Programa - Comunicação Oral - CO12.4 - Currículos, ensino e formação em Saúde Coletiva e em outras
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
DETERMINAÇÃO SOCIAL EM MOVIMENTO: OPERACIONALIZANDO AS DIMENSÕES GERAL, PARTICULAR E INDIVIDUAL DE JAIME BREILH NA FORMAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA
Comunicação Oral
1 IAM/FIOCRUZ
Contextualização
Este relato descreve um seminário desenvolvido na Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva do Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz-PE), na disciplina Introdução à Saúde Coletiva. Planejado por residentes, abordou “A determinação social da saúde como estratégia para intervenção em iniquidades sociais em saúde em perspectiva crítica”. A atividade buscou romper com a transmissão vertical do conhecimento, adotando uma pedagogia ancorada na práxis e na reflexão dialética. O cenário foi a sala de aula, reunindo residentes de diferentes profissões (enfermagem, nutrição, psicologia, sanitaristas), docentes e preceptores.
Descrição
O seminário iniciou com vídeo de Jaime Breilh sobre a determinação social da saúde. Em seguida, a apresentação teórica utilizou um dado para definir a ordem das falas, rompendo com a linearidade. Os núcleos temáticos foram: saúde como processo social, determinação social vs. determinantes sociais, epidemiologia crítica, iniquidades e interdisciplinaridade. A fundamentação ancorou-se em Breilh, com destaque para as dimensões geral (estrutura macroeconômica), particular (modos de vida) e individual (subsunção do biológico).
O ápice foi a dinâmica “A Engrenagem da Vida”. Os participantes, divididos em grupos, receberam perfis concretos: entregador ciclista, liderança quilombola, idoso em situação de rua e operária têxtil. Cada grupo construiu uma corrente em três folhas. Na folha “Sistema” (dimensão geral), identificaram processos estruturais como lógica do lucro, exploração do trabalho e racismo estrutural. Na folha “Território” (mediação), utilizaram Milton Santos e Juan Samaja para identificar o território (modos de vida e trabalho). Na folha “Corpo”, desenharam uma silhueta humana e, com post-its vermelhos (processos destrutivos) e verdes (protetores), materializaram a subsunção: depressão, asma, feridas infectadas; ao lado, solidariedade, horta comunitária, sindicato, fé. Por fim, realizaram o “corte crítico”, propondo intervenções estruturais nos elos da corrente.
Período de Realização
A atividade ocorreu em 30/03/2026, com duração de 3 horas (9h30 às 12h30).
Objetivo
Consolidar a análise da determinação social da saúde como ferramenta teórico-metodológica para compreensão e intervenção sobre iniquidades, utilizando a epidemiologia crítica de Jaime Breilh como eixo estruturante. Especificamente: diferenciar determinação social de determinantes sociais; identificar as dimensões geral, particular e individual e sua articulação; aplicar as categorias de Breilh em perfis concretos; discutir a interdisciplinaridade como resistência à fragmentação.
Resultados
Cada grupo produziu um painel visual da corrente de determinação, exposto em mural coletivo. A dinâmica gerou alto engajamento, com participantes utilizando espontaneamente categorias como subsunção, metabolismo sociedade-natureza e processos destrutivos/protetores. Os “cortes críticos” propostos evidenciaram capacidade de traduzir análise estrutural em políticas públicas (regulamentação do trabalho por aplicativos, demarcação de territórios, políticas habitacionais integradas). A composição interdisciplinar dos grupos permitiu múltiplos olhares, da fisiologia do desgaste à organização do trabalho, da configuração territorial aos aspectos simbólicos da resistência.
Aprendizado e Análise Crítica
A operacionalização das dimensões de Breilh revelou que a epidemiologia crítica se aprende na práxis: “ver” a subsunção materializada nos post-its sobre o corpo tornou o conceito inteligível. O uso do dado exigiu domínio do conteúdo e articulação constante, evitando passividade. A integração entre Breilh, Samaja, Laurell e Milton Santos permitiu análise multidimensional sem determinismo mecânico. A diversidade de formações enriqueceu as análises, demonstrando que a fragmentação disciplinar é obstáculo à apreensão da totalidade. A ênfase nos processos protetores (post-its verdes) evidenciou que a epidemiologia crítica não é uma “ciência do negativo”, mas ferramenta para visibilizar potências de vida que resistem à subsunção do capital.
A dinâmica da “corrente” mostrou-se potente ao traduzir a complexidade da determinação social em estrutura visual acessível. A ênfase nos processos protetores evitou determinismo pessimista. Como limites, o tempo (3h) foi insuficiente para aprofundar o debate final; alguns participantes relataram dificuldade inicial na articulação entre as folhas; a atividade não avançou na discussão sobre como a epidemiologia crítica pode informar práticas institucionais no SUS. A experiência reafirma a necessidade de a formação em saúde coletiva incorporar sistematicamente o referencial crítico, em coerência entre conteúdo e forma pedagógica: ensinar determinação social requer práticas formativas que também se organizem como espaços de construção coletiva, imprevisibilidade e protagonismo.
EDUCAÇÃO EM SAÚDE NA FORMAÇÃO ACADÊMICA: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM PRÁTICA DA DISCIPLINA DE ATENÇÃO INTEGRAL À SAÚDE
Comunicação Oral
1 UEA
Contextualização
A educação em saúde constitui um eixo estruturante da Saúde Coletiva, articulando-se aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente no que se refere à integralidade, à promoção da saúde e à participação social. No âmbito da formação em enfermagem, a inserção dos estudantes em cenários reais de prática possibilita a construção de saberes a partir da realidade social, em consonância com a Educação Popular em Saúde, que compreende o processo educativo como dialógico, crítico e emancipador (Freire, 1987). Ademais, políticas públicas brasileiras reforçam a centralidade das práticas educativas na consolidação de modelos de atenção mais resolutivos e participativos (Brasil, 2009; Brasil, 2012).
Descrição
Como estratégias de educação em saúde, foram utilizadas metodologias participativas, com rodas de conversas, dinâmicas lúdicas e abordagens dialogadas, buscando promover a socialização de saberes e a construção coletiva do conhecimento. A escolha do ambiente escolar fundamenta-se em seu potencial como espaço estratégico de promoção da saúde e de formação de sujeitos críticos.
Período de Realização
Tal atividade foi realizada no segundo semestre do ano de 2024, na ‘Escola Agrícola Rainha dos Apóstolos’, escola essa da modalidade de internato, com seus estudantes como participantes.
Objetivo
O presente relato tem como objetivo analisar de forma crítica a experiência vivenciada por estudantes de enfermagem durante uma atividade prática da disciplina de Atenção Integral à Saúde.
Resultados
Observou-se inicialmente uma resistência e baixa participação dos estudantes, evidenciando limites na incorporação de práticas educativas horizontais, ainda tensionadas por modelos tradicionais de ensino. Ao longo da atividade, houve progressivo engajamento, com ampliação da participação, compartilhamento de vivências e construção coletiva de sentidos, evidenciando a potência das metodologias ativas na produção de vínculos e no fortalecimento do protagonismo dos sujeitos.
Como resultados, destacam-se o desenvolvimento de competências comunicacionais, empáticas e reflexivas por parte dos acadêmicos, bem como a ampliação da compreensão acerca do papel do profissional de saúde como agente promotor de educação em saúde. A experiência também evidenciou a necessidade de adaptação contínua das estratégias às especificidades socioculturais do público, fundamental para a efetividade das ações em saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
No que se refere aos aprendizados, a vivência permitiu compreender a educação em saúde como um processo relacional, situado e atravessado por determinantes sociais, que ultrapassa a lógica da transmissão de informações, aproximando-se de uma prática comprometida com a transformação social (Freire, 1987). Tal perspectiva reforça a importância de reconhecer os sujeitos como protagonistas do cuidado e coautores do processo educativo.
A análise crítica da experiência evidencia que, mesmo tendo alcançado seus objetivos, persistem desafios estruturais e formativos, como a permanência de práticas verticalizadas e a limitada preparação dos discentes para condução de metodologias participativas. Nesse sentido, propõe-se a necessidade de revisão dos processos formativos em saúde, de modo a fortalecer abordagens pedagógicas críticas, interdisciplinares e socialmente comprometidas.
Conclui-se que a experiência, ainda em curso no processo formativo, contribui significativamente para a construção de uma prática profissional crítica, reflexiva e alinhada aos princípios da Saúde Coletiva, evidenciando o potencial transformador da educação em saúde quando desenvolvida de forma contextualizada, participativa e empoderando seus atores.
EPISTEMOLOGIAS E CURRÍCULOS NAS UNIVERSIDADES: SOBRE PACTOS E AUTORIZAÇÕES
Comunicação Oral
1 UFBA
2 UFRB
Contextualização
A Saúde Coletiva enquanto campo do saber interdisciplinar que está fundamentado no tripé da epidemiologia, da política, planejamento e gestão e das ciências sociais em saúde, bem como na confluência destes e outros saberes, se apresenta como movimento contra-hegemônico ao modelo biomédico, no intuito de produzir transformações nas práticas de saúde e o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), potencializando o desenvolvimento de um senso crítico sobre o próprio processo de produção de conhecimentos e trabalho, assim como viabilizando a garantia de acesso e acessibilidade de forma equânime e efetiva. No entanto, a estrutura e organização dos programas de graduação e pós-graduação caracterizam-se por epistemologias e currículos eurocentrados, pela rigidez metodológica a qual ignora realidades locais e racializadas, e que por vezes silenciam as produções de conhecimento do sul global. Esta realidade começa a ser tensionada com a mudança de perfil dos discentes e docentes no ambiente acadêmico, a partir da implementação da lei de cotas, da ampliação e interiorização das universidades no Brasil entre os anos 2000 e 2015, com o ingresso de estudantes negros, indígenas, quilombolas e LGBTQIAPN+ em um espaço que outrora lhes era negado.
Descrição
Trata-se de um estudo qualitativo, do tipo relato de experiência o qual descreve as vivências e reflexões de discentes de um programa pós graduação em saúde coletiva, acerca das epistemologias e estruturas curriculares apresentadas no campo da saúde coletiva, utilizando como referencial teórico as feministas negras: Cida Bento, Chimamanda, Djamila Ribeiro, e Conceição Evaristo.
Período de Realização
Esta análise foi realizada e sumarizada no período de março de 2026.
Objetivo
Relatar as vivências de discentes de um PPGSC, refletindo criticamente acerca da relação entre as epistemologias e currículos apresentados pelos PGSCs, o racismo e o pacto da branquitude, sob a perspectiva de feministas negras.
Resultados
Observa-se que a inserção das populações lidas como minoritárias (negros, indígenas, quilombolas e LGBTQIAPN+) nas universidades é responsável por mudanças significativas na ampliação do debate acerca das epistemologias, currículos e formas de validação da produção de conhecimento. Assim, surgem críticas ao epistemicídio, aumenta-se pressões para a inserção de epistemologias outras que valorizem o diálogo de saberes. Para além disso, parte desse movimento encontra desafios na resistência docente para a inserção dessas produções, e na forma como são apresentadas, na invalidação por parte da comunidade acadêmica acerca dessas produções. Quanto aos discentes, estes utilizam o aquilombamento como estratégia de fortalecimento, e ferramenta de resgate e valorização de conhecimentos produzidos por pares e em seus territórios.
Aprendizado e Análise Crítica
As relações de poder nas universidades atuam na manutenção de privilégios a determinados grupos, e utilizam-se da estrutura institucional para a manutenção deste status quo, das relações de poder que sustentam o epistemicídio e o pacto da branquitude. Diante disso, quando Chimamanda nos apresenta os perigos de uma história única, esta nos alerta quanto aos riscos de desumanização de diferentes povos e de negação de suas histórias e contribuições na ciência e sociedade, potencializando estereótipos, dificultando a convivência com as diferenças, e inviabilizando o diálogo. Além do não reconhecimento da diversidade no campo acadêmico. Assim, autoras como Conceição Evaristo fazem de sua obra instrumento político e de escrita da coletividade, resgatando a história de sujeitos a priori silenciados e desumanizados, uma ferramenta contra a invisibilidade e apagamento intelectual de mulheres negras, traduzidos em suas escrevivências (escrita + vivência). Sob a perspectiva do lugar de fala, Djamila Ribeiro reforça a influência da posição histórica, social, e política ao reconhecer e analisar as experiências da vida, desnaturalizando um saber único e universal, responsável por autorizar narrativas únicas as quais produzem impactos prejudiciais a vida de corpos dissidentes.
FORMANDO GRADUANDOS DE MEDICINA PARA A SAÚDE COLETIVA – UMA EXPERIÊNCIA NA DOCÊNCIA
Comunicação Oral
1 UEA
2 FIOCRUZ-AM
Contextualização
Como parte das atividades formativas no Mestrado em Saúde Coletiva, o Estágio em Docência compreende um período de vivências únicas frente à sala de aula e em territórios de atuação da Atenção Primária à Saúde (APS).
Descrição
A experiência se deu na disciplina de Saúde Comunitária e do Trabalho do curso de graduação em Medicina da Universidade do Estado do Amazonas, com uma turma composta por alunos oriundos de diversos municípios do interior do estado – característica preconizada pela universidade, através de políticas em seu processo de seleção. As atividades docentes incluíram planejamento da disciplina, aulas teóricas e práticas em campo no território de abrangência de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) do município de Manaus, Amazonas.
Período de Realização
O estágio encontra-se em curso, decorrendo no período de fevereiro a julho de 2026.
Objetivo
Refletir a respeito da vivência da docência na formação em Saúde Coletiva no âmbito do mestrado e da importância da qualificação nesta área dentro da graduação em saúde.
Resultados
As atividades envolveram reuniões de organização e revisão do plano de ensino, o preparo e exposição de aulas teóricas a respeito do campo da Saúde Coletiva e do Sistema Único de Saúde (SUS), a elaboração de questões de avaliação e o acompanhamento dos alunos em seu primeiro contato prático com a APS. As aulas práticas compreenderam um grupo de seis alunos cursando a disciplina, acompanhados pela professora titular e da mestranda em estágio docente e ocorreram em uma UBS ainda estruturada no modelo tradicional, localizada na zona sul de Manaus, que conta com uma Equipe de Saúde da Família em composição mínima. Os alunos acompanharam e vivenciaram as visitas domiciliares na comunidade junto aos agentes comunitários de saúde, indispensáveis para a melhor compreensão do território, e dos aspectos culturais relacionados à saúde, visando a capacitação para um cuidado integral e humanizado. Além disso, foram desenvolvidas atividades de educação em saúde e construção de ambiente escolar saudável, aplicando os conceitos de promoção à saúde e prevenção de agravos.
O papel de docente envolveu orientações quanto à forma apropriada de abordar os comunitários, distanciando-os do modelo de triagem hospitalar, centrado na doença, para o qual os alunos foram direcionados ao longo do curso, e incentivando uma visão ampliada do processo saúde-doença, bem como ao acolhimento e à escuta qualificada. Desenvolveu-se uma perspectiva centrada nos determinantes sociais da saúde, e nos múltiplos fatores que influenciam o bem-estar da população, incentivando a identificação do papel destes determinantes durante as visitas, pela observação e escuta atenta ao impacto das condições de moradia, trabalho, educação, entre outros, na saúde comunitária. Nas atividades de educação em saúde, as orientações relacionaram-se à horizontalidade e autonomia dos indivíduos, além de aspectos de abordagens diferenciadas a depender de cada público-alvo. Em se tratando do público em idade escolar, foi enfatizada a importância da utilização de estratégias que superem a simples transmissão vertical de informações.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência em sala de aula consolidou conhecimentos a respeito da saúde coletiva aparentemente abstratos, uma vez que o ensino de um conteúdo deve torná-lo tangível e aplicável. No preparo das aulas, é possível se aprofundar nos temas de forma ativa, e não mais passiva como muitas vezes a categoria de discente se resigna. Já a experiência em campo proporcionou aprendizados a respeito da responsabilidade e ética profissional que é requerida na área da saúde, e como incutir tais princípios em alunos da graduação, não familiarizados com os atributos da APS. Contudo, o aprendizado mais significativo tem sido o da correta abordagem com os discentes, e o equilíbrio entre os momentos de apenas observação, e os de intervenção e instrução, de forma a consolidar o ensino. Desenvolver a habilidade do olhar crítico construtivo para a formação dos alunos é de extrema importância para que tais futuros profissionais estejam preparados para acolher pessoas e tratar da saúde dentro do aspecto da coletividade.
Surge, então, a necessidade de refletir se a disciplina na qual ocorre o estágio está devidamente alocada na grade curricular, postergando o primeiro contato dos graduandos com a APS para o oitavo período do curso. No primeiro período da graduação, os alunos aprendem as bases teóricas do SUS e, após esse hiato de três anos e meio, pode-se dizer que uma parcela expressiva da turma não possui identificação com os conceitos necessários para compreender o SUS ou a Saúde Coletiva. Diante da importância da APS no acesso e na ordenação do cuidado, é imprescindível haver uma maior atenção nas universidades para a inserção precoce e contínua dos graduandos neste contexto. Neste âmbito, os aprendizados teóricos e práticos em Saúde Coletiva devem se tornar centrais do início ao fim da formação dos profissionais de saúde, e amalgamados em toda a estrutura acadêmica dos cursos da saúde.
REPENSANDO A FORMAÇÃO ACADÊMICA EM PSICOLOGIA NO CONTEXTO DA CIDADE DE MANAUS A PARTIR DA SAÚDE COLETIVA
Comunicação Oral
1 ESAP/SEMSA
2 UFAM
Apresentação/Introdução
A trajetória da Psicologia enquanto ciência e profissão no Brasil é marcada por tensões históricas atravessadas pelas condições políticas e sociais de cada época. A sua consolidação foi influenciada por uma política higienista e por um projeto de modernização que buscava normatizar subjetividades, resultando em uma formação acadêmica pouco crítica, centrada no modelo clínico liberal e distante das realidades sociais. Com o fortalecimento da Saúde Coletiva e a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), a partir da Constituição Federal de 1988, a Psicologia passou a ocupar um lugar estratégico na construção de políticas públicas, favorecendo práticas interdisciplinares, territorializadas e comprometidas com a promoção da saúde. Nesse contexto, as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), instituídas em 2004, reconheceram a Psicologia como área da saúde, promovendo maior aproximação entre formação e demandas do SUS. Entretanto, a Saúde Coletiva como cenário de aprendizagem da Psicologia ainda é limitada, especialmente em contextos como o da região amazônica, caracterizada por condições singulares de diversidade sociocultural e desigualdades estruturais, onde ainda persiste a herança colonial de modelos teóricos universalizantes. Além disso, embora políticas afirmativas tenham ampliado o acesso e a diversidade nos espaços formativos, ainda há um longo percurso a traçar a respeito da democratização desse acesso e na superação das barreiras relacionadas à permanência acadêmica e a superação da lógica de exploração neoliberal.
Objetivos
Considerando que atualmente as políticas de saúde é um espaço potente para a Psicologia, é necessário repensar a formação das(os) psicólogas(os) no contexto da Saúde Coletiva, o objetivo deste estudo foi analisar como a formação acadêmica em Psicologia se articula com a Saúde Coletiva na atuação de psicólogas(os) nas políticas de saúde da cidade de Manaus.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa realizada no âmbito do SUS em Manaus, Amazonas, envolvendo diferentes níveis de atenção (Atenção Básica, Psicossocial e Hospitalar). Participaram seis psicólogas(os) com, no mínimo, um ano de atuação no serviço público, selecionados por amostragem em cadeia (bola de neve). A coleta de dados ocorreu em 2025, por meio de entrevistas semiestruturadas presenciais, com duração média de 50 minutos, gravadas e transcritas na íntegra. Os dados foram analisados por meio da Análise Temática, permitindo identificar padrões de sentido e categorias interpretativas relacionadas à formação acadêmica para a Saúde Coletiva.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que a formação acadêmica em Psicologia permanece atravessada por contradições históricas que a colocam no centro de um campo de tensões entre projetos formativos distintos. De um lado, persiste um modelo que ainda se sustenta na suposta neutralidade científica, no reducionismo teórico-metodológico e na cisão entre Psicologia e política, favorecendo práticas tecnicistas e a reprodução acrítica de métodos descontextualizados. De outro lado, emergem abordagens críticas que tensionam tais fundamentos e recolocam no debate as condições históricas, culturais e sociais que configuraram a atuação da Psicologia na Saúde Coletiva. Diante disso, emergem discussões sobre os compromissos políticos da profissão e os modos pelos quais ela produz conhecimento.
Nesse cenário, destacam-se limitações como a centralidade de uma formação excessivamente teórica, voltada ao modelo de consultório e pouco articulada às realidades sociais do SUS, a permanência de currículos baseados em referenciais estrangeiros e abordagens individualizantes, além da fragilidade de experiências práticas que articule Psicologia, Saúde Coletiva e políticas públicas. Por outro lado, observam-se movimentos de transformação, com avanços na diversificação curricular, maior regionalização e ampliação do debate sobre questões sociais e coletividades historicamente excluídas.
Logo, repensar a formação em Psicologia a partir da Saúde Coletiva exige reconhecer o território da cidade de Manaus como espaço formativo, onde o saber acadêmico se encontra com os saberes comunitários e onde a clínica se torna ampliada, interdisciplinar e politicamente situada, ao compreender que a formação deve construir práticas comprometidas com a integralidade, a corresponsabilidade e a gestão compartilhada do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a formação acadêmica em Psicologia na Saúde Coletiva deve ultrapassar a dimensão técnica e assumir um caráter ético, político e social, comprometido com a defesa da vida, da autonomia e dos direitos humanos. Entretanto percebe-se que o processo de aprendizagem acadêmico nas práticas de saúde ainda permanece como um ponto sensível, sendo fortemente marcada por modelos tradicionais, com centralidade na clínica individual e pouca alinhada à Saúde Coletiva. Apesar disso, quando há aproximação entre universidade e território, emergem experiências formativas mais críticas e comprometidas com a realidade social.
UM OLHAR CRÍTICO SOBRE O DIREITO A SAÚDE NA FORMAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA: RELATO DE EXPERIÊNCIA
Comunicação Oral
1 Universidade Estadual do Amazonas
Contextualização
A formação em saúde permanece fortemente marcada por currículos centrados na clínica e pela fragmentação disciplinar, fatores que limitam a capacidade de análise crítica da realidade dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) e a problematização das iniquidades sociais brasileiras. Este debate é central no campo da Saúde Coletiva, que se constitui na articulação entre Epidemiologia, Política e Ciências Humanas, compreendendo a saúde a partir de sua historicidade, dos determinantes sociais e das lutas democráticas que consolidaram o SUS.
Nesse contexto, a incorporação da reflexão crítica e das dimensões sociais revela-se estratégica para a formação de profissionais capazes de atuar para além da dimensão técnica, reconhecendo as disputas políticas que atravessam o cuidado em saúde. É nesse cenário que a disciplina Fundamentos da Saúde Coletiva foi introduzida no Mestrado Acadêmico da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), configurando-se como um espaço de inflexão formativa.
Para discentes provenientes do modelo biomédico, a disciplina provocou tensões nas concepções previamente naturalizadas, ao colocar o território, a desigualdade, a colonialidade e os marcadores sociais da diferença no centro da análise. Esse reposicionamento reafirma a relevância das Ciências Sociais e Humanas em Saúde como eixo indispensável para a formação crítica do sanitarista.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência crítico-reflexivo, baseado na disciplina Fundamentos da Saúde Coletiva, que se apoia em um campo articulado de saberes e práticas. A experiência envolve atividades em grupo, seminários e debates, permitindo aos discentes expressar e problematizar seus dilemas e desafios no processo de aprendizagem.
Período de Realização
As atividades foram realizadas em março de 2026, com carga horária total de 45 horas.
Objetivo
Descrever e analisar o processo de ressignificação formativa vivenciado na disciplina, com ênfase na construção de um olhar crítico sobre o conceito de saúde e sua compreensão como direito fundamental, considerando o contexto amazônico.
Resultados
A experiência permitiu percorrer a historicidade do processo saúde-doença, desde concepções místico-religiosas até a institucionalização do direito à saúde e os marcos históricos contemporâneos. Nesse percurso, a definição de saúde proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como "completo bem-estar" mostrou-se, embora progressista frente ao modelo biomédico, limitada e inalcançável na prática. A disciplina possibilitou, assim, ampliar a compreensão de saúde, promovendo a construção crítica de um conceito mais adequado aos contextos da sociedade atual, especialmente às populações amazônicas.
Essa experiência se constituiu como um marco formativo, ressignificando a atuação futura como sanitarista e destacando que a saúde reflete a estrutura social e cultural de cada época. No contexto brasileiro, a conquista do direito à saúde só foi viabilizada por meio das lutas dos movimentos sociais e da sociedade civil, bem como da incorporação de políticas públicas que atendam às reais necessidades da população.
As análises textuais realizadas evidenciaram que a saúde no Brasil constitui um campo de disputas de classe e poder, marcado por tensões entre projetos governamentais e interesses populares. A agenda neoliberal foi objeto de discussão, permitindo reflexões críticas sobre a retomada dos conceitos que fundamentaram a reforma sanitária brasileira, diante dos diversos ataques ao sistema de saúde nas últimas décadas. Esse aprendizado reforçou a compreensão da necessidade de reafirmar a saúde como direito de todos e dever do Estado.
Aprendizado e Análise Crítica
A disciplina Fundamentos da Saúde Coletiva possibilitou desconstruir a visão puramente biológica do processo saúde-doença, ampliando a compreensão da saúde como fenômeno socialmente produzido e evidenciando que o sanitarista deve atuar além do cuidado clínico individual, integrando interseccionalidade e determinantes sociais.
No contexto amazônico, ficou evidente que políticas públicas historicamente atravessadas pela colonização e por um modelo extrativista geraram invisibilidades e desigualdades estruturais, marginalizando populações indígenas e ribeirinhas, enquanto agendas neoliberais e o subfinanciamento do SUS reforçam que as desigualdades em saúde decorrem de escolhas políticas históricas, e não apenas de limitações técnicas.
A disciplina se configurou, assim, como espaço de descolonização do pensamento, tensionando o modelo biomédico e articulando conhecimentos de Epidemiologia, Política, Planejamento e Gestão e Ciências Humanas e Sociais em Saúde, promovendo a construção de um olhar crítico essencial para práticas profissionais comprometidas com a transformação social e o enfrentamento das desigualdades, reafirmando a saúde como direito de todos e dever do Estado.
Realização: