Programa - Comunicação Oral - CO13.4 - Práticas Territoriais e Inovações no Cuidado a Populações Vulnerabilizadas
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
DA INVISIBILIDADE À INSTITUCIONALIZAÇÃO: CONSTRUÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DA ATENÇÃO À SAÚDE LGBTQIA+ NO DISTRITO FEDERAL
Comunicação Oral
1 Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal
Contextualização
A população LGBTQIA+ enfrenta barreiras históricas de acesso aos serviços de saúde, marcadas por processos de invisibilização, discriminação e reprodução de normatividades cis-heteronormativas no cuidado. No plano normativo nacional, a Política Nacional de Saúde Integral de LGBT, instituída pela Portaria 2.836/2011, representa um marco no reconhecimento das especificidades dessa população no SUS. No Sistema Único de Saúde, a Atenção Primária à Saúde (APS) constitui espaço estratégico para a promoção da equidade, exigindo a incorporação de abordagens que reconheçam as diversidades de gênero e sexualidade como dimensões constitutivas do cuidado.
Descrição
No âmbito da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, a Câmara Técnica de Atenção à Saúde da População LGBTQIA+ do DF foi instituída pela Portaria SES-DF nº 160/2022 e reformulada pela Portaria nº 102/2024, reunindo representantes de todas as áreas técnicas e níveis de atenção da SES-DF, incluindo o Ambulatório de Diversidade de Gênero. Previamente, em 2021, foi constituído Grupo de Trabalho para construção de linha de cuidado, cuja finalização evidenciou limites na Rede de Atenção à Saúde, especialmente na atenção especializada e hospitalar, inviabilizando sua implementação naquele momento. A partir desse processo, foi proposta coletivamente a criação da Câmara Técnica como estratégia de institucionalização da pauta. Entre suas ações, a Câmara apoiou a criação do centro de custo do Ambulatório de Diversidade de Gênero, que funcionava sem essa estrutura administrativa, impedindo a lotação formal de servidores e, consequentemente, sua habilitação pelo Ministério da Saúde — condição alcançada posteriormente em 2024. A elaboração do Caderno de Atenção à Saúde da População LGBTQIA+ na APS do Distrito Federal, publicado em 2025, envolveu uma comissão de revisão constituída dentro da Câmara Técnica, que consolidou contribuições das mais variadas áreas técnicas de todos os níveis de atenção e do Ambulatório de Diversidade de Gênero, tendo como referência também protocolos e documentos de outras Unidades da Federação. O documento passou por revisão acadêmica realizada por consultora contratada via Termo de Ajuste da OPAS, e o design ficou a cargo da Assessoria de Comunicação da SES-DF. A Câmara também apoiou a construção do Protocolo de Hormonização para pessoas trans, cujo processo de consulta pública foi concluído recentemente, aguardando publicação oficial. Como estratégia de implementação em curso, está prevista para 2026 a realização de curso de qualificação para facilitadores das Regiões de Saúde, a partir do conteúdo do Caderno, com perspectiva de replicação local e apoio matricial. Anteriormente, em março de 2024, foi realizado o curso TransFormação: Atenção Integral à Saúde da População em Transição de Gênero no DF, em formato piloto, com foco nos profissionais de serviços que já atuavam diretamente com a população trans, dentre os quais destacam-se as equipes de Atenção Primária Prisional que atendem a população trans privada de liberdade.
Período de Realização
2021–2026
Objetivo
Sistematizar a experiência de construção e implementação de diretrizes para a atenção à saúde da população LGBTQIA+ na APS do Distrito Federal, analisando seus processos, aprendizados e desafios.
Resultados
A experiência evidencia avanços na institucionalização da pauta LGBTQIA+ no SUS-DF, com produção de instrumentos orientadores — o Caderno de Atenção à Saúde da População LGBTQIA+ na APS do DF e o Protocolo de Hormonização para pessoas trans — estruturação administrativa do Ambulatório de Diversidade de Gênero e sua habilitação pelo Ministério da Saúde em agosto de 2024, realização do curso piloto TransFormação e definição de estratégias de implementação nos territórios, incluindo curso de qualificação para facilitadores com perspectiva de apoio matricial.
Aprendizado e Análise Crítica
O percurso do GT à Câmara Técnica revela aprendizados institucionais sobre os limites da rede e a necessidade de construção de estratégias mais aderentes ao contexto. Ressalta-se a importância da construção coletiva, da articulação entre gestão e serviços e do reconhecimento das condições reais da rede na formulação de políticas. Persistem desafios relacionados à incorporação das diretrizes no cotidiano dos serviços, à formação crítica dos profissionais e à superação de violências institucionais. A construção do protocolo de hormonização explicita tensões entre normatização e reconhecimento das singularidades, exigindo abordagens ético-políticas comprometidas com os direitos humanos. A experiência reafirma a APS como espaço estratégico para a produção de cuidado equitativo e evidencia a importância da institucionalização de diretrizes articuladas à educação permanente e ao apoio matricial. Aponta-se a necessidade de fortalecimento da rede e de políticas comprometidas com a diversidade e os direitos humanos, consolidando o SUS como espaço de cuidado inclusivo.
ENTRE O CUIDADO E A RESISTÊNCIA: A HISTÓRIA DA SECASA NA ATENÇÃO ÀS PESSOAS VIVENDO COM HIV EM SANTOS.
Comunicação Oral
1 UNISANTOS
Contextualização
A Casa de Apoio e Solidariedade aos pacientes com AIDS (SECASA), inaugurada em 1989 no município de Santos, SP emerge como uma resposta pública inovadora no enfrentamento da epidemia de HIV/AIDS, em um contexto marcado por intenso estigma, exclusão social e abandono familiar. Reconhecida como a primeira casa de apoio no Brasil mantida por uma gestão pública municipal, a SECASA consolidou-se como um dispositivo estratégico de cuidado integral, voltado a pessoas vivendo com HIV/AIDS em situação de vulnerabilidade social e sem rede de apoio. Consolidou-se como um dispositivo estratégico de cuidado integral. No cenário atual, a SECASA encontra-se atravessada por discussões no âmbito da gestão municipal quanto à sua continuidade, revelando disputas entre a lógica de contenção de gastos e a garantia da integralidade do cuidado.
Descrição
Um relato de experiência fundamentado na prática assistencial junto a usuários assistidos na instituição, articulado a uma análise crítica das dimensões ético-políticas do cuidado. A experiência evidencia que o cuidado ofertado na SECASA ultrapassa a dimensão biomédica, incorporando ações voltadas ao acolhimento, à reconstrução de vínculos, ao suporte psicossocial e à promoção da dignidade humana. Os usuários atendidos, em sua maioria, vivenciam múltiplas vulnerabilidades, atravessadas por marcadores de classe, gênero e estigma associado ao HIV/AIDS, o que demanda abordagens intersetoriais e sensíveis às singularidades.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida durante o ano de 2025.
Objetivo
Analisar criticamente, a partir da experiência profissional como enfermeira, a relevância da SECASA enquanto política pública no âmbito do SUS, considerando os desafios contemporâneos relacionados à gestão do cuidado, às desigualdades sociais e às tensões entre racionalidade econômica e princípios de integralidade e equidade.
Resultados
Apontam que a SECASA se configura como um espaço potente de materialização do princípio da integralidade, ao articular cuidado clínico, suporte social e reinserção na vida comunitária. Observa-se que a atuação da enfermagem, nesse contexto, assume papel central na coordenação do cuidado, na escuta qualificada e na mediação entre usuários e a rede de serviços. Além disso, a instituição contribui para a redução de internações hospitalares recorrentes e para a melhoria da adesão ao tratamento, reforçando sua relevância no sistema de saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
Aprendizado: Destaca-se a compreensão de que o cuidado em saúde coletiva exige o reconhecimento das desigualdades estruturais e das especificidades dos sujeitos, reafirmando o princípio da equidade. A experiência evidencia que não se trata apenas de tratar uma condição clínica, mas de considerar o indivíduo em sua totalidade, incluindo suas dimensões sociais, familiares e subjetivas. Análise crítica: Evidencia a existência de tensões entre a racionalidade gerencial, orientada pela contenção de gastos, e os princípios estruturantes do SUS, especialmente a integralidade e a equidade. A possível descontinuidade da SECASA, embora justificável sob a lógica econômica, revela um processo de desvalorização de dispositivos de cuidado voltados a populações historicamente vulnerabilizadas, cujas necessidades extrapolam o modelo biomédico. Nesse contexto, observa-se o risco de invisibilização de sujeitos que, além da condição de saúde, vivenciam exclusão social, fragilidade de vínculos familiares e estigma associado ao HIV/AIDS. A SECASA, enquanto estratégia pública, tensiona essa lógica ao reconhecer que o cuidado não se restringe ao tratamento clínico, mas envolve dimensões psicossociais, garantindo dignidade e suporte para reinserção social. A sua possível extinção aponta para um movimento de fragmentação do cuidado, em que políticas são desarticuladas e incapazes de responder à complexidade das demandas sociais. Tal cenário contraria o princípio da equidade, ao tratar desigualmente sujeitos em condições desiguais, e compromete a efetivação da integralidade no cuidado em saúde. Dessa forma, mais do que um serviço, a SECASA representa um dispositivo ético-político que reafirma o compromisso da saúde pública com a vida, especialmente daqueles em situação de maior vulnerabilidade, evidenciando que a gestão do cuidado deve priorizar não apenas a eficiência, mas também a justiça social.
GESTÃO DO CUIDADO E POPULAÇÕES VULNERABILIZADAS: UMA EXPERIÊNCIA TERRITORIAL DE TESTAGEM DE HIV E SÍFILIS NO SUS
Comunicação Oral
1 Serviço de Atenção Especializada - SAE e Universidade Católica de Santos - UniSantos
2 Serviço de Atenção Especializada - SAE
3 Coordenadoria de Controle de Doenças Infectocontagiosas - CCDI
4 Universidade Católica de Santos - UniSantos
Contextualização
A Campanha Fique Sabendo (CFS), implementada no Estado de São Paulo desde 2008, visa ampliar o acesso à testagem para HIV, especialmente diante do diagnóstico tardio em populações vulnerabilizadas. Em Santos, embora a infecção esteja distribuída em diferentes estratos sociais, observa-se concentração em populações-chave, cujas trajetórias são marcadas por desigualdades de classe, gênero e acesso a direitos. A CFS foi articulada com serviços da rede, agentes comunitários e lideranças locais, configurando-se como estratégia de gestão do cuidado orientada pela equidade e permite problematizar como políticas públicas operam diante de demandas identitárias, tensionando respostas específicas e o risco de fragmentação do cuidado.
Descrição
A CFS realizou ações territoriais de testagem rápida para HIV e sífilis, acompanhadas de aconselhamento, em diferentes espaços institucionais e comunitários. A definição dos territórios e estratégias de abordagem foi construída de forma participativa, envolvendo profissionais, gestores e Agentes de Prevenção (AP), cuja atuação foi central para o acesso a grupos historicamente afastados dos serviços. A experiência mobilizou diferentes níveis da gestão do cuidado (territorial, organizacional e institucional), ainda que com limites na articulação entre serviços e na continuidade das ações.
Período de Realização
A CFS foi planejada entre setembro e outubro e as ações ocorreram entre novembro e dezembro de 2025.
Objetivo
Ampliar o acesso à testagem e ao cuidado em saúde de populações historicamente alijadas da Rede de Atenção à Saúde (RAS) — especialmente profissionais do sexo (PS), pessoas trans (PT) e população em situação de rua (PSR) — por meio de ações territorializadas em comunidades de maior vulnerabilidade social, analisando a experiência a partir das relações entre identidade, gestão do cuidado e políticas públicas no SUS.
Resultados
Foram realizadas 10 ações de testagem e aconselhamento em diferentes pontos dos territórios (UBS, CAPS, universidade e comunidades) com foco em populações de maior vulnerabilidade. Foram realizados 282 testes rápidos de HIV e 283 de sífilis, com prevalência do HIV de 0,37% e 8,33% de sífilis, com variações importantes segundo os grupos atendidos, expressando desigualdades na distribuição dos agravos: HIV com prevalência de 6,25% no CAPS; sífilis variando de 3,28% (universitários), 5,88% a 11,76% nos CAPS, entre 9,52% e 16,66% nas comunidades, 27,27% entre PS e 40% na PSR. Os casos reagentes foram referenciados para a RAS, mediante laudos dos testes e encaminhamentos por escrito, conforme território de residência, indicando articulação entre diferentes pontos de atenção e potencial de integração do cuidado a partir de estratégias territorializadas.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a gestão do cuidado orientada pela equidade, em contextos de desigualdade, exige articulação com atores comunitários, reconhecimento das dinâmicas territoriais e mediação qualificada para o acesso seguro aos serviços. A definição dos locais de testagem mostrou-se um dos principais desafios, envolvendo a coordenação entre diferentes atores sociais, agendas institucionais e comunitárias, além de barreiras logísticas e de circulação em territórios marcados por precariedade de infraestrutura e por formas de controle geopolítico que tensionam a presença do Estado. Essas práticas evidenciam que a equidade se concretiza, no cotidiano da gestão do cuidado, por meio de estratégias territorializadas, construídas com e a partir das comunidades, baseadas em proximidade social e competência cultural. Também foram identificados desafios na integração entre níveis assistenciais, na sustentação dessas estratégias no cotidiano dos serviços e na produção de continuidade do cuidado para além da testagem. Por fim, a experiência indicou a necessidade de qualificação das ações de vigilância e de ampliação de estratégias de cuidado para sífilis, diante das altas taxas de infecção observadas. A experiência evidencia tensões entre o reconhecimento de identidades específicas e o risco de fragmentação das políticas de saúde. Se, por um lado, a focalização em populações-chave amplia o acesso e enfrenta desigualdades, por outro, pode produzir ações pontuais com baixa integração na rede. A interseccionalidade permitiu compreender que as vulnerabilidades se configuram de forma situada, a partir da articulação entre marcadores sociais, exigindo respostas que não reduzam os sujeitos a categorias fixas. As ações territorializadas, mediadas por agentes comunitários, indicam potencial para fortalecer vínculos e ampliar o acesso, mas evidenciam limites institucionais na articulação em rede e garantia da continuidade do cuidado. Nesse sentido, a experiência aponta para a necessidade de reforçar as articulações com a RAS e aprofundar as conexões com e na comunidade e políticas que integrem o reconhecimento das diferenças, participação social e organização sistêmica do cuidado, tensionando práticas que oscilam entre universalização abstrata e fragmentação identitária.
RELATO DE EXPERIÊNCIA NO AMBULATÓRIO TRANS DE PORTO ALEGRE: UM OLHAR CRÍTICO SOBRE A GESTÃO DO CUIDADO E AS BARREIRAS INSTITUCIONAIS NO SUS
Comunicação Oral
1 UFRGS
Contextualização
O Brasil lidera os índices mundiais de violência contra a população transgênere, o que torna o acesso à saúde uma estratégia de sobrevivência. Embora o SUS garanta o processo transexualizador, sua execução enfrenta o desafio da fragmentação do cuidado e da persistente patologização das identidades. A resistência em descentralizar o atendimento para a rede básica mantém o cuidado restrito a centros especializados, transformando o direito à saúde em uma trajetória marcada por barreiras de acesso e invisibilidade institucional.
Descrição
A atuação envolveu a participação direta na assistência e na gestão local do serviço. As atividades principais incluíram a realização de escutas qualificadas com os usuários, focadas no acolhimento de demandas biopsicossociais, e a participação em reuniões de equipe destinadas à reorganização de fluxos internos e tentativas de articulação com a rede de atenção. Observou-se que o perfil do serviço é composto majoritariamente por pessoas jovens em busca de hormonização e acolhimento identitário.
Período de Realização
As atividades ocorreram entre março de 2025 e março de 2026, no âmbito da Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Objetivo
Este trabalho objetiva relatar a experiência vivenciada no Ambulatório Trans de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, buscando confrontar as diretrizes de descentralização do Sistema Único de Saúde com as lacunas da prática cotidiana e as barreiras institucionais que limitam o cuidado a essa população.
Resultados
A análise revela uma profunda falha na lógica de rede e na garantia do acesso. Identificou-se que a centralização excessiva do cuidado no serviço especializado, aliada à desqualificação da atenção primária à saúde (APS) para o manejo da saúde trans, cria barreiras que não podem ser ultrapassadas. Embora o ambulatório funcione como um serviço de "porta aberta", a demanda reprimida gera uma fila de espera significativa para o início do acompanhamento. Durante o período, foram observadas dificuldades persistentes na articulação com a atenção primária à saúde: as tentativas de contrarreferenciamento para que as unidades básicas pudessem realizar o acompanhamento compartilhado foram frequentemente frustradas. Essa lacuna assistencial - o tempo de espera no especializado somado à falta de acolhimento na rede básica - acaba empurrando os usuários para a automedicação. O desejo pela modificação corporal, não atendida pelo Estado em tempo oportuno, faz com que a automedicação se torne uma estratégia de sobrevivência, embora comprometa a segurança e a saúde dos sujeitos. A falta de profissionais qualificados na rede básica para o manejo da hormonização cria um ciclo de exclusão. Além disso, a falta de financiamento regular para insumos, como a compra de medicamentos hormonais, gera uma dependência instável da lei orçamentária anual e uma dispensação de medicamentos centralizada em uma única farmácia distrital na cidade. A invisibilidade é agravada pela ausência do serviço no sistema GERCON (gerenciamento estadual de consultas), o que impede a transparência quanto à fila de espera para acessar o serviço.
Aprendizado e Análise Crítica
A vivência evidenciou que o ambulatório opera em um regime de "autogestão" por profissionais e residentes, funcionando como um serviço isolado. Um aprendizado central foi perceber que a sobrevivência do local é dependente da presença de estudantes e residentes de saúde, que acabam preenchendo o gargalo gerado pela escassez de profissionais do quadro fixo. Sem a força de trabalho discente, o serviço teria sua capacidade assistencial drasticamente reduzida, evidenciando a precarização do vínculo trabalhista na ponta. Soma-se a isso o impacto de normativas restritivas, como a Resolução CFM nº 2.427/2025, que exige um ano de acompanhamento prévio para o início da hormonização, somando-se à não publicação de diretrizes atualizadas como o PAES POP TRANS. Esse arcabouço normativo e a ausência de atualizações no processo transexualizador funcionam como dispositivos de controle que atrapalham o cuidado e burocratizam a existência da identidade trans. Conclui-se que o cuidado trans na capital gaúcha ocorre em um vazio de macropolíticas sólidas. O que sustenta o serviço é o trabalho vivo em ato e a micropolítica das relações entre profissionais, residentes e usuários. É no espaço da clínica e da escuta que se produz cuidado, resistindo à inércia institucional. Assim, a resiliência micropolítica substitui a responsabilidade do Estado, mantendo o serviço marginalizado na rede e desafiando a integralidade e a dignidade dessa população.
CONHECER PARA CUIDAR: EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE PARA A PROMOÇÃO DA INTEGRALIDADE DO CUIDADO À POPULAÇÃO LGBTQIAPN+ EM UMA ESCOLA DE SAÚDE PÚBLICA
Comunicação Oral
1 ESP-MG
Contextualização
A Política Nacional e a Política Estadual de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, instituída em Minas Gerais pela Deliberação CIB‑SUS/MG nº 3.202/2020, constituem marcos normativos relevantes na garantia do direito à saúde da população LGBT e na consolidação do SUS enquanto sistema universal, integral e equânime. Entretanto, ainda persiste expressivo distanciamento entre o plano normativo e as práticas institucionais, evidenciado pela reprodução de violências, pela restrição das demandas de saúde a abordagens biomédicas e pela fragmentação do cuidado. Esse cenário compromete a integralidade e impõe desafios à gestão do cuidado no SUS, especialmente quando identidades de gênero e orientação sexual não são reconhecidas como determinantes sociais da saúde. Conforme apontam Paim e Almeida Filho, ao compreenderem o processo saúde‑doença como socialmente determinado, ignorar essas dimensões produz efeitos diretos sobre a efetividade das políticas públicas. As críticas às demandas da população LGBT e às suas interseccionalidades, ao caracterizá‑las como meramente identitárias, desconsideram que demandas tidas como universais são, em regra, produzidas a partir de identidades hegemônicas. Assim, a não incorporação das reivindicações de populações historicamente vulnerabilizadas tensiona os princípios da equidade e da integralidade nas políticas públicas de saúde.
Descrição
A experiência insere‑se no processo de implementação da Política Estadual de Saúde Integral LGBT e de seu Plano Operativo, especialmente no Eixo III – Educação Permanente e Educação Popular em Saúde, que reconhece a formação como estratégia estruturante da gestão do cuidado. Enquanto integrante do Comitê Técnico Estadual de Saúde Integral da População LGBT, representando a Escola de Saúde Pública de Minas Gerais (ESP‑MG), participei da elaboração do curso EAD autoinstrucional Conhecer para cuidar: Integralidade do Cuidado e a população LGBTQIAPN+. O curso foi ofertado pela ESP‑MG no âmbito do Projeto Menos Preconceito é Mais Saúde: divulgação científica e saúde da população LGBT, financiado pela Fapemig. Trata‑se do segundo curso de um itinerário formativo estruturado em três unidades: princípios e diretrizes do SUS; saúde integral da população LGBTQIAPN+, com centralidade na relação entre violência e adoecimento; e cuidado em saúde, interseccionalidade e marcadores sociais. Os conteúdos foram fundamentados no conceito ampliado de saúde, conforme desenvolvido por Nunes e Paim, e na concepção de cuidado enquanto prática ética, relacional e política, tal como formulada por Leonardo Boff e Roseni Pinheiro, articulando educação permanente, políticas públicas e cotidiano dos serviços.
Período de Realização
Elaboração dos conteúdos no primeiro semestre de 2025 e oferta educacional entre setembro e outubro de 2025.
Objetivo
Qualificar gestores e profissionais do SUS para o enfrentamento das iniquidades em saúde vivenciadas pela população LGBTQIAPN+, fortalecendo a integralidade e a equidade como princípios orientadores da gestão do cuidado e das práticas assistenciais no SUS.
Resultados
Foram matriculados 1.218 participantes, dos quais 598 concluíram o curso. Para além dos indicadores quantitativos, os resultados evidenciam a educação permanente como dispositivo estratégico da gestão do cuidado no SUS, ao incidir sobre práticas profissionais, processos decisórios e formas de acolhimento nos serviços. As avaliações e os relatos dos cursistas revelam lacunas estruturais na formação inicial em gênero e sexualidade e apontam o curso como espaço privilegiado de reflexão crítica sobre a integralidade do cuidado, o uso do nome social, as violências institucionais e a produção do cuidado. A elevada procura e a avaliação positiva, superior a 97%, indicam demanda reprimida por formações que articulem identidade, políticas públicas e gestão do cuidado no cotidiano do SUS.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência reforçou que a integralidade do cuidado exige reconhecer a violência interpessoal e institucional como elemento estruturante do adoecimento biopsicossocial da população LGBTQIAPN+. Tal compreensão foi aprofundada a partir da abordagem interseccional, formulada por Kimberlé Crenshaw e desenvolvida, no contexto brasileiro, por Carla Akotirene, permitindo compreender como gênero, raça, classe e território atravessam o acesso, a qualidade da atenção e os modos de gestão do cuidado. Evidenciou‑se que a educação permanente, quando articulada às políticas públicas e aos espaços de participação social, constitui ferramenta fundamental para qualificar a gestão do cuidado no SUS. Ao mesmo tempo, aponta limites, como a necessidade de institucionalizar formações dessa natureza de modo continuado e integrado aos processos de trabalho. O fortalecimento de iniciativas alinhadas à Política Estadual LGBT contribui para superar abordagens fragmentadas, promover a integralidade e reafirmar o SUS como política pública comprometida com a equidade e o reconhecimento das diversidades.
DISCUSSÃO DE CASOS COMO FERRAMENTA DE CUIDADO PARA JOVENS TRABALHADORES SEXUAIS EM SÃO PAULO: POTÊNCIAS E LIMITES FRENTE AO ESTIGMA INTERSECCIONAL
Comunicação Oral
1 FMUSP
Contextualização
No contexto do HIV/aids, o estigma interseccional ao articular sorofobia, racismo, LGBTfobia e estigma ocupacional associado ao trabalho sexual configura-se como importante obstáculo no enfrentamento do HIV. Embora tecnologias biomédicas como a profilaxia pré-exposição (PrEP) apresentem alta eficácia clínica, sua efetividade é limitada por barreiras sociais. O estudo multicêntrico PrEP 15-19 Escolhas oferta PrEP para jovens homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas não binárias (NB), homens transgênero (HT) e mulheres transexuais e travesti (MTTr). Diante das dificuldades de vinculação dos participantes em contexto de alta vulnerabilidade, a equipe de São Paulo adota discussões de casos como estratégia de gestão do cuidado.
Descrição
Trata-se de estudo qualitativo baseado em observação participante a partir de registros produzidos em cadernos de campo pela pesquisadora-trabalhadora do estudo como prática profissional de reflexividade. O material empírico refere-se a 45 discussões de casos realizadas por equipe multidisciplinar, incluindo profissionais da medicina, enfermagem, psicologia, serviço social e educação de pares. A análise foi orientada por abordagem interseccional, considerando marcadores sociais da diferença, demandas identificadas e respostas institucionais no contexto da gestão do cuidado.
Período de Realização
Registros em cadernos de campo produzidos entre junho de 2022 e dezembro de 2025.
Objetivo
Analisar as discussões de caso como ferramenta de gestão do cuidado para jovens trabalhadores sexuais do PrEP 15-19 Escolhas, identificando suas potencialidades para a integralidade do cuidado, as tensões e limites no enfrentamento do estigma interseccional.
Resultados
Nas discussões de de casos, 50 participantes foram mencionados, dos quais 17 eram jovens trabalhadores sexuais (17 a 21 anos), majoritariamente negros e pertencentes à população LGBTQIA+, evidenciando a intersecção entre marcadores sociais da diferença. A identificação do trabalho sexual não emergia dos registros clínicos formais do estudo, sendo revelada pelas trocas interprofissionais nas discussões de casos que ampliavam a compreensão das trajetórias para além do prontuário.
Aprendizado e Análise Crítica
As discussões de caso permitiram evidenciar a articulação entre trabalho sexual, conflitos familiares associados à LGBTfobia e insegurança habitacional, especialmente entre pessoas trans. Instabilidades de rotina, como migração, horários irregulares e moradia precária, impactaram diretamente a adesão e continuidade da PrEP. A incorporação dessas dimensões possibilitou a construção de estratégias de cuidado mais equitativas, como a oferta de PrEP injetável a quem perdia o frasco da medicação, por exemplo, e apoio logístico para acesso aos serviços para quem apresentava dificuldades de seguimento por causa da rotina exaustiva. Ao mesmo tempo, os achados evidenciam que a gestão do cuidado, ainda que ampliada por tecnologias relacionais, encontra limites estruturais frente ao estigma interseccional.
A discussão de casos se mostrou uma ferramenta potente na gestão do cuidado integral, ao favorecer a construção coletiva de reconhecimento das identidades e trajetórias dos jovens trabalhadores sexuais, essencial para enfrentar o estigma interseccional multidimensional. Contudo, seus efeitos são limitados diante de barreiras estruturais, como violências familiares, precarização do trabalho e exclusão social. A perda gradual de vínculo ao projeto de participantes recorrentes nas discussões é um indício destes limites. Observou-se que, em contextos de alta vulnerabilidade, a PrEP pode perder centralidade frente a demandas mais urgentes. A ferramenta contribui para a qualificação da gestão de cuidado, mas deve ser articulada a outras estratégias, como o matriciamento e projetos terapêuticos singulares, e políticas públicas intersetoriais para enfrentar as raízes das opressões e do estigma, garantindo assim pleno direito à integralidade e equidade no SUS.
Realização: