Programa - Comunicação Oral - CO24.2 - Interculturalidade, povos indígenas migrantes e mediação do cuidado
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
CAMINHOS DE ÁGUA DE GENTE: INTERCULTURALIDADE EM SAÚDE COM INDÍGENAS WARAO NOS TERRITÓRIOS DE CUIABÁ, MT.
Comunicação Oral
1 UFMT - INSTITUTO DE SAÚDE COLETIVA
2 UFMT - Instituto de Linguagem
Contextualização
Em Cuiabá, a presença de indígenas migrantes venezuelanos Warao problematiza a organização do SUS em territórios urbanos marcados por desigualdades socioambientais, mobilidade e diversidade cultural. Nesse cenário, a interculturalidade deixa de ser apenas um princípio abstrato e passa a orientar escolhas práticas no cuidado, na relação com o ambiente e na construção de vínculos entre serviços e populações em trânsito, dialogando com debates sobre cuidado intercultural e atenção em saúde indígena e migratória. Este trabalho apresenta um relato de experiência do projeto de extensão “Integração ao migrante e refugiado”
Descrição
Trata-se de um grupo de indígenas Warao em contexto urbano, reconhecidos como migrantes internacionais refugiados, que se organizam de forma semelhante a uma aldeia que embora em em acompanhamento pela Secretaria Municipal de Saúde, apresentava baixa adesão aos cuidados de saúde orientados, incluindo ações de imunização. Como argumentam Garnelo e Pontes (2018), contradições etnocêntricas dificultam a articulação efetiva entre saberes indígenas e a biomedicina, o que se confirmou na experiência com os Warao: acompanhados pela SMS, mas sem adesão aos cuidados até a mediação cultural da universidade. Nesse cenário, os componentes do projeto assumiram papel central como mediadores culturais entre a comunidade e a rede de serviços, condição fundamental para que as ações propostas pudessem se concretizar. A presença de docentes e discentes no território, a escuta e o diálogo com a liderança indígena permitiram, ao longo de alguns meses, construir confiança e reorganizar a oferta de cuidado.
Período de Realização
12 de abril e 31 de dezembro de 2025,
Objetivo
Descrever a dinâmica do projeto de extensão, enfatizando os desafios para a construção de práticas interculturais em saúde em conexão com os territórios e povos warao.
Resultados
As atividades articularam visitas in loco, contatos rotineiros com a liderança indígena, mapeamento de equipamentos sociais, com ênfase na identificação de necessidades relacionadas às condições de vida e ao acesso às políticas públicas. No campo da saúde coletiva e ambiental, destacam-se ações voltadas à qualidade da água utilizada pela comunidade, com identificação de problemas sanitários e fornecimento de hipoclorito de sódio e orientações sobre manejo das caixas d’água. Houve aproximação com equipes da ESF e com o Núcleo de Diversidade da Secretaria Municipal de Saúde, resultando na organização de um mutirão que atendeu crianças, adultos e idosos. Nessa ação, 100% da comunidade indígena aderiu à vacinação, à realização de testes rápidos e ao encaminhamento para exames e consultas médicas, evidenciando a potência da interculturalidade e da mediação cultural para garantir, inclusive, o direito à saúde. Entre os resultados, sobressaem a construção de vínculo com a comunidade, a maior visibilidade das demandas sanitárias e sociais do grupo e a efetivação de ações de promoção da saúde no território
Aprendizado e Análise Crítica
A integração entre ensino e extensão é fundamental para produzir respostas em saúde que dialoguem com a realidade dos territórios, valorizando saberes locais, práticas comunitárias e experiências de resistência. Evidenciamos também que o trabalho com populações indígenas migrantes exige tempo, presença e disposição para rever rotinas protocolares, reconhecimento de assimetrias de poder, diferenças culturais e barreiras simbólicas que atravessam o cuidado, em sintonia com perspectivas de interculturalidade. Como desafios, permanecem a invisibilidade e a fragilidade de respostas voltadas a outros grupos de migrantes que vivem em diferentes áreas da capital, o que torna necessária a continuidade de ações semelhantes em múltiplos territórios, sob a mesma perspectiva intercultural. A análise crítica da experiência identifica limites, como os desafios na consolidação da interlocução com a rede municipal de saúde e, sugere que a prática adotada pela universidade, atuando como mediadora cultural entre serviços e comunidades, não deve ser pontual, e sim incorporada regularmente em contextos de migração e refúgio. A experiência aponta para a necessidade de maior aproximação entre universidade, gestão dos serviços e coletivos migrantes, de modo a sustentar práticas interculturais de cuidado e produzir condições para que situações como a dos Warao sejam acolhidas com respeito às especificidades culturais e garantia de direitos. Conclui-se que experiências territorializadas podem ampliar o diálogo entre interculturalidade, ambiente e saúde, desde que sustentadas por redes institucionais estáveis e por compromisso político com o reconhecimento dos territórios habitados por migrantes e refugiados como espaços de produção de cuidado, protagonismo e direitos.
CUIDADO EM SAÚDE EM CONTEXTOS INTERCULTURAIS: A PERCEPÇÃO DO POVO WARAO EM MOSSORÓ/RN
Comunicação Oral
1 UFRN
Apresentação/Introdução
Os indígenas Warao constituem um povo originário do delta do rio Orinoco, na Venezuela, tradicionalmente dedicado à pesca e à coleta, com língua própria e organização sociocultural específica. A partir de 2014, intensificando-se após 2016, a crise econômica, política e social venezuelana impulsionou fluxos migratórios desse grupo para o Brasil, em busca de melhores condições de vida (Xavier, 2021).
Nesse contexto, os primeiros Warao chegaram ao município de Mossoró/RN em 2019, estabelecendo-se em situação de vulnerabilidade social e com dificuldades de integração aos serviços públicos. Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) assegure o acesso universal e integral, essa população enfrenta barreiras linguísticas, culturais e informacionais, o que limita a utilização dos serviços de atenção primária, frequentemente buscados apenas em situações de urgência (Silva; Miranda; Lima, 2020).
Atualmente vivem em Mossoró cerca de 47 indígenas Warao, entre adultos, crianças e idosos. Mesmo residindo próximo à Unidade de Saúde da Família de referência, observa-se baixa adesão às ações preventivas, como acompanhamento pré-natal e vacinação, o que contribui para o agravamento das condições de saúde dessa população em contexto de vulnerabilidade (Macinko; Mendonça, 2018).
Objetivos
Descrever as dificuldades e as possibilidades de cuidado em saúde vivenciadas por indígenas Warao a partir dos seus relatos sobre o atendimento na Unidade Saúde da Família Sinharinha Borges (USF), em Mossoró/RN.
Metodologia
Estudo qualitativo, recorte de pesquisa de mestrado, aprovado pelo Sistema CEP/CONEP (CAAE:88178225.5.0000.5292). Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com quatro indígenas Warao residentes em Mossoró, em dezembro de 2025, utilizando como questões norteadoras: a experiência de atendimento na USF Família Sinharinha Borges, as dificuldades enfrentadas e o que os Warao conseguem realizar em termos de cuidados de saúde no Brasil. O material foi submetido à Análise de Conteúdo de Laurence Bardin, estruturada em três polos: pré-análise (leitura flutuante), exploração do material (codificação) e tratamento dos resultados (inferência e interpretação).
Resultados e Discussão
A análise dos dados referentes à experiência de atendimento na USF Sinharinha Borges e as dificuldades enfrentadas permitiu a construção de três categorias: O Serviço de Saúde como Referência de Cuidado, agrupa os relatos sobre a busca por atendimento formal em Unidades Básicas de Saúde e hospitais; a segunda, A Barreira Linguística e a Incomunicabilidade, destaca o idioma como principal obstáculo no processo de cuidado, refletindo a trajetória de deslocamento e a dificuldade de integração no novo território; e a terceira, Pluralismo Terapêutico e Herança Cultural, aborda a convivência entre o sistema oficial de saúde e as práticas tradicionais do povo Warao, demonstrando a persistência de saberes ancestrais mesmo no contexto migratório. Da análise em relação à pergunta “o que os Warao conseguem realizar em termos de cuidados de saúde no Brasil?” emergem duas categorias Dualidade Terapêutica e Fluxo de Cuidado e Espiritualidade e Crença. A análise dos dados indica que os Warao mantêm um esforço contínuo na preservação de sua autonomia no cuidado à saúde, o que se materializa em itinerários terapêuticos que configuram um sistema de saúde híbrido, e não limitado a uma única abordagem. Nesse ínterim, a medicina tradicional não é abandonada, mas sim ressignificada. A dificuldade de acesso a elementos fundamentais, como as ervas originais (calaguara e mata de alvolejo) evidencia a materialização da desterritorialização dos saberes e práticas. A perda do acesso ao meio ambiente original impacta, portanto, a capacidade de reprodução cultural. Na categoria Espiritualidade e Crença nota-se uma substituição ou sobreposição da figura do "curador" pela confiança em Deus e na "fé natural", o que altera a busca pelas práticas ancestrais.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência do povo Warao na saúde em Mossoró revela um sistema que, embora acolhedor na forma, ainda é excludente no conteúdo devido às barreiras idiomática e culturais. O processo saúde doença desse grupo é vivido na intersecção entre a necessidade de sobrevivência e a manutenção de sua cultura. Conclui-se que a eficácia da assistência depende da adoção de estratégias de educação intercultural, que incluam mediadores linguísticos e o reconhecimento do pluralismo terapêutico, garantindo um cuidado que não apenas cure o corpo, mas respeite o modo de vida indígena. A integração dos saberes tradicionais aos protocolos de atendimento da USF, complementando a visita domiciliar dos profissionais da saúde já em prática, é fundamental para garantir um cuidado que respeite a dignidade e a ancestralidade desse povo em situação de migração.
INTERCULTURALIDADE E ACESSO A SAÚDE DE IMIGRANTES INDÍGENAS BOLIVIANOS QUECHUAS E AYMARAS: RELATO DE EXPERIÊNCIA
Comunicação Oral
1 USP
Contextualização
Na região sul americana o Brasil é um destino importante para os fluxos migratórios, por ser um país com um desenvolvimento econômico crescente e oportunidades laborais; a cidade de São Paulo é um dos principais destinos para grande parte desta população em busca de melhores oportunidades. A comunidade boliviana é um dos fluxos que recebe a cidade de São Paulo, chegando a ser a maior comunidade imigrante com Registro Nacional Migratório (RNM) entre os anos 2000 e 2024, segundo dados do Observatório das Migrações em São Paulo.
Importante destacar que migrantes bolivianos conformam um grupo diverso, pois a Bolívia é um Estado Plurinacional formado por 36 Nações Originárias. No último censo de 2012 tinha uma população de 10.059,856 habitantes, com destaque por serem majoritárias a Nação Quechua com 1.837,105 pessoas autodeclaradas e a Nação Aymara com 1.598,807 pessoas autodeclaradas.
Um dos principais desafios no contexto de imigração na América do Sul está vinculado a população indígena imigrante, sendo que uma parte expressiva se encontra em contexto urbano trazendo diversos desafios para estas comunidades como para os equipamentos de saúde.
Descrição
A Equipe de Base Warmis-Convergência das Culturas conformado por mulheres imigrantes voluntárias de diferentes nacionalidades, tem focado entre suas ações o acesso a saúde da população imigrante, com destaque para pauta indígena. Este relato narra as ações do coletivo do qual sou parte como membra fundadora, em torno aos desafios e dificuldades no acesso a saúde de pessoas imigrantes que se autodeclaram como indígenas quéchuas e aymaras maioritariamente de nacionalidade boliviana; desde uma posicionalidade como mulher imigrante quéchua boliviana ativista e pesquisadora (doutoranda ProMuSPP- EACH/USP).
Período de Realização
Do dia 01/05/2016 ainda em curso, foram realizadas uma série de ações direcionados para diferentes âmbitos destinados para pessoas imigrantes, organizações do terceiro setor e servidores de equipamentos de saúde no município de São Paulo.
Entre as ações desenvolvidas foi criado um frente de ação de saúde dentro do equipe de base focado em desenvolver materiais para democratizar as informações de acesso a saúde para pessoas imigrantes, realizar capacitações dentro da comunidade imigrante com estes materiais promovendo o diálogo em torno a estes temas, produção de material para difusão num programa de rádio, organização e participação em diferentes eventos sobre a pauta de saúde de imigrantes indígenas, produção de material para divulgação em redes sociais, participação como parte da equipe coordenadora da “Rede de cuidados em Saúde para Imigrantes, Refugiados, Apátridas e Retornados”, parceria para a tradução dos materiais com a Coordenação de Políticas para Imigrantes (CPMig)/SP, co- fundadoras do Centro Cultural Andino Amazónico.
Objetivo
Relatar a experiência da Equipe de Base Warmis- Convergência das Culturas na interlocução com diferentes âmbitos de participação política, em relação a comunidade imigrante e outros públicos, para a visibilização da presença de pessoas imigrantes indígenas quéchuas e aymaras entre outras etnias/nacionalidades indígenas no contexto urbano da cidade de São Paulo para garantir seu acesso aos direitos sociais assim como o direito a saúde com respeito a suas práticas e saberes.
Resultados
As ações realizadas ajudaram a construir novas parcerias com organizações que realizam trabalhos com a população imigrante, trouxe também diálogos e encontros com pessoas e coletivos da comunidade imigrante, aumento a incidência política da equipe de base, como também ajudou a levantar esta pauta em diferentes espaços de discussão e construção de políticas públicas.
Aprendizado e Análise Crítica
Desenvolvemos novas formas de parcerias, aprimoramos o trabalho coletivo dentro da equipe de base utilizando conhecimentos e aprendizados que encontramos na academia, ressignificamos experiências pessoais em relação ao acesso a saúde em contexto de migração, relembramos e valorizamos nossos saberes, tecendo pontes propiciamos o diálogo com outras formas de cuidar e fazer saúde.
A experiência relatada mostra que é possível ter alguma incidência política em diferentes espaços de participação, ainda que as pessoas imigrantes não tenham direitos políticos no Brasil até o dia de hoje. O movimento social constituído por pessoas imigrantes indígenas precisa de diversas estratégias e parcerias para ampliar sua participação na construção de políticas públicas que as contemplem; num contexto onde tem que disputar espaço na arena política lembrando ao poder público da sua existência, lutando contra o apagamento da sua cultura e de suas práticas. Sendo vital para sua crescente adaptação na sociedade brasileira e para ter acesso a direitos socias com equidade.
MIGRAÇÃO, VULNERABILIDADE E CUIDADO: O ENCONTRO COM OS WARAO
Comunicação Oral
1 UECE; UNIVERSIDADE CHRISTUS
2 UNIVERSIDADE CHRISTUS
3 UECE
Contextualização
A migração forçada tem se intensificado em decorrência de crises econômicas, instabilidade política e violações de direitos humanos. No contexto latino-americano, a crise venezuelana provocou o deslocamento de diferentes grupos populacionais, incluindo o povo indígena Warao, originário do Delta do Orinoco.
A partir de 2016, muitas famílias Warao passaram a migrar para o Brasil, estabelecendo-se inicialmente na região Norte e, posteriormente, em cidades do Nordeste, como Fortaleza. Esse deslocamento produziu importantes mudanças nas formas de vida, expondo a população a situações de pobreza, insegurança alimentar, moradia precária, desemprego e exclusão social.
No campo da saúde, apesar do acesso formal ao Sistema Único de Saúde (SUS), os Warao enfrentam barreiras linguísticas, culturais e institucionais que dificultam o acolhimento e a continuidade do cuidado. A ausência de intérpretes, a limitação do diálogo entre saberes tradicionais e biomédicos e a fragilidade da articulação entre a atenção primária e a política de saúde indígena contribuem para a produção de iniquidades.
Nesse contexto, as experiências extensionistas desenvolvidas por estudantes de Medicina junto à comunidade Warao em Fortaleza tornam-se importantes para compreender vulnerabilidades, fortalecer vínculos e refletir sobre práticas de cuidado interculturais.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa, descritiva e de inspiração etnográfica, realizado em território adscrito a uma Unidade de Atenção Primária à Saúde de Fortaleza e no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI). As atividades iniciaram-se com territorialização e visitas domiciliares, permitindo conhecer as condições de vida, a dinâmica familiar e os principais desafios enfrentados pelas famílias. Em seguida, foram realizadas ações de manejo de pediculose, avaliação antropométrica, aferição de sinais vitais, orientações de higiene e nutrição, atividades de promoção da saúde bucal e visita técnica ao DSEI Fortaleza.
Período de Realização
As ações ocorreram entre agosto e novembro de 2025.
Objetivo
Compreender as vulnerabilidades em saúde vivenciadas pela comunidade Warao e refletir sobre os aprendizados produzidos a partir da atuação extensionista em contextos interculturais.
Resultados
As experiências revelaram que as principais vulnerabilidades estavam relacionadas às condições de moradia, à dificuldade de acesso à alimentação adequada, à presença de pediculose, alterações nutricionais, problemas odontológicos e barreiras linguísticas. A limitação na comunicação dificultava a compreensão das orientações e comprometia a continuidade do cuidado. Além disso, observou-se desarticulação entre os serviços da atenção primária e a política de saúde indígena, produzindo lacunas assistenciais e dificultando o acompanhamento das famílias.
As ações educativas em saúde mostraram-se mais efetivas quando realizadas de forma visual, prática e participativa. O uso de demonstrações, atividades lúdicas e linguagem simples facilitou a adesão às orientações, especialmente entre crianças. As atividades de saúde bucal, por exemplo, despertaram interesse da comunidade e contribuíram para a incorporação de hábitos de higiene oral. Do mesmo modo, a abordagem sobre pediculose permitiu reduzir estigmas e ampliar o entendimento sobre prevenção e manejo.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência produziu impactos relevantes na formação dos estudantes, ampliando a compreensão sobre determinantes sociais da saúde, desigualdades, racismo estrutural, xenofobia e interculturalidade. Também fortaleceu habilidades relacionadas à escuta qualificada, comunicação empática e respeito às especificidades culturais. Os aprendizados obtidos reforçam a necessidade de práticas de cuidado culturalmente sensíveis, capazes de reconhecer saberes tradicionais, línguas e modos próprios de viver e cuidar.
A visita ao DSEI possibilitou compreender os limites e potencialidades da política de saúde indígena para populações em contexto urbano. Embora o subsistema de atenção à saúde indígena tenha sido pensado prioritariamente para povos aldeados, a presença crescente de indígenas migrantes em cidades exige novas formas de organização do cuidado e maior articulação entre os diferentes pontos da rede de atenção.
A experiência demonstra que o cuidado à população Warao não pode ser restrito a ações pontuais, sendo necessária a construção de estratégias intersetoriais, contínuas e articuladas entre saúde, assistência social, educação e direitos humanos. Dessa forma, o relato contribui para problematizar os desafios do cuidado em contextos de migração forçada e reforça a importância de uma atenção em saúde baseada no acolhimento, na interculturalidade e na justiça social.
ENTRE DOIS MUNDOS: MINHA TRAVESSIA COMO MÉDICO MIGRANTE
Comunicação Oral
1 Fiocruz Amazonas
Contextualização
A presente carta insere-se no contexto das experiências vividas por profissionais de saúde que atravessam processos migratórios em busca de melhores condições de vida e trabalho. Nos últimos anos, o Brasil tem se tornado destino de muitos migrantes, especialmente oriundos da América Latina, que enfrentam desafios significativos ao chegar ao país, como barreiras linguísticas, dificuldades de inserção profissional, distanciamento familiar e situações de preconceito.
No campo da saúde, esses desafios se tornam ainda mais complexos quando se trata de profissionais formados em outros países, que precisam revalidar seus diplomas e reconstruir suas trajetórias em um novo sistema de saúde. Esse processo, muitas vezes longo e desgastante, exige não apenas preparo técnico, mas também resiliência emocional e capacidade de adaptação.
É nesse cenário que se desenvolve a narrativa apresentada, que retrata a travessia de um médico migrante entre dois mundos: o de origem, marcado por vínculos afetivos e identidade cultural, e o de destino, permeado por incertezas, desafios e conquistas. Mais do que uma história individual, esta carta representa a vivência de muitos que, ao migrarem, não apenas buscam novas oportunidades, mas também reinventam a si mesmos em meio às adversidades
Descrição
A carta apresenta o relato de vida de um médico migrante que deixa seu país de origem em busca de melhores condições de vida e de realização profissional. A narrativa descreve, de forma sensível e emocional, os desafios enfrentados desde a despedida da família, a chegada ao Brasil, as dificuldades com o idioma, a inserção no mercado de trabalho e o processo de revalidação do diploma.
Ao longo do texto, são evidenciados sentimentos como saudade, medo, insegurança, mas também esperança, superação e conquista. A carta também aborda experiências de preconceito e xenofobia, destacando o impacto dessas situações na trajetória do migrante. Apesar das dificuldades, o autor demonstra resiliência e capacidade de adaptação, conseguindo reconstruir sua vida pessoal e profissional.
Além disso, a narrativa enfatiza a importância da atuação na Atenção Primária à Saúde, destacando o cuidado humanizado, a escuta e o acolhimento como elementos centrais da prática médica. A experiência como migrante contribui para uma maior empatia no atendimento, especialmente com pacientes em situação semelhante.
Dessa forma, a carta não apenas relata uma trajetória individual, mas também evidencia aspectos sociais e humanos do processo migratório, mostrando como essa vivência transforma tanto o profissional quanto sua forma de cuidar
Período de Realização
2024-2026
Objetivo
A carta também tem como objetivo refletir sobre como essa vivência influencia a prática profissional, especialmente no contexto da Atenção Primária à Saúde, ressaltando a importância do acolhimento, da empatia e do cuidado humanizado com pessoas em situação de vulnerabilidade.
Resultados
Como resultado, observa-se a transformação do sujeito não apenas enquanto profissional, mas também enquanto ser humano, desenvolvendo maior sensibilidade, empatia e capacidade de acolhimento. A experiência como médico migrante contribui para uma prática mais humanizada, especialmente no cuidado de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Além disso, a carta reforça a importância da Atenção Primária à Saúde como espaço fundamental de cuidado integral, onde o acolhimento e a escuta qualificada se tornam essenciais para atender populações diversas, incluindo migrantes. Dessa forma, o relato permite refletir sobre a necessidade de fortalecer práticas mais inclusivas e sensíveis às diferenças culturais no contexto da saúde
Aprendizado e Análise Crítica
A carta evidencia que o processo migratório vai além de uma mudança geográfica, sendo uma experiência complexa que envolve aspectos emocionais, sociais e profissionais. O principal aprendizado está relacionado ao desenvolvimento da resiliência, da empatia e da capacidade de adaptação diante das adversidades. A trajetória descrita demonstra que as dificuldades enfrentadas , como barreiras linguísticas, saudade da família, inserção no mercado de trabalho e episódios de preconceito, podem contribuir para o crescimento pessoal e para a construção de uma prática profissional mais sensível e humanizada.
No campo da saúde, especialmente na Atenção Primária, o relato reforça a importância do acolhimento, da escuta qualificada e do respeito às diferenças culturais. A vivência como migrante possibilita ao profissional uma compreensão mais profunda das vulnerabilidades dos pacientes, qualificando o cuidado prestado.
Do ponto de vista crítico, a carta também revela fragilidades estruturais, como a dificuldade de reconhecimento de diplomas estrangeiros, a presença de xenofobia no ambiente de trabalho e as barreiras de acesso enfrentadas por migrantes nos serviços de saúde. Esses aspectos evidenciam a necessidade de políticas públicas mais inclusivas e de estratégias que promovam a equidade no cuidado
Realização: