Programa - Comunicação Oral - CO13.1 - Políticas de Prevenção e Tecnologias de Cuidado: Perspectivas e Gestão da PrEP no SUS
17 DE SETEMBRO | QUINTA-FEIRA
13:10 - 14:30
13:10 - 14:30
BIOPOLÍTICA E FARMACOLOGIZAÇÃO DO PRAZER: UM ESTUDO SOBRE O USO DA PREP E A GESTÃO DO RISCO EM SALVADOR/BA
Comunicação Oral
1 UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
Apresentação/Introdução
A incorporação da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) às políticas de prevenção ao HIV no Brasil transborda a dimensão biomédica, inaugurando novos regimes de visibilidade e governo dos corpos. Em Salvador, cidade atravessada por disparidades socioterritoriais e raciais persistentes, a PrEP atua como um dispositivo biopolítico que reconfigura as fronteiras entre saúde pública, tecnologia e subjetividade. O fenômeno da farmacologização (a tradução de dilemas sociais em soluções químicas) redefine a gestão do risco, deslocando-a do campo da moralidade do látex para o campo da disciplina farmacológica e da otimização da vida.
Objetivos
Analisar como o uso da PrEP produz novas modalidades de gestão do risco e do prazer, explorando seus efeitos na construção de subjetividades sexuais em Salvador. Busca-se investigar como marcadores sociais de diferença (raça, classe e território) tensionam a universalidade do acesso no SUS e condicionam as trajetórias de cuidado e adesão à profilaxia.
Metodologia
Estudo qualitativo, realizado ao longo de três anos (2023 à 2025) em um Serviço de Atenção Especializada (SAE) em Salvador/BA. A pesquisa utilizou a triangulação de métodos: (1) observação participante nos fluxos de acolhimento e salas de espera; (2) acompanhamento das rotinas de dispensação e aconselhamento; (3) entrevistas em profundidade com usuários de diversos perfis socioeconômicos. A análise foi fundamentada no referencial da biopolítica de Michel Foucault e em teorias contemporâneas sobre a medicalização da sexualidade e a governamentalidade biotecnológica.
Resultados e Discussão
O estudo revela que a PrEP opera como uma "tecnologia de si", permitindo uma autonomia erótica antes cerceada pelo medo da infecção, mas que exige, em contrapartida, uma vinculação estrita a protocolos laboratoriais e vigilância clínica. Três eixos críticos emergiram da análise em Salvador: A racialização do cuidado: O acesso não é daltônico. Usuários negros relatam experiências de "suspeição clínica" e estigmatização nos serviços, onde sua capacidade de adesão é frequentemente questionada sob o viés do racismo institucional. Enquanto sujeitos brancos de classe média acessam a PrEP como ferramenta de "liberdade", para corpos negros, o fármaco muitas vezes é mediado por uma vigilância institucional mais punitiva; Barreiras de classe e a economia do tempo: A burocratização do acesso (exames trimestrais e horários rígidos) atua como um filtro de exclusão. Em uma metrópole com mobilidade urbana precária, o "tempo da clínica" colide com o "tempo da sobrevivência" de trabalhadores precarizados, evidenciando que a farmacologização do prazer ainda é um privilégio de quem detém flexibilidade laboral e recursos de deslocamento; Biopolítica digital e aplicativos: Plataformas de encontros (Grindr, Scruff, Tinder, Bate-papo, etc.) participam da produção de normas de "segurança". O selo "em PrEP" nesses espaços cria hierarquias de desejabilidade e novas formas de negociação do risco, onde o fármaco substitui a barreira física, mas instaura uma vigilância comunitária sobre quem está "protegido" ou "vulnerável". Essas percepções demonstram que a gestão do risco não se distribui de forma homogênea; ela é capturada por estruturas de poder que determinam quem pode ou não exercer o direito ao prazer “desmedicalizado” do medo.
Conclusões/Considerações Finais
A PrEP em Salvador não é apenas um insumo preventivo, mas um dispositivo que articula cuidado e controle. Embora amplie a autonomia e reduza o impacto psicossocial do HIV, sua implementação no SUS corre o risco de aprofundar desigualdades se ignorar a interseccionalidade. Os resultados reforçam a necessidade de estratégias que desburocratizem o acesso e enfrentem o racismo institucional, garantindo que a inovação tecnológica não se converta em mais um mecanismo de estratificação social na saúde pública.
ENTRE INTEGRALIDADE E FRAGMENTAÇÃO: GESTÃO DO CUIDADO NAS TRAJETÓRIAS DE SOROCONVERSÃO ENTRE JOVENS HSH E MULHERES TRANS EM USO DE PREP
Comunicação Oral
1 UNISANTOS
2 USP
3 UFMG
4 Global Public Health
5 UFBA
Apresentação/Introdução
A transição entre o conhecimento sobre a profilaxia pré-exposição sexual ao HIV (PrEP) e sua adoção consistente e adesão tem ocorrido de forma mais lenta do que o esperado entre adolescentes e jovens LGBTQIA+. Embora as soroconversões durante o uso da PrEP sejam frequentemente associadas a questões de saúde mental e à diminuição da percepção de risco ao longo do tempo, pouca atenção tem sido dada à forma como sistemas mais amplos de poder e desigualdade moldam essas dinâmicas. Condições estruturais e identidades sociais influenciam a saúde mental e a percepção de risco de maneiras que afetam o uso e a continuidade da PrEP — uma relação ainda insuficientemente explorada.
Objetivos
Examinamos como múltiplas identidades sociais se articulam na experiência do uso de PrEP oral e injetável entre adolescentes e jovens homens que fazem sexo com homens, travestis e mulheres trans que soroconverteram.
Metodologia
Os participantes foram incluídos no Estudo PrEP15-19, um estudo demonstrativo de PrEP com adolescentes e jovens homens que fazem sexo com homens, travestis e mulheres trans de 15 a 19 anos conduzido em Belo Horizonte, Salvador e São Paulo entre 2019 e 2025. Na primeira fase, foi ofertada PrEP oral diária; na segunda, os participantes puderam escolher entre PrEP oral sob demanda ou PrEP injetável de longa duração com cabotegravir.
Foram analisados dados provenientes de entrevistas em profundidade com oito participantes que soroconverteram durante o uso de PrEP oral na primeira fase e três que adquiriram HIV na segunda fase. Orientados por uma abordagem interseccional e analítica iterativa, examinamos como gênero, sexualidade, raça e classe interagiram nas experiências dos participantes em relação ao uso da PrEP e à percepção de risco ao HIV.
Três categorias temáticas emergiram, revelando temporalidades distintas e não lineares na relação entre uso da PrEP, marcadores sociais da diferença e gestão do cuidado.
Resultados e Discussão
Os participantes se identificaram como homens cisgênero (10), mulheres trans (2) e gênero fluido (1), com idades entre 16 e 22 anos. Sete se identificaram como negros, três como brancos e três como amarelos. Predominaram condições de vida precárias, incluindo desemprego, moradia instável e baixa renda. Cinco haviam abandonado a escola, todos vivenciaram trabalho informal ou instável, e três relataram sexo transacional. Experiências de homofobia e transfobia foram frequentes em contextos familiares e escolares, incluindo agressões físicas e expulsões de casa. Todos relataram sofrimento psíquico persistente desde a adolescência; a maioria recebeu diagnósticos em saúde mental ou de neurodivergência, e dois relataram tentativas de suicídio associadas à violência familiar.
Inicialmente, a decisão de iniciar a PrEP esteve vinculada à construção de um plano de cuidado, articulando medo do HIV e histórico de IST à busca por proteção em contextos de vulnerabilidade. Ao longo do tempo, porém, a gestão cotidiana do cuidado mostrou-se instável. Dificuldades de adesão se sobrepuseram a condições estruturais, como demandas de trabalho e estudo, insegurança habitacional e precariedade econômica, comprometendo a continuidade do uso e o acesso aos serviços.
As transições entre modalidades de PrEP foram mobilizadas como estratégias adaptativas, nem sempre com melhora sustentada da adesão. O estigma atravessou as experiências, implicando ocultação do uso e dificuldades nas relações sociais. Entre aqueles com uso inconsistente, o sexo sem preservativo frequentemente persistiu, sendo substituído por outras formas de proteção percebida, como testagem regular para IST e relações estáveis, indicando tentativas de manejo do risco em contextos de restrição de recursos.
Em contextos de intensificação das vulnerabilidades, observou-se a ruptura das práticas de autocuidado, com afastamento da PrEP e redução da percepção de risco. Sofrimento psíquico intenso, relações abusivas e contextos de troca sexual contribuíram para essa descontinuidade. Apesar da valorização do vínculo com os serviços, houve tendência à responsabilização individual pela infecção.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados evidenciam que a gestão do cuidado entre adolescentes e jovens HSH e mulheres trans em uso de PrEP é atravessada por desigualdades estruturais e marcadores sociais que incidem sobre a percepção de risco, o uso das tecnologias de prevenção e o engajamento com os serviços.
A coexistência entre sofrimento psíquico, precarização das condições de vida e uso de substâncias tensiona a articulação entre autocuidado e cuidado ofertado, revelando limites na integralidade e continuidade da atenção no SUS. A gestão do cuidado requer, portanto, estratégias que articulem prevenção ao HIV, saúde mental e proteção social, integrando diferentes níveis do sistema e fortalecendo vínculos e continuidade do cuidado. Essas direções são fundamentais para enfrentar iniquidades e promover respostas mais integrais e equitativas no SUS.
O PROCESSO DE DECISÃO PELA MODALIDADE DE PREP POR ADOLESCENTES DE MINORIA SEXUAL E DE GÊNERO À LUZ DA AUTONOMIA RELACIONAL E DA INTERSECCIONALIDADE
Comunicação Oral
1 FMUSP
2 Universidade Católica de Santos
3 UFMG
4 UFBA
Apresentação/Introdução
A alta incidência de HIV entre adolescentes no Brasil evidencia desafios na prevenção e reforça a importância de compreender os processos de decisão sobre o uso da PrEP a partir da autonomia relacional e da interseccionalidade.
Objetivos
Compreender como adolescentes de minorias sexuais e de gênero decidem sobre modalidades de PrEP.
Metodologia
O Estudo PrEP Escolhas é uma pesquisa de coorte multicêntrica realizada em serviços de saúde de São Paulo, Salvador e Belo Horizonte, com adolescentes (15–21 anos), incluindo mulheres trans, travestis, homens trans e homens que fazem sexo com homens. Avaliou-se a implementação de PrEP oral diária, sob demanda e cabotegravir (CAB-LA). Em 2024, foram realizadas 70 entrevistas em profundidade, analisadas por categorização temática orientada pelos referenciais da autonomia relacional e da interseccionalidade.
Resultados e Discussão
Foram identificados três perfis de decisão: 1. Praticidade na rotina preventiva: nesse perfil as escolhas privilegiam modalidades que reduzem a carga cotidiana do manejo preventivo. A migração da PrEP oral para a injetável esteve associada a rotinas intensas de trabalho, estudo e vida social, sendo esta percebida como estratégia que redistribui a responsabilidade do cuidado entre sujeitos e serviços. Esse perfil contemplou 47 participantes, predominantemente pessoas negras (n=37), com maior presença de homens cis (n=30), seguidos por pessoas trans (n=17). No que se refere à orientação sexual, 18 se identificam como gays e, quanto à ocupação, 18 são estudantes. Observou-se que, embora a PrEP oral diária tenha sido a modalidade inicial mais frequente (n=25), houve uma migração expressiva para a PrEP injetável (n=43). 2. (in)tolerabilidade dos efeitos adversos: Nesse segundo perfil destacam-se aqueles para os quais os efeitos adversos são interpretados a partir de sua interferência na vida cotidiana, e não apenas por critérios biomédicos. Sintomas associados à PrEP oral foram considerados mais disruptivos do que o desconforto pontual da aplicação injetável. Relações com profissionais de saúde e redes comunitárias mostraram-se centrais na mediação dessas decisões, especialmente entre pessoas trans. Os 13 participantes situados nesse perfil são predominantemente pessoas negras (n=11). Em relação à identidade de gênero, maior presença de homens cis (n=8), seguidos por pessoas trans (n=5). Quanto à orientação sexual, 7 se identificaram como gays. Em relação à escolaridade, observou-se uma distribuição equilibrada entre participantes com ensino médio em curso, ensino médio concluído e ensino superior incompleto (3 para cada). A PrEP oral diária foi a modalidade inicial mais frequente (n=8), entretanto, ao longo do tempo, a PrEP injetável passou a predominar (n=8), indicando que os efeitos adversos não são interpretados exclusivamente a partir de seu risco biomédico, tornando-se problemáticos sobretudo quando interferem em dimensões da vida cotidiana, como a vida sexual, o lazer e o trabalho. 3) orientado pelas práticas sexuais: a escolha da modalidade articula-se à frequência das relações, número de parceiros e previsibilidade das práticas sexuais. A PrEP sob demanda foi valorizada em contextos de menor frequência sexual e como estratégia de manejo da exposição no ambiente doméstico, sendo influenciada também por relações familiares e afetivo-sexuais. Nesse perfil, os 10 participantes eram predominantemente negros (n=8). Em relação à identidade de gênero, houve maior presença de homens cis (n=6), seguidos por pessoas trans (n=4). No que se refere à orientação sexual, metade (n=5) se identificaram como gays. Em relação à escolaridade, destacou-se a presença de participantes com ensino médio em curso (n=5), e, quanto à ocupação, cinco eram estudantes. No início, houve predominância da PrEP oral sob demanda (n=6), com aumento no uso dessa modalidade ao longo do tempo (n=9), indicando decisões orientadas por características da vida sexual.
Conclusões/Considerações Finais
A decisão sobre modalidades de PrEP entre adolescentes é situada, relacional e atravessada por marcadores sociais da diferença. As escolhas se organizam na interface entre rotinas, efeitos adversos e práticas sexuais, mediadas por relações sociais, especialmente entre pessoas trans, e institucionais. Os achados apontam para a necessidade de o SUS incorporar abordagens mais contextualizadas sensíveis às dinâmicas sociais que estruturam o cuidado da prevenção.
OFERTA DA PROFILAXIA PRÉ- EXPOSIÇÃO (PREP) AO HIV EM UBS EM MANAUS-AM: MORALIDADES NO DISCURSO PROFISSIONAL ÀS PESSOAS QUE BUSCAM O AUTOCUIDADO
Comunicação Oral
1 DASPAM
2 UEA
3 USP
Apresentação/Introdução
Este estudo compõe um dos eixos da pesquisa sobre a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) para prevenção ao HIV na América do Sul: etnografia das experiências de acesso, uso e gestão, com financiamento do CNPq. Segundo dados da UNAIDS (2025), a infecção por HIV/AIDS permanece como um importante problema de saúde pública global, impactando cerca de 39 milhões de pessoas em 2022, com 1,3 milhão de novas infecções e 630 mil óbitos relacionados à doença. Desta forma, a PrEP surge como uma estratégia inovadora e potente na prevenção do HIV, ao propor o uso de antirretrovirais de forma preventiva, articulando-se com outros métodos para a prevenção combinada. Contudo, sua oferta e implementação no Brasil obedece a Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas e não ocorre em um campo neutro, sendo atravessadas por dimensões sociais e simbólicas, que pode influenciar tanto a abordagem dos profissionais de saúde quanto a adesão e a percepção dos usuários acerca da profilaxia.
Objetivos
Compreender as práticas de cuidado na oferta da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) na Atenção Primária à Saúde (APS) em Manaus, com ênfase nas dimensões morais e socioculturais que atravessam essa prática.
Metodologia
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, de cunho etnográfico. A produção dos dados ocorre por meio de triangulação metodológica, articulando pesquisa documental, observação em campo e entrevistas com participantes. O campo de estudo é a Unidade Básica de Saúde (UBS) Ajuricaba, localizada em Manaus, referência na oferta da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP).
Resultados e Discussão
Cenário 1: Unidade Básica de Saúde, 2026. Pesquisadora: “Quando você veio trabalhar aqui, com a PrEP, como você se sentia?” Técnica de enfermagem: sorri nervosa, quase que envergonhada, e responde, ...” então, né, no início, eu tinha uma visão né, como se fosse de forma banal”. Pesquisadora: “Mas o que é banal para você?” Técnica de enfermagem: ....” achava que era assim....a pessoa não tinha responsabilidade com os outros, porque podia ir lá, fazer o sexo desprotegido e pegar a PEP, né, ou a PrEP e... vai tá tudo bem”.
As falas se repetem em outros cenários.
Cenário 2: Entrevista com um Gestor da UBS
...”ela não quer ter parceiro fixo, ela acha que a vida é uma goza”
Cenário 3: Enfermeira atendendo um adolescente acompanhado do responsável
...”já tá querendo ter uma vida ativa”...”já quer fazer extravagância”
Quando os profissionais e gestor abordados expressam seus pensamentos sobre os usuários da PrEP, eles não estão meramente emitindo uma opinião pessoal. Estão sendo expostas moralidades socialmente produzidas, e essas agem como dispositivos regulatórios de conduta no campo da saúde. Nos três cenários é possível observar uma ativação do regime de verdades sobre a sexualidade do indivíduo. O usuário da PrEP infringe as regras de um relacionamento monogâmico, por exemplo, por isso as classificações são facilmente lançadas sobre o indivíduo: “banal”, “irresponsáveis”, extravagantes”. Porém, os sujeitos que buscam a PrEP não estão se posicionando em pró do autocuidado? A ideia de que o usuário pode “fazer sexo desprotegido e depois resolver” sugere um incômodo com aquilo que Foucault denomina como tecnologias de si, ou seja, práticas pelas quais os sujeitos gerenciam seus próprios riscos e produzem formas de autocuidado. No entanto, esse autocuidado, quando não se alinha a determinados padrões morais, tende a ser deslegitimado ou interpretado como irresponsabilidade.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados parciais evidenciam que a oferta da PrEP na APS é atravessada por moralidades. De acordo com o conceito a moralidade são conjuntos de valores, normas, julgamentos e princípios que definem o “certo” e o “errado”, o “aceitável” e o “inaceitável” dentro de uma sociedade, e que influenciam práticas de cuidado e percepções profissionais. Tais elementos podem tensionar o acesso e o acolhimento das populações-chave e interferir na eficiência da oferta da estratégia de autocuidado.
PERCEPÇÕES DE JOVENS HSH E TRMT SOBRE A PREP E A PREVENÇÃO DO HIV: CONTRIBUIÇÕES PARA O APRIMORAMENTO DE INTERVENÇÕES COMUNITÁRIAS MEDIADAS POR EDUCADORES PARES
Comunicação Oral
1 UFBA
2 UNEB
3 UNEB/FIOCRUZ
4 UFBA/UNEB
Apresentação/Introdução
Apesar dos avanços do Brasil nas ações de prevenção, testagem e tratamento do HIV (Human Immunodeficiency Virus), jovens entre 15 e 24 anos ainda apresentam as maiores taxas de incidência da infecção. Embora, no país, a profilaxia pré-exposição (PrEP) oral tenha sido incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) para adolescentes de 15 a 17 anos em 2021, sua utilização permanece inferior a 1% entre populações-chave, especialmente entre homens que fazem sexo com homens (HSH), travestis e mulheres trans (TrMT). Esse cenário evidencia a necessidade da implementação de estratégias preventivas que minimizem as barreiras de acesso em contextos de vulnerabilidade social. A atuação de educadores pares com diversidade sexual e de gênero (DSG), capacitados e integrados a equipes de saúde, pode ampliar a aceitabilidade e a iniciação à PrEP em contextos comunitários.
Objetivos
Este estudo teve como objetivo analisar as concepções sobre PrEP e prevenção ao HIV através dos discursos dos jovens HSH e TrMT, de forma a contribuir para construção/aprimoramento de intervenções comunitárias mediadas por educadores pares.
Metodologia
Trata-se de um estudo descritivo, com abordagem qualitativa orientado pelo Consolidated Framework for Implementation Research (CFIR). Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 17 jovens HSH e TrMT, com e sem experiência de uso da PrEP em uma capital do Nordeste brasileiro. A estratégia de observação participante em espaços comunitários e de socialização foi escolhida como forma de melhor compreensão das dinâmicas contextuais relevantes. A análise dos dados foi conduzida por meio de uma abordagem de avaliação rápida (rapid assessment), o roteiro foi estruturado a partir das dimensões do CFIR, contemplando: (1) características da intervenção (aceitabilidade, confiança, adaptabilidade da PrEP em formato comunitário); (2) características dos indivíduos (conhecimentos, crenças, trajetórias e experiências prévias); (3) contexto interno (dinâmicas comunitárias, redes de sociabilidade e espaços de circulação); (4) contexto externo (estigma, influências sociais, barreiras estruturais de acesso). Além disso, articulou-se à análise do discurso, com foco na identificação de barreiras, facilitadores e sentidos atribuídos à prevenção e ao uso da PrEP.
Resultados e Discussão
O perfil dos entrevistados apontou para predominância de homens cisgênero (58,8%), embora 41,2% se identifiquem como pessoas transgênero (mulheres trans, pessoas não-binárias, travesti e gênero fluido). Em relação à orientação sexual, a maioria dos participantes se declarou homossexual (58,8%), seguida por pansexual (17,6%), enquanto os heterossexuais e bissexuais corresponderam a 11,8%. Quanto à raça/cor, os participantes negros (pretos e pardos) corresponderam a 88,3% da amostra. No que se refere ao conhecimento sobre a PrEP, foram identificados dois grupos distintos. Parte desses jovens demonstrou familiaridade com a PrEP enquanto mecanismo de prevenção, seu funcionamento e as modalidades do uso. Em outro grupo de participantes, o conhecimento se restringia a identificação da nomenclatura do medicamento, frequentemente associada a experiências anteriores, sem domínio sobre suas indicações, formas de utilização e populações elegíveis. Para os usuários de PrEP, destaca-se as relações de aproximação criadas em torno do medicamento que não ocorrem, necessariamente, apenas por meio de um profissional de saúde, mas através da rede de pares (amigos, parentes, conhecidos) como movimento de afirmação da importância da medicação, diálogo sobre prevenção e acolhimento mútuo em situações de exposição. Ainda nesta dimensão, os atributos esperados dos educadores pares emergem através das expectativas de que seja uma pessoa pertencente à comunidade LGBTQIAP+ e que, no geral, tenha capacidade de acolhimento, escuta, domine as informações acerca da PrEP e suas possíveis implicações. Na dimensão do contexto interno, e compreendendo a comunidade enquanto espaço de socialização, vivência e troca de relações, foram observados também elementos da conjuntura comunitária e familiar, na qual aparece, repetidamente, a construção moral e estigmatizante da medicação. Na dimensão do contexto externo, são identificadas barreiras que impedem o acesso aos serviços formais de saúde como: extensas filas de espera, documentos próprios do município e preço do transporte público. Além da luta simbólica, fabricada pela tentativa de reconhecimento desses grupos, dentro do campo da saúde, na busca de outra representação que não seja a representação estigmatizada.
Conclusões/Considerações Finais
Os resultados contribuíram para o refinamento da intervenção COMPrEP, ao destacar o papel das percepções juvenis na construção de estratégias de implementação e na ampliação do acesso equitativo à PrEP. Ademais, apontam potencial para o subsídio na incorporação de seus componentes em políticas de saúde no âmbito do SUS, na medida em que a intervenção for implementada.
“ESSE TIPO DE PÚBLICO”: HABITUS E CAPITAIS SIMBÓLICOS NA GESTÃO DA PREP E A PRODUÇÃO DE USUÁRIOS LEGÍTIMOS NA AMAZÔNIA
Comunicação Oral
1 UEA
2 USP
Apresentação/Introdução
A biomedicalização da prevenção do HIV é um processo social, no qual a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) é um elemento em disputa dentro do campo da gestão, podendo ser um instrumento de expansão de direitos e/ou de regulação de sujeitos e práticas sexuais. Considerando que as práticas profissionais e de gestão não estão apenas a execução de uma tarefa, mas refletem suas relações sociais e trajetórias individuais.
Objetivos
Este estudo tem como objetivo compreender como os habitus e capitais simbólicos dos gestores da política de prevenção ao HIV produzem classificações de usuários de PrEP.
Metodologia
Trata-se um estudo qualitativo de caráter etnográfico, desenvolvido no âmbito de pesquisa de doutorado sobre as experiências de gestão da PrEP em Manaus/AM, no período de 2025 a 2026. A investigação combinou entrevistas com gestores estaduais e municipais, observação em espaços institucionais de gestão e serviços de saúde, além de análise documental de registros institucionais. A análise interpretativa ocorreu à luz da teoria bourdieusiana de habitus e capitais mobilizados por estes atores sociais ao estruturar a prevenção ao HIV. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), sob parecer referente ao CAEE 86675724.5.0000.5016.
Resultados e Discussão
Desde sua implementação em 2017 no Brasil, a política de PrEP vem fortemente marcada pelo capital científico de pesquisas clínicas que a antecederam, realizadas com segmentos populacionais específicos por apresentarem maior risco de exposição ao HIV, como gays, homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas trans e profissionais do sexo. Ainda hoje, há a presença de expressões como “população definida para PrEP”, “esse tipo de público”, “candidato da PrEP”, entre outras, no cotidiano de profissionais e gestores. Uma classificação involuntária (ou não) fora estabelecida como habitus nesses atores sociais. O habitus consiste em uma disposição de agir, pensar ou compreender algo com base nas suas experiências de vida, podendo ser individual ou coletivo. Neste caso, por se tratar de um grupo social, os gestores, esse habitus tem sua origem nos protocolos e diretrizes clínicas, inscritos nas práticas constantemente por meio dos processos educativos, até mesmo de novos profissionais, e tornam-se instrumentos de manutenção do poder simbólico biomédico. Como consequência há uma reprodução simbólica do habitus e do usuário legítimo da PrEP. Tais processos atravessam os níveis político-institucional e organizacional e estão presentes nos serviços, somados à discriminação e estigma do HIV dos indivíduos, manifestando, por exemplo, em afetividade profissional para gestantes sorodiscordantes e discursos moralizantes para HSH e pessoas trans como forma de punição. Entre os gestores, há uma divergência de opiniões sobre o identitarismo da PrEP. Para um dos gestores entrevistados há o preconceito relacionado aos usuários: “E aí o estigma do HIV não é só a doença. Ele tá muito ligado a umas ideias ainda muito erradas do público, né? Então, se vincula a um tipo de público. ‘ah eu não quero este público na minha UBS’”. Para outro gestor a política deveria ser generalizada: “A política amarra muito a um grupo específico que deve fazer o uso da PrEP. porque quando eu digo ‘eu faço o uso de PrEP’, parece que automaticamente, eu tô ligando ‘Eu sou gay’”. Ambos os exemplos demonstram como a PrEP é um elemento de disputa no campo da gestão, ainda mais por ser atravessada pelas questões de gênero e sexualidade. Esse identitarismo pré-concebido tanto pela política, quanto pelos executores dela, aí entram gestores e profissionais de saúde, pode favorecer a ampliação do acesso da PrEP para alguns, ao mesmo tempo que limita sujeitos e práticas sexuais dissidentes.
Conclusões/Considerações Finais
A política da PrEP, ao organizar o acesso por meio de protocolos clínicos e categorias de elegibilidade, produz classificações institucionais de sujeitos “legítimos”, que são mediadas pelos habitus e capitais simbólicos mobilizados por gestores e profissionais, reforçando a autoridade do saber biomédico e influenciando a gestão do cuidado.
Realização: