Programa - Comunicação Oral - CO7.2 - O protagonismo da pessoa idosa no cuidado em saúde
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
HANSENÍASE, INFODEMIA E FORMAÇÃO MÉDICA: REPRESENTAÇÕES ENTRE DISCENTES DE MEDICINA NO CONTEXTO AMAZÔNICO
Comunicação Oral
1 UFAM
Apresentação/Introdução
A hanseníase constitui um relevante problema de saúde pública, persistindo como doença negligenciada e fortemente marcada por dimensões sociais e simbólicas. Apesar dos avanços terapêuticos e das estratégias de controle, o Brasil permanece entre os países com maior número de casos no mundo, configurando importante desafio para o sistema de saúde. No contexto amazônico, o Amazonas apresenta elevada carga epidemiológica da hanseníase, com coeficiente de detecção de até 45,72/100 mil habitantes, segundo o Panorama da Hanseníase no Amazonas (2024) da Fundação Alfredo da Matta.
Para além de sua dimensão clínica, a hanseníase permanece atravessada por estigmas socialmente produzidos e por representações associadas à impureza e ao isolamento. Na contemporaneidade, tais processos são tensionados pela circulação ampliada de informações e desinformações em ambientes digitais, fenômeno caracterizado como infodemia.
Nesse cenário, a formação médica assume papel estratégico na produção e na mediação de saberes sobre a doença. Entretanto, a educação médica frequentemente privilegia abordagens tecnicistas, em detrimento da incorporação de dimensões socioculturais que estruturam as representações da doença e os processos de estigmatização, fundamentais para o enfrentamento do estigma e para a qualificação do cuidado.
Objetivos
Analisar representações e nível de entendimento de discentes de medicina sobre a Hanseníase no contexto amazônico, considerando formação médica, infodemia e estigma.
Metodologia
Trata-se de estudo qualitativo exploratório-descritivo, vinculado ao projeto Rede Brasil de Gestão da Informação e Tradução do Conhecimento em Saúde à Ciência Cidadã, coordenado pela Universidade de Brasília, realizado com discentes de Medicina da Universidade Federal do Amazonas, nos campi de Manaus e Coari.
A coleta de dados ocorreu entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026, por meio de questionário estruturado aplicado em ambiente virtual, adaptado de instrumento desenvolvido no âmbito do referido projeto.
Os dados quantitativos foram analisados por estatística descritiva, e os qualitativos à luz da Análise de Discurso de caráter descritivo. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa, e todos os participantes consentiram mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em formato digital.
Resultados e Discussão
Os resultados parciais, obtidos a partir de uma amostra de 28 discentes, evidenciam a coexistência entre domínio técnico e persistência de lacunas conceituais sobre a hanseníase, revelando tensões entre o saber biomédico formal e as experiências sociais que estruturam a percepção da doença. No que se refere à formação médica e à territorialidade, observou-se que 89,3% dos participantes declararam não possuir vínculo com serviços da Atenção Primária à Saúde, enquanto 67,8% referiram utilização predominante de serviços de saúde suplementar, indicando um perfil formativo marcado por diferentes formas de relação com o sistema de saúde.
Embora a totalidade dos discentes reconheça a sintomatologia clássica da doença, 39,3% apresentaram incerteza ou erro quanto à confirmação diagnóstica. Além disso, persistem elementos de estigma associados à hanseníase: 14,3% indicaram a possibilidade de transmissão por utensílios domésticos e 10,7% manifestaram dúvidas sobre sua curabilidade. Esses achados indicam que, mesmo em contextos de formação biomédica, informações imprecisas e narrativas socialmente difundidas continuam circulando, fenômeno que pode ser compreendido à luz da infodemia contemporânea.
No plano atitudinal, observaram-se repercussões da desordem informacional contemporânea. Parte dos estudantes demonstrou condutas marcadas por distanciamento social diante de um colega diagnosticado com a doença (14,3%), enquanto 7,2% indicaram a possibilidade de divulgar o diagnóstico para que outros se afastassem. Tais respostas evidenciam como a circulação ampliada de informações e desinformações pode reforçar representações estigmatizantes, mesmo entre sujeitos inseridos em processos formais de formação em saúde, tensionando a expectativa de que o conhecimento biomédico, por si só, seja suficiente para desconstruir estigmas historicamente associados à doença.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicam que, embora os discentes apresentem domínio de aspectos clínicos da hanseníase, persistem lacunas conceituais e atitudes permeadas por representações estigmatizantes. Esse tensionamento entre saber técnico e imaginário social evidencia limites de um modelo de formação médica predominantemente centrado no tecnicismo biomédico, além de apontar para a necessidade de ampliar investigações sobre desinformação em saúde.
Os achados reforçam a importância de estratégias pedagógicas que integrem dimensões socioculturais da hanseníase, contribuindo para o enfrentamento do estigma e para a qualificação do cuidado em contextos marcados por doenças negligenciadas, bem como para a ampliação de estudos que considerem as especificidades territoriais e sociais da Amazônia.
PERCEPÇÃO DE IDOSOS INSTITUCIONALIZADOS SOBRE O IMPACTO DE UM PROGRAMA DE ATIVIDADE FÍSICA VERDE NA SAÚDE MENTAL
Comunicação Oral
1 UESB, UEFS, Estácio
2 UESB, SME-DF
3 UESB
4 IPC, Portugal
5 UEM, Moçambique
Apresentação/Introdução
Os programas de atividade física verde (AFV) emergem como estratégia promissora para idosos institucionalizados, promovendo benefícios físicos e mentais em contextos de vulnerabilidade social. O Programa de Intervenção Multicomponente de Atividade Física para Idosos Institucionalizados (IMPAFVI), desenvolvido em Centros de Acolhimento de Idosos da Cidade de Maputo, Moçambique, integra exercícios de força, flexibilidade, equilíbrio e componentes educativos em saúde, sendo avaliado sob a perspectiva do domínio Efetividade do framework RE-AIM, que mensura os impactos percebidos de intervenções em saúde. Este relato de pesquisa qualitativa apresenta os achados de grupos focais pré e pós-intervenção, contribuindo para o campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde com reflexões sobre envelhecimento ativo, promoção de saúde mental e cuidado integral a populações vulneráveis no contexto africano.
Objetivos
Avaliar a percepção dos idosos sobre a efetividade do IMPAFVI na saúde física e mental, identificando mudanças lexicais e temáticas entre as coletas inicial e final, e discutir implicações para políticas de cuidado integral a idosos institucionalizados em Moçambique.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, realizado em quatro Centros de Acolhimento de Idosos da Cidade de Maputo, Moçambique. Os dados foram obtidos por meio de grupos focais (GF) com idosos organizados em quatro turmas (n=34 na coleta inicial; n=32 na coleta final) de Centros de Acolhimento da Cidade de Maputo, Moçambique, submetidos à AFV três vezes por semana durante seis meses (fevereiro a agosto de 2025). Realizaram-se GF pré-intervenção (3 a 7 de fevereiro de 2025) e pós-intervenção (4 a 8 de agosto de 2025), com discussões gravadas, transcritas e analisadas por análise de conteúdo segundo Bardin, identificando palavras-chave, frequências e segmentos contextuais das falas. As sessões foram orientadas por um roteiro de questões que contempla percepções sobre saúde mental, mobilidade, força, autonomia e qualidade de vida, especificamente o domínio Efetividade do modelo RE-AIM. A comparação entre os dois momentos buscou capturar transformações no discurso dos participantes ao longo da intervenção.
Resultados e Discussão
Na coleta inicial, destacaram-se os termos "atividade física", "melhorar", "autonomia" e "agora" (1, ancorados em relatos de superação imediata: "minha perna doía, agora melhorou; já não uso a bengala; consigo caminhar"; "consigo carregar pesos maiores"; "ficava com saudades de realizar Atividade Física". O léxico inicial enfatiza ganhos físicos percebidos como novidade, felicidade associada à prática e narrativas individualizadas de recuperação funcional. Na coleta final, prevaleceram "exercícios", "continuamos/praticamos", "nossa condição" e "outros idosos": "praticamos de segunda a sexta; tornou-se rotina"; "se parássemos, o corpo ia continuar o mesmo"; "vão a outros centros". Evidencia-se transição do discurso da descoberta para o da incorporação, do alívio imediato para o hábito sustentável e o senso de pertencimento grupal. A análise de conteúdo de Bardin revelou efetividade percebida em cinco dimensões com relevância para a saúde mental: bem-estar emocional, recuperação da autonomia funcional, autoeficácia, vínculo social e vitalidade subjetiva, sintetizada na fala "o exercício tem nos dado mais vida". A transição lexical do singular ("consigo", "sinto") para o coletivo ("sentimos", "praticamos") indica que a efetividade aprofundou-se ao longo dos seis meses, dialogando com os princípios do envelhecimento ativo e dos determinantes sociais da saúde.
Conclusões/Considerações Finais
O IMPAFVI demonstrou efetividade na percepção dos idosos institucionalizados em Moçambique, evoluindo de alívio sintomático imediato para manutenção de autonomia e rotina prazerosa, com impactos na saúde mental descritos pelo sentimento de pertencimento, empoderamento e vitalidade subjetiva. A persistência da prática após o encerramento do programa, relatada pelas falas dos participantes, sugerem que a intervenção foi capaz de gerar motivação intrínseca e senso de continuidade, elementos que fortalecem a autoeficácia e a autogestão do indivíduo, conforme a literatura. Propõe-se a expansão do IMPAFVI para outros centros de acolhimento, fortalecendo políticas públicas de AFV como dispositivo de promoção de saúde integral em populações idosas institucionalizadas no contexto africano.
AVÓS QUE CRIAM: CUIDADO, ENVELHECIMENTO E SAÚDE EM CONTEXTOS PRECARIZADOS
Comunicação Oral
1 Fiocruz
Apresentação/Introdução
Este trabalho é fruto de uma pesquisa de pós-doutorado, realizada no PAGU/Unicamp, com supervisão da Prof. Guita Debert. Nele, analiso a centralidade das avós no cuidado cotidiano de crianças e adolescentes em favelas e periferias do Rio de Janeiro, tema que emergiu ao longo da minha trajetória de pesquisa e das aproximações anteriores com esses territórios. Embora esta investigação tenha se baseado em entrevistas, a convivência prolongada com essas realidades me permitiu reconhecer que a presença das avós no cotidiano infantil é constante e estruturante. Mesmo diante das transformações demográficas nacionais, percebo que, nesses contextos, outras dinâmicas persistem, associadas a trajetórias marcadas por desigualdades e arranjos familiares que se distanciam de modelos hegemônicos. As histórias demonstram que o cuidado realizado por essas mulheres se infiltra profundamente em seus percursos de vida, reorganizando trabalho, afetos e possibilidades de envelhecer. O que inicialmente parecia apenas uma responsabilidade ampliada se revelou um campo complexo, onde o cuidado opera como tarefa, vínculo e também como horizonte de futuro. Ao trazer estas experiências para o centro da análise, busco contribuir para a compreensão do cuidado intergeracional em territórios precarizados, evidenciando como essas avós sustentam dimensões essenciais da vida familiar.
Objetivos
O objetivo principal deste estudo é compreender como avós residentes em favelas e periferias urbanas assumem o cuidado cotidiano dos netos e de que maneira essa responsabilidade impacta seus percursos de vida e envelhecimento. Procuro investigar os fatores que levam essas mulheres a ocupar esse lugar central no cuidado e como desigualdade racial, classe social, maternidade precoce e ausência de políticas públicas se entrelaçam a essas trajetórias. Ao mesmo tempo, busco analisar como, apesar da sobrecarga, essas experiências são atravessadas por vínculos afetivos, expectativas e projetos de futuro.
Metodologia
A pesquisa foi desenvolvida por meio de entrevistas em profundidade com onze avós que criam ou criaram seus netos. O contato inicial ocorreu a partir de um formulário divulgado em grupos de moradores dos territórios onde já havia atuado anteriormente. As entrevistas foram realizadas em locais definidos pelas próprias participantes e permitiram explorar trajetórias diversas de cuidado. Ao organizar o material, identifiquei três grupos que emergiram das narrativas: avós que criam filhos das filhas, avós que criam filhos dos filhos homens e avós que cuidam de netos sem vínculo biológico. Essa organização possibilitou compreender nuances e singularidades das relações de cuidado.
Resultados e Discussão
Os resultados revelam que o cuidado realizado pelas avós está profundamente associado à ausência de políticas de suporte e à permanência de desigualdades que afetam mães e crianças. Em praticamente todas as histórias, recai sobre elas a responsabilidade por garantir alimentação, escola, saúde e rotina das crianças. Longe de ser uma ajuda temporária, esse cuidado torna-se eixo de organização familiar, frequentemente substituindo a atuação dos genitores. A maternidade precoce das filhas, a instabilidade econômica e a pouca participação masculina são fatores que, juntos, explicam essa centralidade das avós. Apesar disso, esse cuidado não é vivido apenas como renúncia. Muitas descrevem essa responsabilidade como oportunidade de corrigir experiências anteriores, proteger a família e construir trajetórias que ofereçam outras possibilidades aos netos. A educação surge como prioridade absoluta, vista como via de transformação e ruptura de ciclos. Ao mesmo tempo, é evidente que esse papel impacta o envelhecimento dessas mulheres: revelam cansaço persistente, dificuldade de cuidar da própria saúde e sobrecarga emocional. Contudo, também emergem redes femininas de solidariedade — entre mães, avós, noras, irmãs e vizinhas — que sustentam a criação compartilhada e possibilitam alguma estabilidade mesmo em condições adversas.
Conclusões/Considerações Finais
Concluo que as avós desempenham um papel essencial na sustentação do cuidado infantil em territórios marcados pela desigualdade, e que suas trajetórias revelam as conexões profundas entre cuidado, gênero, raça e envelhecimento. São mulheres que dedicaram décadas ao cuidado dos outros e que, ao chegar à velhice, continuam assumindo responsabilidades que deveriam ser compartilhadas pela sociedade. Embora encontrem força e sentido no vínculo com os netos, enfrentam limites importantes impostos pela sobrecarga e pela falta de políticas públicas. Reconhecer suas experiências é fundamental para construir políticas de cuidado e envelhecimento que sejam sensíveis às realidades das periferias urbanas.
PROJETO LAÇOS NA COMUNIDADE: INTEGRALIDADE, INTERSECCIONALIDADE E PARTICIPAÇÃO SOCIAL NA ATENÇÃO À SAÚDE DA PESSOA IDOSA.
Comunicação Oral
1 UNIVERSIDADE DE FORTALEZA (UNIFOR) E SECRETARIA DE SAÚDE DE AQUIRAZ
2 SECRETARIA DE SAÚDE DE AQUIRAZ
3 FACULDADE DE PSICOLOGIA E CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
Contextualização
O envelhecimento populacional configura-se como um dos fenômenos mais preocupantes do século XXI, impondo desafios multidimensionais às sociedades contemporâneas. A temática ganha centralidade ao evidenciar que o envelhecimento ultrapassa a dimensão biológica, sendo atravessado por inúmeros determinantes sociais, econômicos, culturais e ambientais ao mesmo tempo em que os dados demográficos apontam para o crescimento expressivo da população idosa, persistindo sua invisibilidade social, fortemente associada ao idadismo estrutural. Tal cenário impacta as condições de saúde, o acesso a direitos e a participação social das pessoas idosas, reforçando desigualdades e vulnerabilidades nos territórios.
Descrição
Dados do IBGE (2022) demonstram que Aquiraz possui 79.563 habitantes com 481,596 km² de extensão territorial, distribuída em áreas urbanas e rurais, com realidades econômicas diversas e tipos de violência doméstica ao idoso, incluindo a psicológica, a patrimonial, a física e a negligência. As equipes E-Multi são formadas por fisioterapeuta, psicólogo, assistente social, médicos (geriatra e clínico geral), técnicos de enfermagem e educadores físicos e realizam ações com pessoas acima dos 60 anos com condições crônicas estáveis. As ações começaram em maio de 2025, com a realização de oficinas comunitárias nas 02 regiões assistidas pela E-Multi, totalizando 09 oficinas com a participação de 17 unidades básicas e a presença direta de 81 pessoas, especialmente os trabalhadoras e trabalhadores do sistema único de saúde (SUS) e representantes da população local, para levantamento da realidade dos moradores, com uso de um varal de ideias que registrou graficamente as falas e histórias de cada lugar, assim como os valores e crenças sobre o envelhecimento, transformando-os em um plano local de intervenção que traçou um cronograma das ações da E-Multi. Os profissionais realizam quinzenalmente rodas de conversa, exercícios de relaxamento, atendimentos individuais, campanhas de informação sobre temas da saúde coletiva, visitas domiciliares, discussão de casos com as equipes de saúde da família para as questões sobre o envelhecimento. Estas ações são conhecidas como “Projeto Laços na Comunidade” que resgata o modo de vida comunitário, valorizando a cultura e garantindo acesso de cuidado desde o ponto de vista interseccional.
Período de Realização
Maio de 2025 a Março de 2026.
Objetivo
Assim, profissionais das equipes multiprofissionais (E-Multi) do município de Aquiraz, Ceará, através da portaria GM/MS no 635/23, desenvolvem ações estratégias em parceria com as equipes de saúde da família (ESF) com objetivos de facilitar o acesso da população aos cuidados em saúde, por meio do trabalho colaborativo entre profissionais das eMulti e das equipes da atenção primária à saúde (APS); ampliar o escopo de práticas em saúde no âmbito da APS e do território e integrar práticas de assistência, prevenção e promoção da saúde, através da integralidade e do debate sobre o envelhecimento. Para tanto utilizamos como referenciais teóricos sobre o envelhecimento ativo e a promoção da saúde, inspirada na Carta de Ottawa, evidenciando a influência das trajetórias sociais que deslocam o foco da doença para o fortalecimento da capacidade de viver bem e a teoria interseccional, que aborda o envelhecimento como fenômeno social, político e historicamente construído. A ação nas comunidades é um grito contra todas as formas de maus-tratos, indiferença e o abandono dos idosos no cenário de fragmentação das políticas públicas.
Resultados
Os principais resultados mostram ações comunitárias que integram a diversidade cultural à promoção da saúde gerando impacto nas ações de cuidado corporal, promoção da saúde, incluindo fortalecimento da qualidade de vida e reflexões críticas sobre o envelhecimento. Atualmente o projeto passa por adequações para atender a portaria GM/MS no 9.584/26, que institui o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (PADI).
Aprendizado e Análise Crítica
Os desafios referem-se as dificuldades dos profissionais e da população para relacionar as condições ambientais aos determinantes de saúde no eixo intergeracional. Aprender a agir para além dos dados clínicos é um passo importante para reconhecimento do processo identitário assegurando espaço de expressão das necessidades pessoais e coletivas. Faz-se necessário empreender reflexões e ações sobre como a intergeracionalidade pode vir a ser uma estratégia para promoção da saúde, tendo a intersetorialidade como eixo transformador dos desafios em cada território. Com o projeto, aprendemos a produzir planos individualizados de cuidado com foco na saúde das pessoas idosas que vão além do repasse educativo de orientações, mas falam sobre a necessidade de articular diferentes setores e adaptar os instrumentais de cada profissão para que sejam capazes de produzir reflexões críticas e mudanças na qualidade de vida das pessoas e das coletividades, em contextos de desigualdades socioeconômicas, através do fortalecimento de processos identitários mais justos e equitativos.
EXPERIÊNCIA INTERGERACIONAL, RESGATE DA IDENTIDADE E PROTAGONISMO NA VELHICE NA COCRIAÇÃO DE HISTÓRIAS DE VIDA EM INSTITUIÇÃO DE LONGA PERMANÊNCIA
Comunicação Oral
1 UNIFOR
2 Universidade Christus
3 Estação Verde ILPI
Contextualização
A transição demográfica em âmbito global transforma a compreensão do construto da sociedade, em países de baixa e média renda esta transformação é multidimensional. O impacto do envelhecimento repercute em toda a vida da pessoa idosa, modificando o modo de viver, influenciando suas vontades, lazeres de acordo com as características adquiridas durante a vida. Nesse contexto, a sociedade enfrenta grandes disparidades socioeconômicas e o desafio do idadismo estrutural (OMS, 2021). Em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), esse desafio é acentuado, diante dos estigmas da institucionalização, que muitas vezes reduz o indivíduo à sua condição clínica, levando a perda da identidade e influenciando todo o seu contexto de saúde e funcionalidade. Este trabalho surge da necessidade da troca intergeracional e ciência, utilizando a narrativa como ferramenta de cuidado coletivo e promoção da saúde.
Descrição
No período da experiência, residiam 52 idosos, em sua maioria, com algum grau de dependência. Durante o processo, os alunos que participaram da atividade, tiveram um momento de treinamento comunicativo com a pessoa idosa, e a atividade seguiu três etapas: aplicação de roteiro de entrevista semiestruturada para coleta de relatos e histórias de vida com perguntas sobre fatos importantes, seguindo os ciclos de desenvolvimento; articulação com familiares e profissionais para o envio de registros fotográficos, imagens afetivas e complementação de informações coletadas; e a oficina de co-criação do "Livro de Memórias" junto ao idoso, registrando suas trajetórias em um artefato físico e visual. Após essas etapas, o livro estava disponível para idosos, familiares e profissionais utilizarem na socialização das histórias de vida.
Período de Realização
A experiência foi realizada durante 3 meses, sob a supervisão de uma enfermeira e uma psicóloga, no primeiro semestre de 2026 em uma ILPI particular, na Região Metropolitana de Fortaleza, Ceará.
Objetivo
Relatar a experiência de acadêmicos de medicina, sob supervisão interdisciplinar na construção de livros de memória com idosos institucionalizados, no resgate da identidade e no fortalecimento de vínculos intergeracionais.
Resultados
Observou-se um impacto no bem-estar subjetivo dos idosos durante a coleta e construção do material. A evocação de fatos marcantes trouxe à tona sentimentos de pertencimento e valorização da própria história, frequentemente silenciada pelo cotidiano institucional. A atividade intergeracional evidenciou desafios distintos conforme a cognição: enquanto idosos autônomos apresentaram maior fluidez narrativa, aqueles com comprometimento leve exigiram uma mediação sensível e estratégias de estimulação direcionadas para o resgate de detalhes significativos. A interação com as famílias, ao solicitarem as imagens, fortaleceu vínculos que por vezes estavam fragilizados pela distância física, demonstrando que a tecnologia e a comunicação estimulam o afeto, fortalecem o vínculo entre família e instituição. Apesar disso, ressalta-se a dificuldade em conseguir informações com alguns familiares, despontando níveis heterogêneos de suporte. Essa disparidade no engajamento familiar mostra como o distanciamento das redes de apoio impacta diretamente na fragilização do idoso. Para os estudantes, o aprendizado foi além da comunicação; permitiu a compreensão do idoso como um ser biopsicossocial e experiente, mesmo em situações mais frágeis, além da identificação que os diferentes níveis de atenção familiar contribuem para a complexidade do cuidado e da atenção em saúde
Aprendizado e Análise Crítica
A sistematização da experiência revela que o cuidado a pessoa idosa não pode ser fragmentado. Ressalta-se que, neste período, não foram coletados dados de idosos com alteração cognitiva importante ou com deficiência total de comunicação, visto que tais perfis demandariam um tempo de aplicação e uma dedicação intensiva superiores ao cronograma estabelecido. A integração interprofissional e intergeracional permitiu um olhar transdisciplinar sobre o envelhecimento. A percepção das diferentes dinâmicas familiares revelou-se um dado clínico valioso: compreender as lacunas no suporte familiar permite à equipe intervir de forma mais assertiva, personalizando o cuidado para mitigar o impacto do isolamento na saúde mental. Cresce o reconhecimento científico do potencial das relações intergeracionais como estratégia eficaz de enfrentar o preconceito etário. Programas estruturados de convivência entre jovens e pessoas idosas promovem empatia, reduzem estereótipos, fortalecem vínculos afetivos e favorecem a participação social da pessoa idosa. A construção do livro de memória não é apenas uma atividade lúdica, mas uma intervenção social que confronta o idadismo ao validar saberes e trajetórias de vida no contexto de institucionalização. A experiência demonstra que estratégias de baixo custo, baseadas na escuta qualificada e na valorização da história de vida, são fundamentais para a resiliência da saúde pública em uma sociedade que envelhece de formadesigual.
MEMÓRIA EM MOVIMENTO: UMA EXPERIÊNCIA DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA COM IDOSOS NA UNIVERSIDADE ABERTA À TERCEIRA IDADE
Comunicação Oral
1 UNEB
Contextualização
No Estatuto da Pessoa Idosa destina-se a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. (Lei nº 14.423, de 2022). Como também, intitula o dever do Estado de garantir a proteção e saúde da pessoa idosa, junto a mediação de políticas públicas para a garantia de um envelhecimento saudável em condições de dignidade. Na mesma legislação é postulado que a pessoa idosa têm direito à inviolabilidade da integridade psíquica, sendo dever de todos zelar pela dignidade dos idosos (BRASIL. Estatuto da Pessoa Idosa, 2022). As Universidades Abertas à Terceira Idade (UATIs) surgem como espaços de envelhecimento ativo, contendo atividades educativas, culturais e de promoção à saúde à população. A UATI da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), se insere constituindo um ambiente de troca intergeracional e fortalecimento da cidadania. Dentre fenômenos ligados ao envelhecimento, o declínio cognitivo está em destaque, em especial as alterações de memória, o que impacta na qualidade de vida do idoso, como abordado por Firmino et al (2025). Nesse sentido, o estudo de Matos et al (2020), evidencia que a Estimulação Cognitiva está associado a redução do processo de declínio cognitivo e manter preservada a autonomia e longevidade dos idosos, que junto a intergeracionalidade e integração promovida pela UATI, auxilia na compreensão do papel da pessoa idosa na sociedade (Araújo et al, 2024). A Estimulação cognitiva é uma abordagem ampla que envolve o engajamento em atividades voltadas à melhoria do desempenho cognitivo e social do indivíduo ou grupo atendido (Cruz et al, 2025).
Descrição
Assim, o presente trabalho relata a experiência de acadêmicas de Psicologia da UNEB no desenvolvimento de uma oficina de estimulação cognitiva junto aos idosos, articulando ciência, ludicidade e promoção de direitos.
A oficina foi estruturada em dois eixos: o primeiro eixo ligado a estimulação cognitiva, onde utilizava-se a realidade social dos idosos, associando as atividades às memórias afetivas reforçando memória e atenção; o segundo eixo por sua vez se tratava da promoção de direitos, retratando o Estatuto da Pessoa Idosa e cartilhas visando ampliar o conhecimento sobre direitos legais, identidade e táticas para lidar com o ageismo.
Período de Realização
A experiência foi realizada na Universidade Estadual da Bahia (UNEB) em 2025, com 40 idosos com idades variadas entre 60 e 88 anos divididos em 2 turmas ao longo de sete meses, com encontros semanais de 2h.
Objetivo
O presente relato objetiva fortalecer o debate sobre o envelhecimento como um processo social, com a lente da interculturalidade e dos aspectos cognitivos reflexionando sobre a saúde da população idosa
Resultados
A oficina apresentou engajamento dos participantes que demonstraram disposição à adesão às atividades propostas ao longo dos encontros. Os idosos também demonstraram participação com sugestões de dinâmicas evidenciando protagonismo e senso de pertencimento. Houve integração do treino de funções cognitivas a conteúdos ecologicamente válidos, favorecendo não apenas o desempenho cognitivo, mas também o fortalecimento da autonomia, do pensamento crítico e da participação social, destacando que a estimulação cognitiva, quando realizada em coletivo, potencializa as funções mnemônicas, e também constrói uma rede de socialização. As atividades propostas mostraram estratégias eficazes para mobilizar diferentes qualidades da memória, como a memória episódica, semântica, autobiográfica e espacial. Com as intervenções sendo familiares e culturalmente situadas, houve um favorecimento do engajamento do grupo e reduziu possíveis resistências, o que confirmou que a vinculação dos temas das oficinas com o contexto já vivido produz resultados mais significativos (Nóbrega et al 2022). Ao abordar o Estatuto da Pessoa Idosa e pautas correlatas, os participantes sentiram-se encorajados a compartilhar vivências reais de desrespeito a seus direitos, o que evidencia a necessidade de ações de educação em direitos no âmbito da saúde e da cidadania (Bonfim et al, 2022). Essa dimensão ampliou o escopo da oficina para além da cognição, articulando saúde mental, autonomia e exercício da cidadania como complementares de um envelhecimento digno.
Aprendizado e Análise Crítica
Em suma, a experiência na UATI possibilitou desenvolvimento de atividades que integraram os idosos, ressaltou a importância do cuidado com relação às funções cognitivas e interações em grupo, além da ampliação do conhecimento sobre os seus direitos, e dimensões que se articulam na promoção de um envelhecimento digno (Medeiros et al, 2021). Para as graduandas, a vivência propiciou um olhar sensível sobre o processo de envelhecimento, evidenciando que a prática extensionista é insubstituível na formação profissional. Ao final da experiência, ficou perceptível que realizar as atividades da oficina e ter a oportunidade de aprender com os idosos reforçou a compreensão de que cuidar do outro exige, antes de tudo, reconhecê-lo em sua integralidade e protagonismo (SILVA et al., 2026).
Realização: