Programa - Comunicação Oral - CO28.1 - Saúde Mental e trabalho
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
APOSTAS ESPORTIVAS ONLINE E AFASTAMENTO DO TRABALHO: EVIDÊNCIAS SOBRE TRANSTORNO DO JOGO E INCAPACIDADE LABORAL NO BRASIL
Comunicação Oral
1 UFBA
Apresentação/Introdução
Foi Johan Huizinga, em Homo Ludens, quem defendeu a tese de que o jogo, na sociedade moderna, se transfigurou em uma sistematização estéril, interessada e orientada por lógicas mercadológicas. A partir das contribuições sociológicas de Ricardo Antunes (2018), Pierre Dardot e Christian Laval (2016), é possível compreender que a expansão das apostas esportivas online no Brasil tem produzido novos padrões de adoecimento relacionados ao trabalho, no contexto do capitalismo financeirizado e da plataformização da vida social. No plano internacional, Viktor Månsson (2024) e colaboradores evidenciam associação entre transtorno do jogo e incapacidade laboral, com aumento significativo de afastamentos por doença, embora o recorte específico das apostas esportivas online permaneça pouco explorado, especialmente no Brasil. Nesse contexto, infere-se que tal dinâmica intensifica processos de exploração subjetiva, reconfigurando a relação entre trabalho, consumo e sofrimento psíquico.
Objetivos
Este estudo objetiva analisar a relação entre a expansão das apostas esportivas online e o afastamento temporário do trabalho por transtornos relacionados ao jogo, como parte de uma investigação mais ampla sobre fatores associados a problemas com apostas entre trabalhadores.
Metodologia
Trata-se de um recorte analítico de pesquisa em andamento, de natureza quantitativa e exploratória, articulado a uma revisão de escopo conforme as diretrizes do Joanna Briggs Institute (JBI). São analisados dados secundários provenientes de registros administrativos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), referentes à concessão de benefícios por incapacidade associados ao transtorno do jogo no período de janeiro de 2019 a junho de 2026, sendo considerados, neste trabalho, os dados de janeiro de 2019 a abril de 2025. A análise foi realizada por meio de estatística descritiva (frequências absolutas e relativas, distribuição por sexo, faixa etária e situação ocupacional), associada à análise temporal da evolução dos benefícios concedidos. Complementarmente, procedeu-se à análise interpretativa dos achados à luz da literatura científica internacional e do referencial da saúde do trabalhador.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam crescimento expressivo dos afastamentos por transtorno do jogo no Brasil, com aumento superior a 2.300% na concessão de auxílio-doença no período analisado, com base em registros do INSS. Destaca-se que os primeiros registros ocorreram a partir de 2023, coincidindo com a intensificação da presença das plataformas de apostas no país. Observa-se predominância de homens (73%) e concentração na faixa etária de 18 a 39 anos, evidenciando impacto sobre a população economicamente ativa. A maioria dos beneficiários encontrava-se empregada no momento do afastamento, reforçando a relação entre o transtorno e a incapacidade laboral. Em consonância com estudos internacionais apresentados por Jonas Rafi (2023), Rebecca Hudson Breen (2024) e Takashi Yoshioka (2024), o ambiente laboral emerge como espaço de manifestação e agravamento do jogo problemático, associado a fatores como organização do trabalho, disponibilidade tecnológica e estratégias de enfrentamento do estresse. Os dados também indicam subnotificação, relacionada ao diagnóstico tardio, à baixa procura por auxílio e à tendência de enquadramento em outras categorias diagnósticas, o que sugere que os números observados representam apenas a fração visível de um fenômeno mais amplo.
Conclusões/Considerações Finais
Como considerações finais, o transtorno do jogo associado às apostas online configura-se como um problema emergente de saúde do trabalhador, expressando contradições estruturais do capitalismo contemporâneo e seus efeitos sobre a subjetividade e a vida humana, que se manifestam na intensificação de processos de exploração, endividamento e sofrimento psíquico mediados pelas dinâmicas digitais de consumo. Tais processos produzem impactos relevantes na capacidade laborativa, na reprodução social da força de trabalho e nos sistemas de proteção social. À luz das contribuições de Jaime Breilh (2006), os achados apontam para a necessidade de reconhecimento institucional do fenômeno e da construção de estratégias intersetoriais de vigilância, prevenção e cuidado, orientadas pela determinação social do processo saúde-doença e pelas transformações contemporâneas do mundo do trabalho.
SALA DE AULA EM ALERTA: O IMPACTO DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO, SAÚDE E VIOLÊNCIAS NA PROFISSÃO DOCENTE
Comunicação Oral
1 EJA/FIOCRUZ
2 ENSP/FIOCRUZ
3 UERJ
Apresentação/Introdução
A profissão docente, historicamente reconhecida por sua relevância social, tem sido atravessada por intensas transformações que ampliam e complexificam suas atribuições. Para além do ensino, os professores assumem múltiplas funções pedagógicas, administrativas e socioemocionais, em um contexto marcado pela intensificação do trabalho, desvalorização profissional, baixos salários e fragilidade das políticas públicas. Esses fatores contribuem para a precarização das condições de trabalho e tornam a docência uma das categorias mais suscetíveis ao adoecimento físico e mental.Esse cenário evidencia a necessidade de compreender a saúde docente a partir de suas determinações sociais e territoriais, bem como de fortalecer as políticas públicas.
Objetivos
Nesse cenário, o presente estudo tem como objetivo compreender os efeitos das condições laborais, de gênero e as diferentes formas de violência na saúde de docentes atuantes no município de Duque de Caxias, localizado na periferia do estado do Rio de Janeiro.
Metodologia
Trata-se de um estudo de delineamento transversal, realizado com 160 professores da educação básica filiados ao Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (SEPE). A coleta de dados ocorreu entre os meses de setembro e dezembro de 2023, por meio da aplicação de questionários on-line. Foram investigadas variáveis relacionadas ao perfil sociodemográfico, às condições de trabalho, às experiências de violência no ambiente escolar, à situação geral de saúde e ao sofrimento psíquico, este último avaliado por meio da escala Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20). Para a análise dos dados, empregaram-se técnicas de estatística descritiva e regressão logística binária, visando identificar associações entre variáveis e o desfecho de sofrimento psíquico.
Resultados e Discussão
Os achados evidenciaram uma elevada prevalência de sofrimento psíquico entre os docentes, atingindo 71,1% dos participantes, sem diferenças estatisticamente significativas em relação a sexo, faixa etária ou nível de escolaridade. Entre os fatores associados ao sofrimento psíquico, destacaram-se a insatisfação com a própria saúde (51,6%) e a necessidade recorrente de atendimentos em serviços de urgência (37,7%). A análise das experiências de violência revelou um cenário alarmante, a maioria dos professores relatou exposição a situações de risco envolvendo armas de fogo (67,3%) e armas brancas (65,4%). Além disso, 78,6% afirmaram ter sofrido agressão física, 82,4% vivenciaram violência psicológica e 74,2%
relataram episódios de humilhação no ambiente de trabalho. Entre os docentes que apresentaram sofrimento psíquico, esses índices mostraram-se ainda mais elevados, com destaque para a violência psicológica (86,7%), a humilhação (78,8%) e a agressão física (29,2%).
No que diz respeito às condições de trabalho, observou-se um quadro de precarização crescente. A maioria dos participantes (86,8%) afirmou que o trabalho docente tem se deteriorado ao longo do tempo, enquanto 77,4% apontaram a escassez de oportunidades de formação continuada ofertadas pelas instituições públicas de ensino municipal e estadual. Ademais, fatores como o tempo excessivo de deslocamento até o trabalho, a atuação em múltiplos turnos e a sobrecarga de atividades extraclasse contribuem significativamente para o desgaste físico e emocional dos profissionais.
Outro aspecto relevante refere-se à desigualdade de gênero presente na categoria. As mulheres, que compõem 78,3% da amostra, acumulam frequentemente dupla ou tripla jornada de trabalho, conciliando as demandas profissionais com responsabilidades domésticas, de cuidado e familiares, o que potencializa os impactos negativos sobre sua saúde e alerta sobre condições desiguais do trabalho feminino.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados deste estudo indicam que o sofrimento psíquico entre docentes da educação básica da periferia do Rio de Janeiro está fortemente associado à exposição à violência, especialmente no ambiente escolar, configurando-se como o fator de maior impacto. Soma-se a isso a precarização das condições de trabalho e as desigualdades de gênero, que intensificam o adoecimento e revelam a complexidade das condições que atravessam o exercício da docência.
Diante desse cenário, torna-se evidente a necessidade de implementação de políticas públicas que promovam a valorização da profissão docente, o enfrentamento efetivo da violência nas escolas, a melhoria das condições de trabalho e saúde desses profissionais. Ressalta-se que, apesar das adversidades, muitos docentes permanecem na carreira motivados não apenas pelo compromisso ético e pela crença no potencial transformador da educação, mas também pela busca por estabilidade proporcionada pelo vínculo com o serviço público, em um contexto de instabilidade econômica.
Assim, o estudo contribui para o aprofundamento do debate sobre saúde do trabalhador docente, evidenciando a urgência de ações estruturais que garantam condições dignas de trabalho e preservação da saúde desses profissionais essenciais para a sociedade.
SAÚDE MENTAL E COVID-19: SOFRIMENTO ÉTICO EM TRABALHADORES DA SAÚDE DE UNIDADES DE TERAPIA INTENSIVA (UTIS)
Comunicação Oral
1 UFBA
2 IF BAIANO
Apresentação/Introdução
O sofrimento ético consiste na experiência de traição de si mesmo, na medida em que, para exercer sua atividade, o trabalhador deve abdicar de seus próprios princípios e valores morais, bem como das regras da profissão (DEJOURS, 2025). O trabalho nas UTIs, no contexto da Covid-19, evidenciou essa problemática, ao impedir que houvesse um nível de regulação efetivo entre os trabalhadores e baixo controle sobre o que fazer. Devido a limitação na obtenção de informações sobre o vírus, a pandemia implicou em um tipo de cenário que “gerou intenso sofrimento moral [ético], pois a tentativa de controle de iatrogenias e erros na assistência esbarraram nas contradições com as condições de trabalho (CARVALHO, 2025, p. 59).”
Objetivos
O objetivo deste estudo é analisar as vivências de sofrimento ético a partir das modificações na Organização do Trabalho provocadas pela Covid-19.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter analítico-descritivo, cuja análise é orientada pelo paradigma interpretativo. A Psicodinâmica do Trabalho foi adotada como referencial teórico-interpretativo e as entrevistas semiestruturadas foram realizadas entre setembro de 2021 e fevereiro de 2022, aplicadas por um grupo de pesquisadores treinados, num hospital especializado, localizado em Salvador, Bahia, Brasil. A amostragem da população é do tipo intencional, com profissionais de saúde - fonoaudióloga, médico, fisioterapeuta e duas enfermeiras - lotados em UTI’s. A organização dos dados ocorreu pelo software N-Vivo. Após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética (CAAE: 36866620.2.0000.5030) a pesquisa foi iniciada, todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Resultados e Discussão
Foram identificadas três categorias temáticas, a partir da análise das entrevistas: “Inexperiência X exigências do trabalho real”; “Autopreservação e urgência do cuidado”; “Luto pessoal em meio à desumanização da vida”. A ausência de repertório técnico para o trabalho em UTI’s provocou sofrimento ético, sobretudo, em profissionais recém-formadas. Por outro lado, evidenciou-se, nos relatos, as exigências do trabalho real, impostas pela transformação abrupta dos setores - enfermarias que se converteram em UTI’s - com consequente sobrecarga física e psíquica aos profissionais experientes pelas necessidades simultâneas de treinar novos colegas, enquanto também se adaptavam às novas circunstâncias. O conflito entre a segurança pessoal e a necessidade de ofertar cuidado se apresentou, principalmente na primeira fase da doença. Todavia, se observou também, principalmente após a vacinação, um relaxamento no uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s), conforme aponta E1 (26) “com o passar do tempo a gente relaxou um pouquinho”. No que se refere ao luto e “manejo” dos casos de óbito verificou-se, a vivência de um conflito relacionado à impossibilidade de oferecer um cuidado digno ao corpo, pós-óbito, pois havia forte pressão para a liberação de leitos nos períodos mais críticos da doença. As narrativas também apresentaram angústias associadas ao suporte incipiente às famílias, fragilizado pelo medo da contaminação: “talvez, por medo, porque existia questão [...] da maior aerolização dos pacientes após o óbito, o risco de contaminação ser maior” (E2, 25). De modo geral, todos os profissionais de saúde relataram o medo intenso da infecção, sobretudo, pela possibilidade de transmitirem aos seus familiares, e conflitos marais/éticos sobre o que sabiam que era certo fazer e o que conseguiam fazer de fato, ainda assim, se mantiveram ativos e persistentes em suas atividades profissionais.
Conclusões/Considerações Finais
Analisar as vivências de sofrimento ético a partir das modificações provocadas pela Covid-19 no trabalho, é retomar um “passado” que ainda não foi ultrapassado na história brasileira. Para exercer o cuidado durante a pandemia, muitos desses profissionais renunciaram a valores estruturantes de si, expondo-se e aos seus familiares a riscos iminentes de morte. É possível supor, desta forma, que as memórias construídas neste período ainda atravessam as suas subjetividades e seu saber-fazer pós-pandemia. Os questionamentos provocados pelo sofrimento ético que vivenciaram podem colocar em xeque até mesmo a realização profissional e o desejo de continuar na profissão. Desta forma, espera-se que, haja uma continuidade das discussões e reflexões em torno da temática, a fim de que se possa oferecer subsídios para que os governos municipais, estaduais e federal implementem políticas públicas efetivas de apoio aos trabalhadores e à saúde psicossocial destes, bem como se organizem para futuras situações de crise pandêmica, conforme já previsto.
SOFRIMENTO MENTAL E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA: RODA DE CONVERSA COMO DISPOSITIVO DE ESCUTA E RESISTÊNCIA
Comunicação Oral
1 UEA
2 UFAM
Contextualização
A centralidade do trabalho na organização da vida social e na produção de subjetividades se intensifica no contexto contemporâneo, marcado pela precarização das relações laborais, aumento das exigências institucionais e fragilização das redes coletivas. No campo da saúde, tais transformações impactam diretamente os trabalhadores, sobretudo na Atenção Primária à Saúde (APS), onde se articulam demandas assistenciais complexas, vínculo territorial e exposição contínua a determinantes sociais como pobreza e violência. Nesse cenário, o trabalho em saúde passa a ser atravessado por tensões entre cuidado e sobrecarga, contribuindo para o sofrimento psíquico. Estudos apontam elevada prevalência de sintomas de burnout, ansiedade e depressão entre profissionais de saúde, evidenciando que o adoecimento mental está relacionado às condições e à organização do trabalho . Assim, torna-se necessário criar dispositivos coletivos que possibilitem a escuta e a elaboração do sofrimento no cotidiano dos serviços.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência acerca da realização de uma roda de conversa com trabalhadores de uma unidade de Atenção Primária à Saúde, realizada após atividade educativa intitulada “Cuidar de quem cuida: saúde mental dos trabalhadores da Atenção Primária”. A atividade foi organizada em grupos de aproximadamente dez participantes, com composição multiprofissional, incluindo médicos, enfermeiros, técnicos e profissionais da recepção, de modo a não comprometer o funcionamento do serviço. A roda de conversa foi conduzida como espaço aberto de escuta, incentivando a livre expressão das experiências, percepções e sentimentos relacionados ao trabalho.
Período de Realização
A atividade foi realizada em 25 de setembro de 2025.
Objetivo
Promover um espaço coletivo de escuta e reflexão sobre a saúde mental dos trabalhadores da Atenção Primária à Saúde, possibilitando a identificação de fatores geradores de sofrimento e a construção compartilhada de estratégias de enfrentamento.
Resultados
Durante a roda de conversa, os relatos evidenciaram um padrão consistente de sofrimento associado à organização do trabalho na unidade. As falas apontaram para um ambiente institucional fragilizado por conflitos interpessoais, ausência de diretrizes claras para o funcionamento do serviço e exigências constantes por produtividade, frequentemente dissociadas das condições reais de trabalho. O assédio verbal por parte de usuários foi descrito não apenas como evento isolado, mas como experiência recorrente e naturalizada no cotidiano, revelando uma relação tensionada entre trabalhadores e população assistida.
Observou-se ainda a diluição dos limites entre vida profissional e pessoal, expressa por demandas fora do horário de trabalho, o que contribui para a sensação de disponibilidade permanente e esgotamento. A sobrecarga emocional apareceu de forma transversal nos discursos, associada à exposição contínua a contextos de vulnerabilidade social, como pobreza e violência, sem que haja suporte institucional adequado para elaboração dessas experiências.
Um elemento central foi a ausência de espaços formais de escuta no serviço, o que favorece a individualização do sofrimento e dificulta sua elaboração coletiva. Nesse sentido, os participantes frequentemente expressavam suas dificuldades como questões pessoais, embora, ao longo da roda, tenha se evidenciado seu caráter compartilhado e estrutural. A atividade possibilitou a ressignificação dessas experiências, promovendo reconhecimento mútuo, validação do sofrimento e fortalecimento do sentimento de pertencimento ao coletivo de trabalho.
Aprendizado e Análise Crítica
Embora a atividade tenha produzido efeitos positivos no reconhecimento e na elaboração do sofrimento, sua realização pontual evidencia os limites de intervenções isoladas frente a problemas estruturais do trabalho em saúde. A ausência de políticas institucionais consistentes de cuidado ao trabalhador tende a restringir o alcance dessas iniciativas. Nesse sentido, a experiência revela a necessidade de articulação entre práticas locais e mudanças organizacionais mais amplas, que considerem a saúde mental como dimensão central do trabalho. Alinhado ao campo da saúde do trabalhador, este relato evidencia que o sofrimento psíquico é produzido nas relações e condições de trabalho, sendo fundamental investir em estratégias coletivas que atuem como formas de resistência à precarização e de fortalecimento do cuidado em saúde.
TRABALHO E MEDICALIZAÇÃO DO SOFRIMENTO PSÍQUICO: ANÁLISE DA RELAÇÃO ENTRE DESEMPREGO E USO DE ANTIDEPRESSIVOS NO BRASIL NO PERÍODO DE 2014 A 2021
Comunicação Oral
1 Universidade Estadual de Campinas
2 Universidade de Brasília
Apresentação/Introdução
O desemprego é determinante social da saúde que pode intensificar o sofrimento psíquico pela instabilidade da vida cotidiana e fragilização das condições de reprodução social. Em contextos de crise econômica, esse processo pode repercutir na ampliação das vendas de psicofármacos. Nessa perspectiva, analisar a relação entre desemprego, em período que o País experimentava cenário de crise econômica agravada pela pandemia de covid-19, e as vendas de antidepressivos permitiria problematizar efeitos sociais da crise sobre a saúde mental e os modos desiguais pelos quais o sofrimento psíquico é convertido em demanda medicamentosa.
Objetivos
Analisar a associação entre desemprego e vendas de antidepressivos no Brasil entre 2014 e 2021, considerando a diferenciação entre medicamentos ofertados ou não pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Metodologia
Trata-se de análise de série temporal com dados mensais de desemprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e de vendas de antidepressivos registradas no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entre 2014 e 2021. Para compor a lista de medicamentos da pesquisa, foram selecionados antidepressivos pertencentes aos grupos N06AA, N06AB, N06AF, N06AG e N06AX da Anatomical Therapeutic Chemical Classification System (ATC). As vendas de cada antidepressivo foram convertidas em dose diária definida (DDD), calculada a partir da quantidade vendida e da dose correspondente de cada produto, divididas pela DDD da substância segundo o ATC/DDD Index da Organização Mundial da Saúde. Em seguida o consumo foi estimado em dose diária definida por 1.000 habitantes por dia (DID), obtida pela divisão da DDD pela população estimada e pelo número de dias do período. Os medicamentos foram classificados segundo sua presença na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais do SUS (RENAME). O índice de incerteza econômica da Fundação Getulio Vargas foi utilizado como variável de ajuste. As associações foram analisadas por modelos de regressão para séries temporais com correção de autocorrelação serial. Na modelagem, considerou-se a defasagem temporal de um mês da taxa de desemprego em relação às vendas de antidepressivos. Todas as análises foram realizadas no programa Stata 14.2.
Resultados e Discussão
Em janeiro de 2014, o consumo de antidepressivos foi 26,2 DID/mês, a taxa de desemprego foi 7,2% e o índice de incerteza econômica foi 136,7%. Ao final da série, em outubro de 2021, esses valores alcançaram, respectivamente, 37,8 DID/mês, 11,1% e 260,7%. O aumento de 1% na taxa de desemprego no mês anterior associou-se a incremento de 1,12% nas vendas de antidepressivos (IC95%: 0,63-1,77). Esse crescimento foi mais acentuado entre medicamentos não ofertados pelo SUS (0,54%; IC95%: 0,23-0,86) do que entre os ofertados pelo sistema (0,47%; IC95%: 0,22-0,73). O índice de incerteza econômica não mostrou associação com as vendas. Esse contraste permite levantar a hipótese de que a disponibilidade de parte desses medicamentos na rede pública possa ter influenciado a dinâmica observada, uma vez que o crescimento foi mais modesto entre os antidepressivos contemplados pela RENAME. Ainda assim, os achados sugerem que o agravamento das condições sociais se relaciona de forma desigual com a aquisição de antidepressivos, apontando para dinâmicas distintas entre provisão pública e mercado farmacêutico. Como limitação, destaca-se que o SNGPC não contempla a dispensação de medicamentos no SUS, o que impede avaliar diretamente em que medida a oferta pública influenciou a variação observada entre os grupos de antidepressivos. Além disso, o estudo não analisou outras dimensões do sofrimento relacionadas ao trabalho, como precarização, informalidade, insegurança ocupacional e intensificação laboral, o que limita a apreensão da complexidade social do sofrimento relacionado ao trabalho.
Conclusões/Considerações Finais
Entre 2014 e 2021, o aumento do desemprego no Brasil associou-se ao crescimento das vendas de antidepressivos, especialmente daqueles não ofertados pelo SUS. Os achados reforçam a centralidade dos determinantes sociais na dinâmica de aquisição desses medicamentos e sugerem que, em contextos de crise econômica, o sofrimento psíquico e sua tradução em consumo medicamentoso se distribuem de forma desigual, atravessados tanto pela proteção pública disponível quanto pela mediação do mercado. Embora o desenho do estudo não permita avaliar diretamente a dispensação realizada no SUS, os resultados indicam que o papel do sistema público deve ser considerado na análise das desigualdades de acesso aos psicofármacos. Em conjunto, os achados apontam a necessidade de compreender articuladamente efeitos econômicos, sofrimento psíquico, consumo de psicofármacos, proteção social e desigualdades de acesso.
VIOLÊNCIA COMO ANALISADOR DO TRABALHO VIVO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA: PROCESSO DE TRABALHO E SAÚDE MENTAL DE AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE NO RECIFE
Comunicação Oral
1 FIOCRUZ/PE
2 UFPB
3 Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
4 Universidade Regional do Cariri (URCA)
5 Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE)
6 UFPI
7 Universidade Federal do Ceará (UFC)
8 FIOCRUZ/CE
Apresentação/Introdução
A violência configura-se como um dos principais determinantes sociais da saúde nos territórios urbanos brasileiros, incidindo de forma estruturante tanto sobre as populações quanto sobre os trabalhadores da Atenção Primária à Saúde (APS). Em contextos marcados por intensas desigualdades socioespaciais, como o município do Recife, os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) ocupam uma posição singular, ao experienciar cotidianamente a violência simultaneamente como profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) e como moradores dos territórios onde atuam. Essa dupla inserção produz impactos diretos sobre o processo de trabalho, os vínculos comunitários e a saúde mental, tornando a violência um elemento central para a compreensão da produção do cuidado na APS.
Objetivos
Analisar como a violência urbana e doméstica atravessa o processo de trabalho e a saúde mental dos ACS no Recife, a partir do recorte local da pesquisa multicêntrica Nós APS Brasil.
Metodologia
Trata-se de uma análise de dados quantitativos coletados em dois momentos (2021 e 2023) com ACS de capitais do Nordeste brasileiro, com foco específico no município do Recife. Foram examinadas informações relativas à percepção, vivência direta e testemunho de diferentes formas de violência, bem como seus efeitos sobre as atividades desenvolvidas na APS, a circulação nos territórios, o acompanhamento das famílias e indicadores de sofrimento psíquico. A análise foi orientada pela perspectiva dos determinantes sociais da saúde e do processo de trabalho em saúde, articulada a uma leitura socioterritorial baseada no Atlas da Violência na Perspectiva dos ACS.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam elevada exposição dos ACS à violência urbana no Recife (89%), incluindo conflitos armados, assaltos e presença de grupos criminosos, com repercussões diretas sobre a circulação no território (66%), a realização de visitas domiciliares (32%) e o acompanhamento das famílias (33%). A violência doméstica, embora menos visível, emerge como fenômeno relevante, especialmente no período pós-pandemia, quando se observa maior reconhecimento e percepção desses episódios pelos ACS. Identificam-se diferenças importantes mediadas pelo gênero: homens relatam maior exposição direta à violência urbana, enquanto mulheres demonstram maior sensibilidade e reconhecimento da violência doméstica e sexual, indicando que a experiência da violência é atravessada por papéis sociais, relações de gênero e dinâmicas territoriais.
A pandemia de COVID-19 produziu efeitos significativos sobre o processo de trabalho, com restrições às atividades presenciais, fragilização dos vínculos comunitários e intensificação da invisibilização das situações de violência, particularmente no âmbito doméstico. No período pós-pandemia, observa-se maior visibilidade desses casos, sugerindo que parte significativa da violência permaneceu ocultada durante o isolamento social.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a violência atua como um potente analisador das condições de trabalho na APS, explicitando limites institucionais relacionados à ausência de protocolos estruturados, à insuficiência de formação específica e à fragilidade da articulação intersetorial. O reconhecimento dos ACS como sujeitos estratégicos na produção do cuidado e de informações em saúde, bem como o fortalecimento de condições de trabalho, suporte institucional e estratégias territorializadas, constituem elementos centrais para qualificar a resposta do sistema de saúde em contextos marcados pela violência.
Realização: