Programa - Comunicação Oral - CO13.4 - Práticas Territoriais e Inovações no Cuidado a Populações Vulnerabilizadas
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
ENTRE O CUIDADO E A RESISTÊNCIA: A HISTÓRIA DA SECASA NA ATENÇÃO ÀS PESSOAS VIVENDO COM HIV EM SANTOS.
Comunicação Oral
1 UNISANTOS
Contextualização
A Casa de Apoio e Solidariedade aos pacientes com AIDS (SECASA), inaugurada em 1989 no município de Santos, SP emerge como uma resposta pública inovadora no enfrentamento da epidemia de HIV/AIDS, em um contexto marcado por intenso estigma, exclusão social e abandono familiar. Reconhecida como a primeira casa de apoio no Brasil mantida por uma gestão pública municipal, a SECASA consolidou-se como um dispositivo estratégico de cuidado integral, voltado a pessoas vivendo com HIV/AIDS em situação de vulnerabilidade social e sem rede de apoio. Consolidou-se como um dispositivo estratégico de cuidado integral. No cenário atual, a SECASA encontra-se atravessada por discussões no âmbito da gestão municipal quanto à sua continuidade, revelando disputas entre a lógica de contenção de gastos e a garantia da integralidade do cuidado.
Descrição
Um relato de experiência fundamentado na prática assistencial junto a usuários assistidos na instituição, articulado a uma análise crítica das dimensões ético-políticas do cuidado. A experiência evidencia que o cuidado ofertado na SECASA ultrapassa a dimensão biomédica, incorporando ações voltadas ao acolhimento, à reconstrução de vínculos, ao suporte psicossocial e à promoção da dignidade humana. Os usuários atendidos, em sua maioria, vivenciam múltiplas vulnerabilidades, atravessadas por marcadores de classe, gênero e estigma associado ao HIV/AIDS, o que demanda abordagens intersetoriais e sensíveis às singularidades.
Período de Realização
A experiência foi desenvolvida durante o ano de 2025.
Objetivo
Analisar criticamente, a partir da experiência profissional como enfermeira, a relevância da SECASA enquanto política pública no âmbito do SUS, considerando os desafios contemporâneos relacionados à gestão do cuidado, às desigualdades sociais e às tensões entre racionalidade econômica e princípios de integralidade e equidade.
Resultados
Apontam que a SECASA se configura como um espaço potente de materialização do princípio da integralidade, ao articular cuidado clínico, suporte social e reinserção na vida comunitária. Observa-se que a atuação da enfermagem, nesse contexto, assume papel central na coordenação do cuidado, na escuta qualificada e na mediação entre usuários e a rede de serviços. Além disso, a instituição contribui para a redução de internações hospitalares recorrentes e para a melhoria da adesão ao tratamento, reforçando sua relevância no sistema de saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
Aprendizado: Destaca-se a compreensão de que o cuidado em saúde coletiva exige o reconhecimento das desigualdades estruturais e das especificidades dos sujeitos, reafirmando o princípio da equidade. A experiência evidencia que não se trata apenas de tratar uma condição clínica, mas de considerar o indivíduo em sua totalidade, incluindo suas dimensões sociais, familiares e subjetivas. Análise crítica: Evidencia a existência de tensões entre a racionalidade gerencial, orientada pela contenção de gastos, e os princípios estruturantes do SUS, especialmente a integralidade e a equidade. A possível descontinuidade da SECASA, embora justificável sob a lógica econômica, revela um processo de desvalorização de dispositivos de cuidado voltados a populações historicamente vulnerabilizadas, cujas necessidades extrapolam o modelo biomédico. Nesse contexto, observa-se o risco de invisibilização de sujeitos que, além da condição de saúde, vivenciam exclusão social, fragilidade de vínculos familiares e estigma associado ao HIV/AIDS. A SECASA, enquanto estratégia pública, tensiona essa lógica ao reconhecer que o cuidado não se restringe ao tratamento clínico, mas envolve dimensões psicossociais, garantindo dignidade e suporte para reinserção social. A sua possível extinção aponta para um movimento de fragmentação do cuidado, em que políticas são desarticuladas e incapazes de responder à complexidade das demandas sociais. Tal cenário contraria o princípio da equidade, ao tratar desigualmente sujeitos em condições desiguais, e compromete a efetivação da integralidade no cuidado em saúde. Dessa forma, mais do que um serviço, a SECASA representa um dispositivo ético-político que reafirma o compromisso da saúde pública com a vida, especialmente daqueles em situação de maior vulnerabilidade, evidenciando que a gestão do cuidado deve priorizar não apenas a eficiência, mas também a justiça social.
GESTÃO DO CUIDADO E POPULAÇÕES VULNERABILIZADAS: UMA EXPERIÊNCIA TERRITORIAL DE TESTAGEM DE HIV E SÍFILIS NO SUS
Comunicação Oral
1 Serviço de Atenção Especializada - SAE e Universidade Católica de Santos - UniSantos
2 Serviço de Atenção Especializada - SAE
3 Coordenadoria de Controle de Doenças Infectocontagiosas - CCDI
4 Universidade Católica de Santos - UniSantos
Contextualização
A Campanha Fique Sabendo (CFS), implementada no Estado de São Paulo desde 2008, visa ampliar o acesso à testagem para HIV, especialmente diante do diagnóstico tardio em populações vulnerabilizadas. Em Santos, embora a infecção esteja distribuída em diferentes estratos sociais, observa-se concentração em populações-chave, cujas trajetórias são marcadas por desigualdades de classe, gênero e acesso a direitos. A CFS foi articulada com serviços da rede, agentes comunitários e lideranças locais, configurando-se como estratégia de gestão do cuidado orientada pela equidade e permite problematizar como políticas públicas operam diante de demandas identitárias, tensionando respostas específicas e o risco de fragmentação do cuidado.
Descrição
A CFS realizou ações territoriais de testagem rápida para HIV e sífilis, acompanhadas de aconselhamento, em diferentes espaços institucionais e comunitários. A definição dos territórios e estratégias de abordagem foi construída de forma participativa, envolvendo profissionais, gestores e Agentes de Prevenção (AP), cuja atuação foi central para o acesso a grupos historicamente afastados dos serviços. A experiência mobilizou diferentes níveis da gestão do cuidado (territorial, organizacional e institucional), ainda que com limites na articulação entre serviços e na continuidade das ações.
Período de Realização
A CFS foi planejada entre setembro e outubro e as ações ocorreram entre novembro e dezembro de 2025.
Objetivo
Ampliar o acesso à testagem e ao cuidado em saúde de populações historicamente alijadas da Rede de Atenção à Saúde (RAS) — especialmente profissionais do sexo (PS), pessoas trans (PT) e população em situação de rua (PSR) — por meio de ações territorializadas em comunidades de maior vulnerabilidade social, analisando a experiência a partir das relações entre identidade, gestão do cuidado e políticas públicas no SUS.
Resultados
Foram realizadas 10 ações de testagem e aconselhamento em diferentes pontos dos territórios (UBS, CAPS, universidade e comunidades) com foco em populações de maior vulnerabilidade. Foram realizados 282 testes rápidos de HIV e 283 de sífilis, com prevalência do HIV de 0,37% e 8,33% de sífilis, com variações importantes segundo os grupos atendidos, expressando desigualdades na distribuição dos agravos: HIV com prevalência de 6,25% no CAPS; sífilis variando de 3,28% (universitários), 5,88% a 11,76% nos CAPS, entre 9,52% e 16,66% nas comunidades, 27,27% entre PS e 40% na PSR. Os casos reagentes foram referenciados para a RAS, mediante laudos dos testes e encaminhamentos por escrito, conforme território de residência, indicando articulação entre diferentes pontos de atenção e potencial de integração do cuidado a partir de estratégias territorializadas.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência evidenciou que a gestão do cuidado orientada pela equidade, em contextos de desigualdade, exige articulação com atores comunitários, reconhecimento das dinâmicas territoriais e mediação qualificada para o acesso seguro aos serviços. A definição dos locais de testagem mostrou-se um dos principais desafios, envolvendo a coordenação entre diferentes atores sociais, agendas institucionais e comunitárias, além de barreiras logísticas e de circulação em territórios marcados por precariedade de infraestrutura e por formas de controle geopolítico que tensionam a presença do Estado. Essas práticas evidenciam que a equidade se concretiza, no cotidiano da gestão do cuidado, por meio de estratégias territorializadas, construídas com e a partir das comunidades, baseadas em proximidade social e competência cultural. Também foram identificados desafios na integração entre níveis assistenciais, na sustentação dessas estratégias no cotidiano dos serviços e na produção de continuidade do cuidado para além da testagem. Por fim, a experiência indicou a necessidade de qualificação das ações de vigilância e de ampliação de estratégias de cuidado para sífilis, diante das altas taxas de infecção observadas. A experiência evidencia tensões entre o reconhecimento de identidades específicas e o risco de fragmentação das políticas de saúde. Se, por um lado, a focalização em populações-chave amplia o acesso e enfrenta desigualdades, por outro, pode produzir ações pontuais com baixa integração na rede. A interseccionalidade permitiu compreender que as vulnerabilidades se configuram de forma situada, a partir da articulação entre marcadores sociais, exigindo respostas que não reduzam os sujeitos a categorias fixas. As ações territorializadas, mediadas por agentes comunitários, indicam potencial para fortalecer vínculos e ampliar o acesso, mas evidenciam limites institucionais na articulação em rede e garantia da continuidade do cuidado. Nesse sentido, a experiência aponta para a necessidade de reforçar as articulações com a RAS e aprofundar as conexões com e na comunidade e políticas que integrem o reconhecimento das diferenças, participação social e organização sistêmica do cuidado, tensionando práticas que oscilam entre universalização abstrata e fragmentação identitária.
RELATO DE EXPERIÊNCIA NO AMBULATÓRIO TRANS DE PORTO ALEGRE: UM OLHAR CRÍTICO SOBRE A GESTÃO DO CUIDADO E AS BARREIRAS INSTITUCIONAIS NO SUS
Comunicação Oral
1 UFRGS
Contextualização
O Brasil lidera os índices mundiais de violência contra a população transgênere, o que torna o acesso à saúde uma estratégia de sobrevivência. Embora o SUS garanta o processo transexualizador, sua execução enfrenta o desafio da fragmentação do cuidado e da persistente patologização das identidades. A resistência em descentralizar o atendimento para a rede básica mantém o cuidado restrito a centros especializados, transformando o direito à saúde em uma trajetória marcada por barreiras de acesso e invisibilidade institucional.
Descrição
A atuação envolveu a participação direta na assistência e na gestão local do serviço. As atividades principais incluíram a realização de escutas qualificadas com os usuários, focadas no acolhimento de demandas biopsicossociais, e a participação em reuniões de equipe destinadas à reorganização de fluxos internos e tentativas de articulação com a rede de atenção. Observou-se que o perfil do serviço é composto majoritariamente por pessoas jovens em busca de hormonização e acolhimento identitário.
Período de Realização
As atividades ocorreram entre março de 2025 e março de 2026, no âmbito da Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Objetivo
Este trabalho objetiva relatar a experiência vivenciada no Ambulatório Trans de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, buscando confrontar as diretrizes de descentralização do Sistema Único de Saúde com as lacunas da prática cotidiana e as barreiras institucionais que limitam o cuidado a essa população.
Resultados
A análise revela uma profunda falha na lógica de rede e na garantia do acesso. Identificou-se que a centralização excessiva do cuidado no serviço especializado, aliada à desqualificação da atenção primária à saúde (APS) para o manejo da saúde trans, cria barreiras que não podem ser ultrapassadas. Embora o ambulatório funcione como um serviço de "porta aberta", a demanda reprimida gera uma fila de espera significativa para o início do acompanhamento. Durante o período, foram observadas dificuldades persistentes na articulação com a atenção primária à saúde: as tentativas de contrarreferenciamento para que as unidades básicas pudessem realizar o acompanhamento compartilhado foram frequentemente frustradas. Essa lacuna assistencial - o tempo de espera no especializado somado à falta de acolhimento na rede básica - acaba empurrando os usuários para a automedicação. O desejo pela modificação corporal, não atendida pelo Estado em tempo oportuno, faz com que a automedicação se torne uma estratégia de sobrevivência, embora comprometa a segurança e a saúde dos sujeitos. A falta de profissionais qualificados na rede básica para o manejo da hormonização cria um ciclo de exclusão. Além disso, a falta de financiamento regular para insumos, como a compra de medicamentos hormonais, gera uma dependência instável da lei orçamentária anual e uma dispensação de medicamentos centralizada em uma única farmácia distrital na cidade. A invisibilidade é agravada pela ausência do serviço no sistema GERCON (gerenciamento estadual de consultas), o que impede a transparência quanto à fila de espera para acessar o serviço.
Aprendizado e Análise Crítica
A vivência evidenciou que o ambulatório opera em um regime de "autogestão" por profissionais e residentes, funcionando como um serviço isolado. Um aprendizado central foi perceber que a sobrevivência do local é dependente da presença de estudantes e residentes de saúde, que acabam preenchendo o gargalo gerado pela escassez de profissionais do quadro fixo. Sem a força de trabalho discente, o serviço teria sua capacidade assistencial drasticamente reduzida, evidenciando a precarização do vínculo trabalhista na ponta. Soma-se a isso o impacto de normativas restritivas, como a Resolução CFM nº 2.427/2025, que exige um ano de acompanhamento prévio para o início da hormonização, somando-se à não publicação de diretrizes atualizadas como o PAES POP TRANS. Esse arcabouço normativo e a ausência de atualizações no processo transexualizador funcionam como dispositivos de controle que atrapalham o cuidado e burocratizam a existência da identidade trans. Conclui-se que o cuidado trans na capital gaúcha ocorre em um vazio de macropolíticas sólidas. O que sustenta o serviço é o trabalho vivo em ato e a micropolítica das relações entre profissionais, residentes e usuários. É no espaço da clínica e da escuta que se produz cuidado, resistindo à inércia institucional. Assim, a resiliência micropolítica substitui a responsabilidade do Estado, mantendo o serviço marginalizado na rede e desafiando a integralidade e a dignidade dessa população.
CONHECER PARA CUIDAR: EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE PARA A PROMOÇÃO DA INTEGRALIDADE DO CUIDADO À POPULAÇÃO LGBTQIAPN+ EM UMA ESCOLA DE SAÚDE PÚBLICA
Comunicação Oral
1 ESP-MG
Contextualização
A Política Nacional e a Política Estadual de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, instituída em Minas Gerais pela Deliberação CIB‑SUS/MG nº 3.202/2020, constituem marcos normativos relevantes na garantia do direito à saúde da população LGBT e na consolidação do SUS enquanto sistema universal, integral e equânime. Entretanto, ainda persiste expressivo distanciamento entre o plano normativo e as práticas institucionais, evidenciado pela reprodução de violências, pela restrição das demandas de saúde a abordagens biomédicas e pela fragmentação do cuidado. Esse cenário compromete a integralidade e impõe desafios à gestão do cuidado no SUS, especialmente quando identidades de gênero e orientação sexual não são reconhecidas como determinantes sociais da saúde. Conforme apontam Paim e Almeida Filho, ao compreenderem o processo saúde‑doença como socialmente determinado, ignorar essas dimensões produz efeitos diretos sobre a efetividade das políticas públicas. As críticas às demandas da população LGBT e às suas interseccionalidades, ao caracterizá‑las como meramente identitárias, desconsideram que demandas tidas como universais são, em regra, produzidas a partir de identidades hegemônicas. Assim, a não incorporação das reivindicações de populações historicamente vulnerabilizadas tensiona os princípios da equidade e da integralidade nas políticas públicas de saúde.
Descrição
A experiência insere‑se no processo de implementação da Política Estadual de Saúde Integral LGBT e de seu Plano Operativo, especialmente no Eixo III – Educação Permanente e Educação Popular em Saúde, que reconhece a formação como estratégia estruturante da gestão do cuidado. Enquanto integrante do Comitê Técnico Estadual de Saúde Integral da População LGBT, representando a Escola de Saúde Pública de Minas Gerais (ESP‑MG), participei da elaboração do curso EAD autoinstrucional Conhecer para cuidar: Integralidade do Cuidado e a população LGBTQIAPN+. O curso foi ofertado pela ESP‑MG no âmbito do Projeto Menos Preconceito é Mais Saúde: divulgação científica e saúde da população LGBT, financiado pela Fapemig. Trata‑se do segundo curso de um itinerário formativo estruturado em três unidades: princípios e diretrizes do SUS; saúde integral da população LGBTQIAPN+, com centralidade na relação entre violência e adoecimento; e cuidado em saúde, interseccionalidade e marcadores sociais. Os conteúdos foram fundamentados no conceito ampliado de saúde, conforme desenvolvido por Nunes e Paim, e na concepção de cuidado enquanto prática ética, relacional e política, tal como formulada por Leonardo Boff e Roseni Pinheiro, articulando educação permanente, políticas públicas e cotidiano dos serviços.
Período de Realização
Elaboração dos conteúdos no primeiro semestre de 2025 e oferta educacional entre setembro e outubro de 2025.
Objetivo
Qualificar gestores e profissionais do SUS para o enfrentamento das iniquidades em saúde vivenciadas pela população LGBTQIAPN+, fortalecendo a integralidade e a equidade como princípios orientadores da gestão do cuidado e das práticas assistenciais no SUS.
Resultados
Foram matriculados 1.218 participantes, dos quais 598 concluíram o curso. Para além dos indicadores quantitativos, os resultados evidenciam a educação permanente como dispositivo estratégico da gestão do cuidado no SUS, ao incidir sobre práticas profissionais, processos decisórios e formas de acolhimento nos serviços. As avaliações e os relatos dos cursistas revelam lacunas estruturais na formação inicial em gênero e sexualidade e apontam o curso como espaço privilegiado de reflexão crítica sobre a integralidade do cuidado, o uso do nome social, as violências institucionais e a produção do cuidado. A elevada procura e a avaliação positiva, superior a 97%, indicam demanda reprimida por formações que articulem identidade, políticas públicas e gestão do cuidado no cotidiano do SUS.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência reforçou que a integralidade do cuidado exige reconhecer a violência interpessoal e institucional como elemento estruturante do adoecimento biopsicossocial da população LGBTQIAPN+. Tal compreensão foi aprofundada a partir da abordagem interseccional, formulada por Kimberlé Crenshaw e desenvolvida, no contexto brasileiro, por Carla Akotirene, permitindo compreender como gênero, raça, classe e território atravessam o acesso, a qualidade da atenção e os modos de gestão do cuidado. Evidenciou‑se que a educação permanente, quando articulada às políticas públicas e aos espaços de participação social, constitui ferramenta fundamental para qualificar a gestão do cuidado no SUS. Ao mesmo tempo, aponta limites, como a necessidade de institucionalizar formações dessa natureza de modo continuado e integrado aos processos de trabalho. O fortalecimento de iniciativas alinhadas à Política Estadual LGBT contribui para superar abordagens fragmentadas, promover a integralidade e reafirmar o SUS como política pública comprometida com a equidade e o reconhecimento das diversidades.
DISCUSSÃO DE CASOS COMO FERRAMENTA DE CUIDADO PARA JOVENS TRABALHADORES SEXUAIS EM SÃO PAULO: POTÊNCIAS E LIMITES FRENTE AO ESTIGMA INTERSECCIONAL
Comunicação Oral
1 FMUSP
Contextualização
No contexto do HIV/aids, o estigma interseccional ao articular sorofobia, racismo, LGBTfobia e estigma ocupacional associado ao trabalho sexual configura-se como importante obstáculo no enfrentamento do HIV. Embora tecnologias biomédicas como a profilaxia pré-exposição (PrEP) apresentem alta eficácia clínica, sua efetividade é limitada por barreiras sociais. O estudo multicêntrico PrEP 15-19 Escolhas oferta PrEP para jovens homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas não binárias (NB), homens transgênero (HT) e mulheres transexuais e travesti (MTTr). Diante das dificuldades de vinculação dos participantes em contexto de alta vulnerabilidade, a equipe de São Paulo adota discussões de casos como estratégia de gestão do cuidado.
Descrição
Trata-se de estudo qualitativo baseado em observação participante a partir de registros produzidos em cadernos de campo pela pesquisadora-trabalhadora do estudo como prática profissional de reflexividade. O material empírico refere-se a 45 discussões de casos realizadas por equipe multidisciplinar, incluindo profissionais da medicina, enfermagem, psicologia, serviço social e educação de pares. A análise foi orientada por abordagem interseccional, considerando marcadores sociais da diferença, demandas identificadas e respostas institucionais no contexto da gestão do cuidado.
Período de Realização
Registros em cadernos de campo produzidos entre junho de 2022 e dezembro de 2025.
Objetivo
Analisar as discussões de caso como ferramenta de gestão do cuidado para jovens trabalhadores sexuais do PrEP 15-19 Escolhas, identificando suas potencialidades para a integralidade do cuidado, as tensões e limites no enfrentamento do estigma interseccional.
Resultados
Nas discussões de de casos, 50 participantes foram mencionados, dos quais 17 eram jovens trabalhadores sexuais (17 a 21 anos), majoritariamente negros e pertencentes à população LGBTQIA+, evidenciando a intersecção entre marcadores sociais da diferença. A identificação do trabalho sexual não emergia dos registros clínicos formais do estudo, sendo revelada pelas trocas interprofissionais nas discussões de casos que ampliavam a compreensão das trajetórias para além do prontuário.
Aprendizado e Análise Crítica
As discussões de caso permitiram evidenciar a articulação entre trabalho sexual, conflitos familiares associados à LGBTfobia e insegurança habitacional, especialmente entre pessoas trans. Instabilidades de rotina, como migração, horários irregulares e moradia precária, impactaram diretamente a adesão e continuidade da PrEP. A incorporação dessas dimensões possibilitou a construção de estratégias de cuidado mais equitativas, como a oferta de PrEP injetável a quem perdia o frasco da medicação, por exemplo, e apoio logístico para acesso aos serviços para quem apresentava dificuldades de seguimento por causa da rotina exaustiva. Ao mesmo tempo, os achados evidenciam que a gestão do cuidado, ainda que ampliada por tecnologias relacionais, encontra limites estruturais frente ao estigma interseccional.
A discussão de casos se mostrou uma ferramenta potente na gestão do cuidado integral, ao favorecer a construção coletiva de reconhecimento das identidades e trajetórias dos jovens trabalhadores sexuais, essencial para enfrentar o estigma interseccional multidimensional. Contudo, seus efeitos são limitados diante de barreiras estruturais, como violências familiares, precarização do trabalho e exclusão social. A perda gradual de vínculo ao projeto de participantes recorrentes nas discussões é um indício destes limites. Observou-se que, em contextos de alta vulnerabilidade, a PrEP pode perder centralidade frente a demandas mais urgentes. A ferramenta contribui para a qualificação da gestão de cuidado, mas deve ser articulada a outras estratégias, como o matriciamento e projetos terapêuticos singulares, e políticas públicas intersetoriais para enfrentar as raízes das opressões e do estigma, garantindo assim pleno direito à integralidade e equidade no SUS.
ALÉM DOS PROTOCOLOS: EDUCADORES PARES E A LÓGICA DO CUIDADO NA OFERTA DE PREP PARA ADOLESCENTES E JOVENS NO BRASIL
Comunicação Oral
1 UNEB
2 UFBA
3 USP
4 UFMG
5 Université Lumière Lyon 2
6 UNEB/FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
A literatura sobre a oferta da profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) tem privilegiado a análise do papel dos profissionais de saúde, dos protocolos clínicos e dos desfechos biomédicos. No entanto, o papel do educador par permanece relativamente pouco teorizado, apesar de sua centralidade nas respostas em saúde pública voltadas a adolescentes e jovens internacionalmente. No contexto brasileiro, marcado por desigualdades sociais e desafios no acesso aos serviços, torna-se fundamental compreender como esses atores podem contribuir para a produção do cuidado.
Objetivos
Analisar o papel dos educadores pares na oferta de PrEP para adolescentes e jovens no Brasil, considerando suas práticas no processo de cuidado e sua contribuição para a produção de vínculos, adesão e continuidade no cuidado.
Metodologia
Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, realizado em Salvador, São Paulo e Belo Horizonte, no âmbito do estudo PrEP1519 Choices, que investiga as escolhas de adolescentes e jovens entre diferentes modalidades de PrEP, em serviços comunitários implantados nestas cidades. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 22 usuários de PrEP, com idades entre 17 e 21 anos, contemplando diversidade de identidades de gênero e orientações sexuais.
A análise foi orientada pelo referencial da lógica do cuidado, proposto por Annemarie Mol, com foco nas práticas atribuídas aos educadores pares no processo de oferta e acompanhamento da PrEP.
Resultados e Discussão
Os participantes identificaram os educadores pares como atores centrais no processo de cuidado, cuja atuação ultrapassa a mediação de informações biomédicas. Esses agentes desempenham funções relacionadas à criação de demanda, navegação nos serviços de saúde, vinculação ao cuidado, além de favorecer a adesão e a retenção no acompanhamento.
As práticas relatadas incluem o estabelecimento de contato contínuo, envio de mensagens, acompanhamento das rotinas cotidianas, esclarecimento de dúvidas, lembretes para uso da medicação e incentivo à frequência aos serviços de saúde. Tais práticas não se restringem ao espaço clínico ou aos momentos de consulta, mas se desenvolvem ao longo do tempo, por meio de interações regulares e da construção de vínculos.
O cuidado, nesse contexto, extrapola o espaço físico dos serviços de saúde, sendo produzido em uma rede de relações sustentadas pela proximidade e pela continuidade. Os educadores pares são reconhecidos como referências personalizadas e interlocutores privilegiados para lidar com dúvidas e dificuldades relacionadas ao uso da PrEP, tanto oral quanto injetável.
A análise também evidenciou desafios relacionados à continuidade desses vínculos, especialmente diante da rotatividade de educadores pares, o que aponta para limites na institucionalização dessa função nos serviços. Ademais, emergiu uma dimensão identitária do cuidado, indicando que a oferta de PrEP envolve não apenas aspectos biomédicos, mas também elementos simbólicos e afetivos.
Sob a perspectiva da lógica do cuidado, observa-se que a efetividade da oferta de PrEP depende da sustentação de práticas relacionais contínuas, que articulam dimensões técnicas, sociais e afetivas. Esses achados dialogam com debates contemporâneos sobre a ampliação das concepções de cuidado em saúde e a incorporação de atores não tradicionais na produção do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados indicam que os educadores pares desempenham um papel estruturante na produção do cuidado em PrEP, atuando como mediadores de práticas que articulam dimensões biomédicas, relacionais e simbólicas. À luz da lógica do cuidado, evidencia-se que a oferta de PrEP não se sustenta exclusivamente em protocolos clínicos, mas depende da continuidade de interações, da construção de vínculos e da presença de atores capazes de acompanhar trajetórias singulares de uso.
A atuação dos educadores pares configura-se, assim, como componente relevante para a adesão e permanência no cuidado, ao mesmo tempo em que revela desafios relacionados à sua institucionalização e continuidade nos serviços. Esses achados contribuem para o aprimoramento de modelos de prevenção ao HIV, ao destacar a importância de integrar práticas relacionais e dispositivos de cuidado que extrapolam a dimensão estritamente biomédica no âmbito dos sistemas públicos de saúde.
Realização:
Apoio: