção dessas populações em circuitos mercantis e da ampliação do acesso a alimentos ultraprocessados. Tal processo não se restringe à dimensão nutricional, mas expressa a imposição de padrões alimentares associados à lógica do capital, à homogeneização cultural e à desvalorização de saberes locais. Diante desse contexto, a pesquisa buscou investigar o impacto da transição nutricional entre crianças e adolescentes ribeirinhos, compreendendo a alimentação como prática social, política e cosmológica, atravessada por relações de poder, colonialidade e disputas epistêmicas.
Objetivos
Analisar o estado nutricional e o consumo alimentar de crianças e adolescentes de comunidades ribeirinhas da Amazônia, articulando dados empíricos a uma leitura crítica dos sistemas alimentares contemporâneos.
Metodologia
Trata-se de um estudo observacional, analítico, de corte transversal, realizado com 89 escolares de 4 a 14 anos, matriculados em quatro escolas públicas ribeirinhas do município de Manaus (AM). A investigação combinou avaliação antropométrica (IMC/idade e estatura/idade) e análise do consumo alimentar por meio de marcadores do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, SISVAN, permitindo apreender dimensões quantitativas e qualitativas. Esta pesquisa foi conduzida em conformidade com os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. O estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), sob o parecer nº 80602824.0.0000.5020.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam um padrão alimentar caracterizado pela coexistência entre regularidade no número de refeições e baixa qualidade nutricional, com reduzida diversidade de alimentos in natura e elevada frequência de consumo de ultraprocessados entre os escolares. No plano antropométrico, observa-se elevada prevalência de excesso de peso (66,3%), coexistindo com déficit de estatura (7,9%), configurando a dupla carga da má nutrição. Esse cenário evidencia a complexidade dos processos de determinação social da saúde em contextos de transição alimentar.
No público infantil, a introdução precoce de alimentos ultraprocessados está associada ao desenvolvimento de diferentes formas de má nutrição, incluindo excesso de peso, deficiências de micronutrientes e alterações metabólicas. Nesse sentido, a chamada transição nutricional deve ser compreendida como parte de um processo mais amplo de despossessão material e simbólica, que incide sobre corpos, territórios e modos de vida. A substituição de alimentos tradicionais por ultraprocessados implica não apenas perda de qualidade nutricional, mas também desvalorização das práticas alimentares tradicionais, perda de referências identitárias, fragilização de saberes intergeracionais e maior dependência de sistemas alimentares externos, aprofundando vulnerabilidades já presentes nos territórios ribeirinhos.
Apesar da riqueza socioambiental amazônica, a consolidação de ambientes alimentares obesogênicos nessas comunidades evidencia a persistência de desigualdades estruturais, marcadas por processos de marginalização histórica, racismo ambiental e exclusão socioeconômica. A insegurança alimentar e nutricional assume, assim, caráter multidimensional, envolvendo acesso, qualidade, estabilidade e adequação cultural dos alimentos.
As políticas públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), configuram importantes estratégias de promoção da alimentação adequada e saudável, ao incentivar a agricultura familiar e valorizar alimentos regionais. Contudo, sua efetividade depende da incorporação de abordagens interculturais, da participação social e do reconhecimento dos saberes locais, evitando a reprodução de modelos universalizantes.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a análise da alimentação em comunidades ribeirinhas demanda abordagens interdisciplinares, interseccionais e pluriepistêmicas, capazes de articular dimensões biológicas, sociais, culturais e políticas. O fortalecimento de sistemas alimentares territoriais, a valorização de saberes tradicionais e a promoção da soberania alimentar configuram caminhos fundamentais para o enfrentamento da dupla carga da má nutrição e para a construção de justiça alimentar, social, ambiental e epistêmica na Amazônia.
“NÃO VAMOS PARAR DE COMER E NÃO QUEREMOS SAIR DAQUI”: ESTUDO SOBRE O ENTRELAÇAMENTO DO MARISCO COM A LUTA POLÍTICA PELA SOBERANIA ALIMENTAR EM ILHA DE MARÉ, SALVADOR-BA.
Comunicação Oral
1 UFBA
2 UFRGS
Apresentação/Introdução
Esse relato é sobre um recorte da tese de doutorado em curso no Programa de Pós-graduação em Alimentos Nutrição e Saúde da Universidade Federal da Bahia (PPGANS/UFBA). Trata-se de uma pesquisa etnográfica desenvolvida na comunidade quilombola de Bananeiras, situada em Ilha de Maré, na cidade de Salvador - Bahia, que visa estudar o entrelaçamento do marisco com a luta política pela soberania alimentar. A Comunidade de Bananeiras se situa na Ilha de Maré, que integra a cidade de Salvador-Bahia, na qual existem 11 comunidades, sendo que cinco delas são declaradas quilombolas, incluindo a de Bananeiras. A história dessa comunidade remonta ao período colonial quando pessoas negras escravizadas em um engenho próximo buscaram se libertar e idealizar formas mais dignas de existência, vivendo da agricultura, da criação de pequenos animais, da pesca e da mariscagem. Até 1940, sua produção abastecia feiras de Salvador com banana, manga, coco, cana, aipim, pescados e mariscos, entretanto, com a descoberta do petróleo na Baía de Todos os Santos (BTS) e a instalação de refinarias na década de 1950, inaugura-se uma política de governo desenvolvimentista de exploração de recursos naturais para a industrialização e internacionalização da economia, reconfigurando os modos de vida dos moradores da Ilha. Desde então, as comunidades seguem denunciando o adoecimento de si e do território pela contaminação da água, ar, solo e alimentos. A comida é pauta na luta política: “Sem a natureza, não se tem comida, nem trabalho” - diz Eliete Paraguassú, primeira mulher quilombola e marisqueira eleita vereadora de Salvador em 2025, com o “mandato das águas”. Nesta esteira, do diálogo entre Soberania e Segurança Alimentar (SSAN) e Emergências Climáticas, surge a proposta de realizar uma pesquisa inspirada na etnografia multiespécie reconhecendo humanos e não humanos (os manguezais, as matas, os pescados, os mariscos) como agentes mobilizadores da ação social.
Objetivos
Para este congresso, pretende-se apresentar uma análise de como a comunidade interpreta a situação dos mariscos face à interação entre consumo, contaminação e a saúde.
Metodologia
Os dados foram produzidos por observação participante do cotidiano, incluindo seminários, reuniões, rodas de conversa e festividades, sistematizadas em diário de campo. No que se refere ao aporte teórico-metodológico, ao lado da aproximação da etnografia multiespécie, o estudo está atravessado pela perspectiva interssecional, os estudos decoloniais e contracoloniais, somados ao pensamento de autores como Nêgo Bispo, Alberto Acosta, Malcom Ferdinand, Anne Tsing, Bruno Latour, Anne Marie Mol.
Resultados e Discussão
Uma mulher negra, pescadora e liderança quilombola de Bananeiras que acompanhei durante a pesquisa, afirma: “Viver da pesca é, principalmente, se alimentar.” Essa fala ilustra como comer molda, organiza e expressa suas consequências em ações cotidianas. Mesmo sabendo da contaminação, moradores julgam que comem melhor do que no continente. “Nós não vamos parar de comer e não queremos sair daqui”. A liderança faz um contraponto: "o projeto de contaminação do alimento de Ilha de Maré não é diferente do projeto de comida envenenada do agronegócio". A alimentação tradicional quilombola, para Nego Bispo, é uma prática de resistência contra-colonial por ser agroecológica, em oposição à lógica de mercado. A cozinha tradicional, o fazer artesanal, o ritmo cíclico, a diversidade dos quintais contrapõe a forma de produzir e comer na modernidade: homogeneizada, mecanizada, em uma cadeia de produção de alta escalabilidade, com uso de tóxicos e impactos ambientais negativos. Deste modo, os limites entre tradição e modernidade tornam-se difusos: novas tecnologias, como o congelador, possibilita conservar os mariscos por mais tempo, mas também aumenta a presença de outros produtos oriundos da agroindústria hegemônica, como o frango de granja. Outro exemplo é o doce de banana, receita tradicional desenvolvida pela abundância do fruto que, hoje, deve ser comprado no continente: o "desenvolvimento" provocou a contaminação do solo e dos bananais, mas ampliou o transporte em canoas de motor, mais rápidas para acessar esse e outros alimentos.
Conclusões/Considerações Finais
A penetração do capital na ilha, sob a égide do progresso e desenvolvimento, acentuou o racismo ambiental e alimentar que ameaçam a soberania alimentar. Entretanto, esta pesquisa, ainda em curso, evidencia os modos de resistência também mediados pela luta pela soberania alimentar que é, por seu turno, produzida pelo fortalecimento em redes, sobretudo da luta das mulheres marisqueiras, da inserção da juventude em meios de comunicação e da escola como espaço promotor de SSAN, estabelecendo parceria com alguns órgãos públicos, grupos de pesquisa e organizações não governamentais.
Realização: