Programa - Comunicação Oral - CO23.1 - Saúde Mental LGBT (1)
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
AMAMENTAÇÃO COMPARTILHADA E DIREITO À OPACIDADE: REFLEXÕES SOBRE O USO DE PROTOCOLOS E O CUIDADO EM SAÚDE PARA MULHERES QUE SE RELACIONAM COM MULHERES
Comunicação Oral
1 FSP/USP
2 FM/USP
Apresentação/Introdução
A indução da lactação é o procedimento responsável por estimular a produção de leite humano quando não há gestação para pessoas que, no entanto, desejam amamentar. Pensado para mães adotantes e por útero de substituição, o protocolo oferece diretrizes que combinam o uso de terapia hormonal e indução mecânica. Apesar de suas orientações serem um ponto de partida, há pouca consideração sobre seu uso em casos de parentalidades LGBTQIA+. É fundamental a compreensão de que o desejo de amamentar possui diferentes gêneses, visto que os sentidos atribuídos à amamentação são construídos a partir das histórias de vida e dos modos com que as pessoas organizam o cuidado em seus territórios. Isso é importante para que sejamos capazes de compreender que, para pessoas LGBTQIA+ a amamentação também pode ser símbolo de transição para a parentalidade e a materialidade de um cuidado compartilhado. Entretanto, pensar a amamentação no Brasil deve considerar os impactos do pacto colonial em sua construção simbólica. Isso porque, se por um lado os modos de organizar o social e o cosmológico da modernidade foram duramente impostos nos territórios colonizados, também é verdade que esses territórios têm a memória de outros modos de organização que, ao serem reproduzidos, configuram um certo tipo de resistência à colonialidade. Para ajudar a pensar os impactos da colonialidade na organização da vida, propomos, a partir de Glissant, a ideia da transparência - ou seja, a necessidade de plena asssimilação da realidade - como fundamento ontoepistemológico ocidental da modernidade.
Objetivos
Refletir, à luz da ideia de transparência, proposta por Glissant, como casais de mulheres cisgêneras experienciam o protocolo de indução da lactação, considerando os impactos dessas experiências nos processos de cuidado, sofrimento e produção de saúde.
Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, realizada por meio de entrevistas semiestruturadas com sete mulheres que vivenciaram a dupla amamentação. Os dados foram analisados a partir da análise de conteúdo temática de Burnard.
Resultados e Discussão
Emergiram duas categorias: (1) as fontes de informação sobre o protocolo e (2) a relação entre a rotina e o protocolo. A internet aparece como principal meio de acesso ao conhecimento, especialmente a partir de redes informais e produções de pessoas LGBTQIA+, evidenciando estratégias comunitárias de cuidado e circulação de saberes. Em contrapartida, observa-se ausência de apoio institucional e de profissionais de saúde, explicitando processos de exclusão e manutenção de uma relação histórica marcada pela patologização das dissidências. No que diz respeito à relação entre rotina e protocolo, a exigência de adesão rigorosa ao modelo biomédico frequentemente entra em conflito com as condições concretas de vida dessas mulheres, incluindo trabalho, organização familiar e contextos territoriais. Essa tensão produz frustração, sofrimento e sentimentos de inadequação, especialmente quando o “sucesso” da indução é individualizado e descontextualizado. Partindo de Glissant, é possível então pensar a transparência como ferramenta de análise do apagamento de outros modos de organizar o social e o cosmológico, como as estratégias de cuidado compartilhado e as práticas comunitárias de resistência às violências. Isso, na medida em que as estratégias de cuidado em saúde se organizam a partir de proposições universalizantes que não informam e não consideram as diversidades como sujeitas, produzindo apagamentos, violências e ausências. Desse modo, como resposta à universalização da transparência ocidental, Glissant propõe a ideia do direito à opacidade como ética relacional, defendendo a possibilidade de uma existência que não implique traduções aos moldes da colonialidade; desse modo, a opacidade é então o direito a uma complexidade irredutível na intenção de proteger a singularidade dos sujeitos e das comunidades e, aqui, proteger também suas estratégias de organização do cuidado.
Conclusões/Considerações Finais
Pensar nas complexidades do uso de protocolos a partir da experiência de mulheres em dupla amamentação é também pensar naquilo que fundamenta as nossas práticas de produção de saúde e nos sofrimentos gerados por essas práticas. Logo, propomos para o campo da saúde a reflexão sobre seus pressupostos ontoepistemológicos, compreendendo que seu sistema de conhecimento não dá conta e não vai dar conta sozinho da realidade da vida no território, principalmente naqueles onde o cuidado é coletivo, as dissidências circulam e outros modos de articulação fundamentam a resistência ao capital. Fundamentamos nossas reflexões iniciais a partir dos impactos do pensamento colonial na organização social e na construção dos imaginários sobre amamentação, assim como na construção do campo da saúde, mas tomamos o direito à opacidade como horizonte filosófico para pensar outro modo de constituir o cuidado.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
CUIDADO OBSTÉTRICO PARA PESSOAS TRANS EM UMA MATERNIDADE ESCOLA NA BAHIA
Comunicação Oral
1 Universidade Federal da Bahia
2 Maternidade Climério de Oliveira
Contextualização
A gestação e a parentalidade de homens trans desafiam padrões tradicionais de gênero e evidenciam lacunas nas políticas de saúde. A saúde reprodutiva de pessoas transmasculinas ainda é pouco contemplada por um modelo obstétrico cisnormativo, gerando barreiras como despreparo profissional, falta de materiais inclusivos e estigma institucional. Diante disso, torna-se essencial promover cuidados gestacionais mais inclusivos e equitativos, como propõe o Programa Transgesta, que oferece assistência a pessoas trans no período gravídico-puerperal em uma maternidade escola do nordeste brasileiro.
Descrição
O estudo consiste em um relato de experiência que descreve a construção e implantação do Programa Transgesta. Adota uma abordagem qualitativa e descritiva, baseada na vivência da equipe responsável, abordando aspectos assistenciais, institucionais e sociais. O relato organiza as etapas do programa, destacando avanços, desafios e estratégias de consolidação, com base na análise de documentos, registros institucionais e reflexões da equipe.
Período de Realização
2021 à 2024
Objetivo
O objetivo geral deste trabalho é relatar a experiência na implantação do Programa Transgesta na assistência obstétrica a pessoas transmasculinas numa maternidade escola na Bahia. Ademais, visa discutir os produtos desenvolvidos no programa, bem como traçar uma reflexão sobre a assistência prestada.
Resultados
Com o fortalecimento e maior visibilidade do ativismo transmasculino no Brasil a partir de 2010 (2) homens trans, ainda que poucos, começam a assumir a vivência da gravidez e da paternidade num mesmo corpo também como parte de suas vivências identitárias. Rompem, portanto, com as expectativas para o masculino e mesmo para a vivência trans (3). Nesse sentido, a implementação de programas que subsidiem as peculiaridades dessas pessoas torna-se cada vez mais necessário. Assim, o Programa Transgesta, implantado em 2021, surgiu para atender às demandas da população trans com vistas a contemplar as especificidades físicas, clínicas e emocionais relativas ao período da gestação, do parto e do puerpério. Além disso, busca combater preconceitos e estigmas amplamente reproduzidos na saúde, promovendo um atendimento inclusivo e respeitoso para pessoas transexuais, travestis, transgêneras, intersexo e demais denominações. Durante 2021-2024, foram realizadas onze práticas assistenciais e diversas produções institucionais. A maternidade inovou com a produção da Caderneta Pré-Natal para pessoas trans, facilitando o acompanhamento gestacional, personalizando o cuidado e gerando dados essenciais para políticas públicas inclusivas. Atualmente, a Caderneta foi nacionalizada para os hospitais conveniados à Rede EBSERH. Além disso, foi implementado o fluxo de atendimento para pessoas trans gestantes e suas parcerias. O fluxo inclui diretrizes sobre uso de nome social, pronomes adequados e atendimento personalizado, com acompanhamento interdisciplinar, orientações sobre aleitamento (incluindo processo de indução da lactação), construção de Projeto Terapêutico Singular e apoio psicossocial. Também são garantidos privacidade e conforto durante o alojamento conjunto. Ademais, no contexto da formação continuada dos profissionais, foram promovidas capacitações com vistas a promover formação profissional que permita abordagem mais inclusiva e sensível às necessidades dessa população. As formações abordaram temas como saúde reprodutiva trans, atendimento humanizado e gestão de fluxos assistenciais. Essas ações visam melhorar a qualidade do atendimento, favorecer a sensibilização de profissionais de saúde e contribuir para a construção de um modelo de cuidado mais equitativo e acessível para pessoas trans. O impacto da assistência será avaliado com base em entrevistas semiestruturadas que serão aplicadas tanto aos usuários do programa, quanto aos profissionais de saúde e gestores da maternidade, buscando-se portanto, identificar possíveis lacunas no serviço prestado.
Aprendizado e Análise Crítica
O Programa Transgesta representa um avanço na promoção de práticas inclusivas e no cuidado equitativo a pessoas trans gestantes, historicamente invisibilizadas. Apesar disso, ainda enfrenta desafios como a capacitação contínua das equipes, barreiras estruturais e culturais e a falta de estudos mais robustos para orientar a prática clínica. Diante disso, reforça-se a necessidade de diretrizes nacionais e políticas públicas mais inclusivas. As ações do programa têm promovido dignidade e podem servir de modelo para outras instituições.
PERSPECTIVA DE MÃES E PAIS SOBRE A TRANSIÇÃO DE GÊNERO DE FILHAS E FILHOS: VAMOS FALAR SOBRE FAMÍLIAS EM TRANS-FORMAÇÃO?
Comunicação Oral
1 Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz
Apresentação/Introdução
Esta pesquisa de mestrado em saúde coletiva encontra-se em andamento e pretende compartilhar resultados preliminares de um estudo que busca compreender, sob a perspectiva de mães e pais, as repercussões da transição de gênero de filhas e filhos nas dinâmicas familiares. O estudo considera a família como uma rede relacional historicamente situada e, portanto, passível de tensões, deslocamentos e rearranjos diante da transição de gênero de um de seus membros. Nessa perspectiva, a transição de gênero deixa de ser compreendida como uma experiência individual e passa a ser analisada como um processo coletivo que mobiliza todo o grupo familiar em uma experiência de ‘trans- formação’. A pesquisa dialoga com compreensões sobre família, gênero e interseccionalidade fundamentadas nas teorias pós-estruturalistas de gênero, no transfeminismo brasileiro e nos estudos antropológicos sobre parentesco.
Objetivos
O objetivo geral do estudo é compreender, sob a perspectiva de mães e pais, as repercussões da transição de gênero de filhas e filhos nas dinâmicas familiares. Tem como objetivos específicos: (a) identificar os sentidos atribuídos por mães e pais à transição de gênero de filhas e filhos; (b) compreender as transformações e as formas de agências vivenciadas pela família durante o processo de transição de gênero; (c) analisar as diferentes repercussões da transição de gênero a partir dos marcadores de raça-etnia, classe, idade, orientação sexual e gênero atribuído no nascimento.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, ancorada na perspectiva etnossociológica, voltada à análise das trajetórias familiares reconstruídas por meio das narrativas de mães e pais. A perspectiva etnossociológica adotada tem como referencial metodológico as narrativas de vida, conforme proposto pelo sociólogo Daniel Bertaux, de modo que as trajetórias narradas diante da transição de gênero de filhas e filhos, quando relatadas por sujeitos diversos que vivenciam situações similares, permitem apreender processos sociais mais amplos. Parte-se de uma pergunta ampla: “você poderia me contar a história da transição de gênero de sua filha/ seu filho?”. Os/as interlocutores/as da pesquisa estão sendo acionados pela rede de relações dos pesquisadores e a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição do curso de pós-graduação.
Resultados e Discussão
Apesar da ampliação dos estudos sobre transexualidade no Brasil, os estudos sobre o processo de transição de gênero, com foco na dinâmica familiar, são escassos. Partimos da premissa de que a transição de gênero não se restringe à experiência individual da pessoa dissidente de gênero, pois desloca as dinâmicas familiares. Ao desafiar as noções cisheteronormativas historicamente inscritas nas moralidades familiares, esse processo convoca novas formas de relacionar-se com o gênero e as identidades. A transição não é uma mudança isolada, mas sim uma travessia que mobiliza a família e pode levar a processos de trans-formação coletiva. Percebemos que as narrativas das famílias são marcadas por tensões em torno da convivência com essa “nova identidade”, pelo desconhecimento e temores em relação aos procedimentos cirúrgicos e outras tecnologias de gênero; pela vivência de um “luto” pela perda do/a filho/a idealizado/a; pelo temor em relação à violência transfóbica; e, pela ausência de redes de apoio específicas que escutem as famílias nas suas dúvidas e na produção de cuidado em torno desse novo momento familiar.
Conclusões/Considerações Finais
O estudo reforça a necessidade de compreender os sentidos que as famílias atribuem à transição de gênero de filhas e de filhos. A pesquisa ainda aponta a necessidade de deslocar o olhar do atendimento centrado no sujeito isolado – modelo ainda muito presente no Processo Transexualizador – para uma abordagem que inclui a família como dimensão essencial para ampliar a compreensão dos determinantes sociais da saúde nos processos de transição de gênero.
ELA/DELA: SAÚDE MENTAL E ACOLHIMENTO NA PERSPECTIVA DE MULHERES TRANS E TRAVESTIS DE MINAS GERAIS
Comunicação Oral
1 ESP/MG
2 UFMG
3 ESPMG
Apresentação/Introdução
Em 2020 Minas Gerais aprovou a Política Estadual de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – LGBT que reforça o compromisso do cuidado integral, humanizado e sem discriminação, no qual a orientação sexual e identidade de gênero não podem ser barreiras para o acesso aos serviços de saúde e todas as pessoas devem ser ouvidas e respeitadas, garantindo o acesso aos serviços do SUS, com qualidade e acolhimento de suas demandas. Apesar dos avanços, a patologização da transexualidade, a discriminação nos serviços de saúde, o acolhimento inadequado e a falta de recursos financeiros para o processo transexualizador são impedimentos a um adequado acesso à saúde das mulheres travestis e transexuais.Esses fatores, somado ao desamparo de políticas públicas, e outros sofrimentos relacionados às várias situação de violência e preconceito, levam ao comprometimento da saúde mental dessa parcela da população. Estudos revelam que a saúde mental da população LGBTQIAPN+ de forma geral é mais fragilizada quando comparada ao restante da população, sendo que pessoas trans e travestis estão mais expostas a adoecimentos e agravos em saúde mental. A vivência cotidiana de preconceito e exclusão, fruto da transfobia estrutural, a falta de apoio da família, as barreiras de acesso aos serviços de saúde e o estigma social, são alguns dos fatores que impactam diretamente a saúde dessa população, resultando em estresse, agravos de quadros de depressão e risco de suicídio.
Objetivos
Analisar a percepção de saúde mental e acolhimento na rede de atenção primária do Sistema Único de Saúde, de 12 mulheres trans e travestis residentes em Minas Gerais, Brasil.
Metodologia
O estudo adotou a perspectiva teórico metodológica da história oral. Foram 12 entrevistadas, residentes em 09 municípios do Estado de Minas Gerais. Foram contempladas diferentes faixas etárias, classes sociais e identificações raciais, todas se identificam enquanto mulheres trans ou travestis. Para a coleta de dados foi utilizado roteiro semiestruturado em 07 eixos. As entrevistas foram gravadas e transcritas. A análise dos dados foi realizada na perspectiva da análise de conteúdo. Neste trabalho foi analisada a categoria temática: Saúde Mental: desafios, lacunas e resistência. A pesquisa foi aprovada pelos Comitês de Ética da Fiocruz/MG e da Fhemig/MG e tem apoio financeiro da Fapemig.
Resultados e Discussão
Os relatos evidenciam múltiplas violências sofridas pelas usuárias no atendimento à saúde. Elas destacam a tentativa de normatização e a negação da identidade trans, principalmente no desrespeito ao nome social, e não acolhimento das suas demandas específicas. Na fala das entrevistadas, é recorrente a referência a baixa capacitação dos profissionais para acolhimento e compreensão de suas necessidades, em muitos casos, ocorrendo o encaminhamento para outros serviços, exigindo o deslocamento para outra região ou instituição. Como consequência, aparecem a vergonha e o receio de acessarem os serviços, junto com a prática da automedicação. Foram citadas estratégias para evitar o constrangimento em situações de consulta, como por exemplo, comparecer acompanhando de amigos, ou namorado, caso seja usado o nome morto na sala de espera. E possível identificar nas falas o apoio da família como fator de proteção ou ruptura. Elas destacam que o ambiente familiar acolhedor diminui a vulnerabilidade social, facilita o processo de transição, evita a expulsão de casa, e contribui para maior adesão aos cuidados de saúde. Elas destacam que a saúde mental tem forte relação com as dimensões do trabalho e da educação, uma vez que a baixa escolarização, em muitos casos devido ao processo de bullying e violência no espaço escolar, é fator para a dificuldade de inserção e permanência no mercado de trabalho.
Conclusões/Considerações Finais
O conjunto de narrativas apontam que a melhoria da saúde mental e qualidade de vida de mulheres trans e travestis, para além das estratégias individuais, requer ações intersetoriais e multidisciplinares como o cuidado clínico, a melhoria do acesso a rede de saúde, educação e trabalho, bem como profissionais de saúde mais qualificados para acolher as usuárias sem desrespeitar suas identidades de gênero e melhor compreender e encaminhar suas demandas. Neste sentido, a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS) tem forte potencial para, de forma dialógica, construir conhecimento, realizar ações e propor estratégias que possam transformar as práticas dos profissionais da rede de saúde.
SAÚDE MENTAL E DIREITOS RELIGIOSOS DA POPULAÇÃO LGBTQIA+: TECENDO REDES DE ACOLHIMENTO
Comunicação Oral
1 Ipea
Apresentação/Introdução
Na visão tradicional do campo da psiquiatria, as experiências místicas são comumente vistas como sintomas de patologias mentais, como esquizofrenia, e de desconexão com a realidade. Contudo, a sociologia da religião tem abordado tais experiências a partir de outra chave de entendimento: como parte do fazer identitário coletivo que mantém ou altera o a crença religiosa a partir das experiências práticas dos agentes culturais.
Dentro dessa perspectiva, esse trabalho busca compreender as experiências místicas de pessoas LGBTQIA+ a partir de uma visão inclusiva, questionando a lógica estigmatizante e patologizante de tais experiências.
Diante desse cenário, esta pesquisa investiga as experiências místicas como fundamento simbólico e prático para o surgimento de igrejas e grupos cristãos LGBTIA+ no Brasil, com impactos positivos para a saúde mental dessa população. Tais experiências, muitas vezes descritas como “chamados divinos” ou revelações espirituais, emergem como respostas subjetivas e coletivas ao sofrimento psíquico causado pela estigmatização religiosa, pela exclusão familiar e pela violência simbólica de instituições cristãs tradicionais. Ao articular saúde mental, territorialidade e interculturalidade, o estudo compreende esses grupos como territórios de cuidado, onde se promove a reconstrução identitária, o acolhimento espiritual e a produção de saúde em contextos de vulnerabilidade.
Objetivos
O objetivo geral da pesquisa foi identificar os grupos cristãos LGBTIA+ no Brasil, descrever e compreender as experiências místicas que fundamentam suas teologias inclusivas, bem como analisar as histórias de vida de suas lideranças e as formas de difusão dessas experiências. Os objetivos específicos incluíram: analisar o processo de surgimento e consolidação desses grupos, sistematizar as bases das teologias inclusivas brasileiras e suas divergências em relação ao cristianismo tradicional; investigar como essas experiências místicas se integram à tradição cristã por meio de textos, ritos e liturgias; e refletir sobre a ressignificação de conceitos centrais como “pecado”, à luz das vivências de gênero e sexualidade dissidentes.
Metodologia
A pesquisa foi desenvolvida a partir de uma abordagem qualitativa, com base em revisão bibliográfica, análise documental, observação participante e entrevistas semiestruturadas. Foram consultados textos teológicos, documentos institucionais de grupos religiosos inclusivos, atas de eventos ecumênicos e fontes midiáticas. Foram realizadas 8 entrevistas em profundida com lideranças cristãs LGBTIA+ para compreender suas trajetórias de vida e experiências místicas. Além disso, foram utilizados dados secundários de estudos etnográficos prévios, como os de Marcelo Natividade e Leandro de Oliveira (2013), que investigaram igrejas LGBTIA+ no Brasil. A análise focou em grupos como a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+, o movimento Evangélicxs pela Diversidade, e congregações evangélicas LGBTIA+ como a Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), Cidade de Refúgio (CR) e Igreja Cristã Contemporânea (ICC).
Resultados e Discussão
A pesquisa revelou que as experiências místicas desempenham um papel central na legitimação e na formação dessas comunidades. Tais vivências são narradas como momentos de encontro com o sagrado que desafiam a exclusão religiosa e permitem a reconciliação entre fé e identidade LGBTIA+. Essas experiências funcionam como mecanismos de resistência e cuidado psicossocial, especialmente em contextos de ruptura familiar e migração de cidades menores para as capitais dos estados. A predominância de gays entre os participantes evidencia desafios de representatividade, mas também aponta para a necessidade de ampliação da inclusão de lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. A ressignificação do conceito de pecado é outro resultado relevante: nas teologias LGBTIA+, o pecado é deslocado da sexualidade e do gênero para práticas como o ódio, a exclusão e a negação da dignidade humana.
Conclusões/Considerações Finais
Esta pesquisa demonstra que as experiências místicas são catalisadoras de transformações subjetivas e coletivas, funcionando como alicerce para a construção de teologias inclusivas e espaços de saúde mental para a população LGBTIA+. As igrejas e grupos cristãos LGBTIA+ não apenas resistem à LGBTfobia institucionalizada, mas também produzem cuidado, pertencimento e reconhecimento identitário. Ao integrar dimensões espirituais, emocionais e sociais, essas comunidades oferecem modelos alternativos de promoção da vida, especialmente em contextos de exclusão territorial e vulnerabilidade socioeconômica. A pesquisa contribui para reflexões sobre saúde mental ao evidenciar a importância de abordagens intersetoriais que reconheçam os territórios religiosos inclusivos como espaços de promoção de saúde integral. Por fim, reafirma a necessidade de fortalecer perspectivas interculturais, críticas e comprometidas com a justiça social, a equidade e os direitos humanos no século XXI.
ATRAVESSANDO ARMÁRIOS E FRONTEIRAS: SAÚDE MENTAL EM MIGRANTES E REFUGIADES LGBTQIA+ EN SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO
Comunicação Oral
1 Unicamp
2 Unb
Apresentação/Introdução
As articulações entre gênero, sexualidade e mobilidade internacional constituem um campo ainda emergente no Brasil, especialmente no que se refere às experiências de migrantes e refugiades LGBTQIA+. Em contextos marcados por desigualdades estruturais, regimes fronteiriços e precarização das condições de vida, essas populações enfrentam barreiras específicas no acesso à cidadania e aos direitos, incluindo a saúde. Apesar da relevância do tema, há escassez de dados sistematizados e de abordagens que articulem saúde, mobilidade e dissidências de gênero e sexualidade. Este trabalho insere-se nesse hiato, propondo analisar a relação entre saúde mental e mobilidade a partir das experiências de migrantes e refugiades LGBTQIA+ nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
Objetivos
Analisar a relação entre saúde mental e processos de mobilidade entre migrantes e refugiades LGBTQIA+, com ênfase nas experiências no mundo do trabalho e suas interseções com acesso a direitos, condições de vida e produção de cuidado. Busca-se compreender como marcadores sociais da diferença — como gênero, sexualidade, raça, classe e nacionalidade — atravessam essas experiências, produzindo tanto vulnerabilidades quanto agenciamentos e produção de mundos.
Metodologia
A pesquisa baseia-se em uma abordagem metodológica mista, combinando técnicas quantitativas e qualitativas, desenvolvida em parceria entre universidade, organizações da sociedade civil e instituições governamentais. Foram aplicados questionários online (81 respondentes) e realizadas entrevistas em profundidade (15 no total) além de oficinas participativas com migrantes e refugiades LGBTQIA+. Este trabalho privilegia a análise qualitativa das narrativas em primeira pessoa, adotando uma perspectiva etnográfica e interseccional, orientada pela co-produção de conhecimentos e pela valorização de saberes situados.
Resultados e Discussão
Os resultados evidenciam que a saúde mental constitui um eixo central nas experiências de mobilidade LGBTQIA+, profundamente atravessado por condições de trabalho precárias, isolamento social e dificuldades de acesso a redes de apoio. As narrativas analisadas revelam que o sofrimento psíquico não pode ser compreendido de forma individualizada, mas como expressão de violências estruturais — incluindo racismo, xenofobia e LGBTQIA+fobia — que operam tanto nos países de origem quanto no destino.
Ao mesmo tempo, a mobilidade emerge como um campo ambivalente: se, por um lado, intensifica vulnerabilidades e reatualiza traumas, por outro, abre possibilidades de reconstrução subjetiva e acesso a direitos, especialmente no que se refere ao reconhecimento de identidades de gênero e sexualidade. Destacam-se práticas de cuidado que extrapolam o sistema biomédico, envolvendo redes comunitárias, estratégias autogeridas e formas dissidentes de produzir saúde. A análise desloca, assim, perspectivas vitimizantes, enfatizando as agências e as potencialidades mobilizadas nos processos de deslocamento.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que a relação entre saúde mental e mobilidade LGBTQIA+ demanda abordagens interseccionais e interdisciplinares que considerem a complexidade das trajetórias e a co-produção entre sofrimento e agência. A mobilidade, embora atravessada por múltiplas formas de violência, pode constituir-se como estratégia de reconfiguração da vida e de acesso a direitos. Os achados reforçam a necessidade de políticas públicas sensíveis às especificidades dessa população, bem como de avanços teóricos e empíricos que articulem saúde, gênero, sexualidade e mobilidade no campo da saúde coletiva.
Realização: