Programa - Comunicação Oral Curta - COC13.4 - PreP, HIV, prevenção e marcadores sociais
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
A PREP NAS FRONTEIRAS DO “VELHO OESTE” BRASILEIRO: SUJEITOS E MARCADORES SOCIAIS EM MATO GROSSO DO SUL
Comunicação Oral Curta
1 UFMS
2 SED/MS
3 USP
4 UEA
Apresentação/Introdução
A ampliação da profilaxia pré-exposição (PrEP) no Brasil tem sido apresentada como um avanço na prevenção ao HIV. No entanto, observa-se que o acesso à PrEP permanece desigual, concentrando-se em determinados grupos e contextos urbanos. O presente trabalho olha para as dinâmicas da PrEP no “Velho Oeste” brasileiro, nas cidades de Campo Grande e Corumbá (MS), considerando como marcadores sociais operam em contextos de fronteira e influenciam quem acessa essa política de prevenção.
Objetivos
Analisar o perfil sociodemográfico e as experiências de acesso, uso e gestão da PrEP em Campo Grande e Corumbá, identificando como a intersecção entre marcadores sociais da diferença, outros fatores sociais e locais influenciam a adesão e a percepção dos serviços de prevenção ao HIV.
Metodologia
Este trabalho apresenta reflexões preliminares a partir do projeto de pesquisa multicêntrico “Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) para prevenção ao HIV na América do Sul: etnografia das experiências de acesso, uso e gestão”. Com abordagem qualitativa e etnográfica em saúde, foram realizadas observações de campo em 2 unidades dispensadoras de PrEP e 25entrevistas com usuários da PrEP, 2 gestores e 3 profissionais de saúde, de janeiro a março de 2026, nas cidades de Campo Grande e Corumbá (MS). A análise se apoia em referenciais dos estudos de gênero e sexualidade, especialmente, aqueles que se organizam em torno da teoria da interseccionalidade, articulando saúde coletiva e justiça social.
Resultados e Discussão
Em Campo Grande foram realizadas mais de 1500 profilaxias entre 2021 e 2024, com predominância do público masculino (HSH). Mesmo com a descentralização do acesso, o CTA segue como principal dispensador. Em Corumbá, a dinâmica de fronteira revela desafios específicos de gestão e acesso para populações flutuantes. Ao percebermos certa recorrência de um mesmo perfil de sujeito acessando a profilaxia, pode-se concluir que persistem barreiras que dificultam a adesão de grupos vulnerabilizados, evidenciando a necessidade de políticas mais humanizadas e territorializadas. Homens brancos, jovens, escolarizados e de classe média são o público que mais acessa o serviço em Corumbá, onde mais de 70% da população se declarou negra no último Censo demográfico.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa indica que, embora a ampliação da PrEP represente um avanço na prevenção ao HIV, seu acesso permanece seletivo. Considera-se que marcadores de raça, classe, escolaridade e dinâmicas territoriais, especialmente em contextos de fronteira, continuam estruturando quem acessa essa tecnologia e em quais condições. Os resultados sugerem que políticas de prevenção precisam reconhecer essas mediações sociais para ampliar o alcance da PrEP de forma mais equitativa.
ENTRE SABERES E PRÁTICAS DE HOMENS JOVENS UNIVERSITÁRIOS RELACIONADOS À PREVENÇÃO DO PAPILOMAVÍRUS HUMANO
Comunicação Oral Curta
1 UERJ
Apresentação/Introdução
As Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) configuram um relevante problema de saúde pública global, impactando amplamente a qualidade de vida da população. O papilomavírus humano (HPV) é uma infecção presente mundialmente, com elevada incidência entre os jovens. Os homens jovens tendem a apresentar maior exposição às práticas sexuais desprotegidas, frequentemente associadas à percepção de invulnerabilidade e à atribuição do cuidado sexual às parceiras. No ambiente universitário, esse quadro pode ser intensificado por comportamentos sexuais com múltiplas parcerias, uso irregular de preservativos e consumo de álcool em contextos sociais. Esses aspectos aliados à baixa percepção de risco e pouca busca por serviços de saúde, favorecem a continuidade da circulação do vírus. Nesse contexto, os fatores culturais exercem influência significativa nas práticas de prevenção dos indivíduos, especialmente no reconhecimento dos riscos e na adoção (ou não) de medidas protetivas relacionadas ao HPV.
Objetivos
Analisar os conhecimentos e práticas dos homens jovens universitários sobre a prevenção do papilomavírus humano, na perspectiva da saúde sexual.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa descritiva, com abordagem qualitativa. Os participantes foram 30 homens jovens, matriculados em uma universidade pública do município do Rio de Janeiro, com idades entre 18 e 29, que já tinham iniciado as práticas sexuais. Na coleta de dados foi aplicado um questionário de caracterização social, práticas sexuais e uma entrevista semiestruturada, sendo gravado o áudio após autorização dos participantes. Todos os procedimentos éticos de pesquisa envolvendo seres humanos foram respeitados e todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os dados do questionário foram organizados com o emprego da estatística descritiva simples e auxílio do software Excel. As entrevistas foram tratadas com emprego da técnica de análise de conteúdo e instrumentalizada pelo software NVIVO.
Resultados e Discussão
Os homens participantes deste estudo apresentavam a seguinte caracterização: 54% tinham idades entre 22 e 25 anos; 50% se declararam pretos/pardos; 73% moravam com os pais; 57% eram heterossexuais; 67% não tinham companheiro(a); 83% usavam serviço público de saúde; 46% informaram usar preservativos em todas as relações sexuais; nos relacionamentos com parcerias fixas 90% usavam preservativos de forma inconsistente; nos relacionamentos casuais 67% sempre usavam preservativos; 53% nunca fizeram teste rápido e 67% eram vacinados contra o HPV. A análise das entrevistas revelou três categorias alinhadas ao objetivo do estudo: 1- Conhecimento sobre IST/HPV e as fontes de informação; 2- Práticas de prevenção contra ISTs e as atitudes frente ao HPV; 3- Fatores que interferem na prevenção do HPV e demais infecções de transmissão sexual. Os participantes apresentaram diferentes níveis de conhecimento sobre o HPV: alguns reconheceram os sintomas, as formas de transmissão e tratamento, enquanto outros demonstraram desinformação ou confundiram a infecção com outras ISTs. A associação frequente do vírus aos sintomas visíveis reforça a percepção de que a ausência de sinais diminui a preocupação preventiva. As práticas de prevenção foram influenciadas por fatores socioculturais e de gênero. Nos achados, percebe-se que o preservativo é mais empregado nos relacionamentos casuais. Entre parceiros fixos, onde costuma existir confiança e uso de métodos contraceptivos pelas parceiras, a frequência é menor. O consumo de álcool antes das relações e a sensação de invulnerabilidade contribuem para o descuido com as práticas preventivas. Apesar de terem múltiplas fontes de informação (internet, escola, profissionais de saúde e familiares), o conhecimento adquirido não se traduziu em ações efetivas de autocuidado.
Conclusões/Considerações Finais
Os comportamentos sexuais e preventivos desses jovens são fortemente influenciados por valores, crenças e construções de masculinidade, o que evidencia a importância de estratégias educativas transculturais que considerem tais dimensões. A promoção da saúde sexual requer intervenções que integrem universidades e serviços de saúde, com ações voltadas ao protagonismo masculino no cuidado e a ressignificação das práticas preventivas.
AUTOTESTE DE SÍFILIS E HIV/SÍFILIS (DUO) NO PRÉ-NATAL: UMA ANÁLISE QUALITATIVA DA ACEITABILIDADE EM DUAS CAPITAIS DO BRASIL
Comunicação Oral Curta
1 UFRGS
2 Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre
3 UNEB
4 UFBA
5 UNEB; FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
O Sistema Único de Saúde (SUS) busca assegurar a saúde da gestante e do seu filho no pré-natal, mas enfrenta empecilhos estruturais e simbólicos no diagnóstico de HIV e sífilis. O autoteste surge como uma forma de gestão do cuidado para ampliar o acesso e fortalecer a autonomia na saúde sexual e reprodutiva. Este estudo analisa a aceitabilidade do autoteste de apenas sífilis e do Duo HIV/sífilis entre gestantes, observando como os testes compõem com as subjetividades e as demandas de cuidado do grupo.
Objetivos
Analisar a aceitabilidade do autoteste de sífilis e do autoteste (Duo) HIV/sífilis entre gestantes usuárias do SUS, articulando a experiência da realização do autoteste e as demandas e subjetividades desse grupo na gestão do cuidado.
Metodologia
Estudo qualitativo realizado em 2025 por meio de entrevistas semiestruturadas com gestantes em unidades de atenção primária de Porto Alegre (RS) e Salvador (BA). A metodologia incluiu a observação da realização do autoteste pela pesquisadora, seguido de entrevista semiestruturada. Foram exploradas experiências de uso, sentidos atribuídos à facilidade ou dificuldade e disposição para uso futuro. A análise foi fundamentada nas dimensões do Theoretical Framework of Acceptability (TFA), permitindo uma leitura crítica sobre as práticas dos sujeitos no território.
Resultados e Discussão
A aceitabilidade de ambos autoteste foi positiva, relacionada a atitudes afetivas ligadas à rapidez, privacidade e praticidade. Em ambas as cidades, evidenciou-se um descompasso entre o discurso de facilidade e a execução prática, sem, contudo, comprometer a avaliação positiva dos autotestes. Embora as gestantes tenham utilizado um guia ilustrado, foram relatadas dificuldades técnicas: abertura da embalagem, manuseio da caneta coletora, perfuração do lacre da cápsula de reagente, controle do tempo e interpretação do resultado. A experiência revelou medos e inseguranças: o medo da punção digital foi prevalente entre gestantes jovens e a autoeficácia variou conforme a escolaridade, evidenciando marcadores de desigualdade no manejo do autoteste. Embora o discurso indicasse "facilidade", a prática revelou hesitações e dificuldades técnicas (manuseio e interpretação). Na dimensão ética, todas sinalizaram a necessidade de apoio do serviço de saúde em caso de resultado positivo. Assim, é perceptível que a alta aceitabilidade coexiste com a necessidade de mediação, indicando que o autoteste deve servir ao fortalecimento do vínculo e da continuidade da atenção, evitando a fragmentação do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
Ambos autotestes (exclusivamente sífilis e Duo) apresentaram alta aceitabilidade, confirmando-se como estratégia complementar relevante para o diagnóstico precoce no pré-natal. Embora as dificuldades observadas pudessem ser superadas pela releitura do manual ou apoio, os achados indicam que a incorporação desses insumos pelo SUS contribui para o fortalecimento das políticas de prevenção da transmissão vertical.
ROTEIROS DE PREVENÇÃO AO HIV EM RECIFE-PE: PERFIL, PRÁTICAS DE PREVENÇÃO E SENTIDOS SOCIAIS DA UTILIZAÇÃO DE PREP
Comunicação Oral Curta
1 PPGS/UFPE
Apresentação/Introdução
O estudo analisa a estratégia da Prefeitura da Cidade do Recife ao administrar as políticas públicas de prevenção ao HIV/Aids no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), com foco na Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). Inserido no campo da Ciências Sociais com inteface na Saúde Coletiva, o trabalho dialoga com debates sobre identidades, estigma e gestão do cuidado, considerando as transformações históricas da epidemia do HIV/Aids emergência da PrEP como carro-chefe da política de prevenção combinada. A pesquisa parte da compreensão de que categorias epidemiológicas e bioidentidades influenciam tanto a formulação de políticas quanto as experiências dos sujeitos, tensionando princípios como universalidade e integralidade.
Objetivos
Avaliar as estratégias empreendidas no Recife-PE, no contexto da política de prevenção ao HIV/Aids, para promoção da PrEP a partir do perfil social, das práticas sexuais e de prevenção e dos sentidos sociais atribuídos ao uso da PrEP por usuários/as de serviços de saúde no território. Busca-se compreender como identidades, marcadores sociais e experiências influenciam o acesso, a adesão e a percepção da política.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, de caráter etnográfico, marcada pela inserção do pesquisador como usuário-pesquisador-ativista da política. Os procedimentos incluem observação participante em serviços de saúde e ações de prevenção, com registro em diário de campo, e entrevistas semiestruturadas com usuários/as e profissionais. A amostra será por acessibilidade, com garantia ética por meio de Termo de Consentimento. Complementarmente, os documentos que orientam as políticas passarão por análise de conteúdo temática para triangulação com os dados coletados nas entrevistas e sob contexto etnográfico.
Resultados e Discussão
Resultados parciais indicam que a ampliação do acesso à PrEP, especialmente após mudanças normativas, reforça o princípio da universalidade, mas convive com a persistência de perfis predominantes de usuários/as, associados a marcadores de gênero, raça e classe. As distintas formas de acesso (serviços especializados e mutirões) produzem experiências diferenciadas de cuidado, evidenciando tensões entre modelos mais burocratizados e estratégias de ampliação do acesso. Observa-se que os sentidos sociais da PrEP estão atravessados por estigmas históricos relacionados ao HIV/Aids e por disputas entre enfoques identitários e comportamentais na política de prevenção.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa evidencia que a política de PrEP, embora inovadora e alinhada à prevenção combinada, ainda enfrenta desafios relacionados à equidade, ao enfrentamento do estigma e à integralidade do cuidado. A análise das experiências dos sujeitos aponta para a necessidade de fortalecer práticas que articulem dimensões biomédicas, sociais e identitárias, contribuindo para uma gestão do cuidado mais inclusiva. O estudo reforça a relevância de abordagens interseccionais na formulação e implementação de políticas públicas de saúde no SUS, especialmente no campo do HIV/Aids.
PANORAMA E DESAFIOS DA IMPLANTAÇÃO DA PROFILAXIA PRÉ-EXPOSIÇÃO (PREP) ORAL AO HIV: UMA ANÁLISE DE 24 MESES NO MUNICÍPIO DE CUBATÃO/SP
Comunicação Oral Curta
1 Prefeitura Municipal de Cubatão
2 UNISANTOS
Apresentação/Introdução
A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) oral representa uma relevante estratégia da "mandala da prevenção combinada" contra a infecção pelo vírus HIV. Seja no esquema diário ou sob demanda, a profilaxia consiste na dose combinada de dois medicamentos antirretrovirais que, sob uso correto, apresenta uma eficácia capaz de alcançar até 99% de proteção. A estratégia foi incorporada ao SUS em 2017 e implementada no Brasil a partir de 2018. No contexto local, Cubatão, município situado na Baixada Santista, com cerca de 112 mil habitantes e a 60 km da capital paulista — enfrentou um hiato assistencial, pois inicialmente encaminhava sua demanda de usuários de PrEP para o município vizinho, Santos. A gestão local, ciente da necessidade de habilitar sua própria rede, deu início em 2023, ao credenciamento do seu serviço de referência junto ao Centro de Referência e Testagem de São Paulo para suprimir essa barreira. Em 26/10/2023, o serviço local cadastrou o seu primeiro usuário. Nesse momento, cerca de 30 munícipes já estavam em acompanhamento na rede vizinha
Objetivos
O objetivo central é delinear e definir o perfil sociodemográfico e epidemiológico do usuário de PrEP em Cubatão, além de avaliar criticamente as taxas de adesão à profilaxia após implementação e mapear as estratégias para a descentralização da oferta da profilaxia
Metodologia
Estudo retrospectivo e descritivo baseado na coleta de dados gerados por relatórios do Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (SICLOM), de abrangência nacional no qual os usuários são cadastrados e todas as dispensas de medicamento são registradas. O recorte temporal de análise foi até 31/10/2025. Para a caracterização do perfil populacional, foram coletadas as variáveis demográficas de data de nascimento (faixa etária), identidade de gênero, orientação sexual e raça/cor. A avaliação da adesão terapêutica baseou-se no cruzamento das datas de cadastro inicial, ou transferência entre serviços, na Unidade Dispensadora de Medicamentos (UDM) com a regularidade das retiradas dos antirretrovirais. Foram realizados diálogos contínuos com o Programa Municipal IST, AIDS e HV para o monitoramento das ações de descentralização da oferta de profilaxia
Resultados e Discussão
Foram cadastrados 107 usuários até a data limite da pesquisa. Foram excluídos três indivíduos que não iniciaram a profilaxia, um que teve diagnóstico soropositivo para HIV durante o uso e nove que solicitaram transferência de UDM visando a continuidade da terapia. Restaram 94 usuários vinculados.
A análise do perfil sociodemográfico revelou convergência ao cenário nacional: maior grupo na faixa etária de 30-39 anos (40,5%, n=38), seguida pelas faixas de 25-29 anos (24,5%, n=23) e 18-24 anos (15,9%, n=15). Menor uso em idades mais avançadas, com 14,9% (n=14) entre 40-49 anos e 4,2% (n=4) acima de 50 anos. A população atendida é formada por homens cisgênero (76,6%, n=72) e pessoas autodeclaradas homossexuais (57,4%, n=54). No entanto, há diversidade na assistência incluindo mulheres cis (17,1%), heterossexuais (29,8%) e bissexuais (12,8%), além de indivíduos com identidade de gênero diversa: homens trans 3,3%, mulher trans 1%, travesti 1% e não binário 1%. A discrepância frente ao padrão brasileiro ocorreu no marcador raça/cor: diferente da prevalência branca mostrada no Painel PrEP nacional (2025), Cubatão tem maioria parda (42,6%, n=40), seguida pela raça branca (39,4%, n=37) e preta (18%, n=17).
O principal indicativo de vulnerabilidade do protocolo foi a baixa sustentabilidade do uso: apenas 31,9% (n=30) dos usuários seguiu com a profilaxia de forma regular. A alta taxa de usuários (68,1% - n=64) que não retornou nos prazos agendados caracteriza abandono terapêutico. Este cenário demonstra que a facilitação estrutural, pautada pela proximidade do serviço, dispensa do medicamento e equipe capacitada, não foi suficiente para sustentar a adesão a longo prazo
Conclusões/Considerações Finais
Cubatão apresenta um perfil de usuários análogo ao padrão geral brasileiro (predominância de homens cisgênero, HSH, entre 30 e 39 anos), mas existem peculiaridades territoriais cruciais como maior presença da população autodeclarada parda no uso. Os altos índices de abandono da profilaxia evidenciam a necessidade de criação de estratégias e investigações profundas de coorte, de modo a identificar os vetores de desistência e impedir que esta população retorne à possibilidade de exposição. Ratificando a relevância das políticas de saúde pública e alinhamento às metas globais de eliminação do HIV até 2030, a Secretaria Municipal de Saúde implementou meios robustos de resposta. Destacam-se o planejamento de cronogramas anuais de capacitação para descentralizar e inserir a oferta de PrEP e PEP (Profilaxia Pós-Exposição) na APS, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e serviços de Urgência e Emergência. O objetivo dessas ações é que os profissionais saibam aplicar tecnicamente o protocolo e criem habilidades de escuta, avaliação crítica e oferta ativa da prevenção em todas as interfaces do usuário com a rede de saúde
O VIVER COM HIV/AIDS: UMA RELAÇÃO COM A NECROPOLÍTICA?
Comunicação Oral Curta
1 UEFS
Apresentação/Introdução
O HIV é uma infecção sexualmente transmissível que compromete o sistema imunológico. Na ausência do tratamento adequado, a infecção pode evoluir para AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). Embora os avanços terapêuticos tenham ampliado as possibilidades de cuidado para pessoas com HIV/AIDS, o controle da epidemia no Brasil ainda enfrenta desafios relacionados à vulnerabilidade.
Em paralelo a isso, a construção da história da população negra no Brasil, marcada pela violência submetidos a condições sub-humanas e cruéis, obrigando-os a romperem com suas tradições, cultura e laços familiares. Mesmo após a promulgação da Lei Áurea, os efeitos da escravidão continuaram a se perpetuar-se na prática. Assim, o período após a abolição culminou em políticas de precariedade e opressão constantes, impactando, dessa maneira, no processo saúde-doença dessa população e no acesso a direitos fundamentais
Além disso, o racismo foi instrumentalizado para intensificar as iniquidades sociais e em saúde. Há uma construção histórica que promove disparidades sociais, econômicas e em saúde. Diante do exposto, este trabalho tem como objetivo: analisar a relação da necropolítica com o Cuidado às Pessoas com HIV/AIDS.
Objetivos
Diante do exposto, este trabalho tem como objetivo: analisar a relação da necropolítica com o Cuidado às Pessoas com HIV/AIDS.
Metodologia
A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma unidade de referência em uma capital do Nordeste, em que foram entrevistadas 11 pessoas diagnosticadas com HIV. As entrevistas foram realizadas em local sigiloso, gravadas e transcritas, sendo submetidas à análise temática. Posteriormente, os dados foram organizados e classificados, sendo codificados em unidades temáticas (núcleos de sentido).
Esse processo possibilitou a identificação de aspectos relevantes do conteúdo e a consolidação dos temas mais significativos, culminando na definição de uma categoria empírica. Na etapa final, os resultados foram analisados e interpretados por meio do cruzamento das informações coletadas, com uso da técnica das trilhas interpretativas e resultando na produção de uma síntese horizontal. Por fim, os dados empíricos foram articulados com a literatura disponível.
Destaca-se que, a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado da Bahia (CAAE 54898221.4.0000.0057), e para a sua realização, o estudo só acontecia mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Resultados e Discussão
Após a interpretação dos dados, foi estabelecida uma categoria, denominada “necropolítica e seus impactos no Cuidado às Pessoas com HIV/AIDS”, edificada a partir dos seguintes núcleos de sentido: como o mito da democracia racial produz ainda mais disparidades?; Biopoder: De Foucault à Mbembe, como o Estado promove políticas de morte?; e cuidado fragmentado: SUS para pretos e pardos.
É fundamental destacar que as PVHA são vítimas de processos sociais estruturados que ultrapassam a dimensão do adoecimento, visto que as suas funcionalidades são afetadas que vão além da sintomatologia, pois os preconceitos, os estigmas e as discriminações coexistem nos modos existenciais de vida de forma permanente.
Os impactos no cuidado, em uma sociedade enraizada pelo racismo, e consequentemente, pela Necropolítica se concretiza por meio de políticas estatais ineficazes que podem levar o agravamento ou a morte de pessoas, mesmo alimentando socialmente uma invenção de democracia racial; mas que tem o biopoder em sua égide, que pode ser observado por meio de um cuidado fragmentado no SUS para pretos e pardos.
O racismo opera como um mecanismo que legitima as desigualdades e iniquidades em saúde, contribuindo para elevados índices de mortalidade evitáveis decorrente das barreiras de acesso aos serviços de saúde . Observa-se, assim, uma política estrutural de precarização, na qual ações voltadas para prevenção e promoção à saúde, são sistematicamente substituídas por uma lógica de morte que atinge, de forma desproporcional,a população preta e, principalmente, LGBTQIAPN+.
Historicamente, a população negra enfrenta dificuldades no acesso à saúde, e devido ao racismo estrutural, que atravessa a política, a economia e as relações sociais, o que reflete na concentração de capital, perpetuando nas condições de vulnerabilidades que incidem diretamente sobre os determinantes sociais em saúde
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se, portanto , que esses usuários estão constantemente submetidos ao diagnóstico tardio devido à falta de acesso no tempo hábil, decorrentes da falta de acolhimento por parte dos trabalhadores, e ao estigma perante a família e a sociedade, sob a influência da Necropolítica. Reafirma-se, assim,a urgência de políticas públicas voltadas à redução das iniquidades em saúde no Brasil, bem como uma formação afrocentrada para os profissionais da área , com o intuito de reduzir os efeitos nocivos da branquitude e fomentar discussões sobre os determinantes sociais.
A PREP NO CENTRO DA PREVENÇÃO: INVISIBILIDADE VACINAL E LIMITES DA PREVENÇÃO COMBINADA NA FRONTEIRA DE MATO GROSSO DO SUL
Comunicação Oral Curta
1 UFMS
2 UEA
3 USP
Apresentação/Introdução
A Prevenção ao HIV tem sido implementada nos serviços de saúde com forte centralidade na PrEP. Contudo, essa ênfase farmacológica pode invisibilizar outras tecnologias de prevenção. Em serviços de fronteira de Mato Grosso do Sul, parte-se do argumento de uma hierarquia entre tecnologias preventivas e relegando outras estratégias, como a imunização, a uma posição secundária no cuidado.
Objetivos
Compreender barreiras de acesso da prevenção integral da Prevenção Combinada na perspectiva de usuários de PrEP em SAE/CTA da fronteira de MS
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa de abordagem etnográfica no serviço de saúde., Realizada em SAE/CTAs na região de fronteira de Mato Grosso do Sul. É um recorte de uma pesquisa mais ampla do projeto “PrEP América do Sul”. A coleta de dados envolveu entrevistas semiestruturadas com 34 usuários de PrEP e análise da linha de cuidado local. Neste trabalho, privilegiou-se o fluxo de informação sobre vacinas de Hepatite A e HPV. Os dados foram submetidos à análise de conteúdo, confrontando as práticas assistenciais com as diretrizes do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) de PrEP e o calendário vacinal do SUS para populações prioritárias.
Resultados e Discussão
Identificou-se que a maioria dos usuários desconhece o acesso às vacinas de Hepatite A e HPV. Os serviços de SAE/CTA na fronteira raramente integram a imunização ao fluxo de cuidado. Barreiras como a rotatividade de profissionais, o foco excessivo na medicação e a fragmentação entre os serviços de IST e as salas de vacina agravam a invisibilidade vacinal. Observa-se que a chamada Prevenção Combinada opera, na prática, sob forte centralidade da PrEP. A consulta se organiza em torno do acompanhamento farmacológico, enquanto tecnologias preventivas como a imunização contra HPV e Hepatite A permanecem marginalizadas no fluxo assistencial
Conclusões/Considerações Finais
A “invisibilidade vacinal” na fronteira de MS compromete a integralidade da Prevenção Combinada. É urgente capacitar as equipes dos SAE/CTA para que a orientação sobre as vacinas de Hepatite A e HPV seja parte indissociável da consulta de PrEP. Considera-se, portanto, que a invisibilidade vacinal não decorre apenas de lacunas informacionais, mas também da centralidade biomédica conferida ao comprimido PrEP nas práticas de cuidado.
Realização: