Programa - Comunicação Oral - CO28.4 - Determinação Social e Trabalho
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:40
13:10 - 14:40
(IN)SEGURANÇA NO AMBIENTE DE TRABALHO: A PERCEPÇÃO DE PROFESSORES EM COLÉGIOS PÚBLICOS DE SALVADOR/BAHIA
Comunicação Oral
1 UNEB
Apresentação/Introdução
A violência no espaço laboral é um fenômeno que tem estado presente e afeta diferentes categorias profissionais, especialmente nas áreas de saúde, educação e segurança. Nesse sentido, fazendo o recorte para a categoria docente, o ambiente escolar, antes considerado seguro, é, hoje, palco de incertezas e medos que, somados à desvalorização profissional, precarização das condições laborais e sobrecarga de trabalho, tem impactado na saúde dos/as professores/as. Assim, cada vez mais, se faz premente a realização de pesquisas com vistas a entender como o fenômeno da violência na escola está corroendo essa categoria profissional, considerando ser a mais afetada dentro da escola, em função do contato direto e da necessidade de controlar a disciplina na sala de aula. O referencial teórico consistiu na exploração das teorias de vitimização, segurança e síndrome de burnout para uma melhor compreensão das experiências dos/as docentes de escolas públicas.
Objetivos
Diante do exposto, o objetivo dessa pesquisa foi conhecer a percepção dos professores sobre a sua exposição cotidiana à violência no ambiente laboral e os reflexos dessas tensões na sua saúde em colégios públicos de Salvador/Bahia.
Metodologia
Quanto à metodologia, trata-se de uma abordagem qualitativa, de caráter descritivo, que se apoiou na amostragem snowball (bola de neve). A adoção dessa estratégia possibilitou a quebra de barreiras, porque, embora não haja dificuldade em encontrar docentes, poucos se mostram predispostos a falarem sobre as rotinas laborais. A técnica escolhida foi a entrevista semiestruturada, que explorou as seguintes categorias: formas de violência e consequências da vitimização, riscos, meios de proteção, conflitos, subjetividade frente à vitimização, culpabilização.
Resultados e Discussão
Os resultados possibilitaram associar às categorias de vulnerabilidade adotadas por Peter Waddington (2001), ao estudar sobre a violência sofrida por profissionais de saúde na Inglaterra, como “levando...”; negligência da gestão; culpando a vítima; sendo “deixado/a para baixo” por atitudes dos/as colegas de profissão. Desse modo, um primeiro embate cotidiano é a dificuldade em lidar com situações para as quais não foram preparados, a exemplo de estudantes com “algum transtorno mental” ou àqueles/as que sofrem de alguma “desordem comportamental”, em decorrência do uso de álcool ou drogas. Tais casos geram uma sensação de vulnerabilidade e insegurança, que terminam sendo potencializadas por se sentirem desamparados, ou seja, não há profissionais especializados para acompanhar tais discentes ou mesmo orientar o/a docente a como proceder perante esses cenários. Ademais, a intensidade das agressões verbais sofridas, a falta de apoio da gestão, a precária infraestrutura faz com que o/a docente adotem a postura de estar “levando...”, ou seja, criam estratégias com a finalidade de amenizar o sofrimento no trabalho. A segunda questão remete à “negligência da gestão” na mediação do conflito e consequente proteção do professor perante as agressões sofridas pelos/as discentes ou, por outro lado, o “protecionismo”, ao privilegiar colegas em detrimento de outros, ferindo a isonomia no âmbito profissional. Já a terceira abordagem remete à “culpabilização da vítima”, quando o amor-próprio e a autoconfiança dos/as docentes são atingidos durante alguma insegurança no manuseio da situação de conflito. Nesse contexto, as professoras tendem a ser os alvos mais frequentes, embora os professores também sejam vitimizados, podendo resultar em sérios problemas de saúde, como a síndrome de burnout e episódios de depressão, necessitando o afastamento das atividades laborais. Por fim, alguns profissionais “se sentem para baixo” em decorrência das práticas de seus pares, isto é, quando os/as colegas não realizam o trabalho direito, resultando ainda mais na precarização da profissão docente. Essas tensões são frequentes entre os/as professores novatos e veteranos, intensificadas por serem profissionais jovens e já com títulos de mestrado ou doutorado. Dessa maneira, os panoramas apresentados parecem nos remeter à reflexão sobre o fato dos jovens não se sentirem mais motivados em fazer um curso de licenciatura, pois o adoecimento de docentes, resultando no afastamento das atividades laborais, tem sido observado, principalmente, em colégios públicos no país.
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se, portanto, que a percepção dos/as professores/as desvelou as diversas circunstâncias vividas na sala de aula, que tem potencializado o desgaste profissional, a ausência de condições dignas de trabalho e, por consequência, a exaustão emocional. Assim, cada vez mais, a resiliência tem sido identificada nas salas de aula, numa tentativa última desses profissionais se sobreporem às adversidades cotidianas e à falta de apoio no enfrentamento das dificuldades, sendo, portanto, uma ferramenta aplicada ao contexto educacional a fim de proporcionar aos docentes um exercício saudável da profissão.
ANÁLISE DAS DISPARIDADES RACIAIS E EDUCACIONAIS NAS NOTIFICAÇÕES DE LER/DORT NO BRASIL
Comunicação Oral
1 UEA
2 UFAM
Apresentação/Introdução
As Lesões por Esforços Repetitivos e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (LER/DORT) constituem importante problema de saúde pública, com repercussões econômicas, sociais e impacto direto na capacidade funcional e nos afastamentos laborais (Santos et al., 2016). Esses agravos apresentam etiologia multifatorial, envolvendo fatores biomecânicos, organizacionais e psicossociais, estando fortemente associados aos determinantes sociais da saúde (Monteiro et al., 2025). No Brasil, sua ocorrência é desigual, refletindo racismo estrutural, desigualdades educacionais e inserção precária no mercado de trabalho, especialmente entre populações negras e trabalhadores com menor escolaridade (Walcker et al., 2025). Objetivo: Descrever a distribuição das notificações de LER/DORT no Brasil entre 2015 a 2025 segundo raça/cor e escolaridade e discutir suas implicações para a vigilância em saúde do trabalhador.
Objetivos
Analisar a distribuição das notificações de LER/DORT no Brasil entre 2015 a 2025 segundo raça/cor e escolaridade e discutir suas implicações para a vigilância em saúde do trabalhador.
Metodologia
Estudo descritivo, de abordagem quantitativa, com dados secundários do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN/DATASUS). As notificações foram analisadas segundo ano, raça/cor e escolaridade. Para fins analíticos, as categorias de escolaridade foram agrupadas em: baixa escolaridade (analfabeto e ensino fundamental incompleto), escolaridade intermediária (ensino fundamental completo e ensino médio incompleto/completo) e alta escolaridade (ensino superior incompleto/completo), além da categoria ignorado/branco. Realizou-se análise de frequências absolutas e relativas, articulando os achados com a literatura sobre desigualdades sociais e saúde do trabalhador.
Resultados e Discussão
Entre 2015 e 2025, foram registradas 97.967 notificações de LER/DORT no Brasil (Brasil, 2025). Observa-se uma redução no período pandêmico (2020–2021), seguida de um aumento expressivo a partir de 2022, o que pode refletir tanto a retomada das atividades produtivas quanto uma maior sensibilidade dos sistemas de vigilância. Quanto a variável raça/cor, verificou-se predominância de notificações entre indivíduos autodeclarados brancos (40,3%) e pardos (33,5%), além proporção relevante de registros ignorados (17,0%), evidenciando fragilidades na qualidade da informação (Brasil, 2025). No que se refere à escolaridade, houve maior concentração de casos entre trabalhadores com ensino médio completo (30,5%), seguido por 5ª a 8ª série incompleta (8,8%), ensino fundamental completo (7,7%) e ensino superior completo (8,4%). Destaca-se ainda a elevada proporção de dados ignorados ou em branco (27,8%), o que limita a análise epidemiológica e compromete a identificação de possíveis desigualdades (Brasil, 2025). A predominância de notificações de indivíduos com escolaridade intermediária não pode ser interpretada de forma direta, uma vez que as bases analisadas não contemplam variáveis sobre vínculo empregatício ou formalidade do trabalho. Nesse sentido, a literatura aponta que, trabalhadores inseridos no mercado formal tendem a ter maior acesso ao diagnóstico e à notificação enquanto aqueles com menor escolaridade e inserção em atividades precárias estão mais suscetíveis à subnotificação (Walcker et al., 2025; Medina et al., 2016). Nesse contexto, os achados indicam que a vigilância em saúde do trabalhador ainda apresenta limitações tanto na captação quanto na qualificação das informações, refletindo desigualdades no acesso ao diagnóstico e à notificação, conforme evidenciado em estudos sobre subnotificação de agravos relacionados ao trabalho no SINAN (Medina et al., 2016; Brasil, 2020). A elevada proporção de dados ignorados e a concentração de registros em determinados grupos evidenciam um viés do sistema. Dessa forma, a vigilância não capta integralmente o adoecimento real, especialmente entre os grupos mais vulneráveis, dificultando a identificação de riscos e o direcionamento de ações preventivas (Silva, 2023).
Conclusões/Considerações Finais
As notificações de LER/DORT no Brasil evidenciam desigualdades relacionadas à raça/cor e escolaridade, refletindo iniquidades no acesso à saúde e aos direitos trabalhistas. Os resultados demonstram que a vigilância em saúde do trabalhador apresenta limitações na qualidade e representatividade dos dados, reduzindo a visibilidade do adoecimento em populações vulneráveis. Essas fragilidades podem comprometer o planejamento e a efetividade das ações de prevenção e promoção da saúde, indicando a necessidade de qualificação dos sistemas de informação e fortalecimento de estratégias que ampliem o acesso, a equidade e a capacidade de resposta da vigilância em saúde do trabalhador.
GÊNERO E TRABALHO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE NA AMÉRICA LATINA: ANÁLISE DA ATUAÇÃO DE TRABALHADORAS TÉCNICAS
Comunicação Oral
1 UFBA
2 UERJ
3 EPSJV/FIOCRUZ
4 OPAS
5 MINISTERIO DE EDUCACÍON DE LA NACIÓN/ARGENTINA
Apresentação/Introdução
A Atenção Primária à Saúde (APS) na América Latina tem se estruturado historicamente a partir da incorporação de trabalhadores e trabalhadoras de nível médio, especialmente em contextos de ampliação de cobertura em áreas rurais, periféricas e com populações vulnerabilizadas. Nesse processo, observa-se a presença marcante de mulheres em funções como promotoras de saúde, parteiras, auxiliares e técnicas, o que levanta questões importantes sobre as relações de gênero no trabalho em saúde. Isso ocorre de forma articulada a construções sociais que associam o cuidado ao feminino, influenciando tanto a divisão do trabalho quanto o reconhecimento dessas práticas nos sistemas de saúde.
Objetivos
Analisar como as questões de gênero atravessam a configuração do trabalho na APS em países da América Latina, com foco na atuação de trabalhadoras técnicas e comunitárias, considerando suas práticas, formas de inserção e condições de trabalho.
Metodologia
Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter exploratório, baseado em revisão documental de artigos que abordam a atuação de trabalhadoras técnicas da APS em países da América Latina. Os estudos foram analisados buscando identificar aspectos relacionados à colocação profissional, práticas desenvolvidas, organização do trabalho e condições laborais, com ênfase nas relações de gênero. A análise privilegiou tanto elementos explícitos quanto dimensões implícitas presentes nos textos, especialmente no que se refere à feminização dessas funções e seus desdobramentos.
Resultados e Discussão
Os estudos evidenciam que a APS na América Latina se estrutura, em grande medida, a partir do trabalho de mulheres, com presença predominante em funções de cuidado direto no território, especialmente em ações voltadas à saúde materno-infantil, acompanhamento familiar e mobilização comunitária. Em alguns contextos, essa inserção é explicitamente orientada por critérios de gênero, como a priorização de mulheres para atuação como promotoras ou a organização de equipes com divisão sexual do trabalho, associando mulheres ao cuidado domiciliar e homens a atividades que exigem maior deslocamento ou atuação em áreas consideradas mais difíceis.
Além da ocupação desses espaços, as relações de gênero também atravessam a forma como o cuidado é produzido. As práticas dessas trabalhadoras são frequentemente descritas a partir de atributos como escuta, acolhimento, vínculo, empatia e comunicação acessível, elementos que se mostram centrais para a efetividade das ações em saúde e para a construção de relações de confiança com as comunidades. Em alguns estudos, inclusive, há maior identificação das usuárias com essas profissionais, especialmente em contextos de cuidado em saúde sexual e reprodutiva, reforçando a dimensão relacional do trabalho.
No entanto, essa valorização simbólica do cuidado contrasta com condições materiais frequentemente precárias. As trabalhadoras estão inseridas em vínculos frágeis, com baixa remuneração ou até mesmo em regimes voluntários, enfrentando sobrecarga de trabalho, múltiplas jornadas e acesso limitado à formação e ao desenvolvimento profissional. Em alguns casos, o trabalho é entendido como extensão das atividades domésticas e de cuidado, sendo tratado como complementar à renda familiar, o que contribui para sua desvalorização. Além disso, observa-se posição subalterna dessas trabalhadoras nas equipes de saúde, com menor reconhecimento de seus saberes e forte hierarquização em relação a profissionais de nível superior.
Apesar disso, os estudos também apontam que a atuação dessas mulheres pode representar processos de autonomia e inserção no espaço público, especialmente em contextos rurais e comunitários. Ao atuarem como mediadoras entre serviços de saúde e população, essas trabalhadoras constroem redes, fortalecem a participação social e, em alguns casos, tensionam papéis tradicionais de gênero, ainda que dentro de limites impostos pelas próprias condições de trabalho.
Conclusões/Considerações Finais
A feminização da APS na América Latina revela uma contradição entre a centralidade do trabalho das mulheres na produção do cuidado e sua desvalorização nas condições concretas de trabalho. Ao mesmo tempo em que essas trabalhadoras sustentam práticas fundamentais para a ampliação do acesso, a continuidade do cuidado e a construção de vínculos no território, sua inserção ocorre, frequentemente, em contextos de precarização e baixa valorização social e institucional. A análise das relações de gênero permite compreender não apenas quem realiza o cuidado, mas também como ele é produzido, organizado e reconhecido nos sistemas de saúde, evidenciando a necessidade de políticas que valorizem, qualifiquem e garantam melhores condições de trabalho para essas profissionais.
O SILÊNCIO QUE GRITA: DETERMINANTES SOCIAIS E A PRODUÇÃO DO SUICÍDIO EM TRABALHADORES DA SAÚDE
Comunicação Oral
1 PPGSAT/UFBA
2 UEFS
3 EEUFBA
4 EBSERH
5 FESF-SUS
Apresentação/Introdução
A compreensão do suicídio no contexto laboral exige o rompimento com paradigmas biomédicos e psicologizantes que tradicionalmente reduzem o fenômeno a uma questão individual e patológica. Esta visão fragmentada, centrada em diagnósticos clínicos e tratamentos isolados, tende a ocultar as múltiplas dimensões sociais, econômicas e políticas que estruturam o sofrimento psíquico dos trabalhadores. Nesse cenário, o suicídio constitui um problema de saúde pública em escala global, responsável por aproximadamente um milhão de mortes por ano. No Brasil, o fenômeno ocupa posição de destaque, figurando entre os dez países com maior ocorrência de óbitos registrados (VIEIRA ET AL., 2023; PALMA ET AL., 2023). Sob a lente da saúde coletiva latino-americana, o adoecimento é reconhecido como um processo socialmente determinado, influenciado por condições estruturais e desigualdades históricas. A abordagem proposta visa a transformação social e o enfrentamento das injustiças ao considerar os determinantes sociais, econômicos e políticos da saúde (BREILH & KRIEGER, 2021). O suicídio entre trabalhadores da saúde emerge, portanto, como um sintoma das falhas de um modelo produtivo que prioriza a produtividade em detrimento da dignidade humana, demandando uma análise que vincule o sofrimento às contradições do sistema capitalista neoliberal.
Objetivos
O presente estudo tem como objetivo geral analisar o suicídio entre trabalhadores da saúde a partir do referencial dos determinantes sociais em saúde. Busca-se identificar como os contextos sociopolíticos e as políticas de austeridade impactam a saúde mental desta categoria profissional; examinar a relação entre as condições organizacionais, o processo de trabalho e o desgaste psíquico ; e compreender de que maneira os marcadores interseccionais de raça, gênero e classe modulam as vulnerabilidades e os padrões de mortalidade por suicídio . Adicionalmente, pretende-se produzir evidências que subsidiem o fortalecimento da vigilância em saúde do trabalhador e o planejamento de ações voltadas à redução do risco ocupacional.
Metodologia
A trajetória metodológica fundamenta-se no materialismo histórico e na epidemiologia crítica, rejeitando a neutralidade técnica e os métodos positivistas de causalidade linear (LAURELL, 1981; BREILH & KRIEGER, 2021). A estrutura analítica dos determinantes sociais em saúde integrados: os contextos sociopolíticos (macro), o ambiente e condições de trabalho (intermediário), os marcadores socioeconômicos e as experiências individuais. . Substituem-se as noções tradicionais de "risco" por conceitos como "cargas de trabalho" e "desgaste" (LAURELL, 1981), permitindo captar as condições de saúde em contextos de exploração. A interseccionalidade opera como o eixo transversal que articula esses níveis (AKOTIRENE, 2019; COLLINS & BILGE, 2021).
Resultados e Discussão
A articulação do modelo teórico revela que a mortalidade por suicídio entre trabalhadores da saúde é influenciada, primeiramente, por um contexto sociopolítico marcado pelo capitalismo contemporâneo e políticas de austeridade que impactam o financiamento do sistema de saúde (BUSS & PELLEGRINI FILHO, 2007). No nível intermediário, as condições de trabalho configuram ambientes que potencializam o desgaste mental. Esses trabalhadores estão particularmente expostos a elevadas demandas emocionais, situações traumáticas recorrentes e contato constante com o sofrimento e a morte, condições frequentemente agravadas por vínculos laborais precários e baixa valorização profissional (VIEIRA ET AL., 2023; SILVA ET AL., 2015).
Ademais, os resultados demonstram que marcadores socioeconômicos de raça, gênero e classe expressam desigualdades estruturais. Fatores como faixa etária jovem, elevado nível educacional associado à baixa remuneração e restrição da autonomia profissional também aparecem como elementos críticos (SILVA ET AL., 2015). Por fim, as experiências individuais de sofrimento são ressignificadas como respostas subjetivas a contextos sociais concretos (NAVASCONI & PALMA, 2022). A análise evidencia que os padrões de suicídio não são aleatórios, mas refletem fatos sociais ligados à coesão coletiva e à alienação imposta por uma sociedade opressiva .
Conclusões/Considerações Finais
Conclui-se que o suicídio no trabalho em saúde é um fenômeno social e subjetivo gerado por condições materiais e simbólicas adversas. O modelo teórico proposto supera explicações reducionistas ao demonstrar que a saúde mental está intrinsecamente ligada à justiça social e à organização do trabalho. As considerações finais apontam para a necessidade urgente de estratégias de prevenção que transcendam o acolhimento clínico individual, focando na transformação das estruturas macroeconômicas e institucionais que produzem o desgaste humano. A promoção da saúde mental desses trabalhadores exige, portanto, a garantia de direitos e o enfrentamento das injustiças estruturais que permeiam o sistema de saúde contemporâneo.
VIOLÊNCIA URBANA E ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: IMPLICAÇÕES PARA O PROCESSO DE TRABALHO DE AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE (ACS)
Comunicação Oral
1 UFRGS
Apresentação/Introdução
Os agentes comunitários de saúde (ACS) ocupam posição estratégica na Atenção Primária à Saúde (APS), atuando como elo entre os serviços de saúde e as comunidades. Sua prática é intrinsecamente territorial: é no espaço vivido das famílias e das vizinhanças que se realizam visitas domiciliares, o acompanhamento de condições crônicas, a vigilância em saúde e as ações de promoção da saúde. No entanto, em contextos urbanos marcados por desigualdades sociais, o território é atravessado por relações de poder, conflitos e distintas formas de organização da vida social. Nesse cenário, a violência, compreendida como um fenômeno multidimensional que expressa e reproduz desigualdades estruturais, incide sobre as condições de realização do trabalho nesses espaços.
No cotidiano dos ACS, a violência pode se expressar por meio de restrições à circulação e à realização das atividades, bem como por repercussões no bem-estar dos trabalhadores. Apesar de sua relevância, as formas pelas quais a violência incide sobre o processo de trabalho desses profissionais ainda são pouco exploradas na literatura e nas políticas públicas. Compreender essas dinâmicas é fundamental para avançar na análise das condições de produção do cuidado na APS em territórios urbanos vulnerabilizados.
Objetivos
Analisar como a violência nos territórios urbanos interfere no processo de trabalho de ACS, considerando ainda seus efeitos sobre o bem-estar dos trabalhadores.
Metodologia
Estudo transversal com dados preliminares de questionário online aplicado a agentes comunitários de saúde (ACS) participantes do Programa Saúde com Agente e do Programa Mais Saúde com Agente, um curso de formação técnica realizado nacionalmente pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS). A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética em Pesquisa da UFRGS. Para este estudo, foram incluídos apenas ACS que atuavam predominantemente em áreas urbanas. A violência no território foi operacionalizada a partir de itens do questionário referentes às experiências nos últimos 30 dias, que investigaram: (i) evitação de ruas ou áreas no trajeto ou território de atuação; (ii) remarcação ou cancelamento de visitas domiciliares ou atividades de trabalho; (iii) retorno ao domicílio em estado de preocupação ou tensão relacionado à segurança; e (iv) prejuízo do sono ou descanso devido ao medo da violência. As variáveis foram analisadas de forma dicotomizada (“nunca” vs. “pelo menos uma vez”).
Resultados e Discussão
Foram analisadas respostas de 13.325 agentes comunitários de saúde atuantes em áreas urbanas de todo o país. Os achados evidenciam que a violência nos territórios incide diretamente sobre a organização do trabalho, produzindo restrições concretas à atuação desses trabalhadores. A maioria dos participantes relatou evitar áreas de atuação (60,8%) e remarcar ou cancelar visitas domiciliares (61,4%) pelo menos uma vez nos últimos 30 dias. Destaca-se que essas situações não se limitaram a ocorrências pontuais, sendo relatadas com maior frequência (algumas ou muitas vezes) por uma parcela importante dos trabalhadores, alcançando 40,4% no caso da evitação de áreas e 34,5% na remarcação de visitas. Esses resultados sugerem que o território, elemento estruturante da APS, tem suas condições de circulação e atuação condicionadas por situações de violência e insegurança, que redefinem, na prática, as possibilidades de realização das atividades. O exercício do trabalho no território, portanto, não se configura como contínuo, sendo por vezes interrompido ou reorganizado em função dessas situações.
Além das repercussões sobre a organização do trabalho, observou-se potenciais impactos para o bem-estar dos ACS: 64,5% dos participantes relataram retornar ao domicílio em estado de preocupação ou tensão devido à violência no território, e 53,9% referiram prejuízo do sono devido ao problema. Esses elementos indicam que a violência não apenas limita a ação no território, mas também produz desgaste emocional nos trabalhadores.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados sugerem que a violência nos territórios urbanos se configura como parte das condições em que o trabalho da APS se realiza. Ao incidir sobre a circulação no território e a realização das atividades, a violência produz restrições concretas à atuação dos agentes comunitários de saúde e reconfigura o processo de trabalho no território. O estudo também expõe uma questão latente sobre o impacto da violência no bem-estar dos ACS. Ao evidenciar que essas dinâmicas, contribuem para a compreensão da violência como dimensão constitutiva do trabalho em saúde em territórios vulnerabilizados, com implicações para a produção do cuidado e para a saúde e proteção dos trabalhadores.
“O HOMEM COLETIVO SENTE A NECESSIDADE DE LUTAR”: REFLEXÕES SOBRE A MOBILIZAÇÃO DE MÉDICAS/OS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO DE 2024 A 2026
Comunicação Oral
1 IESC/UFRJ
2 Médica de equipe CF Mestre Molequinho do Império - Secretaria Municipal de Saúde RJ / Presidente da gestão 2024-2026 da Associação de Medicina de Família e Comunidade do Estado do Rio de Janeiro (AMFaC-RJ) / Membro do departamento da Atenção Primária à
3 Hospital-Escola São Francisco de Assis (HESFA)/UFRJ
4 Centro Municipal de Saúde Renato Rocco
5 Secretaria Municipald de Saúde - Rio de Janeiro
6 UFRJ
Contextualização
No Rio de Janeiro, a reforma da Atenção Primária à Saúde (APS) expandiu significativamente a Estratégia Saúde da Família (ESF) a partir de 2009. Contudo, entre 2017 e 2020, houve demissão de centenas de profissionais e redução de equipes. Essa fragilidade institucional é indissociável do modelo de gestão por Organizações Sociais (OS), amparado pela ideologia neoliberal que, desde o Plano Bresser, justifica a gestão indireta pela suposta eficiência privada (Costa et al., 2021). Na gestão atual, pelo mesmo grupo político responsável pela expansão inicial da ESF, observa-se a retomada do modelo gerencialista: impõe-se às equipes uma carga crescente de funções clínicas e administrativas, com remuneração variável segundo cumprimento de metas, mantendo-se o número de pacientes adscritos acima do recomendado pelo Ministério da Saúde (Poli Neto et al., 2016; Schmidt; Farias, 2025). O resultado é a exigência de um trabalhador polivalente e flexível, submetido a um ritmo produtivo intenso que desvirtua o cuidado e individualiza o sofrimento relacionado ao trabalho (Chiavegato Filho; Navarro, 2012).
Descrição
O estopim da mobilização dos médicos da APS do Rio de Janeiro ocorreu em 2024, quando cerca de 90000 solicitações do SISREG foram devolvidas pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) num único dia, sendo 30% da fila naquele momento, o que exigiria do médico nova resposta para que a solicitação retornasse à fila. A ação, com evidência de clara automação, gerou sobrecarga de trabalho dos profissionais, assim como indignação, já que a ação parecia antiética de redução artificial da fila de espera da atenção secundária, em especial ocorrido em ano eleitoral. A partir desse evento, a Associação de Medicina de Família e Comunidade do Rio de Janeiro convocou reuniões abertas para os médicos da APS, canalizando as insatisfações da categoria. Ao longo de 2025, com os trabalhadores já organizados pelo Sindicato dos Médicos (Sinmed), a dificuldade de negociação culminou na realização de atos públicos e paralisações reivindicando a revisão dos Acordos Coletivos de Trabalho (ACT), a quitação de dívidas de metas variáveis de desempenho (atrasadas desde 2023), recomposição salarial (com perdas inflacionárias de 30%), plano de ação para apoio aos episódios de violência contra os profissionais de saúde, redução da sobrecarga administrativa e adequação do tamanho da população adscrita por equipe de saúde da família. Diante da intransigência da gestão, que opera o jogo de transferência de responsabilidades entre as OS e a SMS, típico da terceirização (Severo, 2019), a categoria iniciou greve em fevereiro de 2026.
Período de Realização
Julho de 2024 – em curso
Objetivo
Sistematizar a articulação de um coletivo de profissionais de saúde, majoritariamente médicos da APS, para refletir sobre os sucessos e as limitações das lutas de trabalhadores na contemporaneidade.
Resultados
A mobilização resultou no fortalecimento político da categoria, com a eleição de uma nova gestão para o Sinmed em 2025 composta em parte por médicos de família e comunidade da ponta. No campo jurídico, a atuação sindical impediu práticas antissindicais, como a contratação de "fura-greves" para normalizar unidades paralisadas. Após dois anos de movimento, a manutenção de assembleias com centenas de profissionais, incluindo aqueles de áreas da cidade mais afastadas e que historicamente sofrem maior assédio por parte de gestores locais, demonstra o resgate da confiança na ação coletiva. Além disso, posturas assediadoras da gestão — como o xingamento público de trabalhadores pelo Secretário de Saúde — foram convertidas em denúncias éticas formais, tensionando a impunidade dos gestores. Como limitações, há a dificuldade para conseguir a recontratação de demissões retaliatórias, a baixa repercussão na grande mídia, o desafio de lidar com a lentidão da Justiça e as barreiras para adesão de outras categorias de trabalhadores da saúde.
Aprendizado e Análise Crítica
O principal aprendizado é que a articulação coletiva gera possibilidade de deslocar o sofrimento ético-político da esfera individual para a pública. A experiência explicita as contradições do trabalho na APS sob o domínio do capital financeiro e da gestão por resultados (Chiavegato Filho; Navarro, 2012; Poli Neto et al., 2016). O episódio do estopim exemplifica o uso da IA para ampliar a exploração: a tecnologia não é usada para facilitar o cuidado, mas para gerir números e transferir a carga burocrática ao trabalhador. A precarização via OS cria um limbo de responsabilidades que fragiliza o vínculo empregatício e dificulta a luta sindical unificada (Severo, 2019), apesar da reocupação do Sinmed poder ser uma fonte de inspiração às demais categorias. A luta por ACTs e contra o assédio moral configura-se como uma resistência ao gerencialismo, que tenta transformar o ato clínico em uma mercadoria quantificável. O movimento reafirma que a saúde do trabalhador e a qualidade da atenção ao usuário são faces da mesma moeda: não há cuidado possível sob condições de exploração e desamparo social.
Realização: