Programa - Comunicação Oral Curta - COC13.3 - Tecnologias Educativas, Prevenção Combinada e Linhas de Cuidado em Saúde Sexual e Reprodutiva no SUS
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
CONSTRUÇÃO DE UM PROJETO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA VOLTADO ÀS SEQUELAS DE DOENÇAS CRÔNICAS E TRANSMISSÍVEIS NO CONTEXTO AMAZÔNICO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 CEUNI - FAMETRO
Contextualização
A iniciação científica constitui importante ferramenta na formação acadêmica, pois promove o desenvolvimento do pensamento crítico, científico e ético, além de aproximar o estudante da prática investigativa (CNPq, 2022). No contexto do Programa de Iniciação Científica (PAIC), essa experiência possibilita o contato direto com todas as etapas da pesquisa. Paralelamente, doenças crônicas como diabetes mellitus e hipertensão arterial sistêmica, bem como agravos infecciosos como tuberculose e COVID-19, configuram relevantes problemas de saúde pública, sendo frequentemente associadas a sequelas que comprometem a qualidade de vida dos indivíduos (SBD, 2023; WHO, 2022). Na região amazônica, especialmente no Amazonas, fatores socioeconômicos, culturais e limitações no acesso aos serviços de saúde potencializam a ocorrência dessas condições e suas complicações (FIOCRUZ, 2022). Nesse contexto, a vivência no âmbito do PAIC permitiu observar na prática essas condições e suas implicações na saúde da população.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido no âmbito do Programa de Iniciação Científica (PAIC), durante a construção e submissão de um projeto voltado às sequelas de doenças crônicas e infecciosas no contexto amazônico. As atividades envolveram a escolha e delimitação do tema, elaboração do problema de pesquisa, definição dos objetivos, revisão de literatura, planejamento metodológico e organização da documentação para submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, via Plataforma Brasil. A experiência contribuiu para o desenvolvimento de habilidades científicas e compreensão das etapas do processo de pesquisa.
Período de Realização
Setembro de 2025 - atual
Objetivo
Relatar a experiência vivenciada na construção e submissão de um projeto de iniciação científica voltado à análise das sequelas de doenças crônicas e infecciosas no contexto amazônico, destacando as etapas desenvolvidas, as dificuldades enfrentadas e os aprendizados adquiridos ao longo do processo.
Resultados
A vivência proporcionou a compreensão das etapas fundamentais do processo científico, exigindo aprofundamento teórico e desenvolvimento de habilidades relacionadas à leitura crítica e à escrita acadêmica (SEVERINO, 2017). A revisão de literatura evidenciou que o diabetes e a hipertensão estão associadas principalmente a complicações cardiovasculares, renais e metabólicas, enquanto a tuberculose e a COVID-19 apresentam potencial para desencadear sequelas respiratórias e sistêmicas de longo prazo (WHO, 2022; SBD, 2023). Além disso, a análise do contexto amazônico reforçou a influência dos determinantes sociais da saúde na ocorrência e agravamento dessas doenças (FIOCRUZ, 2022). A etapa de submissão ao CEP destacou a relevância dos princípios éticos na pesquisa envolvendo seres humanos. Entre as principais dificuldades encontradas, destacaram-se a compreensão dos trâmites burocráticos, a organização das etapas do projeto e a insegurança inicial na produção científica. Entretanto, tais desafios foram gradativamente superados, contribuindo para o desenvolvimento da autoconfiança, autonomia, senso crítico e organização acadêmica para cada processo.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência na iniciação científica, ainda em sua fase inicial, mostrou-se essencial para a formação acadêmica, promovendo o desenvolvimento de competências científicas, éticas e organizacionais. A construção e submissão do projeto evidenciam que a iniciação científica vai além da obtenção de resultados, constituindo-se como um processo formativo contínuo e significativo, especialmente no campo da saúde coletiva.
AME CITOPATOLÓGICO PAPANICOLAU: EDUCAÇÃO EM SAÚDE NA PREVENÇÃO DO CÂNCER DO COLO DO ÚTERO – RELATO DE EXPERIÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 FAMETRO Itacoatiara
Contextualização
O câncer do colo do útero configura-se como um importante problema de saúde pública,
estando diretamente relacionado à infecção persistente pelo Papilomavírus Humano
(HPV). Apesar de ser uma doença com alto potencial de prevenção por meio do exame
citopatológico de Papanicolau, sua incidência ainda permanece elevada, especialmente em
populações com menor acesso à informação e aos serviços de saúde. Fatores como medo,
vergonha e desinformação contribuem para a baixa adesão ao exame. Nesse contexto, a
educação em saúde surge como estratégia fundamental para promover o conhecimento,
incentivar o autocuidado e reduzir a morbimortalidade associada à doença.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência vivenciado por acadêmicos de enfermagem durante
a realização de uma atividade educativa voltada à saúde da mulher, desenvolvida no ano
de 2025. A ação teve como objetivo conscientizar as participantes sobre a importância do
exame Papanicolau na prevenção do câncer do colo do útero. Inicialmente, buscou-se
identificar o conhecimento prévio das mulheres acerca do exame. Em seguida, foram
realizadas atividades educativas utilizando metodologias ativas, como rodas de conversa,
exposição dialogada e demonstração prática do exame com o uso de modelo anatômico
do sistema reprodutor feminino. Durante a atividade, abordaram-se temas como
prevenção, periodicidade do exame, fatores de risco e desmistificação de tabus
relacionados ao procedimento.
Período de Realização
A atividade foi realizada no dia 26/11/ 2025, em momento previamente organizado conforme a disponibilidade das participantes.
Objetivo
Relatar a experiência de uma ação educativa sobre o exame citopatológico de
Papanicolau, destacando sua importância na prevenção e no diagnóstico precoce do
câncer do colo do útero, além de promover o autocuidado e a conscientização das
mulheres.
Resultados
Observou-se participação ativa das participantes, com interesse significativo nas temáticas
abordadas. Muitas relataram desconhecimento prévio sobre o exame e expressaram
sentimentos de medo e vergonha. A demonstração prática contribuiu para desmistificar o
procedimento, tornando-o mais compreensível e acessível. Ao final da atividade, verificou-
se maior compreensão sobre a importância do exame e maior aceitação quanto à sua
realização periódica. A ação também favoreceu o fortalecimento do vínculo entre
acadêmicos e participantes
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a importância da educação em saúde como ferramenta essencial
na promoção do autocuidado. O uso de metodologias ativas facilitou a compreensão e
reduziu barreiras emocionais relacionadas ao exame. Para os acadêmicos, a vivência
contribuiu para o desenvolvimento de habilidades como
NAVEGANDO ENTRE SABERES: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE O USO DE TECNOLOGIAS LEVES NA EDUCAÇÃO EM SAÚDE NO CONTEXTO ESCOLAR RIBEIRINHO
Comunicação Oral Curta
1 UEA
Contextualização
No tecido rural amazônico há aqueles que vivem em localidades próximo as margens dos rios, conhecidos como ribeirinhos, os mesmos descendem de nordestinos e demais migrantes, sobrevivem da agricultura familiar, pesca, caça e subsídios dos programas do Governo Federal. Os desafios para essas populações interioranas terem acesso a saúde, incluem barreiras geográficas e logísticas, falta de profissionais qualificados para trabalhar nestas áreas e falta de recursos técnicos para lidar com situações de emergência médicas (Santos et al, 2023; Sousa, Monteiro e Bousquat, 2019; Garnelo, Sousa e Oliveira, 2017). Como forma de oferecer um serviço mais equânime que considere as diferenças de território e aceso aos serviços de saúde a Política Nacional de Atenção básica (PNAB, 2017), prever a oferta de serviços e recursos para estas áreas, como a Unidade Básica de Saúde Fluvial com presença de profissionais além do que prevê a Estratégia e Saúde da Família (Sousa, Fonseca, Bousquat, 2023). No âmbito da atenção primária a saúde a educação em saúde valorizar e fortalece o processo cultural das relações humanas através da intervenção do educador de forma construtiva (FERREIRA et al.,2017.). Nesse contexto, as tecnologias leves, ou seja, ferramentas que podem ser usadas entre profissionais e usuários, mediante escuta e confiança a fim de construir uma relação de vinculo, quando usadas em ações de educação em saúde contribuem para o autocuidado, compreensão da doença, humanização do atendimento e qualificação da assistência (FERREIRA et al.,2017; BRAZ, N. F. et al.,2019)
Descrição
A UBSF presta assistência à saúde em nível ambulatorial e domicilio, em casos de pacientes com dificuldades de locomoção, por nove dias a cada mês em dez comunidades ribeirinhas localizadas as margens do Rio Amazonas. As ações de promoção a saúde, foram realizadas nas recepções da UBSF ou unidades apoio, já, as ações do Programa Saúde na Escola (PSE) foram desempenhadas pelos residentes na escola, que a depender da distância, o percurso foi realizado a pé ou através de pequenas embarcações. Nas ações que abrangem a saúde bucal, foram realizadas distribuições de kits de higiene oral, escovação supervisionada, aplicação de flúor, avaliação clínica afim de obter o índice de dentes cariados, e obturados (CPOD) e encaminhamento de alunos para a UBSF que necessitem de tratamento
Período de Realização
O período de vivência ocorreu entre 17 de abril de 2025 a 30 de março de 2026 em uma Unidade Básica de Saúde Fluvial (UBSF) do município de Manaus
Objetivo
Este relato de experiencia busca retratar o uso de tecnologias em saúde bucal realizado com escolares ribeirinhos atendidos em uma Unidade Básica de Saúde Fluvial (UBSF) do município de Manaus, por meio da vivencia da residência em Estratégia e Saúde da Família com ênfase em Populações do Campo, Floresta e Água da Universidade do Estado do Amazonas (UEA)
Resultados
A falta de recursos em áreas rurais amazônicas exigiu que os residentes fossem criativos e resilientes no processo de promoção a saúde e desse processo criativo emergiu o jogo de caça ao tesouro da saúde bucal, em que foram escondidos itens de higiene bucal pela sala e a cada item encontrado é explicado a função e o modo de utilizar o fio dental, a quantidade certa de creme dental e como realizar a escovação de maneira correta. Também empregou-se histórias que continham elementos pertencentes no território da comunidade como animais e frutas típicas da região com o intuito dos alunos praticarem o autocuidado em saúde reconhecendo a diversidade e singularidade do meio em que habitam, bem como o uso de boneco semáforo do toque para abordar a violência sexual de forma lúdica. Notou-se que o uso dessas tecnologias leves despertou o interesse e compreensão dos alunos sobre as doenças.
Aprendizado e Análise Crítica
É valido ressaltar que um dos desafios encontrados no cumprimento da educação em saúde com escolares ribeirinho é falta de um cronograma das ações do PSE, logo as atividades programáticas eram esporádicas e organizadas em um curto período de tempo. Por outro lado, o ciclo de secas dos rios e tempestades, aumenta a dificuldade especialmente dos alunos chegarem até as escolas. Ademais, em virtude da presença da UBSF os alunos eram liberados, por vezes para realizar consultas e atualização da carteira vacinal. Pode-se concluir, que o processo de educação em saúde bucal no contexto rural amazônico, um território com particularidades geográficas, perpassa fatores que não estão sobre a governabilidade dos profissionais, mas cabe a estes repensar seu papel não apenas como profissional de saúde, mas como educadores em saúde para o pleno cumprimento do direito ao acesso saúde, devendo a educação em saúde ser construída em conjunto com a comunidade e de forma interdisciplinar a fim de construir a relação de vinculo e o cuidado integral, ao passo que faz-se necessário o apoio e articulação de gestores de saúde na elaboração de ações estratégicas que não comprometam o fortalecimento do PSE em áreas de difícil acesso
ENTRE O VÍRUS E O ESTIGMA: EDUCAÇÃO POR PARES E OS DESAFIOS DO ACESSO E DA ADESÃO À PREP NO SUS
Comunicação Oral Curta
1 Universidade de São Paulo (USP)
Contextualização
Apesar dos avanços na prevenção, testagem e tratamento do HIV/aids, com ampliação da PrEP e da PEP no Sistema Único de Saúde (SUS), persistem desigualdades no acesso e na adesão. Marcadores sociais como renda, território, raça e gênero, associados a estigmas e discriminações, produzem barreiras ao cuidado, especialmente entre jovens e populações LGBTQIAPN+. Nesse contexto, compreender o cuidado em saúde exige articular dimensões sociais, subjetivas e territoriais. Os educadores pares emergem como mediadores estratégicos ao atuarem nos próprios contextos de vida dessas populações.
Descrição
Trata-se de um plano piloto de pesquisa participativa vinculado ao projeto “ComPrEP”, desenvolvido a partir de inserções de campo na região central da cidade de São Paulo (CAAE nº 83655524.0.1001.0068). A proposta envolve a oferta de PrEP mediada por educadores pares em espaços de sociabilidade, como ruas, festas e bares frequentados por jovens de 15 a 24 anos, incluindo travestis, pessoas transmasculinas, não-binárias, homens cis gays e outros homens que fazem sexo com homens. Articulado a esse processo, foi realizada uma revisão narrativa da literatura nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Scopus, contemplando produções sobre prevenção combinada, determinantes sociais da saúde, vulnerabilidades, práticas interdisciplinares e estratégias de cuidado no HIV/aids.
Período de Realização
O plano piloto foi iniciado em 2025 e segue em andamento, e a revisão narrativa da literatura foi realizada entre janeiro e fevereiro de 2026, considerando produções publicadas entre 2015 e 2025.
Objetivo
Discutir os aportes da interdisciplinaridade e analisar o papel dos educadores pares nas estratégias de prevenção combinada do HIV/aids, considerando os avanços técnico-científicos e os desafios sociais, territoriais e identitários que atravessam o acesso, a adesão e a gestão do cuidado no SUS.
Resultados
Os achados do plano piloto, articulados à revisão da literatura, evidenciam que, apesar da ampliação de tecnologias de prevenção, o acesso permanece desigual. Estigmas relacionados ao HIV/aids, articulados a marcadores sociais como raça, gênero, classe e território, configuram barreiras persistentes à adesão. A centralidade da lógica biomédica dos serviços de saúde mostra-se insuficiente para o cuidado integral, ao não incorporar plenamente as experiências das pessoas usuárias. A interseccionalidade evidencia como essas desigualdades se intensificam em contextos específicos, marcados pelo medo da exposição, pela ausência de confidencialidade e pela inadequação dos serviços às rotinas das pessoas, contribuindo para o afastamento do cuidado. Nesse cenário, a educação por pares emerge como estratégia potente para promover comunicação acessível, acolhimento, construção de vínculos e ampliação do cuidado em territórios e espaços de sociabilidade.
Aprendizado e Análise Crítica
A análise evidencia que o enfrentamento do HIV/aids não pode se restringir à dimensão biomédica, exigindo abordagens interdisciplinares que integrem determinantes sociais, subjetividades e práticas territoriais. Ademais, os estigmas permanecem como um “vírus social” que reforça vulnerabilidades e compromete a efetividade das políticas públicas. A atuação dos educadores pares se mostra estratégica na gestão do cuidado, ao mediar relações entre usuários e serviços, fortalecer a autonomia dos sujeitos e promover equidade no acesso. No entanto, sua incorporação ainda demanda maior reconhecimento institucional, formação adequada e articulação com as redes de atenção à saúde.
Como limitação, destaca-se que a descentralização e ampliação do acesso dependem de investimentos estruturais e de mudanças nos processos de trabalho em saúde. Ainda assim, o plano piloto configura-se como uma aposta potente para o fortalecimento do SUS, ao integrar participação social, educação em saúde e inovação nas estratégias de prevenção. Avançamos significativamente nas últimas décadas, mas ainda há muito a fazer para garantir cuidado integral, equitativo e livre de estigmas. Por fim, evidencia-se a necessidade de tensionar os modelos tradicionais de organização do cuidado no SUS, considerando o território como espaço central de produção da saúde e reconhecendo que a incorporação de tecnologias biomédicas, como a PrEP, não garante sua efetividade sem estratégias que promovam acesso, vínculo e adesão nos contextos reais de vida.
“SE FOSSE IMPORTANTE JÁ TERIA CHEGADO ATÉ NÓS AQUI”: CRENÇAS EM SAÚDE BUCAL EM UMA COMUNIDADE RURAL RIBEIRINHA DA AMAZÔNIA
Comunicação Oral Curta
1 ILMD – Fiocruz Amazônia / UEA
2 ILMD – Fiocruz Amazônia / UFAM
3 UFAM
Contextualização
As populações do campo, floresta e águas vivenciam iniquidades históricas no acesso às ações e serviços de saúde, incluindo a saúde bucal. Em territórios rurais amazônicos, o isolamento geográfico e as vulnerabilidades socioambientais impactam diretamente as práticas de cuidado e as crenças em saúde. A comunidade Vila Moura, localizada no rio Tefé, zona rural do município de Tefé, Amazonas, constitui um exemplo desse cenário. Com acesso exclusivamente fluvial, é a comunidade mais distante da sede municipal, a aproximadamente 36 horas de barco regional.
Descrição
Este relato de experiência foi elaborado a partir de registros de diário de campo produzido durante o trabalho de campo, na referida comunidade ribeirinha, de um estudo sobre condições de saúde bucal e fatores comuns de risco em populações rurais ribeirinhas da Amazônia. Foi aplicado um instrumento, por meio de entrevista, destinado à avaliação das crenças em saúde bucal, a partir da importância, desde extremamente até nenhuma, atribuída a comportamentos, como uso de dentifrício fluoretado, evitação de grande quantidade alimentos doces, utilização de serviços de saúde bucal e outros. As respostas eram frequentemente acompanhadas de narrativas de senso comum sobre as crenças, influenciadas pelo meio social e relacionadas a iniquidades em saúde e barreiras no acesso aos serviços de saúde. Ao abordar sobre a água fluoretada, um comunitário afirmou: “não é que eu não ache nada importante, mas, se fosse importante, já teria uma campanha para que isso tivesse chegado até nós aqui”, o que explicita uma percepção afastada da realidade e permeada por uma esperança utópica. Ao questionar se a medida já havia sido implementada na zona urbana do município e ser informado que não, o comunitário complementou: “se ainda não chegou lá na cidade, imagine aqui né? depois que algo chega lá, ainda demora muitos anos pra chegar aqui”, evidenciando agora uma compreensão de hierarquização dos territórios, onde áreas rurais ocupam posições secundárias no acesso às políticas públicas e a população urbana é historicamente favorecida pela implementação destas. Em outra fala: “acho que se a gente tivesse na cidade, a gente teria mais saúde e a nossa saúde da boca seria melhor até”, outro respondente buscou relacionar o local de moradia às condições de saúde, com a percepção de que a ruralidade é fator de risco à saúde e viver em áreas urbanas implica em maior acesso a serviços e atenção em saúde, sendo a saúde vista, portanto, como um privilégio urbano.
Período de Realização
O trabalho de campo que originou este relato foi realizado em julho de 2025.
Objetivo
Relatar e analisar criticamente uma experiência em campo relacionada às crenças em saúde bucal em uma comunidade ribeirinha amazônica.
Resultados
Observou-se uma visão pragmática nas respostas aos itens do instrumento, com maior valorização do atendimento odontológico, apesar da baixa disponibilidade dos serviços, do que a aspectos mais ampliados relacionados a saúde bucal. Assim, as crenças em saúde bucal mostraram-se fortemente relacionadas ao modelo assistencial biomédico tradicionalmente imposto a essas populações. Diante da descontinuidade dos serviços e limitação na oferta de estratégias de promoção e prevenção, incluindo o acesso a diferentes fontes de fluoretos e aos serviços de saúde bucal, foram comuns respostas e percepções que relativizavam a importância dessas medidas no cotidiano. A interpretação das respostas ao instrumento quantitativo pode ser limitada quando analisada de forma descontextualizada, uma vez que são profundamente atravessadas pelas especificidades, vulnerabilidades e experiências vividas e infligidas ao território.
Aprendizado e Análise Crítica
Os achados apontam para a importância da incorporação de métodos em pesquisa mais abrangentes e participativos e da articulação de abordagens qualitativas às quantitativas para que se amplie a compreensão dos fenômenos analisados, reconhecendo o diário de campo como uma ferramenta fundamental de reflexão e análise. A experiência evidencia que as crenças em saúde bucal não podem ser compreendidas de forma descontextualizada. As falas dos participantes revelam mais do que percepções individuais: expressam interpretações construídas a partir das vivências no território. Nesse contexto, o campo configura-se como um espaço vivo de aprendizado, que permite aproximação com as realidades cotidianas e abertura para outras formas de produzir saúde. As observações na vivência reforçam a necessidade de reorientar as práticas em saúde bucal à luz da equidade e dos determinantes sociais do processo saúde-doença, considerando as especificidades das populações ribeirinhas amazônicas, reconhecendo que o cuidado em saúde, mais do que tecnicista, exige escuta qualificada, reconhecimento das realidades locais e valorização dos saberes e práticas presentes nas comunidades. É importante que as ações em saúde dialoguem com esses contextos, respeitando os modos de vida e os significados atribuídos à saúde pelos próprios sujeitos.
CO-CRIAÇÃO DE FLUXOS DE CUIDADO EM ABORTO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA DO SUS: FORMAÇÃO PARTICIPATIVA E REDUÇÃO DE DANOS
Comunicação Oral Curta
1 Bloco A
2 IFF/Fiocruz
3 UnB
Contextualização
Em contextos de restrição legal, os danos relacionados ao abortamento e pós-aborto não se limitam a procedimentos inseguros, sendo também produzidos nos serviços de saúde por meio do estigma, da desinformação, da fragmentação dos fluxos e da insegurança profissional. Nesse cenário, a redução de danos em aborto refere-se ao conjunto de práticas voltadas a minimizar riscos à saúde diante de gestações indesejadas, incluindo orientação baseada em evidências, reconhecimento precoce de complicações, garantia de sigilo, encaminhamento adequado e apoio à tomada de decisão, mesmo quando a interrupção ocorre fora dos serviços formais. No entanto, essa abordagem ainda é pouco incorporada na Atenção Primária à Saúde (APS), que ocupa posição estratégica na coordenação do cuidado.
Descrição
Este relato de experiência apresenta a implementação do curso presencial “Ampara - Direitos sexuais e reprodutivos na APS”, realizado no Distrito Federal entre novembro e dezembro de 2025, por meio de parceria entre a organização Bloco A, o Instituto Fernandes Figueira/Fiocruz e a Secretaria de Saúde do DF. O curso teve carga horária de 30 horas, distribuídas em três encontros presenciais para três turmas.
A metodologia combinou exposições dialogadas e oficinas práticas com uso de metodologias participativas, incluindo discussão de casos, encenação de consultas (roleplay) e construção coletiva de fluxos de cuidado. As atividades partiram de situações concretas, como gravidez indesejada, violência sexual e risco de vida, e permitiram explicitar desafios estruturais, como ausência de protocolos, fragilidade do sigilo, medo de responsabilização e dificuldades na abordagem da violência.
Participaram 65 profissionais, dos quais 47 concluíram a formação. A avaliação indicou melhora significativa no conhecimento, com aumento de acertos em temas-chave, como aborto legal em caso de estupro de vulnerável (de 53,1% para 100%) e redução de danos (de 55,1% para 96,8%). Também foram observados ganhos na segurança profissional e na capacidade de identificar situações de risco.
Período de Realização
Novembro e dezembro de 2025
Objetivo
O objetivo foi fortalecer a capacidade de profissionais da APS para oferecer cuidado integral em situações de aborto, integrando dimensões clínicas, éticas e jurídicas a partir dos referenciais da justiça reprodutiva e da redução de danos.
Resultados
Os resultados qualitativos apontaram mudanças relevantes nas práticas, incluindo maior separação entre valores pessoais e ética profissional, reconhecimento de violências institucionais e incorporação de uma linguagem baseada em direitos. A construção coletiva de linhas de cuidado evidenciou o papel da APS na coordenação do cuidado, articulando acolhimento, encaminhamento e seguimento longitudinal, com inclusão explícita de estratégias de redução de danos no manejo da gravidez indesejada.
Aprendizado e Análise Crítica
Entre os principais aprendizados, destaca-se que metodologias participativas permitem transformar incertezas individuais em respostas coletivas e operacionais. A análise crítica indica que a formação em aborto, quando ancorada na redução de danos e na justiça reprodutiva, pode atuar como estratégia de mudança institucional, ao reorganizar práticas, fluxos e responsabilidades no cuidado.
A experiência demonstra que a educação permanente em saúde, associada à construção coletiva de fluxos, é fundamental para qualificar o cuidado em saúde sexual e reprodutiva no SUS, especialmente em contextos marcados por estigma, insegurança e restrições legais.
ESTRATÉGIAS EDUCATIVAS PARA MELHORIA DA QUALIDADE DE VIDA NA COMUNIDADE DO MORRO DO CÉU, NITERÓI-RJ
Comunicação Oral Curta
1 Conselho Municipal de Saúde de Niterói
Contextualização
O Morro do Céu é uma comunidade localizada na Zona Norte de Niterói. Na década de 1980, o território passou a conviver com a implantação de um lixão, posteriormente transformado em aterro sanitário, o que continua gerando impactos significativos para a população residente. A permanência de famílias nessa área expõe os moradores a riscos que ultrapassam a dimensão ambiental, alcançando aspectos sociais, econômicos e sanitários. A ausência histórica de políticas públicas eficazes e continuadas, aliada à precariedade de infraestrutura e mobilidade urbana, agrava a vulnerabilidade do território. A escolha da comunidade justifica-se por se tratar de um tema sensível para o município e pelo forte engajamento do movimento social local. Além disso, o Morro do Céu apresenta condições semelhantes às do Morro do Bumba, cenário de uma tragédia em 2010, quando chuvas intensas provocaram deslizamentos de terra, resultando em mortos, feridos, desaparecidos e desabrigados. Nesse contexto, o grupo procurou estabelecer diálogo com a comunidade, promovendo encontros e elaborando materiais educativos a partir das demandas identificadas.
Descrição
O primeiro momento do projeto foi a realização de pesquisa sobre a região, o segundo foi a abordagem direta junto à população do território, em que se realizou dois encontros no MMF Faustino Pérez. No primeiro encontro, realizou-se levantamento de informações dos por meio da aplicação de questionário estruturado, contemplando aspectos como faixa etária, sexo, tempo de moradia na região, ocupação e ocorrência de doenças respiratórias e dermatológicas. O resultado consolidado das informações demonstra que o adoecimento da população da região é determinado pelas condições sociais e ambientais as quais estão expostos.
Período de Realização
O projeto começou em agosto de 2025, com pesquisa sobre a história da região, a fase dos encontros aconteceu de janeiro a fevereiro de 2026, com previsão de continuar os encontros ao longo de 2026.
Objetivo
Reduzir os riscos de contaminação por meio da educação ambiental tendo como público alvo as famílias residentes na comunidade do Morro do Céu. Os objetivos do projeto foram: contribuir para a proteção da vida e da saúde da população da comunidade, apoiar tecnicamente a gestão municipal em ações de diagnóstico, prevenção e reassentamento, fortalecer a autonomia comunitária por meio da mobilização e da educação ambiental e reproduzir conhecimento no território.
Resultados
Participaram da pesquisa moradores da comunidade, representantes da Associação de Moradores, Agentes Comunitários de Saúde, enfermeiros, médicos e representantes de órgãos públicos, como o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). Os principais resultados apontaram que: 86,7% dos respondentes são do sexo feminino; 53,3% possuem mais de 60 anos; 86,7% residem na comunidade; 66,7% trabalham na região; 66,7% relataram problemas de pele; 73,3% relataram doenças respiratórias. Com base na consolidação dos dados coletados e em pesquisa sobre o histórico da comunidade, foram produzidos os materiais educativos “Doenças Relacionadas à Poluição Atmosférica” e “Comunidade Mais Segura e Saudável”, além da entrega de plantas com potencial de auxiliar na purificação do ar, como estratégia complementar de mitigação dos efeitos dos gases tóxicos oriundos do aterro sanitário. A proposta buscou fortalecer espaços de troca e formar agentes multiplicadores no território.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a importância da escuta ativa e da educação ambiental como instrumentos de fortalecimento comunitário. Observou-se que a população apresenta resiliência e organização social, mesmo diante das adversidades. Embora a intervenção educativa represente estratégia relevante a curto prazo, os problemas estruturais do território demandam políticas públicas intersetoriais, contínuas e efetivas. O movimento social deve estar articulado com o poder público para garantir soluções sustentáveis e proteção integral à saúde da população.
HIERARQUIZAÇÕES NA PERMANÊNCIA À PREP: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA EM UMA UBS DE MANAUS.
Comunicação Oral Curta
1 UFAM
Contextualização
Embora atualmente a PrEP não seja o único método de prevenção ao HIV, tornou-se uma importante estratégia no âmbito das políticas públicas. No entanto, sua efetividade não depende apenas do uso, mas também das condições de acesso e permanência, envolvendo dinâmicas institucionais que impactam diretamente o cuidado.
Os critérios dos protocolos, como assiduidade, exames periódicos e regras de dispensação, organizam o serviço, mas também produzem efeitos que vão além do técnico, gerando diferenciações e hierarquizações implícitas entre usuários. Aqueles que cumprem as normas tendem a ser mais reconhecidos, enquanto os que enfrentam dificuldades podem ser deslocados para posições de menor legitimidade.
Observou-se que usuários com jornadas de trabalho extensas enfrentam barreiras de acesso, especialmente pela incompatibilidade entre seus horários e o funcionamento das unidades, o que pode levar à descontinuidade do uso.
Assim, evidencia-se a necessidade de considerar as interseccionalidades dos usuários e desenvolver estratégias mais inclusivas, evitando a reprodução de lógicas hierárquicas que podem gerar estigmatização e violências simbólicas no atendimento.
Descrição
O presente relato surgiu do campo de pesquisa, onde foi realizado entrevistas semiestruturadas para a pesquisa multicêntrica do projeto PrEP - America do Sul em uma unidade básica de saúde em Manaus. Durante a visita de reconhecimento, o grupo de profissionais trouxe uma fala evidenciando a necessidade de compreender o acesso desses usuários que não são contemplados pelo protocolo da PrEP devido a suas especificidades e que muitas vezes, esses impedimentos geravam conflitos entre os profissionais e usuários, bem como dificuldade na permanência no serviço.
Período de Realização
A pesquisa foi realizada durante o mês de fevereiro e as entrevistas aconteciam enquanto os usuários aguardavam sair o resultado da testagem.
Objetivo
Buscamos compreender como as práticas institucionais produzidas no serviço da PrEP se relacionam com a descontinuidade dos usuários, problematizando de que maneira os próprios modos de organização do cuidado podem atuar na produção de barreiras à permanência e tensionar o acesso em suas dimensões.
Resultados
Foi realizada uma ida ao campo para compreender o funcionamento da dispensação da PrEP na UBS Ajuricaba, em Manaus. Observou-se, nas falas dos profissionais, uma dinâmica silenciosa de classificação dos usuários entre “pacientes ouro”, que cumprem as normas, e “pacientes problema”, que não cumprem ou descontinuam o tratamento, sendo estes associados a conflitos no atendimento. Também se identificou que dificuldades de comparecimento estavam relacionadas a trabalho, viagens ou outros fatores.
Durante o campo, usuários relataram conflitos frequentes na recepção, marcada por atendimentos considerados rígidos e episódios de tensão, embora a unidade possuísse estratégias de mediação. Em contraste, a equipe de enfermagem foi amplamente elogiada pelo acolhimento e qualidade do atendimento.
As hierarquizações, ainda em análise, mostraram-se presentes de forma implícita, especialmente por meio do sistema de dispensação em “escadinha” (de um a seis meses), percebido por usuários como punitivo, já que falhas na assiduidade resultam em regressão no tempo de acesso ao medicamento.
Além disso, a jornada de trabalho foi apontada como um fator que dificulta o cumprimento das exigências do serviço, levando muitos usuários a recorrerem à demanda espontânea. Por fim, destacou-se o desconforto de alguns participantes em revelar o uso da PrEP no ambiente de trabalho, devido ao medo de julgamentos.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência de campo permitiu identificar lacunas na implementação da PrEP, destacando como estruturas moralizantes e normativas podem gerar barreiras de acesso e afastar usuários dos serviços de saúde. O estudo evidencia a necessidade de aprimorar o atendimento, considerando as interseccionalidades e especificidades de cada paciente, para garantir um cuidado mais equânime, conforme os princípios do SUS. Também aponta a importância de revisar práticas e estratégias, incluindo alternativas extramuros, assegurando que atendam adequadamente às necessidades dos usuários. Por fim, trata-se de um recorte inicial de pesquisa, ainda em desenvolvimento, que será aprofundado na dissertação de mestrado.
VIVÊNCIAS NA REALIZAÇÃO DO AUTOTESTE PARA SÍFILIS/HIV ENTRE USUÁRIOS DE PREP: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA COM POPULAÇÃO GAY E HOMENS QUE FAZEM SEXO COM HOMENS (HSH)
Comunicação Oral Curta
1 Universidade do Estado do Amazonas – UEA
2 Universidade Federal do Amazonas – UFAM
3 Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
4 Universidade do Estado da Bahia – UNEB
Contextualização
A ampliação do acesso ao diagnóstico precoce das infecções sexualmente transmissíveis (IST), especialmente sífilis e HIV, constitui uma estratégia fundamental para o controle dessas infecções. Entre homens que fazem sexo com homens (HSH) e a população gay, observa-se maior vulnerabilidade epidemiológica, o que justifica a adoção de tecnologias inovadoras de cuidado, como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e o autoteste. Nesse contexto, o autoteste de sífilis e o autoteste de sífilis/HIV emerge como ferramenta potente para ampliar o acesso, promover autonomia e reduzir barreiras relacionadas ao estigma e à discriminação nos serviços de saúde.
Descrição
A atividade consistiu na oferta de autotestes durante consultas de rotina de usuários de PrEP. Inicialmente, os participantes recebiam explicações sobre o funcionamento da pesquisa, objetivos, metodologia, tempo de participação e, caso aceitassem participar, eram entrevistados pelos pesquisadores. Após a entrevista gravada, eram convidados a realizar o autoteste de forma autônoma, com supervisão discreta dos profissionais de saúde. Durante a execução, foram observadas diferentes reações e níveis de familiaridade com a tecnologia. Alguns usuários demonstraram segurança e agilidade, enquanto outros apresentaram dificuldades na manipulação dos dispositivos, especialmente na abertura das embalagens, identificação dos componentes do autoteste e execução das etapas corretas. Em diversos casos, houve necessidade de releitura do manual e reforço das orientações. Também foram identificados aspectos emocionais relevantes, como ansiedade, medo do resultado e insegurança quanto à interpretação, corroborando estudos que apontam o impacto do estigma e do medo do diagnóstico no acesso à testagem.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida entre os meses de janeiro a abril de 2026, no ambulatório da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), da cidade de Manaus-AM, durante a coleta de dados da pesquisa “Enfrentando os desafios da sífilis através da autotestagem: estudo da usabilidade e aceitabilidade de um autoteste de sífilis e um autoteste para HIV e sífilis entre populações vulneráveis no Brasil”, realizado pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Objetivo
Relatar a experiência no acompanhamento da realização do autoteste combinado de sífilis/HIV entre usuários de PrEP, com foco na população gay e HSH, analisando desafios, potencialidades e aprendizados no processo de cuidado.
Resultados
A experiência evidenciou boa aceitação do autoteste entre os usuários de PrEP (10 participantes), destacando-se a valorização da privacidade e da autonomia no cuidado. Observou-se aumento do engajamento dos participantes no acompanhamento de sua saúde sexual, com maior interesse em compreender os processos de testagem. Entretanto, dificuldades operacionais foram recorrentes, especialmente entre usuários com menor letramento em saúde. Problemas como não cronometrar o tempo adequado e não compreender corretamente os itens componentes do autoteste foram identificados. Além disso, aspectos emocionais influenciaram diretamente a experiência, podendo interferir na execução correta do teste.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência reforçou a importância de estratégias educativas acessíveis e adaptadas ao público-alvo, incluindo o uso de linguagem simples, recursos visuais e demonstrações práticas. Evidenciou-se que a autonomia no autoteste não elimina a necessidade de mediação profissional, especialmente em contextos de vulnerabilidade. Outro aprendizado relevante refere-se à necessidade de considerar os aspectos subjetivos envolvidos na testagem, como medo e ansiedade, incorporando abordagens acolhedoras e centradas no usuário. A escuta qualificada mostrou-se fundamental para fortalecer o vínculo e promover maior segurança durante o processo.
Embora o autoteste represente um avanço significativo na ampliação do acesso ao diagnóstico, sua implementação não deve ser compreendida como substitutiva do cuidado em saúde, mas complementar. Além disso, é necessário problematizar a ideia de autonomia plena, considerando desigualdades sociais, educacionais e emocionais que impactam a capacidade dos usuários de realizar o autoteste de forma independente. Assim, recomenda-se que políticas públicas incorporem o autoteste aliado a ações educativas e acompanhamento profissional, garantindo não apenas o acesso, mas a qualidade do cuidado. Por fim, destaca-se que o uso do autoteste em populações-chave, como gays e HSH em uso de PrEP, apresenta grande potencial para fortalecer estratégias de prevenção combinada, desde que integrado a práticas de cuidado contínuo, humanizado e contextualizado às necessidades dos usuários.
PERCEPÇÕES DE RESIDENTES MULTIPROFISSIONAIS SOBRE INFECÇÕES RELACIONADAS À ASSISTÊNCIA À SAÚDE E RESISTÊNCIA MICROBIANA: IMPLICAÇÕES PARA O CUIDADO E A FORMAÇÃO EM SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 UFVJM
Apresentação/Introdução
As Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) e a resistência microbiana constituem importantes desafios para a saúde pública, impactando a qualidade do cuidado e a segurança do paciente. Embora fatores estruturais e microbiológicos estejam envolvidos em sua ocorrência, o manejo dessas infecções depende diretamente das práticas desenvolvidas no cotidiano dos serviços de saúde. Aspectos como cultura organizacional, comunicação entre equipes e condições de trabalho influenciam essas práticas, impactando a prevenção, o controle e a disseminação das IRAS. Nessa perspectiva, investigar as experiências de residentes multiprofissionais torna-se relevante, uma vez que esses profissionais vivenciam a articulação entre formação e prática no ambiente hospitalar. A diversidade de suas formações permite analisar diferentes modos de produzir o cuidado, evidenciando desafios e potencialidades no enfrentamento das IRAS e da resistência microbiana.
Objetivos
Portanto, o objetivo deste estudo é analisar as percepções de residentes multiprofissionais em saúde do idoso sobre as infecções relacionadas à assistência à saúde e a resistência microbiana.
Metodologia
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa. Foram realizados grupos focais mistos com 21 residentes, entre eles, farmacêuticos, dentistas, fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas e educadores físicos, nos hospitais de ensino de Diamantina (MG). As discussões seguiram uma conversa orientada, guiada por um conjunto de perguntas sobre a temática para conduzir a moderação. O material foi transcrito e organizado em planilhas do Microsoft Excel, permitindo a separação das falas, codificação e análise de conteúdo. A análise seguiu o método de análise de conteúdo proposto por Bardin, desenvolvido em três etapas principais: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. A pré-análise consistiu na leitura exaustiva das transcrições, com o intuito de familiarizar-se com o conteúdo e identificar os elementos mais relevantes. Na fase de exploração, foram definidas as unidades de significação, ou seja, trechos das falas que expressavam sentidos completos relacionados aos objetivos do estudo. Essas unidades foram agrupadas por semelhança temática, permitindo a formação de categorias que representassem os eixos centrais do material. A última etapa consistiu na interpretação e no tratamento dos resultados. Este estudo integra parte de um projeto maior multicêntrico envolvendo 04 hospitais de Minas Gerais, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, sob o parecer CAAE: 67174122.4.1001.5149.
Resultados e Discussão
Os discursos dos residentes foram entendidos não apenas como relatos de experiências, mas como expressões de consciência crítica e ressignificação das práticas de cuidado frente aos desafios do controle de infecções hospitalares. Essa abordagem possibilitou compreender como a vivência multiprofissional e o processo formativo contribuem para o desenvolvimento de uma visão ampliada sobre o papel de cada profissional na segurança do paciente. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sob o parecer CAAE: 67174122.4.1001.5149. As falas elucidaram 3 categorias temáticas: 1) a “In” assistência à saúde, marcada por fragilidades na prática assistencial, baixa adesão às medidas de prevenção e falhas na comunicação entre equipes; 2) Sistematização fragilizada, evidenciando que, apesar da existência de protocolos institucionais, sua aplicação ocorre de forma inconsistente, relacionada à falta de responsabilização, ausência de treinamentos e limitações estruturais; 3) Engrenagens da saúde, destacando a importância do cuidado integral e multiprofissional no controle das infecções. Observou-se, ainda, que os processos formativos influenciam diretamente as práticas profissionais, sendo apontadas lacunas na capacitação e na educação permanente em saúde. Alinhadas ao Plano Nacional para a Prevenção e o Controle da Resistência aos Antimicrobianos, as falas dos residentes sugerem a necessidade de fortalecer a qualificação profissional e a incorporação de práticas de vigilância, prevenção e uso racional de antimicrobianos no cotidiano dos serviços de saúde.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se, portanto, que as percepções dos residentes multiprofissionais revelam desafios e potencialidades na prevenção das IRAS e no enfrentamento da resistência microbiana, destacando a centralidade da formação profissional e a necessidade de articulação entre gestão, ensino e assistência para qualificar o cuidado em saúde.
Realização: