Programa - Comunicação Oral Curta - COC24.1 - Reprodução, cuidado em contextos migratórios, respostas e fronteiras
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
AGAPE MANAUS: ESTRATÉGIA DE MOBILIZAÇÃO SOCIAL E EDUCAÇÃO EM SAÚDE PARA MULHERES MIGRANTES
Comunicação Oral Curta
1 ILMD/Fiocruz Amazônia
2 ENSP/Fiocruz
3 PPGICH/UEA
Contextualização
AGAPE, termo associado à ideia de cuidado, partilha e acolhimento, foi adotado em Manaus como título de uma proposta colaborativa voltada à orientação, valorização e apoio a mulheres migrantes, em sua maioria venezuelanas, com atenção à saúde e aos direitos sociais, respeitando suas origens, culturas e especificidades. A iniciativa surge como um dos desdobramentos da pesquisa ReGHID (Reparando as desigualdades de gênero na saúde de mulheres e meninas deslocadas em contextos de crise prolongada na América Central e do Sul), que analisou a saúde sexual e reprodutiva de mulheres migrantes em articulação com outros países da América do Sul. Inspirado em estratégia metodológica homônima, construída na Colômbia, para apoiar mulheres migrantes por meio de informação, orientação e fortalecimento da autonomia, o AGAPE/Manaus foi desenvolvido como subprojeto do Fortalece SUS/Fiocruz Amazônia, com o propósito de construir uma estratégia de mobilização social e formação de pares voltada à promoção dos direitos sexuais e reprodutivos de mulheres e adolescentes migrantes residentes em Manaus. Sua construção insere-se no contexto do aumento dos deslocamentos migratórios entre países do hemisfério sul, intensificados na última década, com destaque para a migração venezuelana para o Brasil.
Descrição
O AGAPE/Manaus consistiu em uma estratégia de mobilização social, formação cidadã e educação em saúde voltada a mulheres e adolescentes migrantes residentes em Manaus. As ações envolveram seminários, reuniões temáticas por segmentos e articulações institucionais com mulheres migrantes e refugiadas, profissionais do Sistema Único de Saúde e representantes de instituições parceiras. A proposta combinou escuta, formação de pares, diálogo sobre direitos sexuais e reprodutivos, aproximação com os serviços de saúde e atuação em rede, buscando adaptar a metodologia ao contexto local e ao funcionamento do SUS.
Período de Realização
A experiência compreende o período de janeiro de 2024 a setembro de 2025.
Objetivo
Relatar e analisar o projeto AGAPE/Manaus como estratégia de mobilização social, formação cidadã e educação em saúde voltada a mulheres e adolescentes migrantes residentes em Manaus.
Resultados
Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, foram promovidos três seminários, reunindo mulheres migrantes e refugiadas, profissionais do SUS e representantes de áreas complementares ao bem-estar social, como educação e assistência social. No mesmo período, também foram realizadas reuniões temáticas por segmentos (profissionais de saúde, grupos de mulheres migrantes, grupo de mulheres refugiadas, e mistos – migrantes e refugiadas) e reuniões institucionais voltadas à escuta de demandas e ao acompanhamento das ações. Entre os principais resultados, destacam-se a mediação entre a experiência migratória, a formação cidadã e os serviços de saúde; a aproximação entre mulheres migrantes, refugiadas e profissionais do SUS, favorecendo o diálogo sobre barreiras de acesso e acolhimento; a identificação, em diferentes territórios, de demandas relacionadas a documentação, idioma, moradia, transporte, escolarização e uso dos serviços de saúde; o fortalecimento inicial de lideranças e da educação de pares; e a consolidação de articulações em rede e de adaptações metodológicas ao contexto local e ao funcionamento do SUS.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a importância do uso de metodologias participantes e sensíveis ao contexto migratório para favorecer vínculo, escuta e discussão de temas pessoais. Também destacou a relevância da formação de pares, da atuação em rede e da inclusão de profissionais de saúde nas atividades, tanto para ampliar o alcance territorial das ações quanto para qualificar o diálogo entre serviços e mulheres migrantes, tendo a construção de vínculos de confiança como elemento central desse processo. Ao mesmo tempo, mostrou que ações de mobilização social e formação cidadã, embora potentes e necessárias para ampliar a escuta, fortalecer vínculos e aproximar usuárias e profissionais, não são suficientes para superar, de forma isolada, barreiras estruturais que atravessam o acesso à saúde por mulheres migrantes e refugiadas. Persistem desafios relacionados à língua, às diferenças culturais, à continuidade do cuidado, à dificuldade de alcançar de forma homogênea os diferentes grupos de migrantes e refugiadas e à dependência de articulações interinstitucionais para garantir capilaridade e encaminhamento das demandas identificadas. Nesse sentido, o AGAPE Manaus aponta para a necessidade de continuidade das ações, fortalecimento da educação permanente dos profissionais e maior articulação intersetorial no território.
ANÁLISE ESPACIAL E TEMPORAL DOS NASCIDOS VIVOS DE MÃES BOLIVIANAS NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, 2013 - 2023
Comunicação Oral Curta
1 Universidade de São Paulo - Faculdade de Saúde Pública
Apresentação/Introdução
O município de São Paulo se destaca por sua economia diversificada, caracterizada por diferentes setores produtivos que atraem imigrantes. De acordo com o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2017 e 2022, os bolivianos representavam aproximadamente 22% do total de imigrantes que se estabeleceram no município. Atualmente, constituem o grupo hispano-americano mais populoso e, do ponto de vista espacial, estão concentrados principalmente nas regiões central e norte. No contexto migratório, as mulheres representam cerca da metade da população migrante no mundo, e tendem a ser mais vulneráveis à discriminação, que pode ser acentuada por fatores como etnia, classe social, idade ou nacionalidade. Além disso, costumam enfrentar dificuldades no acesso à serviços de saúde por questões culturais e linguísticas, o que pode comprometer o atendimento e desfechos relacionados à saúde materno infantil.
Objetivos
Analisar a distribuição espacial e temporal dos nascidos vivos de mães bolivianas segundo os distritos administrativos do município de São Paulo, assim como as características sociodemográficas da parturiente, de gestação e dos nascidos vivos.
Metodologia
Foi realizado estudo ecológico descritivo, no período de 2013 a 2023, com dados secundários do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC), disponibilizado pela Secretaria Municipal de Saúde. A variável naturalidade materna foi utilizada para identificação das mães bolivianas residentes no município de São Paulo. Para caracterização sociodemográfica das parturientes, foram utilizadas as variáveis faixa etária (10 a 19, 20 a 34 e 35 anos ou mais), escolaridade em anos de estudo concluídos (nenhuma, 1 a 3, 4 a 7, 8 a 11 e 12 anos ou mais), estado civil (sem companheiro e com companheiro) e região de residência. Os nascidos vivos foram analisados segundo peso ao nascer, em gramas. A descrição da gestação incluiu as variáveis local de nascimento (hospital ou estabelecimentos de saúde, domicílio e outros), número de consultas pré-natal (nenhuma, 1 a 3, 4 a 6 e 7 ou mais) e tipo de parto (cesárea ou vaginal). A proporção de nascidos vivos de mães bolivianas foi calculada em relação ao total de nascimentos registrados no município de São Paulo no mesmo período, considerando Coordenadorias Regionais de Saúde (CRS) e distritos administrativos. Para análise espacial, estimou-se o Índice Global de Moran, validado por teste de permutação aleatória (999 permutações), seguido do Indicador Local de Autocorrelação Espacial (LISA) para identificar padrões de agrupamento territorial, além da matriz de vizinhança por contiguidade do tipo queen, que considerou todos os distritos.
Resultados e Discussão
Foram identificados 1.173.077 nascidos vivos no município de São Paulo, no período de 2013 a 2023, sendo 28.637 de mães bolivianas. Sobre as características da parturiente, a maioria se encontra na faixa etária de 20 a 34 anos (78%), possui companheiro (60,4%), apresenta entre 8 e 11 anos de estudo (80,5%) e reside na coordenadoria Norte (39,6%). Grande parte dos partos ocorreu em hospitais ou outros estabelecimentos de saúde (98,1%), com predominância de cesáreas (74,5%) em relação aos partos vaginais (25,5%) e pequeno percentual de baixo peso ao nascer (3,4%). Quanto a assistência pré-natal, 62,4% realizaram sete ou mais consultas. Ao analisar o local de residência da parturiente no início e final do período de estudo, observou-se aumento da proporção de nascidos vivos na região Sudeste e queda no Centro e Norte. Esse movimento pode indicar um possível deslocamento gradual dos bolivianos no município, mas ainda com forte presença nas áreas centrais. O Índice Global de Moran para a proporção de nascidos vivos de mães bolivianas foi 0,587 (p = 0,01), que demonstra, além da autocorrelação espacial positiva, que os distritos administrativos do município possuem comportamento semelhante a de seus vizinhos. A análise de clusters mostrou que os distritos Vila Medeiros, Vila Maria, Vila Guilherme, Belém, Pari, Mooca, Brás e Bom Retiro possuem altos percentuais e são vizinhos de áreas que apresentam a mesma condição (alto-alto). A grande maioria dos distritos localizados na coordenadoria Leste apresenta valores menores (baixo-baixo), refletindo regiões onde a presença de bolivianos é menos expressiva. Os distritos Tatuapé, Santana e Sé indicam possíveis áreas de transição (baixo-alto).
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados mostram que os nascidos vivos refletem a dinâmica social e espacial dos bolivianos no município, evidenciando concentração em áreas específicas, como Pari, Brás e Bom Retiro, o que foi reforçado pela autocorrelação espacial, que identificou agrupamentos do tipo alto-alto nestes distritos. Essas informações podem contribuir para o entendimento da dinâmica migratória dos bolivianos, e também fornecer subsídios para questões relacionadas a saúde materno-infantil, considerando as principais vulnerabilidades e desigualdades existentes no contexto intramunicipal.
ASSISTÊNCIA NO TRABALHO DE PARTO DE MULHERES MIGRANTES: REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA
Comunicação Oral Curta
1 UECE
Apresentação/Introdução
Ao longo dos anos é possível observar uma intensificação do processo imigratório e entre as principais causas da migração internacional contemporânea estão: a ampliação do processo de globalização econômica; o aumento da interligação e da desigualdade entre países; e a preeminência de fatores demográficos que influenciam os padrões e a composição dos fluxos migratórios (ZAPATA; GUEDES,2017).
Ressalta-se que a gravidez se trata também de um fenômeno cultural, em que a forma como é regida vai de acordo com os traços próprios de cada cultura. Assim, os traços culturais devem ser devidamente reconhecidos quando enquadrados em um serviço de saúde com qualidade (ETOWA,2012).
Nesse sentido, a preparação para o parto influencia positivamente a percepção dos cuidados culturais durante o trabalho de parto. As políticas de saúde devem possibilitar o seu desenvolvimento nas instituições de saúde, de forma descentralizada, de modo que todas as grávidas, incluindo as imigrantes, tenham acesso a esta preparação (COUTINHO et al., 2016).
Objetivos
O estudo tem como objetivo interpretar a produção científica da assistência ao trabalho de parto e parto de mulheres migrantes.
Metodologia
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura e para sua realização, foram seguidas seis etapas: definição da pergunta, busca e seleção dos estudos primários, extração de dados, avaliação crítica, síntese dos resultados e apresentação da revisão (MENDES; SILVEIRA; GALVÃO, 2019).
A pesquisa foi conduzida entre abril de 2023 e março de 2024, com a coleta de dados ocorrendo entre janeiro e fevereiro de 2024. Foram utilizadas como fontes as bases LILACS, Portal de Periódicos da CAPES, MEDLINE, SciELO (Web of Science) e IBECS.
A elaboração da pergunta baseou-se na estratégia PICo, que considera participantes, fenômeno de interesse e contexto, resultando na seguinte questão norteadora: “Como ocorre a assistência no trabalho de parto e parto de mulheres imigrantes?”. A partir disso, foram definidos os descritores de acordo com os elementos da estratégia e as especificidades das bases de dados selecionadas.
Na busca da literatura foram utilizados os descritores: Migrantes/ Transients and Migrants/ Migrantes; Trabalho de Parto /Labor, Obstetric/ Trabajo de Parto; Assistência Perinatal / Perinatal Care/ Atención Perinatal, nos idiomas português, inglês e espanhol, respectivamente. Todos os descritores usados estavam presentes nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS),
Resultados e Discussão
Inicialmente foram encontrados 59 artigos como um todo nas bases de dados e após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, leitura na íntegra dos estudos, 18 artigos foram selecionados para análise. A organização dos estudos se deu por meio de categorização manual, a partir da identificação de cada tópico em específico, diante dos artigos lidos, sendo descritos nas categorias nas três categorias: 1) Experiência positiva na assistência a parturiente imigrante; 2) Assistência inadequado e complicações em parturientes imigrantes; 3) Os aspectos culturais e a assistência ao parto de mulheres imigrantes. Ao longo da análise, observou-se que os estudos perpassam tanto por experiências positivas quanto desfechos negativos no apoio a parturiente imigrante. No entanto, diante da ocorrência de violências obstétricas e complicações materno-fetal é notório a importância de maiores incentivos ao cuidado cultural e singular adequado na assistência ao parto, principalmente quando se trata de países em desenvolvimento e subdesenvolvidos.
Conclusões/Considerações Finais
A revisão integrativa evidenciou que o cuidado perinatal e a assistência ao parto de mulheres migrantes envolvem tanto experiências positivas quanto situações de vulnerabilidade. Alguns países já investem em estratégias como doulas culturais, profissionais bilíngues e intérpretes para oferecer um atendimento mais adequado às especificidades culturais. No entanto, essas iniciativas ainda são limitadas a poucos contextos, principalmente em países europeus, e não são amplamente implementadas, sobretudo em sistemas públicos de países em desenvolvimento. Os estudos também apontam que a dificuldade de acesso ao cuidado perinatal, desde o pré-natal até o pós-parto, está associada a piores desfechos, como sofrimento fetal, complicações neonatais e violência obstétrica. A ausência de equidade, acolhimento, comunicação eficaz e sensibilidade cultural por parte dos profissionais de saúde contribui para experiências negativas, gerando medo, insegurança e traumas, especialmente entre mulheres migrantes em maior situação de vulnerabilidade.
Por fim, destaca-se a escassez de pesquisas sobre o tema, principalmente no Brasil, apesar do crescimento da migração feminina no país. O estudo reforça a necessidade de ampliar a produção científica na área, incentivar uma atuação profissional mais sensível às diferenças culturais e promover a criação de políticas públicas que garantam uma assistência equitativa e qualificada às mulheres imigrantes e refugiadas.
CUIDADO INFANTIL NO CONTEXTO MIGRATÓRIO: SABERES CULTURAIS E CUIDADO BIOMÉDICO ENTRE MULHERES VENEZUELANAS NA GRANDE ILHA DE SÃO LUÍS
Comunicação Oral Curta
1 UFMA
Apresentação/Introdução
Os fluxos migratórios contemporâneos têm produzido importantes transformações nas experiências sociais e nas formas de cuidado em saúde. No Brasil, a intensificação da migração venezuelana nos últimos anos evidencia novos desafios para as políticas públicas e para os sistemas de saúde, especialmente no que se refere ao acesso, à equidade e à adequação cultural do cuidado. Nesse contexto, as mulheres — incluindo as migrantes — ocupam lugar central na organização do cuidado cotidiano das crianças e na mediação das relações com os serviços de saúde, evidenciando a persistência de uma divisão social e de gênero do cuidado. As práticas de cuidado infantil são social e culturalmente produzidas, sendo atravessadas por valores, saberes e experiências que orientam percepções sobre saúde, doença e modos de cuidar.
Objetivos
Compreender as práticas de cuidado com crianças na perspectiva de mulheres migrantes venezuelanas residentes nos municípios de São Luís e São José de Ribamar, na Grande Ilha de São Luís, Maranhão.
Metodologia
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, realizada com base na teoria compreensiva. Participaram da pesquisa 14 mulheres migrantes venezuelanas, sendo 11 mulheres indígenas da etnia Warao, com filhos com idade até 10 anos, residentes em São Luís e São José de Ribamar, Maranhão. Foram realizadas entrevistas estruturadas para caracterização sociodemográfica desta população e entrevistas semiestruturadas, realizadas de modo individual, em espaços que proporcionaram segurança, proteção e respeito às entrevistadas. As entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas com base na análise de conteúdo temática, compreendendo as etapas de pré-análise, exploração do material e interpretação dos sentidos produzidos nas narrativas
Resultados e Discussão
A análise permitiu identificar duas categorias que expressam a complexidade das práticas de cuidado infantil no contexto migratório, evidenciando sua natureza social, cultural e relacional. A primeira categoria, “Práticas de cuidado culturalmente situadas e redes de sustentação do cuidado”, evidencia a centralidade de saberes e práticas construídos no interior das trajetórias de vida das mulheres, incluindo o uso de remédios caseiros, práticas alimentares específicas e a valorização das redes familiares e comunitárias. Tais práticas constituem formas dinâmicas de produzir cuidado no cotidiano, articuladas a experiências, valores e condições concretas de vida. Nessa perspectiva, o cuidado se organiza em redes — ou “malhas de cuidado” — que envolvem pessoas, saberes, recursos e contextos, ultrapassando a centralidade dos serviços formais de saúde. A segunda categoria, “Negociações entre racionalidades de cuidado: articulações e tensões com o modelo biomédico”, revela que o encontro com os serviços de saúde não se dá de forma passiva, mas por meio de processos contínuos de negociação, adaptação e, por vezes, conflito. As mulheres mobilizam diferentes racionalidades de cuidado, articulando saberes culturais e práticas biomédicas na construção de respostas às necessidades de saúde das crianças. Esse processo evidencia que os itinerários terapêuticos não são lineares, mas plurais e situados, sendo produzidos na interface entre experiências migratórias, repertórios culturais e condições de acesso aos serviços. Os achados indicam que a experiência migratória, associada a condições de vulnerabilidade social — como precariedade econômica, fragilidade das redes de apoio e barreiras linguísticas —, tensiona e reconfigura as possibilidades de acesso e uso dos serviços do Sistema Único de Saúde. Nesse contexto, as práticas de cuidado são continuamente (re)elaboradas, evidenciando a agência das mulheres na construção de estratégias que combinam diferentes formas de cuidado. Ao mesmo tempo, os resultados mostraram que as mulheres constroem estratégias de cuidado que articulam saberes culturais e práticas biomédicas, configurando itinerários terapêuticos plurais. Esses processos revelam formas de negociação entre diferentes racionalidades de cuidado, nas quais práticas tradicionais e orientações profissionais coexistem e são ressignificadas no cotidiano.
Conclusões/Considerações Finais
As práticas de cuidado infantil entre mulheres migrantes venezuelanas revelaram que o cuidado é produzido na articulação entre experiências de vida, condições estruturais e diferentes racionalidades. Longe de configurarem meras adaptações ao sistema de saúde, tais práticas expressam modos próprios de produzir e sustentar o cuidado, evidenciando a insuficiência de abordagens centradas exclusivamente no modelo biomédico. Reconhecer as dimensões socioculturais, relacionais e contextuais, amplia a compreensão do cuidado em saúde, especialmente em cenários marcados pela mobilidade humana. Nesse sentido, mais do que promover a adequação das mulheres aos serviços, coloca-se o desafio de construir práticas de saúde que reconheçam a diversidade de modos de cuidar e dialoguem com eles.
PRÉ-NATAL E VULNERABILIDADE SOCIOECONÔMICA: DESAFIOS NA ASSISTÊNCIA A GESTANTES VENEZUELANAS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA
Comunicação Oral Curta
1 UECE
2 UERR
3 UFRR
4 UFPB
Apresentação/Introdução
A crise na Venezuela intensificou o fluxo migratório para Roraima, sobrecarregando serviços essenciais, especialmente a Atenção Primária. Entre os grupos mais vulneráveis destacam-se gestantes venezuelanas, frequentemente expostas à precariedade habitacional, insegurança alimentar e instabilidade social. Essas condições configuram importantes determinantes sociais da saúde, impactando diretamente o acesso e a continuidade do cuidado pré-natal. Embora o pré-natal seja essencial para prevenir complicações materno-infantis, sua efetividade depende de condições mínimas de vida e acesso aos serviços.
Objetivos
Analisar como as limitações socioeconômicas influenciam a assistência pré-natal de gestantes venezuelanas na perspectiva de profissionais de saúde.
Metodologia
Trata-se de estudo qualitativo, exploratório, fundamentado nos Determinantes Sociais da Saúde, com base no modelo de Solar e Irwin. Foi realizado em cinco Unidades Básicas de Saúde de Boa Vista, Roraima. Participaram dez profissionais (médicos e enfermeiros) com, no mínimo, seis meses de experiência no acompanhamento pré-natal de gestantes venezuelanas. A amostra foi definida por saturação teórica e obtida por amostragem em cadeia. A coleta ocorreu entre março e abril de 2024, por meio de entrevistas semiestruturadas gravadas e transcritas. Os dados foram analisados segundo a técnica de análise de conteúdo temática de Bardin, com auxílio do software WebQDA. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética, garantindo anonimato e consentimento dos participantes
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que as limitações socioeconômicas constituem um dos principais fatores que comprometem a assistência pré-natal de gestantes venezuelanas. A precariedade financeira interfere diretamente na alimentação adequada, na adesão à suplementação vitamínica e na realização de exames, especialmente quando indisponíveis no sistema público. Além disso, dificuldades relacionadas ao transporte e à instabilidade habitacional impactam a continuidade do acompanhamento. Observa-se que, mesmo quando há adesão inicial ao pré-natal, as condições de vida dessas mulheres dificultam a manutenção do cuidado, uma vez que a busca por moradia e alimentação frequentemente se sobrepõem às demandas de saúde. Esses achados evidenciam a atuação dos determinantes estruturais, como pobreza, exclusão social e condição migratória, que condicionam os determinantes intermediários, incluindo acesso a serviços, alimentação e moradia. A insuficiência de recursos no sistema público, como a falta de medicamentos e exames, agrava ainda mais esse cenário, afetando de forma mais intensa populações vulneráveis. Como consequência, há maior risco de desfechos negativos em saúde materno-infantil, além de ampliação das desigualdades no acesso ao cuidado. Mesmo com esforços dos profissionais em adaptar condutas, a ausência de políticas intersetoriais limita a efetividade da assistência, evidenciando que a vulnerabilidade socioeconômica atua como barreira estrutural ao cuidado pré-natal.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que as limitações socioeconômicas impactam significativamente a assistência pré-natal de gestantes venezuelanas, comprometendo o acesso e a continuidade do cuidado. Esses fatores reforçam a necessidade de políticas intersetoriais que integrem saúde e assistência social, visando reduzir desigualdades e promover atenção pré-natal mais equitativa e efetiva.
USO DE MÉTODOS CONTRACEPTIVOS ENTRE MULHERES MIGRANTES VENEZUELANAS EM UMA CIDADE DO NORTE DO BRASIL: UM ESTUDO DE ABORDAGEM QUANTITATIVA E QUALITATIVA
Comunicação Oral Curta
1 ENSP/FIOCRUZ
2 UFMA
3 ILMD/FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
O Brasil é o terceiro país que mais recebeu venezuelanos nos últimos anos. Metade deste fluxo migratório forçado é composto por mulheres, com maior concentração na Norte do país. Devido a este novo fluxo migratório, o SUS enfrenta antigos e novos desafios para atender a demandas de saúde, incluindo aquelas de saúde sexual e reprodutiva das migrantes venezuelanas.
Objetivos
Este estudo objetivou avaliar o acesso a métodos contraceptivos por mulheres venezuelanas na cidade de Manaus.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de abordagem quantitativa e qualitativa, realizada em 2021, com venezuelanas residentes em Manaus, Amazonas. No componente quantitati¬vo, utilizou-se a amostragem dirigida por participante (752) venezuelanas entre 15 e 49 anos de idade e que migraram para o Brasil entre 2018 e 2021. Para este estudo foram excluídas mulheres que não menstruavam, não tiveram relações sexuais nos 12 meses anteriores e estavam gestantes no momento da entrevista. A amostra final incluiu 579 mulheres e foram calculadas frequências absolutas e prevalências com intervalos de 95% de confiança no software SPSS 23. No qualitativo, foram realizadas 43 entrevistas semiestruturadas, gravadas e transcritas com mulheres venezuelanas maiores de 19 anos, residentes em Manaus. Devido à pandemia de Covid-19, a coleta de dados ocorreu de forma remota e, quando possível, presencial. Foi utilizada Análise de Conteúdo na modalidade temática, com pré-análise, codificação, inferência e interpretação, com apoio do software NVivo.
Resultados e Discussão
Nos resultados quantitativos, a maioria das entrevistadas 47 % afirmaram utilizava algum método contraceptivo na Venezuela. Os principais motivos para não usar eram laqueadura tubária, querer engravidar e não ter dinheiro para comprar.
Quando perguntadas sobre este uso depois de terem chegado ao Brasil, 56% usavam atualmente algum método, sendo os principais motivos para não uso com exceção de não ter dinheiro. De forma complementar quando questionadas sobre a forma de obtenção dos métodos, a principal foi serviços públicos de saúde com 39%, e apenas 6% disse ter comprado com seu dinheiro. Estes resultados reforçam a importância do SUS no acesso a métodos contraceptivos a esta população.
Resultados parecidos foram observados nos relatos do estudo qualitativo comparam a escassez de recursos e o alto custo dos métodos contraceptivos na Venezuela com a maior acessibilidade e gratuidade oferecidas pelo sistema de saúde brasileiro e por organizações humanitárias. As entrevistadas relataram o uso de diversos métodos, como injeções, implantes subdérmicos, DIU e preservativos, além da importância de palestras educativas para o planejamento familiar.
Os dados quantitativos revelam que ainda que a prevalência de venezuelanas que utilizam contraceptivos é menor que entre as brasileiras. Este dado pode ser explicado por diversos motivos como diferenças culturais, barreiras de acesso entre outros. Os dados qualitativos revelaram desafios como a barreira linguística, o desconhecimento sobre como agendar consultas especializadas e o tabu social que ainda impede algumas mulheres de buscar orientação.
Conclusões/Considerações Finais
Apesar do SUS conseguiu fornecer acesso a métodos contraceptivos a uma parcela desta população, barreiras de acesso ainda precisam ser superadas. No geral, a migração para o Brasil é vista pelas migrantes como uma oportunidade para obter autonomia reprodutiva e prevenir gravidezes indesejadas em um contexto de vulnerabilidade.
DESLOCAMENTOS FORÇADOS PARA O CUIDADO: SAÚDE BUCAL E FRONTEIRAS INTERNAS NO MEIO RURAL
Comunicação Oral Curta
1 SENAR-MS
Contextualização
A organização do cuidado em saúde no meio rural brasileiro evidencia profundas assimetrias territoriais que tensionam o princípio da universalidade. Em regiões do Mato Grosso do Sul, o acesso aos serviços é condicionado por longas distâncias, precariedade de infraestrutura e baixa capilaridade da Atenção Primária, configurando cenários em que o deslocamento se torna condição obrigatória para o cuidado. Nesses contextos, a mobilidade em saúde assume caráter compulsório, aproximando-se da noção de deslocamentos forçados no interior do próprio território nacional. Tal realidade explicita a existência de “fronteiras internas” que segmentam o acesso e reproduzem desigualdades, sendo expressão concreta da determinação social da saúde, conforme discutido por Jaime Breilh.
Descrição
A experiência refere-se à atuação do Programa Sorrindo no Campo, desenvolvido pelo SENAR-MS, por meio de unidades móveis de atendimento odontológico em comunidades rurais de difícil acesso. A estratégia buscou reduzir barreiras geográficas e ampliar o acesso ao cuidado, estruturando-se na oferta itinerante de serviços clínicos em saúde bucal, com organização de fluxos, logística de deslocamento e atendimento em contextos de alta demanda.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida entre janeiro de 2023 e dezembro de 2025, abrangendo 65 municípios sul-mato-grossenses.
Objetivo
Refletir criticamente sobre a experiência do Programa Sorrindo no Campo, analisando o perfil dos atendimentos odontológicos e suas implicações para o acesso à saúde bucal em territórios rurais, à luz dos princípios da Saúde Coletiva.
Resultados
Foram analisados dados de 10.385 pacientes, com idade média de 34 anos, sendo 56,56% do sexo feminino e 43,44% do sexo masculino. No período, foram realizados 36.562 procedimentos odontológicos, com média de 3,5 intervenções por usuário. Evidenciou-se demanda reprimida significativa, marcada por agravos acumulados e predominância de um modelo assistencial centrado na resolução imediata de necessidades. Destacaram-se raspagens supra e subgengivais não cirúrgicas (33,7%), restaurações em resina composta (17,7%), profilaxias (5,6%) e exodontias (5,4%). Os resultados demonstram que a estratégia itinerante amplia o acesso em territórios marcados por isolamento e desigualdade, reduzindo temporariamente barreiras geográficas, mas evidenciam a ausência de uma rede estruturada de cuidado, mantendo a lógica de acesso episódico.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia a contradição entre a potência das ações itinerantes e sua insuficiência frente às desigualdades estruturais que organizam o acesso à saúde no meio rural. Embora ampliem o cuidado no curto prazo, tais iniciativas operam como respostas compensatórias a um cenário de subfinanciamento e fragilidade da presença estatal. Conforme problematiza Cecília Donnangelo, as práticas em saúde são indissociáveis das relações sociais que as produzem, de modo que intervenções pontuais não alteram os determinantes das iniquidades. A naturalização dessas estratégias pode reforçar um modelo fragmentado, no qual o acesso ocorre de forma precária e descontínua. Assim, embora a atuação itinerante constitua importante dispositivo de equidade ao alcançar populações historicamente excluídas, apresenta limites importantes na garantia da continuidade do cuidado e na integralidade da atenção. A superação das iniquidades em saúde bucal no meio rural exige o fortalecimento de políticas públicas territorializadas, com ampliação da Atenção Primária, investimento em infraestrutura e incorporação de tecnologias leves, de modo que o princípio da universalidade não permaneça condicionado ao deslocamento compulsório ou a ações pontuais.
ECOSSISTEMA DE INFORMAÇÃO E PRÁTICAS EM SAÚDE DE MIGRANTES VENEZUELANOS NA PANDEMIA DE COVID-19, AMAZÔNIA LEGAL, BRASIL
Comunicação Oral Curta
1 ISC/UFMT
2 ILMD/Fiocruz-AM
3 EPM/Unifesp
Apresentação/Introdução
No cenário mundial de crises econômicas, ambientais, climáticas e conflitos geopolíticos, a comunicação e a mobilidade humana tornam-se estratégias de sobrevivência. Com a disseminação do Sars-Cov-2 em 2020, a migração deixou de ser apenas fenômeno social, passou a ser tema de controle, inclusive sanitário. A pandemia intensificou tensões e revelou desigualdades sociais, fragilidades nos sistemas de saúde, na gestão de fronteiras e na circulação de informações. Informações fidedignas são indispensáveis para que migrantes acessem serviços de saúde, compreendam protocolos sanitários e reivindiquem direitos. O ecossistema de informação (Paes, Johnson e Vieira, 2024) foi marcado pela tensão entre discursos oficiais, que enfatizavam medidas sanitárias, e narrativas não oficiais que promoviam remédios sem comprovação, curas milagrosas e teorias conspiratórias (Barcelos et al., 2021). Essas narrativas foram reforçadas por repertórios de conhecimento e opiniões sobre o que seria benéfico para a saúde, evidenciando a disputa simbólica em torno da legitimidade do saber científico (Hall, 2003; Oliveira e Limongi, 2020). Para Han (2017), o excesso de informações superficiais dificulta a construção do conhecimento, que exige profundidade e reflexão crítica.
Objetivos
Este estudo tem por objetivo analisar como o ecossistema de informação atuou nas práticas de saúde de migrantes venezuelanos na Amazônia legal, durante a pandemia (2020-2023).
Metodologia
Este estudo integra a pesquisa Acesso à saúde e vulnerabilidades de migrantes internacionais no contexto da COVID-19, coordenada pela UNIFESP e desenvolvida em seis cidades brasileiras. Os resultados aqui apresentados foram produzidos em Manaus (Instituto Leônidas & Maria Deande/Fiocruz) e Cuiabá (Instituto de Saúde Coletiva/UFMT). Foram realizadas 20 entrevistas semiestruturadas com venezuelanos residentes em Manaus (n=12) e Cuiabá (n=8), selecionados por amostragem bola de neve, entre agosto de 2022 a maio de 2023. Utilizou-se diário de campo e a pré-análise foi feita pelo NVivo14, consolidando 27 códigos, sendo aqui
analisados as "Condições de vida", "Conhecimentos sobre a pandemia" e "Práticas em Saúde". A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Unifesp (Processo n. 2021/06792-2).
Resultados e Discussão
Os migrantes adotaram medidas de proteção indicadas pela OMS (uso de máscaras, higienização das mãos, distanciamento físico) e outras não oficiais (troca de roupas, automedicação com antibióticos e remédios caseiros). Com o tempo, houve redução das medidas preventivas e naturalização do risco, enfraquecendo a percepção coletiva sobre a necessidade de mantê-las. A possibilidade de adoecer foi praticamente negada para esse grupo, a doença não se manifestou de forma 'democrática', como propagado por redes sociais e veículos midiáticos, foi atravessada por desigualdades estruturais que condicionaram experiências distintas de vulnerabilidade e exposição ao risco. A adesão ao isolamento foi dificultada por moradias compartilhadas e necessidade de trabalho presencial. Informações divulgadas pela televisão geraram medo e desconfiança, motivando migração para outros locais e recusa de tratamento hospitalar. A decisão sobre a vacinação, com 70% de adesão (parcial ou total), foi influenciada pela confiança na ciência, experiências pessoais e exigências do trabalho. Todavia, a hesitação vacinal alimentada por boatos e teorias conspiratórias, produziu medo e desconfiança, influenciando parte dos migrantes a não se vacinar.
Conclusões/Considerações Finais
Ficou evidente o papel da comunicação durante a pandemia, ao produzir discursos sobre o desenvolvimento econômico do país, convertendo o espaço público em arena de disputa econômica e ideológica. A desinformação (Wardle, 2020) não apenas confundiu, mas reconfigurou as práticas de saúde. O ecossistema de desinformação apropriou-se da má-informação e do contexto falso para construir discursos que ultrapassaram fronteiras, afastando pessoas das recomendações de imunização e aproximando-as de narrativas de resistência baseadas no medo. Assim, qualquer resposta à desinformação deve abranger os
atores sociais, tecnologias e plataformas digitais, fornecendo informações confiáveis, regulando redes sociais, indicando medidas sanitárias e promovendo consciência sanitária.
POLÍTICAS DE SAÚDE MENTAL EM ZONAS DE FRONTEIRA NO PARAGUAI: DESAFIOS TERRITORIAIS E ESTRATÉGIAS DE ATENÇÃO COMUNITÁRIA
Comunicação Oral Curta
1 UNIFESP
2 UNILA
Apresentação/Introdução
A saúde mental constitui um campo estratégico da saúde pública contemporânea, especialmente em territórios de fronteira marcados por dinâmicas intensas de mobilidade, desigualdades estruturais e diversidade sociocultural. Nas regiões fronteiriças do Paraguai com Brasil e Argentina, esses processos tensionam a organização dos sistemas de saúde, revelando lacunas no acesso, na continuidade do cuidado e na articulação interinstitucional. Embora, nos últimos anos, tenham sido impulsionados marcos normativos orientados à atenção comunitária e à desinstitucionalização, persiste uma distância significativa entre o desenho das políticas e sua implementação em territórios periféricos. Além disso, grupos como estudantes, docentes e comunidades indígenas enfrentam vulnerabilidades psicossociais específicas, demandando abordagens situadas e interculturais.
Objetivos
Analisar criticamente as políticas de saúde mental em zonas de fronteira do Paraguai, identificando tensões entre a normativa e sua implementação, bem como as principais estratégias de atenção comunitária desenvolvidas nesses territórios.
Metodologia
Realizou-se uma pesquisa qualitativa de caráter exploratório e analítico, baseada em revisão bibliográfica e análise documental. Foram incluídos artigos científicos, documentos institucionais e normativas nacionais e internacionais publicados entre 2020 e 2025. O processo analítico foi organizado em torno de categorias como: configuração das políticas públicas, acesso aos serviços, territorialidades do cuidado e determinantes socioculturais da saúde mental em contextos fronteiriços.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que o Paraguai avançou na formulação de políticas de saúde mental alinhadas às recomendações internacionais, priorizando o modelo comunitário e a atenção integral. Contudo, nas zonas de fronteira, essas diretrizes se concretizam de forma fragmentada, condicionadas por limitações estruturais, escassez de recursos e frágil articulação entre os níveis de atenção. Observa-se uma tensão entre a universalidade declarada do sistema e as práticas reais de acesso, especialmente em contextos de mobilidade transfronteiriça, nos quais os serviços são compartilhados de fato entre países.
As experiências de cuidado revelam forte marca territorial, com redes informais, práticas comunitárias e estratégias de resiliência — particularmente entre comunidades indígenas — coexistindo com dispositivos institucionais insuficientes. As evidências também apontam para o aumento de problemas de saúde mental em grupos específicos, associado a condições socioeconômicas, acadêmicas e laborais, reforçando a necessidade de políticas intersetoriais e culturalmente situadas. Nesse sentido, a fronteira emerge não apenas como limite geopolítico, mas como espaço de produção de desigualdades e, simultaneamente, de inovação em práticas de cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
As políticas de saúde mental em zonas fronteiriças do Paraguai apresentam avanços normativos relevantes, mas enfrentam desafios significativos em sua implementação territorial. Sua efetividade depende da capacidade de incorporar especificidades socioculturais, fortalecer a atenção comunitária e promover cooperação transfronteiriça. Conclui-se que é necessário superar enfoques homogêneos, adotando perspectivas críticas que reconheçam a fronteira como espaço dinâmico, atravessado por desigualdades, mas também por potencialidades para a construção de estratégias de cuidado mais inclusivas e contextualizadas.
Realização: