Programa - Comunicação Oral - CO21.2 - Território, saberes tradicionais e enfrentamento do racismo institucional
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
INIQUIDADES EM SAÚDE BUCAL DE COMUNIDADE QUILOMBOLA DO NORDESTE BRASILEIRO: INTERFACES ENTRE TERRITÓRIO, RACISMO E ACESSO AO CUIDADO
Comunicação Oral
1 UFPE
2 IAM
Apresentação/Introdução
A saúde da população negra no Brasil é historicamente atravessada por desigualdades produzidas pelo racismo estrutural e institucional, que se expressam de forma concreta nos territórios e nas condições de vida. No campo da saúde bucal, essas iniquidades se manifestam em maior carga de doença, perda dentária precoce e acesso desigual aos serviços de saúde, especialmente entre populações quilombolas. Tais grupos vivenciam processos históricos de exclusão social que impactam diretamente o cuidado em saúde e a efetivação de políticas públicas, como a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. A análise das condições de saúde bucal em pessoas idosas quilombolas permite compreender como esses determinantes operam ao longo do curso de vida, produzindo padrões de adoecimento e de cuidado marcados por desigualdades.
Objetivos
Analisar as condições de saúde bucal, incluindo experiência de cárie, perdas dentárias, uso e necessidade de prótese dentária e necessidades de tratamento, em pessoas idosas de uma comunidade quilombola de Pernambuco, considerando as iniquidades em saúde associadas a determinantes sociais e raciais.
Metodologia
Estudo transversal, realizado entre 2024 e 2026, na comunidade remanescente quilombola de Angico, no município de Bom Conselho, Pernambuco. A população estudada apresentou média de idade de 68,28 anos (DP=7,01), composta por pessoas idosas residentes no território. A coleta de dados envolveu aplicação de questionário estruturado para caracterização sociodemográfica, hábitos de saúde bucal e uso de serviços, além de exame clínico intraoral para avaliação da condição dentária segundo critérios padronizados, incluindo o índice CPOD, uso e necessidade de prótese e necessidade de tratamento odontológico. Os dados foram analisados de forma descritiva, articulando os achados epidemiológicos à compreensão dos determinantes sociais e raciais da saúde, considerando o território como eixo interpretativo.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciaram elevada experiência de cárie, com CPOD médio de 19,51 (DP=9,1), indicando importante comprometimento acumulado da saúde bucal ao longo da vida. Destaca-se o predomínio do componente “perdido por cárie”, responsável por 56,7% dos dentes avaliados, com média de 16,54 dentes perdidos por indivíduo, revelando um histórico de cuidado centrado em práticas mutiladoras e baixa resolutividade preventiva. A proporção de dentes hígidos foi de 30,4%, enquanto dentes cariados corresponderam a 7,1%, indicando coexistência de doença ativa e perda dentária. A ausência de procedimentos preventivos, como selantes, reforça fragilidades nas ações de promoção da saúde. Em relação às necessidades de tratamento, apenas 28,3% dos dentes não demandavam intervenção, com predominância de necessidades restauradoras (23,9%) e presença de indicação de exodontias (6,7%), evidenciando acesso tardio e manutenção de demandas reprimidas. No que se refere à reabilitação oral, observou-se baixa cobertura de prótese dentária, com apenas 32,3% dos idosos em uso, contrastando com uma necessidade clínica expressiva (96,9%), o que revela importante lacuna assistencial. Esses achados indicam um modelo de atenção historicamente centrado na extração dentária, com insuficiente oferta de cuidado integral, preventivo e reabilitador. Tal cenário dialoga com as desigualdades estruturais que afetam a população negra no Brasil, evidenciando barreiras no acesso, na continuidade do cuidado e na implementação de políticas públicas voltadas à equidade.
Conclusões/Considerações Finais
As condições de saúde bucal observadas evidenciam iniquidades marcadas pelo acúmulo de perdas dentárias, baixa cobertura de reabilização protética e persistência de demandas de tratamento não atendidas. Esses achados refletem a atuação de determinantes sociais e raciais na produção das desigualdades em saúde, reforçando a necessidade de fortalecimento da atenção primária à saúde com enfoque na equidade, ampliação do acesso e qualificação das práticas de cuidado. Destaca-se a importância da implementação efetiva da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e do desenvolvimento de estratégias territorializadas e culturalmente sensíveis, capazes de promover cuidado integral e reduzir as desigualdades em saúde.
KO SÌ ÀRÙN — TERREIROS E SUS : LEGITIMAÇÃO DOS SABERES AFROCENTRADOS, DIÁLOGOS E ENFRENTAMENTO DO RACISMO INSTITUCIONAL NA APS
Comunicação Oral
1 UFRB
Apresentação/Introdução
Esta pesquisa investigou como as comunidades tradicionais de terreiro em Santo Antônio de Jesus-BA se relacionam com o Sistema Único de Saúde (SUS), tendo como eixo a expressão yorubá “Ko Sì Àrùn” (“que não haja doenças”), através da valorização entre práticas de saúde de matriz africana e o SUS, observando em que medida o racismo institucional afeta o cuidado integral da população negra, considerando a potência de seus saberes tradicionais para uma prática de cuidado integral. Este texto se ancora na escuta de saberes ancestrais que se perpetuam pela oralidade, algo descrito como “biblioteca de bocas”.
Ademais, a tradição africana conserva sua história, curas e ensinamentos na voz de quem transmite e no ato de quem recebe, pois muito embora tenha havido um esforço sistemático de apagamento desses saberes durante a escravização e no período pós-colonial, eles se mantiveram vivos como formas de resistência.
Sabendo que o recôncavo baiano é um território majoritariamente negro, e, tendo em vista o processo de escravização no Brasil, este estudo volta-se ao município de Santo Antônio de Jesus, na Bahia, analisando a dinâmica político-social que envolve tanto os profissionais de saúde quanto as lideranças de terreiro.
Objetivos
O objetivo geral foi compreender os desafios e possibilidades de articulação entre terreiros e serviços públicos de saúde na Atenção Primária à Saúde (APS), investigar de que maneira o racismo afeta o acesso das comunidades tradicionais de terreiro ao Sistema Único de Saúde (SUS), considerando a potência de seus saberes tradicionais para uma prática de cuidado integral. O estudo volta-se ao município de Santo Antônio de Jesus, na Bahia, analisando a dinâmica político-social que envolve tanto os profissionais de saúde quanto as lideranças de terreiro.
Objetivos específicos; analisar as práticas terapêuticas afrocentradas; compreender como ocorre o acesso das comunidades ao SUS e a aplicabilidade da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) nas unidades básicas de saúde (UBS).
Metodologia
Metodologicamente, adotou-se uma pesquisa de natureza qualitativa e exploratória, com revisão bibliográfica e análise de documentos oficiais, ancorada na abordagem teórica decolonial. Através da compreensão de como ocorre o acesso das comunidades tradicionais de Candomblé ao Sistema Único de Saúde (SUS) no município de Santo Antônio de Jesus (BA) e se há efetiva interlocução entre essas comunidades e as políticas públicas de saúde. Optou-se por uma revisão bibliográfica para reunir referenciais teóricos sobre as práticas de cura afro-brasileiras e a forma como o SUS lida com esses conhecimentos. Foram investigados possíveis encontros e tensões entre a medicina biomédica dominante e as epistemologias de matriz africana, analisando ações estatais direcionadas à resolução das demandas de saúde das comunidades de terreiro. As buscas bibliográficas foram realizadas em SciELO, Bireme e Portal de Periódicos CAPES (2009-2024), empregando descritores como “conhecimentos tradicionais”, “saúde da população negra”, “SUS” e “comunidades tradicionais deterreiro”. Priorizaram-se estudos com foco no diálogo SUS-terreiro, incluindo análises decoloniais e de enfrentamento ao racismo estrutural. Artigos sem conexão direta com as religiões afro-brasileiras foram excluídos. Em seguida, as publicações foram categorizadas em eixos temáticos, como adoecimento, barreiras de acesso, relações com o poder público e desigualdades raciais em políticas de saúde.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que, apesar de avanços formais, persistem barreiras institucionais, reforçadas pelo racismo religioso, que dificultam a legitimação dos saberes de terreiro no ambiente biomédico. Conclui-se que o diálogo intercultural e a formação antirracista de profissionais de saúde são essenciais para promover a saúde integral, valorizando práticas ancestrais, combatendo estigmas e assegurando o direito à saúde das populações tradicionais de matriz africana. As práticas de cuidado nos terreiros abrangem o bori, que organiza a “cabeça”do sujeito; folhas sagradas, cujos princípios ativos se unem a conteúdos simbólicos; convivência comunitária e crenças em orixás (10). Diferentemente de um consultório isolado, a “família de santo” envolve redes de sociabilidade. Fernandes (33) aponta que esse modelo de acolhimento guarda semelhanças com princípios de humanização do SUS, embora não seja oficialmente registrado. Propõe-se, então, a adoção de protocolos que considerem o terreiro como “território de saúde”
Conclusões/Considerações Finais
Em síntese, Ko Sì Àrun condensa uma esperança de saúde integral, mas esbarra em obstáculos decorrentes do racismo religioso e estrutural. Politicamente, requer maior inclusão das vozes afrodescendentes nos conselhos de saúde, adoção de indicadores de raça/cor e formação antirracista de equipes. Ainda que muitas vezes ignoradas, as comunidades de terreiro seguem preservando sua ancestralidade e interpelando o poder
público por condições dignas de vida e atendimento.
NA PELE DO OUTRO: CAMINHOS PARA O ENFRENTAMENTO DO RACISMO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ
Contextualização
A Atenção Primária à Saúde (APS) configura-se como principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), constituindo-se como um espaço estratégico para o estreitamento de vínculos entre profissionais e usuários, bem como para a promoção da equidade e integridade do cuidado. Contudo, embora fundamentada nesses princípios, persistem desigualdades raciais que prejudicam o acesso e a qualidade do atendimento à população negra, culminando na fragmentação da linha de cuidado proposta pelo SUS.
Nesse contexto, faz-se necessária a realização de tensionamentos que favoreçam a reflexão crítica sobre as práticas em saúde, fortalecendo o compromisso ético-político dos trabalhadores com condutas mais equânimes, sensíveis às diferentes realidades dos usuários e comprometidas com a garantia do direito à saúde, à justiça social e ao enfrentamento do racismo institucional.
Descrição
A intervenção foi desenvolvida a partir de demandas da gestão da APS após a ocorrência de relatos de situações de racismo no cotidiano da equipe, tanto nas relações entre profissionais quanto no atendimento aos usuários. Nessa perspectiva, foi elaborada a dinâmica intitulada “Na Pele do Outro” estruturada em quatro momentos: acolhimento, vivência, debate e fechamento.
No momento do acolhimento, realizou-se uma introdução acerca da importância do reconhecimento dos impactos do racismo no SUS, bem como as múltiplas complexidades vivenciadas pela população negra no processo saúde-doença. Em seguida, na etapa de vivência, foram distribuídas situações-problema em papéis, representando perfis de usuários negros marcados por diferentes determinantes sociais, como gênero, classe e território.
Durante o momento do debate, foi estimulada a análise crítica sobre como esses sujeitos experienciam o acesso aos serviços de saúde, quais as barreiras enfrentadas e quais as estratégias que poderiam ser desenvolvidas pela APS para favorecer o ingresso e a permanência desses usuários no SUS. As falas foram sistematizadas em palavras-chave como medo, invisibilidade, julgamento e respeito. Posteriormente, realizou-se uma roda de conversa orientada por questões disparadoras, possibilitando o compartilhamento de experiências vivenciadas no cotidiano profissional.
Por fim, no fechamento, os profissionais registraram compromissos individuais voltados à promoção da equidade no cuidado, que foram expostos em um mural coletivo na unidade.
Período de Realização
O relato de experiência foi desenvolvido no mês de julho de 2025, na UBS de Viana, localizada no município de Camaragibe, Pernambuco.
Objetivo
O objetivo foi promover uma ação de Educação Permanente em Saúde voltada à reflexão sobre as práticas de cuidado desenvolvidas pelos profissionais da Equipe de Saúde da Família (ESF) do território, considerando os atravessamentos do racismo e dos diferentes contextos sociais que incidem sobre a população negra no Brasil, ancorada nas discussões sobre interseccionalidade e racismo institucional.
Resultados
A atividade possibilitou a ampliação da compreensão acerca da urgência de discutir o racismo como um mecanismo estruturante de exclusão no SUS, evidenciando como sentimentos como receio, não pertencimento e invisibilização podem compor a experiência da população negra ao acessar determinados serviços ofertados pelo Estado. Os profissionais reconheceram que práticas discriminatórias, mesmo quando não intencionais, podem reforçar estereótipos e contribuir para a marginalização de indivíduos no cuidado em saúde.
Além disso, observou-se significativo envolvimento da ESF nos momentos de discussões, com construção de aprofundamentos críticos sobre o processo do trabalho na APS e a importância do seu alinhamento com a promoção da equidade e combate ao racismo, por meio da escuta qualificada e do acolhimento sensível e contextualizado.
Evidenciaram-se, ainda, falas e posicionamentos problemáticos no cotidiano relacional da própria equipe, nos quais determinados comportamentos eram naturalizados e legitimados sob a justificativa de descontração. Tal reconhecimento possibilitou a problematização dessas práticas, evidenciando como atitudes aparentemente inofensivas podem reproduzir desigualdades e comprometer a construção de um ambiente de trabalho ético, respeitoso e comprometido com os princípios do SUS.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência demonstrou o potencial da realização de metodologias participativas no âmbito da Educação Permanente em Saúde, especialmente na abordagem de temáticas historicamente silenciadas, como o racismo. Entretanto, faz-se necessário entender que ações pontuais são limitantes, sendo imprescindível que o enfrentamento das desigualdades raciais esteja ancorado em um compromisso institucional contínuo, estruturado e transversal, com a incorporação de práticas antirracistas no cotidiano dos serviços, qualificação permanente dos profissionais e o fortalecimento de políticas públicas efetivamente comprometidas com a promoção da equidade no SUS.
O ALIMENTO COMO PROMOÇÃO DA SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA E A INSTERSECCIONALIDADE COM A AGROECOLOGIA
Comunicação Oral
1 VPAAPS/FIOCRUZ
2 CGSAT/MS
3 FIOCRUZ CE
Contextualização
A alimentação saudável é um direito de todas as pessoas. Qualquer cidadão deve ter direito a comida e a comer alimentos que lhe concedam vida e saúde. Desta forma, este estudo visou discutir o alimento como instrumento de promoção da saúde da população negra, em sua maioria, segundo o último estudo do FBSSAN, que vive em situação de vulnerabilidade. Paralelamente discutiremos como os processos agroecológicos geram saúde. Não essa saúde de ausência de doença, mas em toda sua amplitude, iniciando no direito a alimentação saudável, perpassando ao direito amplo do que é ter uma vida digna, até chegar nos impactos que esta população levará para o Sistema Único de Saúde, com doenças pré-existentes e a influência de uma má alimentação. Neste caso, especificamente num território vulnerabilizado, uma comunidade no Rio de Janeiro, onde, em sua maioria, é negra.
Descrição
A Serra da Misericórdia, parte do Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, Brasil, é uma das áreas mais afetadas pelos altos índices de violência na capital. A história deste local é marcada por inúmeras violências que infelizmente fazem parte da rotina da comunidade. Assim, esta experiência fala não apenas de agricultura, mas de um projeto político de vida, onde a agroecologia é uma ferramenta de resistência para quem ali vive.
Em meio a todas as vulnerabilidades do complexo de favelas da Penha e sua violência, é o CEM – Centro de Educação Multicultural Aliança pela Misericórdia – uma organização não governamental que tem como missão intervir em questões socioambientais, artísticas e culturais. É importante ressaltar a educação permanente em saúde e a formação, focada nas interseccionalidades e no avanço das práticas e do conhecimento, reconhecendo as desigualdades de raça e combatendo-as. Desta forma traremos a aproximação entre a agroecologia e a saúde como eixo principal de reflexão, mas atravessada pela discussão do racismo ambiental, porque mesmo que a agroecologia esteja envolvida na promoção da saúde humana e do ambiente, para subsidiar a construção de políticas públicas essa pauta – racismo ou o antirracismo, em todas as suas dimensões, precisa alcançar outros patamares.
Período de Realização
Esta experiência é fruto da dissertação, realizada entre os anos de 2020 a 2022.
Objetivo
Promover a saúde da população negra e o direito de conquistá-la através de uma alimentação saudável, debatendo as diversas violências do racismo no processo de determinação social da saúde, as lutas desde a historicidade do racismo estrutural, além da análise do racismo ambiental e seus impactos à saúde da população negra.
Resultados
Historicamente, o racismo está em conformidade com as nossas relações econômicas, políticas, sociais etc. Dialogando com a noção de determinação social do processo saúde-doença, entendemos que incide diretamente nas condições de vida da saúde da população negra, à luz da escravidão, estando esta em desvantagem, se comparada a outros grupos populacionais. As desigualdades raciais são evidenciadas em vários estudos, com inúmeros indicadores, que poderão trilhar para outras pautas paralelas como a violência, uma vez que a fome é uma forma de violência e, trazendo à tona a percepção social sobre os como os corpos negros são lidos.
Aprendizado e Análise Crítica
Se olharmos a questão da alimentação, vai além das biológicas, é também um processo ambiental, assim como um ato social e cultural. A produção de alimentos é essencial para garantir a vida na terra e a soberania dos povos. O direito à alimentação saudável é o que nos concede uma vida com saúde. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo 11 do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1999), mostra que essa alimentação intitulada como “adequada” não pode ser relacionada somente à quantidade, mas também à qualidade dos alimentos, isentos de substâncias químicas, garantindo que esses alimentos sejam seguros e de qualidade.
Quando paramos para refletir as questões dos sistemas agroalimentares, é importante considerarmos o processo de forma ampliada, relacionando a saúde humana, a saúde ambiental, as mudanças climáticas e os aspectos sociais, políticos e econômicos. Quando os riscos à saúde são vistos de forma geral, numa escala globalizada, em todo o sistema agroalimentar, conseguiremos analisar as prioridades, as fragilidades que servem de base para esse sistema.
O ato de se alimentar, pode se dizer, é um dos mais complexos na vida da sociedade, porque reflete os costumes, as práticas alimentares, a cultura, o acesso aos alimentos. O alimento nos remete à consciência de quem realmente somos. Ele nos leva a memórias afetivas, à nossa relação com a terra, com a nossa ancestralidade, com o nosso ser.
O POVO NEGRO DA AMAZÔNIA: INVISIBILIZAÇÃO HISTÓRICA, RACISMO E OS DESAFIOS PARA A IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS DE SAÚDE NO AMAZONAS
Comunicação Oral
1 Fiocruz Amazônia
2 ENSP/Fiocruz
Apresentação/Introdução
A contribuição social, cultural e econômica da população negra (preta e parda) para a constituição da Amazônia tem sido historicamente minimizada por narrativas que silenciam sua presença e legados, e apresentam especificidades que precisam ser evidenciadas. No estado do Amazonas, paira no imaginário coletivo a percepção de uma "ausência negra", que pode ser fruto de uma construção social deliberada que remonta ao período colonial. Munanga (2012) alerta que a destruição da consciência histórica é estratégica para regimes de dominação, pois rompe vínculos de pertencimento e resistência. Este trabalho argumenta que tal invisibilização não é um acaso demográfico, mas um domínio estrutural que pode repercutir diretamente em iniquidades em saúde e na subimplementação de políticas públicas, como a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) no estado do Amazonas. Particularmente também ressaltamos que a construção da categoria pardo, no Amazonas, também se consolidou para apagamento das identidades Indígenas.
Objetivos
Analisar o processo histórico de invisibilização da população negra no Amazonas e discutir como esse apagamento sistemático atua como barreira para o reconhecimento de iniquidades raciais e para a efetivação de direitos à saúde na região.
Metodologia
Trata-se de um relato de pesquisa de cunho qualitativo, baseado em uma revisão crítica de literatura historiográfica e sociológica sobre a presença negra no Amazonas (com foco em Manaus) e em dados demográficos contemporâneos. A análise tensiona autores clássicos (Reis, 1989; Salles, 1971) e contemporâneos (Alves-Melo, 2021; Gomes, 2022) sob a luz da interseccionalidade de Collins e Bilge (2020), buscando compreender a engrenagem entre raça, território, economia e saúde.
Resultados e Discussão
A análise evidencia que o silenciamento negro no Amazonas foi justificado por um viés economicista: a preferência colonial pela servidão indígena, considerada mais "adequada" ao extrativismo, relegou o elemento africano ao papel de "acessório". Arthur Reis (1989) consolidou a tese de que a região "dispensava a energia dos africanos", narrativa que ocultou a presença de milhares de escravizados e a resistência expressa em mocambos e quilombos. Contrariando o mito da inexistência, os dados do Censo 2022 (IBGE) revelam que 70,5% da população do Amazonas se autodeclara preta ou parda. No entanto, a fusão de raças representada pela figura do "caboclo" e o mito da democracia racial funcionaram como dispositivos de apagamento da identidade negra. Ressaltamos as estratégias institucionais que incluíram a população Indígena na categoria parda, inclusive em registros da FUNAI. Supõe-se que a invisibilização possa ser mais um dos desafios para a implementação da PNSIPN no estado: se o público-alvo não se reconhece devido ao estigma ou ao silenciamento histórico, a demanda por políticas de equidade é enfraquecida. A pesquisa sinaliza que territórios de resistência, como o Mocambo do Arari e comunidades quilombolas certificadas recentemente, são fundamentais para o "enegrecimento" da identidade amazônica. Nestes locais, a saúde é indissociável do território, mas as iniquidades persistem devido à distância geográfica e ao racismo institucional que negligencia as especificidades do "campo e da floresta".
Conclusões/Considerações Finais
A invisibilidade da população negra no Amazonas é uma forma de domínio que produz opacidade nos dados e inércia nas ações públicas, e suas especificidades, como o cruzamento com os processos de apagamento da identidade Indígena, precisam ser considerados. Conclui-se que o fortalecimento de uma identidade negra positiva e o resgate da memória são pré-requisitos para a implementação da PNSIPN na região. A desconstrução do "imaginário de ausência" é urgente para que o SUS amazônico deixe de reproduzir o protagonismo branco institucional e passe a acolher a diversidade e os saberes ancestrais do povo negro e Indígena da Amazônia.
VOZES E DADOS: MOBILIZAÇÕES, MEMÓRIA E A LUTA POR EQUIDADE RACIAL NO SUS
Comunicação Oral
1 FSP/USP
Contextualização
O projeto “Vozes e Dados: Contribuindo para a equidade racial em saúde através da divulgação científica” insere-se no enfrentamento das iniquidades, articulando a valorização do conhecimento científico à preservação da memória das lutas dos movimentos negros no campo da saúde. Foi desenvolvida a intervenção artística “Saúde da População Negra” como estratégia de comunicação pública e de problematização crítica, realizada em parceria com o Centro de Memória e a Biblioteca da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP).
Descrição
Estruturou-se em três núcleos: (i) painel com linha do tempo (1978–2024), destacando mobilizações sociais, campanhas e marcos legislativos; (ii) painel dedicado à Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (Portaria nº 992/2009), incluindo dados sobre sua implementação nos municípios brasileiros; e (iii) mesa expositiva com obras do acervo da biblioteca, acompanhadas de QR code para acesso a uma biblioteca digital organizada pelo projeto. A exposição também circulou em eventos como o Congresso Paulista de Saúde Pública, ampliando seu alcance e promovendo interações diretas com trabalhadores da rede de saúde.
Período de Realização
Outubro/Novembro de 2025.
Objetivo
Promover intervenções nos espaços da faculdade que contribua para a preservação da memória das mobilizações e das conquistas políticas da população negra frente ao racismo estrutural em saúde no Brasil.
Resultados
Essas intervenções favoreceram construção de vínculos, troca de experiências e reflexões sobre os desafios da implementação da Política em contextos locais, fortalecendo sua inserção junto a coletivos e movimentos sociais. A recepção do público evidenciou elevado engajamento, com circulação nas redes sociais e retorno qualitativo, especialmente quanto à necessidade de ampliar a exposição em outros territórios e serviços de saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia o potencial das linguagens expositivas na tradução e na circulação de evidências científicas, bem como na ativação de memórias políticas frequentemente invisibilizadas, para a promoção da equidade racial em saúde e aproximação entre universidade, serviços e movimentos sociais. Ao mesmo tempo, explicita limites relacionados à capilaridade e sustentabilidade, indicando necessidade de institucionalização de estratégias de comunicação que articulem ensino, pesquisa e extensão.
Realização: