Programa - Comunicação Oral - CO22.3 - Telesaúde, saúde mental e cuidado
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
NAVEGANDO PELAS ONDAS DA VIOLÊNCIA SEXUAL DIGITAL: UMA ANÁLISE EM ESTUDANTES E FUNCIONÁRIOS DE UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA BRASILEIRA
Comunicação Oral
1 UFOP
2
Apresentação/Introdução
A violência sexual digital (VSD) envolve ameaças ou compartilhamento não consensual de conteúdo sexual explícito em plataformas eletrônicas. A expansão das tecnologias, o anonimato e a rápida disseminação intensificaram seus impactos, tornando-a um problema de saúde pública. Suas repercussões vão além de efeitos médicos, incluindo ruptura social, isolamento e quadros de depressão e ansiedade, agravados por vulnerabilidades de gênero e orientação sexual. Diante da escassez de dados epidemiológicos no Brasil sobre violência baseada em imagem, este estudo busca mapear essas dinâmicas no contexto universitário, subsidiando políticas públicas e intervenções de acolhimento.
Objetivos
Investigar a prevalência de vitimização e perpetração da violência sexual digital em uma comunidade acadêmica, analisando seus impactos na saúde mental. Secundariamente, busca-se traçar o perfil sociodemográfico das vítimas com base em gênero e orientação sexual, bem como identificar as principais redes de busca de apoio acessadas após o agravo.
Metodologia
Trata-se de um estudo observacional, de corte transversal e abordagem quantitativa, com finalidade exploratória e descritiva. A população abrangeu a comunidade acadêmica (discentes, docentes e técnicos administrativos) maiores de 18 anos, distribuída nos três campi da universidade. A amostragem foi não probabilística por conveniência, adotando-se uma coleta híbrida (online e presencial). A via online reduziu o viés de desejabilidade social, enquanto a presencial incluiu perfis de menor engajamento tecnológico. A coleta ocorreu via formulário eletrônico estruturado em quatro eixos: 1) Perfil sociodemográfico; 2) Mensuração da violência por meio de um recorte analítico do Questionário sobre Ciberabuso no Namoro (CibAN/CDAQ), focado em Violência Sexual Baseada em Imagem (VSBI); 3) Mapeamento do contexto das agressões e das redes de busca por ajuda ; e 4) Avaliação de saúde mental pelo Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20). O estudo seguiu a Resolução 466/12, sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da universidade. A participação foi condicionada ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) , e, como medida de redução de danos, ofertou-se aos participantes uma lista ativa de contatos para acolhimento psicológico e jurídico ao término do questionário.
Resultados e Discussão
Obteve-se uma amostra de 431 participantes. Verificou-se que 14,4% (n=62) da amostra relatou ter sofrido VSD ao menos uma vez. A análise cruzada evidenciou um forte viés de gênero na vitimização: as mulheres apresentaram uma prevalência maior que a dos homens (17,2% das mulheres relataram agressões contra 8,8% dos homens). Indivíduos não binários registraram a maior vulnerabilidade proporcional, com 50% relatando episódios de violência (a despeito do tamanho reduzido do subgrupo). No recorte de orientação sexual, a prevalência entre estudantes bissexuais foi alarmante (28,0%), figurando como quase o triplo da registrada entre indivíduos heterossexuais (10,6%) e homossexuais (10,0%). Em contraponto, a perpetração confirmou o caráter estrutural da violência: homens concentram a maior prevalência de agressores (8,8% relataram ter perpetrado VSD, ante 5,0% das mulheres). A aferição de saúde mental pela SRQ-20 atestou extrema gravidade psicossocial: 68,9% das vítimas manifestaram probabilidade extrema de desenvolvimento de transtornos mentais comuns (TMC). Notavelmente, a violência correlacionou-se também com adoecimento por parte dos perpetradores, onde 60,0% destes registraram, igualmente, escores de probabilidade extrema para TMC. Por fim, evidenciou-se um severo quadro de desassistência e silenciamento: a maioria das vítimas (51,6%) não procurou nenhum tipo de ajuda. Entre as que buscaram apoio, sobressaíram as redes informais (17,7% buscaram amigos e 8,1% familiares), em detrimento das institucionais, com apenas 16,1% contatando profissionais de saúde e taxas marginais (6,5%) buscando outras instâncias.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo demonstra a prevalencia e alguns efeitos da violência sexual digital em um contexto universitário brasileiro. Observa-se que o agravo atinge desproporcionalmente mulheres e minorias sexuais. A presença de altos níveis de sofrimento psíquico, associada a um cenário de silenciamento — no qual mais da metade das vítimas não busca ajuda —, configura um alerta epidemiológico e institucional. Destaca-se a necessidade de formulação de protocolos integrados pelas universidades, não restritos à sanção, mas voltados à criação de redes acessíveis de acolhimento em saúde mental e à desconstrução da normalização das agressões de gênero.
O DISCURSO MÉDICO SOBRE SAÚDE MENTAL JUVENIL NO INSTAGRAM: UMA ANÁLISE DA SEMIOSE EM PUBLICAÇÕES DE PSIQUIATRIA ADOLESCENTE
Comunicação Oral
1 Universidade Federal da Bahia (UFBA)
2 Instituto Gonçalo Moniz (IGM - Fiocruz Bahia)
Apresentação/Introdução
As mídias sociais tornaram-se meios fundamentais de interação e evidenciam a interconectividade contemporânea. Jovens das gerações Z e Alpha, considerados “nativos digitais”, crescem imersos na internet e lidam com informações de forma imediata, o que reduz a fronteira entre mundo real e virtual. Esses ambientes influenciam a construção identitária, o pertencimento a grupos e configuram a principal via de circulação de informações, inclusive sobre saúde. Tornaram-se também espaços relevantes para o debate em saúde mental, onde jovens compartilham angústias e buscam acolhimento, embora essa dinâmica opere como via dupla: ao mesmo tempo em que reduz estigmas, pode intensificar vulnerabilidades. O Instagram, de alcance global, centraliza a difusão de conteúdos de saúde por instituições e profissionais, ampliando tanto informação qualificada quanto desinformação. Nesse cenário, profissionais de saúde desempenham papel essencial no enfrentamento de fake news e na promoção de um debate ético sobre saúde mental.
Objetivos
Analisar como médicos constroem e difundem discursos sobre saúde mental de jovens no Instagram, identificando formatos, temas predominantes e posicionamentos discursivos presentes nas publicações, a fim de compreender de que modo esses conteúdos contribuem para a circulação de informações e para a produção de sentidos sobre o adoecimento psíquico na plataforma.
Metodologia
O presente relato de pesquisa apresenta dados preliminares de uma pesquisa exploratória em andamento que analisou o discurso médico no Instagram sobre saúde mental entre jovens. A coleta ocorreu em outubro de 2025, por meio do levantamento manual de publicações da hashtag #psiquiatriaadolescente em uma conta criada para esse fim. A busca inicial reuniu 5000 posts, posteriormente filtrados para o formato Reels, resultando em 103 publicações. Adotaram-se como critérios de inclusão publicações entre 2023 (pós-pandemia de Covid-19 definido pela OMS) e 2025, totalizando N = 60. Foram excluídos materiais sem autoria médica, em outras línguas, acima da duração padrão de Reels ou duplicados, compondo uma amostra final de N = 38. A análise do discurso seguiu a semiose proposta por Verón (2004), considerando categorias como Observador, Intérprete, Avaliador/Julgador, Porta-voz, Militante/Polemista e Prescritor, dentre outros aspectos.
Resultados e Discussão
Na amostra analisada (N=38), 92,1% das publicações são vídeos, sendo expressivo os formatos de selfvlogs (63,9%), seguidos de slideshows (19,4%). 100% dos autores são médicos sendo (86,1%) psiquiatras e (25%) pediatras. Os temas mais frequentes referem-se a diagnóstico e tratamento (63,9%), sinais e sintomas (55,6%), relações familiares (30,6%), prevenção (25%), estilo de vida (13,9%), suicídio (11,1%) e vícios (8,3%), além de menções menos recorrentes, como mídias sociais, jogos, bullying e sexualidade (5,6% cada). Outros assuntos pontuais incluíram uso de celular, estigma, desenvolvimento emocional, sigilo, apoio materno, tédio e drogas (2,8% cada). Predomina-se postura de observador (52,8%), com foco na objetividade e apresentação de evidências, concomitante à atuação como intérprete (52,8%), esclarecendo causas, consequências e fatores que influenciam o adoecimento mental. Parte dos profissionais também adota discurso prescritivo (27,8%). A linguagem tende a ser coloquial e aproximativa (58,3%). Quanto ao público-alvo, 50% dos vídeos são dirigidos ao público leigo geral, enquanto 47,2% direcionam-se especificamente a pais ou responsáveis, utilizando termos como “seu filho” ou “os adolescentes”.
Conclusões/Considerações Finais
As mídias sociais têm se tornado um espaço relevante para médicos abordarem saúde mental, favorecendo maior alcance e proximidade com o público. Nesse contexto, assumem papel de porta-vozes em temas sensíveis e atuam no enfrentamento da desinformação, dada a confiança social depositada na categoria médica. Jovens e, sobretudo, pais e responsáveis buscam nesses ambientes acolhimento e informação após diagnósticos, o que torna essencial um discurso profissional acessível, claro e capaz de reduzir estigmas relacionados aos transtornos mais comuns entre adolescentes.
Paralelamente, o Instagram amplia o acesso a conteúdos de saúde, mas carece de mecanismos de regulação, o que resulta na circulação de informações sem base científica. Embora médicos tendam a produzir conteúdos mais fidedignos, representam uma parcela minoritária das publicações sobre o tema. Assim, apesar do potencial educativo da plataforma, ela também favorece a disseminação de desinformação, não apenas em saúde mental, mas sobre hábitos, estilo de vida, diagnóstico e tratamento. A atuação ativa de profissionais e instituições, aliada à literacia digital do público, constitui um eixo fundamental para otimizar o impacto positivo das mídias sociais na promoção da saúde mental.
O ESPAÇO GEOGRÁFICO DO SOFRIMENTO PSÍQUICO NO AMBIENTE DIGITAL: UMA ANÁLISE A PARTIR DE DADOS DO TWITTER
Comunicação Oral
1 Universidade Federal do Maranhão
2 Universoidade Federal do Maranhão
3 Centro Universitário Florence
Apresentação/Introdução
As plataformas de interação social, como as redes sociais, têm ganhado destaque crescente, configurando-se como espaços centrais de interação, expressão e compartilhamento de experiências entre os usuários, associadas como um espaço de expressão subjetiva e cotidiana, no qual os indivíduos externalizam emoções, constroem narrativas sobre si e acionam processos de autoidentificação em diferentes situações vivenciadas no dia a dia, inclusive no que se refere à saúde mental. Partiu-se da hipótese de que o discurso sobre saúde mental nas redes sociais pode ser analisado à luz da Geografia para revelar dimensões espaciais do sofrimento psíquico. O avanço das tecnologias digitais e das redes sociais têm transformado as formas de expressão do sofrimento psíquico, permitindo que indivíduos compartilhem experiências, emoções e percepções no ambiente virtual, atuando como uma extensão do território físico. E mesmo com o crescente interesse na relação entre redes sociais e saúde mental, ainda é pouco explorado as abordagens que considera a dimensão espacial desses discursos.
Objetivos
Analisar o espaço geográfico do sofrimento psíquico a partir de dados de redes sociais, buscando compreender de que forma os discursos sobre saúde mental nas redes sociais revelam dimensões espaciais desse fenômeno. A pesquisa também buscou identificar padrões no discurso sobre saúde mental, classificar os dados em categorias geográficas, analisar a distribuição dessas categorias e interpretar os resultados à luz da Geografia da Saúde.
Metodologia
Caracterizada por uma abordagem geográfica sistêmica, o estudo foi caracterizado como do tipo de estudo ecológico, com levantamento de dados secundários. Os procedimentos metodológicos foram desenvolvidos em quatro etapas: (i) Definição da pesquisa e coleta dos dados; (ii) Tratamento e organização dos Dados; (iii) Classificação e refinamento do modelo; (iv) Construção da Escala de espacialidade. Foram utilizados descritores em inglês nas buscas. Fundamentada na Geografia da Saúde, a questão central estabelecida para guiar a pesquisa foi compreender de que forma o discurso sobre saúde mental nas redes sociais revela as dimensões espaciais do sofrimento psíquico, para isso, foi definida uma abordagem mista, utilizando dados retirados de um corpus na plataforma Kaggle, o corpus contém 154.348 tweets em inglês, que posteriormente foram armazenados no formato CSV em pastas. Devido a ausência de geolocalização do conjunto de dados, foi realizado o tratamento e a organização destes a partir de categorias. O ambiente de análise foi preparado usando linguagem de programação Python.
Resultados e Discussão
Inicialmente, o modelo classificou 99,39% dos 154.348 posts na categoria “Outros”, evidenciando a necessidade de refinamento. Para isso, o dicionário foi ampliado com novos termos e descritores indiretos, associando estados físicos e ações cotidianas a categorias espaciais, como Mobilidade e rotina e Espaço doméstico. Em seguida, foi incorporada a biblioteca fuzzywuzzy, permitindo a identificação de similaridade textual (70% a 80%) e a captura de variações linguísticas. Com isso, estruturou-se um “léxico do sofrimento”, contemplando categorias como Ansiedade, Exaustão Mental, Tristeza, Solidão e Ideação Autodestrutiva. Apesar dos avanços, a categoria “Outros” permaneceu predominante (97,07%), enquanto as demais categorias apresentaram menor representatividade, com destaque para Mobilidade e rotina (1,06%), Espaço doméstico (0,67%) e Natureza e restauração (0,57%). Ainda assim, o refinamento do modelo possibilitou a identificação de dimensões espaciais implícitas nos discursos. A partir desses dados, foi elaborada uma escala de espacialidade do sofrimento psíquico, distinguindo entre ausência de referência espacial e presença de espacialidade explícita. Os resultados indicam que, há evidências de associação do sofrimento psíquico com o espaço vivido, especialmente nas dinâmicas do cotidiano, como deslocamentos, ambiente doméstico e interações sociais, além da natureza como elemento de alívio emocional.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicam que o sofrimento psíquico, mesmo quando não explicitamente associado a um território, apresenta relações importantes com o espaço vivido, especialmente nas dinâmicas do cotidiano, como mobilidade, ambiente doméstico e interações sociais. O uso de dados de redes sociais se apresentou como uma boa ferramenta para a análise de manifestações subjetivas em ambientes digitais, permitindo identificar padrões relevantes no discurso sobre saúde mental. O refinamento das categorias analíticas evidenciou a necessidade de aprimorar os instrumentos metodológicos para captar melhor as dimensões espaciais implícitas nesses discursos. Os resultados também destacaram a importância da articulação interdisciplinar.
TECNOSSOCIALIDADE NO COTIDIANO DA ATENÇÃO PRIMÁRIA: POTÊNCIAS E LIMITES DA TELECONSULTA DE ENFERMAGEM PARA PROMOÇÃO DA SAÚDE EM TEMPOS DE SAÚDE DIGITAL
Comunicação Oral
1 UFSC
2 UFSJ
Apresentação/Introdução
A crescente incorporação das tecnologias digitais no cotidiano da área saúde tem reconfigurado práticas, relações e modos de cuidado. Na Atenção Primária à Saúde (APS), esse movimento se intensificou, especialmente, no contexto da pandemia de COVID-19, com a ampliação da utilização de ferramentas de cuidados pelos profissionais, como por exemplo, a teleconsula de enfermagem. Em tempos de cibercultura, é preciso repensar a tecnossocialidade, compreendida como toda interação social mediada pela tecnologia, especialmente, as redes sociais. Este estudo problematiza os impactos da tecnossocialidade no trabalho em saúde, considerando suas implicações éticas, políticas e assistenciais no Sistema Único de Saúde (SUS), em tempos de Saúde Digital.
Objetivos
compreender como enfermeiros da APS vivenciam a tecnossocialidade, considerando a teleconsulta de enfermagem, no cotidiano de Saúde Digital, analisando suas potências e limites para a promoção da saúde.
Metodologia
Pesquisa qualitativa, de natureza interpretativa, fundamentada na Sociologia Compreensiva e do Quotidiano de Michel Maffesoli. O estudo realizado em uma capital insular no sul do Brasil, com a participação de 19 enfermeiros atuantes na Estratégia Saúde da Família (ESF). A coleta de dados ocorreu entre setembro de 2021 e março de 2022, por meio de entrevistas semiestruturadas, realizadas de forma presencial e remota. Realizou se a análise de conteúdo temática, com registros em diário de campo.
Resultados e Discussão
Evidenciou-se que a inserção da teleconsulta de enfermagem no cotidiano da APS, ocorreu em um cenário marcado pela intensificação do trabalho, sobrecarga e fragilidades tecnológicas. A Saúde Digital, nesse contexto, manifesta-se de forma ambivalente. Como potência, destacam-se: a ampliação do acesso aos serviços; a continuidade do cuidado; o fortalecimento da autonomia e resolutividade do enfermeiro, especialmente em situações de restrição do contato presencial. Tais tecnologias favoreceram a reorganização do processo de trabalho e a construção de respostas mais ágeis às demandas da população.
Por outro lado, emergiram limites como: precariedade da infraestrutura tecnológica; desigualdade de acesso dos usuários; perda de dimensões sensíveis do cuidado, como o vínculo e a escuta qualificada e sensível. Evidenciou-se, ainda, a intensificação das demandas e a diluição das fronteiras entre tempo de trabalho e vida pessoal, revelando tensionamentos próprios da tecnossocialidade contemporânea. Esses resultados dialogam com perspectivas críticas da Saúde Digital, ao evidenciar que sua expansão e mostra-se atravessada por condições estruturais, políticas e sociais que podem reproduzir ou aprofundar iniquidades.
Conclusões/Considerações Finais
A tecnossocialidade na APS configura um campo complexo e paradoxal, que pode tanto ampliar quanto restringir práticas de cuidado. A teleconsulta de enfermagem se apresenta como dispositivo potentes para a promoção da saúde, desde que articulados a condições adequadas de trabalho e a uma perspectiva ética e crítica. Reafirma-se a necessidade de incorporar o debate no campo da Saúde Coletiva, envolvendo a cibercultura e a tecnossocialidade, orientando a implementação da Saúde Digital no SUS, a partir dos princípios da universalidade, integralidade e equidade. Assim, sublinha-se o foco no cuidado às pessoas, considerando o território e seu cotidiano, traduzido na criação de ambientes saudáveis, no envolvimento das habilidades individuais, no incentivo a participação coletiva, na reorientação dos serviços de saúde contribuindo afetivamente, portanto efetivamente, para as políticas públicas pomotoras da saúde.
TELESSAÚDE E SUSTENTABILIDADE EM TERRITÓRIOS INDÍGENAS: IMPACTOS DA TELERRETINOGRAFIA NO ACESSO AO DIAGNÓSTICO E NA REDUÇÃO DE DESLOCAMENTOS NO SUS
Comunicação Oral
1 UERJ
2 USP
Apresentação/Introdução
A ampliação do acesso a serviços especializados permanece como desafio estruturante no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente em territórios marcados por barreiras geográficas, logísticas e organizacionais. Esse cenário é particularmente evidente nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), onde a oferta de serviços especializados historicamente depende do deslocamento de usuários para centros urbanos por meio do Tratamento Fora de Domicílio (TFD). No campo da saúde ocular, agravos como glaucoma, retinopatia diabética e degeneração macular apresentam evolução frequentemente silenciosa e podem resultar em perda visual irreversível quando não diagnosticados precocemente. Nesse contexto, a telessaúde tem sido reconhecida como estratégia relevante para ampliação do acesso e redução de desigualdades territoriais. Entre suas modalidades, destaca-se a telerretinografia, tecnologia que permite a captura de imagens digitais da retina no ponto de atenção local, com posterior análise remota por especialista. Integrada à estratégia de transformação digital do SUS, especialmente no âmbito do Programa SUS Digital, essa modalidade apresenta potencial para ampliar o acesso ao diagnóstico especializado, qualificar o cuidado e fortalecer a coordenação assistencial pela Atenção Primária à Saúde.
Objetivos
Analisar os efeitos da implantação da telerretinografia como estratégia de telessaúde em territórios indígenas no âmbito do Sistema Único de Saúde, considerando suas repercussões sobre o acesso ao diagnóstico especializado, a oportunidade diagnóstica e a resolutividade da Atenção Primária à Saúde Indígena.
Metodologia
Trata-se de estudo observacional, descritivo e avaliativo, de natureza aplicada, com abordagem metodológica mista. A análise quantitativa foi realizada a partir de dados secundários referentes à produção assistencial de exames de telerretinografia realizados entre abril de 2024 e abril de 2025 em Distritos Sanitários Especiais Indígenas distribuídos em diferentes regiões do Brasil. Foram analisados dados de 1.231 exames realizados em 20 DSEI, abrangendo 13 estados brasileiros. As variáveis analisadas incluíram distribuição territorial dos exames, perfil demográfico dos usuários e principais agravos oftalmológicos identificados. A análise qualitativa complementou o estudo por meio da avaliação dos processos organizacionais relacionados à implantação da estratégia, incluindo organização do fluxo assistencial, tempo de resposta diagnóstica e integração com a Atenção Primária à Saúde. Também foi realizada análise exploratória para estimar possíveis impactos logísticos e ambientais associados à redução de deslocamentos para Tratamento Fora de Domicílio.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam expansão territorial da estratégia e sua incorporação progressiva ao cotidiano assistencial das equipes de saúde indígena. O tempo médio de emissão de laudos foi de 48 horas, dentro do prazo pactuado de até 72 horas, indicando qualificação da oportunidade diagnóstica. Entre os 1.231 exames analisados, foram identificados 138 achados patológicos, correspondendo a 11,2% da amostra. O agravo mais frequentemente identificado foi o glaucoma, responsável por 63,8% dos casos. Observou-se que a maior parte das condições detectadas pode ser acompanhada ou manejada no âmbito da Atenção Primária à Saúde, ampliando a resolutividade territorial e reduzindo a necessidade de encaminhamento para serviços especializados. Apenas casos relacionados à catarata demandaram encaminhamento para avaliação cirúrgica. A análise exploratória indicou ainda potencial redução de deslocamentos associados ao Tratamento Fora de Domicílio, com estimativa de diminuição de aproximadamente 9,62 toneladas de emissões de dióxido de carbono (CO₂). Esses achados reforçam o potencial da telerretinografia como instrumento de reorganização do cuidado, ampliando o acesso ao diagnóstico especializado e fortalecendo a coordenação assistencial pela Atenção Primária em territórios caracterizados por maior vulnerabilidade territorial.
Conclusões/Considerações Finais
A implantação da telerretinografia em territórios indígenas demonstra potencial relevante para ampliar o acesso ao diagnóstico especializado em saúde ocular, qualificar o tempo de resposta diagnóstica e fortalecer a resolutividade da Atenção Primária à Saúde Indígena. Além de contribuir para redução de desigualdades territoriais no acesso aos serviços especializados, a estratégia apresenta impactos positivos na racionalização logística do sistema de saúde e na sustentabilidade ambiental, ao reduzir deslocamentos para centros urbanos. Nesse sentido, a telerretinografia configura-se como tecnologia estruturante no contexto da transformação digital do SUS, contribuindo para organização do cuidado, fortalecimento das redes assistenciais e promoção da equidade em saúde em territórios historicamente vulnerabilizados.
USO DE POPULAÇÕES SINTÉTICAS NO ESTUDO DE DOENÇAS CRÔNICAS E AGRAVOS NÃO TRANSMISSÍVEIS NO CONTEXTO DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE: PROPOSIÇÕES DE UM GRUPO DE PESQUISA
Comunicação Oral
1 Universidade Federal de Minas Gerais
2 Universidade Federal de Minas Gerais - Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública
3 Universidade Federal de Minas Gerais - Programa de Pós Graduação em Saúde Pública
4 Universidade Federal de Minas Gerais - Programa de Pós Graduação em Saúde e Enfermagem
Apresentação/Introdução
As Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis (DANTs)
constituem a principal causa de morbimortalidade global e estão fortemente associadas a
determinantes sociais e ambientais impactando milhões de pessoas anualmente, com maior
perda de qualidade de vida e óbitos precoces em territórios vulneráveis. Embora os inquéritos
de saúde sejam fundamentais para o monitoramento das DANTs e a formulação de políticas,
o desenho amostral dessas pesquisas frequentemente impossibilita análises granulares,
generalizando populações heterogêneas. À luz da Determinação Social da Saúde, o ambiente
em que se vive influencia consideravelmente os desfechos de saúde, desde regiões distantes
como cidade, campo e floresta, a bairros de zona nobre e periferias. Uma análise do
Observatório de Saúde Urbana de Belo Horizonte verificou que problemas de mobilidade
urbana, presença de poluição sonora e violência, foram significativamente associados ao
aumento de sintomas depressivos. Todavia, como a granularidade dos inquéritos costuma
limitar-se ao nível municipal, a análise de microterritórios torna-se inviável, dificultando o
direcionamento equânime e descentralizado das ações do Sistema Único de Saúde (SUS).
Nesse contexto, novas tecnologias baseadas em Inteligência Artificial (IA) emergem
no campo da saúde, abrangendo desde o apoio diagnóstico à análise complexa de dados, com
ênfase em populações sintéticas. Estas consistem em conjuntos de dados gerados
artificialmente a partir de dados reais, as quais estabelecem os padrões estatísticos que o
algoritmo seguirá na construção da população simulada. Esse processo oferece inúmeras
possibilidades, como a criação de cenários contrafactuais, como zerar a prevalência de
tabagismo e observar o impacto nos indicadores de saúde, e a anonimização de dados, uma
vez que o banco de dados resultante mantém a estrutura estatística da amostra original sem
conter registros individuais vinculados a pessoas reais. Outra aplicabilidade, foco deste
trabalho, é a geração de dados para o incremento amostral, visando aumentar a acurácia e
diminuir o erro padrão em estimativas epidemiológicas para pequenas áreas geográficas. É
essencial que ferramentas de IA sejam desenvolvidas sob os princípios do SUS.
Objetivos
Descrever a proposta de um grupo de pesquisa interdisciplinar para o uso de
populações sintéticas em pequenas áreas geográficas.
Metodologia
Utilizou-se o inquérito Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para
Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) como base inicial devido à sua robustez
temporal, sendo realizado desde 2006, em todas as capitais brasileiras e Distrito Federal,
anualmente. O fator de risco analisado foi o consumo de Frutas e Hortaliças (FH) em Belo
Horizonte. Os dados foram tratados e georreferenciados via linkage com o Cadastro Nacional
de Endereços para Fins Estatísticos. A amostra foi distribuída em quatro grupos segundo o
Índice de Vulnerabilidade Social, que é um indicador composto que associa variáveis
socioeconômicas e ambientais em um mesmo indicador e permite a análise das características
de grupos populacionais residentes nos setores censitários. Posteriormente, submeteu-se a
base de dados a uma técnica de IA não supervisionada de clusterização (algoritmo K-means)
visando identificar subgrupos mais homogêneos, resultando em nove clusters.
Resultados e Discussão
A desagregação evidenciou uma heterogeneidade nas estimativas de
acordo com a granulação da análise, uma vez que a prevalência do consumo recomendado de
FH de Belo Horizonte (29%) é bem inferior à estimada para o cluster Baixo Risco 1 (41%) e
superior ao Cluster Muito Elevado Risco (20%), disparidades que eram mascaradas pelos
dados agregados municipais. Observou-se que, em territórios de maior vulnerabilidade, o
número amostral reduzido compromete a precisão das estimativas. Para solucionar esse
gargalo, o grupo desenvolve atualmente a geração de dados sintéticos para ampliar a acurácia
das análises de outros fatores de risco e proteção, e outras capitais brasileiras. Além disso, a
mesma técnica é cotada para ser usada em outras bases de dados com a incorporação da
análise de agravos não transmissíveis, como a violência. O uso de populações sintéticas surge
como alternativa a fim de evitar o viés de invisibilidade de grupos vulneráveis que costumam
ser sub-representados em amostras aleatórias, comuns em inquéritos de saúde. A mensuração
das desigualdades intramunicipais evidencia a necessidade de planejamento e metas
específicas por território, alinhadas ao princípio de equidade do SUS, uma vez que a
experiência de adoecimento difere radicalmente entre espaços geograficamente próximos,
porém socialmente distantes.
Conclusões/Considerações Finais
Esta inovação metodológica mostra-se promissora para o avanço na mensuração
de desigualdades em nível microterritorial. Embora o projeto esteja em desenvolvimento, a
intenção é fornecer aos gestores ferramentas para incorporar esses resultados no
planejamento estratégico, respeitando a heterogeneidade dos territórios de atuação.
Realização: