Programa - Comunicação Oral - CO19.3 - Racismo e saúde mental da infância e juventude: narrativas e corpos insurgentes
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
13:10 - 14:00
13:10 - 14:00
INFÂNCIAS, ESPONTANEIDADE E RELAÇÕES ÉTNICORRACIAIS EM SAÚDE MENTAL: DEIXA FALAR A CRIANÇA.
Comunicação Oral
1 UNEB
2 UFBA
3 Instituto Viva Infância
4 University of Warwick
Apresentação/Introdução
O racismo brasileiro pode ser considerado um dos principais elementos de produção de desigualdades na saúde, afetando sobremaneira a saúde mental de diferentes comunidades negras. O racismo compromete dimensões cognitivas, emocionais e comportamentais, produzindo intenso sofrimento psíquico, já discutido e apresentado entre a população adulta. Quando se trata de compreender os efeitos do racismo sobre as crianças, tem-se considerado a necessidade de mais estudos que permitam desvelar como as desigualdades raciais operam sobre elas. Pesquisas realizadas em contextos escolares, em pesquisas com famílias ou comunidades apontam desde a identificação do racismo estrutural perpetrado por estas instituições sobre a formação e socialização infanto-juvenil, a estudos que destacam as dimensões mais subjetivas de constituição do eu, através da problematização do corpo negro, suas marcas e simbolismos. Neste estudo, advoga-se pela potencialidade das crianças em demonstrar, sob suas óticas e vivências, as diferentes camadas ou expressões de seus sofrimentos vinculados aos atravessamentos que o racismo produz sobre seus corpos e suas vidas.
Objetivos
Buscou-se analisar experiências de racismo e seu impacto na saúde mental de crianças e familiares de baixa renda acompanhados em uma instituição não governamental de saúde mental de uma cidade do nordeste brasileiro.
Metodologia
O trabalho foi desenvolvido ao longo de quatorze meses, através de uma perspectiva etnográfica, contando com observação participante e realização de oficinas na instituição de cuidado em saúde mental de crianças. A equipe de pesquisa foi constituída por seis pesquisadoras com formações no campo da saúde mental e com experiências clínicas e de pesquisa empírica com crianças. Este dado foi crucial para garantir o cuidado e a sensibilidade necessários ao trabalho com e para as crianças. Outro importante destaque se dá pela abordagem de uma pesquisa participativa envolvendo os profissionais da instituição para definição de aspectos éticos deste estudo. Foram realizadas observações sistemáticas semanais nos espaços de circulação de crianças e familiares atendidos pela instituição. As pesquisadoras também acompanharam grupos de mulheres e atividades organizadas com as crianças (oficinas e rodas). A pesquisa foi se desenvolvendo através de um processo contínuo de aproximação sensível e espontânea com os participantes da instituição, através de conversas leves e brincadeiras. Os dados de observação participante foram registrados e analisados pela equipe através destas categorias emergentes: 1) Interações espontâneas como metodologia do trabalho com as crianças; 2) Atravessamentos étnicorraciais e seus desdobramentos; 3) Olhares racializados para compreensão do sofrimento da criança e 4) Desafios, continuidades e descontinuidades.
Resultados e Discussão
Os primeiros achados deste estudo destacam que a pesquisa desenvolvida com crianças necessita de uma escuta livre, sem qualquer tipo de “a priori” ou imposição pedagógica. Tal abordagem promove uma dinâmica na qual as crianças produzem suas narrativas como protagonistas de suas próprias histórias e pode favorecer o acesso a camadas mais delicadas e profundas de seus sofrimentos. Já com as mães, pais ou outros responsáveis, as conversas, inicialmente despretensiosas, propiciaram a escuta de elementos mais profundos dos processos de subjetivação e de cuidado nas famílias. Sobre o atravessamento das questões raciais (situações de racismo e outras formas de opressão e violência que se apresentavam nos contextos das famílias), os dados produzidos até aqui apontam para duas importantes vertentes de análise: de um lado, os efeitos sobre as práticas dos profissionais que atendem as crianças, ampliando as reflexões do fazer clínico através de diálogos e supervisões direcionadas e, especialmente, uso de novas ferramentas de trabalho (bonecas, livros e outros jogos com abordagem racializada). De outro lado, o estudo evidenciou casos emblemáticos de crianças (atendidas na instituição), cujas feridas provocadas pela questão racial e por outras formas de violência, produzem adoecimentos que costumam ser interpretados pelo campo biomédico como um transtorno psíquico-psiquiátrico. As oficinas, rodas de conversa e atividades lúdicas reforçaram vínculos e possibilidades de escuta sensível com mães e algumas crianças. Como parte dos desafios e recomendações, este estudo aponta para a necessidade de ampliação dos processos ético-políticos institucionais e o diálogo com toda a rede de atenção psicossocial do município.
Conclusões/Considerações Finais
Esta pesquisa reforça o cuidado com a dimensão ética da pesquisa envolvendo crianças, suas especificidades e potencialidades. Destaca ainda que o trabalho guiado pela espontaneidade do brincar e das atividades coletivas permitem maior aprofundamento de muitas questões mais sensíveis, sobretudo aquelas relacionadas ao racismo, às violências e outras formas de opressão.
“A GENTE PENSA SER UMA PESSOA ERRÔNEA MAIS DO QUE REALMENTE É”: O RACISMO COMO EXPRESSÃO EPIDÉRMICA DO SOFRIMENTO SOCIAL ENTRE JOVENS
Comunicação Oral
1 UFMG
Apresentação/Introdução
O sofrimento social remete à compreensão da experiência do mal-estar e aos processos sociais, políticos e culturais que o engendram e o constituem numa dor incrustada nas subjetividades. Ao questionar como restrições de formas de viver colocadas pelo social conformam experiências cotidianas das pessoas e são vividos (se instalam) nos corpos, práticas e relações, lança-se o olhar para o modo como forças sociais são incorporadas como condicionantes de agravos e patologias. Seguindo o pensamento fanoniano, articulo vislumbro como o sofrimento social se insere entre as decorrências do processo histórico de inferiorização e exclusão da população negra brasileira.
Objetivos
O objetivo deste trabalho é analisar aspectos e processos socioculturais que geram questões de “saúde mental” entre adolescentes e jovens negros moradores de periferias urbanas e como são percebidos por eles/as. A análise se volta a dimensões do sofrimento social, como humilhação, vergonha e falta de reconhecimento, sentimentos atrelados a representações e símbolos de inadequação e desvalorização.
Metodologia
Este trabalho emerge da revisitação do tema saúde mental em 81 entrevistas de adolescentes e jovens participantes de três pesquisas etnográficas realizadas em duas comunidades periféricas da cidade de São Paulo. Os instrumentos metodológicos utilizados foram entrevistas e observação em espaços de sociabilidade, escolas públicas e unidades básicas de saúde. Entre 2018 e 2020, desenvolvi um estudo sobre transições da adolescência. Este bairro também foi campo de um projeto sobre experiências juvenis na pandemia, em 2021 e 2022. A terceira investigação, em 2023, focava necessidades em saúde e o acesso juvenil a serviços de saúde.
Resultados e Discussão
As/Os jovens compartilharam diversas situações de “racismo cotidiano”, majoritariamente experienciado em silêncio, aprofundando o sofrimento. O não-pertencimento em determinados espaços os faz temer (possíveis) corriqueiramente situações de discriminação. Em consonância, o imaginário sobre a adolescência/juventude pobre, negra e periférica – como grupo “em risco” e “de risco” – marca sua compressão dessa fase pela extemporânea orientação por uma “noção do perigo”, que acarretava numa gestão de si mais rigorosa. Elas/es consideravam não dispor de muita margem para equivocar-se ou experimentar modos de ser e de agir: havia a ideia de que as ações e decisões do presente afetarão peremptoriamente sua trajetória. A necessidade de “apoio”, constantemente afirmada, é intensificada pela condição de precariedade que enfraquece a presença afetiva e educativa dos pais, que não conseguem “se conectar” com as/os filhos. Alguns jovens trabalhadores apontam esse “vazio da atenção” como decorrência das condições de trabalho, ilustrando com suas próprias experiências de “exaustivos” trabalhos temporários/informais. Nas relações com os pares, sobressai o sofrimento originado no binômio julgamento-vergonha. O “julgamento” perturbava e era concebido como ação de valor estigmatizante ou de invalidação; significava a exposição pública (que dissemina) de alguma característica que os inferioriza perante os outros. A “vergonha” opera na dimensão do reconhecimento social, está atrelada subjetivamente ao risco/ameaça da aparência e do comportamento desenquadrados. Tal cenário suscita problemas de autoestima e a “depressão, por não se aceitar”. Entendida como experiência emocional, a “saúde mental” é tecida na “luta contra” sentimentos depreciativos, que lhe foram imputados e estão enraizados em sua subjetividade, ao mesmo tempo que defendem e acreditam na necessidade de pautar a igualdade.
Conclusões/Considerações Finais
A “dor” que emerge dos “vazios” de estima e do sentimento de inadequação nos espaços em que vivem/atuam, fazem do “apoio” social uma dimensão imprescindível de bem-estar e construção da pessoa. O atendimento psicológico focado em pessoas pretas e nos efeitos do “preconceito racial “foi apontado como sua principal necessidade em saúde. Por seu caráter processual, a “terapia” conduziria à paulatina desconstrução de ideias e práticas, os levando a produzir outra percepção que “vai te fazer uma pessoa melhor para você mesmo”. O entendimento que fazem do cuidado em saúde mental é de um recurso para autoemancipação, mediador de um movimento de práxis com re-interpretação e re-criação de sentidos e significados da experiência e, portanto, do self. Pondera-se o alcance limitado de perspectiva atreladas à racionalidade neoliberal, que promove a individualização dos problemas coletivos.
REPERCUSSÕES PSICOSSOCIAIS DA PANDEMIA DE COVID-19 NA TRAJETÓRIA ACADÊMICA DE ESTUDANTES COTISTAS NEGROS/AS
Comunicação Oral
1 UFPE
2 Fiocruz
3
Apresentação/Introdução
A pandemia de covid-19 foi um período marcante nas trajetórias de todas as pessoas por configurar-se como um vírus altamente contagioso, sendo sua transmissibilidade principal as vias aéreas. Diante desse caminho da infecção, as estratégias fundamentais para sua prevenção foram o isolamento social e o uso de equipamentos de proteção como máscaras e o próprio álcool gel que reduziam as chances de adquirir o vírus. Nesse sentido, pessoas que tinham possibilidade de acesso a esses materiais ou de isolar-se devido a sua condição de vida, teriam maiores chances de manter-se protegidos com uma certa rotina saudável, tendo em vista que a OMS preconiza a manutenção de atividades físicas, alimentícias e de saúde mental como eixos fundamentais e transversais para uma condição de bem-estar. No entanto, nem todas as pessoas tiveram as mesmas condições de praticá-las a depender da posição sócio-histórica, territorial e racial que ocupavam. No ambiente universitário, por exemplo, um dos espaços institucionais mais impactados pela pandemia de covid-19, estudantes negros cotistas já enfrentavam situações desiguais de acesso e permanência universitária. Devemos relembrar que uma pessoa para adquirir a condição de cotista deve ser uma pessoa que viveu historicamente, em decorrência de sua raça/cor, etnia ou classe social, desigualdades estruturais históricas que impossibilitaram de ter acesso a meios fundamentais para sua dignidade, como a educação de qualidade. Diante disso, cotistas que acessam a universidade já vivenciavam, antes da pandemia, situação de desigualdades estruturais frente ao racismo e sexismo brasileiro. A ANDIFES já mostrava que 70,2% dos graduandos das IFES tinham renda familiar per capita de até 1,5 salários-mínimos. Isso impactava no acesso precário a infraestrutura para o estudo, moradia e alimentação de qualidade. Além disso, a própria universidade como uma instituição constituída por ideais branco-centradas de ciência e sujeito, promove uma linguagem distanciada da realidade desses estudantes que advém de escolas e contextos periféricos. Nesse contexto de aumento das desigualdades sociorraciais que afetaram a trajetória acadêmica, esse texto compõe um dos resultados da tese de doutorado intitulada “Estratégias de re(ex)istência de estudantes cotistas negras/os durante a pandemia de covid-19” ao qual é uma das camadas de uma pesquisa guarda-chuva nomeada como: “Condição de Saúde Mental dos estudantes cotistas negros durante a pandemia de covid-19”
Objetivos
Esse texto teve como finalidade apresentar os resultados qualitativos das narrativas sobre os impactos da pandemia na trajetória acadêmica e ventilar reflexões sobre como a pandemia ainda se mantém viva no imaginário e nas práticas sociais mesmo com seu controle e monitoramento a partir do ano de 2021 com a aplicação da primeira vacina.
Metodologia
A pesquisa foi de natureza qualitativa, realizada com 8 estudantes cotistas de diversos cursos da universidade, como medicina, fisioterapia, história, sistema de informação, ciência política, rádio, internet e TV e jornalismo. As entrevistas foram transcritas na integra e categorizadas por unidades de narrativas, sendo o método utilizado a análise de narrativas. Segundo o Construcionismo Social, a narrativas são uma forma de discurso que organiza e estrutura histórias de vida, mapeando a trajetória, vivência e experiência.
Resultados e Discussão
Diante do exposto, as estudantes posicionaram as falhas estruturais no suporte a apoio aos discentes cotistas negros, principalmente no campo psicológico, tendo em vista que o contexto de isolamento social impactou nas estratégias de cuidado, amorosidade e coletividade produzidas historicamente para as estudantes permaneceram na universidade, mesmo diante de uma condição violenta como é a vivência do racismo institucional. As estratégias emergenciais da universidade visaram, principalmente, aspectos econômicos que de fato e de direito foram fundamentais para sustentar os estudantes, porém, quando pensamos em permanência acadêmica essa vai além desses aspectos, mas sobre as condições psicossociais envolvidas nessa permanência. As narrativas assinalam uma sensação de não pertença, abandono, negligência e desconhecimento por técnicos, docentes e profissionais de saúde sobre a condição de ser estudante cotista negro na universidade, causando níveis consideráveis de estresse, medo, angústia e desejo de evasão universitária de modo que aspectos como familiares, aquilombamento virtual e rede de apoio amorosas foram ancoras para a não evasão.
Conclusões/Considerações Finais
Assim, a pandemia de covid-19 ampliou os processos de desigualdade social e sofrimento psíquico vividos por estudantes cotistas negros na universidade de modo que a instituição tem papel fundamental no apoio a permanência não apenas a nível econômico mas psicossocial alinhados com a compreensão dos efeitos do racismo na vida e trajetória de pessoas negras na universidade.
EXPERIÊNCIAS DO PROTAGONISMO DE ESTUDANTES DA/NA AÇÕES AFIRMATIVAS EM UMA UNIVERSIDADE NO CORAÇÃO DA AMAZÔNIA
Comunicação Oral
1 Ufopa
2 ProfSaude Ufopa
3 Ufopa/ProfSaude/Ufsc
Contextualização
A Constituição Federal Brasileira (CF) garantiu que a cidadania seria plena para todos os grupos sociais, incluindo capítulo específico para os povos indígenas, disposições transitórias para segurança territorial das populações quilombolas e a ideia de uma sociedade livre de preconceito racial. A discussão sobre a diversidade étnica e cultural no Brasil entra nas políticas do Sistema Único de Saúde (SUS) a partir da implementação das políticas de equidade e, com isso, o aprofundamento sobre a necessidade de compreender as especificidades de diferentes grupos sociais em suas demandas de saúde.
Descrição
Passadas quase quatro décadas da CF e SUS, as populações tradicionais e negras no Brasil continuam sendo pormenorizadas pelas políticas de saúde e possuem as piores condições de saúde. E se de um lado existam políticas de ações afirmativas (AA), ainda são poucos os currículos de saúde que possibilitam formações adequadas às realidades das populações étnico-racialmente diferenciadas, resultando na implementação dessa discussão descolada da realidade ou perpassada por esteriótipos. Objetivando superar essas barreiras, articulou-se um grupo de pesquisa, ensino, extensão e cultura com integração com os serviços de saúde e da comunidade, com financiamento do Ministério da Saúde.
Período de Realização
Novembro de 2025 a Abril de 2026
Objetivo
Relatar a experiência do projeto voltado para estudantes AA de uma Universidade no coração da Amazônia, ao realizarem atividades iniciais centradas no (a) processo de seleção e formação do grupo, (b) atividades de educação em saúde e (c) diagnóstico territorial
Resultados
(a) A seleção dos monitores bolsistas foi realizada por meio de edital de seleção, a partir de critérios definidos junto com os movimentos estudantis da instituição. Apesar da mobilização ressalta-se a baixa adesão dos ingressantes AA na seleção. Ao total, dos 13 monitores que participam ou participaram do projeto tivemos a seguinte distribuição: 7 indígenas, 4 quilombolas, 1 PCD, 1 pessoa negra. Estudantes de 7 áreas territoriais diferentes, entre cidades, comunidades quilombolas e aldeias, e dos cursos de Saúde Coletiva (4), Farmácia (3), Medicina (2), Direito (2), Sistema de Informação (1) e Agronomia (1). Como orientadora de serviço, trabalhadora da saúde, foi selecionada uma enfermeira indígena que atua no serviço de atenção à saúde indígena. E como coordenador do grupo foi selecionado um professor da saúde coletiva com atuação nas ciências sociais e humanas e saúde e já presidiu os processos especiais de seleção dos estudantes indígenas e quilombolas da instituição. Os encontros são feitos de maneira recorrente e dialógica e os monitores são estimulados a participar de forma ativa e propor atividades de intervenção e de imersão junto aos serviços de saúde e dos territórios. Os encontros iniciais tiveram momentos de formação sobre interculturalidade e intermedicalidade. (b) As primeiras ações de educação em saúde com interação com o público externo ao projeto foram a produção de material bilíngue sobre prevenção a IST/Aids no mês de Dezembro e a prevenção à Dengue e ao Pé Diabético em Abril. Os materiais são elaborados de forma coletiva, tentando respeitar a estética e forma oral das populações atendidas, e são distribuídas em grupos de whatsapp e outros meios digitais. (c) O diagnóstico territorial foi realizado em 3 aldeias e 3 comunidades quilombolas, em 4 municípios diferentes. Como resultado do diagnóstico questões clássicas relacionadas à acessibilidade, como ausência de unidades ou equipes de saúde, acesso dificultado pela sazonalidade amazônica e a centralidade do papel do transporte fluvial foram elencadas junto com questões contemporâneas reflexo da interseccionalidade da realidade de populações tradicionais, como a centralidade das redes sociais e os seus usos abusivos, questões de gênero e da sexualidade, a questão do álcool e outras drogas, e os conflitos territoriais.
Aprendizado e Análise Crítica
As AA são um importante instrumento para superar assimetrias, sobretudo nos cursos de saúde cuja concorrência e prestígio geram processos de exclusão ou de inclusão por meio do embranquecimento e da colonização epistemológica. Nesse sentido, a prática periódica de incluir a discussão das AA no centro da formação coloca dilemas práticos e teóricos. Do ponto de vista prático, há dificuldade em alinhar variadas grades e percursos formativos com as exigências institucionais pelo cumprimento da carga horária e do ponto de vista prático mostrou-se a necessidade de desenvolver mecanismos de letramento étnico-racial, sobretudo no contexto amazônico, onde a discussão tem matizes diferentes da do padrão do eixo sul-sudeste. A composição do grupo interprofissional e interétnico possibilita o aprofundamento da discussão, na prática, sobre as políticas da equidade dentro do SUS e demonstra a importância de compreender a pluralidade e a interseccionalidade do tema.
“ENTRE OLHARES”: FOTOGRAFIA E AUTORREPRESENTAÇÃO DE ADOLESCENTES QUILOMBOLAS EM UMA COMUNIDADE QUILOMBOLA DO BAIXO-SUL DA BAHIA
Comunicação Oral
1 UFBA
2 WAH
Apresentação/Introdução
A adolescência, entendida como uma construção social atravessada por marcadores como raça, gênero e território, apresenta desafios à produção de narrativas sobre si, especialmente em contextos historicamente vulnerabilizados, como as comunidades quilombolas. Implicar-se na autorrepresentação de adolescentes considerar-se-á os modos pelos quais estes constroem imagens de si em relação ao outro e às condições concretas de existência. Assim, a fotografia emerge como linguagem capaz de tensionar regimes de visibilidades e produzir deslocamentos na forma da qual adolescentes se veem e são vistos.
Objetivos
Este estudo busca compreender como adolescentes quilombolas constroem processos de representações de si e do seu próprio território, através de práticas artísticas e participativas, analisando as relações entre imagem, subjetividade e território.
Metodologia
Trata-se de um dispositivo de pesquisa-ação orientado pela cartografia social. Essa perspectiva metodológica compreende o conhecimento como algo produzido no percurso, acompanhando os movimentos, afetos e produções dos sujeitos em seus territórios. Este estudo integra o Projeto ORÍ que tem como propósito produzir evidências acerca das relações entre racismo, desigualdades sociais e saúde mental no Brasil. As participantes foram cinco adolescentes quilombolas, autodeclaradas como mulheres, com idades entre 15 e 19 anos, residentes de uma Comunidade Quilombola no Baixo-Sul da Bahia. A produção de dados ocorreu por meio da oficina fotográfica “Entre Olhares”, estruturada em momentos de dinâmicas de integração de grupo, disparos de conversas, apresentação de referências visuais e prática de registros com uso de celulares. As participantes foram convidadas a produzir imagens que respondessem à questão “quem sou eu?”, explorando retratos diretos e parciais, bem como a relação com elementos do corpo e território. O processo incluiu ainda momentos de partilha e reflexão coletiva sobre as escolhas de autorrepresentação.
Resultados e Discussão
Os resultados indicam que a fotografia operou como dispositivo de elaboração subjetiva, possibilitando às adolescentes experimentar modos de autorrepresentação e representação em grupo. Observou-se a presença de escolhas que escapam a formas convencionais de retrato, com destaque para enquadramentos não centrados no rosto, uso expressivo de luz e incorporação de elementos do território, como plantas, flores e a terra. De modo particularmente significativo, os processos revelaram potência de autoafirmação da identidade negra e quilombola. As adolescentes produziram imagens que valorizam seus traços, seus cabelos e seus modos de existência, evidenciando uma relação positiva com sua própria imagem. Aqui, as produções analisadas indicam movimentos de afirmação estética e identitária, nos quais a negritude aparece como elemento central e valorizado. Além disso, destaca-se a dimensão coletiva desse processo. As adolescentes construíram juntas modos de se representar, ajudando-se mutuamente na escolha de enquadramentos e composições. Esta evidência é uma dimensão relacional da autorrepresentação, marcada por vínculos de apoio, reconhecimento e identificação entre pares, configurando uma experiência articulando singularidade e pertencimento. Compreende-se a autorrepresentação como prática política e estética, que tensiona imagens historicamente produzidas sobre corpos negros e territórios quilombolas; a oficina evidencia a potência de dispositivos que produzem experiências, afetos e deslocamentos. A valorização dos traços negros e a afirmação estética observadas apontam para processos nos quais as adolescentes se colocam como produtoras de imagens de si que escapam a lógicas hegemônicas de invisibilização ou inferiorização.
Conclusões/Considerações Finais
A autorrepresentação, articulada a práticas artísticas e metodologias participativas, mostra-se um potente dispositivo de produção de narrativas que integram corpo, território e cultura, possibilitando às adolescentes reconhecer e afirmar suas experiências, saberes e visões de mundo. Ao produzir imagens e compartilhar significados coletivamente, as adolescentes desenvolvem modos de expressão que dialogam com suas subjetividades e promovem bem-estar, ao mesmo tempo em que tensionam estigmas e invisibilização histórica. Nesse sentido, a integração aqui proposta se revela, além de uma estratégia metodológica, uma ferramenta de cuidado e empoderamento, capaz de ampliar possibilidades de escuta, expressões e reconhecimentos no campo da arte e da saúde, reafirmando, assim, o papel dessas adolescentes como protagonistas na construção de suas próprias identidades e no fortalecimento da sua comunidade.
O QUE PODE A ESCRITA? ESCREVIVÊNCIA, CUIDADO E A DISPUTA POR NARRAR VIDAS NEGRAS NA SAÚDE MENTAL
Comunicação Oral
1 IPUB - UFRJ
Contextualização
Em 2022, ao sustentar uma oficina de escrita no único CAPSad em uma cidade com 500 mil habitantes na região metropolitana do Rio de Janeiro, fui atravessada por uma questão: o que pode a escrita quando a fala não dá conta? Dessa pergunta não nasce apenas a oficina Entrelinhas, mas também a necessidade de produzir formas de narrar a experiência que escapem às capturas da linguagem acadêmica tradicional. A oficina reunia, em sua maioria, homens negros acima de 25 anos, atravessados pelo uso de álcool e outras drogas e por silenciamentos que a fala nem sempre alcançava. No campo da saúde mental brasileira — tão precisamente descrito como holocausto ou tumbeiro —, torna-se incontornável produzir práticas de cuidado que reconheçam o impacto do racismo e acolham o sofrimento que dele decorre, assim como modos de narrá-las.
Descrição
A oficina Entrelinhas se constituiu como uma tecnologia de cuidado voltada a usuários mais “quietos”, “não aderentes” a atividades centradas na fala. Escrever, ali, não era complemento — era construção de subjetividade, cidadania e narrativa. A partir de temas coletivamente escolhidos, cada um se debruçava sobre sua escrita. Apesar de não haver especificações, os textos variavam entre poemas, verbetes, versículos e músicas. A horizontalidade do cuidado implicava e incluía a todos — usuários e equipe — na produção dos textos, nos diálogos e nas leituras em voz alta, sempre opcionais. Aos poucos, as histórias deixaram de ser apenas individuais, e o sofrimento encontrava ressonância, ainda que não sem tensão. Nesse processo, a escrita operava como prática que tensionava o anonimato e abria espaço para a emergência de narrativas próprias.
Período de Realização
2022 a 2025
Objetivo
Apresentar a escrevivência como estratégia contracolonial e dispositivo metodológico para a descrição e análise de experiências de cuidado para e entre pessoas negras no campo da saúde mental.
Resultados
A escrevivência, enquanto dispositivo metodológico, especialmente tendo como tema o próprio imbróglio entre a escrita e vivência de uma mulher negra, se sustenta como um recurso da marginalidade imposta a mulheres negras, ou como escreve Patrícia Hill Collins, as outsider within.
Aprendizado e Análise Crítica
Sustentar essa oficina me colocava diante de questões que extrapolavam a escrita. A cada encontro, emergiram impasses sobre acesso à educação formal, direito à língua, produção de subjetividade e racismo. Escrever, naquele contexto, exigia mais do que técnica — exigia um deslocamento. Assim como para analisar essa experiência, era preciso produzir um espaço que interseccionalizasse raça, classe e gênero e subvertesse o anonimato em protagonismo. Em 2024, diante da exigência de transformar essa experiência em produção acadêmica, me deparei com a pergunta de Venturini: a quem serve o anonimato? Escrever sobre uma experiência coletiva de pessoas negras, sendo uma pesquisadora negra, não é apenas um desafio metodológico — é uma disputa sobre quem pode narrar e sob quais condições, ou seja, é um desafio tanto em dispositivo quanto em análise. Como alerta Audre Lorde, não há como desmontar a casa-grande com as ferramentas do senhor. Ainda assim, sustentar essa escrita exigia garantir, como insiste Lélia González, que “o lixo falasse numa boa”. Foi nesse impasse que a escrevivência se apresentou, não apenas como recurso estético, mas como estratégia contracolonial: uma forma de pesquisar-com, e não sobre, a população negra. No campo da saúde mental brasileira — tão precisamente descrito como holocausto ou tumbeiro —, torna-se incontornável produzir práticas de cuidado que reconheçam o impacto do racismo e acolham o sofrimento que dele decorre. É nesse cenário que a escrevivência de Conceição Evaristo se afirma como dispositivo metodológico. Como escreve Saidiya Hartman, narrar histórias — minhas, mas não só — é também uma forma de preencher lacunas, saciar a fome e possibilitar o luto. Em outras palavras, a escrevivência foi uma estratégia para dar língua aos afetos apagados tanto pela produção científica que frequentemente objetifica corpos negros, quanto pela persistência de uma realidade colonial, hoje reatualizada pela necropolítica. Nesse sentido, foi necessário buscar uma ferramenta contracolonial, para enfraquecer o colonialismo usando seu próprio artifício: a nomeação; na guerra das nomeações, como explica Nego Bispo. A escrevivência, enquanto dispositivo metodológico, não apenas descreve a experiência — ela a devolve como existência narrável, especialmente tendo como tema o próprio imbróglio entre a escrita e a vivência. Para mim, mulher negra, escrever é habitar essa tensão: entre viver e narrar, entre silenciamento e linguagem. É daí que a escrevivência se sustenta — como gesto que desloca a marginalidade e a inscreve como produção de conhecimento, desde o lugar da outsider within, como formula Patrícia Hill Collins.
Realização: