Programa - Comunicação Oral Curta - COC28.4 - Configurações e reconfigurações do trabalho
19 DE SETEMBRO | SÁBADO
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
ACIDENTE DE TRÂNSITO OU ACIDENTE DE TRABALHO? A INVISIBILIDADE E PRECARIZAÇÃO ENTRE OS ENTREGADORES PLATAFORMIZADOS
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
Apresentação/Introdução
O crescimento dos acidentes de trânsito envolvendo motociclistas no trânsito tem se configurado como grave problema de saúde pública, sem precedentes no Brasil. Entretanto, embora a maior parte ocorra no curso do trabalho nas ruas, esses agravos são reduzidos à categoria de eventos viários, inviabilizando sua gênese laboral e seus determinantes sociais. A subnotificação dos acidentes de trabalho no Brasil é histórica e persiste, mesmo diante de avanços nos sistemas de informação. No contexto contemporâneo, marcado pelo aumento da informalidade e pela precarização do trabalho, observa-se uma intensificação e normalização desse fenômeno. Com a expansão da plataformização do trabalho, especialmente entre motociclistas entregadores, a ausência de vínculo formal intensifica a dificuldade de reconhecimento institucional dos acidentes como relacionados ao trabalho.
Objetivos
Discutir a invisibilidade dos acidentes de trabalho no trânsito envolvendo entregadores subordinados às empresas-plataformas digitais, seus determinantes e implicações para a saúde do trabalhador.
Metodologia
Trata-se de um ensaio analítico, fundamentado na revisão de literatura científica, documentos institucionais e na articulação com evidências empíricas, fruto da aproximação com motociclistas entregadores em contexto urbano. A análise foi orientada por referenciais das ciências sociais em saúde, com ênfase na precarização do trabalho e na produção social do acidente de trabalho, assim como na análise da atividade dos entregadores plataformizados.
Resultados e Discussão
Evidências apontam que grande parte dos acidentes de trânsito envolvem motociclistas em situação de trabalho, embora esses eventos sejam escassamente reconhecidos como acidentes de trabalho. A organização do trabalho mediada por empresas-plataformas digitais, marcada pela pressão de tempo, remuneração por demanda e gestão algorítmica, induz a estratégias de intensificação do ritmo e aumento da velocidade, ampliando a exposição nas ruas. Entretanto, a ausência de vínculo formal e de registros adequados contribui para a fragmentação das responsabilidades e enfraquecimento dos mecanismos de vigilância e prevenção. Não obstante, a construção social de que o motociclista tem naturalmente um comportamento de risco no trânsito contribui para mascarar o real problema. Observa-se assim, um processo de desconfiguração do acidente de trabalho, que passa a ser social e institucionalmente tratado como sinistro de trânsito. Essa invisibilidade incide de forma mais intensa sobre populações socialmente vulnerabilizadas, reforçando desigualdades e contribuindo para a naturalização do processo de morte no trabalho.
Conclusões/Considerações Finais
A invisibilidade dos acidentes de trabalho no trânsito não se restringe à subnotificação, constituindo-se como um fenômeno político, institucional e social. A precarização do trabalho plataformizado contribui para que esses eventos permaneçam fora do campo da saúde do trabalhador, integrando predominantemente estatísticas de trânsito. Nesse contexto, questiona-se em que medida a banalização das mortes está relacionada ao perfil social dos trabalhadores atingidos. O reconhecimento desses acidentes como expressão das condições de trabalho é fundamental para o fortalecimento de políticas públicas de proteção e para o enfrentamento desse grave problema de saúde pública.
ANÁLISE DOS PROCESSOS CRÍTICOS DE SAÚDE NO POLO DE CONFECÇÕES DO AGRESTE PERNAMBUCANO À LUZ DA EPIDEMIOLOGIA CRÍTICA
Comunicação Oral Curta
1 UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO
2 PREFEITURA DO RECIFE
3 CENTRO UNIVERSITÁRIO MAURÍCIO DE NASSAU
Apresentação/Introdução
O polo de confecções do Agreste pernambucano constitui um dos principais arranjos produtivos do país, composto por dez municípios, com destaque para Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama, responsáveis por cerca de 77% do Produto Interno Bruto estadual do setor. A região reúne mais de 18 mil unidades produtivas, majoritariamente micro e pequenas empresas, com elevado índice de informalidade. Trata-se do quarto maior produtor e consumidor de jeans do mundo, respondendo por aproximadamente 15% da produção nacional e 3% do Produto Interno Bruto estadual. Apesar da relevância econômica, o modelo produtivo vigente caracteriza-se pela intensificação do trabalho, informalidade e impactos ambientais significativos. À luz da Epidemiologia Crítica e da perspectiva da Determinação Social da Saúde, torna-se fundamental compreender as relações entre trabalho, ambiente e saúde nesse contexto produtivo, evidenciando os processos sociais que influenciam o processo saúde-doença dos trabalhadores.
Objetivos
Analisar criticamente a determinação social do processo saúde-doença entre trabalhadores do setor têxtil do polo de confecções do Agreste pernambucano, utilizando como referencial teórico-metodológico a Epidemiologia Crítica.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, desenvolvida entre agosto e dezembro de 2026, no âmbito da disciplina de Ciências Sociais e Humanas do programa de mestrado profissional em saúde coletiva da Universidade de Pernambuco. Utilizou-se como estratégia metodológica a elaboração coletiva de uma matriz analítica baseada na Matriz de Processos Críticos proposta por Breilh. A construção da matriz possibilitou identificar e organizar processos destrutivos e protetores nos níveis geral, particular e singular, permitindo uma análise integrada das condições de produção, dos fatores ambientais e das repercussões sobre a saúde dos trabalhadores inseridos no setor têxtil da região estudada.
Resultados e Discussão
No domínio geral, evidenciou-se um modelo de desenvolvimento baseado na superexploração da força de trabalho, associado à fragilidade da regulação estatal e à degradação ambiental decorrente dos processos produtivos. Observou-se que a dinâmica econômica do setor favorece a expansão produtiva, porém sustenta-se em relações laborais marcadas por precarização e baixa proteção social.
No domínio particular, destacaram-se jornadas extensas e exaustivas, elevada informalidade, exposição a agentes químicos e adoção de processos produtivos com baixa eficiência ambiental, contribuindo para riscos ocupacionais e ambientais significativos.
No plano singular, identificaram-se adoecimentos físicos, especialmente doenças respiratórias, dermatológicas e LER/DORT, além de manifestações relacionadas ao sofrimento mental e à insegurança socioeconômica. Em contrapartida, também foram reconhecidos processos protetores, como a organização coletiva dos trabalhadores, redes de apoio comunitário, estratégias de autocuidado e o potencial de implementação de políticas públicas, inovação tecnológica e iniciativas de economia solidária.
A utilização da matriz analítica possibilitou compreender a saúde como fenômeno socialmente determinado, articulando dimensões econômicas, ambientais e sociais. Evidenciou-se que a análise crítica das condições de trabalho permite superar abordagens restritas ao modelo biomédico, favorecendo leituras ampliadas sobre o processo saúde-doença.
Conclusões/Considerações Finais
A análise dos processos críticos de saúde no polo de confecções do Agreste pernambucano evidenciou a existência de contradições estruturais entre a relevância econômica regional e a produção de desigualdades sociais e adoecimento. A geração de renda ocorre simultaneamente à precarização das condições de vida e trabalho, reforçando a necessidade de fortalecimento das políticas públicas de saúde do trabalhador, fiscalização das relações laborais e incentivo à adoção de modelos produtivos sustentáveis.
A abordagem da Epidemiologia Crítica, por meio da Matriz de Processos Críticos, demonstrou-se potente para integrar diferentes níveis de análise e fortalecer uma leitura crítica da realidade social e sanitária, contribuindo para a formulação de estratégias que promovam condições dignas de trabalho e proteção à saúde dos trabalhadores.
CAPITALISMO ACADÊMICO E SAÚDE DO TRABALHADOR DOCENTE: UMA REVISÃO NARRATIVA
Comunicação Oral Curta
1 EEUSP
Apresentação/Introdução
A subordinação das universidades à lógica de acumulação de capital é parte do processo estrutural do neoliberalismo, que reorganiza as instituições de ensino superior segundo a lógica produtivista e redefine as condições do trabalho docente. Esse processo foi analisado por Slaughter e Leslie (1997) e Rhoades (2004), por meio da categoria “capitalismo acadêmico”.
Nesse contexto de redução de financiamento e subsídios estatais, as instituições de ensino superior incorporaram estratégias de mercado, intensificando a exploração do trabalho docente e a ampliação da captação de recursos de empresas privadas. Valendo-se dessa lógica neoliberal, o saber deixa de ser bem público e passa a ser mercadoria, sujeito a patentes, comercialização e privatização para uso empresarial (Correia, 2010). Blanch-Ribas e Cantera (2011) sinalizam que essa lógica mercantil foi incorporada no setor público, na saúde, na educação e nas universidades. Nesse contexto, a “flexibilidade” é um dos mecanismos para fazer os trabalhadores se adaptarem às exigências do sistema.
A partir dessas considerações, o objeto deste estudo é a saúde do trabalhador docente.
O pressuposto é o de que a lógica do capitalismo determina condições precarizantes de trabalho acadêmico e está na base das condições de saúde de trabalhadores docentes.
Objetivos
O objetivo é identificar a relação entre o capitalismo acadêmico e o adoecimento docente.
Metodologia
Trata-se de revisão narrativa da literatura, sob a perspectiva Determinação Social da Saúde, no campo da Saúde do Trabalhador. A busca foi realizada no Portal de Periódicos CAPES, utilizando o descritor "capitalismo acadêmico" no campo "assunto", limitado a artigos, constituindo uma delimitação intencional ao campo de produção ibero-americano. Reconhece-se como limitação a não inclusão de estudos indexados sob o descritor em língua inglesa "academic capitalism", o que poderá ser objeto de investigação futura. Foram identificados 78 artigos; após leitura de títulos e resumos, foram excluídos os que não apresentavam relação direta com o objeto de estudo. Ao final, sete artigos compuseram o corpo analítico, analisados de forma interpretativa.
Resultados e Discussão
Os sete estudos foram publicados entre 2009 e 2023, provenientes do Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, Argentina e México. Da análise interpretativa emergiram três categorias temáticas.
A primeira categoria é produtivismo e adoecimento. A lógica produtivista impôs às universidades uma cultura baseada em índices de impacto, captação de recursos e ranqueamento. Os estudos identificaram que essa lógica aprofunda a permanente competição entre docentes, em substituição ao trabalho colaborativo, produzindo receios de ser descredenciado dos programas, de não conseguir financiamento, de não socializar trabalhos em eventos ou publicar em periódicos. O trabalho docente, ao invés de ser pautado por amadurecimento crítico, transforma-se em produção quantitativa, constantemente avaliada. O excesso de exigências leva docentes ao adoecimento grave, com altos índices de estresse e burnout (Bianchetti, 2009).
A segunda categoria refere-se ao controle institucional e perda de autonomia para definir a finalidade do trabalho. O avanço do capitalismo acadêmico reconfigurou os contratos e a autonomia docente, instituindo o que os autores denominam "autonomia controlada". O professor perde o controle sobre a finalidade do próprio trabalho, ficando submetido a decisões externas sobre o que pesquisar, como produzir e em que prazo. Esse cenário produz sofrimento e esvaziamento do sentido formativo do trabalho, que passa a ser operado pela lógica produtivista e o alcance de cotas numéricas. O fenômeno intensifica-se com a hiperconectividade, que elimina as fronteiras entre a jornada de trabalho e a vida pessoal, levando docentes à exaustão crônica (Lopes, 2022; Valdivia, 2018).
A terceira categoria, o capitalismo acadêmico e a desigualdade de gênero, revela que as exigências do ensino superior não são neutras em relação ao gênero. As exigências pesam ainda mais sobre as mulheres, à medida que às metas de produtividade acadêmica somam-se as atribuições do cuidado familiar. Ao investigar sistemas de avaliação como o Sistema Nacional de Investigadores no México, a literatura revela que a conciliação entre vida familiar e competição acadêmica exige das mulheres sacrifícios adoecedores. As docentes enfrentam altos níveis de tensão para cumprir métricas institucionais, o que aprofunda a desigualdade salarial e as coloca em alto risco para o desenvolvimento da síndrome de burnout (Gutierrez; Echeverria, 2023).
Conclusões/Considerações Finais
A literatura analisada indica que o adoecimento docente não é resultado de fragilidades individuais, mas consequência estrutural do capitalismo acadêmico. Conclui-se que o enfrentamento do adoecimento docente exige questionar estruturalmente o gerencialismo e a mercantilização da universidade, recolocando o conhecimento como bem público e a universidade como espaço de formação crítica e emancipação social.
CONFERÊNCIA LIVRE ESTADUAL DE SAÚDE DO(A) TRABALHADOR(A): NÃO É SÓ UMA CORRIDA É A NOSSA VIDA!
Comunicação Oral Curta
1 Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco; Fundação Oswaldo Cruz, Laboratório de Ambiente, Saúde e Trabalho (Lasat/Fiocruz/PE)
2 Sindicato dos Entregadores e Motociclistas Autônomos de Pernambuco (SEAMBAPE)
3 Câmara Vereadores do Recife - Gabinete Vereadora Kari Santos
4 Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco
5 Fundação Oswaldo Cruz, Laboratório de Ambiente, Saúde e Trabalho (Fiocruz - Lasat/PE)
Contextualização
O trabalho plataformizado tem assumido centralidade nas transformações contemporâneas do mundo do trabalho, impondo novos e complexos desafios para a atuação do campo Saúde do Trabalhador no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse contexto, os entregadores subordinados às empresas aplicativos destacam-se como uma categoria emblemática, tanto pela quantidade expressiva de trabalhadores quanto pela insegurança, precarização alto risco de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho.
Descrição
Em 2025, foi realizada a 5ª Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, que teve como um de seus eixos centrais “As novas relações de trabalho e a saúde do trabalhador e da trabalhadora”. Considerando o ensejo da temática discutida, em Pernambuco, incentivou-se que categorias profissionais específicas organizassem suas próprias conferências livres, com o objetivo de fortalecer suas pautas junto ao Sistema Único de Saúde (SUS).
As conferências livres representam espaços autônomos de debates. A partir do diálogo com o sindicato da categoria, um mandato parlamentar e representantes do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) Estadual, foi identificada a necessidade de discussão coletiva das pautas relacionadas à saúde do(a) trabalhador(a) da categoria. Foram feitas reuniões temáticas com objetivo de planejar a conferência livre estadual da categoria. O momento teve como tema “Não é só uma corrida, é a nossa vida: a saúde dos trabalhadores por aplicativo e os impactos atuais no SUS”.
Período de Realização
Março a maio de 2025.
Objetivo
Descrever a realização da 1ª Conferência Livre Estadual de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora por Aplicativo de Pernambuco.
Resultados
A conferência foi realizada em 6 de maio de 2025, no período da manhã e da tarde. O momento reuniu 76 trabalhadores(as) por aplicativo, com maior participação do público masculino jovem, que realiza a entrega por meio de bicicletas. Inicialmente, foram realizadas apresentações introdutórias com o objetivo de provocar a discussão acerca dos impactos do trabalho por aplicativos na saúde desses profissionais. No espaço também foi lançada a cartilha temática “A saúde dos trabalhadores por aplicativo: entregando informação”. Em seguida, foram apresentadas as diretrizes da conferência nacional, de modo a orientar a formulação de propostas alinhadas aos eixos previamente estabelecidos.
Dessa forma, foram elencadas oito propostas, que foram submetidas à votação, das quais duas foram selecionadas para a etapa nacional. A primeira proposta tratava da necessidade de o poder público exigir das empresas por aplicativo a obrigatoriedade de disponibilização de pontos de apoio em todos os municípios onde atuam, com estrutura de banheiros, espaços de descanso, fornecimento de água, locais para carregamento de celulares e rede wi-fi. Esta proposta visava promover maior dignidade e melhores condições de trabalho, impactando na saúde dos trabalhadores. A segunda proposta girava em torno da regulamentação da profissão, com reconhecimento legal de vínculo trabalhista e previdenciário dos trabalhadores de aplicativo, que, embora excedesse as fronteiras da competência da saúde, fortaleciam a mobilização coletiva em torno de uma das grandes lutas travadas por estes trabalhadores a nível nacional.
Ao final da aprovação das propostas, foram eleitos 2 delegados, sendo um homem e uma mulher, que representaram a categoria na 5ª Conferência Estadual de Saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
O caráter da conferência extrapola a formalidade das etapas obrigatórias e permitiu uma maior aproximação dos trabalhadores com pautas prioritárias que estão associadas à determinação social de sua saúde. Foram priorizadas pela categoria propostas relacionadas a melhores condições de trabalho e a regulamentação do vinculo trabalhista.
As falas da conferência problematizaram aspectos relacionados à proteção social dos trabalhadores por aplicativo, questionando o incipiente acesso aos direitos sociais, trabalhistas, previdenciários, assim como as principais questões de saúde apresentadas, como os acidentes de trânsito/trabalho, as violências e os transtornos mentais relacionados ao trabalho. O espaço permitiu troca de experiências, reflexões e o levantamento de estratégias para o enfretamento a precarização do trabalho.
Os entregadores por aplicativos são uma categoria marcada pela desproteção social, vulnerabilidade e grande exposição a riscos relacionados ao trabalho. Essa nova modalidade de trabalho impõe novos desafios aos profissionais do SUS que atuam na área de saúde do trabalhador. Nesse contexto, torna-se fundamental o fortalecimento de estratégias de controle social capazes de fomentar a organização coletiva e a luta por melhores condições de trabalho. A Conferência Livre Estadual destacou-se como um espaço relevante de diálogo entre trabalhadores, serviços de saúde e representantes parlamentares, atuando como um importante catalisador da articulação política em defesa de condições mais dignas de trabalho, saúde e qualidade de vida.
CRUZANDO ROTAS E INAUGURANDO CAMINHOS NOS CORREDORES DO SUS: UM ESTUDO SOBRE ACIDENTES DE TRABALHO POR PLATAFORMAS DIGITAIS NA BAIXADA FLUMINENSE - RIO DE JANEIRO
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz
Apresentação/Introdução
O trabalho por plataformas digitais no transporte de passageiros e entrega de mercadorias situa-se no bojo dos processos de informalização, responsável pela intensificação do trabalho, ampliação da desproteção social e transferência de riscos e custos ao próprio trabalhador (Abílio; Santiago, 2024). Dentre os diversos riscos e formas de adoecimento aos quais esses trabalhadores estão expostos, destacam-se os acidentes de trânsito relacionados ao trabalho como um dos mais graves e fatais. A incidência desses agravos se apresenta como um dos principais desfechos que retratam os impactos desse modo de organização e gestão do trabalho no processo saúde-doença da categoria. Considerando que esses agravos representam um problema de saúde pública, a qualificação dos registros oficiais torna-se fundamental para o desenvolvimento de ações de Vigilância em Saúde do Trabalhador no Sistema Único de Saúde (SUS).
Objetivos
Investigar as dificuldades envolvidas no processo de notificação de Acidentes de Trabalho no Trânsito, Óbitos e Violência Interpessoal relacionada ao trabalho por plataformas digitais nos sistemas de informação em saúde e contribuir com possíveis estratégias na qualificação dessas informações.
Metodologia
A metodologia consistiu na realização de uma pesquisa bibliográfica, na coleta de dados secundários nos sistemas de informação em saúde (Sistema de Informação de Agravos de Notificação e Sistema de Informação sobre Mortalidade) de Acidentes de Trabalho, Acidentes de Trânsito com motociclistas, óbitos e Violência Interpessoal/Autoprovocada relacionada ao trabalho, envolvendo motociclistas no transporte de documentos e pequenos volumes, ciclistas mensageiro e motoristas de carro de passeio. Na segunda etapa, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com profissionais de saúde de um hospital de emergência da Baixada Fluminense - RJ, envolvendo os seguintes setores: Núcleo de Vigilância Epidemiológica Hospitalar, Serviço de Pronto Atendimento e Emergência Vermelha. A análise dos dados seguiu uma abordagem interpretativa, envolvendo a ordenação e organização do material empírico, categorização, contextualização dos termos destacados e interpretação de segunda ordem (Minayo; Costa, 2019).
Resultados e Discussão
A análise quantitativa dos acidentes, violências e óbitos relacionados ao trabalho de transporte de passageiros e entrega de mercadorias em um município da Baixada Fluminense-RJ, ratifica como o processo de invisibilização dessa categoria profissional também se relaciona à invisibilidade na notificação de acidentes de trabalho, notificados somente como acidentes de trânsito. Na análise qualitativa, foi possível identificar como a sobrecarga, fragmentação do processo de trabalho, rotatividade de profissionais, distanciamento entre assistência e vigilância em saúde e ausência de protocolo específico para a notificação de acidentes de trabalho dificultam o processo de notificação desses agravos. Os CERESTs, enquanto dispositivo de Vigilância em Saúde do Trabalhador, se mostram essenciais na construção de estratégias e protocolos junto aos profissionais de saúde de emergências para identificação e registro adequado desses agravos, viabilizado pelo apoio matricial in loco.
Conclusões/Considerações Finais
O presente trabalho visa contribuir na construção de possíveis estratégias de apoio matricial em Saúde do Trabalhador para obtenção de informações fidedignas desses agravos e proposição de ações de prevenção e promoção de saúde, visando o fortalecimento da luta por direitos e políticas públicas direcionadas. Este estudo reafirma que tornar visível os custos desse modo de organização e gestão do trabalho para os trabalhadores, suas famílias e para o SUS, significa romper com a naturalização em relação à intensificação da exploração e denunciar suas consequências para a sociedade. Desse modo, a articulação entre profissionais de saúde, gestores e coletivos organizados dessa categoria profissional mostra-se fundamental, a fim de pressionar o Estado na luta pela regulamentação desse trabalho e responsabilização das empresas-plataformas.
REFERÊNCIAS:
ABÍLIO, L. C.; SANTIAGO, S. M. Dossiê das violações dos direitos humanos no trabalho uberizado: o caso dos motofretistas na cidade de Campinas. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2024.
MINAYO, Maria Cecília de Souza; COSTA, António Pedro. Técnicas que fazem uso da palavra, do olhar e da empatia: pesquisa qualitativa em ação. Aveiro: Ludomedia, 2019.
ESCALA 6X1 E A SAÚDE DE TRABALHADORAS E TRABALHADORES: PELA VIDA ALÉM DO TRABALHO
Comunicação Oral Curta
1 ENSP - Fiocruz
Apresentação/Introdução
A luta pela redução da jornada de trabalho é uma questão de saúde pública, considerando que a diminuição da carga horária reduz a exposição a ambientes e condições insalubres e consequentemente reduz agravos e acidentes de trabalho. É com este intuito que o presente estudo busca compreender, inclusive com dados estatísticos que evidenciam a olhos vistos que a classe trabalhadora, mesmo ancorada em seus parcos direitos trabalhistas, está adoecendo e que as ocupações que apresentam maior índice de adoecimento no trabalho são justamente aquelas que padecem da escala 6x1. Essa afirmação pode ser comprovada através de dados recentes sobre os transtornos mentais relacionados ao trabalho apresentados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) compilados pelo Observatório Digital de Saúde e Segurança (Plataforma SmartLab), organizado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e Organização internacional do Trabalho (OIT).
Objetivos
Problematizar a relação entre jornadas extensas de trabalho e a saúde de trabalhadoras e trabalhadores, compreendendo que a luta pela redução da jornada de trabalho sem redução de salário é uma questão de saúde pública.
Metodologia
Quanto ao procedimento metodológico, adotou-se a revisão bibliográfica e acesso a dados secundários de afastamentos de saúde, acidentes e agravos relacionados ao trabalho disponibilizados pelas bases estatísticas governamentais.
Resultados e Discussão
Em 2025, foram registrados 546.254 afastamentos do trabalho relacionados à saúde mental. Isso representa um aumento de 15% em relação ao ano anterior. Em 2024, foram registrados 471.649 casos e em 2023, 283 mil, ou seja, o número praticamente dobrou. No topo da lista estão profissões como: Vendedor de comércio varejista 71.735; Faxineiro 58.790; Auxiliar de escritório 55.224; assistente administrativo 51.446; alimentador de linha de produção 49.410; Técnico de enfermagem 48.160; operador de caixa 45.843; operador de telemarketing ativo e receptivo 40.430; vigilante 31.197; motorista de ônibus urbano 29.443, que são setores que associam a intensificação do trabalho com a escala 6x1. Essas profissões têm em comum: contratos frágeis, pressão por metas, jornadas longas e maior exposição a riscos, cargas e desgastes.
Em relação aos acidentes de trabalho, ao longo do ano de 2024, o Brasil registrou mais de 742 mil acidentes de trabalho. Os setores econômicos campeões de acidentes com ou sem Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) foram: atendimento hospitalar 43.644; comércio varejista: hipermercado e supermercado 17.870; transporte rodoviário de cargas 14.278; restaurantes 9.593; abates de suínos e aves 9.445 e outros.
A jornada excessiva de trabalho eleva o desgaste físico e psíquico do trabalhador, podendo resultar em doenças laborais e acidentes de trabalho. O trabalho exaustivo, por exemplo, em pé em uma loja de shopping, ou sentado no caixa de um supermercado, até oito ou mais horas por dia durante os seis dias na semana, é sentido no corpo, na mente e na alma. Quanto mais horas trabalhadas, mais chances de ocorrer acidentes de trabalho, devido ao grau de atenção, esforço e fadiga. O desgaste mental gerado nas situações de trabalho pode ter papel importante na gênese de acidentes de trabalho, pois o desgaste atinge os dois âmbitos que se entrelaçam na vida mental, o cognitivo e o psicoafetivo, isto é, o desgaste prejudica, de modo simultâneo, a concentração da atenção, o uso da memória, o raciocínio, além de impedir rapidez necessária para tomadas de decisão em situações de emergência.
Ressalta-se que muitos desses acidentes de trabalho estão ligados aos aspectos organizacionais do trabalho, como a precarização e fragilização dos vínculos, a intensificação do trabalho, a polivalência, a insuficiência de pausas e intervalos interjornadas, e a quebra dos laços coletivos que prejudica a cooperação e a hierarquização.
Conclusões/Considerações Finais
O trabalho possui centralidade na vida das pessoas é o que evidencia a luta pela redução da jornada de trabalho e os dados estatísticos apontam a importância da redução da jornada de trabalho para a saúde de trabalhadores e trabalhadoras no Brasil. A redução da jornada não se conquista por negociações com um Parlamento conservador, mas pela organização dos trabalhadores nos diversos espaços produtivos e sociais, é o que demonstra o movimento “Vida Além do Trabalho – Pelo fim da escala 6x1” (VAT). Trata-se de uma reivindicação vital diante da resistência histórica do capital. O trabalho ocupa centralidade na vida, e os dados mostram sua importância para a saúde. Contudo, sem mudanças na organização laboral, reduzir dias de jornada pode apenas intensificar a carga, exigindo que metas sejam cumpridas em menos tempo. Os que defendem a Saúde do Trabalhador sabem que e o mundo do trabalho continua matando, adoecendo, mutilando, causando sofrimento, roubando o tempo cada vez mais. Basta de curvarmos aos ladrões do tempo!
ESPAÇOS DE CUIDADO EM SAÚDE: A LITERATURA DE MULHERES NEGRAS COMO TECNOLOGIA ANCESTRAL DE CUIDADO NOS AMBIENTES DE TRABALHO
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz
Contextualização
Historicamente, as mulheres negras desempenham, na sociedade brasileira, as funções mais desgastantes e, portanto, não menos necessárias do trabalho de cuidado, seja no âmbito doméstico, na maternidade e/ou nos serviços de saúde. Efeito disso, é a frequentemente invisibilização e naturalização como um atributo biológico ou vocacional, generificado e racializadodesconsiderando-se sua dimensão política, econômica e os impactos psicossociais sobre as trabalhadoras. O Guia para a Pactuação do Plano Nacional de Cuidados estima que o trabalho não remunerado produza até 30% do PIB, com 75% dessa carga recaindo sobre as mulheres. Face à divisão racial e sexual que marca as relações de trabalho, torna-se urgente criar espaços que visibilize a matriz de opressão e promovam a saúde desse coletivo a partir de referenciais que dialoguem com suas ancestralidades e a história de resistência.
Descrição
O relato refere-se à oficina realizada em novembro de 2025, em Recife. A metodologia baseou-se em rodas de conversa e mediação de leitura, utilizando recursos audiovisuais e materiais para escrita. Foram convocadas vozes de intelectuais fundamentais como Lelia Gonzalez, Conceição Evaristo, Vilma Piedade e Carolina Maria de Jesus, cujos trechos das obras serviram de disparadores para a reflexão sobre o "cuidado de si" e o "cuidado do mundo".
Período de Realização
novembro de 2025
Objetivo
Sistematizar a experiência da oficina "Corpos e Espaços de cuidado em Saúde", visando apresentar:
a vivência da literatura de mulheres negras como dispositivo gerador de saúde;
a cconstituição um espaço litero-poético de escuta e acolhimento para trabalhadoras da ciência e da saúde;
as formas de incentivo à produção textual voluntária como ferramenta de cuidado de si e elaboração subjetiva das opressões de gênero, raça e classe no ambiente de trabalho.
Resultados
A oficina contou com a participação ativa de trabalhadoras de diferentes setores. A presença da literatura negra permitiu que as participantes compartilhassem temas como sobrecarga, o trabalho do cuidado. Os resultados práticos incluíram a criação de um ambiente onde a compreensão das realidades laborais fortaleceu os vínculos interpessoais. A literatura atuou como uma "tecnologia ancestral", capaz de transbordar os muros acadêmicos e conectar a teoria da promoção da saúde à vivência corpórea das trabalhadoras no território. Mais do que um espaço de leitura, a iniciativa fortaleceu vínculos, estimulou o diálogo e valorizou as experiências de vida e trabalho das mulheres que constroem, cotidianamente, o cuidado e o cuidar de Si em saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência demonstrou que a arte, especificamente a literatura produzida por mulheres negras, não é um acessório lúdico, mas uma área de conhecimento potente para questionar papéis de gênero e raça. O principal aprendizado reside na percepção de que, para promover saúde nos ambientes de trabalho, é preciso primeiro "cuidar de quem cuida". A análise crítica revela que o conceito de Escrevivência (Evaristo) e a crítica ao racismo estrutural de Gonzalez são essenciais para desnaturalizar a exploração do trabalho de cuidado. A oficina revelou que o ambiente institucional muitas vezes não leva em conta as tecnologias ancestrais do cuidado, e a literatura surge como uma ferramenta de "transversalidade de promoção à saúde", permitindo operar na produção da subjetividade através desse dispositivo micropolítico de enfrentamento às opressões.
IDENTIDADE DIGITAL E RESISTÊNCIAS NO TRABALHO EM REABILITAÇÃO: IMPACTOS DA SAÚDE DIGITAL NA PRÁTICA DE FISIOTERAPEUTAS
Comunicação Oral Curta
1 PPGFis/UFPB
Apresentação/Introdução
No cenário contemporâneo, as inovações tecnológicas e a Saúde Digital têm reconfigurado os processos de trabalho em saúde. No âmbito da reabilitação de Pessoas com Deficiência (PCD), a implementação de ferramentas digitais, como o prontuário eletrônico, surge como um recurso que tanto pode otimizar a prática quanto atuar como mecanismo de controle e produtividade.
Objetivos
Este estudo vincula-se ao debate sobre trabalho, saúde e tecnologia, buscando compreender como a digitalização interage com a subjetividade e a organização do trabalho de fisioterapeutas
Metodologia
Trata-se de um estudo de caso qualitativo e exploratório, orientado pela Análise de Conteúdo Temática. O cenário da pesquisa foi um Centro Especializado em Reabilitação (CER) na Paraíba, referência no serviço de habilitação e reabilitação. Participaram 18 fisioterapeutas de ambos os sexos, com experiência no uso de ferramentas de saúde digital. A coleta de dados ocorreu entre novembro e dezembro de 2023, por meio de entrevistas semiestruturadas com perguntas norteadoras. A análise seguiu três etapas: pré-análise, exploração do material/codificação e tratamento dos resultados com interpretação.
Resultados e Discussão
A análise revelou uma divisão subjetiva no ambiente de trabalho entre o que se denominou "seres informatizados" e "seres não informatizados". Os profissionais "informatizados" apresentam maior facilidade e curiosidade no manuseio de sistemas, muitas vezes possuindo formação prévia em áreas técnicas. Por outro lado, os "não informatizados" manifestam resistências e dificuldades operacionais, como o esquecimento de senhas ou a impossibilidade de emitir relatórios e faturamentos (BPA). Essa discrepância gera estratégias de defesa e cooperação informal: profissionais com maior habilidade acabam assumindo tarefas de colegas para manter o fluxo do serviço, o que pode gerar sobrecarga e desvio de função. Argumenta-se que essas dificuldades não são meramente geracionais, mas refletem a constituição de uma "Identidade Digital". Enquanto os informatizados compartilham símbolos e sentidos de domínio tecnológico, os demais enfrentam uma exclusão digital que impacta diretamente a autonomia e a fluidez do processo de trabalho no CER.
Conclusões/Considerações Finais
A inserção da Saúde Digital no processo de trabalho da fisioterapia em centros de reabilitação não é um processo neutro. A dificuldade na operacionalização dos sistemas ultrapassa a questão etária, revelando problemas de identidade digital e falta de recursos adequados. Identificou-se que a organização do trabalho e a escassez de equipamentos (computadores) são entraves centrais que limitam o potencial das ferramentas digitais. Conclui-se que são necessários investimentos não apenas em infraestrutura física, mas em processos de capacitação que considerem a subjetividade do trabalhador, visando reduzir as desigualdades e os impactos negativos na saúde e na organização do trabalho.
PROCESSO, FORMAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO DE RESISTÊNCIAS NOS TRABALHADORES DA MINERAÇÃO
Comunicação Oral Curta
1 UESC
2 UFMG
Apresentação/Introdução
As estratégias de resistência do trabalhador têm se tornado cada vez mais necessárias como contraposição às transformações no mundo do trabalho, como a redução de direitos e a desproteção dos direitos dos trabalhadores, pavimentados pelas políticas neoliberais e financeirização da economia 4.0. Estratégias individuais e coletivas de resistência (in)visíveis no trabalho permitem suportar as situações cotidianas como expressões de luta e saúde. Os processos envolvidos na formação das estratégias de resistências pelos trabalhadores são partes da resposta ao controle, vigilância e exploração nos contextos laborais.
Objetivos
O objetivo geral foi compreender as estratégias de resistência praticadas pelos trabalhadores da extração mineral, para isso buscamos:1- conceituar e caracterizar o fenômeno da resistência no trabalho, identificando suas estratégias ocultas, manifestas pelo trabalhador como parte da saúde; 2-descrever o processo de formação das estratégias de resistência utilizadas pelos trabalhadores da extração mineral; 3- identificar as estratégias de resistência praticadas pelos trabalhadores da mineração.
Metodologia
A pesquisa foi estruturada em dois momentos. O primeiro por meio da abordagem psicossociólogica, construímos uma análise reflexiva que culminou com a proposição de um modelo e definição para a resistência, tendo em vista auxiliar na compreensão de sua elasticidade, dinamicidade e atributos assumidos na sua manifestação no trabalho. No segundo momento, buscamos a partir da pesquisa empírica descrever o processo de formação e identificar as estratégias de resistência, para tal, desenvolvemos as atividades de campo a partir de entrevistas semiestruturadas – a 36 ex-empregados e sindicalistas da mineração em Brumado-BA. Aplicamos a análise de conteúdo com o auxílio do software QDA Miner, sustentados pela abordagem psicossociológica.
Resultados e Discussão
No primeiro momento tecemos considerações conceituais, propomos um modelo conceitual, elencando atributos necessários às resistências no trabalho; discorremos sobre as resistências ocultas e suas manifestações cotidianas nas situações de trabalho, identificando-as e descrevendo-as; e anunciamos a resistência como parte e expressão da saúde, voltada a sua manutenção, prevenção e promoção.
No segundo momento ao descrever o processo de formação das estratégias de resistência utilizadas pelos trabalhadores da extração mineral, a partir da análise das entrevistas apresentamos: o uso de si, a consciência e o grupo como bases da formação da resistência no trabalho; atributos como parte e expressão da composição da resistência no trabalho; elementos processuais da formação da resistência; contexto e significações da formação da resistência na mineração; atributos da resistência entrelaçados e entremeados na sua constituição e expressão(Autonomia/Liberdade, Criatividade e Preservação da Saúde pressupõem a Cooperação/Solidariedade e Saberes/Experiências); parte da formação e transmissão de saberes realizada pela validação consensual e tutorização; os processos de formação das estratégias de resistência, com mesmas bases e diferentes modos de articulação dos atributos, são potencializadas pela capacidade de resposta e mobilização do trabalhador/grupo. Também conseguimos identificar as estratégias de resistência praticadas pelos trabalhadores da mineração, ao constatar: quinze Estratégias de Poder percebidas pelos trabalhadores (EP), dezessete Estratégias de Resistência dos Trabalhadores (ERT), doze Estratégias de Resistência Sindicais (ERS), sete Estratégias de Resistência Geminadas (ERG), três Estratégias de Resistência Superadas pelo Poder (ERSP), assim como, as repercussões e consequências sociais destas dentro e fora das empresas.
Conclusões/Considerações Finais
Consideramos a resistência como parte e expressão da saúde é potência imanente que permeia o trabalhador e seu coletivo, na vida e no trabalho. Como uma reação de autopreservação e emancipação para escapar ao insuportável, a resistência é, assim, atributo de conservação e estratégia de ampliação da saúde, um ato saudável em relação ao meio. Entendemos a dimensão coletiva da resistência na formação das estratégias impacta diretamente na segurança e a saúde dos trabalhadores, pois cria camadas de vigilância entre os mineradores, como modo de assegurar a proteção e evitar agravos. A interação, articulação, confiança e coesão social do grupo potencializa a construção e a expressão das estratégias de resistência, sendo o coletivismo e a solidariedade caminhos para (re)estruturar os processos de formação das resistências no trabalho. As resistências dos trabalhadores na mineração são realizadas por ações que refletem a conjugação e entrelaçamento dinâmico de várias estratégias ao mesmo tempo, adequando à situação. São assim, matrizes contínuas, dinâmicas e difundidas da vigilância e proteção ao criar novos modos de trabalhar e manter-se no emprego, transformando as situações de trabalho e desenvolvendo ações politizadas concretas no campo de disputa.
REFLEXÕES SOBRE RELAÇÕES: RACIONALIDADE NEOLIBERAL E UBERIZAÇÃO DO TRABALHO.
Comunicação Oral Curta
1 UFC
2 FIOCRUZ
Apresentação/Introdução
Propõe-se neste manuscrito uma crítica que é fundamental para a compreensão macroscópica dessa relação: A propriedade individual e privada e a racionalidade neoliberal no processo da uberização do trabalho (Grohmann, 2020). Com base na metodologia Marxista à exploração capitalista da força de trabalho, argumenta que, no contexto contemporâneo, essa lógica é reconfigurada e aprofundada por uma racionalidade neoliberal que desloca a centralidade da exploração para o plano da subjetividade, utilizando-se do ambiente digital (Grohmann, 2020; Marques, 2018; Marx, 1996).
Objetivos
Refletir sobre a desigual aquisição da propriedade individual e difusão da racionalidade neoliberal no processo da uberização do trabalho.
Metodologia
Trata-se de um ensaio de cunho teórico-reflexivo, que descreve o processo de construção do referencial teórico de uma investigação. O processo interpretativo foi orientado por uma perspectiva analítica, buscando compreender as mediações entre propriedade privada e individual, racionalidade neoliberal e produção de subjetividades no contexto da uberização do trabalho. Constitui, também, etapa estruturante da pesquisa, subsidiando o desenvolvimento das demais fases do estudo. Nesse sentido, orientará a realização de rodas de conversa temáticas, utilizadas como dispositivos coletivos de problematização conceitual, reflexão crítica e explicitação de pressupostos analíticos. Esses espaços auxiliarão na construção do questionário de pesquisa e fomentarão o debate entre categorias teóricas e situações empíricas identificadas através da observação participante, contribuindo para o refinamento das categorias de análise.
Resultados e Discussão
No Brasil as desigualdades estruturais são reafirmadas em um país cuja composição da força de trabalho ainda sofre com as marcas do colonialismo e da escravidão (BRASIL, 1991; Faustino, 2019; Souza, 2021). Ainda que não detenham os meios de produção em sentido clássico, os trabalhadores possuem instrumentos individuais de trabalho (motorizados ou não), que funcionam como uma forma limitada e distorcida de propriedade. Essa distorção da propriedade contribui para a construção de uma percepção de autonomia e empreendedorismo, obscurecendo a dependência estrutural em relação às plataformas, que detêm o controle algorítmico, a definição de preços e o acesso à demanda (Rodrigues; Moreira; De Lucca, 2021; SLEE, 2019). Esse distúrbio entre a propriedade individual e a propriedade privada, reforçado pela racionalidade neoliberal, atua como elemento central na produção de uma subjetividade empreendedora (Antunes, 2020; Grohmann, 2020). O(a) trabalhador(a) tende a deixar de se perceber como parte de uma classe explorada. Uma possível distinção simbólica entre motoristas de transporte de quatro rodas e entregadores de transporte de duas rodas por aplicativos (em Fortaleza - CE) pode evidenciar nuances desse fenômeno. Os motoristas tendem a se identificar mais fortemente como empreendedores, em grande medida por possuírem um bem de maior valor que é o automóvel. Ainda que estejam subordinados às regras das plataformas digitais, amplia-se a percepção de que operam um “negócio próprio”. Em contrapartida, os entregadores, frequentemente vinculados ao uso de bicicletas ou motocicletas, enfrentam condições mais precárias e menor reconhecimento social. Nessas condições a internalização da identidade empreendedora é menos presente. Essa dicotomia, no entanto, não altera a posição estrutural de ambos os grupos, que permanecem inseridos em relações de trabalho marcadas pela precarização, informalidade e subordinação indireta. Essas condições subjetivas e simbólicas, operacionalizadas pela racionalidade neoliberal incidem na construção das identidades, principalmente quando abordamos as percepções “empreendedores e trabalhadores”. Entretanto, ao envolver condições desiguais de inserção no trabalho, diferentes posses de bens, exposição a riscos e implicações para a saúde, o plano do simbólico é tensionado por contornos concretos nas experiências cotidianas desses trabalhadores. A percepção da condição social no capitalismo tem implicações reais sobre o trabalho e a saúde do sujeito (Marques, 2018).
Conclusões/Considerações Finais
A uberização não representa uma ruptura com a lógica capitalista, mas sim sua atualização, utilizando a tecnologia como uma ferramenta de controle, nas quais a exploração se combina com a produção de subjetividades empreendedoras. Refletir sobre as novas formas de organizar o trabalho é uma etapa imperiosa para ações de saúde na vida do trabalhador. Assim como garante o embasamento para regularização das empresas de aplicativo operantes no Brasil, afetando diretamente a proteção social dos trabalhadores. O próprio debate discorrido da apresentação deste resumo será peça importante para a compreensão desse processo.
A RESTITUIÇÃO DOS RESULTADOS DA PESQUISA SOBRE AGROTÓXICOS E CÂNCER: UM PROCESSO DIALÓGICO E PARTICIPATIVO NO TERRITÓRIO DE CASIMIRO DE ABREU (RJ)
Comunicação Oral Curta
1 Instituto Nacional de Câncer
2 SMS Casimiro de Abreu
Contextualização
A experiência exposta a seguir integra o eixo qualitativo do projeto “Investigação dos efeitos sobre a saúde relacionado a exposição aos agrotóxicos em trabalhadores rurais e moradores do Rio de Janeiro”. Para compreender o contexto em que a experiência se dá é importante associá-la a um projeto anterior, do mesmo grupo de pesquisadores, realizado em Casimiro de Abreu (RJ), município localizado a 140 km da capital, com uma população estimada de pouco mais de 46 mil habitantes, cujo sistema de produção agrícola é o da agricultura familiar. Entre os produtos resultantes deste projeto anterior estava a elaboração de um documento-referência com as necessidades dos agricultores para subsidiar o planejamento em saúde local. No entanto, o documento não foi distribuído por questões logísticas e atravessamentos do período pandêmico. Assim, a experiência ora relatada contempla o resgate da relação estabelecida no território até a revisão e atualização do referido documento.
Descrição
O projeto novo foi deflagrado no município por um evento para apresentar resultados e discutir a notificação do câncer relacionado ao trabalho e ambiente. A partir do evento, membros do grupo de pesquisadores acompanharam a disseminação dos resultados pelo Núcleo de Saúde do Trabalhador. Neste lastro foi identificada a importância de que a discussão dos resultados chegasse às equipes das Unidades Básicas de Saúde (UBS). Pactuou-se então a realização de duas oficinas de Comunicação e Saúde em junho e agosto de 2023. A primeira oficina, que contou com 31 participantes, revelou dúvidas sobre a relação Ambiente, Trabalho e Câncer que reiteraram a importância de ampliar a discussão do tema no território. Ademais, a primeira oficina possibilitou um levantamento junto ao público presente – agricultores e técnicos da Secretaria de Saúde, incluindo a Estratégia de Saúde da Família e a Vigilância em Saúde, e das Secretarias do Meio Ambiente e da Educação do município, representantes do Núcleo de Defesa Agropecuária da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SEAPA), dos Conselhos Municipais de Saúde e de Meio Ambiente, do Sindicato Rural e da Articulação de Agroecologia da Serramar, das estratégias para uma comunicação adequada a realidade local. A segunda oficina, com 11 participantes, se ateve a selecionar nos resultados do estudo anterior as informações com potencial para alertar, sem alarmar, toda a comunidade local e definir as ações de comunicação prioritárias. As oficinas possibilitaram o resgate da relação com o território e geraram o compromisso para realização de um encontro dedicado a atualização do documento-referência configurado pela integração de saberes.
Período de Realização
Junho/2023 a Novembro/2024
Objetivo
O processo dialógico instituído visou ampliar o acesso à informação e incentivar o estabelecimento de orientações para prevenção do câncer relacionado à exposição aos agrotóxicos seja no âmbito dos serviços de saúde, seja no âmbito do trabalho na agricultura.
Resultados
As estratégias de comunicação indicadas foram: selecionar informações sobre a saúde dos agricultores; fazer uso de linguagem visual; incluir igrejas, associações e escolas em um calendário de apresentações e discussão sobre o que é câncer, fatores de risco para o câncer, agrotóxicos e câncer; produzir um caderno-síntese dos resultados do estudo para ser entregues a entes decisores. As informações selecionadas foram: a cada 10 agricultores entrevistados no estudo, 7 usam veneno no cultivo; câimbras, convulsões, coceiras, dor de cabeça, falta de ar e náuseas são efeitos relatados após a aplicação de veneno. Como ação prioritária, foi definida a produção de um dispositivo visual do tipo banner para reforçar as informações-alerta e esclarecer sobre alguns ‘Mitos e Verdades” associados ao cultivo com veneno. Foram confeccionados 25 conjuntos de três banners abordando os efeitos dos agrotóxicos; agrotóxicos e câncer; afirmações verdadeiras x falsas, o material foi entregue para representantes das equipes das UBS durante uma roda de conversa realizada na feira da praça central do município em novembro de 2024.
Aprendizado e Análise Crítica
A experiência deixou como aprendizado a importância da presença de pessoas chave do município integrando a equipe de projetos de pesquisa para implementação das ações. É fundamental que as populações do campo não sejam investigadas sob um olhar urbano-centrado, mas reconhecidas de forma singularizada, em suas especificidades espacial, social e simbólica, abrindo alternativas na direção para a transformação da realidade local. O uso dos resultados de uma pesquisa epidemiológica a partir de uma lógica diferenciada produz efeitos no território. Dedicar atenção ao processo de restituição dos resultados configurou uma ação de promoção da saúde que privilegiou o protagonismo da comunidade. O processo fortaleceu ainda a relação pesquisadores-comunidade bem como a integração da Saúde do Trabalhador com os demais setores da atenção e da vigilância.
Realização: