Programa - Comunicação Oral - CO17.3 - Protagonismo dos povos tradicionais, seus saberes ancestrais no campo da educação popular e as contribuições na saúde coletiva nos territórios (3)
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
OFICINAS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE PARA FORTALECER COMUNICAÇÃO E CUIDADO NO TERRITÓRIO: UMA PESQUISA AÇÃO
Comunicação Oral
1 UFPB/SMS JOÃO PESSOA
2 UFPB/SMS Recife
3 UFPB
Apresentação/Introdução
No âmbito da Estratégia Saúde da Família (ESF), a promoção da saúde e a prevenção de agravos constituem pilares do Sistema Único de Saúde (SUS), exigindo práticas que transcendam a abordagem biomédica e alcancem a complexidade dos territórios. Nessa direção, o cuidado demanda o reconhecimento de saberes locais, práticas culturais e diferentes formas de compreender o processo saúde, doença, adoecimento e cuidado. Contudo, em contextos de vulnerabilidade social, o baixo letramento em saúde e o tecnicismo profissional dificultam a construção de um diálogo horizontal, limitando a efetividade do cuidado e a participação dos sujeitos.
Objetivos
Analisar e co-construir, em processo participativo com profissionais, usuários e comunidade, estratégias para a implementação de práticas colaborativas, interprofissionais e humanizadas na Atenção Primária à Saúde, à luz da Educação Popular em Saúde, considerando a centralidade do letramento em saúde, o protagonismo dos usuários e a integração entre saberes técnico-científicos e populares.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa-ação fundamentada na Educação Popular em Saúde. O estudo envolveu usuários e profissionais da ESF, que participaram ativamente da identificação de problemas e da construção de estratégias no cotidiano do cuidado. Foram utilizados instrumentos para avaliação do alfabetismo funcional em saúde, além de oficinas participativas orientadas por metodologias dialógicas.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciaram que 12 (92,3%) dos usuários apresentaram alfabetismo funcional em saúde inadequado, configurando um determinante social que impacta diretamente a compreensão e a adesão terapêutica. Observou-se que o letramento insuficiente não se restringe a uma dimensão cognitiva, mas expressa desigualdades sociais que atravessam o acesso e a produção do cuidado. Como estratégia de enfrentamento, foram desenvolvidas oficinas participativas na perspectiva da educação popular em saúde: café da manhã coletivo, bingo educativo, colcha de retalhos, jogo da memória e construção de mural de desenhos, com o objetivo de qualificar a comunicação e ampliar a compreensão dos usuários acerca do processo saúde, doença, adoecimento e cuidado. Essas atividades favoreceram a criação de espaços dialógicos, nos quais os sujeitos puderam compartilhar experiências, saberes e sentidos atribuídos ao cuidado, deslocando a centralidade da transmissão vertical de informações. Nesse contexto, a utilização de recursos visuais e lúdicos, inspirados no cotidiano dos participantes, mostrou-se potente para a mediação do cuidado, contribuindo para a redução de ruídos comunicacionais e para o fortalecimento do protagonismo dos usuários. Além disso, o trabalho interprofissional articulado a essas práticas ampliou a capacidade de resposta da equipe frente às necessidades do território, evidenciando a importância de abordagens culturalmente situadas e participativas na atenção primária.
Conclusões/Considerações Finais
O percurso trilhado evidenciam que enfrentar as limitações do letramento em saúde, em contextos de vulnerabilidade, não se restringe à simplificação da informação, mas implica reconfigurar as formas de produzir o cuidado na APS valorizando os sujeitos e a produção de vida no território. As oficinas desenvolvidas, ancoradas em práticas cotidianas e culturalmente situadas, mostraram-se potentes para deslocar a comunicação de um modelo transmissivo para uma construção compartilhada de sentidos, favorecendo o protagonismo dos usuários. Mais do que ampliar a compreensão sobre o processo saúde, doença, adoecimento e cuidado, tais estratégias tensionam o tecnicismo presente no trabalho em saúde e reforçam a necessidade de incorporar os saberes, fazeres e práticas do território no cuidado. Nessa direção, a integração entre conhecimento técnico científico e saberes populares se afirma como prática concreta, produzida no encontro entre profissionais, usuários e comunidade, contribuindo para a construção de um cuidado mais equânime, dialógico e territorializado no SUS.
POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA EM TERRITÓRIOS CANAVIEIROS: ESTRUTURAÇÃO DE ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO POPULAR PARA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA E COMUNICAÇÃO EM SAÚDE
Comunicação Oral
1 Instituto Aggeu Magalhães/ Fiocruz PE
2 Secretaria de Educação do Recife
Apresentação/Introdução
O Letramento Científico em Saúde consiste em uma estratégia importante para preparar cidadãos reflexivos e futuros profissionais que compreendam das qualidades únicas da ciência em um contexto social (De Menezes; Figueiredo, 2024). Em ambientes onde há a instalação de empreendimentos e atividades econômicas de alto potencial poluidor, as atividades formativas são fundamentais para contribuir na redução de riscos de desastres, colaborando para a construção da cidadania, a partir da compreensão da situação de risco em que vivem populações vulnerabilizadas historicamente pelo processo de desenvolvimento (Da Silva Rosa et al, 2015). A comunicação popular é uma estratégia importante feita nos territórios para os territórios.
A atuação técnico-científica do Estado e das grandes empresas poluidoras envolve práticas de ocultação dos riscos, com “elaboração de sofisticados mecanismos de construção de ignorância”, o que dificulta a regulação adequada de produtos e espaços tóxicos, e a compreensão dos reais impactos dessas atividades (Capilé, 2023). Na Mata Norte de Pernambuco, mediante o Monitoramento Ambiental Comunitário (MAC), foram produzidos estudos sobre os níveis de poluição atmosférica, decorrentes da queima da cana-de-açúcar, e a divulgação científica no território foi pensada como uma estratégia a ser protagonizada por membros da comunidade, contribuindo para a promoção da saúde.
Objetivos
Difundir as repercussões da poluição atmosférica decorrente da queima da cana-de-açúcar entre estudantes do ensino fundamental mediante a produção audiovisual.
Metodologia
A proposta teve como pressuposto o protagonismo dos sujeitos do território, pela produção de material comunicacional sobre a poluição atmosférica, decorrente da queima da cana-de-açúcar e suas repercussões no território. As atividades foram realizadas em uma escola quilombola no município de Goiana, um dos maiores produtores de cana-de-açúcar do estado de Pernambuco, entre novembro e dezembro de 2025. Foram selecionados 11 estudantes, todas do sexo feminino, a partir da indicação da direção da Escola, com idades entre 13 e 16 anos, para participar da atividade. Foram realizados cinco encontros presenciais na escola escolhida, no contraturno das aulas, para difundir os resultados da pesquisa, discutir os impactos da poluição atmosférica para a saúde e o ambiente e discutir com os participantes os instrumentos e técnicas de produção audiovisual utilizando smartphones.
Os participantes foram divididos em 3 grupos, e participaram da formação sobre a produção de vídeos com seus próprios smartphones. Cada grupo produziu um vídeo curto narrando a perspectiva da população afetada pela poluição atmosférica derivada da queima da cana-de-açúcar. Ao final, foi realizado uma Mostra de Cinema na escola, com o objetivo de premiar o melhor vídeo.
Resultados e Discussão
No primeiro encontro abordaram-se conceitos básicos sobre poluição atmosférica e os resultados do MAC. Os encontros 2, 3 e 4 voltaram-se para roteiros e elementos da produção audiovisual: enquadramento, captação de som e imagem, entrevistas e demais materiais para a produção de vídeos, incluindo visita de campo ao território. Foram realizadas gravações de imagens e de entrevistas no território com o uso do celular, para posterior montagem, edição e finalização dos vídeos.
No quinto encontro, realizou-se a Mostra de Cinema para exibição dos três vídeos produzidos pelos grupos para toda a comunidade escolar e representantes da Secretaria de Educação. Todos os presentes receberam cédulas de votação, para, em sigilo, elegerem o vídeo que mais gostaram, e o grupo responsável pelo vídeo vencedor foi premiado.
Conclusões/Considerações Finais
A experiência de produção de vídeos sobre a poluição atmosférica em territórios canavieiros demonstrou o potencial das estratégias de divulgação científica e comunicação em saúde fundamentadas no protagonismo juvenil e na valorização dos saberes locais. Destaca-se a potência da ciência cidadã como abordagem capaz de romper com a lógica tradicional de produção de conhecimento, frequentemente centralizada em instituições acadêmicas e distante das realidades locais. A experiência evidenciou que práticas educativas contextualizadas, participativas e interdisciplinares são fundamentais para a promoção da saúde e para a construção de territórios mais justos, saudáveis e sustentáveis. Ao articular educação, comunicação e ciência, iniciativas como esta contribuem para o enfrentamento das desigualdades socioambientais, fortalecendo processos coletivos de conscientização, resistência e transformação social.
PROTAGONISMO QUILOMBOLA: RODA DE CONVERSA COMO FERRAMENTA DE ANÁLISE DE TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS NO SERTÃO NORDESTINO
Comunicação Oral
1 UFPE
2 Fiocruz PE
Apresentação/Introdução
O movimento negro, apoiado por indivíduos e coletivos solidários à causa negra, potencializou a reemergência no Brasil da designação do termo quilombo na Constituição Federal de 1988. Entretanto, o reconhecimento desses direitos à população quilombola tem ocorrido em espaços de conflitos e controvérsias1.
As políticas destinadas aos quilombolas significam a possibilidade de garantia da cidadania que lhes foi negada ao longo da história2. Essas comunidades têm se organizado por meio de associações, que surgiram lentamente no país e que têm se constituído como espaços importantes nas decisões sociais, políticas e econômicas3.
Nesse contexto, a pesquisa partiu do pressuposto de que a população quilombola deve assumir o protagonismo no processo de análise da realidade e das fragilidades e potencialidades do território que habita. Os resultados apresentados fazem parte do projeto “Acesso à saúde e formas de enfrentamento das vulnerabilidades sociais: a percepção das comunidades quilombolas no município de Custódia-PE.”
Objetivos
Analisar a percepção da população quilombola sobre as fragilidades e as potencialidades das comunidades certificadas no município de Custódia – Pernambuco.
Metodologia
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, no município de Custódia, localizado no sertão pernambucano e possui 97 localidades quilombolas, ocupando a quarta posição entre os municípios brasileiros4. Dados da Fundação Cultural Palmares registram 12 comunidades quilombolas certificadas.
Foram realizadas 12 rodas de conversas entre junho e agosto de 2025, com a participação total de mais de 230 pessoas, mediadas por professores da rede municipal de educação, previamente treinados pela equipe do Projeto.
Foi realizada a técnica de Visualização Móvel, para tornar visível as questões que emergiram nos debates e foram feitos relatórios e documentação dos encontros por meio de fotos, vídeos e áudios.
O estudo compõe pesquisa aprovada pela Chamada Nº 21/2023 - Estudos Transdisciplinares em Saúde Coletiva, com financiamento do Decit/SECTICS/MS e CNPq e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa/IAM-Fiocruz-PE (Parecer nº 7.282.053).
Resultados e Discussão
A participação da população foi essencial para percepção de todos os aspectos que formam os territórios extrapolando o conhecimento geográfico. Emergiram dos debates, fragilidades e potencialidades relacionadas às dimensões da Saúde, Educação, Saneamento Ambiental, Sistema Viário, Desenvolvimento Cultural e Organização Social.
A falta de unidades de saúde nas comunidades, o acesso precário às unidades existentes, a ausência de ambulâncias e de agentes de saúde foram problemas identificados. Na educação, a ausência de escolas e professores nas comunidades e a dependência do transporte escolar para deslocamento, muitas vezes precários, foram recorrentes. A dificuldade ao acesso à água de qualidade foi a principal adversidade relacionada ao saneamento ambiental, além da falta de cisternas, água potável e poços comunitários. Para o sistema viário, o principal problema apontado foi a manutenção precária das estradas na maioria das comunidades.
Por outro lado, há comunidades que reconhecem a existência de unidades de saúde em seus territórios e a presença de escolas como importantes oportunidades para os quilombolas. Em alguns territórios, a conquista de poços comunitários e o uso de recursos naturais disponíveis de forma sustentável mereceram destaque. O desenvolvimento cultural recebeu apenas destaques positivos, reforçando a presença de samba de coco, banda de pífano e religiosidade. Por fim, a organização das associações foi uma potencialidade apontada em relação à organização social, reconhecendo seu papel na conquista de direitos.
Conclusões/Considerações Finais
Observou-se uma oferta desigual de serviços e oportunidades que fragiliza a garantia da cidadania plena a uma população que historicamente luta contra a marginalização social.
O território constitui-se como elemento essencial para a reprodução social, física, simbólica e econômica das comunidades quilombolas. Nesse sentido, o reconhecimento de suas fragilidades e potencialidades é fundamental para compreender em que medida as políticas públicas têm alcançado, ou não, os territórios quilombolas.
É fundamental assumir que a população quilombola é sujeito ativo e propósito de suas definições, reconhecendo-a como protagonista no processo de questionamento e construção de sua realidade.
SABERES FEMININOS E PRÁTICAS DE CUIDADO NA AMAZÔNIA: INTERFACES COM OS ODS 3, 5 E 10
Comunicação Oral
1 UEA
Apresentação/Introdução
O cuidado, entendido como processo ecológico, político e relacional, constitui dimensão central das vivências de mulheres ribeirinhas, indígenas e quilombolas na Amazônia. Esses saberes femininos, transmitidos entre gerações, manifestam-se em práticas como uso de plantas medicinais, rituais de cura, partejo tradicional, benzimentos e manejo de quintais agroecológicos, contribuindo para a manutenção da vida e a preservação cultural e ambiental dos territórios. Em contextos marcados por desigualdades sociais e dificuldades de acesso aos serviços de saúde, essas práticas tornam-se estratégias importantes para o bem-estar coletivo e a continuidade de modos de vida tradicionais. Apesar de sua relevância, esses conhecimentos permanecem frequentemente invisibilizados nas políticas públicas e na produção científica da saúde coletiva. Nesse sentido, torna-se necessário compreender como os saberes femininos amazônicos dialogam com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente os ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), 5 (Igualdade de Gênero) e 10 (Redução das Desigualdades).
Objetivos
Analisar a produção científica recente sobre a interface entre cuidado, saberes femininos e sustentabilidade na Amazônia, buscando compreender como essas práticas contribuem para a promoção da saúde integral, valorização cultural e redução das desigualdades sociais e territoriais.
Metodologia
Este resumo deriva de uma revisão bibliográfica de abordagem qualitativa sobre as intersecções entre cuidado, saberes femininos e sustentabilidade na Amazônia. A pesquisa baseou-se na análise de publicações científicas relacionadas às vivências de mulheres ribeirinhas, indígenas e quilombolas e sua relação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 (Saúde e Bem-Estar), 5 (Igualdade de Gênero) e 10 (Redução das Desigualdades). As buscas foram realizadas nas bases SciELO, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), considerando publicações entre 2020 e 2025. Foram excluídos editoriais, resenhas e documentos sem revisão por pares. A seleção ocorreu por meio da leitura de títulos, resumos e textos completos, resultando na inclusão de 32 estudos para a discussão. Os estudos selecionados foram organizados em eixos temáticos e analisados por meio da técnica de análise de conteúdo de Bardin, permitindo identificar categorias relacionadas às práticas de cuidado, sustentabilidade socioambiental, saberes tradicionais e desigualdades sociais.
Resultados e Discussão
A análise da literatura permitiu identificar três categorias principais: saúde e bem-estar na Amazônia, igualdade de gênero e valorização dos saberes femininos e redução das desigualdades com protagonismo das mulheres amazônidas. No campo da saúde e bem- estar, os estudos evidenciam que práticas de cuidado conduzidas por mulheres, como o
uso de plantas medicinais, a organização higiênica do lar, a alimentação baseada em saberes tradicionais e os cuidados materno-infantis realizados por parteiras, constituem estratégias cotidianas de promoção da saúde e manutenção da vida comunitária. Essas práticas assumem papel ainda mais relevante em territórios onde o acesso aos serviços de saúde é limitado ou irregular. No que se refere à igualdade de gênero, a literatura destaca o protagonismo das mulheres indígenas, quilombolas e ribeirinhas na preservação de conhecimentos ancestrais, no cuidado com o território e na transmissão cultural entre gerações. Mesmo diante de desafios persistentes, como a invisibilidade institucional, a sobrecarga de trabalho e as desigualdades estruturais, essas mulheres constroem redes de cuidado que sustentam a vida comunitária. No eixo da redução das desigualdades, os estudos demonstram que as práticas de cuidado desenvolvidas por mulheres amazônicas também constituem formas de resistência cultural e política, contribuindo para a defesa dos territórios e para a construção de alternativas de sustentabilidade socioambiental. Entretanto, observa-se que parte da produção científica ainda reconhece o protagonismo feminino sem aprofundar suficientemente os impactos dessas práticas na vida cotidiana das mulheres, evidenciando lacunas que demandam maior atenção da pesquisa em saúde coletiva.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados evidenciam que os saberes femininos amazônicos constituem práticas fundamentais para a promoção da saúde integral, para a preservação cultural e para a construção de estratégias de sustentabilidade socioambiental. Ao articular cuidado, território e ancestralidade, as mulheres amazônicas desenvolvem formas de resistência que enfrentam desigualdades históricas e fortalecem a autonomia comunitária. Reconhecer e integrar esses saberes nas políticas públicas de saúde e nos debates da saúde coletiva constitui um passo essencial para a construção de modelos de cuidado mais interculturais, equitativos e sensíveis às realidades territoriais da Amazônia.
TECNOLOGIA SOCIAL E PROTAGONISMO FEMININO EM COMUNIDADE QUILOMBOLA: DIGNIDADE MENSTRUAL, EMPREENDEDORISMO E SUSTENTABILIDADE NO SEMIÁRIDO BAIANO
Comunicação Oral
1 UFBA IMS
Contextualização
A persistência da pobreza menstrual e da exclusão produtiva de mulheres quilombolas no Brasil evidencia desigualdades estruturais que articulam gênero, raça e território, incidindo diretamente sobre os determinantes sociais da saúde. Nesse contexto, a limitação de acesso a produtos de higiene menstrual, associada à baixa inserção no mercado de trabalho e à sobrecarga de atividades domésticas, contribui para a reprodução de ciclos intergeracionais de vulnerabilidade. Mais do que uma privação material, trata-se de um fenômeno que impacta a autonomia, a participação social e as condições de cuidado dessas mulheres. Diante desse cenário, iniciativas que articulam cuidado, geração de renda e sustentabilidade têm ganhado centralidade, especialmente quando desenvolvidas a partir de práticas extensionistas comprometidas com as especificidades territoriais. A incorporação de princípios da economia circular em contextos comunitários potencializa essas estratégias ao ressignificar resíduos, promover autonomia econômica e integrar dimensões ambientais às ações de enfrentamento das desigualdades, especialmente em territórios historicamente marginalizados.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência fundamentado na abordagem da pesquisa-ação, em comunidades quilombolas do sudoeste baiano, envolvendo mulheres em contexto de vulnerabilidade socioeconômica. A intervenção foi construída a partir de um diagnóstico participativo, que articulou visitas de campo, escuta qualificada e análise das condições de vida, evidenciando insegurança alimentar, ausência de renda própria e limitações no acesso à saúde menstrual. A estratégia metodológica integrou saberes acadêmicos e conhecimentos locais, orientando a construção coletiva de uma tecnologia social centrada na capacitação em corte e costura, educação em saúde da mulher e organização produtiva. As ações formativas incluíram 24 horas de capacitação técnica, complementadas por conteúdos de gestão, comercialização e autonomia financeira. O modelo produtivo foi organizado com base no reaproveitamento de tecidos, viabilizando a confecção de ecobags, absorventes reutilizáveis e peças artesanais, em uma lógica de economia circular que articula redução de resíduos, geração de valor e fortalecimento comunitário. A implementação ocorreu de forma progressiva, considerando o engajamento e o desenvolvimento das habilidades das participantes.
Período de Realização
Desenvolvido entre 04/2023 e 11/2024.
Objetivo
Este trabalho tem como objetivo sistematizar e analisar criticamente os processos, resultados e aprendizados de uma experiência de tecnologia social voltada à promoção da dignidade menstrual, geração de renda e sustentabilidade em comunidades quilombolas do semiárido baiano, considerando seus impactos nos determinantes sociais da saúde.
Resultados
Os resultados evidenciam a consolidação de um grupo produtivo formado por mulheres que passaram a desenvolver e comercializar peças sustentáveis, com impactos diretos na geração de renda e na construção de autonomia. Foram capacitadas 15 mulheres, totalizando impacto direto em 85 pessoas. No campo ambiental, destacam-se o reaproveitamento de 22 kg de tecidos e a redução estimada de 914 kg de gases de efeito estufa, além da produção de mais de 100 peças ecológicas. No âmbito da saúde, ações educativas sobre dignidade menstrual alcançaram mais de 50 pessoas, ampliando o acesso à informação e ao cuidado.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência permitiu evidenciar que tecnologias sociais não se consolidam a partir de modelos previamente definidos, mas por meio de ajustes contínuos construídos na interação entre equipe e comunidade. Ao longo do processo, mudanças estratégicas — como a reorientação do foco produtivo e a adequação das atividades às habilidades das participantes — mostraram que a flexibilidade metodológica não constitui fragilidade, mas elemento central para a sustentabilidade das ações. Outro aspecto relevante refere-se à importância de articular geração de renda e produção de sentido. Para além dos resultados econômicos, a experiência indicou que o envolvimento das participantes está fortemente associado ao reconhecimento de si enquanto capazes de produzir, decidir e ocupar espaços de circulação econômica. Esse processo contribui para o fortalecimento do protagonismo feminino e para a ressignificação de papéis sociais historicamente marcados pela exclusão.
Do ponto de vista analítico, a iniciativa demonstra que a integração entre dignidade menstrual, economia circular e empreendedorismo comunitário pode operar como estratégia concreta de enfrentamento das desigualdades, ao atuar simultaneamente sobre múltiplas dimensões dos determinantes sociais da saúde. Entretanto, a experiência também explicita limites, como dependência de recursos externos, desafios logísticos inerentes ao contexto rural e necessidade de maior estruturação para ampliação da produção. Tais elementos indicam que a continuidade e expansão de iniciativas dessa natureza requerem articulação com políticas públicas e redes institucionais.
TERRITÓRIO, MEMÓRIA E RESISTÊNCIA: APRENDIZADOS DE UMA IMERSÃO EM COMUNIDADES QUILOMBOLAS DO PIAUÍ PARA A EQUIDADE EM SAÚDE
Comunicação Oral
1 UFPI
2 FIOCRUZ/PI
3 FIOCRUZ
Contextualização
Este relato de experiência sistematiza reflexões produzidas a partir da inserção de uma pós-graduanda do Programa Saúde e Comunidade da Universidade Federal do Piauí no projeto “Saúde como Resistência da População Quilombola Piauiense”, coordenado pelo professor Dr. Osmar de Oliveira Cardoso.
Descrição
A experiência está ancorada no campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde e parte da compreensão do território como categoria analítica, política e simbólica, no qual se entrelaçam memória, ancestralidade, identidade, modos de vida e produção do cuidado. Mais do que delimitação geográfica, o território quilombola revelou-se espaço de resistência histórica, produção de pertencimento e afirmação de direitos, fundamental para pensar a equidade em saúde da população negra.
Período de Realização
A vivência iniciou-se em maio de 2025, com participação em reuniões de planejamento, leituras teórico-metodológicas, aproximação comunitária e organização das estratégias de campo. Entre outubro e dezembro de 2025, foram realizadas imersões em comunidades quilombolas localizadas nos municípios de São João da Varjota, São Raimundo Nonato e Várzea Branca, no Piauí.
Objetivo
O percurso territorial possibilitou reconhecer diferentes expressões do protagonismo político-comunitário e dos saberes ancestrais como dispositivos de cuidado e manutenção da vida.
Resultados
Na comunidade Potes, destacou-se a produção artesanal de barro como tecnologia ancestral transmitida intergeracionalmente, articulando renda, identidade cultural e memória coletiva. Em Paquetá, emergiu a centralidade da água como determinante social e político da saúde, sobretudo diante dos impactos provocados pelo fechamento de uma represa, que reorganizou o cotidiano, a produção alimentar e as práticas de subsistência. Na comunidade Cepisa, mesmo em contexto de acesso geográfico precário e insuficiência de serviços públicos, observou-se forte capacidade organizativa local, materializada na construção de um museu comunitário e de uma biblioteca voltada à cultura negra, configurando dispositivos de educação popular, fortalecimento identitário e preservação da memória quilombola.
Os resultados evidenciaram que as iniquidades em saúde observadas ultrapassam a dimensão assistencial e expressam processos políticos de exclusão historicamente produzidos. As limitações no acesso à água potável, saneamento, coleta de resíduos, transporte, educação e serviços de saúde revelam não apenas precariedades estruturais, mas a persistência de um padrão de negligência estatal seletiva, que incide de forma mais intensa sobre territórios negros e tradicionais. Nesse sentido, a ausência ou fragilidade das políticas públicas nos quilombos visitados explicita como o racismo estrutural opera na distribuição desigual de recursos, oportunidades e proteção social.
Aprendizado e Análise Crítica
A queima do lixo como estratégia cotidiana diante da inexistência de coleta pública, a vulnerabilidade hídrica e as barreiras de acesso aos serviços de saúde materializam situações de injustiça socioambiental e racismo ambiental, produzidas por escolhas políticas que historicamente invisibilizam esses territórios na agenda pública. Assim, os achados apontam para a necessidade de compreender a determinação social da saúde quilombola a partir das relações entre raça, território, poder e Estado, evidenciando que a produção do adoecimento também decorre de processos institucionais de não reconhecimento e subfinanciamento das políticas destinadas à população negra.
Do ponto de vista político, a experiência evidenciou que os quilombos se constituem muito além de espaços de vulnerabilidade, mas também como sujeitos coletivos de luta, que tensionam permanentemente o Estado por reconhecimento, redistribuição e justiça. As formas comunitárias de organização, a oralidade, a memória, a ancestralidade e os saberes tradicionais emergem como práticas contra-hegemônicas que desafiam a centralidade biomédica e ampliam a compreensão sobre cuidado, saúde e bem viver. Nesse processo, o território aparece como arena de disputa política, onde se confrontam projetos de invisibilização e estratégias coletivas de resistência.
Como aprendizado central, a imersão revelou que a equidade em saúde para populações quilombolas exige mais do que ampliação de serviços: demanda políticas públicas antirracistas, territorializadas, intersetoriais e construídas com participação comunitária, capazes de reconhecer os quilombos como produtores legítimos de conhecimento e cuidado. Conclui-se que a escuta territorial qualificada, a valorização dos saberes ancestrais e o fortalecimento do protagonismo político quilombola são fundamentais para consolidar a interculturalidade, a justiça social e a defesa do SUS como projeto democrático comprometido com a vida dos povos tradicionais.
Realização: