Programa - Comunicação Oral - CO22.2 - Análise crítica em tempos de saúde digital e Inteligência Artificial
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
APLICATIVOS DE SAÚDE: TERMINAIS MULTISSITUADOS DE UMA INDÚSTRIA GLOBAL
Comunicação Oral
1 FCMSCSP
Apresentação/Introdução
Os aplicativos (apps) móveis de saúde (mSaúde) tornaram-se artefatos técnicos centrais na organização contemporânea do cuidado, articulando dispositivos pessoais (smartphones, wearables e cia), infraestruturas em nuvem e serviços baseados em inteligência artificial (IA), com as redes de cuidados e serviços em saúde. Nesse cenário, a experiência cotidiana do usuário com a interface dos apps – telas, botões, gráficos etc. – tende a ocultar uma complexa rede sociotécnica, governada por regimes proprietários de dado, protocolos opacos de processamento algorítmico e arranjos empresariais que atravessam múltiplas escalas -- local, nacional, transnacional (Dieter et al., 2019). Em vez de ferramentas neutras de serviços de saúde móvel (mSaúde), neste espaço esses apps são entendidos como artefatos técnico-mercantis que funcionam como terminais multissituados que conectam práticas clínicas individuais ou políticas sanitárias com um industria em rede ancorada em enormes infraestruturas de computação em nuvem e data center distribuídos globalmente (van der Vlist et al., 2024).
Objetivos
Este trabalho busca: (a) enquadrar os apps como terminais multissituados de ecossistemas proprietários de “nuvem” e IA; (b) mostrar como a arquitetura de microsserviços constitui a condição material e política desses sistemas; e (c) discutir as implicações sobre os princípios que balizam o SUS.
Metodologia
Trata-se de um estudo teórico-metodológico em diálogo com estudos de aplicativos, cultura computacional e infraestrutura digital, que combina revisão narrativa, reconstrução de uma arquitetura de referência em microsserviços e análise sociotécnica de um caso paradigmático de app de saúde, os chamados menstruapps.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam três vertentes na literatura sobre apps: estudos sobre mobilidade e usos, pesquisas sobre mercantilização de dados e economia de plataformas, e uma “virada infraestrutural” que desloca o foco da interface para fluxos de dados, camadas lógicas e infraestruturas (Dieter et al., 2019) A partir desta última, os apps aparecem como terminais multissituados de redes distribuídas que envolvem dispositivos, sistemas operacionais, serviços de nuvem, algoritmos e atores institucionais dos mais variados, nos quais dados de saúde são convertidos em valor econômico, político e cognitivo (Gerlitz et al, 2019).
A adoção de arquiteturas de microsserviços (Souto et al., 2022) reforça a visão de que o app é apenas a camada de apresentação de uma pilha que integra sensores corporais, APIs, bancos de dados e serviços externos de IA, de modo que quase todo input do usuário é processado e redistribuído por uma teia de serviços terceirizados, ampliando capacidades analíticas, mas também pontos de captura e exploração de dados.
O caso dos menstruapps (Zadushlivy et al., 2025) demonstra empiricamente como funções como rastreamento de ciclos, notificações e análise de padrões são distribuídas em múltiplos microsserviços orquestrados por grandes provedores de nuvem, fazendo circular dados sensíveis de saúde sexual e reprodutiva por infraestruturas empresariais globais. Isso ocorre sob regimes de propriedade intelectual e segredos comerciais que limitam auditabilidade e transparência, consolidando os sistemas de IA como “caixas-pretas” inclusive para especialistas (Gerlitz et al, 2019).
Conclusões/Considerações Finais
Este trabalho conclui que os apps de mSaúde, cuja interface é apenas a face visível de um terminal de uma grande indústria, e que a interdependência entre app e computação em nuvem concentra, em poucas corporações, a infraestrutura necessária para o desenvolvimento e implantação de IA em saúde, conferindo às Big Techs um poder normativo sobre padrões de integração e interoperabilidade, segurança, privacidade e relevância clínica e sanitária, frequentemente desalinhados de princípios de integralidade, equidade, universalidade e participação social.
AUTORITARISMO, O DIGITAL E OS SISTEMAS DE SAÚDE SOB A REPRODUÇÃO IMPERIALISTA
Comunicação Oral
1 Fiocruz
Apresentação/Introdução
A pesquisa analisa em que medida a literatura mobiliza autoritarismo como categoria analítica associada à incorporação de tecnologias digitais no contexto de reprodução das relações sociais capitalistas. Mais comumente referido como “autoritarismo digital”, registra-se que parte das produções tende a restringir sua aplicação a determinados contextos nacionais (DAUCÉ et al, 2025), como Rússia ou China - o que obscurece dimensões estruturais do imperialismo. O estudo propõe compreender o fenômeno no interior das transformações do capitalismo financeirizado e da crescente digitalização da gestão estatal (PARANÁ, 2025), destacando os impactos aos sistemas de saúde - em especial, o Sistema Único de Saúde (SUS), no Brasil. A atuação de organizações como a Palantir no sistema de saúde britânico, sua contratação pela Fundação Butantan e sua aproximação de parlamentares brasileiros envolvidos na regulação de tecnologias digitais contribui centralmente com a análise.
Objetivos
O objetivo central é examinar as análises sobre autoritarismo derivadas da incorporação de tecnologias digitais pela gestão estatal, bem como as implicações teórico-políticas produzidas para os sistemas de saúde. Busca-se demonstrar que configurações autoritárias não apenas coexistem com o neoliberalismo, mas tornam-se funcionais em contextos de crise prolongada e intensificação da concorrência capitalista sob relações imperialistas. Também se pretende discutir as limitações de abordagens que interpretam tais fenômenos como desvios ocasionais do paradigma liberal-democrático. Avaliar as condições históricas da luta que veio a constituir o SUS e as condições de sua existência em face de um contexto marcado por práticas como o sequestro do presidente venezuelano junto de ataques ao Irã é também um objetivo.
Metodologia
A pesquisa adota abordagem teórica e analítica baseada em contribuições do marxismo e da teoria crítica do Estado, especialmente na perspectiva da sobredeterminação do modo de produção capitalista (ALTHUSSER, 2015; MOTTA, 2012). O estudo dialoga com autores que discutem neoliberalismo, governança digital e transformações do capitalismo contemporâneo, incorporando ainda a categoria lacaniana da repetição (LACAN, 1998). O caso georgiano (CORNELL, 2007), analisado por meio de um estudo exploratório durante o primeiro semestre de 2026, é mobilizado como lente analítica para observar enquadramentos do autoritarismo em políticas de governo digital, permitindo estabelecer paralelos com dinâmicas presentes no Brasil e seu sistema de saúde.
Resultados e Discussão
Os resultados confirmam que o neoliberalismo não implica retração do Estado, mas sim sua mobilização ativa para recompor o domínio do capital em um regime de acumulação financeirizado. Nesse contexto, práticas estatais centralizadas, baixa participação popular e restrições seletivas às liberdades civis emergem como mecanismos recorrentes de gestão de conflitos distributivos. A governança digital promete a ampliação da capacidade de coordenação estatal, intensificando a integração entre setores públicos e privados - evidenciada por parcerias com grandes corporações tecnológicas. Tais processos revelam dinâmicas que frequentemente são interpretadas como sinais de deriva autoritária, permanecendo articuladas à reprodução do capitalismo contemporâneo. O que se observa é que o trabalho teórico dificilmente alcança suas particularidades, o que produz consequências políticas também para o SUS. A análise sugere ainda que explicações centradas exclusivamente na transformação digital (KAPADIA, 2020), sem considerar a indução estatal e a lógica do modo de produção, apresentam fragilidades analíticas.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se compreendendo o autoritarismo como funcional às dinâmicas do capitalismo, particularmente em contextos de crise e reestruturação econômica. A partir desse panorama, a incorporação de tecnologias digitais à gestão estatal tende a reforçar redes de relações que reorganizam a produção de políticas e inserem setores governamentais em circuitos financeiros complexos, como tem sido visto no caso do Banco Master. No campo da saúde, tais processos podem influenciar diretamente a organização e a regulação de sistemas públicos como o SUS, havendo pesquisas que problematizam o tema da interoperabilidade associado a esse cenário no Brasil. O estudo também destaca a necessidade de revisitar categorias analíticas frequentemente mobilizadas nas críticas ao autoritarismo, como soberania (TACIK, 2021), situando-as no interior das relações internacionais imperialistas (OSÓRIO, 2018).
ESCUTA ARTIFICIAL: PODE A MÁQUINA OCUPAR O LUGAR DO PSICOTERAPEUTA?
Comunicação Oral
1 USP
Apresentação/Introdução
A presente pesquisa, iniciada em 2026 e, ainda em curso, aborda o crescente uso da inteligência artificial (IA) na área da saúde mental, problematizando a possibilidade de sua atuação como psicoterapeuta. Diante da expansão de chatbots e das evidências que sugerem benefícios iniciais, questiona-se se tais ferramentas são capazes de contemplar dimensões centrais da psicoterapia, especialmente aquelas de natureza ética.
Objetivos
O objetivo é responder: “Poderia a IA assumir o papel de psicoterapeuta?” Diante da complexidade do tema, abordagens puramente estatísticas podem ser insuficientes para captar os desafios éticos envolvidos.
Metodologia
Para enfrentar esse debate, adota-se como referencial teórico-metodológico a análise das determinações sociais da tecnologia . O interesse, portanto, não se restringe ao artefato técnico, mas abrange o sistema político, econômico e cultural em que as tecnologias se constituem.
Resultados e Discussão
Até o momento, foram identificados 20 estudos — nacionais e internacionais — publicados nos últimos dez anos sobre o uso de chatbots para aconselhamento. Paralelamente, desenvolve-se uma revisão histórica da psicologia, com destaque para a psicologia cognitiva, que constitui a principal base teórica para a concepção desses sistemas .
O foco da pesquisa transcende a avaliação da eficácia técnica dos aplicativos. Questiona-se o próprio conceito de “bem-estar” e a tendência de impor uma “coação à felicidade” , tratando o sofrimento como algo a ser mascarado. O propósito é examinar as implicações sociais e éticas do uso dessas tecnologias, compreendendo sua eficácia ou ineficácia dentro de um contexto ético-político mais amplo.
Como exemplo dos resultados preliminares, destaca-se o estudo da Talk Inc. (2024) , que revelou que 1 em cada 10 brasileiros utiliza chatbots para apoio emocional, bem como a pesquisa de Bruno et al. (2021) , que apresenta 10 aplicativos voltados para o cuidado psicológico, como, por exemplo, o Cíngulo, disponível desde 2017, criado por PhDs em neurociências. Segundo sua descrição, o aplicativo é fruto de mais de 15 anos de pesquisa e experiência clínica. Porém, a pesquisa demonstrou que dados dos usuários, inclusive do próprio smartphone, são monitorados por trackers ligados a empresas como Google e Facebook, o que indica possíveis usos não explicitados.
Diante dos resultados previamente levantados, destaca-se que a psicologia sempre esteve articulada a interesses materiais e tecnológicos. Desde Wundt até a psicologia cognitiva, que surgiu em 1956 — mesmo ano da fundação da IA na conferência de Dartmouth —, a área forneceu teorias que subsidiam o avanço tecnológico. Já em 1960, Joseph Weizenbaum desenvolveu ELIZA, um dos primeiros chatbots, cujo uso revelou envolvimento emocional dos usuários.
Após ELIZA, diversos chatbots foram criados, mas estudos recentes, como o de Iftikhar et al. (2025) apontam limitações: empatia simulada, reprodução de vieses, dificuldades de compreensão contextual e riscos éticos, especialmente em situações de crise. Ademais, ressaltam que tais tecnologias promovem a adaptação dos indivíduos a padrões de produtividade e positividade, funcionando como instrumentos alinhados ao capitalismo contemporâneo.
Conclusões/Considerações Finais
Como consideração final, aponta-se que a IA não deve ser vista como como instrumento neutro de democratização do acesso à saúde mental. Pode ser ferramenta auxiliar, mas apresenta limitações diante da complexidade do vínculo terapêutico e da experiência subjetiva. É imprescindível a regulação jurídica dessas tecnologias, bem como sua utilização sob supervisão profissional. A psicologia possui um compromisso ético-político que transcende a técnica, exigindo análise crítica das condições sociais e dos interesses envolvidos no uso da IA em saúde mental.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, BIG DATA E MEDICINA DE PRECISÃO: CRÍTICA DE UMA CLÍNICA DIGITAL PERSONALIZADA
Comunicação Oral
1 ISC/UFBA
Apresentação/Introdução
Introdução: A biomedicina vem passando por um processo de profunda transformação com a emergência de inovações tecnocientíficas da saúde digital (telessaúde, dispositivos de monitoramento vestíveis), da medicina de precisão (MP), como o desenvolvimento de testes genéticos e medicamentos adequados ao perfil genético dos pacientes e da Inteligência Artificial (IA), que permite a utilização de grandes bases de dados (big data) e algorítmicos visando incrementar diagnósticos, prognósticos e tratamentos. O Big data fornece a base tecnológica para realizar a promessa do uso intensivo de dados das tecnologias ômicas (genômica, proteômica, transcriptômica e metabolômica), assim como imagens, registros clínicos, dados das redes sociais ou produzidos por biossensores para diagnóstico, monitoramento e prognósticos em saúde. As tecnologias digitais (wearebles/vestíveis) poderão se tornar cada vez mais relevantes, permitindo a produção e monitoramento contínuo de grande volume de dados biomédicos, ambientais e comportamentais. A IA traz a promessa de desenvolver os algoritmos capazes de processar e analisar esse grande volume de dados necessários para a efetivação de uma medicina preditiva. Ao mesmo tempo em que estas inovações tecnológicas trazem promessas de otimizar a prática médica elas também suscitam muitas inquietações e questões éticas que demandam reflexão crítica.
Objetivos
Objetivos: Neste trabalho, discutiremos, a partir de uma perspectiva socioantropológica crítica, os pressupostos da MP e como sua implementação potencializada pela IA e pelas tecnologias digitais impactarão a prática médica e a relação terapeuta-paciente. Utilizaremos em nossa análise referenciais teóricos desenvolvidos nos estudos em Ciência, Tecnologia e Sociedade. Partimos do pressuposto que as tecnologias são artefatos socioculturais inseridos em práticas e relações sociais que trazem implicitamente valores, usos e normas associados a sua concepção (Lupton, 2017).
Metodologia
Metodologia: trata-se de um ensaio crítico com reflexão baseada em revisão não sistemática da literatura sobre MP, IA e dispositivos digitais e seu impacto sobre a relação terapeuta paciente. A reflexão se apoia também em pesquisa qualitativa em que se realizou entrevistas semiestruturadas com pacientes e oncologistas nas cidades de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo sobre o impacto da medicina de precisão na prática oncológica.
Resultados e Discussão
Resultados e discussão: A MP se caracteriza como um movimento ambicioso de transformação da medicina propondo novas formas de classificar, compreender, tratar e prevenir doenças baseada em dados e informação biológica e ambiental sobre o indivíduo. O foco epistemológico é o indivíduo e suas características genéticas que devem ser complementadas por outros marcadores biológicos, ambientais e comportamentais que alimentarão algoritmos potencializados pela IA permitindo uma medicina preditiva individualizada. A incorporação da MP, da IA e das tecnologias digitais móveis impactarão de forma importante nas subjetividades dos pacientes, na experiência e concepção de corpo e na relação terapeuta-paciente. Se por um lado, elas permitirão aumentar a precisão diagnóstica, produzir novos tecnologias terapêuticas e liberar os profissionais de saúde de tarefas burocráticas, elas também criarão novas formas de biopoder e potencial de aumento das iniquidades em saúde. A utilização de algoritmos para a realização de diagnósticos, prognósticos e suporte às decisões terapêuticas diminuirá a transparência sobre os fundamentos dessas decisões. O aumento da complexidade dos exames genéticos e consequentemente de incertezas, como as variantes de significado incerto, poderão causar ansiedade nos pacientes e potencializar a medicalização com realização de exames em cascata.
Conclusões/Considerações Finais
Conclusões: A análise dos pressupostos da MP, dos valores subjacentes aos dispositivos digitais de monitoramento e das consequências não intencionais da disseminação dessas tecnologias evidenciam que é fundamental se desenvolver um pensamento crítico sobre sua disseminação. O desenvolvimento das tecnologias na MP, muitas de altíssimo custo, é movido por interesses comerciais com foco no indivíduo consumidor, sem compromisso com a equidade ou o direito à saúde. As tecnologias digitais de monitoramento partem do pressuposto da existência de um sujeito racional digitalmente engajado, que não pode ser generalizado deslocando para o indivíduo a responsabilidade por sua saúde e trazendo o risco de enorme aumento da medicalização, sobrediagnóstico e ansiedade para os pacientes. É fundamental democratizar a concepção das promessas científicas não deixando apenas não mão dos lobbies, do mercado, da indústria farmacêutica e start ups desenvolvedoras de softwares e aplicativos a construção dos imaginários sociotécnicos e decisão sobre quais tecnologias serão desenvolvidas e disponibilizadas para a população.
O QUE A MÁQUINA NÃO SUBSTITUI: PRESENÇA, TOQUE E CUIDADO FISIOTERAPÊUTICO FRENTE À INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE
Comunicação Oral
1 UFG
Apresentação/Introdução
A incorporação de sistemas de Inteligência Artificial nos serviços de saúde tem implicações diretas sobre a organização das atividades clínicas e sobre os modos pelos quais o cuidado é produzido. Na fisioterapia, esse processo adquire particularidade porque a prática se estrutura sobre o contato corporal direto, a observação contínua do paciente e a construção progressiva de relação terapêutica. Este estudo adota como referencial teórico a fenomenologia do corpo de Maurice Merleau-Ponty, segundo a qual o corpo constitui o meio pelo qual o sujeito percebe e se relaciona com o mundo e com os outros. Nessa perspectiva, o toque, a percepção cinestésica e a presença no atendimento constituem formas de conhecimento clínico que não se reduzem à representação simbólica ou ao processamento de dados. O estudo examina quais dimensões da prática fisioterapêutica são avaliadas pelos profissionais como mediáveis por tecnologia e quais são consideradas dependentes da presença. A problemática remete, portanto, a questões centrais das Ciências Humanas e Sociais em Saúde: o que define o cuidado como prática humana? Quais elementos constituem a singularidade do encontro terapêutico e resistem à automação?
Objetivos
Compreender as percepções de fisioterapeutas de um município do Centro-Oeste do Brasil sobre os elementos irredutíveis do cuidado fisioterapêutico, presença, toque e atenção, investigando como esses profissionais apreendem as possibilidades e os limites da Inteligência Artificial em substituir ou mediar dimensões relacionais da prática clínica.
Metodologia
Trata-se de um estudo descritivo, exploratório e de natureza qualitativa. Utiliza entrevistas semiestruturadas com fisioterapeutas da rede pública de saúde de um município do Centro-Oeste do Brasil. A produção dos dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas, conduzidas com base em roteiro previamente elaborado e validado. Este resumo apresenta os achados do bloco temático dedicado à "essência do cuidado", no qual os participantes foram convidados a narrar situações clínicas, identificar elementos que consideram insubstituíveis na prática e projetar possíveis efeitos da introdução de tecnologias no atendimento. A análise foi conduzida por abordagem temática. A fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty foi empregada como quadro interpretativo dos resultados, sem configurar orientação metodológica. O estudo foi desenvolvido em conformidade com as Resoluções do Conselho Nacional de Saúde n.º 466/2012 e n.º 510/2016 e aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Goiás sob nº. de parecer 8.017.858.
Resultados e Discussão
Os participantes estabelecem distinções entre atividades que admitem mediação tecnológica e aquelas que, segundo sua percepção, requerem presença direta do profissional. Registro clínico, organização de informações e recuperação de evidências científicas são indicados como tarefas que poderiam ser realizadas com apoio de sistemas automatizados. Em contraste, o toque manual, a observação do padrão de movimento e os ajustes da conduta terapêutica ao longo da sessão são descritos como processos dependentes da interação física com o paciente. Os relatos indicam que o contato manual permite a identificação de respostas que não poderiam ser realizadas em registros formais, como comportamentos de proteção à dor e hesitação durante a execução de movimentos. O vínculo terapêutico é referido como fator associado à adesão ao tratamento e à continuidade do cuidado. A possibilidade de uso de sistemas automatizados para prescrição e acompanhamento de exercícios suscita avaliações divergentes entre os participantes. Alguns reconhecem utilidade em contextos delimitados, como o monitoramento remoto. Outros apontam o risco de que a automação reduza a atenção às singularidades clínicas de cada paciente. Paralelamente, a sobrecarga de atividades administrativas é identificada como fator de compressão do tempo dedicado ao atendimento direto, o que leva à valorização de tecnologias capazes de reorganizar o fluxo de trabalho.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicam que fisioterapeutas não recusam o uso de Inteligência Artificial, mas delimitam sua aplicação de acordo com a natureza das tarefas envolvidas. Atividades de caráter administrativo e informacional são reconhecidas como mais compatíveis com a mediação tecnológica, ao passo que o atendimento direto é associado à presença corporal do profissional. A adoção da fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty como referencial teórico contribuiu para examinar o cuidado a partir das experiências narradas pelos participantes. A incorporação de sistemas de Inteligência Artificial no Sistema Único de Saúde demanda que tais distinções sejam consideradas, de modo a que a tecnologia cumpra função de apoio ao trabalho profissional sem comprometer as dimensões do cuidado que os próprios fisioterapeutas identificam como centrais à prática clínica.
SAÚDE DIGITAL E FINANCEIRIZAÇÃO DA FORMAÇÃO EM SAÚDE NO BRASIL: PLATAFORMAS, DADOS E CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA
Comunicação Oral
1 EPSJV/FIOCRUZ e UFRJ
Apresentação/Introdução
A expansão da saúde digital no Brasil tem sido frequentemente apresentada como expressão de inovação e modernização dos sistemas de formação e cuidado. No entanto, tal leitura tende a obscurecer sua inserção nas transformações contemporâneas do capitalismo, marcadas pela centralidade dos dados, pela plataformização e pela financeirização. No contexto da chamada sociedade do conhecimento, a digitalização das práticas educativas e assistenciais conforma uma infraestrutura sociotécnica que ultrapassa o plano instrumental, articulando-se à lógica do capitalismo de vigilância e à constituição de novas formas de valorização baseadas na extração, processamento e circulação massiva de informações convertidas em ativos estratégicos.
Objetivos
O objetivo deste trabalho é analisar o papel da saúde digital na reconfiguração da formação de profissionais de saúde no Brasil, situando-a como elemento constitutivo de estratégias contemporâneas de acumulação. Busca-se compreender como a incorporação de tecnologias digitais — especialmente plataformas, sistemas baseados em dados, aplicações de inteligência artificial e soluções desenvolvidas por healthtechs — reorganiza a formação e a prática profissional, integrando diferentes dimensões do trabalho em saúde em circuitos ampliados de captura de valor que articulam educação, assistência e mercado financeiro.
Metodologia
A pesquisa baseia-se em análise documental e em dados secundários, com ênfase em materiais institucionais e financeiros de empresas organizadas como sociedades anônimas e listadas em bolsa de valores que atuam na formação em saúde no Brasil. Foram examinadas suas estratégias de expansão, incluindo aquisições, consolidação e integração vertical, bem como a incorporação de soluções digitais e suas conexões com o setor assistencial. Em termos metodológicos, a análise articula crítica da economia política e Saúde Coletiva, examinando como discursos empresariais de inovação, eficiência, personalização e apoio à decisão convertem processos formativos e assistenciais em oportunidades de monetização, escalabilidade e fidelização de usuários. Também foram considerados materiais sobre parcerias tecnológicas, telemedicina, prontuários, aplicativos, plataformas de prescrição e ferramentas de acompanhamento acadêmico e profissional, buscando apreender as mediações entre infraestrutura digital, racionalidade financeira e reorganização do trabalho em saúde e seus desdobramentos para o SUS. Entre os casos analisados, destaca-se a trajetória da Afya, cuja estratégia combina formação médica, plataformas digitais, aquisição de healthtechs e oferta de soluções corporativas, articulando-se a uma lógica de integração vertical e de captura de valor ao longo de toda a trajetória profissional do médico.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que a saúde digital opera como infraestrutura estratégica para a integração entre formação, assistência e gestão, permitindo a constituição de plataformas que capturam, armazenam, processam e monetizam dados ao longo de todo o ciclo formativo e profissional. No caso da Afya, essa estratégia se expressa na construção de um ecossistema digital frequentemente descrito como a “Microsoft dos médicos”, no qual conteúdos educacionais, softwares, dados clínicos e ferramentas de apoio à decisão são integrados em uma mesma arquitetura tecnológica. Nesse processo, os dados emergem como ativo central, e as plataformas digitais como dispositivos de coordenação, padronização e controle do trabalho em saúde, ampliando a extração de valor e intensificando a subordinação das práticas a métricas, algoritmos e lógicas de desempenho. Ao mesmo tempo, a concentração e circulação transnacional desses dados, frequentemente mediadas por grandes corporações tecnológicas e financeiras, apontam para dinâmicas de colonialismo de dados e colonialidade digital, nas quais informações produzidas em contextos locais são apropriadas, processadas e monetizadas em circuitos globais de acumulação, reforçando assimetrias estruturais e dependências tecnológicas. Além disso, a crescente dependência de sistemas digitais de apoio à decisão clínica suscita implicações relevantes para o trabalho em saúde, incluindo processos de desqualificação relativa, redução da autonomia profissional e enfraquecimento de capacidades cognitivas fundamentais, como o raciocínio clínico, em contextos de crescente mediação algorítmica.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a saúde digital, longe de constituir apenas um avanço técnico, integra a dinâmica do capitalismo de vigilância ao transformar a formação em saúde em espaço privilegiado de produção, captura e valorização de dados. No âmbito da Saúde Coletiva, tais processos colocam desafios éticos e políticos centrais, especialmente no que se refere à proteção de dados, à regulação das plataformas digitais e à defesa do SUS como sistema público orientado pelos princípios da universalidade e da equidade, frente à intensificação da plataformização, da financeirização e da mercantilização da formação e da prática em saúde.
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