Programa - Comunicação Oral - CO2.1 - Gênero, cuidado e resistências: perspectivas interseccionais sobre alimentação.
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
MEMÓRIAS E RESISTÊNCIA: SER MULHER NEGRA E PESQUISADORA NA ÁREA DA ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO
Comunicação Oral
1 UFBA
2 UFOB
Apresentação/Introdução
Apresentação/Introdução: Em 1851, Sojouner Truth, mulher negra escravizada e tornada livre em 1787, profere o discurso "E eu não sou uma mulher?”, o qual escancarava a invisibilidade que atravessa os corpos negros e femininos. Em pleno século 21 seguimos acompanhando os múltiplos sistemas de opressão social, como racismo e sexismo, sendo refletidos em identidades sociais, como raça e gênero, que se cruzam de forma inter relacional na experiência individual. Isso permite que indivíduos ocupem diferentes posições de hierarquia social tendo acesso desigual a recursos e oportunidades. Com isso, nós, mulheres negras, seguimos atravessadas por esse sistema de opressão que limita o nosso lugar social, mesmo ocupando o espaço de pesquisadora. Além disso, a academia segue como um espaço de construção epistemológica que legitima os saberes eurocêntricos e mantém de forma quase hegemônica um apagamento epistêmico dos saberes africanos, afrodiaspóricos e pindorâmicos, não sendo diferente no campo da nutrição. Tanto as barreiras de acesso a educação no país quanto às origens da nutrição, são reflexo das estruturas alimentadas pelo racismo, o que tornaram este curso predominantemente branco, invisibilizando os 31,4% de profissionais de Nutrição negros, identificados pelo Conselho Federal de Nutricionistas até o ano de 2021. Assim, esse corpo negro que consegue chegar na universidade, não se ver e nem se percebe legitimamente parte desse espaço.
Objetivos
Objetivo: Produzir reflexões sobre o racismo e o sexismo no ambiente acadêmico no campo da alimentação e nutrição a partir da perspectiva e trajetória de intelectuais negras.
Metodologia
Metodologia: Métodos da autoetnografia (2017) e da escrevivência (2020) foram usados na construção desse trabalho. A autoetnografia visa descrever e analisar as experiências pessoais das pesquisadoras como fonte de conhecimento, sendo usado para criticar/compreender culturas, valores e práticas, enquanto a escrevivência se realiza como um ato de escrita das mulheres negras num contexto que traz sentido a nossa história, fortalece as nossas memórias e ocupa um espaço de resistência.
Resultados e Discussão
Resultados e Discussão: A trajetória de mulheres negras pesquisadoras na alimentação e nutrição não se inicia com a matrícula acadêmica, mas mergulha em raízes que antecedem sua própria existência e alcançam seus ancestrais e familiares que abriram caminhos para mudança. O racismo e o sexismo ainda estabelecem barreiras para nutrição ser um ambiente plural e igualitário. “Você não tem cara de nutricionista” a sociedade diz deixando claro que a nutrição ainda tem uma cor e um status, o que nos permite observar um lugar da marginalização social para mulheres negras, afinal de contas, se não temos "cara de nutricionistas", imagina a posição de cientistas. Estudo realizado, em 2023, pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro escancara essa realidade ao mostrar que apenas 7,4% de professores em cursos de pós-graduação eram pretos, destes, 2,5% eram mulheres. Com isso, visualizamos o peso da solidão, uma sensação de que precisamos representar toda uma raça em cada espaço que ocupamos. O racismo epistêmico tenta deslegitimar bibliografias afroreferenciadas e silenciar vozes negras, esse contexto promove um distanciamento identitário, fazendo com que o corpo negro que consegue acessar a universidade muitas vezes não se veja nem se perceba como parte legítima desse espaço, enfrentando o peso de ter que provar excelência constantemente para combater a invisibilidade. Uma excelência que cobra uma perfeição contínua e promove um esgotamento emocional, físico e uma sensação de que nunca o que é feito é suficiente. Um ponto a ser destacado na nossa trajetória é a formação de nosso quilombo acadêmico, a Rede Ajeum, sendo uma resposta vital à solidão e às opressões vivenciadas, permitindo uma ressignificação da nutrição sob uma ótica antirracista e coletiva. Esse movimento permitiu que temas como a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) em comunidades quilombolas e a culinária afrodiaspórica fossem para o centro da nossa produção científica comprometida com a memória e a identidade. Pertencer a um grupo significa compartilhar características, vivências e experiências, por isso o aquilombamento e o feminismo negro vem não apenas como uma estratégia para combater o racismo, mas da necessidade de promover um debate político, o fortalecimento de corpos negros e principalmente os femininos, em busca de um ambiente acadêmico menos desigual e mais representativo.
Conclusões/Considerações Finais
Conclusões/Considerações finais: As mulheres negras transmitem aos seus descendentes um legado de trabalho duro, perseverança e confiança, um legado de tenacidade, resistência, persistência e igualdade. Por isso, seguimos em um cenário de luta e resistência, para que a nutrição estabeleça união entre as diversas epistemologia, a fim de traçar uma estratégia para uma nova forma de pensar e tratar a profissão.
O PROTAGONISMO DAS MULHERES NEGRAS E A CONSTRUÇÃO DO CUIDADO EM SAÚDE E ALIMENTAÇÃO NA PERSPECTIVA DO LIVRO PONCIÁ VICÊNCIO DE CONCEIÇÃO EVARISTO
Comunicação Oral
1 IF Goiano Campus Urutaí
Apresentação/Introdução
A saúde e alimentação da população negra é indissociável do território e da biodiversidade. Um aspecto importante nesse processo é o apagamento das tecnologias ancestrais de cura e alimentação sob o olhar de epistemologias negras. Movimentos de insurgência à lógica colonialista de domínio da terra e de produção de conhecimentos nesse campo, são protagonizados por mulheres negras. Como forma de registro e permanência das narrativas das mulheres, sobretudo mulheres negras, Conceição Evaristo propõe a “escrevivência”. Este trabalho é uma análise interdisciplinar que promove reflexões sobre a construção do cuidado em saúde, por meio da "escrevivência" de Conceição Evaristo na obra Ponciá Vicêncio.
Objetivos
Tem-se como objetivo apresentar interfaces entre a construção do cuidado e o protagonismo de mulheres negras na preservação de saberes etnobotânicos e na promoção da saúde da soberania alimentar.
Metodologia
Este trabalho é uma pesquisa de natureza qualitativa e interdisciplinar. O estudo ocorreu no contexto do Programa de Pós-graduação em Conservação dos Recursos Naturais do Cerrado, e durante discussões do projeto de ensino e pesquisa Mulungu Formação Antirracista, ambos sediados no Instituto Federal Goiano Campus Urutaí. A pesquisa foi realizada por meio de análise documental, na qual o documento base se constituiu em trechos da obra Ponciá Vicêncio, da autora Conceição Evaristo. Foram selecionados na obra trechos que continham interfaces com os campos teóricos pertinentes ao estudo. A partir da seleção dos trechos procedeu-se com as análises, que tiveram como eixo condutor o objetivo proposto para a pesquisa, ou seja, os nexos de ligação a construção do cuidado e o protagonismo de mulheres negras na salvaguarda das práticas e saberes ancestrais.
Resultados e Discussão
Dentre os trechos destacados para o recorte da presente pesquisa, está: “O importante na roça era conhecer as fases da lua, o tempo do plantio e de colheita, o tempo das águas e das secas. A garrafada para o mal da pele do estomago, do intestino e para as excelências das mulheres. Saber a benzedura para o cobreiro, passa o osso quebrado ou rendido, para o vento virado das crianças. O saber que se pretendia na roça difere em tudo do da cidade”. Em outros destaques: “Tempos e tempos atrás, quando os negros ganharam aquelas terras, pensaram que tivesses ganhado a verdadeira alforria. Engano. Em muita pouca coisa a situação de antes diferia da do momento”. “[...] mas na terra dos negros o alimento não era vendido. Quem tivesse fome era só chegar em casa de alguém e pedir o que comer. Aquele que tivesse repartia o pão e não aceitava nada em troca. Havia um enorme prazer em dividir o alimento com o outro”. Nos trechos analisados, o sofrimento de Ponciá e sua família reflete a perda do acesso à terra; contudo relata-se a partir da memória os significados e interculturalidades de saberes sobre a terra, a cura e o alimento. A persistência e a continuidade das práticas e tecnologias ancestrais do manejo com a terra, os alimentos e as plantas medicinais, exemplificam a resiliência ecossistêmica e cultural da população negra. A discussão aponta que a saúde mental e física da população negra é fortalecida pela preservação de seu “corpo-território”. Os resultados mostraram que as práticas alimentares e de saúde no quilombo são tecnologias ancestrais de saúde coletiva. O racismo estrutural vivenciado por Ponciá e seu núcleo familiar, trouxe impactos na saúde da protagonista, tendo como principal característica relatada o adoecimento mental e a fome. A pesquisa evidenciou que por meio “escrevivência”, observa-se como a memória negra é um importante marcador epistemológico do cuidado em saúde, e possibilita a (re)construção ancestral do cuidado em saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Dentre as relações evidenciadas no estudo, destacam-se as determinações raciais da saúde, estrutura pela qual a exclusão e as desigualdades interferem no adoecimento. Por outro lado, a permanência e continuidade dos saberes negros, sobretudo a partir da "escrevivência", são estratégias antirracistas de promoção da saúde. O estudo reiterou que a saúde integral da população negra é fortalecida pela preservação do 'corpo-território'. O protagonismo das mulheres quilombolas na preservação de saberes ancestrais constitui um sistema de saúde próprio no qual os saberes populares e ancestrais é a base para construção do cuidado em saúde.
ORÍ E A SUSTENTAÇÃO DA VIDA: UMA ETNOGRAFIA SOBRE MULHERES NEGRAS E A PRODUÇÃO DE VIDA EM UM TERRITÓRIO RACIALIZADO
Comunicação Oral
1 Unicamp
2 Universidad de Chile
3 USP
4 UFMG
Apresentação/Introdução
Em 2020, quando a pandemia de Covid-19 impôs o imperativo do distanciamento social e reiterou a centralidade da casa como espaço de proteção, tornou-se evidente que “ficar em casa” era um privilégio socialmente distribuído. Para milhares de famílias excluídas do mercado formal de moradia, a crise sanitária aprofundou a precarização da existência e a exposição à vulnerabilidade. É nesse contexto que surge, em Piracicaba (SP), a Comunidade Renascer. O nome não é apenas designação territorial, mas expressão simbólica de uma experiência coletiva: renascer significou construir possibilidade de permanência e abrigo em meio a uma conjuntura marcada por medo, desemprego e incerteza. Nesse cenário, a organização comunitária tem sido protagonizada e liderada por mulheres negras, cuja atuação envolve práticas cotidianas de cuidado, mediação e articulação de recursos.
Ao considerar o cuidado a partir da experiência histórica das mulheres negras, é necessário reconhecer que, desde o período escravocrata, essas mulheres foram sistematicamente compelidas a assumir funções de cuidado em uma dinâmica marcada pela exploração e pela desvalorização desse trabalho. Contudo, essas práticas também constituíram importantes formas de resistência, expressas na transmissão de saberes, práticas e linguagens ao longo das gerações.
Objetivos
A presente etnografia teve como objetivo analisar, em colaboração com as mulheres negras que lideram a Comunidade Renascer, em Piracicaba (SP), como suas práticas de cuidado ampliam e ressignificam o cuidado em um território racializado e historicamente negligenciado pelo Estado, evidenciando que a liderança, a organização comunitária e as práticas de acolhimento por elas desenvolvidas constituem ações coletivas e políticas capazes de sustentar a vida, fortalecer vínculos e produzir estratégias de resistência e reconstrução social.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa de abordagem etnográfica realizada na Comunidade Renascer, em Piracicaba (SP). O trabalho de campo ocorreu entre julho e dezembro de 2025, com visitas semanais de 4 a 6 horas, permitindo imersão prolongada no cotidiano comunitário. As etapas incluíram aproximação ao campo, observação participante e entrevistas semiestruturadas, conforme pressupostos etnográficos.
O pesquisador acompanhou reuniões, mutirões e interações cotidianas, registrando dinâmicas sociais, conflitos e práticas de cuidado por meio de diários de campo, fotos e entrevistas em profundidade com mulheres negras líderes da comunidade, abordando cuidado, liderança e resistência. A triangulação entre diferentes fontes fortaleceu a validade dos achados, e a saturação teórica orientou o encerramento da coleta. A análise dos dados baseou-se na Análise de Conteúdo de Bardin, contemplando etapas de organização, codificação e categorização. A interpretação foi construída em diálogo com referenciais críticos sobre cuidado, raça e subjetividade, destacando contribuições de autoras negras brasileiras. O estudo enfatiza o cuidado como prática atravessada por relações de poder, o quilombo como prática política de resistência e a amefricanidade como eixo interpretativo
Resultados e Discussão
O grupo analítico foi composto por mulheres negras, lideranças e moradoras da Comunidade Renascer, inseridas em contexto de precarização socioeconômica, marcado pela centralidade do trabalho reprodutivo e pela dependência de políticas de transferência de renda. As interações evidenciam redes de interdependência fundamentais à reprodução social no território.
O território como espaço de produção de cuidado e pertencimento: o território emerge como instância sociopolítica de organização da vida, onde práticas cotidianas configuram uma economia moral do cuidado. Para além da resistência, aproxima-se da noção de quilombo como forma de produção de sociabilidade e continuidade da vida, articulando materialidade, espiritualidade e memória frente à precarização.
Redes comunitárias de cuidado e sustentação da vida: o cuidado atua como princípio estruturante da vida social, sustentado majoritariamente por mulheres negras, que exercem mediação, gestão da escassez e coordenação coletiva. Essa dinâmica revela o deslocamento de responsabilidades estatais para o território e explicita a persistência da divisão racial e sexual do trabalho, evidenciando o cuidado como prática simultânea de sustentação da vida e de reprodução de desigualdades.
Conclusões/Considerações Finais
As evidências produzidas nesta etnografia evidenciam que a produção de vida comunitária se recria diariamente por meio das práticas de cuidado. São essas mãos negras que, diante da precariedade estrutural e do abandono estatal, transformam a sobrevivência em um projeto coletivo, articulando o cuidado como tecnologia social. Nesse contexto, o cuidado se constitui como Ori e uma tecnologia social. Compreender o cuidado como Ori implica reconhecê-lo como eixo central do território e da vida comunitária.
VULNERABILIZAÇÃO E ENFRENTAMENTO DA FOME ENTRE MULHERES TRANS E TRAVESTIS
Comunicação Oral
1 UFBA
Apresentação/Introdução
A fome é um fenômeno multifatorial que envolve aspectos políticos, sociais e históricos. No Brasil, marcado pela colonialidade, a insegurança alimentar moderada ou grave, surte maior impacto sobre mulheres negras, chefes de família e pessoas em situação de pobreza. Nesse contexto, as mulheres trans e travestis enfrentam vulnerabilização extrema devido à discriminação, cisheteronormatividade e ruptura de vínculos, o que agrava sua privação de direitos fundamentais, incluindo o acesso à alimentação adequada.
Objetivos
Discutir como a experiência da identidade de gênero trans pode conformar outras formas de experienciar a insegurança alimentar.
Metodologia
Trata-se de estudo qualitativo com 17 mulheres trans e travestis (MT), recrutadas por bola de neve em uma unidade de referência em Salvador (BA). Os critérios de inclusão foram: identificar-se como MT, ter ≥18 anos e residir em Salvador. A coleta de dados ocorreu entre maio e junho de 2024, por meio de entrevistas semiestruturadas (duração média de 1 hora) e aplicação da versão curta da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). As entrevistas foram gravadas e transcritas. A análise seguiu a técnica de análise temática de conteúdo, fundamentada nos referenciais de Goffman, Butler, Collins, Lugones, Vergueiro e Bento, entre outros. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética (parecer nº 6.328.021), garantindo o anonimato das participantes.
Resultados e Discussão
Participaram 17 mulheres trans e travestis (MT), majoritariamente negras, entre 20 e 30 anos, desempregadas e residentes em bairros centrais de Salvador. Doze enfrentavam algum nível de insegurança alimentar, sendo cinco em situação grave. A análise temática originou três categorias principais: Estigma interpessoal e intrafamiliar: Desde a infância, as MT sofrem violências regulatórias (cisheteroterrorismo) que negam sua identidade, gerando sofrimento psíquico e transtornos alimentares (anorexia, bulimia). A família, muitas vezes, torna-se espaço de rejeição, expulsão ou imposição de condições insustentáveis, levando à ruptura de vínculos e à itinerância corporal, com consequente insegurança habitacional e alimentar. Essa exclusão pode empurrar as MT para o trabalho sexual compulsório, aumentando vulnerabilidades como HIV e outras IST. Estigma estrutural: Nos espaços educacionais, a transfobia institucional (desrespeito ao nome social, violências simbólicas) leva à evasão escolar. Mesmo com acesso ao ensino superior e qualificação, as MT enfrentam barreiras no mercado de trabalho formal, permanecendo na informalidade ou na prostituição. A falta de renda obriga a priorizar despesas básicas (transporte, hormônios) em detrimento da alimentação adequada. Contrassensos e redes de apoio: A cisheteropassabilidade (ser vista como cisgênero) oferece privilégios transitórios, especialmente para MT brancas, mas não elimina a transfobia. Redes de apoio (amigos, familiares, parceiros) e políticas públicas (Bolsa Família, BPC, restaurantes populares, auxílios universitários) são fundamentais para mitigar a insegurança alimentar e garantir cidadania. A empregabilidade, a educação e os equipamentos de segurança alimentar atuam de forma interligada no enfrentamento à fome.
Conclusões/Considerações Finais
A vulnerabilização à fome entre mulheres trans e travestis começa na infância com a afirmação de gênero e persiste ao longo da vida, amplificada por estigma, transfobia e racismo. Mesmo com alta escolaridade, a exclusão social permanece, levando muitas ao trabalho sexual compulsório como estratégia de sobrevivência. Redes de apoio (amigos e familiares) são essenciais. Para enfrentar a insegurança alimentar, as participantes destacam a necessidade de garantia de cidadania por meio de: ampliação do acesso e permanência na educação e qualificação profissional; oferta de empregos além dos setores tradicionais; acesso a serviços socioassistenciais (incluindo acolhimento institucional) e equipamentos de segurança alimentar (restaurantes comunitários). Os resultados apontam para a urgência de políticas estruturais que reduzam desigualdades e estigma ao longo da vida.
DO CORPO AO TERRITÓRIO: AMBIENTE ALIMENTAR EM FAVELAS COMO ESTRUTURA DE OPRESSÃO RACIAL EM DIÁLOGO COM GRADA KILOMBA E SUELI CARNEIRO
Comunicação Oral
1 IMS/UERJ
2 UFRJ
3 ENSP/FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
As favelas e periferias, territórios ocupados majoritariamente pela população negra, são vistos e construídos no imaginário social como espaços à margem da sociedade, lugar de falta, desordem, barbárie, onde possibilidade de existência se traduz em ausência, escassez e agruras. Nesses espaços, há carência de serviços públicos básicos, e a oferta de alimentação adequada é igualmente negligenciada. Observa-se predominância na oferta de produtos ultraprocessados, baixa disponibilidade de alimentos in natura em um contexto mais amplo de fragilização de políticas de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) (Rocha et al, 2024), constituindo-se como um dos vários elementos estruturantes de opressão racial e fundantes da colonialidade alimentar, destinado a ceifar e dominar vidas pretas e pobres. A leitura de Grada sobre o mecanismo que a branquitude usa para legitimar as diversas formas de violência racial e de Sueli Carneiro com o conceito de dispositivos de racialidade, lança luz sobre a permissibilidade na atuação da política de morte nesses territórios, operando a alimentação como um de seus vetores
Objetivos
Problematizar o ambiente alimentar imposto em favelas e periferias como um dispositivo de racialidade e projeção da branquitude sobre corpos negros e seus territórios, em diálogo com as contribuições de Grada Kilomba e Sueli Carneiro.
Metodologia
Trata-se de um ensaio reflexivo, oriundo de um recorte de pesquisa qualitativa desenvolvida no Trabalho de Conclusão de Residência (TCR) em Saúde da Família tendo como cenário de pesquisa um território de Favela no Município do Rio de Janeiro. A discussão foi pautada na obra “Memórias da Plantação” de Grada Kilomba e “Dispositivos de Racialidade: A construção do outro como não ser como fundamento do ser” de Sueli Carneiro.
Resultados e Discussão
A construção do negro na sociedade contemporânea ancorada na supremacia branca, segundo Grada Kilomba, surge da projeção negativa que a branquitude nega e teme reconhecer em si, como um ser violento, bandido, malicioso e destituido de subjtividade. O “outro” sujeito negro não é apenas diferente do “eu” sujeito branco, como também representa a personificação de aspectos repressores do mesmo (Kilomba, 1968 p. 36-38) . O sujeito negro, produzido como “outridade” possui intrinsecamente uma espécie de falha moral que torna-o responsável por sua má condição de vida. Em diálogo, Sueli Carneiro (2023) evidencia a brancura e sua construção como o “ser”, sinônimo de humanidade, enquanto o oposto, como “não-humano” ou “não ser”. Ela elabora o conceito de dispositivo de racialidade calcada nas reflexões de Michel Foucault, como tecnologias de extermínio, não apenas física, mas também simbólica da população negra para se atingir e restaurar a norma e ordem social. Em certa medida, essa ideologia mantém, legitima e naturaliza estruturas de violência e opressão racial. Seguindo essa lógica, a favela, enquanto território de maioria negra, passa a ser compreendido como a extensão do corpo negro: lugar onde se deposita tudo aquilo que a branquitude rejeita, tornando-os espaços legítimos de precaridade e os corpos passíveis de morte. O abandono estatal, a fragilização e esvaziamento de políticas públicas nas favelas e periferias anunciam a necropolítica e inscrevem o lugar desses corpos. O ambiente alimentar, nesse contexto, revela-se como vetor dessa lógica, operando enquanto um dispositivo de racialidade e colonialidade alimentar. Na medida que normaliza a abundância na oferta de alimentos ultraprocessados e de baixo custo, a baixa disponibilidade de alimentos in natura, pouca atuação de políticas de SAN, associada a construção da concepção de não saudabilidade acerca dos alimentos pertencentes à cultura alimentar afro-brasileira e afro-diaspórica, impondo um modelo de alimentação que além de nocivo, desconsidera esses saberes e provoca aniquilação simbólica. Todo esse conjunto configura um cenário para domínio de corpos e controle social de vidas (nesse caso, mortes). Tal fenômeno não é casual, mas parte de uma estrutura de obliteração de vidas pretas, onde o estado gerencia intencionalmente a precarização das condições de vida de determinados grupos, utilizando a alimentação como motor.
Conclusões/Considerações Finais
Assim, o ambiente alimentar em territórios de favela e periferias não pode ser visto como mera condição casual ou fruto de escolhas de indivíduos, pois em suas entranhas envolvem decisões políticas e sociais que objetivam o “deixar morrer”. A construção do “sujeito negro” como sem subjetividade e a partir de aspectos repressores negativos da branquitude corrobora a manutenção e atualidade, nesse caso, da colonialidade alimentar e nutricídio. Em resumo, este trabalho busca tensionar e estimular a reflexão crítica acerca dessas dinâmicas que incidem sobre os modos de viver e se alimentar da população negra.
ROCHA, L. L. et al.. Percepção dos residentes de favelas brasileiras sobre o ambiente alimentar: um estudo qualitativo. Cadernos de Saúde Pública, v. 40, n. 3, p. e00128423, 2024.
CARTOGRAFIAS DO COMER URBANO: ITINERÁRIOS ALIMENTARES E DESIGUALDADES TERRITORIAIS EM BELO HORIZONTE
Comunicação Oral
1 UFMG
Apresentação/Introdução
Os deslocamentos cotidianos individuais relacionados ao consumo alimentar nas cidades revelam dinâmicas pouco exploradas dos sistemas alimentares urbanos, evidenciando desigualdades territoriais, sociais e simbólicas. O acesso à comida é mediado não apenas por métricas, mas também por itinerários, fluxos, fixos e barreiras que atravessam a vida urbana. Em Belo Horizonte, tais deslocamentos expressam essas desigualdades não apenas na escassez de alimentos, mas também como condição de constante negociação, adaptação, improvisação e restrição no acesso.
Objetivos
Analisar os itinerários alimentares de moradores e moradoras da cidade de Belo Horizonte, explorando como os deslocamentos associados à comida — incluindo práticas cotidianas e dinâmicas de trabalho — podem revelar desigualdades territoriais, insegurança alimentar, estratégias de acesso e experiências urbanas diversas.
Metodologia
Esta análise é fruto do estudo qualitativo e participativo Diários de Alimentação, conduzido como parte de um projeto internacional de pesquisa que em Belo Horizonte estuda as trajetórias das políticas de segurança alimentar e nutricional (Change Stories). Neste estudo, dezesseis moradores e moradoras de Belo Horizonte, de distintos perfis socioeconômicos, compartilharam suas práticas, percepções e experiências alimentares por meio de fotos, textos, áudios e localizações espaciais, enviados por aplicativo de mensagens. Os registros foram organizados e codificados no software Atlas.TI. Para esta análise, foram mobilizados 53 excertos associados ao código “território” que reuniu informações sobre acesso, deslocamentos, localização, distâncias relacionadas às práticas alimentares de aquisição, preparação e consumo das pessoas participantes. Por meio de Análise Temática Reflexiva, foram elaborados temas que articulam as dimensões materiais e simbólicas do acesso alimentar urbano, em um processo analítico situado e reflexivo.
Resultados e Discussão
A análise construiu cinco temas principais. (1) Proximidade como recurso e como limite: o bairro configura o horizonte alimentar cotidiano, mas a proximidade expressa desigualdades na qualidade e diversidade da oferta. (2) Circular pela/na cidade: os fluxos alimentares acompanham os fluxos de trabalho e de cuidado, sendo moldados por condições laborais (formalidade, informalidade, precarização) e, assim, revelam práticas alimentares em trânsito e em espaços improvisados. (3) Hierarquias simbólicas e materiais do comer urbano: diferenças entre centro e periferia estruturam acessos e distinções sociais, nas quais tipos de estabelecimentos e preços operam como marcadores de pertencimento e exclusão. (4) Estratégias frente à insegurança alimentar: os participantes mobilizam redes sociais, políticas públicas e criatividade cotidiana para contornar restrições, evidenciando a insegurança alimentar como experiência processual e relacional. (5) Alimentação, moradia e luta pelo território: práticas alimentares articulam-se a processos de resistência e de disputa pelo direito à cidade, revelando a inseparabilidade entre insegurança alimentar, precariedade habitacional e vulnerabilidade territorial.
Conclusões/Considerações Finais
Os itinerários alimentares evidenciam uma cartografia alimentar desigual e injusta, na qual o acesso à alimentação é produzido por relações entre mobilidade, trabalho, território e poder. A análise evidencia que os deslocamentos, práticas e territorialidades podem ampliar a compreensão dos ambientes alimentares, abordando a dimensão experiencial e relacional da alimentação. A análise desafia abordagens centradas no ambiente alimentar ao evidenciar a centralidade dos deslocamentos, das práticas cotidianas e das territorialidades em disputa. Reforça-se a necessidade de políticas públicas de Segurança Alimentar e Nutricional que incorporem a dimensão territorial e os modos de vida urbanos, reconhecendo a insegurança alimentar como expressão das desigualdades estruturais e das lutas pelo direito à cidade.
Realização: