Programa - Comunicação Oral Curta - COC28.3 - Determinação Social e trabalho
18 DE SETEMBRO | SEXTA-FEIRA
08:30 - 10:00
08:30 - 10:00
A JORNADA DE TRABALHO SE ASSOCIA COM A ALIMENTAÇÃO DA CLASSE TRABALHADORA?
Comunicação Oral Curta
1 FCA UNICAMP
2 FCM UNICAMP
Apresentação/Introdução
A realidade do trabalho no sistema capitalista contemporâneo, estabeleceu uma exploração intensa da classe trabalhadora e um consumo desenfreado do seu tempo. As relações sociais também se afetam por este modo de produção capitalista e se apoiam em uma lógica de produção e consumo que alcançou, inclusive, o consumo alimentar. Estimulado e marcado pela propaganda, pela indução ao consumo de produtos que prometem a felicidade e pela praticidade no preparo dos alimentos, o capitalismo de hoje quer participar também das escolhas alimentares da classe trabalhadora.
Segundo o CAGED 2025, 48.47 milhões de brasileiros possuem vínculo de trabalho no regime celetista com jornadas semanais de 44 horas, e cerca de 12 milhões de brasileiros são funcionários públicos com jornadas de 40 horas. Entretanto, há uma massa de trabalhadores informais ou com outros tipos de vínculo, cujas jornadas podem ser inclusive, superiores. O número de horas dispendidas com o trabalho remunerado pode operar como um êmbolo para o consumo de produtos alimentícios ultraprocessados, que trarão prejuízos à saúde individual, coletiva, e ao perfil de morbimortalidade da população. Estudo publicado em 2023, indicou que 57 mil mortes em 2019 estiveram associadas ao consumo desses produtos. Além disso, dados do Ministério da Saúde do Brasil de 2024 apontaram que não houve redução nas prevalências de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) nos últimos anos e estimaram que até o final de 2025, cerca de 167 milhões de brasileiros estariam em situação de sobrepeso ou obesidade.
Dentre as principais refeições do dia está o almoço que, segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira, deve ser baseado em alimentos in natura ou minimamente processados, ser culturalmente adequado e apresentar uma diversidade de nutrientes capaz de promover a saúde. Além disso, o almoço figura como uma oportunidade de manutenção do padrão alimentar brasileiro, marcado pela presença do arroz e do feijão, acompanhado de carnes, ovos e/ou outras leguminosas, além de legumes e verduras crus e cozidos. Contudo, os lanches rápidos como hambúrgueres, salgados, pizzas e outros alimentos tipo fast food, têm se apresentado como uma opção para substituir esta refeição. Os alimentos ultraprocessados como presunto, salsicha e linguiça (embutidos) costumam estar presentes na preparação destes lanches, além de serem acompanhados por bebidas açucaradas, como os sucos artificiais.
Objetivos
Considerando o modelo atual de trabalho e seu potencial impacto na qualidade da alimentação das(os) trabalhadoras(es), o objetivo deste estudo foi estimar a prevalência do consumo de suco artificial, de embutidos e de lanches, salgados e pizzas como substitutos do almoço, segundo a jornada de trabalho a partir de um estudo de base populacional realizado em uma metrópole paulista.
Metodologia
Sobre os métodos do estudo, trata-se de um estudo transversal, de base populacional, que analisou dados do inquérito ISACamp realizado em Campinas-SP. Neste estudo, foi avaliada a população com 10 anos e mais (idade economicamente ativa segundo o IBGE), que referiu realizar atividade remunerada, com sua respectiva carga horária, e que respondeu a um questionário de frequência alimentar incluindo as questões “Em quantos dias de uma semana normal você consome: suco artificial, embutidos e/ou substitui o almoço por lanches, salgados ou pizza?”. Foram estimados as prevalências e os intervalos de confiança de 95% dos indicadores supracitados a partir do teste qui-quadrado de Pearson, bem como as razões de prevalência a partir das regressões múltiplas de Poisson ajustadas por sexo, idade, renda e tipo de formalização do trabalho.
Resultados e Discussão
Os resultados do estudo revelaram que 41,2% das(os) trabalhadoras(es) de Campinas-SP tinha escala superior a 40 horas semanais, sendo que dessas(es), 30% trabalhavam mais de 45 horas/semana. Sobre a alimentação, 9,3% das pessoas com jornada semanal igual ou superior a 40 horas referiram consumir lanches, salgados ou pizzas três vezes ou mais na semana, enquanto 44,9% consumiram suco artificial e 36,2% informaram que consumiam alimentos embutidos com essa mesma frequência. Comparadas as pessoas que tinham jornada de trabalho de até 40 horas, àquelas(es) com jornada superior apresentaram razões de prevalência de 1,58, 1,33 e 2,19 para suco artificial, embutidos e lanches, salgados e pizzas como substitutos do almoço respectivamente.
Conclusões/Considerações Finais
As associações observadas entre a jornada de trabalho igual ou superior a 40 horas e o consumo de alimentos não saudáveis, incluindo a substituição do almoço por opções de lanches rápidos, evidenciam um prejuízo para a saúde das(es) trabalhadoras(es) com uma jornada de trabalho mais extensa independente da formalização do trabalho e da renda, e alertam para a importância da redução desta jornada, inclusive com escalas de trabalho mais adequadas, como parte das ações de mitigação dos problemas de saúde e da melhoria da qualidade da alimentação dessa população.
A SAÚDE DAS MARISQUEIRAS DE TAMANDARÉ/PERNAMBUCO SOB A ÓTICA DA DETERMINAÇÃO SOCIAL
Comunicação Oral Curta
1 FCM/UPE
2 Prefeitura de Tamandaré PE
3 Colônia de Pescadores Z5 de Tamandaré PE
Contextualização
Trata-se de um relato de experiência acerca de um seminário apresentado na disciplina de Ciências Humanas e Sociais em Saúde do Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade de Pernambuco. Intitulado “A saúde das marisqueiras de Tamandaré/Pernambuco sob a ótica da determinação social”, teve o objetivo apresentar, de forma crítico-reflexiva, o contexto existencial das marisqueiras, e promover discussões com os demais participantes sobre as relações do trabalho na pesca artesanal e sua relação com a saúde.
Descrição
Foram realizadas visitas técnicas à colônia de pescadores no município de Tamandaré, para conhecer os desafios encontrados pelas marisqueiras no desenvolvimento do seu trabalho, com a finalidade de responder os seguintes questionamentos: Como obtêm seu sustento? Principais problemas vivenciados, Redes de apoio e estratégias de proteção coletiva. Com base nas respostas, foram construídos processos críticos, protetores e destrutivos à saúde dessas mulheres e analisados à luz da Determinação Social da Saúde, nas dimensões: Geral (sistema produtivo, políticas de Estado, espaço-território); Particular (processo de trabalho, interseccionalidade, modos de vida); e Singular (estilo de vida; saúde-doença), por meio da matriz de processos críticos (Breilh, 2025). Os resultados foram utilizados para elaboração do seminário, apresentado através de apresentação teatral e discussão coletiva junto à turma e professoras após apresentação . Ao final, foram distribuídos presentes artesanais e caldinhos de marisco produzidos pelas marisqueiras de Tamandaré.
Período de Realização
De setembro a outubro de 2025.
Objetivo
Analisar sobre o trabalho das marisqueiras e sua organização comunitária como estratégia de sustento; identificar os fatores que colaboram ou dificultam seu modo de viver; Elaborar uma matriz dos processos críticos da determinação social em saúde; Apresentar, a partir dessa matriz, os processos protetores e destrutivos nas dimensões: geral, particular e singular.
Resultados
O seminário foi apresentado em formato de Podcast, enfatizando as condições de trabalho, saberes tradicionais e desafios sociais. Dentre os achados mais relevantes, destaca-se: Processos Destrutivos: GERAL: Modelo de produção capitalista (neoliberalismo); Aquecimento Global; Flexibilização da lei de licenciamento ambiental 15.190/25; Privatização das praias; Sucateamento de políticas públicas; Turismo Predatório; Especulação Imobiliária; A implantação e funcionamento do Complexo Industrial Portuário de SUAPE na região; Derramamento de petróleo nas praias do Nordeste em 2019; Pandemia de COVID-19; PARTICULAR: Dependência de condições ambientais; Perda da biodiversidade; Exposição sem EPI; Inexistência de jornada de trabalho fixa; Dupla jornada de trabalho; Desenvolvimento de doenças urinárias, ginecológicas, dermatológicas, respiratórias, articulares; Dificuldade para deslocamento até o trabalho; Desigualdade de gênero e raça; Necessidade de outras atividades para complementar a renda; Poluição dos rios Mamucabas e Arikindá gerando diminuição na pesca; Empreendimentos que limitam o acesso à praia dos Carneiros; SINGULAR: Lesões por esforço repetitivo; Surdez e cegueira; Aumento de gastos com transporte até a maré (moto e barco); Irritações oculares devido a presença de óleo no mangue; Estigmatização por doenças ginecológicas ("doenças do cabaré") Processos Protetores: GERAL: Existência de políticas públicas e Leis de Proteção ambiental; Existência de órgãos e ONGs de proteção e fiscalização ambiental (SEMAS, IBAMA); biodiversidade do litoral pernambucano; Seguro Defeso/Chapéu de palha/bolsa-família; Processos regulatórios voltados para os pescadores artesanais (1º Plano Nacional da Pesca Artesanal set/2025); Política Nacional de Saúde Integral da População o Campo, das Florestas e das Águas; PARTICULAR: Trabalho coletivo (associação, colônia, movimentos sociais, Centro de mulheres do cabo, Mangue mulher); Carteira de pescadoras; Cobertura da área pela ESF; Plano de Ação do CEREST; Matriciamento com as equipes de saúde; transporte até o local de saída dos barcos; Trabalho com artesanato; Presença de turistas que movimentam o comércio local; SINGULAR: Consumo para subsistência/venda de caldinho na praia; Pesca como atitude terapêutica e fortalecimento de identidade; melhoria da renda familiar; mulheres empoderadas, autônomas, provedoras e orgulhosas.
Aprendizado e Análise Crítica
Os passos metodológicos seguidos na elaboração do seminário permitiram abordar a realidade de vida das marisqueiras, a partir da perspectiva da determinação social da saúde. A construção da matriz dos processos críticos da determinação social em saúde possibilitou o olhar estratificado pelos aspectos geral, particular e singular dos processos destrutivos e protetores que interferem na saúde e qualidade de vida dessas mulheres. O podcast foi a estratégia para dar protagonismo à voz dessa categoria, destacando impactos sociais, econômicos e ambientais e mostrando o processo saúde doença para além do biológico.
AS DESIGUALDADES DE RAÇA E GÊNERO NA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO EM SAÚDE: CONTRIBUIÇÕES AO CAMPO DA SAÚDE DO TRABALHADOR E DA TRABALHADORA.
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
Apresentação/Introdução
O trabalho em saúde no Brasil, embora essencial, frequentemente não assegura direitos básicos, deixando profissionais com remuneração insuficiente e vínculos empregatícios frágeis. A precarização do trabalho no país possui raça e gênero muito bem definidos, atingindo prioritariamente as mulheres negras. Essas desigualdades constituem problemas estruturais e institucionais que interferem diretamente na vida das trabalhadoras, uma vez que o racismo marca as relações sociais no Brasil de forma histórica e persistente. Desde o período colonial, mecanismos institucionais criaram barreiras ao acesso de pessoas negras a cargos de prestígio, estigmatizando-as através de exigências discriminatórias. Atualmente, esse legado continua a perseguir profissionais negros da saúde, que enfrentam cotidianamente situações de subjugação e a constante necessidade de provar sua competência. No setor, observa-se que as mulheres são maioria absoluta em categorias marcadas pela precarização, como as técnicas de enfermagem e auxiliares.
Objetivos
Analisar a intersecção entre raça, gênero e trabalho em saúde, problematizando seus efeitos na produção de desigualdades e contribuindo para o aprimoramento das formulações teórico-conceituais no campo da Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora.
Metodologia
O presente trabalho consiste em um ensaio fundamentado na perspectiva da interseccionalidade e no trabalho em saúde. Busca-se analisar a realidade dessas trabalhadoras que, em sua maioria, cumprem triplas jornadas envolvendo as esferas profissional, doméstica e de cuidados familiares. Além disso, o estudo foca em profissionais oriundos de periferias urbanas que assumem a condição de chefes de família. A análise parte do pressuposto de que o trabalho é um marcador fundamental para a construção da dignidade humana e que a negação desse acesso através do racismo produz consequências devastadoras para as trabalhadoras negras. Utiliza-se a revisão de literatura para compreender como a divisão sexual e racial do trabalho define os critérios de absorção ou exclusão da população negra nos postos formais e assalariados.A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados nacionais LILACS, SciELO e BDENF, acessadas pelo Portal da Biblioteca Virtual em Saúde, com recorte temporal de 2020 a 2025. Os descritores foram selecionados conforme o vocabulário dos Descritores em Ciências da Saúde. Foram utilizados os seguintes descritores: Pessoal de Saúde, Saúde Ocupacional, Condições de Trabalho, Precarização do Trabalho, Racismo Sistêmico, Grupos Raciais, Minorias Étnicas e Raciais, Desigualdade de Gênero, Determinantes Sociais da Saúde e Equidade em Saúde.
Resultados e Discussão
A precarização do trabalho na saúde é um fenômeno estrutural no qual a segmentação ocupacional reproduz hierarquias sociais, resultando na sobre-representação de mulheres negras em posições de menor prestígio, salário e proteção trabalhista. Enquanto médicos, em sua maioria homens brancos de classes mais altas, ocupam os cargos mais valorizados, as profissionais de enfermagem técnica enfrentam jornadas exaustivas e vínculos instáveis. A naturalização do trabalho mal remunerado dessas mulheres remonta a legados escravistas, período em que o cuidado era uma obrigação não reconhecida. As desigualdades de gênero manifestam-se em tratamentos diferenciados, assédio moral no ambiente de trabalho, violências e falta de reconhecimento profissional e social.
Conclusões/Considerações Finais
A análise demonstra que a precarização do trabalho em saúde no Brasil é profundamente marcada por desigualdades estruturais de raça e gênero. A equidade racial na saúde exige uma alocação justa de recursos e oportunidades para garantir que todas as pessoas alcancem seu pleno potencial. É essencial a adoção de políticas efetivas que combatam a discriminação estrutural, garantam direitos trabalhistas e promovam a valorização profissional. O reconhecimento do trabalho de cuidado como fundamental para a sociedade é indispensável para assegurar condições dignas a quem o desempenha. A construção de um sistema equitativo exige uma ruptura com as hierarquias raciais e de gênero para que o serviço de saúde seja verdadeiramente universal e inclusivo.A incorporação da perspectiva interseccional alarga o campo da Saúde do Trabalhador ao tornar visíveis formas de adoecimento que categorias analíticas centradas exclusivamente no trabalho não conseguem capturar, especialmente quando raça e gênero se combinam para intensificar a precarização vivenciada por trabalhadoras negras da saúde. Ao superar análises que tratam essas dimensões de forma isolada, a lente interseccional permite que a ST reconheça que a divisão racial e sexual do trabalho em saúde não é um fenômeno acessório, mas estruturante dos processos de desgaste e adoecimento dessas trabalhadoras. Esse movimento representa, portanto, não apenas um enriquecimento teórico, mas uma necessidade epistemológica para que o campo produza respostas mais justas e eficazes diante das desigualdades que organizam o trabalho em saúde no Brasil.
DETERMINANTES DA VIOLÊNCIA NO TRABALHO EM SAÚDE NO SUS: UM ESTUDO COM TRABALHADORES(AS) DA ATENÇÃO PRIMÁRIA E MÉDIA COMPLEXIDADE NA BAHIA
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
2 UFRB
3 UEFS
Apresentação/Introdução
A OIT aponta que a violência e o assédio moral no trabalho têm sido um fenômeno global crescente, o qual foi intensificado pela pandemia e por novas formas de gestão laboral. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), a violência tem sido um problema frequentemente descrito e relatado por estudos recentes, sendo um dos principais determinantes da organização do trabalho no SUS, particularmente em serviços que constituem as portas de entrada para o sistema, como na Atenção Primária à Saúde (APS). A violência laboral é definida como qualquer ato agressivo/violento que atente contra um indivíduo que exerce atividades laborais, afetando cotidianamente os/as trabalhadores/as e o ambiente laboral. Durante a pandemia de COVID-19, registrou-se que até 40% dos trabalhadores/as da saúde foram vítimas de violência e 30,4% sofreram discriminação.
Objetivos
Dessa forma, o objetivo deste trabalho foi analisar os possíveis determinantes da violência no trabalho em trabalhadores/as da saúde da APS e média complexidade na Bahia entre 2021 e 2022.
Metodologia
Trata-se de um estudo epidemiológico transversal analítico, com amostra probabilística de trabalhadores/as da APS e média complexidade do SUS em três municípios baianos, sendo um de pequeno, um de médio e outro de grande porte. Foi utilizado um questionário autorrelatado específico sobre vitimização direta e indireta para avaliação de agressões e violência no trabalho nos últimos 12 meses. Os dados sociodemográficos e ocupacionais foram coletados por meio de um questionário estruturado. Utilizaram-se instrumentos validados para avaliação de fatores psicossociais do trabalho, mensurando demandas psicológicas, controle sobre o trabalho, apoio social, esforços e recompensas, por meio do Job Content Questionnaire (JCQ) e da Escala de Desequilíbrio Esforço-Recompensa (ERI). A coleta de dados foi feita entre abril de 2021 e abril de 2022. Utilizou-se regressão logística múltipla para construção dos modelos preditivos para análise dos possíveis determinantes da violência no trabalho, com cálculo de razões de odds e intervalos de confiança de 95%. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Feira de Santana, pelo parecer de número 4.088.070. Foi obtido o consentimento livre e esclarecido de todos os participantes.
Resultados e Discussão
1.147 trabalhadores/as participaram do estudo. 80,8% eram mulheres, 37,6% tinham entre 35-44 anos, e 24,8% tinham nível superior completo. Com relação às características do trabalho, 23,5% ocupavam cargos de nível superior. Quanto à percepção de violência, 58,3% dos trabalhadores/as declararam que sentem a segurança pessoal ameaçada no trabalho, e 11,8% relataram ter sofrido agressões (vitimização direta) nos últimos 12 meses. 37,7% testemunharam agressões a colegas por parte dos usuários pelo menos uma vez nos últimos 12 meses, enquanto 27,5% testemunhou situações de violência no trabalho mais de uma vez nesse período. 31,4% testemunhou violência por parentes de usuários, enquanto 8,3% agressões entre chefia/colegas de trabalho. 15,5% afirmaram que pensam em mudar de trabalho pela violência. Na análise preditiva dos possíveis determinantes da violência no trabalho, considerando como desfecho principal a vitimização direta, fatores sociodemográficos somo sexo, idade, raça/cor, escolaridade, cargo e município não foram associados ao desfecho. Em relação aos fatores psicossociais do trabalho, os modelos ajustados indicaram que o trabalho de alta exigência (a partir do modelo demanda-controle) e o trabalho com alto desequilíbrio esforço-recompensa (DER) estiveram associados a uma chance 2,79 (IC95%: 1,32-5,90) e 5,26 (IC95%: 2,56-10,82) maior de ocorrência de violência, quando comparados ao trabalho de baixa exigência e às situações sem DER, respectivamente.
Conclusões/Considerações Finais
Os achados indicam que a violência no trabalho é um problema altamente prevalente, tendo alto potencial para provocar danos nos ambientes de trabalho, na saúde dos/as trabalhadores/as e na qualidade dos serviços. Os fatores psicossociais, com enfoque em elementos da organização do trabalho, foram os únicos fatores e possíveis determinantes fortemente associados à violência, em detrimento de outros fatores individuais. Esses achados revelam a necessidade de intervenções nos processos organizacionais e estruturais do trabalho em saúde, visando à redução de sobrecarga laboral e de estressores psicossociais como estratégias viáveis para mitigar a violência no trabalho e a carga de doença a ela relacionada.
MULHERES TRABALHADORAS E OS ATRAVESSAMENTOS DE GÊNERO: CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS PARA CONSTRUÇÃO DE POSSIBILIDADES AFIRMATIVAS NO AMBIENTE DE TRABALHO
Comunicação Oral Curta
1 Fiocruz e SES-MG
Apresentação/Introdução
O Sistema Único de Saúde (SUS), instituído pela Constituição Federal de 1988, configura-se como uma das principais conquistas sociais no Brasil ao assegurar o acesso universal e equânime à saúde. Entre seus princípios, destaca-se a integralidade, entendida como uma abordagem ampliada do cuidado que ultrapassa o modelo biomédico e incorpora os determinantes sociais da saúde. Nesse sentido, as desigualdades de gênero, especialmente no mundo do trabalho, constituem elementos estruturantes que influenciam as condições de vida e saúde das mulheres, demandando análise no campo das Ciências Sociais e Humanas em Saúde.
Objetivos
Refletir sobre as relações entre integralidade em saúde e os determinantes sociais que atravessam a inserção das mulheres no mundo do trabalho, com ênfase nas desigualdades de gênero, numa perspectiva interseccional, e seus impactos na saúde.
Metodologia
Trata-se de um ensaio teórico, de abordagem qualitativa, fundamentado em revisão narrativa da literatura. Foram utilizados descritores relacionados à integralidade em saúde, igualdade de gênero e mulheres no mercado de trabalho, selecionando produções relevantes para análise crítica à luz da determinação social da saúde.
Resultados e Discussão
As evidências apontam que as desigualdades de gênero no trabalho se expressam em múltiplas dimensões, como disparidade salarial, menor acesso a cargos de liderança e sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. Tais desigualdades são sustentadas por estruturas históricas e culturais, marcadas pela divisão sexual do trabalho e pela persistência de padrões patriarcais. A análise interseccional evidencia que mulheres negras enfrentam condições ainda mais precárias, com maior exposição à informalidade e ao desemprego.
Destaca-se, ainda, a chamada penalidade da maternidade, fenômeno que se refere às desvantagens enfrentadas por mulheres no mercado de trabalho em razão da maternidade, incluindo redução salarial, menor progressão na carreira e discriminação em processos seletivos. Esse processo reforça desigualdades estruturais e impacta diretamente a autonomia econômica e a saúde mental das mulheres.
Nesse contexto, o trabalho se configura como um importante determinante social da saúde, influenciando tanto as condições objetivas quanto subjetivas de vida. A integralidade, enquanto princípio do SUS, exige o reconhecimento dessas dimensões e a articulação de políticas públicas intersetoriais que integrem saúde, trabalho, educação e assistência social, visando a redução das iniquidades.
Conclusões/Considerações Finais
A efetivação da integralidade em saúde está diretamente relacionada ao enfrentamento das desigualdades de gênero no mundo do trabalho. Apesar de avanços normativos, persistem barreiras estruturais que limitam a equidade e impactam a saúde das mulheres. Torna-se fundamental fortalecer políticas públicas intersetoriais e estratégias que considerem os determinantes sociais da saúde, incluindo ações afirmativas e medidas de proteção à maternidade sem prejuízo à inserção profissional. A promoção da equidade de gênero, nesse contexto, constitui elemento central para a construção de práticas de cuidado mais justas, integrais e comprometidas com a transformação social.
OBSERVATÓRIO DE TERRITÓRIOS SAUDÁVEIS E SUSTENTÁVEIS DA BAÍA KIRIMURÊ: VIGILÂNCIA POPULAR EM SAÚDE PARA O ENFRENTAMENTO DO RACISMO AMBIENTAL
Comunicação Oral Curta
1 UFRB
2 FIOCRUZ
3 UFBA
Apresentação/Introdução
Apresentação/Introdução: O Observatório de Territórios Saudáveis e Sustentáveis da Baía Kirimurê, instalado em março em 2025, é uma iniciativa inicialmente articulada pelo Mandato Popular das Águas da vereadora Eliete Paraguassu, com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho da Universidade Federal da Bahia (PPGSAT/UFBA), o Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP) e comunidades tradicionais, dentre elas as comunidades quilombolas de Ilha de Maré. Emerge como uma estratégia político-pedagógica e territorial de enfrentamento às iniquidades socioambientais historicamente produzidas na Baía Kirimurê, mais conhecida como Baía de Todos os Santos. Trata-se de um território marcado por conflitos ambientais, racismo ambiental e impactos cumulativos de atividades industriais, portuárias e petroquímicas, que incidem de forma desigual sobre populações negras, quilombolas e pescadoras artesanais.
Objetivos
Objetivos:
O objetivo central do Observatório é estruturar um espaço tecnopolítico, mas também poético, de gestação e confluência de saberes, com a atuação das comunidades tradicionais, pesquisadores populares e da academia para o desenvolvimento de estratégias que promovam a vigilância popular em saúde, ambiente e trabalho. Capaz de produzir, sistematizar e comunicar informações críticas sobre as condições de vida, saúde, trabalho e exposição a riscos, fortalecendo a incidência política das comunidades.
Metodologia
Metodologia:
Nesse escopo, incorpora-se a proposta do Tóxico Tur, metodologia de base comunitária que evidencia, in loco, os pontos de contaminação e os impactos dos empreendimentos sobre os modos de vida, funcionando simultaneamente como dispositivo de denúncia, formação e engajamento social.
Resultados e Discussão
Resultados e discussão:
Ao longo de 2025, atividades estruturantes foram realizadas a exemplo da etapa nacional da Rede de Defensoras e Defensores dos Territórios Tradicionais, um ciclo formativo em educação sobre o Protocolo de Consulta direcionado a lideranças comunitárias; e o lançamento do Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) da Bahia, que nascem como espaço coletivo de fortalecimento das lutas territoriais, culturais e ambientais. Nesse processo, destaca-se a instalação de uma rede de articulação do Observatório com movimentos sociais de pescadoras/es, quilombolas de diversos estados brasileiros, como Bahia (Baías de Aratu e Camamu), Santa Catarina, Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, Sergipe e Paraná; com o Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina, FCT e Rede Marangatu; além de Instituições de Ensino Superior como UFBA e Fiocruz. Redes que promovem o fortalecimento e visibilidade das denúncias territoriais; e a ativação de processos formativos que articulam saberes técnicos e populares. Como aprendizados, ressalta-se a importância da construção coletiva e situada, que reconhece o território como produtor de conhecimento, e não apenas como objeto de intervenção.
Conclusões/Considerações Finais
Considerações finais:
A integração entre vigilância popular e metodologias como o Tóxico Tur demonstra a potência de estratégias que combinam ciência cidadã, educação popular e ação política. Do ponto de vista analítico-crítico, o Observatório se apresenta como uma tecnologia social contra-hegemônica que tensiona modelos tradicionais de governança e produção de conhecimento. Ao propor uma governança territorial participativa, baseada na escuta, na co-gestão e na autonomia comunitária, desafia estruturas verticalizadas e tecnocráticas. Contudo, enfrenta limites importantes, como a dependência de recursos financeiros, baixa assimilação do conhecimento produzido no território às políticas públicas e assimetria de poder nas disputas de narrativas de grandes empreendimentos. Ainda assim, sua potência reside justamente na capacidade de articular informação, comunicação e formação-ação, constituindo-se como um dispositivo estratégico na luta contra o racismo ambiental e pelo direito à saúde nos territórios da Baía Kirimurê.
SAÚDE, AMBIENTE E TRABALHO DOS PESCADORES ARTESANAIS QUILOMBOLAS DA COMUNIDADE DE GIRAL GRANDE, MARAGOGIPE/BAHIA: RELATOS DA CAMINHADA PARTILHADA ENTRE SABERES E FAZERES
Comunicação Oral Curta
1 PPGSAT/UFBA
2 FAMEB/PPGSAT/UFBA
3 UNEB
4 Institution Université Sorbonne Paris Nord (USPN) Laboratoire UTRPP.
Apresentação/Introdução
O quilombo Giral Grande, pertence a um aglomerado de comunidades de remanescentes quilombolas localizados na área rural do município de Maragogipe na Bahia, num complexo de dez comunidades quilombolas organizadas principalmente em pequenas vilas, por grau de parentesco, desenvolvendo principalmente atividades agrícola, extrativista e pesqueira, totalizando 191 famílias, intituladas: Guaruçú, Guerém, Tabatinga, Giral Grande, Baixão do Guaí, Salamina, Enseadinha, Quizanga, Porto da Pedra e Fazenda Dendê. O quilombo Giral Grande é composto por aproximadamente 155 famílias, apresentando-se como elo comum e identitário centrado na herança ancestral de resistência e pertencimento. A organização em núcleos familiares possibilita autonomia de seus membros para decidir e realizar as diversas atividades pesca artesanal e mariscagem e cultivos diversos para autoconsumo e comercialização, todas resultantes da complexa organização do trabalho. Entre os produtos cultivados encontram-se alimentos como farinha, óleo de dendê, plantas medicinais e ornamentais, licores e produção de repelentes. Há barreiras de acesso à serviços socioassistenciais e de saúde de maior complexidade. As atividades coletivas temporárias e transversais a todas as famílias, relacionadas à produção, comercialização ou festejos comunitários podem, eventualmente, envolver pessoas de todas as famílias ou de parte delas, como no caso do Digitório (Pena, et al., 2025). Esse configura-se como atividades relacionadas às ações políticas (incidência) e de solidariedades.
Objetivos
Apresentar estudos antropológicos e ergonômicos sobre as condições de trabalho e saúde e a organização do trabalho nas comunidades de pescadores e pescadoras artesanais quilombolas de Giral Grande/Maragogipe na Bahia e suas relações com a saúde do trabalhador.
Metodologia
A pesquisa em questão, conforma o Projeto Saúde, Ambiente e Trabalho dos Pescadores Artesanais Quilombolas. Esse fragmento da pesquisa trata da análise ergonômica do trabalho, especificamente do núcleo da família Calheiros. Entrevistas e observações das situações de trabalho, proporcionadas pelos relatos das lideranças comunitárias foram executadas. Quanto à análise, essa ocorreu em dois eixos de atividade laboral: agrícola e pesca artesanal, sendo estruturados sob critérios organizacionais, ergonômicos, condições gerais de trabalho e riscos para a saúde e ambiente, bem como, as dificuldades e riscos da atividade. Estudo aprovado pelo CEP/FMB-UFBA. Parecer CAAE: 58505821.
Resultados e Discussão
As comunidades desenvolvem práticas tradicionais de divisão e organização do trabalho, solidário na forma de digitório, que reduzem riscos e colaboram com a melhoria das condições de trabalho. A baixa incorporação tecnológica na produção da agricultura familiar quilombola demanda esforço, que impacta nas operações de beneficiamento, comercialização e na saúde dos(as) agricultores(as) quilombolas (CONEQ, 2021), como ocorre também em Giral Grande. Na atividade da pesca e mariscagem, há exposição à umidade, lama, radiações solares, picadas de mosquitos, riscos de cortes de pedras. Os riscos ergonômicos são evidentes pelo esforço repetitivo, postura mantida, caminhada a longa distância com peso na cabeça. Possíveis agravos à saúde são observados, como distúrbios musculoesqueléticos envolvendo membro superior, coluna lombar e cervical, joelho. Situações graves e riscos de acidentes, como de escalpelamento durante a atividade de produção de farinha, sobretudo no processo de ralagem da mandioca, foram evidenciados. Esta situação revela uma ausência de políticas na área de saúde e na área de ST, no sentido de apresentar perspectivas de melhoria dessas condições de trabalho, inclusive situações de grave e iminente risco. Embora em 2009 foi instituída a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), observa-se uma baixa efetividade na sua implementação, perpetuando o racismo institucional no SUS.
Conclusões/Considerações Finais
Observaram-se uma organização do trabalho complexa, politécnica, extremamente eficaz na produção agroecológica, de pescados e mariscos, além dos diversos produtos manufaturados com métodos artesanais tradicionais. Isso implica no uso de diversas formas aplicadas de inteligência no trabalho por todos os membros da comunidade, pela riqueza individual no uso de saberes e de conhecimentos aprendidos sobre a natureza física e biológica dos espaços territoriais da pesca e do quilombo. A organização está centrada na divisão social e sexual do trabalho e em algumas situações que envolvem divisão técnica artesanal, que asseguram a sobrevivência das pessoas e preservam modos de vida com base em séculos de resistência. O prazer e a alegria no trabalho foram observados em vários momentos, assim como expressões e narrativas de sofrimento psíquico em diversas etapas. Destacam-se estratégias de cuidado da saúde, que alinham itinerários terapêuticos com sistemas e saberes tradicionais locais.
VIOLÊNCIA CONTRA MÉDICOS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: ESTRATÉGIAS INSTITUCIONAIS E DESAFIOS NO TRABALHO EM SAÚDE
Comunicação Oral Curta
1 INSTITUTO CISNE NORTE NORDESTE - ICEPES
Contextualização
No contexto contemporâneo de intensas transformações no mundo do trabalho, a Atenção Primária à Saúde (APS) configura-se como espaço estratégico, porém tensionado por desigualdades sociais,
precarização das condições laborais e crescente exposição à violência. Em territórios marcados por vulnerabilidade socioeconômica, profissionais vivenciam situações recorrentes que impactam sua saúde
mental, segurança e a qualidade do cuidado ofertado. A violência, nesse cenário, expressa não apenas conflitos interpessoais, mas também determinações sociais e fragilidades históricas na organização e no
financiamento do sistema de saúde, articulando-se ao debate sobre trabalho, saúde e produção do cuidado.
Descrição
Trata-se de relato de experiência, de caráter descritivo-analítico, desenvolvido no âmbito de Unidades de Atenção Primária à Saúde (UAPS) em Fortaleza, Ceará, sob gestão de uma Organização Social de Saúde.
O cenário inclui unidades inseridas em territórios de alta vulnerabilidade, onde a APS atua como principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS). A experiência baseia-se na sistematização de situações de violência vivenciadas por médicos, a partir de registros institucionais, relatos de profissionais e análise de fluxos assistenciais à luz da organização do trabalho em saúde. Foram descritos e analisados dispositivos institucionais de prevenção e enfrentamento, incluindo protocolos de segurança, estratégias de acolhimento e suporte aos trabalhadores.
Período de Realização
A experiência compreende o período de maio de 2020 a abril de 2026, com ênfase nas estratégias implementadas e aprimoradas a partir de 2023, mantendo-se em contínuo processo de revisão.
Objetivo
Analisar estratégias institucionais de prevenção e enfrentamento da violência contra médicos na APS, problematizando seus determinantes e implicações para o trabalho em saúde, o cuidado e a saúde do
trabalhador.
Resultados
Verifica-se que os episódios de violência são majoritariamente perpetrados por usuários e acompanhantes, associando-se tanto a fatores imediatos — como tempo de espera e incompreensão sobre condutas
clínicas — quanto a dimensões estruturais, como dificuldades históricas de acesso oportuno e resolutivo aos serviços. Tais situações expressam sofrimento social, desinformação sobre fluxos assistenciais e o
desespero diante do adoecimento, tensionando a relação entre usuários e trabalhadores. Destacam-se conflitos relacionados à demanda por exames e prescrições não indicadas, bem como reações agressivas frente à organização do cuidado e critérios de priorização clínica. No âmbito da gestão, as estratégias de enfrentamento incluem a adoção de protocolos como o Acesso Mais Seguro, registro sistemático de ocorrências, reorganização do processo de trabalho com remanejamento de profissionais em situação de risco e oferta de suporte psicossocial por setores institucionais. Essas ações contribuem para a mitigação de danos e qualificação das respostas institucionais, embora apresentem limites importantes frente às determinações estruturais da violência.
Aprendizado e Análise Crítica
Evidencia-se que a violência na APS não pode ser compreendida de forma isolada, constituindo-se como expressão de desigualdades sociais, fragilidades no acesso e tensões na organização do cuidado. Reforça-
se a importância de estratégias institucionais articuladas e territorialmente situadas, do fortalecimento do trabalho em equipe e da qualificação da comunicação com usuários, bem como do reconhecimento do
sofrimento dos trabalhadores como dimensão central da gestão. Entretanto, as estratégias implementadas operam predominantemente no nível da contenção dos eventos, com limitações frente às suas determinações estruturais. A persistência da violência evidencia a necessidade de abordagens intersetoriais, articulando políticas de segurança pública e assistência psicossocial no enfrentamento do problema. O cenário reflete, ainda, processos contemporâneos de precarização do trabalho, com intensificação de demandas, responsabilização individual e fragilização de ações coletivas. Assim, torna-se fundamental avançar em estratégias que articulem proteção institucional, fortalecimento da rede pública e participação ativa dos trabalhadores, contribuindo para a construção de práticas mais emancipatórias no campo da saúde coletiva.
“CAROLINA MARIA DE JESUS E ROLAND BARTHES: ENTRE O QUARTO DE DESPEJO E O PLÁSTICO, CORES, FOME, TRABALHO E SABERES DO SUL GLOBAL COMO TEORIA SOCIAL VIVA”
Comunicação Oral Curta
1 UNICAMP
Apresentação/Introdução
Carolina Maria de Jesus como Doutora honoris causa pela UFRJ (2021), reconhecendo sua escrita como produção legítima de conhecimento. Mulher negra, escritora e catadora, Carolina transformou a experiência da fome, pobreza e exclusão em reflexão crítica sobre o Brasil dos anos 1950, ainda atual. Seu diário revela a precariedade da vida na favela do Canindé e o trabalho da catação como luta pela sobrevivência.
A pesquisa aproxima sua obra ao ensaio O plástico de Roland Barthes (1957), contrapondo o olhar europeu sobre a matéria moldável ao olhar de Carolina sobre o descarte como sobrevivência. Enquanto Barthes vê o plástico como símbolo da modernidade, Carolina mostra o resto como meio de vida para sujeitos racializados e marginalizados.
O estudo propõe refletir sobre a permanência da fome, da precarização laboral e da marginalização dos catadores, articulando literatura, crítica social e Saúde Coletiva, especialmente nas relações entre trabalho, sofrimento social e processo saúde-doença.
Objetivos
Analisar, a partir do diálogo entre o ensaio O plástico, de Roland Barthes, e a obra Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, como a produção de conhecimento oriunda do Sul Global, especialmente da escrita de uma mulher negra, periférica e trabalhadora da catação, oferece interpretações mais potentes sobre a realidade brasileira do trabalho, da fome e da exclusão social do que as leituras historicamente produzidas sobre nós a partir de referenciais eurocêntricos.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, bibliográfica e teórico-reflexiva, baseada na análise interpretativa de Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, e do ensaio O plástico, de Roland Barthes. Inspirada na perspectiva hermenêutico-dialética de Minayo, considera a obra literária como produção legítima de conhecimento sobre a realidade social, sanitária e laboral no Brasil.
O estudo articula leitura crítica e reflexiva às Ciências Sociais e Humanas em Saúde, abordando temas como trabalho, fome, desigualdade, reciclagem, pobreza urbana e processo saúde-doença. A análise foi conduzida por sucessivas leituras, identificando eixos centrais — trabalho, fome, descarte, corpo, cidade, sofrimento e resistência — e relacionando-os ao debate contemporâneo sobre precarização laboral e justiça social, sempre respeitando a literalidade da escrita de Carolina como expressão teórica do Sul Global.
Resultados e Discussão
O texto aproxima a obra Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, ao ensaio O plástico, de Roland Barthes, para discutir como o descarte e o consumo revelam desigualdades sociais e laborais. Enquanto Barthes vê o plástico como símbolo da modernidade, Carolina descreve a favela e sua vida marcada pela fome, pelo trabalho exaustivo e pela exclusão, transformando o lixo em sobrevivência.
Carolina narra a degradação da matéria como espelho da própria existência, mas também cria beleza e imaginação a partir da escassez. Sua escrita revela a vigilância sobre os restos de comida, a precariedade do trabalho e a violência simbólica sofrida pelos catadores. Em contraste com o fascínio europeu pelo plástico, ela mostra a fome como categoria central da vida.
O texto evidencia que o descarte não é apenas material, mas social, atingindo corpos e destinos. Carolina transforma sua escrita em teoria social viva, denunciando a fome como falência moral e política do país e reafirmando a necessidade de dar centralidade aos sujeitos marginalizados. Sua obra é apresentada como gesto ético e político, que continua a interpelar a sociedade contemporânea.
Conclusões/Considerações Finais
A pesquisa aproxima O plástico, de Roland Barthes, e Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, para discutir não apenas textos distintos, mas a disputa sobre quem pode produzir teoria sobre o mundo. Questiona-se por que a escrita de Carolina ainda precisa justificar sua legitimidade, ao contrário da tradição filosófica europeia, reafirmando o papel dos saberes do Sul Global.
Enquanto Barthes vê o plástico como objeto luxuoso, Carolina coloca a comida como matéria primeira da vida, transformando o ato de cozinhar em espetáculo e resistência. Seus sonhos funcionam como sustentação subjetiva diante da precariedade, e sua experiência como catadora revela a violência simbólica e o estigma social.
O contraste entre a celebração do plástico na Europa e o desprezo pelo corpo que recolhe o descarte explicita hierarquias sociais, raciais e laborais ainda presentes. A obra de Carolina, relida inúmeras vezes, revela novas camadas de sofrimento, crítica e teoria, constituindo-se como produção legítima e incontornável de conhecimento interdisciplinar sobre trabalho, saúde e vida nas margens
ANÁLISE DOS PROCESSOS CRÍTICOS DE SAÚDE NO POLO DE CONFECÇÕES DO AGRESTE PERNAMBUCANO À LUZ DA EPIDEMIOLOGIA CRÍTICA
Comunicação Oral Curta
1 UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO
2 PREFEITURA DO RECIFE
3 CENTRO UNIVERSITÁRIO MAURÍCIO DE NASSAU
Apresentação/Introdução
O polo de confecções do Agreste pernambucano constitui um dos principais arranjos produtivos do país, composto por dez municípios, com destaque para Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama, responsáveis por cerca de 77% do Produto Interno Bruto estadual do setor. A região reúne mais de 18 mil unidades produtivas, majoritariamente micro e pequenas empresas, com elevado índice de informalidade. Trata-se do quarto maior produtor e consumidor de jeans do mundo, respondendo por aproximadamente 15% da produção nacional e 3% do Produto Interno Bruto estadual. Apesar da relevância econômica, o modelo produtivo vigente caracteriza-se pela intensificação do trabalho, informalidade e impactos ambientais significativos. À luz da Epidemiologia Crítica e da perspectiva da Determinação Social da Saúde, torna-se fundamental compreender as relações entre trabalho, ambiente e saúde nesse contexto produtivo, evidenciando os processos sociais que influenciam o processo saúde-doença dos trabalhadores.
Objetivos
Analisar criticamente a determinação social do processo saúde-doença entre trabalhadores do setor têxtil do polo de confecções do Agreste pernambucano, utilizando como referencial teórico-metodológico a Epidemiologia Crítica.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, desenvolvida entre agosto e dezembro de 2026, no âmbito da disciplina de Ciências Sociais e Humanas do programa de mestrado profissional em saúde coletiva da Universidade de Pernambuco. Utilizou-se como estratégia metodológica a elaboração coletiva de uma matriz analítica baseada na Matriz de Processos Críticos proposta por Breilh. A construção da matriz possibilitou identificar e organizar processos destrutivos e protetores nos níveis geral, particular e singular, permitindo uma análise integrada das condições de produção, dos fatores ambientais e das repercussões sobre a saúde dos trabalhadores inseridos no setor têxtil da região estudada.
Resultados e Discussão
No domínio geral, evidenciou-se um modelo de desenvolvimento baseado na superexploração da força de trabalho, associado à fragilidade da regulação estatal e à degradação ambiental decorrente dos processos produtivos. Observou-se que a dinâmica econômica do setor favorece a expansão produtiva, porém sustenta-se em relações laborais marcadas por precarização e baixa proteção social.
No domínio particular, destacaram-se jornadas extensas e exaustivas, elevada informalidade, exposição a agentes químicos e adoção de processos produtivos com baixa eficiência ambiental, contribuindo para riscos ocupacionais e ambientais significativos.
No plano singular, identificaram-se adoecimentos físicos, especialmente doenças respiratórias, dermatológicas e LER/DORT, além de manifestações relacionadas ao sofrimento mental e à insegurança socioeconômica. Em contrapartida, também foram reconhecidos processos protetores, como a organização coletiva dos trabalhadores, redes de apoio comunitário, estratégias de autocuidado e o potencial de implementação de políticas públicas, inovação tecnológica e iniciativas de economia solidária.
A utilização da matriz analítica possibilitou compreender a saúde como fenômeno socialmente determinado, articulando dimensões econômicas, ambientais e sociais. Evidenciou-se que a análise crítica das condições de trabalho permite superar abordagens restritas ao modelo biomédico, favorecendo leituras ampliadas sobre o processo saúde-doença.
Conclusões/Considerações Finais
A análise dos processos críticos de saúde no polo de confecções do Agreste pernambucano evidenciou a existência de contradições estruturais entre a relevância econômica regional e a produção de desigualdades sociais e adoecimento. A geração de renda ocorre simultaneamente à precarização das condições de vida e trabalho, reforçando a necessidade de fortalecimento das políticas públicas de saúde do trabalhador, fiscalização das relações laborais e incentivo à adoção de modelos produtivos sustentáveis.
A abordagem da Epidemiologia Crítica, por meio da Matriz de Processos Críticos, demonstrou-se potente para integrar diferentes níveis de análise e fortalecer uma leitura crítica da realidade social e sanitária, contribuindo para a formulação de estratégias que promovam condições dignas de trabalho e proteção à saúde dos trabalhadores.
CURSO DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS DAS POPULAÇÕES VULNERABILIZADAS E A SAÚDE DO(A) TRABALHADOR (A) DA SEGURANÇA PÚBLICA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA
Comunicação Oral Curta
1 UFBA
Contextualização
As atuais crises da segurança pública provocaram a morte de quase 1 milhão de pessoas em duas décadas e o suicídio de mais de 800 profissionais que atuam no setor entre 2018 e 2023 no Brasil (Geledés, 2025; IPPES, 2024). Tais aspectos explicitam a intensificação de processos de vulnerabilidades sociais. Cotidianos de vida e trabalho são marcados por violência, criminalidade e incapacidade das instituições estatais em assegurar a proteção do direito à segurança em contexto democrático. Bem como, revelam-se condições de trabalho precárias dos agentes da segurança pública em termos de agravamento de riscos, de adoecimentos e desgastes físicos, estresse e sofrimento mental (Futino, Delduque, 2020). A proposta em tela visou acompanhar as ações de uma política pública de formação através de um curso de pós-graduação, na modalidade educação à distância, proporcionou reflexões e ações com base em concepções de vulnerabilidades, direitos humanos, saúde e trabalho.
Descrição
Trata-se de um relato de experiência com abordagem qualitativa do tipo emancipatória, com metodologia horizontal, baseada em reflexões coproduzidas com interlocutores do estudo, análises documentais e na literatura. A construção se deu a partir do planejamento e da avaliação de um curso de espacialização, caracterizado como atividade de extensão, ao nível de pós-graduação, em uma universidade pública em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. A formação se deu de forma on line, com aulas síncronas e com design de aprendizagem desenvolvido para estimular intercâmbios de saberes e de experiências, que proporcionam a construção de conhecimentos baseados em contextos nos quais os alunos, profissionais de diferentes corporações do Brasil, estão inseridos.
Período de Realização
O estudo se realizou no período de maio de 2025 a maio de 2026.
Objetivo
Relatar a experiência de implantação do curso de Especialização em Proteção de Pessoas Vulnerabilizadas, com formação continuada ao nível de pós-graduação, voltado a agentes da segurança pública, oferecido pela Universidade Federal da Bahia, em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, com destaque para concepções como vulnerabilidade, direitos humanos, saúde e trabalho que se constituiram como bases para o desenvolvimento da proposta.
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Resultados
Constata-se que a cultura corporativa da violência, truculência e do extermínio oferece riscos à saúde mental de trabalhadores (as) do setor. Seguindo Minayo (2003), o trabalho na segurança pública é caracterizado por: falta reconhecimento social e descaso com o sofrimento dos (as) trabalhadores (as) da categoria diante da precarização das condições cotidianas de atuação, por um lado, e da vitimização dos (as) policiais, por outro. O curso de especialização em proteção às pessoas vulnerabilizadas atraiu, em sua maioria, profissionais da segurança pública de diversos estados brasileiros, com destaque para Bahia (19,4%), Rio de Janeiro (9%), Minas Gerais (9%) e o Distrito Federal (8,2%). Essas inscrições representam instituições como as Polícias Militares, Polícias Civis, Corpos de Bombeiros Militares, Guardas Civis Municipais e órgãos vinculados ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. A maior parte dos inscritos se autodeclara negra (64,9%), com registros de 0,7% de pessoas quilombolas e 1,5% de pessoas com deficiência, refletimos sobre a presença significativa de trabalhadores(as) que, em diferentes graus, enfrentam situações de vulnerabilidade e adoecimentos a partir de suas funções, apontam para a necessidade de ampliar os debates pós-curso. O itinerário formativo e as abordagens pedagógica foram constantemente redesenhadas na busca de um modelo que contribuisse com ideias renovadas e bem estar em ambientes institucionais, consideramos tensões cotidianas do trabalho. O curso revelou a necessidade de cuidados prioritários com a saúde mental desses trabalhadores, tornando-se uma preocupação para o modelo pedagógico.
Aprendizado e Análise Crítica
O Governo Federal promulgou a Lei nº 14.531/23 voltada para a proteção da saúde mental e dos direitos humanos dos profissionais de segurança pública e defesa social no Brasil, em seguida consolidou-se a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS) e a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, entretanto a promoção da saúde desses trabalhadores e a prevenção do suicídio ainda é um desafio (Andreucci, 2023). Trata-se de profissionais expostos à violência na rotina de trabalho e acidentes graves, traumas psicológicos e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), além de acontecimentos que revelam o adoecer a partir de um contexto de vulnerabilidade que provoca, ainda mais, ansiedade, depressão e transtornos relacionados ao estresse. Sem contar a sobrecarga de trabalho, estigmas e falta de apoio emocional.
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