Programa - Comunicação Oral Curta - COC12.4 - Formação, trajetórias e experiências no ensino em saúde
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
A FORMAÇÃO EM SAÚDE MENTAL NA PERSPECTIVA PSICOSSOCIAL: CONTRIBUIÇÕES A PARTIR DA SUPERVISÃO DE ESTÁGIOS NA RAPS
Comunicação Oral Curta
1 Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG)
Contextualização
A formação para o trabalho em saúde mental, na perspectiva da atenção psicossocial, é estratégica para fortalecer a RAPS e consolidar a política pública de saúde mental brasileira, ainda em disputa, contribuindo para a reparação histórica de populações marcadas por desigualdades persistentes. Apesar dos avanços da Reforma Psiquiátrica, ainda vigoram descompassos entre seus princípios (dentre eles, cuidado em liberdade, desinstitucionalização e territorialização) e processos formativos ancorados na lógica biomédica hegemônica. Estágios curriculares obrigatórios podem emergir como territórios privilegiados de experimentação, atravessando serviços, instituições formadoras e comunidades, agenciando saberes que produzem linhas de fuga e abrem interstícios para invenção de práticas relacionais com a diferença e modos de escuta ampliada, para além de uma formação tecnicista.
Descrição
Trata-se de esboço cartográfico que mapeia ressonâncias da experiência docente na supervisão de estudantes de diferentes períodos do curso de graduação em Psicologia de uma instituição privada de ensino superior em Belo Horizonte. Os estágios ocorreram em serviços territoriais de dois municípios mineiros, incluindo Centros de Convivência, Centros de Atenção Psicossocial, leitos de saúde mental em hospital geral e Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs), em alinhamento ao cuidado em liberdade, sem utilização de hospital psiquiátrico como campo. A supervisão variou entre integral no próprio campo e periódica (como no internato em saúde coletiva), eventualmente articulando-se com disciplinas teóricas (Políticas Públicas, Psicologia e Saúde Coletiva, e Saúde Mental), ampliando a compreensão sobre determinantes sociais da saúde.
Período de Realização
Desde o início de 2023, cerca de 90 estudantes já foram acompanhados pela supervisora. Os estágios, de caráter semestral, organizam-se em modalidades básicas e específicas de ênfase, com turmas que variam entre 3 e 8 estudantes e carga horária entre 40 e 240 horas.
Objetivo
Refletir, por meio de um esboço cartográfico, sobre a formação em Psicologia no campo da política pública de saúde mental, a partir da supervisão de estágios curriculares obrigatórios em diferentes dispositivos da RAPS, explorando como essas experiências podem produzir saberes e subjetividades capazes de sustentar práticas ético-políticas emancipatórias, tensionar critérios normativos e afirmar uma concepção ampliada de saúde, atravessada por dimensões sociais, culturais e territoriais.
Resultados
As supervisões indicaram o potencial transformador da inserção na RAPS, ao mesmo tempo em que evidenciaram tensões entre o modo asilar, ainda presente em práticas fragmentadas e subordinadas à centralidade do saber médico, e o modo psicossocial, orientado pela atuação interprofissional e pelo protagonismo dos usuários. Entre as práticas desenvolvidas, destacam-se circulações pela cidade, ações de cultura e lazer dentro e fora dos serviços, contribuições para a revista de um dos serviços e o uso frequente de dispositivos expressivos, como música, maquiagem e fotografia, na produção de vínculo e cuidado. A experiência de práticas na hospitalidade noturna (18h–22h) em Centros de Referência em Saúde Mental (CERSAMs, que equivalem, em Belo Horizonte, ao CAPS III) evidenciou o cuidado à crise em liberdade, ao passo que o Acompanhamento Terapêutico a partir de SRTs aproximou estudantes da vida cotidiana, tensionando noções normativas sobre saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência de supervisão evidencia que a formação em saúde mental, orientada pela atenção psicossocial, ultrapassa o domínio técnico-instrumental, constituindo-se na produção de escuta, vínculo e corresponsabilização, com os usuários no centro do cuidado. A supervisão afirmou-se como espaço de coprodução de saberes e de articulação entre instituição formadora, serviços e territórios, favorecendo a problematização das práticas e a construção de intervenções no campo da saúde coletiva. O mapeamento cartográfico tornou visíveis práticas que expandem o cuidado para além do biomédico, incorporando cultura, lazer, participação social e dimensões estético-criativas. Formar nesse campo implica sustentar tensões éticas, políticas e culturais, reconhecendo os usuários como parceiros e afirmando a potência dos estágios na construção de práticas comprometidas com autonomia, protagonismo e inclusão social. Assim, a articulação entre ensino, serviço e território se consolida como estratégia fundamental para o fortalecimento da RAPS e para a sustentação do cuidado em liberdade.
ATENDIMENTO PEDIÁTRICO NA RESIDÊNCIA MULTIPROFISSIONAL: A INTERSECÇÃO ENTRE A SOCIOLOGIA DA INFÂNCIA E AS PRÁTICAS DA POLÍTICA NACIONAL DE HUMANIZAÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 Universidade de São Paulo
Contextualização
Regulamentada em novembro de 2005 por meio da Portaria Interministerial do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação, a Residência Multiprofissional em Saúde é destinada às categorias profissionais que integram a área da saúde, para além da médica. Essa especialização teórico-prática, na qual só é possível ingressar após a conclusão do ensino superior, portanto, não se compreende como estágio, mas sim como especialização e espaço sócio-ocupacional para a aplicação prática de todo embasamento teórico. Exige também dois elementos imprescindíveis: a jornada semanal de 60 horas e a dedicação exclusiva. Neste relato de experiência, será abordada a vivência na Residência Multiprofissional em Pediatria na área do Serviço Social, em um hospital terciário, referência em doenças crônicas e doenças raras, localizado na região Sudeste do Brasil, especificamente em São Paulo, sendo o Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – ICr HCFMUSP, o referido Programa teve início em 2017.
Descrição
As atividades foram majoritariamente práticas e distribuídas em quatro momentos (1) Pronto- Socorro; (2) Enfermaria Pediátrica; (3) Enfermaria de Especialidades; e (4) Ambulatório de Especialidades. Nos primeiros meses, foram realizadas as aulas teóricas, que objetivaram contextualizar principalmente as dimensões biológicas da pediatria e hebiatria e vislumbraram uma pequena introdução nos aspectos sociais e determinantes sociais da saúde que atravessam e impactam o viver das crianças e adolescentes atendidos.
Período de Realização
Essa experiência foi realizada durante o período de 2023 a 2025 com duração de 24 meses e 60 horas semanais, totalizando 5.760 horas
Objetivo
Este relato de experiência tem como objetivo fomentar reflexões e contribuir com ideias inicias para a construção de novas possibilidades de formação durante a residência em pediatria. Busca-se ampliar o olhar para além do domínio estritamente biológico, perpassando aspectos da sociologia da infância, desenvolvimento infantil em sua complexidade. Destaca-se, ainda, a urgência de contextualização sobre as diversas infâncias existentes no território brasileiro, sejam elas: infâncias racializadas, empobrecidas, institucionalizadas, migrantes, imigrantes, infâncias trans e outras expressões de existência de pluralidade
Resultados
Durante o período, foram realizados aproximadamente mais de 400 atendimentos, elaboração de relatórios sociais, encaminhamentos para serviços que operacionalizam políticas de assistência social, nutricional e educação, além de visitas domiciliares. Os atendimentos objetivaram a ampliação do acesso a direitos, articulação com rede, continuidade do cuidado e a priorização da vontade e dos desejos dos/das pacientes. Por fim, a elaboração do trabalho de conclusão de residência, intitulado: Prisma Negro: Racismo Estrutural e Saúde”, que teve como objetivo investigar o itinerário terapêutico de crianças negras com até 10 anos de anos e que possuem indicação de transplante hepático intervivos. O recorte racial se deu a partir dos critérios do IBGE. Este foi o primeiro trabalho à discutir raça e infância no Instituto da Criança e do Adolescente. Foi devidamente aprovado pelo Comitê de Ética CAAE 83516624.4.0000.0068
Aprendizado e Análise Crítica
Dentre as inúmeras experiências, aprendizados e maturidades adquiridas, o maior aprendizado foi compreender a necessidade e a urgência de centralizar o atendimento na criança e no adolescente. Isso significa que a Política de Humanização deveria perpassar os fundamentos da Sociologia da Infância, centralizando as infâncias e adolescências, compreendendo seus contextos, vontades, receios e aspirações (as do agora e as do futuro). Muitas vezes, o que é naturalizado na prática é o deslocamento do protagonismo do paciente e a centralidade do querer médico. Quando nos deparamos com o atendimento pediátrico, reforça-se essa não agência nos cuidados em saúde, pois, muitas vezes, as crianças não são escutadas ou sequer estimuladas a compartilharem suas percepções sobre as intervenções que as acometem. Portanto, reforça-se a defesa da presença das ciências humanas nas ciências da saúde e nas ciências sociais aplicadas, sendo este o contexto da categoria do Serviço Social. O que isso muda na prática é a maior receptividade e adesão aos tratamentos, que muitas vezes são invasivos e alteram as dinâmicas de vida do paciente e de sua família; a construção do vínculo entre profissionais e paciente, processo este que exige muito cuidado, escuta e alinhamentos; e, por fim, a efetivação das políticas que embasam o Sistema Único de Saúde. A defesa intransigente dos direitos humanos e do direito à saúde necessita também transitar pela interdisciplinaridade dos saberes.
EXPERIÊNCIAS CONTEMPLATIVAS NA EDUCAÇÃO SUPERIOR: REFLEXÕES SOBRE A FORMAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA
Comunicação Oral Curta
1 UESC
2 UFBA
3 ISC-UFBA/UEFS
4 IF Baiano
Contextualização
O ambiente acadêmico tem sido marcado por processos de adoecimento relacionados à desumanização das relações interpessoais e à escassez de espaços para o exercício do (auto)cuidado e da empatia. Nesse contexto, o grupo de pesquisa Contempleduca: Práticas Contemplativas para o Bem-Viver, Cuidado e Sustentabilidade na Educação Superior (ISC/UFBA), estruturado no tripé ensino-pesquisa-extensão, surge com a proposta de problematizar esse cenário e produzir ações e conhecimentos voltados à transformação das práticas formativas. No âmbito do ensino, o grupo tem ofertado a disciplina “Práticas Contemplativas e Cuidado na Universidade”, direcionada a estudantes de graduação e pós-graduação em Saúde Coletiva, alinhando-se à perspectiva de uma formação humanista, crítica e reflexiva, baseada no cultivo da consciência e compaixão. A vivência da disciplina tem levantado a discussão entre docentes e discentes sobre quais são as possibilidades de ações vinculadas à construção de um ambiente acadêmico mais inclusivo e humanizado.
Descrição
A disciplina propõe reflexões sobre os efeitos das práticas contemplativas nos processos de ensino-aprendizagem, no desenvolvimento humano e nas práticas de cuidado. Para além da dimensão cognitiva, são incorporadas experiências sensoriais, corporais e reflexivas, como exercícios de atenção plena, escrita livre, movimento contemplativo e espaços de escuta coletiva, buscando integrar dimensões subjetivas, relacionais e ético-políticas da formação. Desse modo, três dimensões do cuidado são enfatizadas no contexto universitário: a introspecção, com foco em si mesmo, na autopercepção (autocuidado); a dimensão relacional, com foco na alteridade e experiências de cuidado nas relações interpessoais; e a dimensão contextual, com foco sistêmico, pautado no engajamento social, enfatizando o cuidado nas comunidades e meio ambiente. Destaca-se que as aulas contam com abordagem colaborativa, envolvendo participantes do Contempleduca, pessoas de outras instituições formativas e comunidade em geral, promovendo intercâmbio de saberes e experiências para a formação em saúde coletiva.
Período de Realização
A disciplina foi ofertada em diferentes momentos, incluindo 2021 e 2025, no âmbito das aulas optativas dos cursos de Graduação e Pós-graduação do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia.
Objetivo
Descrever a experiência de oferta de uma proposta de disciplina, evidenciando seu potencial na criação de espaços formativos voltados ao bem-viver, ao cuidado e à sustentabilidade no ambiente acadêmico.
Resultados
Observou-se a ampliação da capacidade de atenção e autorregulação dos estudantes, o fortalecimento de práticas de escuta de si e do outro e a valorização de espaços coletivos de partilha. A disciplina também favoreceu maior integração entre dimensões cognitivas e socioemocionais, além de estimular reflexões críticas sobre o cuidado na formação em saúde. Além disso, a vivência compartilhada, em colaboração interinstitucional e comunitária, para as atividades da disciplina ampliou o repertório de saberes e práticas de estudantes e professores.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidencia a potência das práticas contemplativas na produção de ambientes formativos mais atentos, reflexivos e conectados às experiências dos estudantes, contribuindo para tensionar modelos educacionais marcados por racionalidades instrumentais e produtivistas. Em diálogo com Barbezat e Bush (2013), observa-se que tais práticas favorecem a integração entre experiência, atenção e construção de sentido no processo de aprendizagem, reposicionando o estudante como sujeito ativo e reflexivo. Aproxima-se também da perspectiva de hooks (2013), ao compreender a educação como prática de liberdade, que envolve engajamento crítico, presença e transformação. No entanto, sua inserção no contexto universitário apresenta desafios, especialmente frente à tendência de individualização do cuidado. Reafirma-se a necessidade de situar tais práticas em perspectivas críticas e decoloniais, comprometidas com a transformação das desigualdades e com a construção de formas coletivas de cuidado, o que pode inspirar a expansão dessa proposta a outras universidades.
EXPERIÊNCIAS DE EGRESSOS DA RESIDÊNCIA EM SAÚDE: UM OLHAR SOBRE FORMAÇÃO, DISCRIMINAÇÃO E VIOLÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 UNESP
2 UFSCar
Apresentação/Introdução
A formação em Residência Multiprofissional em Saúde articula ensino e serviço, promovendo competências técnicas e relacionais e a prática interdisciplinar. Contudo, pode ser marcada por desigualdades, hierarquias rígidas e violência institucional, impactando a experiência e o bem-estar dos residentes. Assim, é importante analisar não apenas aspectos pedagógicos, mas também as condições institucionais, incluindo percepções de discriminação e abuso.
Objetivos
Analisar o processo de formação em um Programa de Residência Multiprofissional em Saúde, com ênfase na identificação de fragilidades relacionadas às condições institucionais, especialmente quanto à ocorrência de discriminação, abuso e violência, e seus impactos na experiência formativa e na trajetória profissional dos egressos.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter descritivo e analítico, desenvolvida em duas etapas: mapeamento dos egressos por meio de questionário estruturado para caracterização do perfil; análise das experiências formativas por entrevistas semiestruturadas com enfoque narrativo.
Resultados e Discussão
Trata-se de um estudo descritivo com 48 egressos de programas de residência em saúde que responderam a um questionário estruturado. Observou-se predominância do sexo feminino, com 37 participantes, em comparação a 11 do sexo masculino. Em relação à raça/etnia, 36 se autodeclarou branca, seguida por 8 negros pardos, 2 negros pretos e 2 amarelos. Quanto à formação profissional, destacou-se a Enfermagem com 17, seguida por 7 Psicologia, 6 Serviço Social e 6 Nutrição, 5 Fisioterapia, 4 Educação Física e 3 Odontologia. No que se refere à percepção de atitudes discriminatórias por motivo de sexo ou orientação sexual durante a residência, 12 dos participantes relataram concordância, enquanto 33 indicou discordância. Dois participantes não souberam responder. Em relação à discriminação por raça ou etnia, 13 dos egressos relataram concordância, enquanto 31 discordaram, e 3 não souberam responder. Quanto à percepção de situações de abuso e/ou violência, incluindo psicológica, observou-se maior frequência de respostas afirmativas, com 26 dos participantes concordando. Por outro lado, 20 discordaram, e 1 não soube responder. De modo geral, os dados indicam que, embora a maioria dos participantes não relatou vivências de discriminação por sexo/orientação sexual ou por raça/etnia, uma parcela relevante reconhece a ocorrência dessas situações. Destaca-se, entretanto, a elevada proporção de egressos que perceberam episódios de abuso e/ou violência durante a residência, configurando o achado mais expressivo da análise. Os resultados evidenciam um perfil de participantes predominantemente feminino e branco, com forte representação da Enfermagem, o que reflete características históricas da composição das profissões da saúde. Esse perfil pode influenciar a percepção das dinâmicas institucionais, especialmente no que se refere à identificação de situações de discriminação, possivelmente subestimadas em grupos majoritários. No que diz respeito à discriminação por sexo/orientação sexual e por raça/etnia, observa-se que, embora a maioria dos respondentes não relatou tais experiências, uma proporção relevante, cerca de um quarto da amostra, reconhece a ocorrência dessas situações. Esse achado sugere a presença de manifestações discriminatórias que podem ocorrer de forma sutil, indireta ou naturalizada no cotidiano da formação, dificultando sua identificação explícita. Destaca-se, contudo, a elevada prevalência de percepção de abuso e/ou violência, incluindo a psicológica, reportada por mais da metade dos participantes. Esse resultado aponta para um ambiente formativo potencialmente marcado por relações hierárquicas rígidas e práticas institucionais que podem favorecer a ocorrência e a naturalização de condutas abusivas. A maior frequência desse tipo de relato, em comparação às discriminações específicas, sugere que o problema pode estar menos relacionado a categorias isoladas de discriminação e mais associado a um contexto estrutural de fragilidade nas relações interpessoais e de trabalho. Dessa forma, os achados indicam a necessidade de fortalecimento de estratégias institucionais voltadas à promoção de ambientes formativos mais seguros, equitativos e acolhedores, com ênfase na prevenção de violências, no enfrentamento de desigualdades e na qualificação das relações entre residentes, preceptores e equipes.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados apontam para a presença de fragilidades no ambiente formativo da residência, especialmente no que se refere à ocorrência de abuso e violência e à existência de manifestações discriminatórias, ainda que nem sempre explícitas. Evidencia-se a necessidade de fortalecimento de estratégias institucionais voltadas à promoção de ambientes formativos mais seguros, equitativos e acolhedores, com ênfase na prevenção de violências, no enfrentamento das desigualdades e na qualificação das relações entre residentes, preceptores e equipes.
FORMAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA, INTERSECCIONALIDADE E TERRITÓRIOS: DESAFIOS DA MOBILIZAÇÃO PARA IMPLANTAÇÃO DE EXPERIÊNCIA FORMATIVA ANTIMANICOMIAL E ANTIPROIBICIONISTA NO RJ
Comunicação Oral Curta
1 FIOCRUZ / BRASÍLIA
Contextualização
O presente relato de experiência insere-se no âmbito do Projeto Nós na Rede, iniciativa do Ministério da Saúde desenvolvida em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz/Brasília), as Escolas Técnicas do Sistema Único de Saúde (ETSUS) e as Escolas de Saúde Pública. O projeto tem como finalidade o fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), por meio de estratégias de educação permanente em saúde voltadas à qualificação dos profissionais que nela atuam. Com ênfase na atenção integral a pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas, bem como àquelas em sofrimento psíquico e em conflito com a lei, a iniciativa orienta-se pela promoção de práticas de cuidado fundamentadas nos princípios da redução de danos, da atenção territorial e do cuidado em liberdade, em consonância com as diretrizes da política nacional de saúde mental.
Descrição
Relato de experiência de equipe de mobilizadoras responsáveis pela implementação de formação híbrida para trabalhadores da RAPS em municípios do RJ. A estratégia iniciou-se com diagnóstico territorial das nove regiões de saúde, incluindo análise da rede, aspectos socioeconômicos e presença de populações quilombolas e indígenas. Houve articulação com gestores estaduais e municipais, com adesão de 74 dos 76 municípios com CAPS. A formação combinou encontros presenciais e atividades online, com forte capilaridade territorial. O conteúdo abordou reforma psiquiátrica, RAPS, redução de danos e atenção a pessoas em conflito com a lei, tensionando estigmas e discursos conservadores. Organizada em dois ciclos (2025–2026).
Período de Realização
Setembro de 2024, com previsão de término em setembro de 2026.
Objetivo
Descrever e analisar estratégias de mobilização e implantação de uma oferta formativa em saúde mental, com ênfase no letramento antimanicomial, antiproibicionista e interseccional, articulando diferentes atores institucionais e territoriais no estado do Rio de Janeiro.
Resultados
Evidenciaram-se limites da modalidade híbrida, especialmente desigualdades de acesso digital. Destacam-se tensões político-ideológicas, presença de discursos conservadores e dificuldades na implementação de políticas afirmativas. Persistem silenciamentos nas relações raciais.
Aprendizado e Análise Crítica
Reafirma-se a importância de formações territorializadas e interseccionais, apontando desafios estruturais para sua sustentação diante de cenários políticos adversos à reforma psiquiátrica.
MAPEAMENTO E ANÁLISE DAS POLÍTICAS INSTITUCIONAIS DE ENFRENTAMENTO ÀS VIOLÊNCIAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO
Comunicação Oral Curta
1 FSP-USP
Apresentação/Introdução
A violência permaneceu, no século XXI, como um grave problema de saúde pública e de ordem social, com impactos físicos, psicológicos e institucionais. Na definição da Organização Mundial da Saúde, tratou-se do uso intencional da força ou do poder, real ou sob ameaça, contra si, outra pessoa, grupo ou comunidade, com potencial de produzir lesão, morte, dano psíquico, alterações no desenvolvimento ou privações (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2002). No ambiente universitário, esse fenômeno assumiu contornos específicos, pois as relações acadêmicas puderam reproduzir desigualdades de gênero, raça, classe e orientação sexual e se expressar em assédio, discriminação, abuso e outras formas de violência simbólica e estrutural. Estudos já indicavam que tais situações eram frequentemente naturalizadas ou pouco visibilizadas, apesar de afetarem a permanência, o desempenho e o bem-estar de estudantes e trabalhadores/as (DAHLBERG; KRUG, 2006; SCHERER et al., 2015; OLIVEIRA et al., 2024). Além disso, a pressão acadêmica, a competitividade e a precariedade de determinados recursos institucionais tendiam a ampliar conflitos e a fragilizar respostas institucionais. Nesse cenário, tornou-se relevante investigar como as universidades públicas vinham organizando suas respostas para prevenir, acolher e enfrentar essas ocorrências, especialmente em um estado que concentra instituições de grande porte e forte presença de mobilização estudantil.
Objetivos
Analisou as políticas institucionais de enfrentamento às violências nas universidades públicas do estado de São Paulo, identificando os mecanismos previstos para prevenção, acolhimento, denúncia e responsabilização, bem como a forma como essas políticas são formalizadas e publicizadas.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, baseada em análise documental. O estudo abrangeu universidades públicas estaduais e federais sediadas em São Paulo. A coleta de dados foi realizada por meio de busca sistemática nos sítios institucionais, com levantamento de resoluções, portarias, regimentos, protocolos de prevenção e enfrentamento às violências, políticas institucionais de gênero, diversidade, direitos humanos e integridade, além de materiais informativos sobre denúncia e acolhimento. A organização da investigação seguiu os princípios de pesquisa documental e desenho exploratório, conforme discutido por Fonseca (2002) e Hochman et al. (2005). Os documentos foram submetidos à análise de conteúdo temática, buscando identificar categorias como concepção de violência, sujeitos protegidos, fluxos de denúncia, sanções, ações de prevenção e participação da comunidade acadêmica.
Resultados e Discussão
A análise evidenciou que as universidades públicas paulistas apresentaram diferentes graus de organização, transparência e acessibilidade em relação às políticas de enfrentamento às violências. Em algumas instituições, identificaram-se normativas e fluxos mais definidos; em outras, as informações apareceram dispersas, fragmentadas ou pouco visíveis nos canais oficiais. Essa heterogeneidade mostrou que a existência de documentos formais não garantiu, por si só, efetividade institucional. Observou-se também um descompasso entre o que estava normatizado e o que era vivido no cotidiano acadêmico, sobretudo quando os canais de denúncia e acolhimento não estavam claramente descritos ou facilmente localizáveis. A leitura dos documentos indicou ainda que a violência no espaço universitário não pôde ser compreendida apenas como evento isolado, mas como expressão de relações sociais e institucionais atravessadas por desigualdades, disputas por reconhecimento e silenciamentos que dificultaram a proteção de grupos mais vulnerabilizados (MINAYO, 2004; MINAYO et al., 2018; HENRIQUES et al., 2023). Nesse sentido, os achados reforçaram a ideia de que a saúde, entendida em sentido ampliado, depende também das condições concretas de vida, convivência e proteção produzidas nos espaços institucionais (NEVES, 2021).
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa evidenciou que o enfrentamento às violências no ambiente universitário exigiu mais do que a formulação de normas, demandando clareza institucional, visibilidade das informações, articulação entre setores e compromisso com a proteção da comunidade acadêmica. Ao sistematizar e analisar as políticas existentes, o estudo contribuiu para o debate sobre violência institucional no ensino superior, oferecendo subsídios para o aprimoramento das estratégias de enfrentamento e para a construção de ambientes acadêmicos mais seguros, acessíveis e comprometidos com o cuidado e a garantia de direitos. Também ficou evidente que a efetividade das políticas dependeu não apenas do conteúdo dos documentos, mas de sua circulação, compreensão e possibilidade de uso pela comunidade universitária.
OCUPAR, RESISTIR E PRODUZIR SABER: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA NA PÓS-GRADUAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA
Comunicação Oral Curta
1 UECE
2 FACUMINAS
3 ESP/CE
4 UNIFOR
5 UFPB
Contextualização
A ampliação do acesso à pós-graduação por meio de políticas de ações afirmativas tem favorecido a entrada de pessoas historicamente excluídas nos espaços acadêmicos, ampliando a diversidade de trajetórias e modos de compreender a saúde. No campo da Saúde Coletiva, esse movimento fortalece a aproximação entre a formação acadêmica, os territórios e o Sistema Único de Saúde (SUS). O Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual do Ceará (PPSAC/UECE), com reconhecida trajetória na formação de profissionais para o SUS, especialmente no Nordeste, constitui-se como um espaço relevante de formação crítica e de produção de conhecimento.
Descrição
O discente, fisioterapeuta atuante na equipe multiprofissional na Atenção Primária à Saúde (eMulti) no município de Limoeiro do Norte - Ceará, desenvolve atividades em territórios marcados por desigualdades e múltiplas necessidades de cuidado. No âmbito do Mestrado em Saúde Coletiva, cursou disciplinas como Métodos de Pesquisa Qualitativa, Políticas, Planejamento e Gestão em Saúde, Saúde Coletiva e o SUS, Sistemas de Informação, Pedagogia e Didática, entre outras, ampliando o repertório teórico, metodológico e pedagógico. As atividades ocorreram majoritariamente em sala de aula, com foco na formação docente e científica, com menor inserção direta em cenários territoriais.
Período de Realização
Experiência em curso, iniciada em 2025, a partir da inserção no Mestrado Acadêmico em Saúde Coletiva do PPSAC/UECE.
Objetivo
Refletir sobre a experiência de formação na Pós-Graduação em Saúde Coletiva, a partir da trajetória de um discente ingressante por ações afirmativas, em articulação com sua atuação profissional no SUS, destacando contribuições para o trabalho no território e para a produção de saberes.
Resultados
A formação tem qualificado o olhar sobre o trabalho em saúde, ampliando a compreensão das políticas públicas, da organização do cuidado e das dinâmicas territoriais. Os conteúdos abordados no mestrado passaram a dialogar com situações vivenciadas na eMulti, favorecendo a problematização do cotidiano e a construção de respostas mais contextualizadas. As abordagens qualitativas fortaleceram a escuta e a valorização das experiências dos usuários, enquanto os conteúdos de gestão e informação em saúde contribuíram para o planejamento das ações.
Aprendizado e Análise Crítica
No campo pedagógico, o contato com perspectivas que entendem o conhecimento como construção social, atravessada por relações, contextos e experiências, ampliou a compreensão do processo educativo. A experiência formativa, possibilitada pelo ingresso por ações afirmativas, evidenciou a importância das políticas públicas como estratégias de ampliação do acesso à pós-graduação. Nesse contexto, o trabalho em saúde passou a ser reconhecido como espaço de produção de saberes, no qual o diálogo, a experiência e a reflexão sobre a prática assumem centralidade, fortalecendo ações de educação permanente no território. A presença de estudantes oriundos de ações afirmativas amplia os modos de produzir conhecimento na pós-graduação, contribuindo para uma formação mais diversa e orientada pela equidade, ao trazer para o centro do debate experiências vinculadas ao SUS e aos territórios. O mestrado em Saúde Coletiva mostra-se consistente na construção teórica e na preparação para a docência, ao tempo em que essa formação pode ser ainda mais fortalecida pela aproximação entre ensino e realidade dos serviços. A centralidade da sala de aula, importante para a construção teórica, pode dialogar de forma mais intensa com os territórios, reconhecidos como espaços de aprendizagem e produção de saber. A articulação entre saberes acadêmicos e a atuação no SUS, contribui para uma formação mais crítica, dialógica e comprometida com o cuidado em saúde. Nesse caminho, ocupar a universidade, resistir às desigualdades e produzir saberes construídos na pós-graduação e no território se afirmam como movimentos fundamentais para o fortalecimento de uma Saúde Coletiva comprometida com a defesa do SUS.
SAÚDE COLETIVA, TRAJETÓRIAS E DESAFIOS: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 IAM/FIOCRUZ-PE
Contextualização
A história da saúde coletiva foi influenciada pelo desenvolvimento da medicina social européia, século XIX, na Alemanha, Inglaterra e França, através da polícia médica, aritmética política e movimento higienista. Essa prática buscava ampliar o papel da medicina para além da doença, envolvendo o corpo biológico, a saúde do trabalhador e questões sanitárias.
No século XX, a medicina social ganhou mais espaço. No Brasil, observa-se o modelo campanhista, criado por Oswaldo Cruz entre 1889 e 1930, com ações de saúde e saneamento para os espaços urbanos e controle de epidemias. Paralelamente, em 1923, surgiu a Medicina Previdenciária, voltada à assistência médica para a população trabalhadora. A partir da década de 1950, o projeto preventivista ampliou a compreensão da saúde para além do tratamento hospitalar, sendo interrompido com a ditadura militar em 1964.
A década de 1970 é a fase da medicina social na América Latina, com a valorização do social na determinação dos adoecimentos, prevenção e promoção da saúde. Esse movimento impulsionou a Reforma Sanitária Brasileira (RSB) voltada à democratização da saúde, estabelecendo as bases para a estruturação da saúde coletiva no Brasil.
A segunda metade do século XX foi dividida através de fases: teórico-conceitual (1974–1979), marcada pela criação do CEBES (1976) e da Abrasco (1979); a político-ideológica (1980–1986), foi o momento da aliança entre a Saúde Coletiva com a RSB, lutando pela democracia, os direitos humanos e sociais e a participação social, e um marco desse período é a VIII Conferência Nacional de Saúde (1986); a político-institucional (1987–1990), tendo como marco a Constituição Federal de 1988 e a promulgação das Leis Orgânicas da Saúde; a político-administrativa (1991–1998), e por fim, a quinta fase complementação jurídico-legal.
Nesse contexto, a compreensão da trajetória histórica da saúde coletiva é um elemento fundamental para a formação de profissionais sanitaristas, ao possibilitar o diálogo das bases sociais, políticas e epistemológicas que estruturam o campo. Logo, é fundamental uma estratégia de ensino que facilite a apreensão dos processos históricos do campo da saúde coletiva.
Descrição
O relato de experiência retrata a elaboração e apresentação de um painel temático voltado para a turma de pós-graduação lato sensu em saúde coletiva, composta por 18 discentes, entre eles: enfermeiros, dentistas, biólogos, nutricionistas e sanitaristas; e 2 docentes da área, pelo Instituto Aggeu Magalhães/FIOCRUZ-PE, durante a disciplina Introdução à Saúde Coletiva. O grupo, formado por 6 discentes, adotou uma pergunta condutora: “Como o campo da Saúde Coletiva se situa historicamente?”, sob o tema central O Campo da Saúde Coletiva. Como estratégia de ensino foi construído uma linha do tempo ilustrativa dos principais marcos históricos durante a consolidação do campo, utilizando o aplicativo Canva foi organizado pelos períodos, palavras-chaves e imagens para conexão. Posteriormente, o material produzido foi exposto utilizando o projetor, e foi impresso e entregue para cada discente, sendo explicado e abrindo a discussão com a turma para que houvesse participação, e logo a construção e compressão coletiva do processo histórico do campo da saúde coletiva.
Período de Realização
A experiência aconteceu no período de 09 a 13 de março de 2026, onde a apresentação e discussão foram realizadas em 13 de março de 2026.
Objetivo
Compreender a trajetória histórica e formação da Saúde Coletiva no Brasil.
Resultados
Por meio do material produzido, identificou-se um engajamento dos discentes com a temática, além da compreensão das cronologias dos processos históricos e discussões de conhecimentos prévios relacionados aos tópicos e suas influências para a saúde. Logo, promovendo a assimilação que o campo da saúde coletiva é constituído por múltiplas influências e acontecimentos que o estruturam enquanto área de conhecimento.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou a necessidade de compreensão e diálogo sobre os marcos que fundamentam o campo da saúde coletiva, principalmente durante a formação de futuros sanitaristas. O uso de recursos visuais como ferramenta de ensino mostrou potencialidade, devido a inovação didática, promoção de reflexão e a criação de um momento para uma discussão mais acessível. Ressalta-se, entretanto, que compreender a trajetória histórica pode ser apresentado de forma densa, e que as diferentes formações da turma implicou a variação do nível de conhecimento prévio, por outro lado, essa heterogeneidade contribuiu positivamente durante as trocas de conhecimentos. Como limitação, ressalta-se a necessidade de ampliar estratégias alternativas e participativas que promovam ainda mais a construção coletiva do conhecimento.
SAÚDE COLETIVA: TRAJETÓRIAS, DESAFIOS E CONSTRUÇÃO COLETIVA DO CONHECIMENTO EM UMA EXPERIÊNCIA DE PAINEL DISCENTE NA FIOCRUZ PERNAMBUCO
Comunicação Oral Curta
1 IAM - FIOCRUZ PERNAMBUCO
Contextualização
A Saúde Coletiva configura-se como um campo interdisciplinar que articula saberes da epidemiologia, das ciências sociais e da gestão em saúde, buscando compreender o processo saúde-doença a partir de suas determinações sociais, históricas e políticas. No contexto da formação em saúde, especialmente em programas de residência, estratégias pedagógicas participativas tornam-se fundamentais para promover uma aprendizagem crítica, reflexiva e comprometida com a realidade social.
Nesse sentido, o presente relato emerge da experiência de construção e apresentação de um painel discente realizado no Instituto Aggeu Magalhães, no âmbito da disciplina de Introdução à Saúde Coletiva do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva da Fundação Oswaldo Cruz.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência acerca da construção e apresentação do painel “Saúde coletiva: trajetórias e desafios”, desenvolvido por residentes multiprofissionais. A atividade foi orientada por pressupostos da educação crítica e metodologias ativas, visando à problematização do processo ensino-aprendizagem. Inicialmente, foi construída uma nuvem de palavras por meio da plataforma Mentimeter, com o objetivo de acessar conhecimentos prévios e favorecer a implicação dos participantes.
Na sequência, realizou-se exposição dialogada abordando o percurso histórico da Saúde Coletiva, suas bases teórico-conceituais — incluindo a distinção entre determinantes sociais e determinação social da saúde — e os modelos de intervenção, com ênfase no SUS, na atenção primária, na promoção da saúde e na participação social.
Na discussão sobre os três núcleos estruturantes da Saúde Coletiva — epidemiologia, ciências sociais e humanas em saúde, e política, planejamento e administração em saúde — utilizou-se uma situação-problema para estimular reflexão crítica. As respostas iniciais evidenciaram tendência à fragmentação do conhecimento, com predominância da epidemiologia, enquanto outros participantes indicaram a necessidade de articulação entre as áreas. A partir disso, desenvolveu-se análise coletiva, explicitando as contribuições de cada núcleo e evidenciando que a complexidade dos problemas de saúde exige abordagem integrada.
A estratégia permitiu tensionar visões reducionistas e reforçar a interdisciplinaridade como prática constitutiva da Saúde Coletiva, entendida como articulação crítica entre diferentes saberes.
Por fim, realizou-se a construção de um mosaico coletivo, no qual os participantes expressaram suas compreensões por meio de palavras-chave, simbolizando a articulação entre saberes, práticas e sujeitos na produção do cuidado.
Período de Realização
Março de 2026, no Instituto Aggeu Magalhães, durante a disciplina de Introdução à Saúde Coletiva do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva.
Objetivo
Relatar a experiência de construção e apresentação de um painel discente no Instituto Aggeu Magalhães, destacando o uso de metodologias participativas no processo de ensino-aprendizagem em Saúde Coletiva.
Resultados
A experiência evidenciou o potencial das metodologias ativas como dispositivos de produção de conhecimento crítico no campo da Saúde Coletiva. A utilização da situação-problema revelou, inicialmente, uma compreensão fragmentada por parte dos participantes, marcada pela centralidade da epidemiologia como campo explicativo.
Entretanto, ao longo da problematização coletiva, observou-se um deslocamento conceitual, com reconhecimento progressivo da necessidade de articulação entre os diferentes núcleos estruturantes da Saúde Coletiva. Esse movimento contribuiu para a compreensão da interdisciplinaridade como dimensão constitutiva do campo, fundamental para a análise e enfrentamento dos problemas de saúde em sua complexidade.
Aprendizado e Análise Crítica
Nesse contexto, a experiência demonstrou a importância de estratégias pedagógicas ativas na formação em saúde, especialmente no contexto da residência multiprofissional da Fundação Oswaldo Cruz. A construção coletiva do conhecimento permitiu superar uma abordagem tradicional expositiva, favorecendo uma compreensão mais crítica e contextualizada da Saúde Coletiva.
Como potencialidade, destaca-se a integração entre teoria e prática, além do fortalecimento do trabalho em equipe. Como desafio, observa-se a necessidade de maior tempo para aprofundamento das discussões, considerando a complexidade dos temas abordados.
Por fim, a atividade reafirma a relevância de práticas educativas que valorizem a participação, a interdisciplinaridade e a reflexão crítica, elementos essenciais para a formação de profissionais comprometidos com os princípios da Saúde Coletiva.
EDUCAÇÃO PERMANENTE E O FORTALECIMENTO DA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL EM MINAS GERAIS: RELATO DE EXPERIÊNCIA DA EQUIPE MG1 NO PROJETO NÓS NA REDE
Comunicação Oral Curta
1 ESP-MG
2 Fiocruz
Contextualização
O projeto Nós na Rede é uma iniciativa do Ministério da Saúde em parceria com a Fiocruz Brasília e com as Escolas de Saúde Pública do SUS, voltada ao fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) por meio da Educação Permanente em Saúde (EPS). A formação visa qualificar a atuação de trabalhadores da rede sob os princípios do cuidado em liberdade e da redução de danos. Em Minas Gerais, mais especificamente no âmbito da equipe MG1, o curso foi desenvolvido em parceria com a Escola de Saúde Pública de Minas Gerais (ESP-MG). No estado, foram mobilizadas cinco equipes para atuação em todo o território, sendo a equipe MG1 responsável pelo acompanhamento das macrorregiões de saúde Centro e Vale do Aço. As equipes são compostas por diferentes funções articuladas: mobilizador estadual, assessor acadêmico, assessor logístico, apoiador educacional e educadores, responsáveis conjuntamente pela mobilização, condução pedagógica, organização logística e acompanhamento das turmas ao longo do percurso formativo.
Descrição
A experiência refere-se à gestão acadêmica e pedagógica de uma formação em larga escala, estruturada de forma híbrida: 90 horas de atividades a distância (AVA Moodle) e 30 horas presenciais distribuídas em cinco encontros ao longo do curso. O percurso pedagógico utiliza dispositivos como curadoria de materiais, relatos de experiências (podcasts e vídeos) e "desafios e vivências" que mobilizam a realidade prática do território.
Período de Realização
O relato abrange o 1º ciclo do projeto, realizado entre o segundo semestre de 2025 e o início de 2026.
Objetivo
Analisar os fatores que facilitaram ou dificultaram a conclusão do curso pelos alunos acompanhados pela equipe MG1, identificando tensões entre o cotidiano do trabalho no SUS e as exigências da educação permanente.
Resultados
No primeiro ciclo, a equipe MG1 acompanhou 14 turmas, totalizando 418 alunos matriculados. Destes, 265 conseguiram concluir o curso, atingindo uma taxa de conclusão de aproximadamente 64%. Observou-se uma disparidade significativa entre os municípios: enquanto houve turmas com número de concluintes acima de 80% outras turmas tiveram percentuais inferiores a 28% de concluintes.
Aprendizado e Análise Crítica
A partir das 244 avaliações respondidas pelos participantes das 14 turmas — considerando que o preenchimento do questionário constituía requisito obrigatório para acesso à certificação — foi possível identificar padrões consistentes na experiência formativa. Os dados indicam que o sucesso da Educação Permanente em Saúde (EPS) no território está diretamente associado à articulação entre três dimensões estruturantes: suporte pedagógico qualificado, apoio institucional da gestão e condições materiais e tecnológicas adequadas. Nas turmas com maiores taxas de conclusão, a condução pedagógica aparece como elemento central de engajamento, evidenciando o papel do educador como mediador do processo formativo e catalisador da participação: "A nossa professora foi surreal... fez com que nossos encontros fossem de muito aprendizado e troca".
Em contrapartida, emergem tensões relacionadas tanto ao desenho pedagógico quanto às condições concretas de realização do curso no cotidiano dos serviços. No plano pedagógico, a densidade e extensão dos materiais, embora reconhecidas como qualificadas, demandam um volume de tempo incompatível com a rotina de trabalho: "o material é muito extenso de forma que exige muito tempo da UBS para concluir o curso". No plano institucional, a principal barreira à conclusão refere-se ao conflito entre o tempo de estudo e a carga assistencial, sendo recorrente a ausência de “horas protegidas” para dedicação às atividades formativas: "O dificultador... foi o tempo para estudar o material... uma vez que o horário protegido na carga horária de trabalho foi somente para os encontros presenciais".
Adicionalmente, fatores conjunturais externos, como a realização de concurso público e a redução do número de servidores em determinados contextos, intensificaram a sobrecarga das equipes, dificultando a imersão necessária no processo formativo. Em contraste, turmas que relataram apoio integral da gestão apresentaram melhores condições de participação e maiores taxas de conclusão.
Os achados indicam que a efetividade da EPS não depende exclusivamente da qualidade dos conteúdos ofertados, mas da sua adequação às condições reais de trabalho e, sobretudo, do reconhecimento institucional do tempo de estudo como parte intrínseca da jornada laboral. Nesse sentido, a sustentabilidade das ações de educação permanente requer o alinhamento entre proposta pedagógica, gestão do trabalho e organização dos serviços, superando a lógica de que a formação constitui uma atividade acessória realizada no tempo pessoal do trabalhador.
Realização: