Programa - Comunicação Oral Curta - COC24.2 - Vidas em movimento: trabalho, identidades e reconstrução de pertencimentos
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
BRASILEIRAS MIGRANTES NO TRABALHO INFORMAL DE CUIDADO EM PORTUGAL: INTERSECCIONALIDADES, VULNERABILIZAÇÕES E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO
Comunicação Oral Curta
1 CLAVES/ENSP/Fiocruz
Apresentação/Introdução
Este trabalho apresenta reflexões iniciais de uma pesquisa de doutorado que investiga o trabalho informal de cuidado realizado por mulheres brasileiras migrantes em Portugal, com foco nas repercussões desse contexto em suas condições de vida e saúde. A proposta parte de uma perspectiva interseccional e decolonial para compreender como gênero, raça, classe, nacionalidade e status migratório se articulam na produção de vulnerabilizações. Considera-se que a inserção dessas mulheres em atividades de cuidado no Norte Global se relaciona às continuidades históricas da divisão racial e sexual do trabalho, articuladas às dinâmicas contemporâneas do capitalismo global e às heranças da colonialidade.
Objetivos
Analisar as condições de vida e trabalho de mulheres brasileiras migrantes inseridas no trabalho informal de cuidado em Portugal, bem como as repercussões desse contexto em sua saúde, identificando também as estratégias de enfrentamento e resistência elaboradas no cotidiano.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, orientada pela cartografia interseccional como perspectiva teórico-metodológica. O estudo prevê a realização de revisão bibliográfica e trabalho de campo com mulheres brasileiras migrantes, por meio de entrevistas em profundidade e inserção em espaços de sociabilidade e trabalho. A produção dos dados será acompanhada por registros cartográficos que consideram os afetos, encontros e processos emergentes no campo. A análise será conduzida a partir da análise de conteúdo temática, articulada à interseccionalidade como ferramenta analítica.
Resultados e Discussão
Resultados preliminares, provenientes da revisão de literatura, indicam que mulheres brasileiras migrantes em países do Norte Global tendem a se inserir majoritariamente no trabalho informal de cuidado, em condições marcadas pela precarização, ausência de direitos trabalhistas e exposição a múltiplas formas de violência. Observa-se que essas experiências são atravessadas por estereótipos racializados e de gênero que associam as brasileiras à hipersexualização e à naturalização do cuidado. Ao mesmo tempo, emergem estratégias de enfrentamento que incluem a construção de redes de apoio, coletivos e formas de organização que tensionam essas condições. Tais achados apontam para a necessidade de compreender o trabalho de cuidado no contexto migratório como parte das cadeias globais de cuidado, atravessadas por relações históricas entre Sul e Norte Global.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa evidencia que o trabalho informal de cuidado realizado por brasileiras em Portugal se configura como um espaço simultâneo de exploração e resistência. Ao articular uma abordagem interseccional e decolonial, o estudo contribui para o campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde ao problematizar as desigualdades globais que estruturam a migração feminina e ao valorizar as experiências e saberes produzidos por essas mulheres. Espera-se que os resultados possam subsidiar reflexões críticas e a construção de políticas públicas mais sensíveis às demandas de mulheres migrantes.
CORPOS RIBEIRINHOS ESTUDANTIS QUE ESCAPAM, DESLIZAM, SE MOVEM E MIGRAM COM AS ÁGUAS DO TERRITÓRIO LÍQUIDO DA AMAZÔNIA BRASILEIRA
Comunicação Oral Curta
1 UFRN
2 UFAM
Apresentação/Introdução
Introdução. Este trabalho, proposto ao Coletivo Temático “Saúde, migração e fronteiras: deslocamentos forçados, territórios e desigualdades”, deriva de uma pesquisa de doutorado em curso, que tem como objetivo analisar as mobilidades, deslocamentos, trajetórias e redes vivas de cuidado presentes nas experiências de migração de estudantes universitários que se deslocam de comunidades ribeirinhas do estado do Amazonas para estudar a graduação em Manaus. Para esse Relato de Pesquisa, fizemos um recorte sobre os diferentes deslocamentos dos estudantes ribeirinhos, focando nos rios e suas águas como fluxos que possibilitam o acesso à Educação. Para os povos das águas e da floresta, historicamente o acesso às políticas públicas, incluindo a Educação, se mostraram e se mostram desiguais. Assim, estudantes ribeirinhos no “longe muito longe” dos lagos, igarapés, furos e igapós dos rios amazônicos, precisam imprimir longas e desafiantes travessias, trajetórias, deslocamentos, verdadeiras diásporas de suas comunidades ribeirinhas para as cidades, lugares estes, que concentram a maioria das Instituições de Ensino Superior (IES). Ao buscarmos olhar para as presenças, para as alianças afetivas, para as potências (Krenak, 2022) das Amazônias, sem negar as dificuldades desse território e das pessoas que nele vivem, temos a seguinte questão problematizadora e norteadora dessa escrita: Como os rios e suas águas que, formam um território líquido, se apresentam nas trajetórias e deslocamentos de estudantes ribeirinhos no estado do Amazonas? Desse modo, este trabalho tem como objetivo analisar os caminhos de águas percorridos por esses estudantes ribeirinhos em busca de acesso à Educação. Para nos nortearmos epistemologicamente, tomamos como intercessores conceitos como territórios líquidos (Martins et al., 2022; ribeirinho (Nahum & Ferreira, 2019), alianças afetivas (Krenak, 2022), confluências (Bispo dos Santos, 2023), nomadismo, processos de subjetivação, cartografia (Deleuze & Guattari, 2011; Passos & Barros, 2015) no campo da Filosofia da Diferença e dos estudos decoloniais e contracoloniais.
Objetivos
Desse modo, este trabalho tem como objetivo analisar os caminhos de águas percorridos por esses estudantes ribeirinhos em busca de acesso à Educação.
Metodologia
Percurso metodológico. Trata-se de uma pesquisa-intervenção a partir do método cartográfico como dispositivo para rastreamento e acompanhamento de acontecimentos, afetos, encontros, narrativas (Passos e Barros, 2015) que serviram de linhas analisadoras para os caminhos de águas percorridos pelos estudantes ribeirinhos até acessarem o ensino superior. Analisou-se os deslocamentos de três estudantes de diferentes comunidades ribeirinhas de municípios do estado do Amazonas, que precisaram migrar para estudar em Manaus/AM. Com cada estudante realizou-se 4 encontros individuais e 4 coletivos que se deram em diferentes lugares da cidade de Manaus entre os meses de abril a agosto de 2025. O percurso cartográfico foi composto de diferentes ferramentas como estudante-guia, entrevistas cartográficas, mapas falantes, caminhadas pela cidade, registros fotográficos, consultas em fontes secundárias e diário cartográfico, constituindo uma caixa-ferramenta rizomática para a pesquisa.
Resultados e Discussão
Resultados e discussão. Dentre os diferentes deslocamentos e caminhos feitos pelos estudantes, apareceram com mais frequência os seguintes: deslocamento de uma comunidade para uma localidade; deslocamento entre duas ou mais comunidades; deslocamento da comunidade para a Sede Administrativa do município; deslocamento da comunidade ribeirinha para a cidade. A partir desses deslocamentos, puxamos aqui apenas uma linha analisadora do emaranhado que emergiu do material produzido: rios e águas como presença e confluência nas trajetórias e deslocamentos, fluxos que facilitam o acesso à Educação de estudantes ribeirinhos. Nesses deslocamentos, trajetórias e mobilidades, o líquido dos rios e das águas se apresentam como sendo fluxos, linhas que aproximam esses estudantes às políticas públicas educacionais, encurtando as distâncias amazônicas, conectando os serviços. As águas contornam, furam, abrem passagem no sólido que muitas vezes é usado como justificativa para que as políticas públicas não cheguem às comunidades. As águas não devem ser tomadas como um elemento que dificulta o acesso, pelo contrário, elas precisam ser compreendidas como caminhos de possibilidades, de produção de acesso e de vida.
Conclusões/Considerações Finais
Considerações finais. Essa linha puxada das análises, aponta a importância das águas nas trajetórias e processos migratórios de estudantes ribeirinhos. A água não é somente um elemento da natureza a ser usado, de onde tiram o alimento para o consumo, mas como um território líquido que pode garantir direitos, acesso às políticas públicas, diminuir desigualdades e afirmar a vida.
FUTEBOL, INTEGRAÇÃO E CONTRADIÇÕES: O ESPORTE COMO DISPOSITIVO SOCIAL NA EXPERIÊNCIA DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE REFÚGIO NO BRASIL.
Comunicação Oral Curta
1 USP
Apresentação/Introdução
O aumento dos fluxos migratórios contemporâneos têm intensificado os desafios relacionados à integração social de refugiados, especialmente em países do Sul Global, como o Brasil. Nesse cenário, estratégias que extrapolam abordagens institucionais tradicionais tornam-se centrais para compreender os processos de inserção social.
Objetivos
Analisar o papel do futebol como dispositivo social de integração de pessoas em situação de refúgio, a partir da perspectiva dos próprios sujeitos.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo descritivo, com análise temática reflexiva, conduzido por meio de entrevistas semiestruturadas com 12 pessoas em situação de refúgio e solicitantes de refúgio residentes na cidade de São Paulo, vinculados a organizações da sociedade civil. A análise foi orientada pelo modelo conceitual de integração de Ager e Strang, com ênfase nos domínios de conexão social. Foram convidadas a participar do estudo pessoas em situação de refúgio e requerentes de asilo, adultos, do sexo masculino, praticantes e não praticantes de futebol e que tinham contato com as ONGs PDMIG (África do Coração) e Instituto ADUS. Dentro de um roteiro pré-estabelecido, foram feitas entrevistas semiestruturadas que permitiram um discurso livre, mas sem ultrapassar o objetivo do estudo. Estas entrevistas permitiram o mapeamento de ações, crenças, valores e sistemas classificatórios de universos sociais intrínsecos, onde conflitos não estejam evidentemente esclarecidos.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam o futebol como um importante mediador de integração, operando na produção de laços, pontes e vínculos sociais. Entre seus principais efeitos, destacam-se o favorecimento do aprendizado da língua portuguesa, a promoção do intercâmbio cultural, a ampliação da visibilidade das trajetórias migratórias e a construção de redes de sociabilidade e apoio. O futebol também emerge como espaço relevante de lazer e bem-estar, contribuindo para a reconfiguração do cotidiano desses sujeitos. No entanto, os achados revelam uma dimensão ambivalente: o mesmo espaço que promove integração também explicita desigualdades, ao evidenciar experiências de racismo, discriminação e exclusão, além de barreiras estruturais relacionadas ao acesso, como ausência de políticas e programas esportivos, limitações logísticas e precariedade de infraestrutura.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que o futebol atua como um potente dispositivo de conexão social, mas sua capacidade integradora não é intrínseca nem suficiente por si só. Sua efetividade depende de condições sociais, institucionais e políticas que garantam acesso equitativo e ambientes inclusivos. Os resultados apontam para a necessidade de articulação entre políticas públicas, organizações da sociedade civil e instituições acadêmicas, de modo a reconhecer o esporte não apenas como prática de lazer, mas como estratégia relevante na promoção da integração social de populações em situação de refúgio.
IDENTIDADE, ARTE E CULTURA: UM ESTUDO SOBRE A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE E DA CULTURA DE MULHERES MIGRANTES VENEZUELANAS PELA EXPRESSÃO DA ARTE EM CAMPO GRANDE/MS
Comunicação Oral Curta
1 UCDB
Apresentação/Introdução
Os sistemas políticos da América Latina tiveram e/ou ainda têm em seu histórico um passado colonial, passando por diversos modelos e regimes autoritários marcados por contextos de violência, repressão, ditaduras e subjugação. A Venezuela, enquanto um dos países que constitui esse bloco, constitui-se como exemplo dessa realidade.
Tais questões impactam as estruturas sociais, afetando o acesso a direitos, saúde, autonomia e segurança, que impulsionam o processo migratório, especialmente pela sua feminização. Esta configura-se como movimento de resistência, no qual as mulheres migram sozinhas ou com os filhos em busca de sobrevivência, dignidade e emancipação.
Diante da crítica marxista à luta de classes e do patriarcalismo que oprime as mulheres, este estudo, no campo da psicologia, volta-se à constituição da identidade e cultura das mulheres migrantes. Entende-se que a identidade constrói-se ao longo da vida e é diretamente impactada pelo deslocamento para contextos culturais diferentes.
Frente a essas barreiras, cresce o fluxo migratório na América Latina, com a Venezuela como principal origem de mulheres rumo ao Brasil. Elas buscam melhores condições de vida e valorização de seu eu. Assim, este trabalho propõe compreender a constituição da identidade e da cultura por meio da expressão artística de mulheres migrantes venezuelanas em Campo Grande/MS.
Objetivos
Estudar e compreender a constituição da identidade e da cultura por meio da expressão artística de mulheres migrantes venezuelanas em Campo Grande/MS, bem como as diferenças e similaridades entre as culturas brasileira e venezuelana, além de acolher sua trajetória até Campo-Grande MS.
Metodologia
A pesquisa combina estudo bibliográfico e pesquisa de campo, articulando teoria e prática. O trabalho de campo realiza-se na ONG “Projeto Nova-Transforma”, às sextas-feiras, por meio de rodas de conversa baseadas em metodologia participativa e método dialético.
Trata-se de pesquisa qualitativa participativa, que privilegia histórias orais, vivências e experiências das mulheres, sem uso de formulários. O método histórico-dialético permite a interpretação dos fenômenos sociais pela materialidade da vida social. Utilizam-se artesanatos como expressão alternativa para que as mulheres expressem histórias, valores, cultura e identidade. Termos de consentimento são assinados pelas participantes, pois realizam-se registros em áudio e fotografia para diários de campo, transcrições e produção científica.
Resultados e Discussão
Por mais que seja um grupo, cada mulher vivenciou os desafios da migração com singularidade e subjetividade. Por ser um grupo fixo, permitiu-se criar laços de acolhimento, troca de saberes e movimento de resistência.
Percebe-se que a identidade constitui-se pela prática, conforme Ciampa (1989, p. 64): “Somos nossas ações, nos fazemos pela prática”. Além disso, no fluxo migratório feminino, enfrentam perigos, precariedade de saúde e alimentação, violência e dificuldade de compartilhar subjetividades sem transfigurar o seu eu.
Nas rodas de conversa, falas e artesanatos revelam esse espaço, livre de julgamentos, onde aprendem juntas e constroem saberes. Vigotski (1997, p. 106, apud Pino, 2000, p. 53) define cultura como produto da vida e atividade social. No contexto grupal, a arte gera dinâmica de relações sociais, partilha e criação cultural.
A metodologia participativa, fundamentada no Materialismo Histórico e Dialético, favoreceu o compartilhamento de subjetividades, identificação mútua, rede de apoio e resistência. As mulheres expressaram seu ser por meio de cores, formas, tecidos e falas, construindo transformação, acolhimento e resistência.
Conclusões/Considerações Finais
Por se tratar de uma pesquisa ainda em andamento, alguns aspectos estão em desenvolvimento. Entretanto, é muito valioso acompanhar o desenvolvimento dessas mulheres nessa etapa de suas vidas. E que, mesmo longe de seu país, casa e família, elas ainda os carregam consigo no plano simbólico, materializando a importância de tais aspectos em suas produções.
Por fim, este trabalho contribui para o campo do CSHS ao tratar não somente do processo migratório, mas também da feminização de tal processo, e que o seu crescimento na contemporaneidade representa um movimento de resistência, no qual elas lutam por direitos, valorização, segurança e emancipação, sem que haja a necessidade de transfigurar sua cultura e identidade, mas sim o seu acolhimento.
VIVÊNCIAS DE MULHERES VENEZUELANAS NO CONTEXTO DE MIGRAÇÃO FORÇADA PARA O MUNICÍPIO DE MANAUS/AMAZONAS-BRASIL: CAMINHOS DE RUPTURAS
Comunicação Oral Curta
1 Instituto Leônidas e Maria Deane - ILMD/FIOCRUZ
2 Instituto Leônidas e Maria Deane - ILMD/Fiocruz/Amazonas
3 Fiocruz/Ceará
Apresentação/Introdução
A presente pesquisa visou compreender as experiências de mulheres venezuelanas, que migraram forçadamente, considerando-se o rompimento de fronteiras físicas e psíquicas e os impactos emocionais causados aos indivíduos. Migrações engendradas na atual crise econômica, política e social enfrentada pelos venezuelanos.
Para abordar o tema e as respectivas conexões com o campo da saúde, definiu-se como objetivo geral do estudo: compreender as vivências de mulheres venezuelanas, no contexto de migração forçada, para a cidade de Manaus/AM, Brasil a partir de suas narrativas.
O estudo foi realizado com nove mulheres, uma parte abrigadas e outra participantes de projetos direcionados ao grupo feminino da Organização da Sociedade Civil Hermanitos.
Objetivos
Geral
Compreender as vivências de mulheres venezuelanas, no contexto de migração forçada, em Manaus/AM, Brasil a partir de suas narrativas.
Específicos
▪ Conhecer a história pessoal e migratória das participantes, a partir das narrativas;
▪ Entender as experiências de mulheres, durante o processo de rompimento de fronteiras físicas e emocionais;
▪ Identificar as estratégias individuais e coletivas de enfrentamento as barreiras relacionadas à comunicação e a identidade da mulher, em contexto de migração forçada.
Metodologia
De abordagem qualitativa, este estudo teve a narrativa como técnica e método de acesso aos relatos dessas mulheres. Tomando-se como referencial teórico utilizou-se a Síndrome de Ulisses, também conhecida como Síndrome do Migrante com Estresse Múltiplo, que é uma condição de saúde mental que afeta pessoas em processos de migração. Questões como rupturas espaciais e psíquicas, sofrimentos emocionais experienciados por número significativo de mulheres, que abarcaram medos, ansiedade, depressão, pânico, sentimentos de perdas, lutos, traumas, desamparo, isolamento e sintomas consistentes que implica a Síndrome de Ulisses também estão apresentadas na discussão.
Resultados e Discussão
Com base na análise das narrativas, evidenciou-se que o processo migratório promove transformações, nomeadamente mudanças psicológicas, ambientais, biológicas, sociais, culturais, familiares, políticas, implicando adaptação nas esferas citadas dessas indivíduos e das famílias, constituindo processo complexo, com consequências ao nível do desenvolvimento individual, familiar e socioprofissional, assim como da saúde física e mental.
Em consequência, essas mulheres plurais, ante a invisibilidade, em situações de enfrentamento do medo do novo e desconhecido, passaram a vivenciar sofrimento psíquico diante das experiências traumatizantes, das perdas e dos lutos inacabados, da solidão, do desamparo, impactando diretamente na saúde mental, ficando mais suscetíveis a desenvolverem sintomas de depressão, ansiedade e pânico.
Conclusões/Considerações Finais
Ao atingirmos a fase das considerações, alicerçado nas discussões e análises das narrativas das participantes, foi possível compreender a complexidade e a profundidade do sofrimento enfrentado pelas mulheres venezuelanas deste estudo e identificar os impactos psicológicos que circundam este processo migratório. A análise dos desafios enfrentados e a forma como elas vivenciaram a migração revelaram um cenário marcado pela vulnerabilidade diante das adversidades que emergiram no ato de migrar e evidenciaram, não apenas as dificuldades encontradas no processo migratório, como também os desafios e as implicações mais amplas para a sociedade que as recebe.
As narrativas delas ofereceram argumentos que comprovaram os impactos emocionais e mentais como resultado da migração forçada, o estudo apontou para necessidade mais aprofundada de uma compreensão entre a experiência de trauma, vivências anteriores a migração, apoio social e bem-estar psicológico.
Por fim, com o intuito de ajustar-se as rupturas internas e externas as quais foram desafiadas, elas lançaram mão de estratégias de adaptação as dificuldades no percurso migratório e a esperança de melhores condições de vida, demonstrando coragem e resiliência.
QUANDO O CUIDADO DEPENDE DA MEDIAÇÃO: A ATUAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE NAS ROTAS CRÍTICAS NO AMAZONAS
Comunicação Oral Curta
1 UEA
2 ENSP
3 ILMD
Apresentação/Introdução
A violência sexual contra meninas e mulheres é um problema de saúde pública e violação dos direitos, atravessada por desigualdades de gênero e outros marcadores sociais. Em regiões de fronteiras, tais violências se intensificam em contextos de profundas assimetrias, articulando-se a diferentes marcadores de opressão como gênero, raça, classe, etnia e status migratório. Tais condições produzem barreiras no acesso aos serviços, resultando em rotas críticas marcadas pela descontinuidade do cuidado. Nesse contexto, destaca-se a atuação das profissionais de saúde migrantes que atuam como mediadoras linguísticas e culturais, sob condições marcadas por limites estruturais, institucionais e sociais, construindo estratégias para garantir o atendimento.
Objetivos
Valorizar a atuação de profissionais de saúde no cuidado a meninas e mulheres em situação de violência sexual no Amazonas, com ênfase em seus papéis como mediadoras linguísticas e culturais e nas estratégias mobilizadas diante de limites institucionais e barreiras de acesso.
Metodologia
Trata-se de um recorte da dissertação de mestrado em Saúde Coletiva (PPGSC/UEA) de Heloísa Maria Martins Pérez, intitulada “Violência sexual contra meninas e mulheres nas fronteiras: um estudo sobre as rotas críticas no Amazonas”. A pesquisa vincula-se ao macroprojeto “Mulheres migrantes nas fronteiras brasileiras: interfaces entre saúde, violências e trabalho”, coordenado pela Profa. Dra. Cristiane Batista Andrade (CLAVES/ENSP/Fiocruz) e financiado pelo CNPq.
É uma pesquisa social qualitativa, em diálogo com perspectivas da Saúde Coletiva. Foi desenvolvida em dois cenários no Amazonas: na microrregião do Alto Solimões, em área de tríplice fronteira Brasil–Colômbia–Peru e em Manaus. Participaram três profissionais de saúde migrantes e selecionadas intencionalmente, em exercício durante a coleta.
A produção dos dados envolveu entrevistas semiestruturadas e registros em diário de campo, as quais foram transcritas e analisadas por meio da Análise Temática de Braun e Clarke, articulada ao referencial teórico adotado. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética, com garantia de anonimato e confidencialidade.
Resultados e Discussão
Evidenciou-se que a atuação das profissionais ocorre em contextos de escassez de recursos, instabilidade institucional e demandas complexas, com circulação entre serviços e acúmulo de funções. Em regiões de fronteiras, embora não fosse critério inicial da pesquisa, a presença de profissionais migrantes foi relevante, ao assumirem a mediação linguística e cultural e reconfigurarem a produção do cuidado, influenciando vínculos, fluxos e estratégias de acesso.
A comunicação efetiva configura-se como elemento estruturante das rotas críticas de meninas e mulheres em situação de violência sexual no Amazonas. Barreiras linguísticas dificultam não apenas o primeiro contato, mas todo o percurso, interferindo na compreensão das orientações, no funcionamento do sistema, na tomada de decisões e na continuidade do cuidado, especialmente em situações sensíveis como as relacionadas à saúde sexual e reprodutiva.
Por outro lado, a atuação dessas profissionais migrantes como mediadoras linguísticas e culturais constitui recurso fundamental para viabilizar o cuidado, favorecendo vínculos, escuta qualificada e a adesão às orientações. O compartilhamento do idioma e de referências culturais amplia a confiança e a circulação das usuárias nos serviços, operando como um diferencial no acesso e na permanência na rede.
Essa mediação evidencia tensões importantes. Embora o Sistema Único de Saúde, orientado pelo princípio da universalidade, garanta o acesso independentemente da nacionalidade, na prática ele nem sempre se efetiva de forma equânime. Ao depender de arranjos informais e de agentes específicos, o acesso de usuários estrangeiros torna-se seletivo.
O idioma, códigos culturais e o conhecimento do sistema deixam de ser aspectos periféricos e tornam-se dimensões estruturantes das experiências de cuidado e das possibilidades de exercício de direitos, evidenciando tensões entre a universalidade formal do sistema e suas condições concretas de efetivação.
Conclusões/Considerações Finais
Em contextos fronteiriços, o acesso de meninas e mulheres em situação de violência sexual aos serviços de saúde é frequentemente mediado por arranjos informais, sustentados pelo capital social e cultural de determinados agentes. Embora viabilizem o cuidado, essas mediações tornam o acesso seletivo, fragilizam sua continuidade e reforçam desigualdades, indicando que, no SUS, ele ainda depende, muitas vezes, de iniciativas individuais, e não de dispositivos institucionais.
Precisamos considerar o contexto social dessas usuárias, cujas trajetórias e referências influenciam suas percepções sobre a violência e o cuidado. Mais do que transmitir informações, deve-se garantir a compreensão de direitos, decisões informadas e acesso seguro aos serviços. Reforça-se, assim, a necessidade de estratégias institucionais que reduzam essa dependência e promovam maior equidade no cuidado.
REVISÃO DE ESCOPO: BARREIRAS E FACILITADORES NO ACESSO A ATENÇÃO À SAÚDE PARA POPULAÇÕES MIGRANTES E REFUGIADAS NO BRASIL
Comunicação Oral Curta
1 Universidade de Brasília
2 Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania
3 Ministério da Saúde
Apresentação/Introdução
As populações migrantes e refugiadas no Brasil são marcadas por diversidade de nacionalidades, raça/etnia, gênero e condições socioeconômicas, apresentando demandas específicas em saúde. Apesar de representarem cerca de 1% da população, seu crescimento está associado a crises econômicas, conflitos e mudanças climáticas. Essas populações são mais vulneráveis a agravos como tuberculose, HIV/Aids, doenças crônicas e sofrimento mental, frequentemente relacionados a condições precárias de vida e barreiras de acesso aos serviços de saúde. Nesse contexto, persistem desafios estruturais, comunicacionais e socioculturais que comprometem a equidade no acesso ao cuidado.
Objetivos
Mapear, na literatura científica, as principais barreiras e facilitadores no acesso aos serviços de saúde por populações migrantes e refugiadas no Brasil.
Metodologia
Trata-se de uma revisão de escopo, conduzida conforme a metodologia do Joanna Briggs Institute. A busca foi realizada em fevereiro de 2026 nas bases PubMed, LILACS (via BVS), EMBASE e Google Acadêmico, utilizando descritores relacionados a migrantes, acesso aos serviços de saúde e atenção à saúde. Foram incluídos estudos publicados entre 2017 e 2025, revisados por pares, sem restrição de idioma. Após triagem e leitura completa, 10 estudos foram selecionados. Os dados foram analisados de forma descritiva, com categorização das barreiras e facilitadores.
Resultados e Discussão
Os estudos incluídos (2019–2025) contemplaram 2.674 migrantes de diferentes origens, com predominância de mulheres, baixa renda e ensino médio completo. A Atenção Primária à Saúde (APS) destacou-se como principal porta de entrada, sendo utilizada para ações preventivas, vacinação e atendimento por demanda espontânea, além de serviços maternos, saúde mental e doenças infecciosas.
As barreiras ao acesso foram agrupadas em cinco categorias. As barreiras comunicacionais, especialmente relacionadas ao idioma, foram as mais frequentes, comprometendo o vínculo e a qualidade do cuidado. As barreiras socioculturais incluíram discriminação, preconceito, despreparo profissional e autoexclusão. As barreiras administrativas e legais envolveram desconhecimento de direitos, irregularidade documental e entraves burocráticos. Já as barreiras estruturais e organizacionais abrangeram limitações do sistema de saúde, como longas filas, dificuldades de acesso a especialistas e falhas na coordenação do cuidado. Por fim, barreiras individuais, como dificuldades de conciliar trabalho e atendimento, também foram identificadas.
Quanto aos facilitadores, destacaram-se fatores político-institucionais, como a garantia do acesso universal pelo SUS, independentemente do status migratório. Facilitadores comunicacionais incluíram estratégias de mediação intercultural, como a inserção de migrantes como agentes comunitários de saúde. Já os facilitadores relacionais envolveram a construção de vínculos, confiança nos serviços e atendimento humanizado, especialmente no âmbito da APS.
Conclusões/Considerações Finais
O acesso aos serviços de saúde por populações migrantes e refugiadas no Brasil ocorre de forma desigual, sendo influenciado por múltiplos fatores inter-relacionados. Embora o SUS assegure o direito universal à saúde, persistem barreiras que limitam sua efetivação. Por outro lado, estratégias como mediação intercultural, fortalecimento da APS e construção de vínculos mostram-se promissoras para a promoção da equidade. Investimentos em qualificação profissional, sensibilidade cultural e aprimoramento das políticas públicas são fundamentais para garantir um acesso mais inclusivo, integral e humanizado a essas populações.
SAÚDE, MIGRAÇÃO E FRONTEIRAS NA AMÉRICA LATINA: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA SOBRE RESPOSTAS HUMANITÁRIAS E DESIGUALDADES EM CONTEXTOS DE DESLOCAMENTO FORÇADO
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
Apresentação/Introdução
Os fluxos de migração forçada na América Latina têm se intensificado nas últimas décadas, produzindo impactos significativos nos sistemas de saúde, especialmente em regiões de fronteira, onde se concentram situações de vulnerabilidade social e sanitária. Nesse contexto, a produção científica tem abordado a relação entre saúde e migração a partir de diferentes perspectivas, incluindo riscos epidemiológicos, desigualdades estruturais e acesso aos serviços. No entanto, ainda são pouco sistematizadas as evidências sobre como essas abordagens se configuram e se articulam na literatura.
Objetivos
Analisar como a literatura científica tem abordado as respostas em saúde em contextos de migração forçada e fronteiras na América Latina, identificando principais enfoques, estratégias e lacunas.
Metodologia
Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, conduzida conforme as diretrizes PRISMA. Foram realizadas buscas nas bases PubMed, Scopus, Web of Science e SciELO, considerando artigos publicados entre 2015 e 2025, em português, inglês e espanhol. Os estudos foram selecionados por meio de leitura de títulos, resumos e textos completos, a partir de critérios de inclusão relacionados à temática de saúde, migração e contexto latino-americano. A análise foi realizada por meio de categorização temática dos achados.
Resultados e Discussão
Os estudos analisados evidenciam diferentes formas de abordagem da relação entre saúde e migração. Predominam análises centradas em riscos epidemiológicos e doenças infecciosas, que associam a mobilidade à disseminação de agravos. Também se destacam abordagens que enfatizam vulnerabilidades estruturais e desigualdades sociais, além de estudos que tratam migrantes como usuários dos sistemas de saúde, com foco em barreiras de acesso. Observa-se, contudo, limitada atenção às dinâmicas institucionais, à organização das respostas em saúde e às especificidades dos territórios de fronteira. A literatura apresenta, assim, um caráter fragmentado, com pouca articulação entre dimensões sociais, políticas e operacionais.
Conclusões/Considerações Finais
A revisão evidencia a necessidade de avançar para abordagens mais integradas e críticas, que considerem as fronteiras como espaços de produção de desigualdades e de disputa entre diferentes racionalidades de gestão da vida e da saúde. Destaca-se a importância de análises que articulem dimensões sociais, institucionais e territoriais, contribuindo para o fortalecimento de políticas públicas orientadas pela equidade, pelos direitos e pela justiça social em contextos de mobilidade humana.
Realização: